Mostrando postagens com marcador Romance. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romance. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de abril de 2022

Romance baseado no cangaço

Poeira e Pólvora – Uma História no Nordeste

 


Poeira e Pólvora – Uma História no Nordeste é uma aventura escrita no formato de roteiro audiovisual. Nessa história, somos levados para o sertão nordestino, no ano de 1914, onde conhecemos Joaquim Belarmino, um homem bonito, um tanto quanto valente, não tão esperto, mas com um bom senso de justiça. Ele sempre está junto de seu melhor amigo, Isaque Augusto, que é mais inteligente que Joaquim. Os dois são uma dupla inseparável.

Nesse cenário, eles tentam conseguir dinheiro mesmo que de forma não muito honrosa. O que se esconde é que Joaquim e Isaque têm um passado grandioso, e são famosos em todo o nordeste pelos seus feitos. Quando isso vem à tona, eles precisam usar suas habilidades para resolver um conflito contra o cangaceiro Cascavel, o bandido mais famoso e procurado do país.

A história é marcada por ação, muita comédia, aventura e romance, uma versão brasileira do clássico gênero de velho-oeste. É a história de um tempo que já não existe, cheia de personagens marcantes, conspirações, viradas de enredo, gatilhos e mistérios que expandem o universo para continuações da história.

Um roteiro audiovisual/Velho Oeste de 174 páginas.

 

Para adquirir acesse o site da  editora

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Pedro Jeremias vem ai

Romancista da PB retrata saga de um suposto cangaceiro do bando de Lampião

Por Severino Lopes (PB Agora)


Entre os séculos 19 e meados do 20, um tipo específico de banditismo se desenvolveu no sertão nordestino: o cangaço. Os cangaceiros saqueavam fazendas, povoados e cidades, impunemente e impondo sua própria lei à região em que atuavam. Um dos mais famosos cangaceiros do clamado ciclo do banditismo, foi Virgulino Ferreira, mais conhecido como Lampião. As últimas horas de Lampião, e o surgimento de um novo líder foi retratado pelo escritor paraibano Efigênio Moura na trilogia do cangaço “Pedro Jeremias”.

 


A saga começa no Sertão de Alagoas no ano de 1938. Naquele ano, o ciclo do banditismo estava em alta. Em meio a triunfos e embates, a saga de Lampião, o mais conhecido cangaceiro brasileiro, chega ao fim. Virgulino Ferreira da Silva e parte de seu bando morreram na Grota de Angicos, no sertão sergipano, depois que uma força volante descobriu onde eles estavam acampados. Naquele fatídico 28 de julho,segundo o romancista paraibano, Pedro Jeremias assistiu das margens do Rio São Francisco todo o massacre de longe, ao lado do temível Corisco, inclusive, o cortejo macabro realizado com as cabeças dos cangaceiros, que percorreram cidades e vilarejos, sendo expostas para visitação pública.

Esse é o enredo inicial de uma ficção que se apresenta em três livros e tendo Pedro Jeremias como  nome principal da trama.

Com a morte do líder, Pedro Jeremias, no comando de seu grupo resolve parar com aquela vida,  mas somente entrega suas armas a Padre Cicero  e passa a percorrer vários sertões tentando chegar no ‘Joaseiro do Cariri’. Pedro Jeremias é o personagem fictício da trilogia escrita pelo paraibano de Monteiro, Efigênio Moura, ambientado no cangaço pós Lampião.

Os livros publicados com o selo das edições Eita Gota e Leve  atingem um total de oito publicações do  escritor Efigênio Moura. A obra mistura ficção e realidade numa linguagem tipicamente da região e riqueza cultural inestimável. Pedro Jeremias teria chegado atrasado a uma reunião marcada por Lampião com os seus subchefes, José Sereno, Labareda e Corisco, e apenas ouvido os estopidos que dizimaram o bando.

Embora comece em 1938 na Fazenda Emendadas, Pão de Açúcar em Alagoas, a história ganha destaque no ano de 1935, na cidade de Bonito, na Zona da mata de Pernambuco, precisamente na Fazenda Serra Verde, quando o agricultor Paulo Rubem mata um policial, batizado pelos cangaceiros de“macaco”, e desperta os olhares de Lampião.

Paulo Rubem que ao entrar para o bando adota o nome de Pedro Jeremias, vive o auge do cangaço quando o bando de Virgulino Ferreira ainda espalhava medo e derrame de sangue nos sertões nordestinos. A população vivia aterrorizada. Os ataques de Lampião e seu bando eram sempre cruéis. Em meio ao clima seco e hostil da região, Lampião estava se preparando para mais um ataque, e .o alvo desta vez seria a cidade de Bonito (PE).

Só que a pedido de Pedro Jeremias, Lampião desiste de invadir a cidade. Mais um ataque sanguinário foi evitado. Aliás, evitar o ataque a Bonito foi a condição de Pedro Jeremias para se juntar ao bando e se arriscar nos combates com as “volantes”. Efigênio observa que a tentativa de Lampião de invadir Bonito foi fictícia, já que a região não era um terreno favorável para os cangaceiros, que só sabiam andar na caatinga.

Ambientado no ano de 38, ano da morte de Lampião, o livro percorre os sertões de Alagoas e Pernambuco e encerra-se em Alagoa de Baixo, atual Sertânia, região do Moxotó. “Pedro Jeremias” tem sangue, a coragem e as indumentárias de cangaceiro. Em sua trajetória, se tornou um dos cangaceiros mais fiéis a Virgulino Ferreira. O livro é uma cachoeira de datas, de momentos que marcaram a saga do cangaço na região no século passado. Fatos históricos enriquecem o enredo, como a criação do primeiro campo de concentração do mundo, em Fortaleza em 1915; a Quebra de Xangó em Maceió em 1912 entre outros eventos.

Para elaborar a história dá vida a seus personagens, o escritor realizou uma pesquisa de seis  anos sobre traços históricos e linguísticos da época. “A geografia e a oralidade do livro são de 1938.

O encontro entre Pedro e Lampião resulta no “cangaço refúgio”, no qual a pessoa entrava para o bando para não ser perseguida pelas autoridades. Um dos destaques da obra, é o romance inevitável entre Pedro Jeremias e Maria de Jesus. O romance se torna ainda mais complicado devido à perseguição iniciada por um parente do policial que o protagonista matou.

“Mesmo já tendo mulheres no bando, ele não quer levar Maria para salvaguardar a vida dela. Quando ele manda buscar ela, arruma uma maneira para trazer ela para junto dele e aí também é outra peleja que tem dentro do livro”, pontuou.

No primeiro livro, o Efigênio narra a formação do bando de Pedro Jeremias, a fuga das “volantes” com destaque para perseguição do capitão Miguel Eugênio, que também é um personagem fictício.


 


“O que temos de verdade nessa história, são os combates que aconteceram com Lampião e eu coloco os meus personagens naqueles combates. É verdade também a geografia e a oralidade da época” destacou.

A história de Pedro Jeremias ganhou vida e inspirou um curta-metragem, gravado em Cabaceiras, no Cariri da Paraíba. O filme dirigido pelos cineastas paulistas Antônio Fargoni e Tiago Neves, e .protagonizado pelo jornalista Hipólito Lucena, foi realizado em forma de literatura de cordel.

2º Livro – “Pedro Jeremias dentro dos Cariris Velhos”. A Saga continua. O segundo livro da trilogia, editado pela editora de Campina Grande, Leve Editora, foi ambientado em Monteiro de 38 e cercanias, terra natal do autor. Começa com o cerco da política na casa de Isabel Torquato na tentativa de prender Maria de Jesus. O bando inicialmente formado por 4 cangaceiros, foi refeito nesse novo livro, devido ao aumento do cerco policial.

Na fuga das volantes especialmente, a peleja com o capitão Miguel Eugênio, Pedro Jeremias percorre o Cariri, atravessa o Sertão da Paraíba. Entre a ficção e os romances históricos, parte da peleja acontece em, São Sebastião de Umbuzeiro, Prata, Ouro Velho, Amparo, Camalaú e São Thomé que hoje é Sumé. No segundo livro, lançado em 2019, o autor procurou explorar a religiosidade e as crendices da região como as histórias do “corpo fechado” entre outros elementos culturais do povo nordestino. Um dos destaques da obra, é crescimento da Polícia Militar da Paraíba entre os anos de 38 e 39 e as estratégias do coronel José Vasconcelos para sufocar o cangaço.

Traz citações a Guerra de Doze entre Augusto Santa Cruz e o governo da Paraíba, a fuga pelo Cariri paraibano e volantes no seu encalço não impedem de Pedro Jeremias de ter uma folga para ‘fechar o corpo’. É outra situação do livro: o misticismo, a religiosidade, as crenças, a fé inabalável e  os encantos. No segundo livro a força da mulher nordestina é explicitada através de personagens que viveram a rigidez do cangaço sem demonstrar inferioridade ou inteira submissão.
O segundo livro foi lançado em 2019, pela Editora Leve.

A história encerra com a perseguição das volantes em torno do bando e mais uma escapatória do cangaceiro.

3ª Livro – “Pedro Jeremias nos Cariris Novos”. A saga de Jeremias terá o fim no terceiro livro da trilogia que terá um caráter mais político. Efigênio aproveitou o enredo para mostrar como os coronéis usavam os cangaceiros em favor próprio, beneficiando-se da lei do bacamarte e do fuzil. O livro será lançado no primeiro semestre de 2020.

A história se passa entre Misericórdia, hoje Itaporanga, e Piancó, no Sertão da Paraíba. Naquela região, aconteceu o célebre ataque ao bando de Lampião. Nessa fase, a presença da Polícia Militar é mais forte, dentro dos combates com os cangaceiros, trazendo os resquícios de 1930 na Guerra de Princesa.

Nos embates de Pedro Jeremias com a polícia, o autor transporta o personagem principal para as terras do Ceará. Nesse novo solo, ele relata a vida dos beatos e romeiros e o sentimento de Juazeiro e dos Romeiros, pós morte de padre Cícero.

A ideia de Efigênio é contar no 3ª livro, o sentimento dos nordestinos pós Lampião que culminou com o fim do cangaço em 1940 com Corisco. O último livro fala de ambientes históricos como as guerras de Canudos e do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, relata o luto do dia da morte de padre Cicero, traz respingos da Guerra de 30 em Princesa Isabel, mostra como a política se utilizava do cangaço e a força da policia Militar da Paraíba no combate ao banditismo. Editado pelo Leve, o livro contará com quase 400 páginas.

O fim de Pedro Jeremias -que já escapou de duas emboscada, só se vai saber ao adquirir o livro.
O terceiro livro tem lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano. Todas as capas da trilogia foram feitas pelo jornalista e cartunista Júlio Cesar Gomes.

Natural do Cariri paraibano, Efigênio Moura tem a verve do povo nordestino e se aproveita de sua terra para extrair a riqueza do lugar e dá vida a seus personagens. Em sua obra ele busca valorizar o regional e as coisas do Cariri paraibano, numa linguagem típica da região.

O escritor romancista é autor de oito livros, lançados a partir de 2009, e que têm como cenário a Paraíba, sendo esses “Eita Gota! Uma viagem paraibana”, “Ciço de Luzia”, “Santana do Congo”, “Caderneta de Fiado” que está esgotado, “Apurado de Contos” e Pedro Jeremias ( trilogia). O livro Ciço de Luzia teve tradução para o inglês publicado em 2019..


Peça o seu agora, através do nosso sebista oficial, o professor Francisco Pereira Lima! Via e-mail franpelima@bol.com.br ou WhatsApp (83) 99911-8286.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Romance

Lobisomens e cangaceiros desfilam no livro “Homo Cactus”

O escritor chavalense, radicado em Parnaíba, Marcello Silva, lançará no segundo semestre deste ano, seu mais novo trabalho literário. A obra em questão se trata do livro de contos denominado “Homo Cactus” que será publicado pela editora paulista “Editorial Hope”.



O livro trás estórias e lenda da vida interiorana. São 15 contos que se comunica com o tempo e o espaço rural. “Cresci ouvindo boa parte dessas estórias. Costumava ficar observando as conversas dos meus avós e anciões da comunidade onde eu morava. Prometi que um dia eu colocaria no papel” afirmou o autor.

Há mistérios e suspenses em quase todos os contos como, por exemplo, em "Cangaceiro Sem Face" onde numa vila um sujeito estranho e misterioso aparece em uma noite a procura dos bisnetos do rei do cangaço; "O Lobisomem de Santa Cecília" narra a estória de fatos estranhos ocorridos na Fazenda Santa Cecília depois do aparecimento do silencioso Manoel Redondo. O amor ganha faces nos contos "O Pecado de Maria" quando a narradora vai fazer um trabalho de campo da faculdade conhece dona Celeste e seus segredos; "Buk e as galinhas" relata a vida rotineira de dois eternos amantes. Angústia e fé nos contos "Canto do Urutau I e II" quando uma mãe ganha voz e evidencia sua dor e drama ao esperar a volta de um filho que saíra de casa há quase três décadas; "Menino Vaqueiro" baseia-se em fatos, onde narra a angustia e a fé de uma família ao procurar pelo filho pequeno que se perdera no sertão. Enfim, os demais contos seguem essa temática e estilo.

Para o escritor e jornalista Pádua Marques “É bonito e gratificante ler uma obra igual a esta. E a gente acaba viajando entre os contos, seus títulos, frases e as letras, por entre as veredas que ninguém nunca imagina onde vão chegar...”

Para o escritor e professor Carvalho Filho: “nas narrativas de Marcello Silva um universo de homens duros e práticos, embora suscetíveis à fantasia, vivendo em um mundo a um só tempo lógico e assombrado.”. Mais adiante continua o professor Carvalho “Suspense e misticismo são alguns dos elementos encontrados nos contos deste volume. Quanto ao espaço, a zona rural se destaca como cenário privilegiado.”

Por fim, ponderou a escritora Luana Silva: “Esse abraço nostálgico que Homo Cactus nos traz é espinhoso, porém necessário. Essa resiliência que inspira, é o símbolo do sertão!”

O livro “Homo Cactus” estará disponível em breve no site do Grupo Editorial Hope (https://www.editorahope.com/ ) e será lançado no segundo semestre em Parnaíba/PI e Chaval/CE. Mais informações no blog do autor: www.marcellossilva.com.br

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Novidades na praça

O romance “A Volta do Rei do Cangaço,” de Junior Almeida, mantém vivo o mito de Lampião

Iniciado em 2011 o romance "A Volta do Rei do Cangaço" ficou pronto em março deste ano. Mesmo antes do livro impresso, a obra foi inscrita no I concurso Pernambucano de Literatura em 2012, onde recebeu menção honrosa.

O livro



Neste livro de sabor regional o mais famoso cangaceiro nordestino não foi morto pela polícia em Sergipe, em 1938. Alguém foi assassinado em seu lugar, mas prevaleceu a versão das “volantes” e do governo.

Lampião, na verdade, foi atingido por uma espécie de maldição e ainda está vivo, sem nem ao menos envelhecer. Já morou em vários lugares do Nordeste e usou diversos nomes. Atualmente usa o nome de Luiz Ribeiro, é coronel da Polícia Militar de Pernambuco e mora num recanto escondido no município de Capoeiras, no Agreste do Estado.

O romance faz uma viagem ao passado, relembrando os tempos do cangaço e da violência, tanto por parte dos bandoleiros como da polícia. No presente, Virgulino Ferreira, com outro nome interage com militares de alta patente e até com o governador do Estado.

Um historiador, obcecado pela vida misteriosa dos cangaceiros, desconfia que Lampião não morreu em Angicos e começa a fazer investigações por conta própria, enfrentando a descrença de muitos e os perigos dessa busca pela verdade.

“A Volta do Rei do Cangaço” retrata o interior das pequenas cidades do Nordeste, mostra as ligações de Lampião com o padre Cícero Romão e nos apresenta o cangaceiro como uma espécie de justiceiro, capaz ainda hoje de recorrer a violência quando é preciso enfrentar uma desfeita ou punir algum bandido.

Nº de Páginas: 313. Adquira esta obra diretamente com seu autor pelo email euclidesalmeidaa@hotmail.com. Valor R$ 35 (com frete incluso).

domingo, 13 de maio de 2012

Memórias de um tempo brabo

O cangaço na literatura de Francisco J. C. Dantas

Por Antônio Fernando de Araújo Sá

Resumo: dialogando com a tradição literária do Nordeste brasileiro, a obra do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas possibilita um rico diálogo entre literatura, memória e história em que a temática da identidade regional associada ao cangaço emerge, de forma diferenciada, mas sempre recorrente, nos livros Os Desvalidos (1993) e Cabo Josino Viloso (2005). 


Francisco J. C. Dantas
Nascido em Riachão do Dantas (SE), em 1941, Francisco J. C. Dantas tem produzido uma obra literária baseada na sua vivência no interior nordestino, particularmente de Sergipe e Bahia, em que sobressai a preocupação estilística de estabelecer um vocabulário particular destes sertões, pautado na oralidade. A invenção da identidade sertaneja dos Estados de Sergipe e Bahia aparece nas narrativas literárias em sólidas bases históricas e linguísticas do falar de sergipanos e baianos. Os testemunhos das personagens são verossímeis, edificando vestígios das memórias do tempo do “cangaço” e sua herança no imaginário social do sertão nordestino, principalmente dos ecos da literatura de cordel.
“... outra vez Lampião se fizera encantado”.(Francisco J. C. Dantas)

Inserida numa proposta de releitura da literatura brasileira contemporânea, especialmente da prosa romanesca de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, a obra do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas possibilita um rico diálogo entre literatura, memória e história em que o mundo do sertão é construído a partir da visão do homem simples e desvalido e indissociavelmente ligado ao cangaço. Esta opção narrativa enuncia uma tensão entre literatura e sociedade, na qual o escritor, diferenciando-se da tradição regionalista nordestina, estrutura uma requintada carpintaria literária, em que sobressai a preocupação estilística de estabelecer um vocabulário particular dos rincões de Sergipe e Bahia.

Pautando-se na oralidade, sua obra literária denuncia a falta de acesso à cidadania dos marginalizados da seca por meio de seus conflitos existenciais, em que múltiplas vozes se fazem presentes. Ao mesmo tempo, sua escrita possui sólidas bases históricas, como podemos perceber nos testemunhos das personagens que edificaram vestígios de memórias do “tempo do cangaço” e sua herança no imaginário social do sertão nordestino, especialmente, nos livros Os Desvalidos (1993) e Cabo Josino Viloso (2005).

Como a matéria prima dos livros Os Desvalidos e Cabo Josino Viloso trata da memória, partimos do princípio de que tal ideia se vincula ao próprio conceito de cultura, no qual assentam os quadros de sentido e de referência que funcionam como princípios geradores, esquemas de percepção, de apreciação e de ação (CARDIM, 1998).



 Pescada in Portal Infonet

Ao mesmo tempo, a memória é uma prática de intermediação entre as estruturas sociais, individuais e coletivas da identidade e os desafios da alteridade, ela se produz também pela mediação de uma cultura, materializando-se em livros, filmes, imagens etc. É neste sentido que tomamos estes objetos culturais como operadores da memória social, revelando mais como uma conjunção, um entrecruzamento do que a suposta oposição entre “memória coletiva” e “história” (DAVALLON, 1999).

Aliás, Wagner de Souza sugere que a verdadeira mimese deve ser procurada nas obras não preocupadas em refletir a história, como em Os Desvalidos, na qual a criação literária vem ao encontro do texto histórico. Segundo ele, “o romance de Dantas, mesmo não fazendo parte da mesma ordem de discurso que o do historiador, apresenta o contexto social e cultural, traz para a narrativa os personagens históricos, no entanto, ficcionalizando-os, sem utilizar o distanciamento da terceira pessoa”. Deste modo, o “que torna seu texto diferente do construído para figurar na estante da história é o posicionamento narrativo escolhido, concedendo voz aos cangaceiros e aos desvalidos para que se saiba a história também pelo viés deles” (SOUZA, 2007, p. 115 e 116).

Como o “literário” é construído historicamente, consideramos as obras literárias como reescrituras, mesmo que inconscientes, em que “o significado não é apenas alguma coisa ‘expressa’ ou ‘refletida’ na linguagem – é na realidade produzido por ela” (EAGLETON, 2006, p. 66). Em A Lição Rosiana, o próprio Dantas (2002, p. 391) sugere que, a literatura não se esgota na retórica [...] que tem de se abastecer nas raízes do contexto de formação do próprio escritor. Que só podemos escrever exuberantemente quando nos abandonamos e abrimos os ouvidos às forças inconscientes que nos rodeiam e alimentaram a nossa formação.

Para ele, a força e a permanência de uma obra literária advêm “do mergulho profundo no chão onde nasceram” (DANTAS, 2002, p. 391). Deste modo, o elemento articulador entre memória e cultura é a categoria sertão, que estrutura a narrativa literária de Francisco J. C. Dantas, em seu diálogo com a tradição literária presente no livro seminal Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que, segundo ele, traçou “o caminho da literatura ambientada no campo e nas pequenas cidades” como “legítimo fundador da nossa contemporaneidade” (DANTAS, 2002, p. 392).

Desta reescritura da tradição literária do sertão, irrompem nas narrativas de Francisco J. C. Dantas personagens marcados pela miséria, não-cidadãos, mas que revelam, dialeticamente, alegrias, afetos, honra, amor e outros sentimentos, fazendo alta literatura sobre desvalidos, roceiros, mulheres, metamorfoseando a matéria do sertão em pura transcendência, tal como fez Guimarães Rosa.

Um primeiro aspecto da literatura do escritor sergipano que dialoga com a tradição intelectual que remonta a Euclides da Cunha é a transitoriedade do sertão, daquela “possibilidade de que os seres e coisas sertanejos possam transformar-se, subitamente, em seus próprios opostos” (AMADO, 1995, p. 65). Tanto a personagem Maria Melona, de Os Desvalidos, quanto Josino Viloso, de Cabo Josino Viloso, são exemplares desta transfiguração de seres em seus opostos. 

A primeira personagem era uma “criatura de corpo solto e bem apanhado”, “desempenada e peituda”, mas era “mulher afinada e zeladora” e “engolfada em parecer feminina”. Depois da ruptura do casamento com Filipe, ocasionada pela fofoca de Coriolano, transfigura-se em um cangaceiro de punhal, calça e fuzil, “bem mudada em homem macho” (DANTAS, 1993, p. 56, 68 e 105). Logo depois, em atitude heróica, Maria Melona salva a vida de Filipe, em “correria desapoderada” na garupa do seu cavalo, sob a fuzilaria de Azulão.

Já a segunda personagem, Josino Viloso, à sua maneira, fizera uma revolução no lugar, onde o cacete comia e sopapos, rasteiras e cabeçadas eram constantes no cotidiano do Alvide. Por meio de inúmeras táticas – hipnose, compadrio –, o delegado tornara-se uma “evangelizador” da paz. Caracterizado como ausente do sentido de vilão, ou de vileza, mas também “não se destacava pelo talhe brioso, não tinha o porte olímpico, o desempeno espartano, nem galhardia cortês de um cavalheiro” (DANTAS, 2005, p. 77), a personagem fugia da violência a todo custo. Ainda que apareça como antiherói, que de delegado passa a comparsa de assassino profissional, Valenciano, só para não contrariar o compadre, o autor revela o cenário de violência marcante na sociedade nordestina da época, no qual o trabuco dominava as relações interpessoais.

De certo modo, a personagem da narrativa de Francisco J. C. Dantas, Cabo Josino Viloso, no exercício do seu mandato como delegado de polícia, questiona a ideia de um sertão parado no tempo, que remete à descrição euclidiana de que os sertanejos estão abandonados faz três séculos e cujos costumes remetem às sociedades passadas (ALVES, 1997).

Ainda em debate com aquela tradição intelectual, a representação literária do sertão de Dantas aparece como um lugar autêntico e, ao mesmo tempo, indômito. Na prosa romanesca de Os Desvalidos, o desvalido Aribé aparece com sua rala capoeira e alojado no saco de serrote, não passando [...] de um sovaco de chão carrasquento, forrado a lascas de pedra e afivelado de espinhos, muito agressivo com todo suplicante que, corrido dos cachorros, fure o cerco impenetrável, ziguezagueando entre agudas baionetas, e descambe até aqui pra se acoitar (DANTAS, 1993, p. 146). Em outra passagem, o autor justifica a fama de lugar desvalido do Aribé, pois do “sertão, tem o sol e a míngua, mas não a seiva: do brejo, a mesma areia e o saibro rugoso, mas não a chuva. Natureza madrasta!” (DANTAS, 1993, p. 162).

Em Cabo Josino Viloso, a representação do sertão isolado e indômito aparece associada à descrição da cidade de Alvide, no sertão baiano. Inserida num tabuleiro, “em um lençol de areias, destampado de estuporada claridade”, a cidade se resumia a “uma pracinha com seu chão de areia e duas fileiras de casas mal-ajambradas”. No centro da Praça, somente existe um “mastro comido pelo cupim, um madeiro ladeado pelas duas únicas árvores desse pedacinho de tabuleiro enquadrado pelas casas de portas encostadas” (DANTAS, 2005, p. 26, 28, 27).

A ideia de ausência de poder público associada à representação do sertão na literatura também se faz presente nos dois livros analisados. Essa menção pode ser registrada na personagem de Coriolano,
desvalido pelo poder do trabuco, por conta do domínio de Lampião: “O que tinha de gente e terra,
perdera na força do trabuco. Está esvaziado ... e as vozes mortas o arrastam a seu castigo” (DANTAS,
1993, p. 20). Na novela Cabo Josino Viloso, a descrição da delegacia e a condição de delegado sem
provisão são reveladoras da ausência do poder público na região da Bahia:
[...] Como é que um militar da Corporação Policial Baiana tem condições de se estabelecer num vilarejo sem pensão para a bóia e o pernoite, sem um alojamento de tijolo cozido e platibanda para fundamentar a sua Delegacia? (DANTAS, 2005, p. 24).
Próximo da representação clássica do sertão, há menções ao fanatismo religioso, em que a cidade de Alvide é habitada por “terríveis descendentes daqueles brutos que morreram em Canudos, ao lado de Conselheiro” (DANTAS, 2005, p. 27). Paralelamente, Josino Viloso se remete ao fenômeno de Canudos como sinônimo de luta, resistência, coragem e violência, quando lembra sua origem familiar que reporta a: 
[...] uma família dragona e medonha. Me reporto a um tal Chiquitintão, homem de fé do finado Conselheiro.

Na guerra santa, este tal aguentou o tranco à custa de farofa feita de sangue talhado. Comia orelha torrada
de soldado inimigo. Adonde eu digo que compartilho com ele, que não desapartava de uma laçada de forca. Me venho dessa raça pagã que tem o sangue gelado, um povo sem perdão, refeito na impiedade (DANTAS, 2005, p. 78).

Em Os Desvalidos, é registrada também a passagem do séquito de Antônio Conselheiro pelo Aribé, quando de “pescoço entupido de bentinho e patuá”, este povo “beato e romeiro” rumaram para o Ceará, provavelmente os sobreviventes da guerra fratricida (DANTAS, 1993, p. 174).

Assim, as referências históricas e culturais dos dois livros aqui analisados remetem à imagem clássica do sertão como sinônimo dos fenômenos de “fanatismo religioso” e “banditismo”, ambos produzidos pela ausência do poder público que caracteriza a sua história. Aqui emerge o Nordeste da fome, da miséria, do fanatismo, do cangaço, temas que vão marcar toda a produção cultural brasileira contemporânea sobre a região, tanto do ponto de vista sociológico, quanto artístico. É a descoberta do “outro” Nordeste. Contudo, o diferencial da literatura de Dantas é que este “outro” é moldado por uma carpintaria reveladora da sociedade, desprezando a ideologia romanesca presente na geração de 1930, que só percebia a exploração humana nas relações de classe entre patrão e empregado.

Na prosa romanesca brasileira a temática do cangaço serviu de inspiração literária como são os casos do pioneiro livro O Cabeleira, de Franklin Távora, passando por Coiteiros de José América de Almeida, Os Cangaceiros e Pedra Bonita, de José Lins do Rego, Seara Vermelha, de Jorge Amado até chegar ao magistral livro de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Maria Isaura Pereira de Queiroz já havia alertado que a utilização do cangaceiro como tema artístico desempenhou uma função semelhante ao índio para o romantismo na literatura brasileira, na medida em que, a partir da última grande guerra, aquele personagem passou a se constituir em símbolo da nacionalidade.

Para ela, o cangaceiro possibilitava o debate sobre as transformações de uma socidade tradicional em sociedade de classes, ao mesmo tempo em que fornecia uma compensação psicológica aos oprimidos diante das camadas superiores opressoras (QUEIROZ, 1975, p. 514). Neste sentido, o mito do cangaço servia para salientar características que lhe sejam úteis para reforçar a solidariedade interna das coletividades e para distinguir uma das outras as sociedades globais e, internamente, os grupos que as compõem. Os símbolos são, antes de mais nada, brumosos e ambíguos. São estas condições, porém, que lhe permitem captar e expressar os rumos essenciais e profundos do sentir coletivo (QUEIROZ, 1991, p. 68).

Aqui encontramos como elemento fundamental das narrativas históricas e literárias a ambiguidade do cangaço num movimento pendular entre fato histórico e projeções coletivas, favorecendo a leitura mitológica do fenômeno social e construindo certa memória coletiva sobre o Nordeste brasileiro.

Por exemplo, a diabolização e a idealização de Lampião moldaram essa memória, fornecendo um instigante campo de pesquisa, ainda inexplorado, da compreensão do funcionamento dos imaginários sociais e seus mecanismos de apropriação de acontecimentos históricos. Aqui o cangaceiro pode ser representado como um símbolo contraditório associado a múltiplas representações que vão do bandido sanguinário ao bandido social, do justiceiro ao mau-caráter sem escrúpulos, tornando-se, portanto, aberto a várias ressonâncias (SILVA, 1996).

Dialogando com esta tradição literária, Francisco Dantas, em Os Desvalidos (1993), narrou “os tempos do cangaço” em Sergipe, a partir do olhar de Coriolano. O desamparo da personagem sem proteção de coronel demonstra que naquele “tempo brabo”, “pobre não vive sem patrão”. A falta de opção do sertanejo é explicitada na afirmação: “ou se apanha de Lampião ou dos mata-cachorros”, isto é, quando não eram os cangaceiros, era a volante a humilhar o pobre sem patrão (DANTAS, 1993, p. 126, 135).
Como apontou Frederico P. de Mello, na pobreza feita de espinho e pedra do sertão, os jovens que não fossem filho de fazendeiro ou ligado a elite econômica local “restava apenas a alternativa de ser policial ou bandido, uma e outra coisa, aliás, parecendo-se bastante num meio em que a luta diária orientava-se pela sobrevivência” (MELLO, 2004, p. 26).

Assim, a construção do romance mostra outra faceta da memória escrita e da poesia cantada pelo povo, que é a memória daqueles que não se tornaram volantes ou cangaceiros. A relação entre Coriolano e Lampião apresenta-se como ponto nodal para demarcar o espaço e o tempo da narrativa, oferecendo diferentes vozes para o relato ambíguo do mito de Lampião.

Não podemos esquecer que a literatura de cordel colaborou, decisivamente, na construção deste mito, seja produzindo uma “apologia do cangaço”, seja efetuando uma “diabolização” do cangaceiro (SILVA, 1996). Inclusive, ecos da influência da literatura de cordel na construção narrativa do romance podem ser percebidos em referências aos versos de Gomes de Barros tirados por Filipe e lembrados por Coriolano. Ou ainda quando este personagem sonha em ser cordelista, mas “fecha a livralhada, que é muito difícil conciliar leitura com algum trabalho duro que se converte em dinheiro, e se volta a montar um fabrico de bombom de mel de abelha” (DANTAS, 1993, p. 26 e 29). Entretanto, a prosa romanesca de Dantas constrói uma moldura complexa do mito de Lampião.

De um lado, o cangaceiro aparece como sinônimo da violência gratuita do prazer em matar, em que emerge a associação à animalidade, como é o caso da afirmação de que “Lampião é um bicho sem medidas”, “se encrespa todo como uma cobra para o bote”. Ou ainda o “besta-fera é envultado, tem o corpo fechado pelo poder da reza do santo de Juazeiro” (DANTAS, 1993, p. 202 e 132). Nestes trechos da narrativa o cangaço é destituído de qualquer conteúdo social, é produto de ‘um instinto’ quase animalesco (...). Escondem-se os motivos sociais do cangaço, procurando minar a solidariedade popular e denunciar o apoio dos coronéis tradicionais a tal prática (ALBUQUERQUE, 1999, p. 127).

Paradoxalmente, na narrativa também é realçada uma descrição crítica do funcionamento do coronelismo à época de Lampião, mostrando o comprometimento dos poderosos coronéis com a vida criminal dos seus jagunços: Quanto mais graúdo e mais gabado é o nome de um coronel, mais ficam encobertas as armadilhas e patifarias que os jagunços cometem com sua permissão, de tal forma que, botando assim outros culpados pela frente, o manhoso se resguarda dos crimes que financia, e vai vivendo sem que lhe cobrem um só pingo das vilezas semeadas, cada vez mais honradão das larguezas e canduras, engordando a própria fama a desacatos de tamanha impunidade! (DANTAS, 1993, p. 150-1).

Neste sentido, encontramos um olhar mais humano de Lampião, em que a cultura sertaneja abonava o cangaço, como pode ser visto na passagem que o romancista afirma que ele “é um estranho rei corrido e engendrado pela penúria de seu próprio povo” (DANTAS, 1993, p. 15). Lampião aqui aparece como produto do meio, como herói vingador construído pela literatura de cordel e pela memória popular, em que aparece como uma forma rudimentar de agitação social. Na própria fala de Coriolano percebe-se alguma feição de gente quando comenta que “Virgulino metia medo também a esses ricaços malvados” (DANTAS, 1993, p. 80).

Registre-se ainda neste processo de humanização dos cangaceiros a entrada das mulheres nos bandos de cangaceiros, modificando alguns comportamentos. Para Coriolano, foi o encontro com Maria Bonita que o fez amolecer o coração. “Na roda da saia dela, Virgulino bem sabe que virou outro” (DANTAS, 1993, p. 186).

Mas talvez o que mais chame atenção na caracterização de Lampião, nos dois livros analisados, seja a menção à crença no seu “corpo fechado”, constituindo-se no quadro de crendices e superstições comuns ao catolicismo rústico. Inclusive, Coriolano, com receio de ser boato, não explodiu em alegria pelo medo que sentia de Virgulino:

A notícia chegou indagorinha trazida de Boquim, onde o trenzinho, de ordinário a chocalhar atrasado,
cochilando o ano inteiro pelos trilhos, rompeu hoje estabanado na frente do horário, resfolegando fuligem,
estalido e fumaçada, pra espantar mais cedo a morte daquele que ainda trasantontem era gabado por ter o
corpo fechado (DANTAS, 1993, p. 12). 

Em Cabo Josino Viloso, a dimensão desta crença popular na existência do “corpo fechado” de Lampião, por conta de suas rezas fortes presentes no seu embornal, é mencionada pela coragem do personagem em enfrentar à população de Alvide: “[...] Ou é doido varrido... ou anda munido de oração forte contra faca, chumbo e pancada” (DANTAS, 2005, p. 48).

Esta crença do “corpo fechado” de Lampião foi encontrada nas recentes viagens pelo sertão nordestino por parte de Camelo Filho, identificando na literatura de cordel versos que aludem à ideia de corpo fechado, que é uma marca registrada do imaginário do sertanejo. De um modo geral, Padre Cícero e Nossa Senhora das Dores aparecem na maioria das orações rezadas pelos cangaceiros, aparecendo como “protetores divinos” do grupo (CAMELO FILHO, 2001, p. 130 e 135).

No mesmo sentido, Max Silva D’Oliveira reiterou a devoção de Lampião a santos da Igreja Católica, mas também a Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte/CE. Com base nas afirmações de Piragibe de Lucena, o autor também comenta que Lampião sempre trazia consigo orações de corpo-fechado, bem como orações de São Gabriel, São Paulo, São Pedro, São Jorge, Santa Luzia, São Thiago e a Virgem Maria. Além das orações, D’Oliveira também afirma que assumiu como obrigação dar “esmolas para os necessitados, o respeito aos padres e aos velhos, demonstrando através do pedido de benção por parte do cangaceiro” (D’OLIVEIRA, 1999).

A personagem Josino Viloso também compartilhava, como os cangaceiros, da fé em São Gabriel, que era invocado sempre que a ocasião beirava ao perigo: [...] “beija o escapulário e outros amuletos pendurados no pescoço, balbucia jaculatórias, pedaços de salmo, ladainhas, chama por São Gabrié. Tange as mãos aos esconjuros” (DANTAS, 2005, p. 30).

A menção indireta à figura de Lampião na narrativa novelesca de Cabo Josino Viloso demonstra que o banditismo e pela violência endêmica das lutas entre famílias e clãs caracterizavam o sertão baiano à época e que o estado de guerra permanente fazia com que a manutenção da ordem fosse baseada no exercício da força. A ausência de agências de representação do poder público tornava a cidade de Alvide, lugar marcado pela violência, onde somente “acolhe cria de cobras, de lacraias e de onças. Não há lugar para um cristão” (DANTAS, 2005, p. 35).

Em sua menção à Lampião, o escritor expõe a presença do medo que o bandoleiro impunha nos sertões baianos daquele momento, quando afirma que daquele “armamento tão monstro nem Lampião escapava!”. “Se topa comigo... tava lascado” (DANTAS, 2005, p. 82).

Por ser objeto e a razão do mito nacional, o sertão tem sido preservado no imaginário e na vivência concreta dos brasileiros, ao longo da história do Brasil, como pode ser percebido nas narrativas literárias de Francisco J. C. Dantas. Deste modo, o diálogo entre literatura, história e memória pode ser lido tanto ao nível das relações familiares, nos gestos desempenhados no cotidiano, nos hábitos enraizados, quanto em sua complexa mistura de supressão e de recriação do passado que, apesar do seu caráter fundamentalmente transformativo, permite conservar o essencial da recordação sobre o passado sertanejo.

Portanto, estes dois livros analisados constituem-se em material precioso para o debate histórico e
sociológico do Nordeste na primeira metade do século XX, na medida em que, ao se propor ao “desafio
de compor as vozes da cultura popular em acordes próprios de escritor culto”, como afirmou Alfredo Bosi
(Apud DANTAS, 1993), o autor lança novas luzes sobre a temática do cangaço, fundindo, numa perspectiva pós-moderna, a história e a ficção, no sentido de expor a ambiguidade da trajetória de Lampião
no imaginário social nordestino. Aqui a ficcionalização do cangaceiro serve como ponto de partida para
a revisão da própria história brasileira, ao trazer à baila sua dimensão humana (SOUZA, 2007, p. 98).

Entretanto, para compreendermos tais livros não podemos tratá-los apenas como documentos históricos, sociológicos ou antropológicos, mas como “obras de arte literárias”, pois estabelecem um diálogo crítico com a tradição literária sobre o cangaço no Brasil, elaborando uma rica “reflexão sobre a literatura e o fazer literário, em suas dimensões cultas e populares” (PIRES, 2005, p. 64).

Referências 

ALBUQUERQUE, Durval M. de. A Invenção do Nordeste e outras artes. Campinas/SP; Recife/PE: Cortez/Fundação Joaquim Nabuco, 1999. 

ALVES, Francisco José. Os Sertões como obra historiográfica. In: Cadernos UFS: História. São Cristóvão/SE, v. 3, n. 4, jan./ jul. 1997 (Canudos 100 anos). 

Revista Mosaico, v.3, n.1, p.103-109, jan./jun. 2010 109 

AMADO, Janaína. Construindo mitos: a conquista do oeste no Brasil e nos EUA. In: PIMENTEL, S. V. &  

AMADO, J. (orgs.). Passando dos limites. Goiânia: Editora da UFG, 1995. 

CAMELO FILHO, José Vieira. Lampião: O sertão e sua gente. Campo Grande/MS: Editora da UFMS, 2001. 

CARDIM, Pedro (org.). Cursos da Arrábida: A História: Entre Memória e Invenção. Lisboa: Publicações Europa-América/ Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998. 

D’OLIVEIRA, Max Silva. O cangaço e a religiosidade de Lampião. In: Caos: Revista Eletrônica de Ciências Sociais. João Pessoa,Universidade Federal da Paraíba, n. 0, dezembro de 1999 (endereço eletrônico: . Acesso em: 11.02.2009. 

DANTAS, Francisco J. C. – A Lição Rosiana. In: SCRIPTA. Belo Horizonte, v. 5, n. 10, p. 386-392, 1o semestre 2002. 

DANTAS, Francisco J. C. – Os Desvalidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 

DANTAS, Francisco J. C. Cabo Josino Viloso. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005. 

DAVALLON, Jean. A Imagem, uma Arte da Memória. In: ANCHARD, Pierre [et. al.]. Papel da Memória. Campinas/SP: Pontes, 1999. 

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. 

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil. 2. edição. São Paulo: A Girafa, 2004. 

PIRES, Antônio Donizeti. Coivaras, Palimpsestos & Novas Lavouras. In: Terra Roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários. Vol. 5 (2005), p. 62-76 [p. 64]. Capturado no endereço eletrônico: . Disponível em: 11.02.2009.  

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do Cangaço. 4. edição. São Paulo: Global, 1991 (Coleção História Popular, n. 11). 

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Notas Sociológicas sobre o Cangaço. In: Ciência e Cultura. 27 (5), maio de 1975, p. 495-516. 

SILVA, Patrícia Sampaio. Le symbole et sés diverses résonances: analyse de l’historiographie du Cangaço. Revue Histoire et Société de l’ Amerique Latine. Paris, Amérique Latine: Expériences et Problématiques d’Historiens (A.L.E.P.H.)/Université de Paris 7, n. 4, maio 1996. 

SOUZA, Wagner de. Entre a fé cega e a faca amolada: representações ficcionais do cangaço. Curitiba: Curso de Pós-Graduação em Letras/UFPR, 2007 (Tese de Doutorado).
  
Fonte:  Revista Mosaico

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Já ouviram falar da cangaceira Anésia Cauaçu?

Romance de Domingos Ailton é destaque no Dia do Escritor pelo jornal A Tarde 

Por Wilson Novaes


 Capa do romance escrito pelo jequieense Domingos Ailton

Na edição de segunda-feira (25), Dia do Escritor, o Caderno 2 do Jornal A Tarde (Caderno de Cultura) escolheu dentre os escritores baianos, o jequieense, Domingos Ailton, para homenagear na data, com destaque de capa sob o título “Cangaceira inspira romance histórico – Vida de Anésia Cauaçu é contada por Domingos Ailton”. Na página central e na página 3 do citado Caderno, a reportagem assinada pelo jornalista Juscelino Souza, da Sucursal de A Tarde de Vitória da Conquista, se reporta a produção e ao processo de criação literária do escritor jequieense, a influência do estilo amadiano no seu trabalho ficcional e como Domingos Ailton escreveu Anésia Cauaçu, um romance histórico baseado em relatos orais, jornais da época em que viveu a cangaceira, pesquisas científicas, livros sobre Jequié e dissertações sobre o banditismo e o coronelismo na região.

O romance, que pode ser adaptado para uma minissérie na televisão, revela que Anésia Cauaçu foi uma mulher que esteve à frente do seu tempo. Além de anteceder Maria Bonita no Cangaço, ela liderava um bando, foi a primeira mulher no sertão de Jequié a montar de frente e usar calças compridas para facilitar os combates, lutava capoeira, tinha uma pontaria invejável e fazia uma reza que a fazia em muitos momentos envultar (desmaterilizar) e virava uma rocha ou toco de árvore”, conta o escritor Domingos Ailton.

Para compor os personagens, Domingos Ailton ouviu relatos que chegaram a conhecer personagens do romance, como a centenária Alvina Ferreira, que conviveu com Anésia Cauaçu e morreu aos 112 anos, ou Braulino Antônio de Souza, que morreu anos 96 anos. A reportagem mostra também fotos de Domingos Ailton nas proximidades da Pedra do Curral e do Morrinho da Matança, cenários onde ocorreram os fatos reais das brigas entre cangaceiros e os jagunços e a polícia, locais também que estão na obra ficcional do escritor jequieense.

Abaixo, reprodução da reportagem publicada no A Tarde - assinada por Juscelino Souza. Clique para ampliar.




segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Cangaço em "Fogo Morto"

Por Cristiane Laudemar Rodrigues Assis e Thalita Doretto Brito

Monografia para Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação. São Paulo Junho de 2010.


1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo analisar como o tema “cangaço” aparece na obra “Fogo Morto”, do autor paraibano José Lins do Rego.

Lins do Rego nasceu em 03 de julho de 1901, no município de Pilar, na Paraíba. Filho de João do Rego Cavalcanti e Amélia Lins Cavalcanti, foi criado pelo avô materno, José Lins Cavalcanti Albuquerque, em decorrência da morte prematura de sua mãe. Tal circunstância colocou-o, ainda menino, em contato com o ambiente que seria presença marcante em sua obra literária: a zona rural nordestina e o engenho de açúcar. Mais do que registrar tal contexto, Lins do Rego foi cronista coevo do processo de modernização pelo qual passou a produção açucareira nordestina, e da decadência que assolou boa parte dos donos dos antigos engenhos, que se viram preteridos pelas modernas usinas açucareiras, que alteraram significativamente o modo de produzir e as relações de trabalho no nordeste, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Conviveu de perto também com o fenômeno social conhecido como cangaço, que só existiu no nordeste brasileiro, entre 1900 e 1940. Portanto, estas serão duas marcas registradas dos romances de José Lins do Rego: o cangaço e a decadência da antiga aristocracia açucareira nordestina, da qual seu avô fazia parte. Sua obra insere-se na escola literária do modernismo, com características regionalistas, onde destaca o Nordeste brasileiro. Nesse contexto, mostrava os problemas e desigualdades sociais de nosso país. Apresentava linguagem simples e coloquial, somente ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa. Produziu duas séries de livros temáticos, uma dedicada à cana-de-açúcar e outra ao cangaço.

No ciclo da cana de açúcar publicou Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), Moleque Ricardo (1935) e Usina (1936). Esses romances apresentam o processo de decadência dos engenhos da Paraíba, substituídos pelas usinas mais modernas. Apesar do autor não considerar Fogo Morto (1943) um elemento desse ciclo, o declínio da aristocracia açucareira aparece retratado na obra. O segundo ciclo temático das obras de José Lins trata do fenômeno social denominado cangaço. Os títulos publicados foram Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953).


1ª edição

1ª edição

Como testemunha ocular do desenvolvimento desse movimento no sertão nordestino, o autor descreve a vida desses bandidos e suas crueldades e peripécias. Podemos afirmar que Fogo Morto também apresenta o assunto, mostrando as lutas entre o cangaceiro Antônio Silvino e o chefe da volante Tenente Maurício. Publicou outros romances sem temas interligados como Meus Verdes Anos, livro de memórias, Histórias da Velha Tetônia, literatura infantil, Pureza, Riacho Doce, Água Mãe e Eurídice.

2. O CANGAÇO 

2.1 Origens O termo cangaço vem de canga, que segundo DÓRIA (1982, p. 24) era “o nome dado ao armamento do indivíduo que andava de bacamarte passado sobre os ombros, tal qual boi no jugo, sobrecarregado ainda de uma quantidade de outras armas”.

O cangaço pode ser classificado como um movimento de banditismo social. Esse termo é utilizado para designar o indivíduo, membro de uma sociedade rural que, pelas injustiças sofridas ao longo da vida, torna-se um fora da lei perante o Estado e a elite latifundiária. Ele se torna um bandido e pratica crimes comuns, como assassinatos, estupros e outros tipos de violência. Seu diferencial é agir contra a as autoridades locais, encarnando uma espécie de justiceiro para as classes sociais menos favorecidas. Geralmente esse tipo de fenômeno acontece em sociedades rurais que passam por um momento de ruptura, que pode ser da mudança entre uma organização tribal ou de clã para uma forma mais moderna de associação como a sociedade capitalista.

Portanto, esses movimentos significariam uma resistência às mudanças sociais, econômicas e políticas de uma região. Geograficamente, o cangaço aconteceu em uma única região brasileira: o sertão nordestino. Originou-se entre as últimas décadas do século XIX e os primeiros anos de século XX. Em meados do século XIX, muitos destes homens eram moradores e/ou agregados de grandes latifundiários e proprietários de gado.

Como seus dependentes, esses jagunços contribuíam com a proteção desse território, cumprindo sempre os pedidos do seu senhor. Juridicamente eram civis, que em momentos específicos pegavam em armas para defender seu coronel ou vingar algum tipo de afronta. “Os bandos de homens armados não eram constantes e sim temporários, agrupando-se e desfazendo-se ao sabor das disputas e dos conflitos”. (QUEIROZ, 1997, p. 24).

Com o tempo, os bandos se tornaram independentes dos grandes latifundiários, especialmente em momentos de grandes calamidades, como períodos muito longos de seca. Nesse contexto, costumava ocorrer a migração do dono da terra e sua família para regiões não atingidas pela seca, abandonando temporariamente a fazenda e regressando posteriormente. Tal fenômeno fora registrado por vários autores, como Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”. As alterações climáticas desorganizavam a economia sertaneja, forçando também a migração de parte da população residente. Neste contexto, roubar passava a ser uma opção perfeitamente plausível, e ser cangaceiro se tornava um meio de vida e sobrevivência.

2.2 Fatores 
As causas principais para a ocorrência do cangaço como fenômeno social podem ser divididas em estruturais e conjunturais1. Dentro dos fatores estruturais podemos apresentar três motivos: o tipo de sociedade formada na região, o oferecimento de poucos postos de trabalho e a resistência à instalação dos aparatos do Estado. Nas relações sociais no sertão nordestino, as comunidades eram formadas por grupos de parentela numerosa, unidas por laços de sangue ou de compadrio. No interior destes arranjos, brigas entre grupos familiares diferentes eram constantes, muitas vezes motivadas por honra e vingança. Tais circunstâncias criavam, para os latifundiários, a necessidade de recrutamento de um verdadeiro exército de jagunços, sempre a postos para os mais variados serviços. Segundo nomenclatura proposta por Queiroz (1997).

Contudo, a regra na caatinga era a escassez de postos de trabalho. E, com a seca, as pessoas se deslocavam para regiões mais prósperas, como a Zona da Mata. Quando essas regiões também se encontravam em dificuldades, os assaltos eram constantes. Após o advento da República no Brasil 2, inicia-se a instalação de todo um aparato político-administrativo estatal na região. Havia a necessidade de criar Câmara de vereadores, juizado e órgãos de cobrança de impostos, que nunca estiveram presentes na vida das pessoas que viviam nessa sociedade. Neste contexto, o cangaço é um movimento de resistência a tal “modernidade”. Existem muitos exemplos, citados por Queiroz (1997), sobre cangaceiros que cortavam as linhas de telégrafo, invadiam vilas para desmoralizar as autoridades ou impediam a construção de ferrovias.

É preciso compreender tais ações sob duas perspectivas. Por um lado, o comportamento dos cangaceiros correspondia à defesa natural de seus interesses, uma vez que quanto mais distante as forças repressoras estatais estivessem, mais livres estariam para agir como melhor lhes ocorresse. Por outro, é a reação a um governo longínquo, quase uma abstração, que só era reconhecido pela população em seus agentes repressores, os chamados volantes. Contudo, tais as características não servem, sozinhas, para explicar a ocorrência do cangaço, uma vez que muitas ainda persistem no Nordeste. Para descobrir, portanto, as causas mais prementes para o surgimento desse movimento, é necessário analisar as causas conjunturais, ou seja, os fatores mais imediatos e datados que justificam a origem do fenômeno.

Esses motivos seriam: crises constantes na produção açucareira, a modernização das usinas de açúcar, a falta de compradores para os produtos excedentes do sertão, redução sazonal da oferta de trabalho. A produção açucareira no Nordeste brasileiro foi implantada no século XVI, e foi decaindo a partir da concorrência com açúcar holandês, cultivado nas Antilhas Holandesas3, a partir da segunda metade do século XVII. Apesar disso, o produto nunca deixou de constar na pauta da produção nordestina. A partir de 15 de novembro de 1889.

3 América Central. 
Porém, a partir de 1850 a produção brasileira passou a sofrer muito mais com a concorrência internacional. Além de perder espaço no mercado dos Estados Unidos para a produção de Cuba e de áreas coloniais norte-americanas como Porto Rico, o açúcar brasileiro sofreu também forte concorrência do açúcar de beterraba produzido na Europa. O acirramento da competição no plano internacional foi consequência de vários fatores. Ao açúcar brasileiro era praticamente impossível concorrer em condições de igualdade com zonas produtoras tecnicamente mais avançadas, como as colônias européias na América Central e o sul dos Estados Unidos.

Além disso, tarifas alfandegárias protecionistas nos Estados Unidos e na Europa dificultavam o acesso a estes mercados. Tal situação, aliada ao surgimento de outras áreas produtoras com técnicas novas, como nas Ilhas do Caribe e Egito, elevou a qualidade e aumentou a quantidade do açúcar produzido. Com isso, os preços do produto caíram e o mercado mundial tornou-se instável para os brasileiros – dificultando qualquer tentativa isolada de investimento em maquinário moderno e alterações significativas na forma de se fazer açúcar. Sem conseguir acompanhar a rápida modernização mundial, o Brasil perdeu espaço no comércio internacional, voltando sua produção açucareira para o mercado interno. No caso nordestino, isso se traduziu em produzir, além do açúcar, a rapadura e a cachaça.

Porém, tal mercado era limitado e não impediu a decadência da produção açucareira nordestina. O período do cangaço (1900-19040) coincidiu com esta crise, e com a tentativa de modernizar a produção através da implantação de grandes usinas, que serviram de catalizador da ruína dos engenhos tradições sem, contudo, proporcionar melhorias nas técnicas de plantio da variedade e tampouco nas relações de trabalho que vigoravam no campo. Assim, rareavam os trabalhos possíveis no sertão e, em períodos de seca, havia o desespero dos que precisavam de alguma ocupação para se sustentar.

Queiroz (1997, p. 61 e 62) resume assim as principais causas para o ingresso das pessoas no cangaço: “Menor produção, menor ganho, rebaixamento do nível econômico, maior tempo livre para aventuras e conflitos, era o resultado para o sertão, de crise da cana e do algodão, que se estendeu por todo o começo do século XX”.

2.3 Mito do bom cangaceiro
Os bandos de cangaceiros proliferaram pelos sertões nordestinos. Três personagens principais entraram para a história: Antônio Silvino, Lampião e Corisco. Esses homens se tornaram mitos, e foram transformados pela literatura, cinema e outros instrumentos da arte em justiceiros, lutadores e preocupados com os pobres e oprimidos. Mas será que esses bandidos foram realmente defensores dos necessitados de toda ordem? Os pesquisadores na área afirmam que não.

Essa visão de que o cangaceiro é bom justificou-se porque ele seria um fruto de uma injustiça social e portanto, sensível a elas ao longo de seu percurso como bandido. Segundo Queiroz (1997), os cangaceiros eram somente defensores de seus próprios interesses, sem levar em consideração as necessidades do outro. Para tanto, a autora arrola uma série de características colhidas desses homens por cronistas coevos, que nos dão uma boa idéia de quem eram, na realidade, esses homens. Desta forma, os cangaceiros eram cruéis e sanguinários com todas as classes sociais, não se importando com a miséria do sertanejo mais pobre ou com a fortuna do grande latifundiário. O dinheiro que era roubado não era distribuído aos pobres.

Essa repartição do roubo era feita entre os membros do bando e entre os coiteiros fiéis a eles. Todos os “rivais” eram mortos, sem distinção. Mesmo na literatura de cordel, onde o mito do cangaceiro bom é muito forte, percebemos vozes dissonantes que demonstram que a realidade não é como a arte a recriou. Curran (2003 p. 61 e 62), afirmou o seguinte sobre esse mito: Mais do que em qualquer outro tema do cordel, vê-se aqui o processo folclórico de idealizar a realidade, convertendo-a em mito ou lenda. (...) Virgulino Ferreira, que aterrorizou o Nordeste durante vinte anos, converteu-se totalmente em mito: suas ações sangrentas foram quase esquecidas, e o matador feroz transformou-se em vítima de uma sociedade injusta.

Essa visão romântica do cangaceiro teve sua origem, segundo Queiroz (1997), na década de 50, como figura que demonstrava a nacionalidade do povo brasileiro. Esse é um fenômeno que surge entre intelectuais brasileiros nesse momento histórico. Desta forma, esses pensadores contrapuseram o Nordeste legitimamente nacional e pobre e o Sul do país que era estrangeiro e rico. O cangaceiro torna-se o herói humano e justiceiro, em oposição aos entreguismos ao capital estrangeiro vigente na época. Esse discurso do cangaço retirou a sua realidade, idealizando-o de forma exagerada.

Curran (2003, p. 75 e 76) observa a representação desse fenômeno na literatura de cordel: Os cinquenta anos seguintes [após o fim do cangaço] trarão ainda muitas histórias novas – algumas baseadas em velhos folhetos, outras totalmente ficcionais, ampliando o mito do cangaço. Esse fenômeno tornou-se a epopéia moderna do Nordeste e o cangaceiro, arma política utilizada pela esquerda para disseminar sua visão da política. Chandler (1986, p. 15) demonstra como a realidade do cangaceiro é transformada em mito: Nas sociedades rurais subdesenvolvidas, o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. Na verdade, o fascínio que estes bandidos exercem e a criação de lendas sobre eles (...) parecem ter sido universalmente difundidos.

O homem, ou ocasionalmente, a mulher, que vive fora da lei como um celerado errante, aparentemente livre de qualquer restrição da sociedade, desperta uma fibra de nossa imaginação, principalmente quanto mais remotas forem sua colocação no tempo e no espaço (...) As vidas destes homens serviam de assunto a trovadores e a outros contadores de histórias populares, cuja tendência era a de mitificá- los, exagerando alguma boa ação que por acaso tivessem feito, mas omitindo a realidade histórica.

3. O CANGAÇO EM FOGO MORTO

Em Fogo Morto, o cangaço aparece através da figura do bando do cangaceiro Antônio Silvino, perseguido na região da Paraíba pelo chefe das tropas “volantes”, Tenente Maurício. Apesar da narrativa sobre o tema ser secundária, ela demonstra a visão de José Lins do Rego sobre o assunto. Como filho e neto de senhor de engenho, ele demonstra, ao desenrolar da história, a mesma visão apontada pelos estudiosos sobre o assunto, o cangaceiro cruel e sanguinário, que amedronta boa parte da população, encanta alguns membros das classes sociais mais baixas e manipula a ação dos poderosos da região. Os personagens apresentam comportamentos diferenciados sobre o tema. Mostramos abaixo as principais reações a esse fenômeno.

3.1 José Amaro
O seleiro, que vivia de favor na fazenda de Seu Lula, era um homem amargo e vítima de muitas injustiças. Seu drama pessoal no decorrer do romance é o de ter uma família que não o aceita. Sua esposa, d. Sinhá e sua filha, Marta, parecem seres estranhos para esse homem, que se sente solitário e injustiçado. Amaro é admirador do cangaceiro Antônio Silvino, mesmo sem nunca tê-lo visto. Desta forma, ele demonstra uma idealização do personagem, demonstrada nas seguintes passagens: Em diálogo com o coiteiro Alípio, José Amaro demonstra sua adoração pelo cangaceiro: E foi assim que se viu com um tipo bem perto dele parado. Quis correr para que não o visse, mas não o fez, chegou-se mais para perto.
-Boa noite. É mestre Zé Amaro? 
-Ás suas ordens.  
-Não é nada não, mestre, mas estou aqui a mando do capitão Silvino. O bando está acoitado na Fazendinha, e o capitão me mandou por aqui para saber da tropada Tenente Maurício. Falaram que os macacos passaram o dia de ontem no Santa Rosa.

O mestre estremeceu com a palavra do homem. O nome de Antônio Silvino exercia sobre ele um poder mágico. Era seu vingador, sua força indomável, acima de todos, fazendo medo aos grandes. Quando o aguardenteiro Alípio.  
-È você Alípio?
-Sou eu mesmo, mestre Zé. Eu gosto do capitão. Não vou para o bando dele por causa da minha mãe que ainda tem filha para casar. (Lins do Rego, 1980 , p.57)

Em outra passagem do romance, Zé Amaro demonstra sua admiração por Antônio Silvino: (...) O seleiro não escutava o negro. O capitão Antônio Silvino voltava a tomar conta de seus pensamentos. Admirava a vida errante daquele homem, dando tiroteios, protegendo os pobres, tomando dos ricos. Este era o homem que vivia na sua cabeça. Este era seu herói . (Lins do Rego, 1980, p. 66)

Desta forma, no decorrer da obra, o seleiro se transforma em coiteiro, fazendo alpargatas para o bando ou comprando alimentação para o cangaceiro. Também faz o papel de informante, observando as movimentações do Tenente Maurício.

O homem se foi ,e na casa do mestre José Amaro ficou o terror na sua mulher, e uma sinistra alegria no coração do seleiro. Ele matava galinha e dava para o Capitão Antônio Silvino que mandava em toda cambada de senhores de engenho .Cazuza Trombone,de Maçangana, mudara-se com medo para cidade com medo dele. O velho José Paulino dera um banquete ao Capitão Antônio Silvino. Disseram até que a filha do grande servirá a mesa ,como se fosse ama dos cangaceiros. Sinhá torrara duas frangas para o homem que ele mais admirava neste mundo. (Lins do Rego, 1980, p. 72).

Apesar de toda a admiração que Zé Amaro demonstra por Antônio Silvino, ele acaba por desiludir-se no final do romance, posto que acaba preso e torturado pela volante do Tenente Maurício e o cangaceiro não aparece para salvá-lo e vingá-lo. Nesse trecho, exprime sua angústia, sobre não saber o paradeiro de seu herói. : “Não tinha quem o protegesse. Só esperava alguma coisa do Capitão Antônio Silvino ,que só ele era homem para ajudar um pobre em sua situação. Onde estava ele aquela hora?”(Lins do Rego. 1980 p.268).

Depois de deixar a cadeia, triste e amargurado, o seleiro volta para casa, mas já não existe motivo para sua existência. A mulher a qual ele acusava de seus infortúnios na vida, foi embora, cuidar da filha doente. Aquele no qual depositava todas suas esperanças o havia abandonado quando ele mais precisava. O mestre desiste da vida e com a faca de cortar sola (seu instrumento de trabalho) se mata, desistindo assim de esperar o “salvador da pátria”.

3.2. Coronel Lula de Holanda 
Personagem decadente do sertão nordestino, o coronel Lula não simpatiza com o cangaço e não aceita as ameaças de Antônio Silvino. Mesmo depois do cangaceiro mandar- lhe recado para que não expulsasse José Amaro de sua propriedade, Lula de Holanda não lhes dá ouvidos. Quando o cangaceiro Antônio Silvino invade sua propriedade, em busca do ouro deixado por herança por seu sogro, o latifundiário não cede e acaba tendo uma grave crise de epilepsia, doença que o acompanha ao longo do romance. É sua esposa, D. Amélia, que acaba por interagir com os cangaceiros, afirmando que a propriedade é pobre. E voltando-se para o velho:  

- Coronel, eu sei que o senhor tem muito dinheiro. 
- Como? 
- Não é preciso esconder leite, coronel. O dinheiro é seu. Mas para que esconder?
- Capitão, aqui nesta casa não há riqueza.
- Minha senhora, eu sei que tem. Soube até que muita moeda de ouro. Eu vim buscar um pedaço para mim.

(Lins do Rego, 1980, p. 224) 3.3 Capitão Vitorino Carneiro da Cunha Vitorino Carneiro da Cunha era pobre, mas aparentado com senhores de engenho rico (Coronel José Paulino) e metido com política coloca-se completamente contrário ao cangaço. Afirma em seus longos discursos, que a culpa do fenômeno é do governo, como expressa nesse trecho: “Quem é? ora quem é...O governo, tenente. Se eu fosse governo não havia cangaço.”(Lins do Rego. 1980 p.263).

Quando o Santa Fé é invadido pelo capitão Antônio Silvino, ele mais uma vez lembra a seu primo José Paulino que a culpa de tudo aquilo é dele: “De tudo isto o culpado é você mesmo. Deram gás a este bandido.”(Lins do Rego. 1980 p.260).

Em outro momento, enfrenta o cangaceiro dizendo: “O que eu lhe digo, Capitão Antônio Silvino é o que digo a todo mundo .Eu Vitorino Carneiro Cunha ,não me assusto com ninguém.” (Lins do Rego. 1980 p.256).

Por essa ousadia é espancado, chamado de louco, pois poucas pessoas se atreviam a expressar sua opinião a um cangaceiro como Antônio Silvino sem ser morto. Sua fama em toda região de maluco, sonhador, alienado é um dos motivos que impede sua morte; tanto tropa quanto os cangaceiros o viam como uma pessoa inofensiva.

3.4 – Outros Personagens
Alguns personagens demonstram medo quando o assunto é abordado. É o caso das mulheres, como sinhá Adriana, esposa de Vitorino ou D. Sinhá, mulher de Zé Amaro. “(...) A sua mulher temia com o pavor das notícias do Capitão Antônio Silvino. Marta já de pé, perguntou-lhe o que queria dizer tudo aquilo”. (Lins do Rego. 1980, p. 71).

Outro trecho que demonstra o medo desses personagens pode ser expresso nesse trecho: “O homem se foi, e na casa do mestre José Amaro ficou o terror na sua mulher, e uma sinistra alegria no coração do seleiro”. (Lins do Rego. 180, p. 72).

O Coronel José Paulino, que aparece pouco no romance, mas que acaba mostrando sua influência ao longo do texto, pagava para que o cangaceiro não perturbasse a sua fazenda rica e próspera. Portanto, fazia com que o cangaceiro fosse um aliado, para que suas terras não fossem invadidas. Era inevitável sua aliança com os cangaceiros, pois se houvesse algum atrito entre eles toda sua safra poderia ser saqueada ou mesmo seu engenho.

Os grandes latifundiários como José Paulino, alimentaram muitos anos os cangaceiros ,oferecendo-lhes dinheiro em troca de proteção. “Quer dinheiro capitão? A figura do coronel José Paulino encheu a sala de respeito” (Lins do Rego. 1980, p.258).

Oferecer dinheiro a alguém , é uma forma de mantê-lo sob controle .Enquanto o cangaço fosse útil ao mesmo ,valeria a pena o investimento.


Poster do Filme

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cangaço é tema presente e recorrente na história do Nordeste e também do Brasil. Surgido entre o século XIX e o século XX, foi um fenômeno que causou um impacto muito grande entre pobres e ricos do Sertão, modificando as relações sociais. Com as constantes secas e catástrofes naturais, o cenário do semi-árido nordestino presenciou o agrupamento de grupos de bandidos, injustiçados pelas mazelas sociais e que incorporavam os valores daquele povo, onde a violência e a honra são temas muito importantes. Contudo, os cangaceiros se tornaram um mito, reiterado constantemente pela arte popular (literatura de cordel) e pela arte burguesa (filmes e livros). Representante da nacionalidade brasileira, o bandido violento e cruel, que não respeitava classe social e que não dividia seus roubos com os mais pobres, se torna um justiceiro, herói do povo que representa. Com essa transformação, percebemos mudança da figura histórica e da figura mítica dos cangaceiros.

Em Fogo Morto, José Lins do Rego mostra tanto o lado mítico, idealizado pela figura de José Amaro, quanto mostra seu lado violento, ao descrever os ataques ao Pilar e à fazenda do Coronel Lula. Esse conhecimento da realidade do cangaço se deve à convivência, em sua infância, com esse fenômeno. Por isso, Lins do Rego acaba desmistificando o cangaço perante o olhar do leitor, mostrando, no final do seu romance, o abandono de José Amaro, que morre sem a salvação de cangaceiro algum.

Referências bibliográficas 

CURRAN, Mark J. História do Brasil em Cordel São Paulo: EDUSP, 2003.
DÓRIA, Carlos Alberto. O cangaço São Paulo: Editora Brasiliense, 1982. (Coleção Tudo é História). FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanáticos: Gênese e Lutas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. FAUSTO, Boris História do Brasil São Paulo: EDUSP, 2004 (Coleção Didática).
LINS DO REGO, José. Fogo Morto São Paulo, Editora Klick, 1980.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de História do Cangaço São Paulo: Global, 1997 (Coleção História Popular).
RODRIGUES, Alfredo O cangaço na obra de José Lins do Rego Tese de Livre Docência. UNESP Araraquara, 1984.

Pescado em : Slideshare
Capas dos livros em: www.tertuliabibliofila.blogspot.com

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Conversas

Escritor de Paulo Afonso lança livro na Biblioteca Pública de Salvador


Conversas do Sertão traz causos matutos e muitas histórias divertidas

O escritor pauloafonsino Rubervânio Lima lança o seu livro Conversas do Sertão, na Biblioteca Pública do Estado, Barris, no próximo sábado (11), às 11h30, durante o Encontro de Escritores Baianos Independentes. O livro é uma reunião divertida de várias histórias, cujo cenário é o sertão. São vários relatos imaginários que trazem, além do falar característico dos sertanejos e da magia desse povo, muita fantasia, "causos" matutos, histórias de cangaceiros, além de figuras folclóricas.

Com o apoio da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), e apresentação do então diretor da Universidade Estadual da Bahia (Campus VIII), Juracy Marques, Rubinho Lima reuniu alguns dos seus inúmeros contos neste livro. Influenciado por ter sido Paulo Afonso a cidade da cangaceira mais famosa de que se tem notícia, Maria Bonita, Rubinho tem se dedicado a pesquisar e divulgar o cangaço, cordel e a xilogravura através de palestras, exposições e de contos.

Em 2010, Rubinho participou da construção de mais um livro, o Maria Bonita: diferentes contextos que envolvem a vida da Rainha do Cangaço, organizado pelos escritores Juracy Marques e João de Sousa Lima. No capítulo "A representação de Maria bonita no cordel e na xilogravura", Rubinho faz uma intervenção a respeito das expressões culturais, tais como a literatura de cordel e a xilogravura, relacionadas á "Rainha do Cangaço", apontando essas ligações com a temática do cangaço.

Para divulgar seus textos e também comercializar seus livros, Rubinho criou o blog http://www.conversasdosertao.blogspot.com/, onde disponibiliza novos contos envolvendo o mundo do cangaço e da cultura popular.

Rubervânio Lima - Nasceu e reside em Paulo Afonso, tem 31 anos, é graduado em Letras (FASETE), pós-graduado em Estudos Literários pela UEFS, e cursa Pós-Graduação em Gestão Cultural no SENAC. Escreve contos, romances, poemas, músicas, tendo recebido vários prêmios literários.

Serviço
O que: Lançamento do livro Conversas do Sertão
Onde: Quadrilátero da Biblioteca Pública do Estado (Rua General Labatut, 27 - Barris)
Quando: 11 de setembro, às 11h30
Entrada: Gratuita

Vanessa Costa
Assessora de Imprensa

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Novo livro na praça

Lampião na Cabeça


Com uma arma apontada para a cabeça, Helena tem que escrever a biografia de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Com o rei do cangaço, não tem brincadeira. Promessa é promessa. E deve ser cumprida a qualquer custo. Helena é a narradora de Lampião na cabeça, primeiro livro de Luciana Sandroni pela Editora Rocco.

Por meio da personagem, a premiada escritora de livros infantojuvenis recria a controversa trajetória de Lampião – do menino tranquilo ao temido cangaceiro que entrou para a história como um homem perigoso e violento – em um livro instigante, que conta ainda com belas ilustrações e projeto gráfico assinados por André Neves.

Ganhadora do Prêmio Jabuti de melhor livro infantil em 1998 por sua biografia de Monteiro Lobato, que recebeu ainda o prêmio O Melhor para a Criança da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), Luciana Sandroni mergulhou na vida do cangaceiro mais famoso do Brasil para escrever Lampião na cabeça. Bandido ou herói? Vingativo ou generoso? A história de Virgulino Ferreira da Silva – nascido em 7 de julho de 1897, em Vila Bela, Pernambuco, e morto em 28 de julho de 1938, sua cabeça cortada exposta na escadaria da prefeitura de Piranhas, Alagoas, junto com as de outros cangaceiros de seu bando – não pode ser lida sem se levar em conta a realidade do sertão brasileiro, onde a miséria reinava e os coronéis faziam as leis de acordo com os seus interesses.

Em suas pesquisas, Helena descobre que Virgulino foi um menino esperto e inteligente. Terceiro de nove filhos, cresceu ouvindo as histórias dos cangaceiros famosos cantadas pelos artistas populares da época e brincando de “Polícia e cangaceiro”, o equivalente ao “Polícia e ladrão” da cidade. Desde os seis anos, ajudava o pai com os carneiros e as cabras na pequena fazenda da família, e na juventude se tornou muito habilidoso na arte do couro, além de ótimo vaqueiro, excelente dançarino de xaxado e tocador de sanfona de oito baixos. Mas por que então foi se meter no cangaço?

Virgulino virou Lampião para vingar a morte do pai, em 1921. As rixas entras as famílias eram muito comuns na época e a justiça era feira “aqui e agora”. Uma vingança puxa outra e... Virgulino nunca mais deixou de ser Lampião. Atuou no cangaço dos 19 aos 41 anos, tornando-se o bandido mais importante do século XX. Eternizou a imagem do cangaceiro – chapéu de couro com a aba virada para cima enfeitada com moedas de ouro, as cartucheiras se cruzando no peito – e até hoje é amado e odiado.

Se Lampião foi uma espécie de Robin-Hood do sertão ou apenas um cabra da peste egoísta e sanguinário que espalhava o medo e a opressão pelos povoados onde passava, até hoje há controvérsias. Mas que sua história é fascinante, quanto a isso não resta dúvida. É justamente essa história aberta a várias interpretações que Luciana Sandroni conta no arretado Lampião na cabeça. Com uma narrativa criativa, que mistura ficção e dados reais e reflete ainda sobre o papel do escritor, a autora mostra que toda história pode ser contada de várias maneiras.

E é bom não se esquecer disso, senão o couro vai comer!


Serviço 
Livro: Lampião na cabeça 

Autor: Luciana Sandroni
ISBN: 9788579800177
Páginas: 112
Formato : 19x24
Preço : R$ 49,50

Açude Rocco

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Resenha

Cangaceiros, de José Lins do Rego 
 por Braulio Tavares

É um romance que enxerga o cangaço pelo lado de fora, ou em volta dele. Em vez de descrever o dia-a-dia dos cangaceiros, seus combates, suas fugas, prefere contar a vida das pessoas que são parentes ou amigas dos cangaceiros, que pensam neles o tempo todo, que os temem, que os protegem, que torcem por eles ou contra eles. A toda hora chegam-lhes relatos das façanhas e das crueldades praticadas tanto pelos cangaceiros quanto pelas volantes de soldados que os perseguem.

A trama acompanha Bento, irmão do cangaceiro Aparício. Através dele, na fazenda onde que se refugia, ficamos vendo a quantidade enorme de boatos, de lendas, de informações falsas e de histórias mal contadas que cercam a atividade desses indivíduos, num Sertão da década de 1920, carente de comunicações e de estradas.

A literatura de Zé Lins desenvolveu um monólogo interior com feição própria, extensos parágrafos que se expandem por páginas e mais páginas, nos quais ele acompanha as idas e vindas do pensamento do personagem, seus avanços e recuos, suas decisões, hesitações, suas intermináveis discussões íntimas nos momentos de ameaça ou de crise. Como Zé Lins usa um vocabulário claro e direto, o leitor acompanha sem muito esforço essas reviravoltas mentais sem perceber o labirinto de idéias em que está se metendo.

O livro, que aliás é uma continuação direta de “Pedra Bonita”, formando com ele uma unidade sem cesura, mostra um enorme entendimento do autor da mecânica social do ambiente que descreve, e uma grande familiaridade com usos e costumes, resultado de uma memória vívida, de um ouvido infalível. Isto lhe permite criar personagens de peso como os três irmãos Vieira: o cangaceiro Aparício, o pacífico Bento, e Domício, o poeta cantador que acaba enveredando pelo cangaço.

Mas os dois grandes personagens do livro são para mim os dois neuróticos. O primeiro é o Capitão Custódio, desmoralizado pela vergonha de ter visto seu filho ser morto pelo Coronel Cazuza Leutério e nada ter feito para vingá-lo. O código de honra do Sertão da época não admitia que um pai não vingasse o assassinato do filho, e o Capitão remói sua culpa e sua humilhação em todas as cenas em que aparece. O outro personagem é o Mestre Jerônimo, que foi embora do Brejo por ter cometido um crime de morte, não gosta do Sertão, e vai pouco a pouco entrando num delírio paranóico equivalente ao do Capitão Custódio.

São dois personagens trágicos, que mostram o remoer de angústias e ansiedades que existe às vezes por trás da fisionomia impenetrável do sertanejo. Numa interiorização progressiva de culpas, ressentimentos, humilhações e medos, os dois vão sendo consumidos de dentro para fora diante dos nossos olhos. Quando Bento procura fugir dali, nos últimos capítulos, está fugindo ao terrível futuro que o ameaça, o de se tornar um cangaceiro como os irmãos ou um doido como os seus dois protetores mais velhos.

Artigo publicado originalmente em 12.6.2007 na sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB).

Acesse: Mundo Fantasmo