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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Arvoredo"

Alguns subsídios para sua história

Por Rubens Antonio

Cangaceiro Arvoredo... cujo nome real era Hortêncio Gomes da Costa. Também ficou conhecido, por assim se identificar, como Hortêncio Gomes da Silva, Hortêncio Gomes de Lima, José Lima e José Lima de Sá.


Em Pombal, BA 1928
Depoimento de "Arvoredo", quando preso. 1927, copiado em extrato em inquérito policial de 1929:
José Lima, (que é o mesmo Hortencio Gomes de Lima ou José Lima de Sá, vulgo “Arvoredo”) estava;em Juazeiro, onde foi preso a pedido da autoridade policial de Jaguarary, alli;chegou a 5 sendo ouvido em auto de perguntas. Declarou “ser filho de Faustino Gomes, vulgo “Banzé” e Maria de Jesus, natural de “Salgado do Melão”; que dalli partiu;com destino a São Paulo, encontrando–se em Varzea da Ema com João de Souza,;(Cicero Vieira Noia) seu conhecido e João Baptista (que é o mesmo Christino ou “Curisco”); que em caminho se encontraram com Manuel Francellino, vindo em sua; companhia para Jaguarary, pernoitado em casa delle os tres; que moraram cerca de oito dias em casa de Antonio Piahy, até que alugaram uma casa a Demosthenes Barboza, por intermedio de João Baptista, seguindo na terça feira, 30 de Agosto para Juazeiro, a negocios, sendo alli preso na sexta feira ultima, dois do corrente; que antes de chegar á “Santa Rosa” com seus companheiros de viagem, o de nome João Baptista propoz para todos mudar de nome, ficando o depoente com o de Jose Lima, lembrando–se tambem que depois de se acharem nesta Villa, com João Baptista e João de Souza ou Cicero, foram á cidade de Bomfim, alli se hospedando na pensão de Piroca, por indicação do cel. Alfredo Barboza; que pretende não se juntar mais com João Baptista e João de Souza, caso se encontre ainda com os mesmos, pretende se retirar desta Villa depois de pagar o que deve ao senhor coronel Alfredo Barbosa”. (fls.208–210).

De depoimento da mãe de "Arvoredo", colhido em inquérito policial, em 1929:
"Maria de Jesus e tambem da Conceição, mulher de Faustino Gomes da Costa (“Banzé”) ou “Pae Velho”, do grupo de “Lampeão)) foi ouvida nesta mesma data e affirmou que ha tres mezes reside em “Olhos d’Agua”; que o apellido de “Arvoredo” foi posto em Hortencio por seus irmãos, quando era pequeno; que tem cinco filhos – Hortencio, Ambrosio, Raphael, Sylvestre e Manoel, vulgo “pé de meia”, os quais têm sobrenome de Gomes da Costa que Hortencio tem, alem deste nome, o de José Lima; que seu filho “Arvoredo” acompanha “Lampeão”, por ser amigo de infancia de Christino, conhecido por João Baptista da Silva, vulgo “Corisco”; que João Baptista é filho de Firmina, empregada na fabrica de linhas da Pedra, Estado de Alagoas e Manoel de tal, já fallecido, na Matinha de Agua Branca, com parentes residentes na fazenda “Sitio”, de Salgado do Melão."

Como referência não tanto inédita, mas completamente esquecida no estudo do Cangaço, ressurge aqui informação de que Pae Velho, o cangaceiro que morreu junto com Mariano e Zeppelin, era pai do também cangaceiro Arvoredo.


Pai velho está ao centro

Outro ponto discutido é se "Arvoredo" e "Corisco" eram primos. Estes trechos, tirados de inquérito policial com o depoimento de dois dos irmãos de "Arvoredo", confirmam este ponto:

"Declararam, então Raphael Gomes da Costa, filho de Faustino Gomes da Costa e Maria de Jesus que: “seu pae é criminoso em Santo Antonio da Gloria; que seu pae ha pouco chegou em Salgado do Melão devido á perseguição da força contra o mesmo; que no grupo denominado “Lampeão” tem os parentes Hortencio Gomes de Lima ou José Lima de Sá, vulgo “Arvoredo”, irmão do depoente, e Christino de tal, vulgo “Curisco”, ex soldado da policia de Sergipe, primo do depoente; que o grupo de “Lampeão” ha cerca de um mez fôra visto no “Serrote da Macambira”, de Santo Antonio da Gloria, com destino a Sergipe, de cujo grupo constavam entre outros, “Lampeão”, Curiscu, Arvoredo, o menino conhecido por “Volta Secca” e outros; que “Arvoredo”, seu irmão, já lhe escreveu por duas vezes e mandou recado convidando o respondente a fazer parte do bando “Lampeão” que tambem já mandou fazer esse convite. Perguntado que respostas deu a esse convite, respondeu que por hora ainda não decidiu nada.” José Gomes da Costa fez quase identicas declarações, referindo tambem que recebera convite de “Arvoredo” e “Lampeão” para fazer parte do seu bando, não tendo ainda resolvido nada a respeito."

Arvoredo, colorizado por Rubens Antonio

Arvoredo morreu em 26 de maio de 1934, na serra, próximo à estação ferroviária da Barrinha, por então conhecida como "Angicos". Os dois matadores foram Cícero José Ferreira, o Xisto, que nasceu em 1911, e João Biano da Silva, que nasceu em 1913.

Uma imagem cuja dificuldade para conseguir foi grande, mas, graças ao senhor Raimundo, de Jaguarari, ex-cunhado de João Biano, e a gentileza imensa da filha e do filho deste valente matador de Arvoredo, aqui a única foto existente... de João Biano:



Muito chamado por "João Biana" é uma alteração posterior ao evento da morte de Arvoredo. O nome correto é João Biano da Silva. No texto de Oleone Fontes, em seu livro "Lampião na Bahia", aparecem os matadores citados como Xisto e João Martins da Silva... Este erro apenas reproduz o cometido pelo coronel Alfredo Barbosa, de Jaguarary, que, à época do evento, relatou-o, errando no nome de João. João Biano está enterrado na Fazenda Saco, em Jaguarari.

Partícipe, com o amigo João Biano, na morte do cangaceiro Arvoredo, esta é a única foto restante de Cícero Ferreira, o Xisto.
 

A dificuldade para se conseguir esta foto foi imensa, mas, finalmente, graças ao sobrinho de Xisto, Messias, e à filha adotiva daquele, a "Neguinha", consegui esta imagem. Xisto está sepultado na Fazenda Mulungu, em Jaguarari.


Sepultura do cangaceiro Arvoredo, em Jaguarari:

Detalhe na cruz - "AC" = Arvoredo Cangaceiro:

Está lá no Cangaço na Bahia.com

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Volante em ação

O estudo de fontes documentais é básico, para os que contemplam a história. 

Por Rubens Antonio




Transcrição

De Bomfim, 10-12 de Março de 1929. 

Dr. Madureira de Pinho Chefe Policia Bahia. Confirmando telegramma dirigi hontem vossencia foram presos João Agostinho Silva conhecido Nonato e irmão Saturnino Roberto da Silva vulgo Juca, o primeiro na fazenda Morro Branco, pelo Sargento Flavio, o segundo em Carrapichel, pelo 1o Sargento Octacilio Alves Senna, os quaes estão aqui presos pt Estes individuos são os mesmo conhecidos como gente de Lampeão que anno passado ordenado vossencia apresentei-os com tres Irmão delegado regional Petrolina donde fugiram pt. Baldados cerco casa e batidas Matto Catuny para captura bandido criminoso Faustino ou Fausto Gomes, vulgo Banzé, informando mulher mesmo elle e filhos apareceram e voltaram logo dizendo virem pegar em armas pt. Este vcriminoso é pae bandido Hortencio Silva, vulgo arvoredo, pertencente grupo Lampeão e meu conhecimento por José Lima, em Jaguarary, quando anno passad alli estive, continúo xxx em outras observações. Saudações. 
(a) Capitão José Galdino

Falando nisso...
Bernardino Madureira de Pinho

 


Nasceu a 30 de agosto de 1879, filho de Virgílio Tourinho de Pinho e Mariana de Senna Madureira. Em fevereiro de 1893, ainda menino, discursou, no Teatro Politheama, em Salvador, pedindo a Ruy Barbosa para realizar uma conferência no Theatro São João, em benefício de 50 órfãs do Asilo de Nossa Senhora de Lurdes de Feira de Santana.
 

Apreciador da Antiguidade Clássica, deu aos seus filhos os nomes de Demósthenes, Péricles e Demades. Bacharel em Direito, fez campanha presidencial para o mesmo Ruy Barbosa. Participou com Ruy Barbosa do seu périplo pelo sertão baiano, em 1919. Quando este esteve em Senhor do Bonfim, em 5 de dezembro de 1919, acompanhou-o, aparecendo na foto à entrada do palacete em que se hospedaram, pertencente, então, ao coronel Antonio Felix Martins.
 


Madureira de Pinho é o calvo de bigode, à direita. 

Acompanham-no nesta fotografia também, além de Ruy Barbosa, Antonio Felix Martins, Salustiano Figueiredo, Cordeiro de Miranda e Francisco Esteves da Silva Bernardino.

Foi nomeado Secretário da Polícia e segurança Pública, pelo Governador Góes Calmon, em outubro de 1925, permanecendo no governo Vital Soares. Foi o nomeador e grande apoiador dos comandantes militares na estratégia baiana de confronto ao Cangaço.
 

Nelson Pinto, em palestra sobre sua Biografia, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, quando do centenário do seu nascimento, a modo de “Elogio”, lançou:
“Lampeão era um fruto do Nordeste brasileiro e, no seu tempo, tudo no sertão era seu aliado: a topografia, a distância, a caatinga, o pavor das populações, a falta de estradas e de transportes etc., etc. Basta que se registre que Madureira “não poupou sacrificios, numa luta que não dependia da eficiência das autoridades policiais”. Igualmente, foram “notórias as qualidades de resistência, de arguta inteligência e de bravura do soldado baiano”.”
O avanço dos eventos da Revolução de 1930, fez com que se exonerasse, “a pedido”, em 8 de outubro de 1930, sendo subistituído pelo bacharel em Direito Francisco Prisco de Souza Paraíso. Preso e processado pelos vitoriosos, após liberto, reintegrou-se apenas moderadamente na vida social e política baiana.
Desestimulado a permanecer na Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde já viviam seus filhos.
 

Faleceu a 15 de maio de 1950.


Mais um achado do CSI Rubens Antonio disponibilizado em seu Cangaço na Bahia

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Resgate de fotos históricas 3

Novos achados do "C.S.I." Rubens Antonio 


Complementando este primeiro artigo Clique aqui Eis a única foto existente... de João Biano da Silva um dos matadores do cangaceiro 'Arvorêdo':


Muito chamado por "João Biana" é uma alteração posterior ao evento da morte de Arvoredo. O nome correto é João Biano da Silva. Uma imagem cuja dificuldade para conseguir foi grande, mas, graças ao senhor Raimundo, de Jaguarari, ex-cunhado de João Biano, e a gentileza imensa dos filhos deste valente sertanejo.

No texto de Oleone Coelho Fontes, em seu livro "Lampião na Bahia", aparecem os matadores citados como Xisto e João Martins da Silva... Este erro apenas reproduz o cometido pelo coronel Alfredo Barbosa, de Jaguarary, que, à época do evento, relatou-o, errando no nome de João. João Biano está enterrado na Fazenda Saco, em Jaguarari.

Partícipe, com o amigo João Biano, na morte do cangaceiro Arvoredo, logo abaixo é também a única foto restante de Cícero Ferreira, o Xisto.



Nova dificuldade para consegui-la, mas graças ao sobrinho sr. Messias, e à filha adotiva daquele, a "Neguinha", consegui esta imagem. Xisto está sepultado na Fazenda Mulungu, em Jaguarari.

Viveu para contar história



Sgt. Evaristo Carlos Costa...
sobrevivente do massacre de 22 de Dezembro de 1929, em Queimadas, BA. 



 Pretende explorar a Lagoa do Lino?

Precisei de quatro viagens para localizar esta importante Fazenda. Local da morte dos cangaceiros AZULÃO, MARIA DORA, CANJICA E ZABELÊ, em combate com Zé Rufino em 1933.
 
Ela aparece na literatura como situada nos municípios de Miguel Calmon, Serrolândia, Mairi, Várzea do Poço, Várzea da Roça e Jacobina...
 





A realidade:
 
1 - Ela está na divisa entre os municípios de Várzea do Poço e Serrolândia, em área de litígio entre ambos.
 
2 - Fica mais próxima ao povoado de Maracujá, que pertence ao Município de Serrolândia, mas é mais próxima se acessada pelo Município de Várzea do Poço.
 
3 - Mudou de nome para Fazenda Santa Mônica.



Obs. os cangaceiros, aliás as cabeças destes não estão enterradas lá ok. Foram parar no instituto Nina Rodrigues e desde 1969 juntamente com o grande Chefe para o cemitério Quinta dos Lázaros na baixa das quintas bairro da capital baiana. 

Que visitar os túmulos? Siga o mapa.

 Guia geral do Cemitério Quintas dos Lázaros, 
indicando a localização das sepulturas dos cangaceiros: 

Para se chegar à sepultura das cabeças dos cangaceiros Azulão, Zabelê, Canjica e Maria, inumadas em 1969, segue-se adiante. Passa-se pela capela do cemitério e, após a mesma, vira-se à esquerda. As sepulturas estão na parte inferior do segundo bloco gavetas ou carneiras à direita. 

Eis o aspecto dos túmulos. 




Aproveite e conheça o jazigo do célebre "Corisco".

 Este mausoléu fica logo após a entrada do cemitério, 
virando-se à direita, na segunda fileira de sepulcros

Agora... fica fácil para todo mundo. 

É mais uma iniciativa pró-memória... É uma espécie de salvamento...
 
A velocidade com que as coisas estão se perdendo impressiona..
Acreditem... Tem criança, em sítio importante do Cangaço, que acha que "cangaceiro" é:
- Espécie de passarinho
- Fantasia de folclore... e só... Sem qualquer vínculo histórico...

 
Nadem no açude do confrade Rubens: Cangaço na Bahia

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Nobres iniciativas de um pesquisador

Pelo andar da carruagem e andanças do vaqueiro Rubens a Memória do cangaço será ressuscitada em Juazeiro, Jaguarari (BA) e região

1º Clique e reveja a matéria Fogo da Abóbora, 82 anos

2º O pedido - Ação de nosso confrade Rubens Antonio (Foto).

Saudações Amigos e Amigas

Abóbora ou Abóboras era pertencente ao Município de Jaguarari/BA à época do fogo. Passou a pertencer ao Município de Juazeiro.

Conversei com gente apropriada do município de Juazeiro que anotaram os dados e estão mandando confeccionar uma cruz com nome, apelido, data de falecimento, do cangaceiro "Mergulhão".

Também olharão o em torno e pensarão algo para a sepultura, em termos de composição mineral.


Aspecto atual da sepultura do cangaceiro Mergulhão



As ideias estão fluindo e também e conversarei com a assessoria do prefeito, Sr. Isaac Cavalcante, para ver como poderemos dar mais destaque ao sítio. Ainda esta semana, é provável que eu converse com algum secretário.

O objetivo é arregimentar crianças para servirem de guia darem informações a quem visita o povoado. Na verdade, temos que dar um jeito de atrair turistas para aquele distrito.

E, ainda em termos de artesanato, provavelmente o Núcleo de Artesanato Mineral de Juazeiro começará a preparar peças referentes ao Cangaço.

Mais uma coisa:

O pessoal de Juazeiro está pensando em também revitalizar a sepultura do cangaceiro Arvoredo.


 Aspecto da sepultura de Arvoredo, em Jaguarari.

Meu desejo é mais amplo... é a criação da Rota do Cangaço em importantes cidades da Bahia. Com as seguintes Estações:
 - Abóboras - Sítio da batalha e sepultura de Mergulhão
- Barrinha - Sítio local da morte de Arvoredo
- Jaguarari - Sepultura de Arvoredo
- Itiúba - visita à Calçada de Pedra... sítio de uma trincheira de Aristides... e à residência fortificada do mesmo.
- Queimadas - Cadeia municipal ainda preservada como na época do massacre...

  A intervenção já começa a dar resultados, eis um comunicado do pesquisador enviado hoje.
 Prezados amigos e amigas
 "Fui hoje informado pelo pessoal da prefeitura de Juazeiro que está já confeccionada uma cruz apropriada para marcar o local da sepultura. Esta será colocada em evento apropriado.
Assim que o mesmo se realize, passarei a vocês fotografias do evento".
Que tal... para começar? Estou tentando.pessoal... Quem quiser colaborar... Estou aqui historiageologica@gmail.com


Um abração Rubens Antonio. 
- Professor e palestrante sobre História Geológica da Bahia, Antropologia, Geologia, Epistemologia, Metodologia do Trabalho Científico, História da Ciência.

"O Lampião Aceso e obviamente os cangaceirólogos de todo o país parabenizam e agradecem o cuidado, entusiasmo e determinação do Sr. Rubens Antonio, bem como as autoridades dos respectivos municípios".

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Baixas

Findou-se Arvoredo! 

O Jornal " Correio do Sertão ", edição do dia 03 de junho de 1934, trazia informações sobre a morte desse famoso cangaceiro. Matéria gentilmente cedida, pelo pesquisador Liandro Antiques. Clique para ampliar




Créditos: Ivanildo Alves Silveira

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Alí Jaz

Sepultura do cangaceiro Arvoredo 
Por: Rubens Antonio  

O cangaceiro Arvoredo nascido em 1905, aparece citado na literatura como Hortêncio Gomes da Silva, seu nome correto, e menos comumente como Hortêncio dos Santos, nome errado.

Arvoredo deixou uma correspondência a um "coronel" baiano:

“Ilmo sr. Francisco de Souza - Aspiro boa saúde com a exma. Família, tendo eu frequentado uma fazenda sua, deliberei saudando-o em uma cartinha, pedir um cobrezinho. Basta dois contos de réis. Eu reconheço que o sr. não se sacrifica com isto e eu ficarei bem agradecido e não terei razão de lhe odiar nem também a gente de Virgulino terá esta razão. Sem mais, do seu criado, obrigado. Hortêncio, vulgo Arvoredo, rapaz do bando de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião.”

Depoimento de Risa Galdina dos Santos Conceição, então com 83 anos, de Jaguarari/BA:


O bando de Arvoredo tava escondido na Serra da Conceição, quando o chefe do grupo resolveu descer pra pegá água. Enquanto isso, dois jovens, o João da Biana e o Cícero José Ferreira, o Xisto. Eles estão na mata à procura duns jumentos que haviam desaparecido. No meio da mata, eles se encontraram com Arvoredo que obrigou eles a segui ele. O cangaceiro ia conduzindo os dois pra mata fechada.

E eles imaginando que a intenção do bandido era conduzi ele até o bando para matá. Começaram a fazer sinal um pro outro para dominá ele. João Biano estava com um canivete e Xisto com um facão. Num momento, João derrubou Arvoredo e começaram a rolar pela caatinga.
Aí, o Xisto tento fugir e o João gritou:
- Se fugir eu te pego depois!

Durante a luta, o cangaceiro tava pesado, todo aparatado. Acabou desarmado e recebeu várias furada de canivete. Os rapazes saem para irem embora quando lembram que precisam levar alguma prova para a polícia. Quando voltam, encontram Arvoredo já de joelho. O qual implorou por Nossa Senhora para não morrer. Mas, depois de arrancar-lhe o patuá que carregava no pescoço, ele foi sangrado a golpe de facão...

Para levar como prova cortaram a mão para mostrar às tropas da policia que se encontravam em Barrinha. Eles se reuniram indo em companhia dos dois rapazes ao local onde estava o corpo, que tava no mesmo lugar. Levaram para o Povoado de Barrinha e que foi é trazido de trole para a sede de Jaguarari.

Eu fui ver o corpo quando chegou na estação. Depois disso, nunca mais eu fui ver pessoas que morrem de acidente, pois fiquei com trauma do que vi. Oh! coisa feia. Sei que tá enterrado no cemitério velho de Jaguarari próximo ao cruzeiro.”
  


Objetos pessoais de Arvoredo
"Os matadores receberam 4 contos de réis.
Acervo de Ivanildo Silveira Colecionador do cangaço 




 Detalhe da placa: 
Acervo de Rubens Antonio

Depoimento de Vicente Romualdo dos Santos, então com 97 anos, de Jaguarari/BA:

"Quando eu morava com papai Felix, em São Miguel, foi quando chegou Arvoredo, Calais com seu bando e começaram a fazer perguntas sobre a polícia volante, a riqueza dos fazendeiros entre outras coisas. Meu pai não deu informações. Então eles pediram para que ele não os denunciasse. Mas ele fez o contrário e a polícia foi atrás deles. Um vizinho, coiteiro do bando, avisou que papai havia denunciado.

Passaram-se alguns dias e Arvoredo morreu próximo a Barrinha [em 26 de maio de 1934]. Após sete dias de sua morte, Calais e seu bando voltou à Fazenda São Miguel encontrando eu e meu irmão na roça de mandioca. Sabendo que os assassinos de Arvoredo são parentes do meu pai e que ele havia denunciado o bando, fizeram muitas perguntas.

Então Calais mandou nos amarrar. Então eu, que me encontrava resfriado, senti um calor subir no corpo, e pedi a Nossa Senhora que me protegesse. Calais percebeu essa reação e mandou me segurar. Juremira foi quem agarrou. Foi então que reagi e lutei com ele até cair os dois no chão.

E então consegui me soltar e correr até a porteira que estava aberta. O bando atirou, mas as balas passaram por eu e só uma pegou na manga da camisa. Pensei que meu irmão havia corrido também. Fui em casa e contei a meus pais. E fui a Jaguarari contar à polícia. Mas, em Jaguarari, não havia soldado suficiente. E o delegado Zé Gringo buscou reforço em Bonfim. E somente no outro dia iriam ao local do acontecimento.

Na mesma noite, eu fui à casa de João Resenaldo, e lá apareceram João Biana, Xisto e outros homens dispostos a irem ao local da luta. Mas não tinham armas. Foram à casa de algumas pessoas. Zé Ferreira, Zé Melado e outras, conseguindo armas, indo até a roça. Chegando lá, encontramos Antônio dos Santos, meu irmão, morto. Estava sangrado, com a boca cheia de terra, para não gritar, com nove facadas no peito e o rosto todo cortado. Eu coloquei ele em cima de umas tábuas no jumento e o levei para casa. E os demais foram procurar os bandidos.

Passado algum tempo, apareceu uma espírita, de Petrolina, trazida por minha sobrinha. Ela entrou na casa pela porta da frente e parou na dos fundos. Perguntou:
– Seu Vicente... Seu irmão que morreu gostava de tomar café?
Eu disse que sim, então ela pediu café em pó e açúcar. Pôs em uma vasilha e colocou brasas. A fumaça tomou a casa. Ela disse que, no canto do alpendre, eu deveria conservar sempre com uma luz, porque havia alguém ali. Após isso, a mulher recebeu o espírito de alguém. Eu ouvi uma batida na parede e a mulher falou:
- Boa noite, ô irmão, sabe quem eu sou?
E eu disse:
- Não.
– Você tá falando com seu inimigo.
E me abraçou. Eu senti que os ossos quebraram-se. A mulher falou:
- Até hoje eu era seu inimigo. Agora sou seu maior amigo. A partir de hoje você só tenha medo dos castigos de Deus, porque dos males da Terra eu lhe livro.

Então eu reconheci. Era Arvoredo. Disse ainda Arvoredo:
- No dia que seu irmão morreu, eu estava lá.
Depois a espírita recebeu meu irmão Antônio. Ele disse:
- Irmão. Aquela era chegada à minha hora. Agora eu vou ver minha mãe.
Outro dia, a mesma mulher voltou até minha casa onde encontrou todos dormindo. Ela chamou:
- Vicente!
Em um dos cômodos, ela recebeu novamente o espírito de Antônio que disse:
- Agora eu vou me libertar... 
Nesse momento vi a mulher colocar grande quantidade de terra pela boca até ficar com a voz limpa. Tempos depois eu fui a Petrolina, à casa da espírita e no Salão de suas consultas. A espírita recebeu doutor Antônio, que perguntou a mim se eu sabia dos benefícios que ele, o doutor Antônio, já fez. Nisso apareceu o esposo da espírita vestido de cangaceiro e tocando sanfona.

A mulher recebe Arvoredo que me chama no salão e coloca as mãos em meu ombro e pede para eu contar como foi sua morte. E depois disse:
- Fui morto por dois meninos... um de catorze e outro de quinze anos... Nunca pensei que o perigo estivesse ali.
Alguns anos depois, a mulher voltou à fazenda de nossa família e pediu para nós irmos ao cemitério para arrumar a cova de Arvoredo. A cova estava funda. Após arrumar a cova, rodearam velas na mesma e acenderam.

Arvoredo apareceu novamente através da espírita. O céu estava fechado. Era época de inverno, parecendo que ia chover. Estava escurecendo. Arvoredo falou:
- Graças a Deus, agora tou liberto... As armas que estavam comigo caíram agora...
O céu se abriu e num clarão ele disse:
- Meu espírito está agora como o céu...
A espírita acendeu vela em todos as covas, mas ao chegar no canto do cemitério não consegue acender em uma carneira antiga. A vela apagava.

Em outra ocasião a espírita retornou ao cemitério na companhia minha e de duas pessoas ajudantes para colocar uma cruz de ferro no túmulo de Arvoredo.

Daí eu sempre acendia velas e rezava um “Pai Nosso” para a alma de Arvoredo. Hoje em dia, estou com dor nas pernas, por causa da velhice. Estou impossibilitado de ir ao cemitério mas oro em casa.”