Créditos: Robério Santos "O cangaço na literatura"
Depois de um combate das forças da policia bahiana com o scelerado grupo de Lampião, no municipio de Geremoabo, houve a dispersão dos bandidos. De dois delles, no presente “cliché”, apenas se vêem as cabeças.
Foram elles occultar-se em casa do que se vê ao centro da photographia. Coiteiro de sempre, por força de circumstancias e, como todos os coiteiros, soffrendo séria perseguição e vigilancia por parte das policias volantes, anteriormente tinha promettido á policia, caso o garantissem, que não pouparia a vida dos bandidos que se homiziassem em sua casa.
O commandante da força esteve pelas suas pretensões e instituiu um premio de 600$ pela captura de cada bandido.
Offerecendo-se uma opportunidade, coiteiro (o vocabulo indica o individuo que esconde ou abriga alguem) não hesitou em sangrar á faca dois asseclas de Lampião, communicando ao commandante da força o seu feito.
Como se achava distante do local do trucidamento o commandante da força, o coiteiro levou-lhe as cabeças dos bandidos sacrificados.
A cabeça do cangaceiro " Açucar"
Como se vê acima, foram postas as cabeças sobre latas de kerosene e batida a respectiva chapa, na qual figura o coiteiro.
O local onde se verificou esse feito dista da capital bahiana cerca de 60 leguas.
Patrono da Companhia Independente de Policiamento Especializado (Cipe) Caatinga, Zé Rufino, o policial militar Coronel José Osório de Farias, um dos maiores combatentes do Cangaço, recebeu uma homenagem post mortem da Câmara Municipal de Jeremoabo, na manhã desta sexta-feira (1º/08).
No início do ato na Câmara houve a concessão do título de cidadão de Jeremoabo a Zé Rufino, que foi recebida pelos familiares do policial militar, e em seguida ocorreu a formatura de 21 policiais militares no Curso de Rastreamento de Combate, que tem como objetivo capacitar o efetivo para atuação, emprego e execução de ações de rastreamento de combate nas operações policiais em ambiente rural.
A solenidade contou com as presenças do subcomandante do Policiamento em Missões Especiais (CPME), tenente coronel Ibrahim Almeida, do comandante do 20º Batalhão, tenente coronel Marcos Davi, do chefe de Coordenação de Documentação e Memória da PMBA, tenente coronel Raimundo Marins, do comandante da Cipe Caatinga, major Érico de Carvalho, oficiais e praças da corporação.
Os três primeiros colocados foram premiados pelo mérito intelectual: o sargento Valni Rodrigues de Queiroz Filho (1º lugar), da Cipe Sudoeste, o capitão Wilton Panta da Silva (2° lugar), da 54ª CIPM, e o soldado Leôneo Pereira Freitas, do Bope, conquistou a 3ª colocação.
A segunda edição do Curso rastreamento de combate iniciou em 21 de julho com 21 policiais militares, sendo 20 da PMBA e um da Polícia Militar do Piauí (PMPI), que passaram por instruções, treinamentos e atividades simuladas, contabilizando 140 horas aula.
Após a conclusão da solenidade, foi realizado um cortejo que saiu da da Praça do Forró até o Cemitério Municipal de Jeremoabo, onde um busto no túmulo do Coronel José Osório de Farias, o Zé Rufino, foi inaugurado.
Neto do militar, o cabo Melquisedeque, lotado no 20º Batalhão, destacou a importância dessa lembrança para toda a família. “Me sinto muito honrado com nesta homenagem ao meu avô que foi um grande combatente contra o cangaço”, afirmou.
Nascido em 20 de fevereiro de 1906, Zé Rufino ingressou na Polícia Militar da Bahia em 1934, sendo promovido a segundo tenente em 1939 para mais tarde chegar ao posto de coronel da PMBA. Ele foi comandante da volante contra o cangaço e ficou conhecido por confrontar Corisco. Faleceu em 20 de fevereiro de 1969, exatamente no dia em que completou 63 anos.
Era alta madrugada do dia
8 de julho de 1939 quando um grupo de homens fortemente armados chega a uma
modesta casa onde viviam os habitantes da fazenda Curral dos Altos, no município
de Bebedouro (Hoje Coronel João Sá – Ba), os bandidos invadem a residência com
facilidade, rendem os ocupantes do imóvel e iniciam a execução de um terrível
plano de vingança.
Logo, tiros de parabélum ecoam pela caatinga imersa na
escuridão da noite, três corpos caem mortos, são Olegário Bispo, filho da dona
da fazenda e dois viajantes, que seguiam para Paripiranga-BA e tomaram a
infeliz decisão de pernoitar ali, foram friamente mortos, eram Antônio Elias e
Nonato Terêncio.
O bando segue a sua romaria de crimes, viajam até a
fazenda Logradouro, no mesmo município, e lá assassinam Jovina Maria de Jesus para
logo em seguida, atear fogo em sua residência, deixando para trás uma noite de
crimes, uma cena digna dos momentos finais do cangaço, atuada pelo bando de Ângelo
Roque como uma vingança a uma suposta delação cometida por Josefa Bispo, que
resultou na morte de três integrantes do grupo, inclusive a companheiro do
chefe, Mariquinha.
A descrição que você acaba de ler, foi relatada nos autos
do processo contra Ângelo Roque, Benício Alves dos Santos (Saracura) e Domingos
Gregório (Deus-te-Guie), os cangaceiros que se entregaram em Paripiranga em
abril de 1940 e seguiram para Salvador onde cumpriram pena pelos seus crimes.
Uma vez estabelecido o roteiro dos crimes que levaram à
condenação dos três cangaceiros acima citados, me dedicarei a narrar os eventos
posteriores, mais especificamente, os episódios ligados ao julgamento desses,
tendo como base os processos de ambos.
O primeiro e mais polêmico elemento a ser analisado é o
local da realização do julgamento, visto que, no processo, consta claramente
que o julgamento em si, depoimento de testemunhas, condenação e sentença,
ocorreu na cidade de Jeremoabo entre 1940 e o final de 1942, como indicado no
trecho a seguir: “Sala da sessão do tribunal do júri em Jeremoabo, aos cinco
dias de novembro de 1942”, ou, ao finalizar um ato, o escrivão registra: “Dada
e passada nesta cidade de Jeremoabo aos 12 dias de novembro de 1942”, conforme
imagem abaixo:
Fonte: APEB
Existem outras
referências no texto que dão margem ao entendimento de que o julgamento em
questão tenha sido realizado, de fato, na famosa cidade de Jeremoabo, contudo,
existem alguns detalhes que precisam ser analisados antes de se chegar a qualquer
conclusão. O primeiro deles, com efeito, é o fato de esse evento, se realizado
em Jeremoabo como consta do processo, não ter deixado nenhuma outra evidência,
nem fotos ou registros em jornais da época nem mesmo ter sido rememorado pela
memória popular.
Pensando por esse
viés, percebemos o quão problemático é o ofício de contar a história, posto que
a fonte para esse trabalho é um documento oficial, assinado por autoridades
conhecidas como, para ficar em um exemplo, o juiz Antônio Ferreira de Brito.
A cronologia dos fatos indica que no dia 04 de fevereiro
do mesmo ano é emitida a Carta de Guia com uma condenação de 30 anos de prisão,
é esse documento que define o número do interno Ângelo Roque da Costa como 1522.
No
dia 04 de novembro de 1942 sai a condenação pelo assassinato de Olegário Bispo
da Conceição, Antônio Elias e Nonato Terêncio, no dia seguinte, 05 de novembro,
sai a sentença de mais 30 anos pelo assassinato de Jovina Maria de Jesus, na
fazenda logradouro e incendiado à casa dela.
Em
12 de novembro de 1942, o Juiz Antônio Ferreira de Brito, decide determinar que
o réu cumpra os 30 anos de prisão apenas por esse homicídio seguido de incêndio,
nesse mesmo dia o escrivão, Manoel Luiz Gonzaga, finaliza o manuscrito
É
sabido que em 1941, pelo menos, esses homens já estavam presos em salvador e é
possível que o julgamento em questão tenha sido realizado lá e registrado como tendo
ocorrido em Jeremoabo, mas a hipótese, a meu ver, mais plausível, é que o júri tenha
se reunido de fato em Jeremoabo sem a presença dos réus.
A
inconclusão do tema, todavia, não invalida a importância histórica do documento
de posse do Arquivo Público do Estado da Bahia pois, através deste, foi possível
reunir muitas informações acerca dos procedimentos envolvendo os ex-cangaceiros
enquanto estiveram na capital baiana.
Sabe-se
que os 30 anos de prisão a que foram condenados não foram cumpridos por nenhum
dos três cangaceiros citados, contudo, o que era desconhecido até o presente
momento, era o documento de comutação das penas, emitido pelo gabinete do presidente
Eurico Gaspar Dutra a 18 de setembro de 1947:
Fonte: APEB
Conforme
se lê no fragmento acima, o presidente do conselho penitenciário, Estácio de
Lima, emitiu relatório favorável à comutação das penas, relatório utilizado
como base para a decisão de comutar as penas dos internos.
A
conversão das penas vai surpreender o leitor, visto que o chefe do bando, Ângelo
Roque, teve sua pena de 30 anos reduzida para 10 anos, ao passo que seus dois
ex-comandados, Saracura e Deus-te-guie, de acordo com o mesmo documento,
tiveram suas sentenças reduzidas para 12 anos cada, pegando dois anos a mais que
o antigo chefe.
Por Moisés
Santos Reis Amaral, Professor há 21 anos do Município de Fátima, Licenciado em
História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira,
Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das
obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista e da HQ
Histórias do Cangaço e dos livros Fátima: Traços da sua Histórias e O
Embaixador da Paz.
Fotos inéditas de Zé Rufino em 'Memória do Cangaço'?
As fotos foram divulgadas pelo recém criado canal do grande Thomas Farkas.
O Canal foi criado com o principal objetivo de difundir a produção cinematográfica do húngaro radicado no Brasil, Thomaz Farkas. Além de ter sido um importante fotógrafo na consolidação da tradição moderna da fotografia brasileira, Farkas também desenvolveu uma sólida produção cinematográfica. Tais filmes marcaram a produção do cinema documentário brasileiro e foram o início de uma transformação que influenciou diversos realizadores.
Lá estão reunidos 35 filmes de curta e média metragem que Thomaz atuou ora como produtor, ora como diretor de fotografia e ora como diretor.
Realizados entre os anos de 1964 e 1980, em plena ditadura militar, tais documentários investigam as manifestações culturais localizadas nos rincões do pais, forjando assim uma busca pela identidade da cultura popular brasileira. Os filmes realizados dentro deste período, sendo a serie pioneira Brasil Verdade (1964-65) e a segunda, essa realizada no Nordeste, Heranças do Nordeste, (1969-70) ficaram conhecidos como Caravana Farkas. Na mesma época em que Eduardo Coutinho realizava o antológico Cabra marcado para morrer (1964-1984), a Caravana Farkas decidiu lidar com a efervescência política do país (época do endurecimento do regime militar sobretudo com o decreto do AI-5 em 1968) se interessando pela cultura popular nordestina. A transformação social estando ligada, desse modo, com a expressão tradicional de um Brasil afastado do eixo industrial.
O Canal Thomaz Farkas ressalta a importância do feliz encontro de diversos realizadores, alguns deles muito jovens neste período, que desempenharam papéis importantíssimos na futura trajetória do cinema brasileiro. São eles: Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Sérgio Muniz, Maurice Capovilla, Guido Araújo, Manuel Horácio Gimenez, Affonso Beatto, Lauro Escorel, Eduardo Escorel, Sidney Paiva Lopes, Edgardo Pallero, Wladimir Herzog entre outros. Destacamos ainda três figuras citadas como referências no âmbito desta produção: Fernando Birri, Joris Ivens e Jean Rouch.
‘Baiano de alma’, como o próprio Thomaz dizia, o fotógrafo, produtor de cinema e empresário, deixou um legado cultural muito importante para a construção do país. Este canal tem por dever histórico e interesse político divulgar e difundir ao máximo tal propriedade intelectual brasileira.
A grande motivação de oferecer todo o acervo em alta qualidade é fazer com que ele seja mais visível, e de modo intuitivo, tanto para pesquisa como para outras apropriações —, explica Guilherme, cujo avô morreu em 2011, em São Paulo.
Os 34 filmes, de curta e média metragens, estão disponíveis via streaming. Vão desde “Memória do cangaço” (o primeiro, de 1964, de Paulo Gil Soares) a “Hermeto campeão” (1981), do próprio Farkas. Além disso, há extras como fotografias de bastidores e documentos, como a tese de doutorado sobre o cinema documentário feita por Farkas, apresentada à USP em 1972.
Adendo Lampião Aceso:
Já que nossa primeira publicação de Memória do Cangaço, assim como centenas de imagens ,também expirou, vamos republicar, em parte única, para deleite de todos vocês.
Texto com informações do Canal Thomas Farkas e do Portal O Globo.com
A separação de Maria com Zé de Neném e o ‘aprochego’ com o
"Rei do Cangaço"
Por Sálvio Siqueira
Maria
Gomes de Oliveira, segunda filha do casal José Gomes de Oliveira, José
Felipe e de dona Maria Joaquina Conceição de Oliveira, Maria Déa, como
toda moça no desvirginar da adolescência, sonha em casar e ter seu
‘príncipe encantado’ ao seu lado por toda a vida.
Nos
sertões nordestinos esses sonhos eram, na maioria das vezes, uma
maneira de fugir, escapar, do modo, maneira, ao qual eram tratadas as
meninas pelos pais.
A
criação não era nada fácil para um casal de agricultores, vivendo
exclusivamente do que a roça lhes oferecia. O maior temor de um pai, ou
uma mãe de família, naquela época era ter sua filha vendendo seu corpo
nos cabarés das cidades. Principalmente a mãe, pois o machismo reinante
faziam-na exclusivamente culpada. Com esse receio, em vez de educar,
mostrando o fato, como a coisa se dava, e assim ela própria teria tempo
para construir uma forte ‘muralha’ como defesa, os pais faziam eram
manter suas filhas como escravas, ensinando, quando ensinavam, como ser
obedientes em tudo ao marido. Logicamente, como em toda regra tem
exceção, nessa também teve a sua.
O Casório…
Como
em toda adolescência faz-se os grupinhos de moças e rapazes, com
particulares e ‘segredos’ entre eles, naquele tempo, também tinha. Nos
anos que se seguiram, Maria foi ‘ganhando’ uma ruma de irmãos, e fazendo
amizades com algumas primas e primos. Logicamente todo mundo teve sua,
ou seu, confidente, e Maria Gomes, Maria de Déa, tinha sua prima Maria
Rodrigues de Sá como tal. Nas festividades, sambas e forrós que tinham
na região, nas cidades de Santa Brígida, Santo Antônio da Glória e
Jeremoabo, todas no Estado baiano, as quais ficavam mais perto de seu
lugarejo, Malhada da Caiçara, pelos cálculos da época, como suas primas e
amigas, Maria de Déa arrumou namoricos com um ou outro rapaz.
Quis o
destino que Maria se apaixona pela primeira vez por um de seus primos
chamado José Miguel da Silva, por todos conhecido como Zé de Neném, da
mesma localidade em que nascera, na Malhada da Caiçara, tendo uma
espécie de ‘atelier’, ou um quarto de trabalho, um local para trabalhar,
em Santa Brígida, onde exercia sua profissão de sapateiro.
Zé de Neném
"(…)
Zé de Neném era filho de Pedro Miguel da Silva conhecido por todos na
região pela alcunha de Pedro Brabo e Maria Conceição Oliveira, apelidada
de Neném. O parentesco do sapateiro com Maria de 'Déa' vinha por parte da
sua avó, Generosa Maria da Conceição, uma senhora que era conhecida
pelo apelido de Juriti e que era irmã de Zé Felipe, pai de Maria (…).”
(“A trajetória guerreira de Maria Bonita – A Rainha do Cangaço” –LIMA,
João de Sousa. 2ª Edição. Paulo Afonso, BA, 2011).
Foto da casa dos pais de Maria Bonita.
Como
a família de Maria Gomes, a família de Zé de Neném era bastante grande.
Naquela época não havia os meios contraceptivos atuais e, com toda
certeza, fazer, fecundar, filho era como se fosse um investimento para o
futuro, erroneamente pensavam assim os catingueiros. No futuro eles
iriam ajudar os pais nas lidas diárias das fazendas, essa, e
simplesmente essa, era a razão. Dentre as irmãs do sapateiro, destacamos
Mariquinha Miguel da Silva, que, em determinada época, deixa seu
marido, Elizeu, que era proprietário da fazenda Ingazeira onde moravam, e
dana-se no mundo sombrio e incerto do cangaço com o bandoleiro Ângelo
Roque, chefe de um dos subgrupos do bando de Lampião, que tinha a
alcunha de ‘Labareda’. Maria e José casam-se. Não demoraria muito para que se começassem as incompatibilidades.
A Separação…Maria era por demais ciumenta e seu esposo, Zé de Neném, um verdadeiro ‘pé de forró, não saindo dos sambas.
Certa
feita, estando Zé em um dos vários botecos, bebendo com alguns
conhecidos, chega Maria e arma o maior escarcéu. Zé se defendia das
acusações de Maria até quando pode, porém, a baiana encontra em um de
seus bolsos uma lembrança de uma ‘amiga’, um pente com o nome da mesma.
Nisso o pau quebrou pra valer. E a já conturbada vida a dois entre Zée
Maria, pelo fato de Maria não engravidar, desmorona-se de vez.
Maria Bonita – Fonte – http://umas-verdades.blogspot.com“(…)
Maria encontrou um pente em um dos bolsos do marido, com o nome de uma
moça gravado no objeto (…). Este tipo de discussão e separação tornou-se
uma constante e marcou significativamente o relacionamento dos dois
(…). O casal não chegou a ter filhos. Alguns amigos confirmam a
esterilidade do sapateiro Zé de Neném, que não chegou a engravidar
nenhuma das mulheres com quem viveu (…).” (Ob. Ct.)
Pois
bem, nessa, como em tantas outras ‘separações’, Maria Gomes correia a
procura dos braços acalorados e protetores de seus familiares, apesar de
seu pai, Zé Felipe, não concordar com tais separações, ela assim
procedeu por várias vezes.
E Chega Lampião!!!
Em
uma dessas separações, já se indo alguns dias, mais ou menos quinze
dias de Maria estar na casa de Déa, sua mãe, ela, por um acaso conhece o
“Rei dos Cangaceiros”. Achamos, particularmente, que num ímpeto, Maria
deixa aflorar seu ego, e permitiu que se falasse o cupido. Tanto Maria,
quanto Lampião sente alguma coisa dentro deles de cara. A atração foi
dupla e contagiante. Lampião, que tanto fez arapuca, tanta emboscada
aprontou, caiu de quatro pela armadilha que o destino lhe fez. A morena
da Malhada da Caiçara acabou de domar uma fera nascida e criada na
região pernambucana do Pajeú das Flores. Não podendo mais esconder sua
paixão, Lampião inventa de inventar uma encomenda, vários bordados em
lenços de seda, simplesmente para ter a desculpa, de vindo ver se tinha
algum lenço pronto, vir mesmo era Maria. Sabedora dos planos de
Virgolino, Maria, logicamente aceita a encomenda e trata de, também,
curtir aqueles raros momentos.
“(…)
Era uma sexta-feira, Lampião pisou o batente da casa de Zé Felipe e
Maria Déa. Odilon Café apresentou ao cangaceiro uma das filhas daquele
casal, que no momento se encontrava ali, por estar separada do marido. Novos sentimentos renasceram naqueles minutos seguintes. Depois de uma rápida conversa, lampião pergunta a Maria: – Você sabe bordar? – Sei! – Vou deixa uns lenços pra você bordar e volto daqui a duas semanas pra buscar! Este
foi o primeiro diálogo realizado entre Lampião e aquela que seria a sua
grande companheira e eterna paixão, até o fim da vida (…).” (Ob. Ct.) A
partir de determinado tempo, ou de um dos encontros entre eles, não
teve mais volta. O pai de Maria Gomes, Zé Felipe, não aprovava o namora
entre ela e Lampião. Já por outro lado, sua mãe, Maria Déa, parece que
até ‘cortar jaca’, cortou, para que eles se encontrassem.
Violência Policial contra a Família de Maria Bonita
Naquele
tempo, a casa que recebesse com maior constância visita de cangaceiro,
com toda certeza, logo, logo receberia a visita de alguma das volantes
que caçavam os grupos. Então, rastejando os vestígios dos cangaceiros,
as volantes terminaram fazendo, também, várias ‘visitas’ a casa da
fazenda do pai de Maria Gomes, Zé Felipe. Com o aperto que deram no
velho patriarca, cacete nele e sua família, até Zé de Neném foi pra
debaixo da madeira, Zé Felipe resolve mandar sua filha para casa de um
parente na fazenda Malhada, nas Alagoas. Para que assim, as volantes os
deixassem em paz. Ao saber disso Lampião vai e dá um ultimato para Zé
Felipe, ou ele manda buscar sua Filha em terras alagoanas ou ele destrói
a fazenda com tudo que nela existia. Sem ter, novamente, uma saída, Zé
Felipe manda alguém buscar Maria, sua filha.
Maria Bonita – Fonte – blogs.ne10.uol.com.brAo
retornar, Maria Gomes percebe o quanto sua família estava envolvida
numa encrenca desgraçada por seu romance com o ‘Rei do Cangaço’. Nesse
momento, ela toma uma decisão importante que mudaria a vida de muita
gente, principalmente a do pernambucano fora-da-Lei, para que a Força
Publica deixasse seus familiares em paz. Quanto da localidade de onde
Maria Gomes resolvera seguir com Lampião, não fora na fazenda onde
nascera, a Malhada da Caiçara, e sim, numa outra localidade, onde
cuidava de sua avó materna, Ana Maria, que estava enferma, denominada
Rio do Sal.
Ao
contrário do que pensou, planejou Maria de Déa, a Força Pública não se
afastou da casa de seus familiares, pelo contrário, as visitas
tornaram-se mais constantes e violentas, tendo como alvo principal o
velho Zé Felipe, seu pai.
Estando
já a não aguentar mais tanta pressão e cacete, Zé Felipe recebe a
visita de um dos soldados da volante, que era seu amigo Antônio Calunga,
dizendo-lhe que o comandante da volante recebera ordens superioras de
acabar totalmente com a fazenda Malhada da Caiçara, matando todos que
naquela ribeira moravam.
Zé Felipe, pai de Maria Bonita.Zé
Felipe agradece ao amigo, junta sua família, desce rumo às águas do
“Velho Chico” aluga uma embarcação, coloca todos dentro e passa para o
solo alagoano. Vai montar residência no sítio chamado ‘Salgado’, no
município de Água Branca. Porém, sua estada nele é curta. Pega suas
trouxas novamente, levanta acampamento, junta seus familiares e parte
rumo ao local denominado ‘Salomé’, o qual, hoje é a cidade de São
Sebastião. Nessa
agonia, tendo de deixar suas terras por serem perseguidos e
maltratados, constantemente, pela volante, um de seus filhos, conhecido
como Zé de Déa, resolve juntar-se ao cunhado, Lampião. Lá estando, conta
por tudo que seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs passam. Lampião
ordena que se façam as vestes, bornais, cartucheiras, em fim, toda a
tralha de um cangaceiro para seu ‘cunhado’, e separar-se, também, as
armas para o mesmo usar. No entanto, Maria sua irmã, não permiti que ele
use armas. Mesmo estando por mais ou menos oito dias no acampamento, Zé
de Déa e sempre aconselhado pela irmã para não fazer parte daquela vida
em que ela metera-se. Termina o irmão por ceder aos conselhos da irmã.
O
“Rei dos Cangaceiros”, através da sua malha de informantes, sabe da
fuga do sogro e sua família, assim como tem o conhecimento da ordem e do
nome do policial comandante incumbido da tarefa de matar toda a família
de Maria, sua amada, que seria o tenente Liberato de Carvalho.
Recado de Capitão para Capitão…
Maria Bonita cangaceiraCerto
dia chega a casa onde moravam Zé Felipe e sua família, uma volante
policial. Começam a destruir as coisas, matam alguns animais que estavam
soltos, mas, próximos a casa. Sem ninguém da família na casa para
saciar a ira dos volantes, sobra para um morador das redondezas, que
seria, segundo indicaram, um coiteiro, o qual é colocado debaixo de
cacete e depois assassinado pela tropa.
“(…)
Uma volante visitou a casa de Zé Felipe e não encontrando ninguém,
quebraram as madeiras dos currais, destelharam e quebraram parte do
telhado da residência, matando alguns animais. Menos sorte teve o
coiteiro Manuel Pereira, conhecido como Manuel Tabó, que por não ter
fugido acabou sendo espancado e morto pelos soldados (…).” (Ob. Ct.)
Lampião,
sempre ardiloso, sabia que partir para enfrentar de cara a volante,
indo a desforra, pelo que fizera nas terras da Malhada da Caiçara, usa
de outra artimanha. Ordena a um de seus ‘cabras’’ que vá em determinado
lugar, e peça a determinada pessoa para vir vê-lo. Essa pessoa já havia,
em outras oportunidades, feito o mesmo que ele o enviaria para que
fizesse.
Essa pessoa era conhecida pelo apelido de Tonico, e era irmão de Zé de Neném, ex marido de sua companheira Maria de Déa.
Atual Delegacia de Polícia Civil de Jeremoabo, o antigo aquartelamento dos tempos do Cangaço – Fonte – Rostand MedeirosLampião
escreveu uma missiva e determina que o jovem a leve ao Capitão João
Miguel, em Jeremoabo, BA. Assim, o jovem após dar voltas e ter a certeza
de não estar sendo seguido, parte rumo ao destino determinado. Lá
chegando, procura o oficial no QG.
“(…) Tonico seguiu em direção ao quartel, sendo recebido por um sargento que fazia a guarnição e lhe perguntou: -O sinhô qué fala cum quem? -Com o Capitão João Miguel! -Eu posso resolver? -Não, tem que ser com o Capitão! O
sargento foi até a sala do capitão, retornou alguns minutos depois e
pediu para que Tonico o seguisse até a sala do oficial (…).” (Ob. Ct.)
Tonico
era frio, Lampião sabia escolher a pessoa certa para cada missão
específica. E essa era bem difícil de ser cumprida, pois tinha que o
colaborador entrar em um quartel militar. Chegando diante do capitão,
esse dispensa o sargento e recebe o papel que lhe é entregue pelo
portador.
“(…)
O Capitão João Miguel, depois que leu o bilhete, falou: “Se você está
numa missa dessa, não é preciso pedir segredo, pois você deve ser da
confiança de Lampião”.
Os
dois conversaram secretamente, trancados dentro da saleta. O Capitão
João Miguel mandou a resposta: diga ao Capitão que pode mandar o sogro
dele voltar, pois a partir de hoje não passará mais nenhum soldado na
sua porta. Na
manhã seguinte, ao despertar, Tonico regressou da sua missão, trazendo
consigo, a promessa positiva de que nenhuma volante iria mais importunar
aquele pedaço de chão e sua gente V…).” (Ob. Ct.)
Vejam
que Virgolino não só sabia manejar as alavancas das armas que usou,
mas, também, com tinta, pena e papel, fazia suas defesas diante de uma
guerra particular, imposta por ele mesmo, contra seus inimigos.
Uma
das coisas que mais ocorreu no cangaço foi à traição, tanto do lado dos
cangaceiros e coiteiros, como mesmo do lado daqueles que os davam
combates. E essas atitudes, tomadas por dinheiro ou ‘favores’, foram
mais um motivo para que Lampião prolongasse por quase vinte longos anos,
seu reinado de sangue, lágrimas e mortes nas entranhas do sertão
nordestino.
Fonte “A trajetória guerreira de Maria Bonita – A Rainha do Cangaço” – LIMA, João de Sousa. 2ª Edição. Paulo Afonso, BA, 2011. Foto Ob. Ct. Benjamin Abrahão