O cangaço e os rifles Winchester em uma reportagem nos Estados Unidos
Por Rostand Medeiros
Abordar as armas de fogo e sua relação com episódios importantes da História do Brasil é algo que se tornou um tanto raro nos últimos tempos. Acredito que isso ocorre porque em nosso país o tema ligado a armas de fogo acaba de uma forma ou outra, se mesclando com o atual e complicado debate político. Mas abordar a utilização desses instrumentos de ataque e defesa ao longo de nossa tumultuada história é algo interessante. Creio que significa simbolicamente reconhecer as maneiras pelas quais as armas surgem como instrumentos poderosos que, em determinados níveis, moldam a história, a política, a geografia, a economia, a mídia e a cultura brasileira.
Dito isso, acredito que a recente publicação nos Estados Unidos de uma interessante e bem ilustrada reportagem sobre a utilização dos rifles da marca Winchester pelos cangaceiros nordestinos atenua essa carência. Melhor ainda quando isso acontece através do trabalho de pessoas competentes e conhecedoras do tema.
Esse material é o resultado de uma parceria entre o pesquisador paulista Douglas de Souza de Aguiar Junior e o escritor americano Luke Mercaldo, tendo sido publicado na revista The Winchester Collector, o principal veículo de comunicação de pesquisadores e colecionadores das armas fabricadas pela tradicional empresa Winchester naquele país. Essa revista é publicada e mantida pela Winchester Arms Collectors Association (WACA – https://winchestercollector.org/ ), a maior associação de colecionadores nesse tipo de armamentos, com membros em todo o mundo e atuando desde julho de 1977. Esse texto mostra para um público especializado, os detalhes do que foi o universo do cangaço e dos cangaceiros.
Reconhecidamente Douglas Aguiar possui total capacidade e cabedal mais que suficiente para escrever textos e artigos que ligam armas de fogo e a nossa história. Ele é bacharel pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e possui pós-graduação na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mas seu maior interesse por armas de fogo flui através do trabalho voluntário que realiza desde outubro de 2016 no Museu da Polícia Militar do Estado de São Paulo, onde atua como Diretor Jurídico da Associação de Museus e curador de armas.
Já Luke Mercaldo é um pesquisador norte-americano, nascido em Nova York e residente em Chicago, sendo autor do livro Allied Rifle Contracts in America, publicado pela Wet Dog Publishing, além de vários artigos em revistas especializadas nos Estados Unidos e Inglaterra.
Segundo Douglas, até o presente momento nenhuma revista especializada em armamentos nos Estados Unidos havia publicado algo sobre o cangaço e os cangaceiros. Para ele existe um grande “buraco negro” para estudiosos de outros países sobre o tema, ou que desejam saber mais sobre armamentos utilizados no Brasil durante vários episódios da nossa história.
Através do WhatsApp ele me comentou que vem investindo bastante nessa ideia de divulgar lá fora a história militar brasileira e a história dos armamentos por aqui utilizados, sempre em parceria com o Museu da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
Um dos materiais produzidos por Douglas Aguiar e Luke Mercaldo nos
Estados Unidos, desta vez com o foco na Revolução Constitucionalista,
que ocorreu entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932.
Apesar da tarefa quixotesca de escrever sobre as armas brasileiras e da sua utilização em nossa história, os autores Douglas Aguiar e Luke Mercaldo emplacaram em revistas americanas outras matérias que giram em torno da mesma temática, ou assuntos correlatos.
Winchester modelo 1873.
Eles produziram duas matérias sobre as medalhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira), que foram publicadas no na revista Military Trader e no jornal da Orders & Medals Society of America (OMSA – https://www.omsa.org/ ), sendo que esse último trabalho foi muito bem avaliada pela OMSA e os autores foram agraciados com a Literary Medal – a primeira vez que esse prêmio é conferido a autores que não são membros dessa Sociedade.
Outros artigos foram publicados junto à Associação de Colecionadores de
Armas Colt (Colt Collectors Association) e na prestigiada American
Rifleman – a revista da National Rifleman Association (NRA). O autor desse texto junto com Douglas Aguiar na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo.
O responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA e autor dessas linhas, fiquei
muito agradecido pelo reconhecimento dos autores com a minha pequena
contribuição nesse inédito trabalho.
Fonte – Revista O Cruzeiro, Edição de 05 de dezembro de 1964, págs. 28 a 33.
Esse material que transcrevemos foi produzido em 1964 pelo
falecido jornalista Audálio Dantas, quatro anos antes da finalização da
construção do açude Cocorobó, uma obra do Governo Federal que cobriu a
antiga Canudos. Audálio foi até o sertão baiano para conhecer aspectos e
fatos do lugar antes da obra ficar pronta e percebeu que aquela
barragem não conseguiria apagar a História de um dos maiores e mais
sangrentos conflitos brasileiros. Quando ele lá chegou haviam se
passados 67 anos do final da Guerra de Canudos, mas o jornalista Audálio
conseguiu interessantes relatos de poucos sobreviventes ainda vivos e
até mesmo de um ex-combatente, um menino na época da guerra, chamado
Antônio Bruega. Realmente um relato muito interessante.
No ano 1896, meados de novembro, o Governo, que morava e dava
presença somente nas “terras grandes” de perto do mar, chegou pela
primeira vez às terras do sertão de Canudos, num ranger de dentes, para
combater o povo de lá, que andava de cabeça virada por causa de um certo
Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como “O Conselheiro”.
O governo era a República, há pouco nascida; e, até então, como no
“tempo do Rei”, o sertão vivia ignorado. Foi preciso que um homem de
longos cabelos desgrenhados, vestido num camisolão azul atado à cintura
por um cordão de frade franciscano, gritasse por todo o sertão o seu
grito louco de “enviado de Deus”, a anunciar terríveis profecias e
depois amaldiçoar a República — a “Lei do Cão” — para que o Governo
desse presença no sertão de Canudos, síntese de muitos sertões.
Antigo cruzeiro de Canudos na década de 1940.
Só que aquele sertão estava em pé de guerra “de nação contra a mesma
nação” — a guerra mais terrível que já se travou em terras do Brasil.
Tenente Pires Ferreira, com 104 soldados, foi quem primeiro chegou lá,
em nome da República, para dar combate ao grupo de “fanáticos
monarquistas” de Antônio Conselheiro, gente que do rei só ouvira falar.
Chegar a Canudos, que ficava, com seus cinco mil casebres, no meio do
sertão mais brabo da Bahia, os soldados não chegaram. Voltaram de Uauá,
depois de uma batalha terrível; a tropa fora assaltada de surpresa por
um bando de jagunços que até ali chegara de madrugada, numa fantástica
procissão em que se misturavam aos estandartes religiosos as
espingardas, os facões, os chuços de vaqueiros, as foices — as armas que
possuíam para enfrentar a “força do governo”, bem aparelhada com armas
de repetição.
Foi uma luta desigual, muita gente do sertão caiu, dez
soldados também.
O chão do Uauá ficou encharcado de sangue — o primeiro
sangue que correu na guerra fratricida. E muito mais sangue correria, do
ano 1896 ao 1897, mês de outubro, quando Canudos — Jerusalém cabocla,
tapera mártir — foi arrasada a ferro e fogo sem se render, porque homem
nenhum de lá ficou de pé. Lutando por um Deus vingativo que lhes
anunciava Antônio Conselheiro e vagamente por um regime de governo que
para eles fora sempre uma abstração, aqueles sertanejos broncos
escreveram páginas incomparáveis de heroísmo.
Durante quase um ano, a
guerra ensanguentou o chão seco do sertão, para onde convergiram forças
militares de todo o país. E, depois de sucessivos reveses sofridos pela
“força do governo”, que os jagunços, diante de suas vitórias, já
chamavam de “fraqueza do governo”, houve o grande cerco final, a
fulminante investida de milhares de soldados contra a fortaleza de
Canudos. E não restou pedra sobre pedra: ficaram “muitos chapéus e
poucas cabeças”, conforme anunciara muitas vezes, em suas delirantes
profecias, Antônio Conselheiro.
Foto
de Audálio Dantas em Canudos, cujas edificações e ruínas aqui mostradas
se encontram cobertas pelas águas do Açude de Cocorobó. O que as fotos
desse texto mostram é na verdade a segunda vila de Canudos, pois a
primeira foi arrasada pelo Exército Brasileiro após a vitória sobre os
seguidores de Conselheiro.
A República, que ignorava aquele povo e não soubera julgar as
verdadeiras razões de sua loucura coletiva, cometera o que Euclides da
Cunha, o grande intérprete dos sertões, tão bem classificou de “crime da
nacionalidade”. Mas a honra da República fora salva. Canudos, a imensa
tapera que se erguera à beira do rio Vaza-Barris como uma cidade
sagrada, para acolher o “povo escolhido de Deus”, transformou-se num
montão de ruínas e de cadáveres insepultos. Os “monarquistas fanáticos”
haviam finalmente sido exterminados. Mas um dia, poucos anos depois da
tragédia, gente daquele mesmo povo voltou e ergueu no mesmo local — o
imenso cemitério em que se transformou Canudos — outro povoado. De gente
pacata, talvez a mais pacata desta nossa vasta República.
Canudos viveu, desde o seu ressurgimento, por volta de 1907, até
1951, a sua vida “sem muita vida”, a modorrar sob a soalheira que faz o
mundo tremer. Vida igualzinha à de centenas de outros povoados dos
sertões. Continuava esquecida pelo governo da República.
Gente de lá só era lembrada de vez em quando, após a passagem de um
repórter ou de um turista mais contemplativo. Ainda se encontrava
jagunço brigador com nome bem grande gravado na História, como Pedrão e
Manuel Ciríaco, que saíram antes do extermínio. E poetas sertanejos,
contando e cantando em versos as histórias dos Belos Montes do
Conselheiro e das lutas ferozes que se travaram nas caatingas. Gente de
lá, basicamente a mesma dos tempos do Conselheiro, só não sabia era
explicar aquelas histórias. Os mais velhos, no seu jeito desconfiado,
ainda evocavam a figura do grande místico com uma simpatia mal
disfarçada. Alguns deles até se lembravam de frases pronunciadas pelo
Conselheiro nos sermões pregados na igreja nova, que também foi
fortaleza e terminou sendo destruída por balaços de canhão. Palavras que
têm também assentamento fiel na História, como aquela profecia, que
escreveu assim: “Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o
certão, então o certão viverá praia, e a praia viverá certão”.
Foto de Audálio Dantas em Canudos.
O sertão do Conselheiro, pregador inculto que se abeberara nuns poucos livros litúrgicos, como Horas marianas e Missão abreviada,
era ainda mais sertão, assim escrito: “certão”. Um sertão que seria
redimido no dia em que o rebanho de gente das “terras grandes” de perto
do mar visse a grande transformação e corresse para lá, terra que
deixaria de ser “certão”.
Pois o povo mais velho de Canudos contava essas histórias, a olhar
para os lados do Vaza-Barris, rio que corre por lá, quando o governo da
República chegou pela segunda vez e anunciou: “Canudos será destruída”.
Acreditaram uns, não acreditaram outros: só se fosse ainda por castigo.
Mas a sorte de Canudos estava selada, escrita nuns papéis trazidos por
um doutor engenheiro — o projeto de uma barragem para represar as águas
do Vaza-Barris, na garganta de Cocorobó, e sepultar sob as águas todo
aquele trágico pedaço de chão.
Canudos na década de 1940.
Quase certo, gente mais velha de lá deve ter pensado que a profecia
do Conselheiro estava por se cumprir e que chegada estava a hora de o
sertão virar praia. Um poeta sertanejo logo escreveu versos saudando as
águas que viriam, purificadoras, para matar a sede e criar vida e para
fazer praias enfeitadas com muita fartura de legumes nos lugares onde só
há mandacaru e xiquexique. As águas que chegariam “procurando dar aos
sertanejos agasalho e dos mortos de Canudos apagando o pó”. E outros
versos compôs o poeta, chamado José Aras, enquanto os engenheiros faziam
os primeiros estudos no local destinado à barragem:
O vasto cemitério de Canudos
Coberto d’água será um dia
A lua melancólica e os astros mudos
Glorificarão os mortos em harmonia.
Foto Audálio Dantas.
Foi assim, em alvoroço sertanejo, que o povo do sertão de Canudos
recebeu os homens do governo que lá chegaram com a missão de destruir
pela segunda vez o arraial. A República se fizera novamente presente, só
que agora a missão era de paz. Em lugar de canhões e das “manulichas”,
vieram máquinas de escavar terra, que logo começaram, como enormes e
estranhos bichos, a roncar nas margens do Vaza-Barris, na garganta do
Cocorobó, exato lugar onde os jagunços comandados por Pedrão lutaram uma
luta terrível contra cinco batalhões comandados pelo General Savaget.
Pedrão, a quem Euclides da Cunha chamou de “o terrível defensor de
Cocorobó”, ainda estava vivo (morreu em 1958) e foi muitas vezes
assistir àquela invasão. Olhava, com admiração quase infantil, o
trabalho daquelas máquinas — a nova “força do governo” — que roncavam na
beira do Vaza-Barris, cujas águas vira muitas vezes tintas de sangue.
Pedrão morreu e não viu o açude, as águas claras da paz a fazer o sertão virar mar.
Porque a missão de paz do governo em Canudos foi, aos poucos,
transformando-se numa guerra contra o povo de lá. Dessa vez, apenas uma
irritante guerra burocrática, de marchas e contramarchas, enquanto se
joga dinheiro na garganta do Cocorobó e — diz o povo, voz de Deus —
também em gargantas muito maiores, de gente que manobra com ele.
Foto Audálio Dantas.
Em 1954, três anos depois de iniciadas as obras da barragem, o
Departamento Nacional de Obras Contra as Secas — Dnocs — já promovia
desapropriações de casas e roças no povoado de Canudos e em toda a área
prevista para ser inundada (26 quilômetros quadrados). Pela casa de
Maria Mendes, irmã de Manuel Ciríaco, sobrevivente da guerra anterior,
deram 2.600 cruzeiros, que terminaram se reduzindo a 1.900, porque um
tal de procurador que foi receber o dinheiro em Salvador cobrou 700 pelo
trabalho. Quem tinha roça de beira de rio, com muito legume crescendo,
também recebeu seus “poucos contos de réis” e ficou desorientado, sem
saber se continuava ou não, pois, enquanto uns diziam que “o açude vai
ficar pronto no ano que vem”, o pessoal do governo não informava nada
com precisão. Muitos abandonaram casas e roças, antes que um dia vissem a
inundação. Em muitos casos o dinheiro recebido a título de indenização
não deu nem para as despesas da mudança. Desse jeito, em verdade, o
açude de fazer o sertão virar mar não era construído para o povo de
Canudos, indiretamente expulso do seu pedaço de chão — o chão seco e
triste da caatinga, mas o chão amado de sempre.
Há os que ficaram, à espera da água (Canudos ficará sob 11 metros de
água), e há os que vieram ocupar casas vazias, gente retirante de outros
sertões. Enquanto isso, a barragem subia, a barragem descia, porque
primeiro ia ser uma barragem em curva, mas depois os técnicos
descobriram que era melhor uma barragem reta. E recomeçaram tudo, entra
engenheiro, sai engenheiro, obras param e obras recomeçam, até hoje,
treze anos depois daquele dia em que o governo da República chegou a
Canudos em missão de paz.
Ruínas de casas de Canudos na década de 1940.
Nem um engenheiro nascido nas mesmas terras de Canudos, chamado
Accioly, conseguiu levantar a barragem. Saiu de lá em julho deste ano e
foi responder a um inquérito, acusado de desvio de verbas e material.
Agora, lá estão dois novos engenheiros — Waldemar Correia Lopes e
Antônio Carlos de Mello — em nome do governo atual. São moços e estão
com vontade de trabalhar. Mas não sabem — nem podem dizer — quando o
açude estará terminado. Tudo dependerá, naturalmente, da boa vontade (e
das verbas) do pessoal das “terras grandes” de perto do mar e agora
também das terras de outro sertão — Brasília.
O açude que o povo de Canudos espera será possível quando estiver
concluída a barragem reta, a última a ser projetada, de 1.300 metros de
extensão, 32 metros de altura e 196 metros de largura (na base). Os dois
novos engenheiros encontraram as obras na seguinte situação: prontas as
fundações e iniciados os trabalhos de construção de um enrocamento de
sustentação da barragem, que será de terra. Atualmente se processa
também o tratamento de rocha das fundações, por meio de injeção de
cimento. Isso feito, a barragem poderá ser erguida acima do nível do
rio. Se houver os recursos necessários, será possível barrar as águas do
Vaza-Barris no próximo ano, aproveitando-se o período entre duas
enchentes (o rio é seco praticamente durante dez meses). Se isso for
conseguido, em janeiro de 1966, quando se comemora o centenário de
nascimento de Euclides da Cunha, as terras de Canudos começarão a ser
cobertas pelas águas que apagarão, simbolicamente, uma imensa nódoa em
nossa História. Os senhores das verbas poderão prestar essa homenagem ao
nosso grande escritor, ao mesmo tempo que acabarão com a angústia do
povo que tão bem ele soube interpretar. Depois, o açude não será só “um
mar no meio do sertão”; será, principalmente, fator de melhoria para o
povo de lá. A Várzea do Canché, de terras planas e boas a se estenderem
até os limites de Jeremoabo, está incluída no plano de irrigação (10.000
hectares) que empregará as águas represadas. Não se destruirá Canudos
em vão.
Construção do Açude de Cococrobó em 1964 – Foto – Audálio Dantas.
A Canudos da espera, do sai não sai, é uma cidade que morre aos
poucos, por causa desse açude que o governo mandou fazer em Cocorobó.
Uma agonia que se prolonga há treze anos. Gente de lá, hoje, vive como o
próprio lugar: bocejando à espera do último dia, que poderá ser daqui a
um ano, ou dois, ou dez, quem sabe?
São umas noventa casas, a maioria em ruínas. Umas vinte e poucas
famílias têm morada lá, umas vivendo de plantar em tempo de chuva e
criar bode; outras, do trabalho na estrada que passa perto ou nas obras
do açude (em Cocorobó moram umas 2.000 pessoas, gente dos trabalhadores
nas obras); e outras, “do que Deus for servido”. Ao sol, presença
constante de todos os dias, Canudos é já uma cidade morta. A paradeira, o
mormaço a tudo encobrem — casas e gentes. Vez ou outra, uma velha de
xale negro à cabeça atravessa a praça, em pleno tremer do sol sobre o
chão avermelhado e seco. Mas passa como uma sombra, quase irreal, e logo
desaparece, engolida por uma porta qualquer.
Sinal de vida, vida, que ainda há são os meninos que aparecem quando o
sol se faz menos presente, nos fins de tarde, a brincar no vazio da
praça ou por entre as ruínas do que já foi casa de moradia. Esses
meninos, que se misturam aos bodes saltadores em seus brinquedos,
ignoram a agonia de Canudos, como ignoram o drama terrível que ali se
desenrolou. Essas casas que restam intactas e as ruínas em meio às quais
eles brincam foram edificadas com o barro embebido de sangue e sobre os
ossos dos que tombaram, indomáveis. Essas crianças e esses bodes pulam,
alegres, no chão do maior cemitério nacional. Um cemitério que se fez
um povoado e agora agoniza. Até o dia de ser sepultado para sempre sob
as águas.
Memória de Antônio Bruega, que dá testemunho de tudo
E disse Antônio Bruega, que foi menino de olhos e ouvidos abertos para tudo o que aconteceu:
Tudo aquilo foi uma “ordem”, muito alta, que tinha de ser cumprida, umaprofecia que corria o Mundo dando o aviso: neste sertão vai ter uma guerra deirmão contra irmão.
E disse mais Antônio Bruega, ao começar a dar seu testemunho, na sala
de chão batido de sua casa, no meio da caatinga, três léguas distante
de Canudos:
A verdade eu falo; gosto da verdade e não piso nela, senão escorrego e caio.
Do apóstolo Antônio Conselheiro e do que veio depois por via dele,
nos espantos do sertão, é que Antônio Bruega, de nome verdadeiro Antônio
Ferreira Mattos, dá testemunho de muito valimento, porque dele nunca
antes se ocupou repórter perguntador nenhum. Não foi ele nenhum jagunço
brigador, que idade para isso não tinha nos tempos da guerra. Mas viu e
sentiu tudo — o desenrolar daquele drama sem paralelo na História.
Antônio Bruega, ex-combatente da Guerra de Canudos, clicado por Audálio Dantas.
Só sei que eu tinha treze anos em 1897, porque assim falou meu pai dentrodum piquete, uns dias antes do fim de tudo. Agora, o senhor faça a conta econfira: já vou entrando nos oitenta. Mas memória boa eu tenho e vou contartudo, exato como foi.No princípio, pelos 1893, quando o Conselheiro chegou nos Canudos, já foipor via de um destempero que houve no lugar Bom Conselho, onde ele serevoltou e disse pro povo não pagar os impostos pra Lei da República. Saiu delá já sabendo que vinha força atrás dele. E levou muita gente, no rumo deCanudos, mas parou no Massetê, e lá a força o alcançou, e houve briga, e houvesangue.Era a “ordem” que principiava a ter cumprimento, vigie o senhor.
Contar esse pedaço de história, de que não foi testemunha de vista,
Antônio Bruega conta porque ouvia tudo da boca dos mais velhos, “dentro
do Canudo”, antes e durante a guerra que lhe matou pai, mãe e seis
irmãos. Dentro de Canudos, mesmo, ele viveu e sobreviveu para contar
tudo. Foi no tempo que durou a guerra. O pai tinha roça ali perto, nos
lados do Angico, uma légua retirada. A gente dele ia quase todo dia
ouvir sermão do Conselheiro e, quando começou a chegar tropa do governo,
foi toda morar “dentro da rua”, onde havia mais proteção.
Como era o Conselheiro?
Ah! Era ver um dos apóstolos. O trajamento era comprido, batendo nos pés, eo cabelo batia no ombro. E dizia pra ninguém aceitar a Lei da República, quede Deus não era. Quem estava do lado de Deus Bom Jesus não morria; só faziase mudar pro céu.
Antônio Bruega.
O menino Bruega, como toda a gente que lá vivia, acreditava em
verdade que o Conselheiro era santo mesmo. E hoje, pelo sim, pelo não,
há a dúvida, Bruega nega e afirma. E a justifica:
Naquele tempo todo mundo dizia que ele era santo, e eu também acreditava.
Não era o Santo Conselheiro figura que se mostrasse a toda hora, não
senhor. Vivia quase sempre dentro da casa dele, com guardas e beatos.
Bruega o viu nos sermões e quando, já a guerra tomando conta do sertão,
mandava fazer fogueira com o dinheiro maldito da República. E quando, um
dia, uma tropa tomando chegada, os homens foram ouvi-lo sobre o que
fazer. Quem mandar para receber a “fraqueza do governo”? E
respondeu-lhes o Conselheiro:
João Abade ou qualquer outro desses homens de vergonha.
Canudos no final da década de 1960, próximo do momento que o local seria coberto pelas águas do Cocorobó.
Menino Bruega viu muito e ouviu muito, da igreja nova, na beira do
Vaza-Barris, na Rua da Caridade, num dos extremos da cidadela de
Canudos. E muitos foram os seus espantos, nesse ver e ouvir. Um foi no
dia em que as tropas do Major “Febrone” (Febrônio de Brito) chegaram à
serra do Cambaio, já esperadas pelos jagunços entrincheirados. Bruega
faz um parêntese na sua história e diz que “na obra deles (a história
escrita fora do sertão) escreveram que era 8 mil jagunços, mas não era,
não”. Pois naquele dia, bem cedinho, o pai mandou-o à roça, no Angico, a
ver se a chuva (caíra trovoadão na véspera) não enchera demais o riacho
das Umburanas e invadira as plantações. Foi e voltou, numa carreira.
Quando estava numa baixada, perto do Alto do Mário, ouviu o estrondo de
um trovão. Olhou pro céu, estava limpo, sem nuvem nem jeito nenhum de
chuva. Houve o segundo estrondo, e “então eu conheci que não era trovão,
era o fogo da tropa, era o fogo da ‘peça’ (canhão) de que tanto o povo
falava na rua”. Quando chegou a Canudos, viu o alvoroço, que um aviso
tinha vindo do Cambaio — “morreu muita gente nossa”. O irmão mais velho
dele estava lá, e o menino pensou com mais intensidade na morte.
Mandaram um reforço — “uns 50 homens, que não mandavam de muitos, não”.
João Abade era quem escolhia os combatentes e dizia: “Vão vocês, se
tiver precisão, vai mais”.
Naquele fogo morreu gente muita, gente da Rua do Canudo, no combate quese deu na Lagoa do Cipó, lugar de acampamento do Major “Febrone”. Água dalagoa, depois, ficou uma vermelhidão e ficou sendo aquele lugar chamado aLagoa do Sangue.
O mesmo local da foto anterior no ano de 1964 – Foto – Audálio Dantas.
Bruega dá testemunho, bem dado, e tudo confere com a História, com
pequenas diferenças, principalmente de pontos de vista, que o dele é o
do povo de Canudos, já se vê. Major “Febrone”, militar de muita
correção, viu que a luta, naquelas condições encontradas na caatinga,
que seus soldados não conheciam, com gente braba como aqueles jagunços,
seria um inútil derramamento de sangue. E ordenou a retirada. Arma de
soldado, ficou por lá, na caatinga, e serviu para os combates que vieram
depois. Como o de Moreira César, que chegou “num cavalo pampa do
tamanho desta casa”, querendo acabar com Canudos num instante e terminou
se acabando ele, quando já ia entrando na rua. Foi um tiro que um
jagunço deu, e o comandante ferido foi a desgraça da tropa, que terminou
numa debandada de fazer dó, a correr pela caatinga, “os macacos na
frente, os jagunços atrás deles”. Na debandada deixaram até o corpo do
comandante ferido no caminho.
E disse Bruega:
Foi muita gente fidalga correndo de pé no chão!
E veio o fim, depois, quando chegaram forças de tudo que era lugar,
mais de 5 mil soldados, para acabar tudo de uma vez, cercando Canudos
por todos os lados. Quem tinha saído antes, muito bem; quem não, jeito
nenhum tinha mais “nem que a gente voasse, mesmo assim era derrubado;
quanto mais andando no chão”. O cerco durou muitos dias, pra deixar o
pessoal sem remissão de comida e de água. E quem não morreu de fome e de
sede morreu no grande incêndio final. Restavam poucos homens para a
luta, assim mesmo com fome e sem munição. Nem respondiam a tiro de
soldado, pra não ficar sem bala na hora de uma precisão maior. E o
bombardeio era de manhã a noite, sem paradeiro. Mulher e menino ficavam
dentro da igreja toda de pedra ou não davam presença na rua.
Foi em Canudos que o gênio de Euclides da Cunha criou a frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E é mesmo!
No dia do fim de tudo, o menino Bruega estava num piquete, junto com o
pai. Quem comandava era um Antônio Félix do Campo Alegre, morador na
rua que lhe dava o nome. A força foi apertando o cerco, assim “como quem
fecha a boca de uma mochila”. Do piquete, o menino via “o mundo
fervendo”. O tiroteio era tão grande “que tomava as oiças da gente e
estremecia a terra”. Assim ele considerava quando veio um portador, com
aviso:
Vamos socorrer a igreja, que os soldados estão entrando!
Os que estavam na Rua do Campo Alegre eram os últimos defensores de
Canudos. E desceram na direção da igreja-fortaleza, mas não tiveram
valia, que os soldados já a haviam tomado. Gente de Canudos brigava como
podia, no ferro frio, que munição já não tinha.
Canudos na década de 1940.
Antônio Félix do Campo Alegre descobrira uma trincheira, buraco no
chão, e lá ficou. Foi quando um beato do Conselheiro levantou uma
bandeira branca e desceu na direção da igreja, para pedir paz. Depois
voltou dizendo que todos se entregassem, mas ninguém quis isso, não.
Antônio Félix do Campo Alegre disse, o menino Bruega ouviu e agora dá
testemunho:
Se esse beato vier aqui, o primeiro a atirar nele sou eu!
Antônio Félix do Campo Alegre morreu no seu buraco, com outros
companheiros, a ferro frio. O irmão do menino Bruega, Evaristo, foi
apanhado vivo naquele dia, mas morreu no outro, degolado, como todos que
escaparam do fogo vingativo da República. A mãe morreu sob os escombros
da igreja nova, e ele ficou na casa de uma tia, de nome Rufina, até que
a fome e a sede o levaram aos vencedores. Queria se entregar de noite,
mas a tia disse que não, porque soldado, embriagado pela vitória, andava
abusando de mulher que pegava de noite na rua. Por isso, muitas delas
se jogavam nos incêndios dos casebres, com os filhos, para não sofrerem a
afronta.
Foto Audálio Dantas.
Com Antônio ficara o irmão menor, chamado Pedro, de 6 anos. E foram,
junto com as mulheres e outros meninos, para um campo de prisioneiros no
riacho do Papagaio. Deitaram-se na areia, exaustos, mas soldado não
deixava ninguém dormir, não, senhor. Obrigavam a gente jagunça a dar
vivas à República vitoriosa.
Viu soldado procurar arma enfiando a mão em seio de mulher. E pensou,
lembrando os sermões do Conselheiro, que aquilo era a Lei da República,
“Lei do Cão”!
Depois foi a marcha dos prisioneiros — só mulheres e crianças, que os
homens morreram todos — no rumo de Monte Santo. E a ordem era matar
quem parasse no caminho. Dividiram os prisioneiros em grupos, cada qual
vigiado — aqueles infelizes rotos e mortos de fome — por 10 ou mais
soldados.
Como
se encontrava na década de 1940 o canhão inglês Withworth de 32 libras,
a famosa “Matadeira”, utilizado pelo Exército em Canudos e destruído
corajosamente pelos seguidores de Antônio Conselheiro.
No grupo que ia ele, uma mulher ferida na perna, de nome Juana, não
aguentou, apesar de todo o esforço. Foi quando pararam para beber água
no Calumbi que Juana disse: “Não aguento mais, valha-me Nossa Senhora”,
mas as companheiras a animaram, e ela conseguiu ir até o lugar chamado
Boa Esperança e lá caiu. E então três soldados descarregaram as
carabinas nela. Menino Bruega olhou pra trás, mandaram que ele olhasse
para a frente. Ele mesmo tinha ferimentos (nas mãos e na clavícula),
cujas marcas tem até hoje, mas olhou sempre para a frente. Até chegar a
Monte Santo, prisioneiro da República.
Logo a República perdoou àquele menino o crime de haver nascido em
sertão de tão longe. E ele voltou ao chão de Canudos, para ser pastor de
bodes. Hoje, sem querer e sem dizer, é ainda jagunço — na paz de sua
caatinga. Quando dava o seu testemunho, dividia bem o seu povo (“nós”) e
os de fora (“eles”).
— Quando os “macacos” vieram aqui…
— No tempo da guerra?
— Não, senhor, outro dia mesmo.
Velho Bruega falava de uma comissão militar que estivera há poucos dias em Canudos.
O ataque de Lampião e seu bando de cangaceiros a Fazenda Morada Nova, Pau dos Ferros, RN
Por Rostand Medeiros
No ano de 2010 soube do desenvolvimento do “Projeto Território Sertão
do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às
Pequenas e Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte –
SEBRAE/RN, do qual a gestora era a competente consultora Kátia Lopes.
Fui ao seu encontro soube que Kátia planejava criar um grupo para
percorrer o mesmo caminho palmilhado por Lampião e seus cangaceiros,
como parte de um amplo reconhecimento histórico. Ali estava uma
oportunidade imperdível de conhecer esse caminho e o que restava de sua
memória.
Foi realmente um momento muito especial e um trabalho maravilhoso.
Depois de 2010 eu tive a oportunidade de percorrer esse caminho em mais
outras quatro ocasiões. As duas primeiras oportunidades, em 2012 e 2014,
foram com pessoas que me contrataram para conhecer trechos no Rio
Grande do Norte, com foco nas áreas da Serra de Martins e de Mossoró. Já
em 2015 estive percorrendo esse antigo caminho dos cangaceiros durante
dezessete dias.
Desta vez partindo da cidade cearense de Aurora, adentrando depois em
território paraibano, percorrendo na sequência todo trecho potiguar e
encerrando na cidade cearense de Limoeiro do Norte. O objetivo da
jornada de 2015 foi à realização da película Chapéu Estrelado, um
documentário de longa metragem da Locomotiva Produções Cinematográficas,
do Rio de Janeiro, sendo dirigido pelo mineiro Silvio Coutinho, com
roteiro de Iaperi Araújo e produção de Valério Andrade e o autor desse
texto, esses últimos potiguares. Apesar de filmado com esmero em sistema
4K, com interessantes depoimentos, esse documentário nunca esteve no
circuito de festivais e, afora algumas exibições em rede nacional
através da TV Brasil, ele foi pouco visto pelo grande público. A razão
principal foi o falecimento precoce do diretor Sílvio Coutinho, ocorrido
no ano de 2018, em decorrência de um ataque cardíaco fulminante,
ocorrido no Rio de Janeiro.
Trajeto
dos cangaceiros em 1927, em um mapa do Exército Brasileiro, em escada
de 1:100.00, com as propriedades invadidas marcadas. Existe um erro no
mapa, pois um dos locais atacados foi denominado como “Carícia”, quando o
certo é “Caricé”.
A última oportunidade se deu em 2017, quando uma grande parte do
trajeto com o artista plástico e fotógrafo Sérgio Azol. Potiguar de
nascimento, mas radicado há muitos anos na capital paulista, Azol me
chamou para percorremos esse caminho visando o desenvolvimento de uma
exposição fotográfica a ser realizada em São Paulo. Ele clicou as
paisagens, as vivendas e as pessoas de forma magistral. Aquela era a
segunda oportunidade que percorria o sertão nordestino com Sérgio Azol,
tendo tido oportunidade em 2016 de visitar importantes locais ligados a
história do Cangaço na Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
Essa memória se inicia em um sábado, dia 11 de junho de 1927, o segundo dia de Lampião e seus cangaceiros em solo potiguar.
Antiga casa do Sítio Cascavel, zona rural de Pilões – Foto – Rostand Medeiros
Em meio a um grande lajedo ao norte da atual cidade potiguar de
Marcelino Vieira, os cangaceiros vão acordando e se preparando para
seguir a sua jornada em direção a Mossoró. Após acordarem parte em
direção aos Sítios Cascavel e São Bento, cujas terras em dias atuais são
parte do município potiguar de Pilões. Depois atacam os Sítios Poço
Verde, Poço de Pedra e a Fazenda Caricé, do prestigiado pecuarista
Marcelino Vieira da Costa. Sobre o assalto ao Caricé vejam esse texto
que escrevi, onde trago alguns detalhes do episódio – https://tokdehistoria.com.br/2019/02/10/marcos-de-religiosidade-no-caminho-de-lampiao-no-rio-grande-do-norte/
Punhal de um cangaceiro deixado no Sítio Poço de Pedra, zona rural de Pilões-RN – Foto – Rostand Medeiros
A partir da velha Fazenda Caricé, mesmo a distância, já é possível
visualizar o grande maciço rochoso que formam as Serras de Martins e de
Portalegre, onde se encontram alguns dos pontos de maior altitude do Rio
Grande do Norte, com locais que ultrapassam os 800 metros. Essas duas
grandes elevações se interpunham diante daqueles viajantes que seguiam
em direção a Mossoró vindos do extremo oeste da Paraíba. Para os
cangaceiros continuarem em busca do seu alvo principal, vários caminhos
se colocavam a disposição. O matreiro Lampião, certamente secundado por
Massilon, o mais experiente de todos aqueles bandoleiros em relação aos
caminhos potiguares, perceberam que teriam de optar por um desses
caminhos.
O primeiro trajeto poderia ser: subir a Serra de Martins, passar pela
cidade homônima e descer do outro lado da elevação. Bastava seguir pelo
antigo caminho que ligava essa cidade até a Vila de Alexandria. Segundo
as pessoas da região, partes do antigo trecho dessa estrada ainda
existem, fazendo parte da atual rodovia estadual RN-075.
Aspecto dos caminhos dessa região– Foto – Rostand Medeiros.
O segundo caminho, caso o grupo desejasse seguir em direção a Mossoró
sem passar pela cidade de Martins, poderia ser feito do seguinte modo:
cavalgar até a extremidade oeste do grande maciço rochoso. Nesse caso,
os cangaceiros fatalmente chegariam próximo de Pau dos Ferros. Então,
depois de passar ao lado da serra, eles percorreriam a antiga estrada
que seguia pela cidade de Apodi e, depois de vários quilômetros,
chegariam a Mossoró.
Teoricamente, esses dois caminhos não trariam maiores problemas para
um viajante comum. Entretanto, aquele estranho grupo de homens armados
poderia ser classificado de tudo, menos de “viajantes comuns”.
Desde a saída do bando no Ceará, os celerados deixaram de lado a
discrição, passando para a prática aberta de toda sorte de delitos,
chamando a atenção das autoridades potiguares. Inclusive, essas
autoridades já tinham entrado em contato e combatido o grupo na Caiçara.
Mesmo com a derrota da polícia estadual naquele entrevero, Lampião
sabia que a qualquer momento as forças do governo potiguar poderiam dar o
devido revide. Se decidissem subir a serra, poderiam facilmente
esbarrar em um piquete de homens armados, já previamente alertados. Como
o bando tinha poucos recursos humanos e bélicos para realizar combates
contínuos, esse possível confronto poderia infringir sérios problemas
aos cangaceiros na tentativa de galgar a grande serra.
Rostand Medeiros diante da capela da Fazenda Caricé, zona rural de Marcelino Vieira – RN em 2015 – Foto – Silvio Coutinho.
Se o bando seguisse próximo da cidade de Pau dos Ferros, a maior e a
mais policiada da região, para depois trotarem em direção a Apodi (uma
cidade invadida por Massilon apenas um mês antes), fatalmente homens
armados poderiam estar aguardando o grupo em um desses locais, ou nos
dois. Aí os resultados desses novos tiroteios poderiam ser extremamente
negativos. Deve-se levar em consideração que, além da polícia potiguar,
Lampião se preocupava igualmente com a polícia de outros estados no seu
encalço, principalmente a paraibana.
Lampião na Fazenda Morada Nova
Havia outra alternativa: era possível contornar o grande maciço
através da extremidade mais a leste dessas elevações, passando por um
caminho que os levariam para a Vila de Boa Esperança, atual município de
Antônio Martins.
O grupo de bandoleiros então se afastaria de áreas onde
presumivelmente haveria mais atividade policial, poderiam então alcançar
zonas teoricamente mais desprotegidas e possivelmente ainda não
alertadas da presença deles na região. Esse caminho se mostrava mais
promissor!
Casa da Fazenda Morada Nova, zona rural de Pau dos Ferros – RN – Foto – Rostand Medeiros.
Contudo, aparentemente, essa decisão não deve ter ocorrido antes ou
durante a passagem pela Fazenda Caricé, pois, logo depois da saída da
propriedade do fazendeiro Marcelino Vieira, os cangaceiros seguiram
primeiramente na direção sudoeste, apontando para a cidade de Pau dos
Ferros. Após rápida cavalgada, surgiu o próximo alvo daquela jornada
insana – A Fazenda Morada Nova.
Quando visitei essa propriedade pela primeira vez em 2010, ali
encontrei a senhora Firmina Aquino de Oliveira, então com 95 anos de
idade, e sua nora Maria Ivaneide de Aquino. Ivaneide era neta de Antônio
Januário de Aquino, antigo dono do lugar, que teve a difícil missão de
receber Lampião em 11 de junho de 1927.
Lampião
Elas me informaram que não tinham conhecimento se o parente já
falecido possuía laços de amizade, ou de inimizade, com o cangaceiro
Massilon. Igualmente não souberam comentar se a chegada do bando se deu a
uma indicação desse celerado, ou se a casa dos seus antepassados foi
atacada simplesmente por ter sido um alvo que surgiu à frente do grupo.
Entretanto, essas senhoras relataram que antes do bando chegar à casa
de Aquino, que não mais existia em 2010, eles arrombaram uma residência
onde vivia um trabalhador da propriedade, que juntamente com sua
família fugiu para o mato. Logo os bandidos pararam diante da casa
grande da Fazenda Morada Nova.
Além do proprietário, na casa estavam sua mulher Raimunda Nonato de
Aquino, seu filho Cosme e suas três belas e jovens filhas, Raimunda,
Arcanja e Maria. Segundo Sérgio Augusto de Souza Dantas (Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada,
1ª edição, págs. 119 e 120), foi exigido alimentos e dinheiro ao dono
da Fazenda. Antônio Aquino era um produtor próspero, sendo apontado
inclusive como dono de um engenho de açúcar e aguardente.
Diante da beleza das moças, alguns cangaceiros logo se mostraram
interessados nas meninas. Sérgio Dantas relatou que Aquino pediu
proteção a Lampião, que prontamente refreou os ânimos da cabroeira e o
próprio chefe chegou a pedir desculpas ao pai das jovens pela falta
cometida pelos seus homens. Após varejarem toda a casa e retirarem o que
os interessava, a malta de bandidos seguiu viagem.
A Foto
As senhoras Firmina e Maria Ivaneide comentaram que a passagem do
bando causou extrema comoção entre os membros da família Aquino.
Todavia, Antônio Januário se sentiu até mesmo com “sorte”, pois, apesar
de ter havido perda material com o saque praticado, o fato das suas
filhas não haverem sofrido qualquer tipo de violência, principalmente
sexual, foi considerado um resultado extremamente fortuito diante da
extrema gravidade do problema.
No dia 11 de novembro de 1928, um domingo, quase um ano e meio depois
da passagem dos cangaceiros, Antônio Januário reuniu sua família em um
estúdio fotográfico de Pau dos Ferros para a realização de um
interessante instantâneo. Essa fotografia, que trago com exclusividade e
conseguida a partir do material original, possui no verso a seguinte
frase “Uma pequena lembrança que ficará para sempre”.
Bando de Lampião, após o ataque a cidade de Mossoró em 1927.
Nela é possível ver Antônio e sua esposa Raimunda sentados em um
pequeno sofá de madeira e vime, em uma posse de tranquilo comando de
suas vidas e de sua prole familiar, que se encontravam todos presentes.
De pé, logo atrás do móvel é possível ver Cosme, tendo a sua direita
suas irmãs Maria e Arcanja e ao seu lado esquerdo Raimunda. Essa última e
Arcanja trazem dois objetos que escaparam das mãos dos cangaceiros –
são dois belos crucifixos com corrente e pedras.
Depois de observar milhares de fotos antigas, ao longo de vários anos
de pesquisas, posso comentar que, a exceção de Dona Firmina, todos os
outros participantes do instantâneo se vestem com roupas modernas para
os padrões sertanejos do interior potiguar da década de 1920. Inclusive
suas filhas, onde é possível ver Maria e Arcanja utilizando saias acima
do joelho, apesar de estarem com meias. Antônio e Cosme igualmente
seguem um padrão de vestimenta masculina bem moderna para a época. Ao
olhar detidamente essa foto, vejo o registro de uma família que
aparentemente superou o susto causado pelo bando de Lampião.
Violeiros Cantam a História do Assalto
A senhora Ivaneide me comentou em 2010 que nessa propriedade era
comum a apresentação de cantadores de viola afamados da região e até de
outros estados. Mesmo com o crescimento das bandas de forró eletrônicas,
da televisão e outros meios de entretenimento, na época essas cantorias
de viola possuíam público cativo na comunidade.
Casa
da Fazenda Morada Nova em 2010. Reparem os bancos feitos de troncos de
carnaúba, utilizados para a comunidade assistir duelo de cantadores de
viola. Ao fundo o maçiço da Serra de Martins – Foto – Rostand Medeiros.
Ela narrou que era praxe as pessoas do lugar transmitirem para os
violeiros visitantes os acontecimentos testemunhados pela família Aquino
em 1927 e o que eles sabiam do ataque do grupo de cangaceiros a
Mossoró. Com isso, solicitava-se que esses artistas transformassem as
histórias ouvidas em uma cantoria tipicamente nordestina.
Já as estradas existentes entre as propriedades Caricé e a Fazenda
Morada Nova foram sem nenhuma dúvida o pior trecho percorrido para a
realização deste trabalho. As maiores dificuldades se encontravam na já
rotineira falta de sinalização, mas principalmente no péssimo estado de
conservação desses caminhos.
A Fazenda Morada Nova está localizada em um ponto extremamente
afastado de áreas urbanas. A cidade de Pau dos Ferros fica a cerca de 24
quilômetros de distância, já a zona urbana de Pilões se encontra a 16
quilômetros e a cidade de Antônio Martins a 19. Entretanto, o melhor
acesso utilizado é a partir de Antônio Martins, onde o motorista
percorre oito quilômetros de asfalto da rodovia federal BR-226 e depois
segue por mais 11 quilômetros de estradas vicinais. Contudo, nesse caso,
existe a imprescindível necessidade de contar com a ajuda de uma pessoa
da região que conheça o trajeto. Nesse caso eu contei com o apoio do
amigo Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins.
Junto a Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins, na Fazenda Morada Nova.
Atualmente, Pau dos Ferros é a principal cidade da Região do Alto
Oeste Potiguar, com uma população acima de 30.000 habitantes, estando a
389 quilômetros de distância de Natal, ocupando uma área de
aproximadamente 260 km² e possuindo uma história bem antiga.
Acredita-se que a toponímia Pau dos Ferros foi criada a partir de uma
determinada árvore. Essa árvore certamente devia ser um excelente local
para repouso e com ótima sombra, onde vaqueiros viajantes, utilizando
ferro em brasa, deixavam marcado no seu tronco as marcas do gado sob sua
responsabilidade. Em uma época onde as fazendas não tinham arames
farpados e o gado era criado solto, essa prática serviu para esses
trabalhadores conhecerem as marcas de outras propriedades. Isso tornava
mais fácil a identificação dos animais perdidos nos pastos e a
realização de troca das reses encontradas. Não é difícil imaginar como
essa árvore ficou bem conhecida na região. Logo ao seu redor se fixaram
pessoas e isso deu início a uma pequena comunidade. Já sobre a questão
da posse da terra, consta que no ano de 1733, por ocasião da morte do
Coronel Antônio da Rocha Pita, foi doada a sesmaria de Pau dos Ferros a
seus filhos e herdeiros. Um deles, Francisco Marçal, foi a pessoa que
mobilizou os que ali viviam para erguer uma capela em 1738. Somente
através da Resolução Provincial nº 344, de 4 de setembro de 1856, Pau
dos Ferros tornou-se um município, sendo desmembrada da cidade serrana
de Portalegre.
Foto – Rostand Medeiros.
Na trajetória do bando em direção a Mossoró, ao se aproximar dos
contrafortes da Serra de Martins, o caminho percorrido por Lampião
passou onde atualmente estão localizadas as áreas territoriais das
cidades de Serrinha dos Pintos, Antônio Martins, Frutuoso Gomes,
Lucrécia e Umarizal.
Chapéu Estrelado - Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar
Ano: 1927. Lampião, aliado ao jagunço potiguar Massilon Benevides e ao poderoso Coronel cearense Isaías Arruda, tramam a invasão da rica cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Este documentário reúne depoimentos de pessoas que conviveram diretamente com Lampião, algumas na casa dos cem anos, e dos descendentes das vítimas dessa campanha do cangaceiro, além de revisitar em 13 dias, 16 cidades que estão nessa jornada, que começou no Ceará, depois Paraíba e finalmente o Rio Grande do Norte.
Um filme de Silvio Coutinho com produção de Valério Marinho de Andrade, roteiro de Rostand Medeiros e música de Mario Vivas.
Participação especial dos meus amigos Sergio Dantas, Sousa Neto, Rivanildo Alexandrino e José Cícero.
O Rei do Cangaço é o tema do documentário 'Lampião continua aceso', produzido pela TV Justiça. Virgulino Ferreira, trabalhador rural, deu lugar a Lampião, o cangaceiro que amedrontou o nordeste brasileiro por 16 anos. O que levou a essa transformação? Como era a vida fora da lei na Caatinga?
Os amores, os ódios, a morte. Esses sentimentos estão vivos 80 anos depois da emboscada que matou o bando cangaceiro. Lampião continua aceso.
Participação especial do pesquisador e escritor Sergio Dantas.
Marcosde
religiosidade no caminhode Lampião no Rio Grande do Norte
Em 2010, em alternadas viagens, estive percorrendo pela primeira os
cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que
ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927.
Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade
de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna.
Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros
como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.
Para
traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando
de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes
nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia
existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor
de Lampião
e a grande Jornada – A história da grande jornada.
Foram
percorridos muitos quilômetros, onde visitamos vários sítios, fazendas, comunidades e cidades.
Foram entrevistadas123 pessoas e obtidas mais de 2.000 fotos. Em
grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais
eficiente para se alcançar estes distantes locais.
Um dos
fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados
aqueles dias tumultuosos de 1927.
Cruzeiros
marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas
pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização
de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa
situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.
Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse
caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para
a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.
Esses
foram os locais mais interessantes ligados a esse tema e seus respectivos municípios.
MARCELINO VIEIRA
A área
próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e
marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela
longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.
Cruz em homenagem ao soldado Matos.
Sítio Caiçara e a “Missa do Soldado” – Nesse local ocorreu um combate onde morreram o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão.
Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os
fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate
conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José
Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no
dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da
Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente
militar.
Igrejinha onde é rezada a “Missa do Soldado”.
Segundo pessoas da comunidade do Junco, as margens do açude da
Caiçara, de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais, os mais
antigos moradores deram início a um ato religioso. No começo ele
ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo pessoas
entrevistadas na região, o evento sempre atraiu um número considerável
de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”. Com o
passar do tempo à missa transformando-se em uma das mais importantes
tradições religiosas de Marcelino Vieira.
ANTÔNIO MARTINS– ZONA RURAL
Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro
de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em
direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista
Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a
criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em
dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu
viver.
Capela
em honra a Jesus, Maria e José, no sítio Caricé, erguida como promessa
pela salvação da família do Coronel Marcelino Vieira das garras do
bando de cangaceiros de Lampião
Ao saber
da aproximação do bando do cangaceiro Lampião, o fazendeiro Marcelino Vieira decidiu
dormir em uma área onde existia um canavial, próximo ao açude da fazenda. A
chegada do grupo, insuflados por supostas contas a acertar do temível
cangaceiro Massilon Leite com a família Vieira, produziu um saque que resultou
em um prejuízo no valor de um conto e duzentos mil réis. Os celerados deixaram
o lugar antes do meio-dia.
Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.
Interior da capelinha.
Quando a família Vieira e seus empregados estavam no canavial, em
dado momento alguns cangaceiros chegaram a se aproximar do esconderijo.
Diante do que poderia acontecer, com muito medo, a filha do fazendeiro,
rogou intensamente aos céus que os bandoleiros se afastassem.
Vista noturna da capela do Caricé.
Caso isto se concretizasse, ela e sua família tratariam de erguer uma
ermida em honra ao poder de Jesus, Maria e José. Pouco tempo as imagens
foram adquiridas ainda em 1927, tendo sido trazidas da Bahia e que a
primeira missa rezada no local foi verdadeiramente suntuosa. O templo
já apresenta sinais de abandono, com algumas telhas caindo, mas a
estrutura ainda se mantém em grande parte firme.
Serra da Veneza.
Capelinha da Serra da Veneza – Uma interessante situação relativa
à memória da passagem do bando nessa região ocorreu na região da Serra da
Veneza, na fronteira de Antônio Martins com o vizinho município de Pilões.
Nessa elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a
altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado
pela passagem do bando.
Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis
notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas
da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo,
São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o
mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a
mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas
famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um
oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.
Capelinha da Serra da Veneza.
Lampião passou
sem acontecer problemas a essas pessoas. Logo os fazendeiros e seus familiares
foram a Vila de Boa Esperança, como muitos moradores da região, para agradecer
na capela de Santo Antônio pelo fato de nada de pior haver ocorrido. Nesse
local as três famílias se encontraram e ao debaterem sobre os fatos vividos,
para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma
interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos
pensamentos de penitência. Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma
pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza para unidos
edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas
coincidências chamaram a atenção das pessoas na região e logo outros penitentes
subiam a serra para pagar promessas. Em pouco tempo teve início uma procissão e
não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o
passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros
municípios. Em 1948, vinte e um anos após a passagem do bando e do pretenso
milagre, treze famílias deram início a construção da atual capela, em meio a
uma intensa confraternização.
A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como
pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios
vêm participar subindo a serra.
ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA
Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período
da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena
comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as
celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa
maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a
rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da
cavalaria de cangaceiros.
A capela
de Santo Antônio era o principal local em Boa Esperança para realização dos
festejos relativos ao padroeiro local. Nessa festa é tradicional a realização
das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho,
a data consagrada a Santo Antônio, ininterruptamente são realizadas missas,
orações de grupos de pessoas com terços nas mãos, cantos de benditos, encontros
e outras participações da comunidade neste templo cristão. Quando o bando
chegou, haviam algumas pessoas reunidas no local e um grupo de cangaceiros,
visivelmente embriagados, proibiu a saída dos fiéis do local. Essas pessoas
assistiram horrorizadas de dentro da capela o suplício de um habitante local, o
jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a
engolir talagadas de cachaça. Mesmo em meio a essa cena de terror, diante da
igreja aberta e engalanada, soubemos que alguns cangaceiros adentraram o local,
se ajoelharam, se benzeram e saíram sem perturbar os atônitos presentes. Na
saída soltaram Vicente Lira.
Durante
todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do
bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio
Grande do Norte.
LUCRÉCIA
Fazenda Castelo.
Capela da Fazenda Castelo – Após a saída de
Frutuosos Gomes, na zona urbana do município de Lucrécia, as margens da
RN-072, soubemos que o bando realizou a invasão da fazenda Castelo,
propriedade tida como a mais importante da antiga localidade. No terreno
ao lado da sede da fazenda Castelo se encontra uma bem preservada
capelinha dedicada a Nossa Senhora da Guia. Entretanto, ao buscarmos
contato com as pessoas mais idosas em busca da história da capela, não
foi possível um esclarecimento mais exato sobre quem a construiu e se
essa construção tem alguma relação com a passagem do bando de Lampião,
como no caso da ermida da fazenda Caricé. Houve pessoas que indicaram
que a construção foi consequência de uma promessa pela salvação dos
proprietários locais junto a passagem dos cangaceiros, outros indicaram
que ela seria anterior a 1927 e outros apontaram que ela seria posterior
a essa data.
Capela da fazenda Castelo, Lucrécia, Rio Grande do Norte.
Foi
perceptível a necessidade de ampliar as pesquisas sobre o local.
A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por
Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram
um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se
espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com
extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de
Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para
soltar o popular fazendeiro.
Sítio Serrota dos Leites, de onde foi sequestrado o fazendeiro Egídio Dias.
O grupo
era pequeno, com um número que aparentemente chega a quatorze e só quatro
deles, membros de uma família conhecido como “Canelas”, eram os únicos que os
pesquisadores do assunto apontam como possuidores de armas de fogo com alguma
potência. Esse grupo conhecia os caminhos e provavelmente confiaram no fato de
ser período de lua cheia. Onde essa condição facilitaria o trajeto.
Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré,
cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de
bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré.
Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca
de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar,
vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da
Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes.
Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o
resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a
vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro
sequestrado foi terrível.
Cruz dos Três Heróis, ou Cruz dos Canelas.
Apesar de
todo empenho em buscar ajudar o amigo detido, o que o grupo de resgate não
sabia era que a sua ação era totalmente inútil. Algum tempo antes, no bivaque
armado pelos bandidos, em meio ao cansaço generalizado da tropa de Lampião, o
sequestrado conseguiu fugir para o meio do mato.
Atualmente,
as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma
cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da
região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”,
ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem
velas em honra desses homens.
MOSSORÓ
Caso da Igreja de São Vicente de
Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca.
A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos
ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do
Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já
era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20
mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais –
Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde
Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.
Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.
No dia 13 de junho de 1927, após dizer não
a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época
400 milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não
invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os
cangaceiros. A igreja de São Vicente de Paula foi o local principal da
resistência. Lampião costumava dizer que “cidade com mais de uma
torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição,
mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e,
portanto, mais difíceis de dominar. Os ocupantes das trincheiras no alto da
Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do
avanço das tropas. Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os
disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem
incomodados, foram surpreendidos.
Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a
prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo
no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.
Túmulo do cangaceiro Jararaca.
A Jararaca é atribuída todas as crueldades. A mais famosa consistia
em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal.
Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na
direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e
às gargalhadas do cangaceiro.
O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a
crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares
de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais
prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade,
enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem
sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez
morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.
Túmulo de Rodolfo Fernandes.
O famoso chefe cangaceiro deveria ter pensado duas vezes
antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente
a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, o
Lampião. Anualmente, em frente à igreja que funcionou como
trincheira é encenada um musical chamado: Chuva de bala no país de Mossoró, que
remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória.
Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram
bravos sim!
Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos
resistentes?
Por que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a
resistência? Por que as fotos dos heróis da resistência são tão
pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece
até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da
resistência!
Memorial da Resistência.
A história por trás do túmulo de Jararaca se confunde muito
com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca apenas foi
consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para
enaltecê-lo. É perceptível essa situação no próprio cemitério, quando o túmulo
de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao
túmulo onde está Jararaca.