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quarta-feira, 26 de junho de 2019

Destinos diferentes

A família de Lampião em Juazeiro do Norte, CE

Por: Leandro Cardoso

Muita gente não sabe, mas a família de Lampião viveu em Juazeiro do período de 1923 a 1927, com a permissão do Padre Cícero. Na segunda década do século passado, por duas vezes, a família Ferreira teve que se mudar em razão dos entreveros com o vizinho José Alves de Barros, o Zé de Saturnino. Na primeira vez, obedecendo a um pacto de acomodação arbitrado pelo Coronel Cornélio Soares de Vila Bela, mudaram-se para a Vila de Nazaré (hoje Carqueja–PE).

Na segunda vez, demandaram à cidade alagoana de Mata Grande, ocasião em que morreram os genitores de Lampião, José Ferreira (vítima da volante de José Lucena Maranhão) e Dona Maria (vítima de um ataque cardíaco).

Em 1922, o jovem cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, já definitivamente com o pé fincado no cangaço, assume a chefia do bando do célebre Sinhô Pereira, que deixava o Nordeste em fuga para Goiás.

A família Ferreira, sem possibilidade de retornar para Vila Bela, procura abrigo em Juazeiro do Norte. Com a morte dos pais, João Ferreira (o único dos irmãos que não entrou para o cangaço), assume a chefia da família. Após conversa com o Padre Cícero, recebe permissão para se estabelecer em Juazeiro com as irmãs, cunhados, primos (os Paulo) e sobrinhos.


Lampião e familiares em Juazeiro do Norte

Na passagem de Lampião por Juazeiro do Norte, em 1926, foram tiradas várias fotografias da família. Na célebre foto da família reunida (que é vista acima), vemos na extrema esquerda sentado, Antônio Ferreira e na extrema direita, Lampião; a segunda sentada da direita para a esquerda é Dona Mocinha (tendo seu marido, Pedro Queiroz, atrás de si); ao lado direito de Pedro está João Ferreira; do lado esquerdo de João está Ezequiel (que depois entraria para o cangaço com o vulgo de Pente Fino); e, finalmente, o segundo da direita para a esquerda, em pé, é Virgínio (seria o futuro cangaceiro Moderno, chefe de grupo), casado com uma irmã de Lampião, que logo morreria de parto em Juazeiro.

Na ocasião da foto, Dona Mocinha (Maria Ferreira de Queiroz) estava recém-casada com Pedro e, nas várias ocasiões em que a entrevistei, ela sempre externou a enorme benevolência do Padre Cícero, e que todos da família se sentiam seguros em Juazeiro. Dona Mocinha, hoje com 96 anos, única remanescente viva dos irmãos e irmãs de Lampião, mora em São Paulo e foi diversas vezes entrevistada por mim. Contou-me que aprendeu a dançar com Virgulino tocando “harmônica” no terreiro da fazenda “Passagem das Pedras”, em Vila Bela, e que o irmão vivia na casa da avó, Dona Jacosa Lopes. Refere-se aos irmãos sempre com muito carinho, dizendo que o mais fechado era Antônio e o mais brincalhão era Livino Ferreira. E, em todas as vezes que conversamos, sempre externou a excelente acolhida que a família teve em Juazeiro, e gratidão de todos ao Padre Cícero. Tanto é que seu primogênito é afilhado do Padre Cícero.

Rememora com muita satisfação dos familiares de João Mendes de Oliveira, de quem se tornaram amigos. Dona Mocinha casou em Juazeiro com Pedro Queiroz e só deixou a Meca nordestina quando a polícia pernambucana intimou seu marido em Vila Bela, e o prendeu arbitrariamente. Então, Dona Mocinha (e parte da família), teve que deixar Juazeiro em 1927 para residir em Serra Talhada.

Para finalizar, deixo minhas homenagens à Dona Mocinha, que hoje, quase centenária e lúcida, é um repositório vivo da história recente do Brasil e de Juazeiro do Norte, uma vez que foi expectadora de camarote de um dos períodos mais interessantes e polêmicos da nossa história recente, além de ser testemunha inconteste do desprendimento e da bondade incondicionais do Padre Cícero Romão Batista.


 O autor com Dona Mocinha

O autor é médico, cordelista, escritor, residente em Teresina, PI – Foto

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Mestre Napoleão Tavares Neves

O médico que conta histórias

 Por Pedro Philippe • 21 de novembro de 2016
 Fotos: Samuel Macedo

Aos [89] anos, Napoleão Tavares Neves cultiva uma memória impecável, um currículo extenso e mil histórias de encantar. Autor de livros sobre o cangaço, cronista talentoso e memorialista por vocação, ele foi também um dos primeiros médicos a se estabelecer em Barbalha, apadrinhado por Pio e Leão Sampaio, que lhe ensinaram que Medicina se faz com o coração. Para a CARIRI, Napoleão resgatou relatos que a história oficial ainda desconhece e que lhe foram contadas pelo povo simples do sertão, gente que pediu a bença a Padre Cícero e que olhou nos olhos de Lampião.




“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”, Socorro Neves interrompe o silêncio mal o carro sai de Barbalha, recitando todo o Salmo 90. Segurando as contas do terço entre os dedos, ela reza por uma viagem segura ao longo dos 137 km até Porteiras, enquanto o marido, Napoleão Tavares Neves, leva no colo um estojo com estetoscópio e prontuário e fala com empolgação sobre o que vê na paisagem já seca de agosto. “Aquele é o ponto mais extremo do sul da Chapada do Araripe”, ele ensina.

Depois se vira para o banco de trás e pergunta, apontando mais ou menos ao leste:

“Já foi em Missão Nova? Todo mundo acha que a primeira igreja do Cariri é a Sé do Crato, mas é uma que foi construída pelos capuchinhos bem ali”. Já chegando ao destino, o doutor mostra um lugar no horizonte: “Ali nas Guaríbas morava Chico Chicote. Sabe a história de Chico Chicote? A manhã em que a tropa do Tenente Zé Bezerra o atacou, em 1927, foi uma verdadeira epopeia nesse sertão”.

O rosário de Socorro durou a distância entre Missão Velha e Brejo Santo, mas a aula de geografia e história com Napoleão, se deixar, dura um dia inteiro. Naquela manhã de domingo, ele visitava as irmãs, Ranilda e Romilda, no distrito do Saco, na casa onde seu pai construiu um dos oito engenhos de rapadura que adoçaram a economia de Porteiras, quando este ainda era um distrito de Jardim. Porteiras tornou-se um município independente, depois veio a ser rebaixado novamente a distrito, ligando-se à cidade de Brejo Santo até se emancipar de vez, em 1953. O sítio foi basicamente batizado pela própria Chapada do Araripe, que o envolve como em um saco – visto de cima, é como se tivessem comido a Chapada em uma dentada. A casa de Joaquim Neves e Maria Tavares, pais de Napoleão, foi erguida justamente no recôndito desse U de 900 metros de altura, um semicírculo de cerca de 20km de comprimento, oito bocas d’água e uma imensidão verde, resistente às mais duras secas.

Do paraíso onde Napoleão passou os primeiros anos de sua infância ainda se avista, a duas léguas, a casa de Manoel Rosendo, seu avô materno, conhecido como Né Rosendo, para onde o menino corria todas as manhãs, montado em um cavalo de pau. Agora octogenário, Napoleão apoia uma bengala na mão e, na outra, carrega seu kit médico, aguardando a oportunidade de realizar uma consulta. Nem o chão entre as duas casas é mais o mesmo, já que a erosão e as chuvas torrenciais que desceram da serra nesse século que se passou criaram morros na área onde antes pastavam 800 cabeças de gado e existia uma plantação de cana-de-açúcar que era moída para mais de 1.500 engenhos do Cariri.

Toda sabedoria do mundo

Quando deu à luz Napoleão, no dia 17 de setembro de 1930, Maria já sofria há três dias as dores do parto. “Mas, também… Com uma cabeça grande dessas!”, diz o doutor mostrando o chapéu número 60, feito sob medida, e caçoando de si mesmo. O parto difícil foi feito por Pio Sampaio, médico que anos depois trabalharia com o menino que ajudou a pôr no mundo. Napoleão nasceu na fazenda do avô paterno, o Coronel Napoleão Franco, no Sítio Belo Horizonte, em Jardim, quando a cidade era só um curto trecho que começava na ponte sobre o Rio das Piabas e acabava na Rua da Baixa.

Jardim e Porteiras são cidades vizinhas, separadas pela serra alta, por onde a estrada faz o longo contorno que Napoleão percorria a cavalo. Nos anos em que viveu aos pés da Chapada, ele brincava de correr entre as caldeiras do engenho e de acompanhar os vaqueiros na lida. A convivência com os sertanejos que trabalhavam no Saco marcou a personalidade do pequeno Napoleão, impressionado com as histórias do cangaço, que para sempre assustariam sua mente de menino e, mais tarde, formariam o historiador que ele viria a ser.


 
 No sítio Saco com as irmãs, Romilda e Ranilda.

Montado em seu cavalo, ele fingia ser vaqueiro também, assistia aos aboios e pegas de boi, levava as reses para pastar e comia o típico almoço do sertanejo: farinha, rapadura e carne assada. “A carne do alforje é a mais gostosa do mundo!”, ele diz com intensidade, quase gritando, e explica o segredo: o sal impregnado no alforje sujo é o que dá o sabor, muito melhor do que a carne da cozinha, com o sal semeado. Deitados na bagaceira do engenho, os trabalhadores do Saco descansavam, admirando o céu estrelado, e aí então “a conversa truava até uma hora da manhã”, ele recorda. Eram pelejas de cangaceiros, estórias de trancoso e até aulas de astrologia.

As falas mais marcantes daquele tempo vieram de Antônio Farosa, um velho caboclo que parecia possuir toda a sabedoria do mundo. Sobre as estrelas cadentes, ele alertava a Napoleão: se aquela estrela bater em outra, o mundo se acaba. “E o que é que eu faço?”, ele perguntava. “Você reza: Deus te guie, Deus te guie, Deus te guie!”, Farosa ensinava a evitar uma hecatombe. “Eu ficava morrendo de medo, pensando: ‘eita rebuliço! Se ela bater e o mundo acabar, eu tô lascado!”, Napoleão ri. Mas nem só de peripécias vivia o velho sábio. Ele passou para Napoleão todo o conhecimento que tinha do Cariri – mística, natureza e cangaço.

O país das almas

“O Saco é o país das almas. Lá todo mundo vê alma”, Napoleão explica antes de contar a mais estranha de todas as histórias que ele presenciou, “A única vez que eu vi darem uma surra num defunto foi lá”. O fato aconteceu enquanto ele acompanhava o carregamento do corpo de um homem que morreu empurrando lenha no talhado do engenho. “Eles vinham descendo com o defunto em uma rede, até que um deles reclamou: ‘o defunto tá pesaaando’. Aí o mais sabido gritou: ‘Para, para, para! Isso é porque o diabo não quer que a gente leve ele pra igreja. Aí se escancha em cima da rede e faz pesar’. Eu fiquei todo arrepiado quando ele disse isso. Depois entrou no mato, tirou um galho de pau e deu uma pisa no morto. Enquanto ele dava, os outros descansaram”, contou. Quando testaram o efeito da surra, alguém elogiou: “Ah, agora tá manêro.

Aos 12 anos, acompanhando o aboio de 200 reses de uma fazenda a outra, Napoleão viu outro acontecimento, no mínimo mágico, digno de passagem em livro de Guimarães Rosa. A caravana se deparou com a caveira de um boi morto na estrada e, em vez de seguir caminho, todas os bois se puseram em torno do corpo do bicho e choraram. “Uma coisa que eu nunca vi na minha vida. A coisa mais linda. Os bois cavando em torno do irmão e urrando. Todo o gado, sem faltar um. Os vaqueiros então tiraram o chapéu, puseram no peito e baixaram a cabeça”. Maravilhado com o Cariri, o menino Napoleão começou a desconfiar que havia muita história a ser contada. Ele então adquiriu os hábitos que definiram sua personalidade e serviram para resgatar memórias dos caririenses: ele aprendeu a perguntar e a ouvir. Em sua biblioteca, uma estante que vai do chão ao teto guarda quase duas mil crônicas que já foram lidas em rádios de Barbalha e Crato, contando o que ele escutou ou viu em seus 89 anos de vida.



Se Napoleão não conseguia dormir, amedrontado pelos cangaceiros, não haveria como fugir: a sua avó materna, Ana Pereira Neves, a Donana, foi madrinha de Luiz Padre, o famoso cangaceiro de Serra Talhada. Para completar, o Saco era passagem de quem ia para Juazeiro do Norte através da Chapada. O caminho de Lampião no Cariri era sempre o mesmo: ele entrava por Macapá (atual Jati), ia direto para a Fazenda Piçarra (onde morava o amigo Antônio Teixeira Leite), subia a serra pela Ladeira da Salva Terra (entre Brejo Santo e Porteiras, onde Napoleão morava), até chegar na Serra do Mato (entre Barbalha e Missão Velha). Para entender a peregrinação do rei do cangaço e seus cabras, Napoleão recorria ao mapa sempre que ouvia as histórias da avó. “Donana me contava muita coisa e eu fui gravando tudo na cabeça”, recorda. Devota do Padre Cícero, ela se comunicava com o sacerdote por cartas. Uma correspondência em particular, Napoleão se recorda. Donana escreveu se lamentando: “Meu padrim, não posso subir ladeira, que me sinto cansada”. Ao que Cícero respondeu: “Isso é anemia. Vá em Porteiras e compre ferro em pó”. O doutor pondera: “Ele era muito prático, muito inteligente – pra a época e pra onde vivíamos”.

 A terra encantada do Saco, em Porteiras, 
onde Napoleão viveu a infância.

No caminho de Lampião

Quatro anos antes de Napoleão nascer, Lampião passou pela casa de Né Rosendo pedindo para deixar sua montaria descansando e pegar emprestados oito cavalos, para chegar bem apresentado em Juazeiro do Norte. Obviamente, Manoel não negou. Pediu para o filho Rosendo Miranda, então com oito anos, ir ao curral buscar os bichos para o cangaceiro. Esperto, o menino tentou uma façanha arriscada: escondeu os cavalos que ele mais gostava e trouxe oito burros de cambito, que Lampião aceitou. A cozinheira da casa de Né, Antônia Lúcia, contou a Napoleão outra passagem de Lampião pelo Saco: quatro de seus cabras se juntaram ao temido Horácio Grande para roubarem a fazenda. Antônia e Manoel, armados com os dois únicos rifles da casa, colocaram os homens para correr. José Roque, também morador do avô, contou a ele que, em 1927, andando pelo meio do mato, entre Porteiras e Jardim, foi surpreendido pelo bando de Lampião. Roque só conseguiu fugir quando começou um tiroteio entre os cangaceiros e policiais que apareceram de repente.

Em 1938, Lampião morreu em Sergipe enquanto Napoleão acompanhava tudo arrastando o dedo indicador pelo mapa do Nordeste e ouvindo as narrações através do único rádio de Porteiras – o da sua casa. “Eu soube pela voz de João Ramos, da rádio PRE9, que Lampião tinha morrido na grota dos Angicos”, recorda, com uma memória espetacular. No ano seguinte, forçado a largar as brincadeiras no canavial e as viagens com os vaqueiros, Napoleão se mudou para Jardim, a fim de estudar. A tia Beatriz Neves, professora normalista na cidade, preferiu educar o garoto em sua casa, em vez de mandá-lo para a escola. Nos anos que se seguiram, Napoleão foi alfabetizado, se preparou para o exame de admissão no ginásio e acompanhou o desenrolar da II Guerra Mundial pelo rádio, correndo sempre para o mapa múndi. Foi quando descobriu que o mundo era maior do que o vale encantado do Saco.

Aprovado no exame de admissão no Colégio Diocesano, ele se mudou para o Crato, de onde voltava a cada 15 dias. O velho Farosa ficou sendo o portador que o acompanhava no trajeto a cavalo. Saindo do Saco às 5 horas da manhã, os dois chegavam no Crato às 17h. Era um dia inteiro de cavalgada e muita história, enquanto o caboclo sábio ia deixando seu conhecimento com o amigo ainda adolescente. Em um desses dias, descansando na mata em Barbalha, Napoleão viu um morro com cinco cruzes. “O que é isso, Farosa? É um cemitério?”, ele perguntou. “Não. Aí estão enterrados os Fuzilados do Leitão”, explicou onde estavam os corpos de Lua Branca e outros quatro homens supostamente envolvidos com o cangaço, fuzilados em 1928. Lua Branca era o último dos irmãos cangaceiros de Barbalha que ficaram conhecidos com Os Marcelinos. Bom de Veras e João 22 já haviam sido assassinados, sobrando apenas o mais novo deles. Quando a Associação Pró-Memória de Barbalha quis reconstituir o local onde os fuzilados estão sepultados, Napoleão foi a única pessoa a saber onde estavam.

A verdadeira medicina

Nos anos entre Jardim e o Saco, Napoleão sentiu-se inspirado pelo trabalho do médico que o pôs no mundo, o barbalhense Pio Sampaio. “Desde criança, eu sabia que era aquilo que eu queria”, ele conta. “Eu gostava de tudo relacionado ao trabalho do médico, sobretudo o de atender a quem não podia pagar. Os exemplos que eu tinha eram daqui de Barbalha: Dr. Pio, Dr. Leão e Dr. Lírio Callou. Eles atendiam quem tinha dinheiro e quem não tinha. Aquilo me chamou a atenção e eu dizia comigo: ‘isso que é Medicina!”.

Formado em 1958 pela Fundação de Ensino Superior de Pernambuco, atual Universidade de Pernambuco, Napoleão encontrou a Medicina já em avanço no Cariri. O Crato tinha o Hospital São Francisco desde 1936 e, em 1955, Juazeiro ganhou o Hospital São Lucas. Fundado pelo bispo Dom Quintino Rodrigues, o São Francisco surgiu para tratar os acometidos pela peste negra (ou bubônica), enquanto o São Lucas, dirigido pela Sociedade São Francisco das Chagas, atendia com grandes médicos da época, lembrados até hoje, como Mozart Cardoso, Mário Malzoni e Mauro Sampaio, filho de Leão Sampaio, deputado federal desde 1933, responsável por trazer diversos recursos para o hospital.

“Do mesmo jeito que vinham atrás do Padre Cícero, as pessoas vinham de todos os lugares para se receitar com Pio e Leão Sampaio”, Napoleão conta. “Os romeiros iam para o Juazeiro e passavam por Barbalha. Depois voltavam pra terra deles falando que tinham se operado de graça, aí enchia de gente aqui”. Por muito tempo, Leão foi o único oftalmologista do interior do Nordeste, especializado em cirurgias de catarata. “Quando cheguei em Barbalha, eles estavam saindo”, ele lembra de quando os médicos da família Sampaio começaram a carreira política.

Napoleão morou por um tempo na casa de Edmundo Sá Sampaio, um primo distante, e acabou se apaixonando pela filha deste, Socorro. De acordo com os costumes da época, o rapaz saiu da casa para pedir a moça em casamento. Foi o pai de Socorro quem ajudou Napoleão a montar sua primeira clínica em Barbalha, onde o veterano Pio Sampaio atendia sempre que estava na cidade. No último dia em que Pio ficou sozinho no escritório do amigo, Napoleão foi interpelado por uma paciente, que reclamou: “Doutor Pio hoje me receitou, mas passou meia hora com a mão na testa, pensando. Tenho certeza que era escutando os santos para dar o diagnóstico”. “Eu contei a ele e ele riu”, Napoleão recorda, “E depois disse: ‘tome aqui a chave do seu consultório! Eu não venho aqui mais é nunca! Eu tô passando meia hora pra lembrar os nomes dos comprimidos”. Perguntado se Pio e Leão eram bons no que faziam, Napoleão responde sério: “Bons? Essa palavra não traduz o que eles eram”.

 Napoleão e Socorro
Não tem doente que escape

Seguindo os passos de Leão e Pio, Napoleão atendia em seu consultório de graça, sem nunca conseguir fazer o negócio lucrar. Por 33 anos, trabalhou no Sandu, em Juazeiro do Norte, concursado pelo Instituto Nacional da Previdência Social (Inamps), que mais tarde evoluiu para o atual SUS. Em 1970, foi inaugurado o projeto do hospital capitaneado pelo amigo Lyrio Callou e concluído pelas freiras Irmãs Beneditinas. Era o Hospital Maternidade São Vicente de Paulo, hoje o principal do Cariri, onde Napoleão trabalhou como diretor até ser convidado pela prefeitura para ajudar na atenção básica de Barbalha.

Já passando dos 70 anos de idade, o médico não havia perdido o ânimo pelo trabalho e nem a paixão pelo consultório. Ele labutou oito anos no Posto de Saúde das Malvinas, bairro periférico da cidade. Enquanto a maioria dos seus colegas atendia 20 pacientes por dia, ele chegava a receitar quase o dobro – até que, no Ministério da Saúde, estranharam que um único PSF tivesse atendido 60 mil pessoas em oito anos. A fiscalização que foi até as Malvinas viu que o doutor simplesmente cumpria os horários e não mandava nenhum morador de volta sem atendimento e medicação. Não faltavam prontuários para atestar a veracidade dos números. “Por que o senhor faz isso?”, um deles teria perguntado. “Porque tá aqui”, ele respondeu, batendo no peito, na altura do coração. “Nasci pra isso, então eu faço”.

Sobre os médicos que observou durante a juventude, ele resume: “Via de regra, eram sempre pessoas boas que tinham inclinação natural pra fazer o bem. Então a faculdade só fazia aprimorar”. E isso mudou? “Mudou! Mudou muito, mas muito mesmo. Hoje qualquer um que seja inteligente, tendo ou não tendo vocação pra Medicina, entra em uma faculdade. Aprende a teoria e depois se adapta. Hoje é difícil encontrar um médico que trabalhe por amor”, considera. “Mas aqui há duas faculdades de Medicina, soltando mais de 40 médicos no Cariri a cada semestre. Isso é muito bom. Não tem doente que escape!”.

 

Crônicas, filmes e relatos

Da varanda de sua casa, em uma tarde de segunda-feira, acompanhado da esposa Socorro e da filha mais velha, Jácia Maria, o médico com verve de historiador recebeu a CARIRI Revista. Jácia e suas duas irmãs, Raissa e Miria, se tornaram médicas também, e todas elas se casaram com médicos. Jácia é pediatra do Hospital São Vicente e, como o pai, não sai sem deixar um paciente sem atendimento. Pelas suas contas, em seus 10 anos no HMSVP, ela deve ter olhado para cerca de 60 mil crianças. Napoleão tenta explicar: “Dá uma satisfação íntima que a gente não sabe dizer o que é. Eu mesmo não sei”.

A paixão por ouvir o paciente dizer o que sente, pensar na solução e indicar o remédio acabou casando com a vontade de escutar também histórias como as de Donana e Farosa. Napoleão então criou o hábito de conversar com os mais velhos em seu consultório, tentando puxar relatos orais de fatos do Cariri. Raimundo Gomes de Figueiredo foi um desses, que chegou com verdadeiras joias: contou tudo a respeito de Júlio Pereira, o caririense que comprava munição para Lampião, e sobre Benjamin Abrahão Botto. As pesquisas do médico a respeito de Abrahão, secretário do Padre Cícero e fotógrafo de Lampião, serviram para Frederico Pernambucano de Mello preparar o roteiro do filme Baile Perfumado (1999).

O material que chegava na mesa do doutor também encheu a estante de crônicas e renderam três livros: Cariri – Cangaço, Coiteiros e Adjacências, Barbalha Cultural e Primeiro Templo Católico do Cariri. Por ser fonte recorrente para os alunos do curso de História da Universidade Regional do Cariri e ter seu nome citado em 3% dos trabalhos apresentados e publicados ali, Napoleão Tavares Neves recebeu o título de Doutor Honoris Causa da instituição.

“Minha filha, acho que eu tô louco”, ele desabafou com Jácia, no tempo em que ainda trabalhava, “Quando tá de tardezinha, eu quero que anoiteça, pra chegar logo a manhã e eu ir pro hospital, receitar”. No ano passado, Napoleão completou 58 anos em exercício, de volta ao ambulatório do Hospital São Vicente. Aos 85 anos de idade, parou de trabalhar porque as filhas o obrigaram a cuidar da própria saúde. “A gente já estava querendo que ele parasse e ele dizia que não. Aí a gente falou com a Irmã Ideltraut (diretora do HMSVP) pra ele ficar só meio expediente. Mas numa manhã ele atendia 40! Contrataram uma pessoa só para limitar o número de pacientes dele”, Jácia conta sem que ele ouça. Depois que a sala do doutor ficou vazia, volta e meia ainda aparece algum velhinho procurando pelo médico. “E agora? Com quem é que eu vou conversar?”, um deles saiu de lá se lamentando. “O que será de nós?”, outra reclamou.

“Era bom demais, rapaz!”, ele lembra de quando podia ir consultar, falando com uma satisfação tão grande que é como se descrevesse um hobby. Talvez de fato fosse. No domingo em que visitava o Saco, a única chance que Dr. Napoleão teve de atender um paciente foi quando este repórter se queixou de uma dor. “Onde é essa dor? Mostre aí. Na boca do estômago? Pare de tomar tanto café”, ele sentenciou.

Apoiado na bengala com os dois punhos, Napoleão admira a vista da Chapada do Araripe e, questionado se voltaria a trabalhar se pudesse, ele se vira e responde com a rapidez de quem acabou de ser acordado: “Volto! Eu já disse a Jácia que estou disposto”. Dificilmente Socorro e as filhas vão deixar. O estojo com o bloco do prontuário em nome de Dr. Napoleão Tavares Neves continua com as folhas em branco, o estetoscópio e o aparelho de pressão estão enrolados e, contra a sua vontade, o médico se aposenta.

 


Um pequeno grande homem
por Tadeu Alencar

“Quando conheci Napoleão Tavares Neves, ele não era nem o médico nem o homem. Era uma página vibrante da crônica da Rádio Salamanca, um Rubem Braga do Cariri. Era o ano de 1983. Eu tinha vinte anos. Ele, nascido no alvorecer da revolução de 30 e com o espocar dos seus disparos, tinha 53 anos, a idade que tenho hoje. Eu me iniciava na terra de Santo Antônio, onde viria a encontrar a eleita dos meus dias e ele já era uma autarquia, uma instituição. Tinha uma sabedoria que não terei jamais, mesmo com o passar galopante dos anos. Depois do cronista agudo sobre o cotidiano de sua gente, em especial de sua Barbalha, de quem foi o maior bardo, passei a ver aquela roupa branca com a sua sacralidade hipocrática, um médico da gente simples do sertão, à moda de um Leão Sampaio, de quem decerto era invulgar seguidor. Era culto, ilustrado, generoso, certeiro no diagnóstico, conhecendo como ninguém a alma do homem simples, cioso do papel de médico à moda antiga, dos partos em casa, da presença de todas as horas. Médico, psicólogo e catequista. No entanto, mais que o cronista, que o médico amoroso pelo seu ofício, o que me fez cativo para sempre do seu encanto foi o talento de historiador incansável, em sua curiosidade de menino travesso, ávido por tudo aprender. Napoleão era um João Brígido alimentado no bagaço da cana da Pedra Branca. Foi meu preceptor na arte da memória e na saga dos sertões adustos, da genealogia inebriante, dos jagunços de alma penitente, do Pe. Cícero, de Ibiapina, Floro e Bárbara – que, em sua extensão heroica, me foi apresentada por ele. Foi meu mais provocativo interlocutor em missivas que me faziam arregalar os olhos e abrir a mente. No meio da caatinga do caboclo, me mostrou o ouro que há nos veios da Chapada do Araripe. Um pequeno grande homem. Dos maiores que conheci”.

Napoleão pelos seus

“Hoje trilhando o árduo caminho da Medicina, eu imagino o quanto meu pai deixou de lado para que nada nos faltasse. Guardo lembranças de sua atenção, carinho e amor. Lembranças de noites de febre, com ele ajoelhado ao nosso lado. Lembranças do último beijo na hora de dormir e o apagar da luz do quarto. Lembranças do ajeitar do cobertor diariamente”.

Miria Neves Sá, filha, endocrinologista.

“Meu pai é um homem de muitas virtudes, mas duas delas para mim se sobressaem. A primeira é a gratidão. Sempre o vi cuidar com muito amor de quem zelou por ele ou por alguém de sua família. A segunda virtude é a valorização da minha mãe, Socorro. Isso para mim é extremamente belo e engrandecedor”.

Raissa Neves Fernandes, filha, reumatologista.
“Meu pai é um modelo de integridade, modelo de filho, modelo de amigo, modelo de médico. Meu referencial de bom senso, de fazer grandes e boas escolhas na vida. Meu referencial em como ser dono do seu dinheiro e não ser escravo dele. Olho pra ele com alegria, orgulho e felicidade de ter tido o privilégio de ser sua filha. Não é à toa que escolhi ser médica como ele”.

Jácia Maria Neves Coelho, filha, pediatra.

“Napoleão Tavares Neves, aos 86 anos, é detentor de uma bagagem cultural inesgotável, e transborda conhecimentos de história e geografia da rica e fecunda Chapada do Araripe. Dedicou grande parte destes 86 anos à Medicina voltada aos mais humildes, tornando-se uma referência de como deve ser um médico”.

Jairo Sá. Genro. cirurgião plástico.
 “Forjado na doçura das gamelas dos engenhos de rapadura e criado sob a beleza dolente dos aboios dos vaqueiros, Napoleão traz um legado de amor ao Cariri. Verdadeiro sacerdote da arte de Hipócrates, ele é um repositório vivo da História recente do Ceará, guardião incansável da sua memória e defensor intransigente da majestosa Chapada do Araripe”.

Leandro Cardoso Fernando, genro, cardiologista

Tudo  começou com Bonaparte


Napoleão Tavares Neves tem teses singulares para diversos acontecimentos. O comportamento pacífico de Lampião em relação ao Cariri, que muitos atribuem ao suposto respeito ao Padre Cícero, ele diz ter sido simplesmente estratégia do cangaceiro para não se indispor na região onde era obrigado a passar com frequência. Sobre o declínio dos engenhos de cana-de-açúcar, ele explica: a praga do bicudo destruiu as plantações de algodão do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, deslocando os trabalhadores da lavoura, principais consumidores da rapadura. Para o surgimento de um polo de saúde no Crajubar, ele tem uma teoria original.

Tudo começou com Napoleão Bonaparte. O militar francês invadiu Portugal em 1807, forçando a família real a fugir para o Brasil no ano seguinte. Com a vinda da corte para a colônia, muitos avanços foram empreendidos, entre eles a criação das Escolas Médicas de Salvador e Rio de Janeiro, por onde passou o barbalhense Leão Sampaio, formado em 1922, pioneiro em fazer o Cariri se tornar conhecido pelo atendimento médico. O irmão, Pio Sampaio, formou-se dois anos depois e, em 1930, estava atendendo em Jardim, onde fez o parto de Maria Tavares Neves, mãe de Napoleão.

Publicado originalmente na Revista Cariri

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Leandro Cardoso em entrevista

Faroeste no chinelo

Por: Luana Sena

Foto: Mauricio Pokemon
Leandro Cardoso é um cardiologista de meia idade cujo hobby predileto é estar entre os livros. Não são títulos de medicina, nem poesia, tampouco ficção. O que atrai o médico são histórias sanguinárias de um passado recente do nordeste brasileiro: livros, punhais, cartucheiras, chapéus e outros pertences originais ocupam quatro armários do chão ao teto. Em um dos cômodos de seu apartamento, na zona leste de Teresina, Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, está mais vivo do que nunca.

A paixão de Leandro pelo tema começou aos 12 anos, quando ganhou de presente do avô o livro “Lampião, cangaço, nordeste”. As marcas na dobradura dão pistas sobre o tempo, mas ele não é o mais antigo – nem seria o primeiro – livro daquela coleção. De lá para cá, Leandro seguiu lendo e pesquisando tudo o que diz respeito ao cangaço.

Leandro trabalhou por dez anos em São Paulo, “a capital mais nordestina de todas”, diz o médico. No consultório, conversa vai, conversa vem, vez por outra ele encontrava descentendes de cangaceiros – primos, irmãos, filhos – ou mesmo dos volantes (Força Volante era a tropa do governo montada para combater os cangaceiros nos anos 1930). “Eu fui médico da dona Mocinha, irmã de Lampião”, relembra. Cada personagem descoberto era como uma peça que faltava no quebra-cabeça do pesquisador.

Em maio de 2002, Leandro recebeu uma ligação inesperada de Aracaju. A voz do outro lado da linha disse sem cerimônia:

– A cabeça do vovô está aqui em casa, você gostaria de ver?

 Era Vera Ferreira, neta de Lampião. Pegou o primeiro avião. Tornou-se o segundo médico a confirmar que Lampião não era “lombroso” – a expressão remete ao médico italiano, Cesare Lombroso, criador da teoria de que traços físicos podem denunciar um perfil criminoso. “Orelha de abano, fronte fugidia, caninos possantes, eram algumas das características de um lombroso”, explica o médico. A teoria caiu em desuso, mas a curiosidade dos pesquisadores sobre Lampião permaneceu porque ninguém nunca tinha tido a oportunidade de examinar tão profundamente essas características.

Lampião e mais nove integrantes de seu bando foram mortos em 1938 por tropas da polícia na Gruta do Angico, sertão sergipano. As cabeças foram decepadas e permanceram por anos no Instituto Nina Rodrigues, na Bahia, até a família de Virgulino conseguir na justiça o direito de enterrá-la, no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. Mas, o início dos anos 2000 trouxe fortes chuvas a região, e a defesa civil obrigou a retirada das urnas do local. Elas foram entregues novamente as famílias. “Como eu sou amigo da Vera e ela sabia que eu estava escrevendo um livro, me ligou com essa proposta e eu nem pensei duas vezes”.

O exame resultou no livro “Lampião: a medicina e o cangaço – aspectos médicos do cangaceirismo”, escrito por Lendro em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo, umas das maiores referências em cangaço no Brasil. “Eu pude examinar o occipital dele por dentro e Lampião não era um lombrosiano nato”, diz o médico. O livro traz ainda outros diagnósticos sobre a figura do cangaceiro mais famoso da história, como a cegueira no olho direito. “Se você pegar a literatura, cada um diz uma coisa: catarata, glaucoma, mas tudo da boca pra fora”, afirma o pesquisador. “Durante um combate com uma volante, em 1925, uma bala pegou num espinheiro que estava perto de Lampião e ele foi atingido”, explica Leandro. “A causa mais comum de cegueira no sertão é trauma”, continua. “Se ele tivesse feito um transplante de córnea, provavelmente voltaria a enxergar, mas naquela época não existia”. Lampião virou um cego funcional e teve que aprender a ser canhoto quase aos 30 anos de idade.

Na prateleira, o livro escrito por Leandro divide espaço com mais de 100 títulos. Há ainda uma videoteca com filmes como “O cangaceiro”, de Lima Barreto (1953), “Nordeste sangrento”, com o estreante ator Paulo Goulart (1963) e “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira (1996). Entretanto, o filme mais precioso ali é um DVD um tanto caseiro com 11 minutos de imagens de Lampião e seu bando, registrados pelo sírio-libanês Benjamin Abraão na década de 1930. “Lampião aceitou que o libanês os filmasse porque ele era secretário de Padre Cícero”, explica Leandro. O filme ficou por anos preso no porões da ditadura Vargas e só se conhecia, afinal, seis minutos de gravação. “Benjamin passou meses lá com os cangaceiros, é provável que existissem horas e horas de gravação, mas boa parte do filme foi perdida ou danificada”. Foi Leandro e o cineasta Wolney Oliveira que encontraram, na cinemateca brasileira em São Paulo, mais cinco minutos inéditos de imagens.

Parte do acervo do pesquisador 
(foto: Mauricio Pokemon)

Além do acervo literário e visual, o médico também guarda peças originais do vestuário dos cangaceiros: chapéu, bornais floridos, cartucheiras, alpargatas e punhais – um deles foi presente de Moreno, considerado um dos cangaceiros mais valentes do bando de Lampião. “Parando minha recordação, eu ainda matei 21”, diz Moreno, aos 99 anos, no documentário “Os últimos cangaceiros”, lançado este ano no Brasil. Leandro conheceu Moreno e a mulher, Durvinha, cujas histórias de vida daria um filme. E deu! (Leia abaixo!)

Leandro fala de cada detalhe da indumentária do cangaço com um misto de admiração e extase. Ele sabe de cor as falas de Lampião no filme mudo. Tem na mente as datas dos combates, faz viagens frequentes para regiões que foram marco do “banditismo social” brasileiro e refuta pesquisadores. Para ele, um dos maiores equívocos é confundir o cangaceiro com a figura de um bandido. “O código penal da época era surra, bala e punhal”, explica. “Tratar o cangaceiro como bandido é um erro porque esse era o modus operandi daquela época”, defende. “A polícia agia assim e o coronel também”.

O médico vê o cangaço como uma manifestação contra a colonização, “um irredentismo brasileiro”, diz, citando a teoria de Frederico Pernambucano de Mello. “Cada vez mais eles foram empurrados pro sertão porque queriam viver sem lei nem rei”, afirma. O que os diferencia do bandido comum? “O bandido tende a se ocultar, viver na surdina. O cangaceiro não. Ele não se acha bandido porque tem um código de ética muito próprio. Você acha que um cara que se veste daquele jeito quer ficar oculto?”

O estilo cangaço também é outro ponto de equívoco sobre o que se prega a respeito de Lampião. Ao contrário do que vemos nas imagens da época, todas sem cores, as roupas não eram cinza, muito menos de estampa camuflada. “Parecia alegoria de carnaval”, brinca o pesquisador. “A roupa é espalhafatosa, mas nada daquilo é supérfluo”, explica enquanto mostra a forma correta de se abotoar um bornal. “Eles usavam quatro bornais em volta do ombro. O cara carregava mais de 30 quilos e podia rolar no chão que não saia nada do corpo”. Muitos desses detalhes estão no livro “A estética do cangaço” (Frederico Pernambucano de Mello), que traz ainda curiosidades sobre lenços, perfume francês, óculos alemão e outros delírios de consumo do vaidoso Lampião. “Era tudo muito bem feito, costurado em máquina, tinha uma preocupação visual”, diz o médico. “O faroeste americano não chega nem perto”.

Em outubro deste ano, algumas dessas peças vão estar expostas no 4º Congresso Nacional do Cangaço que acontece pela primeira vez no Piauí, na cidade de São Raimundo Nonato. Organizado pela SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Sobre o Cangaço), o evento vai reunir (de 27 a 31) os maiores pesquisadores brasileiros sobre o tema – Vera Ferreira, neta de Lampião, confirmou presença para uma palestra. Leandro, que coordena o evento, também vai ministrar palestra e lançar nova edição de seu livro – serão cinco dias entregue a histórias de sangue e sertão pra faroeste americano nenhum botar defeito. “A gente não acredita no que a gente tem”, diz o pesquisador intrigado com o fato de Hollywood vender há anos Billy the Kid como o maior fora-da-lei de todos os tempos. “Ele matou três pessoas! Três! Agora veja Lampião”, propõe. “Se Tarantino visse um negócio desse ficaria louco!”.

Os últimos cangaceiros

 Ninguém podia imaginar que o pacato casal Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, ambos com mais de 90 anos, tinham um passado tão misterioso quanto impressionante. Por quase cinquenta anos eles esconderam dos filhos um segredo revelado somente no século XXI: eles foram cangaceiros integrantes do bando de Lampião.

Os pesquisadores nunca chegavam a um consenso sobre o paradeiro daqueles que escaparam ao confronto sangrento em Angico, no Sergipe – alguns apontavam Ceará e Maranhão como possíveis destinos dos cangaceiros. Outros afirmavam que eles haviam morrido. Porém, escondidos atrás dos nomes falsos sobre os quais refizeram suas vidas em Belo Horizonte, estavam, na verdade, Antônio Ignácio da Silva, o Moreno, e Durvalina Gomes de Sá, a Durvinha.

Ele, cearense, e ela, pernambucana, estavam no interior do Ceará quando souberam da morte de Lampião e dos demais companheiros, em 1938. Disfarçados de retirantes, seguiram rumo ao sul, mudaram de nome e fizeram um pacto de nunca contar a ninguém o segredo.

 Lançado em 2014, filme mostra casal que pertenceu ao bando de Lampião 
(foto: divulgação)

A história teria mesmo ido ao túmulo, não fosse o fato de, pelo caminho, os cangaceiros terem deixado um filho, aos três meses de vida, aos cuidado de um padre em Tacaratu, no interior de Pernambuco. Acometido por uma doença em 2006, Moreno resolveu revelar a família o desejo que tinha de reencontrar o primogênito. Os filhos puseram-se a procurar o irmão, em Tacaratu, quando se depararam com a surpresa: “Ah, o filho dos cangaceiros?”

Com a revelação, pesquisadores de todos os cantos voaram para colher de perto os novos relatos e as recordações de Moreno e Durvinha – sabe-se que ela foi, num primeiro momento, mulher de Virgínio, cunhado de Lampião. Com a morte dele, Moreno assumiu Durvinha – era proibido mulher sozinha no bando.

A história virou enredo do documentário “Os últimos cangaceiros”, produzido por Wolney Oliveira. É o primeiro longametragem documental sobre o cangaço e, no seu lançamento mundial, em 2014, foi premiado em festivais de cinema no México, Havana e Bolívia. Moreno e Durvinha não chegaram a ver o filme pronto – ela morreu em 2008, ele, centenário, dois anos depois.

Além de relatos dos ex-cangaceiros, filhos, parentes (e o reencontro com Ignácio, o filho mais velho, deixado no Pernambuco), o longa traz cenas inéditas das gravações feita pelo libanês Benjamin, nos anos 1930 (aquelas, recuperadas por Leandro e Wolney na cinemateca). A produção conseguiu colorir frame a frame algumas imagens, que, além de modernizar, dão uma ideia mais realista da estética do cangaço. Outro trunfo são as legendas nas falas de Lampião e seu bando: uma equipe especialista foi contratada para decifrar o que os cangaceiros falavam no filme mudo. Wolney colocou Moreno e Durvinha para se reverem nessas imagens – o resultado, emocionante, está no documentário.

Pesquei em www.revistarevestres.com.br

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Temas do evento

A chegada de Sinhô Pereira ao Cariri Cangaço

Por: Jorge Remigio

Quando setembro vier, teremos o prazer de desfrutar a convivência por quase uma semana, com grandes personalidades do meio cangaceirístico, como também, de muitos amigos e amigas formados no seio desse encontro grandioso e singular, que é o CARIRI CANGAÇO. Este prima por dar um caráter cultural, didático e educativo ao evento, como também, tem a força de interagir plateias e pesquisadores nos seminários que sucedem nas cidades acolhedoras que fazem parte do circuito. A notícia da inclusão e discussão em seminário do personagem Sinhô Pereira, foi muito acertada. 

Parabenizo a organização do evento, pela escolha, sabemos o valor que tem o estudo desse que é considerado o maior expoente de um cangaço típico e não comum, que foi o cangaço de vingança. Mais acertado ainda foi o convite ao brilhante pesquisador, Dr. Leandro Cardoso Fernandes, que por afinidade é um Pereira, para proferir a palestra sobre o cangaceiro Sebastião Pereira da Silva. O Sinhô Pereira. 

O brilho do mito Lampião ofuscou a história de muitos cangaceiros de destaque que o antecederam. Personagem exaustivamente estudado e decantado ao longo da história, o qual se confunde até mesmo com o próprio cangaço. Cabe agora aos pesquisadores contemporâneos a tarefa de suprir essa extensa lacuna. 

O CARIRI CANGAÇO sai na frente e põe em discussão: Sinhô Pereira. Seu Rodrigues para os seus cabras. Uma de suas bisavós chamava-se Quitéria Rodrigues do Nascimento, mãe de Ana Sá, sua avó e irmã de Jacinta Rodrigues que se casou com o português José Pereira da Silva que migrou do sertão dos Inhamuns cearense, sendo os pioneiros da família Pereira na região do médio Pajeú. Os quais eram donos de extensa área territorial e constituíram uma numerosa prole. 

Leandro Cardoso Fernandes
A fixação dos Pereira no Vale do Pajeú, mais precisamente em uma região que compreende hoje os Municípios de Serra Talhada, São José do Belmonte, seu Distrito Bom Nome e parte do Município de Flores, marca uma época de desbravamento dos ermos sertões, a luta com o gentio na disputa do espaço e da criação do gado em currais. Foi mesmo uma autêntica epopeia esse período, conhecido por ciclo do couro ou ciclo do gado. Sinhô Pereira tem sua gênese aí. Nasceu dessa cultura, dessa formação social, mesmo que um século depois, as vicissitudes do tempo não mudaram radicalmente a atmosfera cultural do ambiente. 

Na primeira geração, os filhos do patriarca José Pereira e da sua esposa Jacinta Rodrigues, vão ser muito importante para dar sequência ao domínio territorial já conquistado. Consolidando de vez os seus currais naquela região. Todos os filhos do patriarca vão ser tio avós de Sinhô Pereira, exceto Francisco e Ana que eram seus avós. 

O primeiro filho foi Simplício Pereira da Silva, casado com Ana Joaquina Nunes, essa, filha do sesmeiro Aniceto Nunes da Silva e de Antônia Lourenço de Aragão. Chegou ao título de Coronel da Guarda Nacional e foi o maior desbravador daquela mata virgem. Tornou-se uma lenda em sua época, os seus feitos são extensos, participou ativamente no sertão de várias convulsões políticas que se sucederam após a abdicação de D. Pedro I. Sua história carece de muitas páginas.

O segundo: João Pereira da Silva casou-se com Antônia de Sá e era dono da Fazenda São Cristóvão em Belmonte. Terceira: Josefa Pereira da Silva, que se casou com Joaquim Nunes da Silva, irmão das esposas de Simplício e Manoel. Quarto: Antônio Pereira da Silva, casado com Constância Pereira da Silva, dono da Fazenda Campo Alegre. Quinto: Francisco Pereira da Silva, casado com Ana de Sá, fundador da Vila de São Francisco, avós de Sinhô Pereira e Luiz Padre. O grande industrial João Pereira Santos, vem desse ramo. Sexto: Manoel Pereira da Silva, casado com Francisca Nunes, irmã da esposa de Simplício. Foi a maior figura do clã dos Pereira, chefe político da família, liderava o partido Conservador no Brasil Imperial naquela região, era Comendador, Comandante Superior das Ordenanças de Flores, Ingazeira e de Vila Bela e Coronel da Guarda Nacional. 

Faleceu em 1862. Foi o pai de Andrelino Pereira da Silva, o Barão do Pajeú, o qual herdou a chefia política do pai. Andrelino foi o primeiro prefeito de Vila Bela (1892-1895) Sétimo: Vitorino Pereira da Silva. Foi presidente da Câmara Municipal de Vila Bela. Oitavo: Joaquim Pereira da Silva. Casou com Severina Pereira Aguiar e em segundas núpcias, com Constância Pereira de Sá. Ficou estabelecido no berço da família, ou seja, na Fazenda Carnaúba e era o pai de Manoel Pereira Lins, o Né da Carnaúba. Esse ramo deu vários prefeitos de Serra Talhada. Né Pereira era padrinho de Sinhô e primo legítimo do seu pai Manoel Pereira da Silva, o “Manoelzinho da Passagem do Meio”. Nono: Sebastião Pereira da Silva casado com a sobrinha, Januária Pereira da Silva, Irmã do Barão do Pajeú, filha do seu irmão Manuel Pereira. Foi Capitão da Guarda Nacional e em segundo casamento, desposou Maria Febrônea de Sá, que era filha da sua sobrinha Manuela Pereira, filha do seu irmão Francisco. Teve 32 filhos. Décimo: Alexandre Pereira da Silva, fazendeiro, o qual casou com Joana de Sá. Foi morto pelos fanáticos do Reino Encantado ou Pedra Bonita em 1838. Onze: Cipriano Pereira da Silva, solteiro, foi morto pelos fanáticos do Reino Encantado ou Pedra Bonita em 1838. Local atualmente pertencente a São José do Belmonte. Doze: Ana Pereira, se casou com Francisco Mariano de Sá. Treze: Mariana Pereira da Silva (interdita).


Como se observa, na primeira geração casou-se quase todos com as filhas e filho do casal José Mariano de Sá e Quitéria Rodrigues do Nascimento. No caso, já eram primos pela linhagem materna. A evolução da árvore genealógica desenvolveu-se principalmente nos casamentos próximos, consanguíneos de primos com primas basicamente. Porém, identifiquei cinco casamentos entre tio e sobrinha. Quais sejam: Os dois casamentos do Capitão Sebastião Pereira da Silva, já citados acima, o de Januária, filha do Barão do Pajeú, que casou com um irmão deste, José Pereira da Silva, são os pais de José Simplício Pereira Sá (Pereirão), que casou com a filha do Major José Inácio do Barro-CE, Virgínia Amélia Pereira de Souza. A filha de Andrelino, (Barão) Francisca Pereira da Silva (Dona Chiquinha), casou com o tio Manoel Pereira da Silva Jacobina, conhecido por Padre Pereira, pais de Luis Padre. Ele era irmão da mãe dela, Maria Pereira da Silva. Dos cinco filhos que tiveram, dois nasceram com problemas mentais. O Filho do Barão do Pajeú, o Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva, casou com Maria Pereira da Silva, conhecida por Marica, filha de sua irmã Generosa Pereira da Silva. Essa consangüinidade facilitava o aparecimento de patologias na geração seguinte, como: Doença mental, bócio, surdez e mudez.

 
Quero ressaltar aqui, que vários membros da família Pereira, tiveram união matrimonial com Carvalho. Família também clânica e que se fixou naquela região nos mesmos moldes dos vizinhos. Pereira e Carvalho no decorrer das décadas seguintes desenvolveram-se como oligarquias fortes e com interesses comuns, ou seja, a disputa pela hegemonia do poder político naquela região. Portanto, o choque seria inevitável.  Em novembro do ano de 1848 na Comarca de Flores do Pajeú, eclode o primeiro conflito, dessa que seria uma duradoura contenda. Em espaços alternados, vingou até o ano de 1922. Encerrando-se quando o cangaceiro Sinhô Pereira abandona definitivamente a luta armada no Pajeú das Flores, e “navega” para as longínquas terras de Goiás.

 
D. Chiquinha  e Manoel Pereira da Silva Jacobina "Padre Pereira".
pais do cangaceiro Luiz Padre.

No alvorecer do século XX chega à Vila Bela, monsenhor Afonso Antero Pequeno. De família influente politicamente no Cariri Cearense, que naquele momento ardia em conflitos coronelísticos, trazendo na bagagem o germe da discórdia e o espírito beligerante. Envolvido na luta do primo, Coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, que tentava depor o Coronel José Belém de Figueiredo, vice-presidente do Estado do Ceará (1904), requisitou junto às lideranças políticas dos dois clãs, Pereira e Carvalho, armas, munição e um contingente considerável de jagunços para reforçar a facção do seu parente. A negação do Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva ao pedido do padre caudilho e consequentemente a concordância em tudo pela liderança dos Carvalho, Coronel Antônio Alves do Exu, fez com que o pároco passasse a interferir e interceder favoravelmente junto aos Carvalho, na luta e interesses políticos das duas famílias. 


Nas eleições municipais de 1907, foi eleito prefeito de Vila Bela com o apoio da família Carvalho, empurrando os Pereira para oposição. Abrindo um parêntese e voltando dois anos, 1905 é uma data de sangue. No centro de Vila Bela, dia da feira livre, é ferido gravemente à bala, falecendo dias depois, Manoel Pereira Maranhão, conhecido por Né Delegado, recentemente deposto do cargo, era primo legítimo do pai de Sinhô, sendo o autor do crime: Antônio Clementino de Carvalho (Quelé), o qual se refugia na residência do Monsenhor Afonso Pequeno, próximo ao local do fato. Após muito tumulto, o padre negociou a entrega e prisão do amigo, sendo este, posteriormente desaforado para comarca de Flores. O padre fez questão de atuar como um segundo advogado de defesa do réu na tribuna do júri, onde fora este absolvido.

Né Delegado quando convalescia, pediu para os parentes não executarem vingança, reconhecendo ele, que fora intempestivo e inconsequente, quando investiu contra Quelé. Aquele ano de 1905 foi precursor do acirramento e de vários desentendimentos entre membros das duas famílias, expondo mais ainda o Coronel Antônio Andrelino, já bastante desgastado politicamente junto à oligarquia Rosista. O Comendador Rosa e Silva dominou a política pernambucana por quase duas décadas, sendo o clã dos Pereira seus correligionários fies. O setuagenário Manoel Pereira da Silva Jacobina, pai de Luis Padre e tio de Sinhô, ganhou o apelido de Padre Pereira por ter sido seminarista. Sendo uma pessoa sensata e de índole conciliatória, passou a ser requisitado com frequência para apaziguar as rusgas familiares. Ele tinha sido o segundo prefeito de Vila Bela (1895-1898).   
O final do ano de 1907 se aproximava e mais precisamente no dia 15 de outubro, é morto de emboscada o Padre Pereira, pessoa muito amada e respeitada pela família e por quase toda população de Vila Bela. O crime de emboscada na cultura sertaneja é conceituado como um ato covarde, traiçoeiro, desprezível. O chamam pejorativamente de crime de pé de pau. Para as pessoas daquela região, esse tipo de crime é uma atitude infamante, digna de repúdio. O crime de homicídio “a peito” é até justificado naquela cultura braba. Existem versões para os motivos que deram causa a esse atentado contra Padre Pereira. O mais plausível, entendo que tenha sido um acerto de conta entre João Nogueira, que era casado com Benvenuta Pereira, conhecida por Benuta, sobrinha da vítima e meia irmã de Sinhô Pereira. A sucessão de casamentos ao longo dos anos entre Nogueira e Carvalho, resultou em uma só família. 
 
João Nogueira insistia em requisitar a parte de terras na herança da esposa, uma vez que a mãe desta, Úrsula Alves de Barros, já havia falecido. O sogro, Manoel Pereira da Silva, o “Manoelzinho da Passagem do Meio”, foi consultar o irmão, no caso Padre Pereira, e esse opinou que não seria oportuno vender e partilhar suas terras naquele momento. Resultou então, em uma inimizade e um ódio cego por parte de João Nogueira contra Padre Pereira. O qual contratou os cabras: Luis de França, Manoel Tomé e Mariano Mendes, para eliminar o seu desafeto. A comoção foi grande no seio da família Pereira, principalmente por parte da viúva, Francisca Pereira da Silva (Dona Chiquinha), que era esposa, sobrinha e prima segunda da vítima. Esta, de temperamento forte e no calor da hora, convoca alguns sobrinhos do esposo e primos: Manoel Pereira da Silva Filho, conhecido por Né Dadu, era o mais afoito, Pedro Pereira Valões, Manoel Pereira Valões, o cabra Pedro de Santa Fé e outros mais, para executarem a vingança imediata. Nessa ocasião, Sebastião Pereira contava com onze anos e Luis Padre, filho da vítima com quinze anos. 

O sobrenome Valões, foi uma criação de Aureliano Pereira da Silva, irmão do Barão do Pajeú e avô de Sinhô. Ele registrou três filhos, dos nove que teve com Maria Pereira da Silva, com sobrenome Pereira Valões. Conta-se que este lia uns livros sobre França e Bélgica e achava bonito o sobrenome Valões. O grupo formado na emoção parte para vingança. Executam Joaquim, irmão de João Nogueira, e em seguida, cometem um assassinato torpe. Matam Eustáquio Carvalho, que era um velho bondoso, sem envolvimento naquela guerra dos clãs. A alegação era que tinha que morrer alguém dos Carvalho com índole boa, parecida com a do Padre Pereira. ”Os Carvalho tinham que sentir a mesma dor que os Pereira sentiam naquele momento”. São atitudes medievais, herdadas de um Portugal arcaico e por anos isolado de uma Europa revolucionária, política e industrialmente. Tem início agora, a fase mais crucial da beligerância familiar. 


Né Dadu assume a chefia da luta, é agora o braço armado da família, reagindo e investindo contra os inimigos.
Com o advento do Marechal Hermes da Fonseca à presidência da república em 1910 e a sua “Política Salvacionista,” a qual tinha como lema, moralizar os costumes políticos e reduzir as desigualdades sociais, preocupa-se em derrubar as velhas oligarquias do Partido Republicano Conservador nos Estados, estimulando a substituição dos governadores por militares. É lançada a candidatura do General Emílio Dantas Barreto, então, Ministro da Guerra, ao governo de Pernambuco na eleição de 1911. O chefe político da família Pereira, Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva, o qual fora desprestigiado politicamente pela Oligarquia Rosista, passa agora a apoiar o General Emílio Dantas Barreto, que disputava uma eleição contra o próprio Rosa e Silva, apoiado agora pelo clã dos Carvalho em Vila Bela. 


Em todo o Estado a disputa é fervorosa, principalmente na Capital. Apuradas as urnas, Rosa e Silva ganha com uma margem superior a três mil votos. No Sertão do Estado, o General Dantas Barreto só ganhou em duas cidades: Vila Bela e Salgueiro. É uma amostra de que o Coronel Antônio Andrelino ainda tinha influência e poder na região onde militava politicamente. Houve uma reação imediata do grupo de apoio ao General, em não aceitar o resultado do pleito. Alegavam fraude. O Jornal Diário de Pernambuco era de Rosa e Silva. Os Jornal A Província e O Pernambuco defendia interesses Dantista, os quais reclamavam uma vitória de Dantas Barreto. O clima de guerra generalizou-se em Recife, população amotinada, tiroteios, depredações, a Câmara impossibilitada de reunir-se e com a intervenção de tropas federais, muda-se todo o processo que até então, dava vitória a Rosa e Silva. Anulam-se as eleições de Triunfo e de Águas Belas e em assembléia extraordinária é reconhecida a vitória de Dantas Barreto ao governo do Estado.

  General Emídio Dantas Barreto (*1850 +1931) 
http://www.pe.gov.br/
      
Os Pereira readquirem o poder político no município e o Coronel Antônio Andrelino Pereira é alçado novamente ao poder. Porém, essa situação transformou-se rapidamente. Uma campanha sistemática de denúncias enviadas ao governador por telegramas, pelos adversários de Antônio Andrelino, ao menor incidente envolvendo membros da família Pereira, a intervenção nesse processo do Monsenhor Afonso Antero Pequeno, que assumiu uma postura conspiratória, publicando notas nos jornais da capital, alegando que: 
“Dar o poder a Antônio Andrelino, é como dar uma espada para um louco”. 
Como tinha amizade com o Padre Batista Cabral, o qual era membro e tinha força no diretório Dantista estadual, passou o monsenhor a influenciá-lo. Comungando tudo isso a uma postura de conciliação do novo governo, em aproveitar as forças derrotadas, levou rapidamente o Coronel Antônio Alves do Exu à presidência do diretório em Vila Bela, consequentemente a mandar politicamente na cidade e adjacências. Esse ano de 1912 começava realmente nefasto para o clã dos Pereira. Iniciava-se aí a derrocada política e econômica do Coronel Antônio Andrelino, dono da famosa fazenda Pitombeira, herdada do seu pai, o Barão do Pajeú. Os ânimos já bastante acirrados e agora com os Carvalho no poder, isso implicava ter as forças policiais ao seu dispor.
                               
Nessa época, Dona Chiquinha já residia no Barro-CE, com os filhos. O Barro do Major José Inácio de Souza. Manoel Pereira da Silva Filho, o Né Dadu, sempre andava entre o sertão das Alagoas e a ribeira do Pajeú com quatro ou cinco cabras de confiança e era perseguido sistematicamente por membros dos Carvalho em junção com as forças policiais. Os dois clãs familiares eram distribuídos em fazendas, verdadeiros feudos. Os Carvalho tinham na fazenda Barra do Exu, do chefe político Coronel Antônio Alves da Fonseca Barros, o seu “Buck” maior, como também, era sede das discussões políticas. Seguido das Fazendas Umburanas de Jacinto Alves de Carvalho, conhecido por Sindário, Antônio e José da Umburana e a Fazenda Piranhas de Lucas Alves de Barros. Os Pereira com as Fazendas Carnaúba de Manoel Pereira Lins, o Né da Carnaúba e Pitombeira do Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva. Eles eram mais financiadores das empreitadas de defesa e ataque. Entraram no conflito armado em situações extremas, como ocorreu em 1908, quando a Vila de São Francisco foi cercada por grande contingente de jagunços e familiares do Coronel Antônio Alves do Exu, sitiando Né Dadu e vinte e cinco homens que cuidavam da defesa respondendo ao fogo cerrado dos inimigos. Quando os sitiados chegaram a uma situação limite, quase sem munição, chega o socorro salvador dos parentes Manoel Pereira Lins, Antônio Andrelino, Baião Pereira e Cincinato Pereira, com mais de cem homens e após três horas de tiroteio, o cerco é rompido.
 

 Sob monumento na Matriz de Santo Antônio do Barro, 
descansa o corpo de Dona Chiquinha Pereira.


A Vila de São Francisco concentrava os Pereira mais diretamente ligados na vingança, muitos com sobrenome Pereira Valões.  Como era de praxe, a oligarquia que estivesse de cima na política, tinha todas as benesses do poder. Isso só acirrava ainda mais o conflito. É notório, que o acompanhamento de membros da família Carvalho em diligências policiais, geraria constrangimento aos familiares adversários. E foi justamente o que ocorreu em 1915 na Vila de São Francisco, quando Sebastião Pereira, então com 19 anos, foi insultado, agredido por Antônio da Umburana e policiais, como também a sua genitora, Constância Pereira de Sá e uma governanta velha, passando todos por uma situação vexatória.           


No dia 16 de outubro de 1916, Né Dadu é morto covardemente pelo cabra apelidado de Palmeira ou Zé Grande. O assassino tinha trabalhado para os Carvalho e encontrava-se preso por furto. Né Dadu o retirou da cadeia, mesmo os familiares censurando essa sua atitude arriscada e imprudente. Ponderava, alegando que o cabra poderia lhe passar importantes informações sobre os seus inimigos.
Né Dadu
In http://familiapereira.net.br


Na primeira oportunidade que teve, Palmeira executou Né Dadu com um tiro de rifle e fugiu na escuridão. A parcialidade de instituições como Polícia e a Justiça eram tamanha, que nem o inquérito policial foi instaurado para apuração do crime. 

...
Esse fato extremo foi o estopim final para o jovem Sebastião Pereira da Silva, então com vinte anos e nove meses, tomar a decisão extrema de formar bando e ingressar no cangaço de vingança.  
 
Tinha muita disposição para isso, era solteiro e o caçula dos vinte e um irmãos. A princípio, teve o apoio unânime da família. A decisão de migrar para o sul do Ceará, mais precisamente para a Vila do Barro, foi uma atitude pensada, arquitetada, sem o arrebatamento da emoção e da vingança precipitada. 

A “mão de obra” do trabuco, existente no Cariri Cearense era bastante farta e experiente, como também, o laço de amizade da família Pereira com o Major Zé Inácio de Souza, solidificou-se ainda mais com o casamento da sua filha Virgínia Amélia com José Simplício Pereira, conhecido por Pereirão, neto do Barão do Pajeú e sobrinho do coronel Antônio Andrelino. 

O Livro José Inácio do Barro foi lançado por ocasião do Cariri Cangaço 2011, 
na cidade do Barro - CE.
Um trabalho grandioso, contando a história do Major José Inácio. Autor: Sousa Neto

Não entendo qualquer tipo de cangaço, sem a mobilidade necessária. É uma condição “sine qua non” para existência de qualquer bando. Então, Dispondo Sinhô Pereira da proteção importante e de um coito seguro e impenetrável nas fazendas do major José Inácio, isto foi bastante significativo e decisivo para sua militância no banditismo de vindicta, por quase seis anos. Caso tivesse constituído o seu bando com cabras e jagunços das fazendas dos familiares, seria inviável do ponto de vista da mobilidade como falei acima. O bando formado no Barro passou a fazer investidas rápidas contra os inimigos na região do Pajeú e em seguida, retornavam ao coito seguro e impossível de ser molestado naquele momento, dada a força política e o poderio bélico que dispunha o major todo poderoso do Barro.

É evidente, que não existe almoço grátis e, mais na frente, o major José Inácio vai solicitar algum “trabalho” do bando de Sinhô Pereira. O Pajeú pegou fogo no ano de 1917. As investidas do bando comandado por Sinhô e o primo Luis Padre às Fazendas Piranhas e Umburanas foram devastadoras, levando seus donos a migrarem para cidade enquanto organizavam a defesa. Jacinto Alves de Carvalho, o famoso Sindário, constituiu também bando de cangaceiros para defender-se e também investir contra o bando de Sinhô. O governador de Pernambuco, Manoel Borba, mandou para Vila Bela, nesse ano, na tentativa de barrar os sucessivos embates entre o bando de Sinhô e membros da família Carvalho, vários oficiais e um grande contingente de soldados. Os graduados: João Nunes, Teófanes Torres, Optato Gueiros, Lira Guedes, José Caetano, Cardim e Manoel Bigode. 


Theóphanes Ferraz Torres
Fonte: Pernambuco no tempo do cangaço - Geraldo Ferraz 
 
O bando de Sinhô variava muito o número de componentes, dependendo muito da empreitada a ser cumprida. Quando Luis Padre e Sinhô Pereira tomaram conhecimento do paradeiro do assassino do seu irmão, o famigerado Palmeira, logo rumaram para o Estado de Alagoas na companhia de dois cabras para executar a vingança. Essa foi concretizada à punhaladas pelo próprio Sinhô. Ao retornarem para Vila de São Francisco, tomaram conhecimento que Luiz de França, o assassino do Padre Pereira, estava residindo na Serra Vermelha. Foram incontinenti, fazer-lhes uma “visita”, encontrando-o na hora do jantar. Luiz de França tentou fugir na escuridão da noite, o qual tinha sido ferido à bala, sendo encontrado e morto na manhã seguinte.


É necessário esclarecer, que nessa intriga e luta dos Pereira e Carvalho, não se envolviam todos familiares. Tinham os cabeças, ligados diretamente ao conflito. Os alvos diretos de Sinhô Pereira e Luis Padre, eram: Jacinto Alves de Carvalho, o Sindário, seus irmãos Antônio da Umburana e Mocinho. O Zé da Umburana foi assassinado de emboscada em 1911. O crime não foi atribuído aos Pereira. A vítima tinha deflorado uma moça da localidade São Serafim, hoje Calumbi-PE. Os familiares desta o executaram. João Lucas das Piranhas, esse com parentesco com Pereira. Natinho, João Nogueira, o qual era cunhado de Sinhô, o coronel Francisco Alves do Exu e o irmão Agnelo.  De todos esses inimigos figadais de Sinhô Pereira, só Antônio da Umburana sucumbiu vitimado pela arma pontiaguda do vingador. 
 
Sinhô teve informações que Antônio da Umburana estava no povoado de Queixada, hoje Mirandiba-PE, então, dirigiu-se até lá com o bando e após várias horas de tiroteio e resistência de Antônio que estava no interior de uma residência, este teve que sair para não morrer queimado após terem ateado fogo na casa. Morreu com várias punhadas desferidas pelo cangaceiro vingador. No ano de 1918, já não era unânime a aceitação dos Pereira, referente às atividades cangaceira de Sinhô e Luis Padre. Existia no seio da família um desgaste psicológico grande, um clima de constante expectativa e sobressaltos, como também, grandes perdas econômicas. Após o falecimento de Dona Chiquinha, no Barro-CE, acometida pela avassaladora epidemia da gripe espanhola, naquele mesmo ano de 1918, resolve os primos: Sinhô Pereira e Luis Padre, abandonar o cangaço e seguirem juntos para o Estado de Goiás. 

 Fazenda do major Zé Inácio do Barro
  
A viagem transcorria normal até então e, estrategicamente, se dividiram para não despertar a curiosidade de transeuntes ou mesmo de alguma força policial. A intenção era encontrarem-se ainda no Estado do Piauí, próximo da cidade Caracol e seguirem até o destino final, São José do Duro, corruptela de São José D’Ouro, em Goiás, hoje Estado de Tocantins. 

Porém, o grupo de Sinhô Pereira é surpreendido por uma força policial piauiense, comandada pelo Tenente Zeca Rubens e após dois confrontos sucessivos com baixas em ambos os lados, Sinhô Pereira não teve mais condições de consumar o seu intento, retornando ao palco de guerra no Pajeú e Cariri Cearense.  O crescimento econômico e o poderio político do major José Inácio foram vertiginosos. O seu “modus operandi” é questionável, justificando-se e amparando-se na prática comum à época, que era a deposição de chefes políticos pelo uso da força e atitudes nada civilizadas. 


Na maioria das vezes com a conivência ou omissão do próprio poder estadual, encastelado na capital do estado. Sinhô Pereira já há mais de dois anos dispondo da proteção, munição farta, contingente de homens afeitos àquela profissão, tudo disponibilizado pelo Major José Inácio, é inconcebível que este não se envolvesse nos interesses e questões do protetor e amigo, caso fosse requisitado. Nas ações de interesses do chefe político do Barro, em que tomou partido, desviadas do seu objetivo principal que era a vingança familiar, considero pontuais. Em vinte de janeiro de 1919, na zona rural de Milagres, invade com o bando a casa da senhora Praxedes, viúva do coronel Domingos Leite Furtado, de onde é roubada uma quantia considerável em dinheiro. Um ano depois, vinte de janeiro de 1920, a casa da fazenda do Coronel Basílio Gomes da Silva, localizada no Município de Brejo Santo é saqueada. 

Este não procurou providências temendo represálias. Dois anos depois, em dezenove de janeiro de 1922, por desavença, interesses políticos e rixa familiar do amigo e protetor José Inácio, Sinhô invade a Vila de Coité, Distrito de Mauriti, reduto e residência do Padre Lacerda, desafeto de José Inácio de Souza.



Padre Lacerda
Fonte: Lampião e o Estado Maior do Cangaço
Hilário Lucetti / Magérbio Lucena. pág 121.
 
A resistência do povoado é heroica, impossibilitando os invasores de aniquilar o Padre Lacerda que no interior de sua casa com jagunços e amigos, respondeu a altura o intenso tiroteio. Esse episódio é emblemático para a derrocada do Major José Inácio. Iniciam-se as pressões por parte do Presidente do Estado Justiniano Serpa, motivadas por uma enxurrada de denúncias e artigos publicados em jornais da capital, contra o maior coiteiro de cangaceiros de que se tem notícia para as bandas do Cariri. O pacto envolvendo os Estados da Paraíba, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte é concretizado, podendo agora, suas forças policiais ultrapassarem as divisas estaduais em perseguição de bandoleiros, sem a necessidade da autorização prévia. O major José Inácio já planejando retirar-se do seu feudo para terras distantes, arquiteta sua última investida contra os fazendeiros na região de Catolé do Rocha-PB, Waldevino Lobo, Adolfo Maia e Raquel Maia, com o nítido objetivo de usar esse dinheiro em novo domicílio. 


Jorge Remígio
O plano é executado pelo bando de Sinhô Pereira, agregado ao de Ulisses Liberato e muitos cabras do Major. Não chegaram até a fazenda de Raquel Maia. Achou por bem Sinhô Pereira, retornar ao Barro, após saquearem Waldevino Lobo e Adolfo Maia. Logo em seguida, José Inácio é preso, porém, por pouco tempo. Sua fuga, meio que facilitada, encerra-se um capítulo na história coronelística do Cariri Cearense. Os fatos narrados acima ocorreram em um espaço de três anos. Entendo que Sinhô Pereira cometeu muitos “pecados” fora do seu objetivo principal, que era a vingança. Entendo também, que não houve uma transtipificação do seu cangaço, ou seja, não enxergo que tenha feito um cangaço de negócio, meio de vida. O bando não era sustentado com dinheiro de saque.


Naquele mundo estranho que foi o cangaço, todos pecaram: Coronéis, Cangaceiros, Coiteiros e Policiais. Com a saída do Major José Inácio do seu território, o cangaço de Sinhô Pereira ficou inviável. As investidas que fazia contra os inimigos no Pajeú e o retorno seguro para o Barro, não existiam mais. 

Lampião praticamente assumiu o grupo no mês de maio de 1922. Não comungo com a ideia de que Sinhô Pereira tenha influenciado no ataque à casa da Baronesa de Água Branca em junho de 1922. Lampião já tinha autonomia sobre o bando. Quando Sinhô parte para sua viagem e abandona totalmente sua vingança, a entrega do bando para Lampião em agosto daquele ano é puro simbolismo. 
 
Sebastião Pereira e Antonio Amaury. 
Patos de Minas, MG jan. de 1970
Arquivo do pesquisador.

Lampião era detentor do produto do saque em Água Branca. Sinhô teve uma considerável ajuda financeira dos parentes Manoel Pereira Lins e Isidoro Conrado para a sua viagem. O agora ex-cangaceiro partiu ao encontro do primo Luiz Padre e do amigo José Inácio de Souza, com um sentimento de não ter concretizado a sua vingança. Advogo a tese, de que o cangaço é muito mais dependente e ligado ao Coronelismo do que se possa imaginar. Essa ideia vale para qualquer tipo de CANGAÇO.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

- Albuquerque, Ulisses Lins.  UM SERTANEJO E O SERTÃO

- Barreto, Ângelo Osmiro. ASSIM ERA LAMPIÃO

- Carvalho, Rodrigues de. SERROTE PRETO

- Dantas, Sérgio Augusto de Souza. LAMPIÃO, ENTRE A ESPADA E A LEI

- Melo, Frederico Pernambucano de. GUERREIROS DO SOL

- Maciel, Frederico Bezerra. LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO. vol. I

- Neves, Napoleão Tavares. CARIRI, CANGAÇO, COITEIROS E ADJACÊNCIAS

- Sá, Luiz Conrado Lorena. SERRA TALHADA 250 ANOS DE HISTÓRIA, 

- Sousa, Severino Neto. JOSÉ INÁCIO DO BARRO E O CANGAÇO

- Wilson, Luis. VILA BELA, OS PEREIRAS E OUTRAS HISTÓRIAS

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