quarta-feira, 22 de maio de 2019

Mestre Napoleão Tavares Neves

O médico que conta histórias

 Por Pedro Philippe • 21 de novembro de 2016
 Fotos: Samuel Macedo

Aos [89] anos, Napoleão Tavares Neves cultiva uma memória impecável, um currículo extenso e mil histórias de encantar. Autor de livros sobre o cangaço, cronista talentoso e memorialista por vocação, ele foi também um dos primeiros médicos a se estabelecer em Barbalha, apadrinhado por Pio e Leão Sampaio, que lhe ensinaram que Medicina se faz com o coração. Para a CARIRI, Napoleão resgatou relatos que a história oficial ainda desconhece e que lhe foram contadas pelo povo simples do sertão, gente que pediu a bença a Padre Cícero e que olhou nos olhos de Lampião.




“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”, Socorro Neves interrompe o silêncio mal o carro sai de Barbalha, recitando todo o Salmo 90. Segurando as contas do terço entre os dedos, ela reza por uma viagem segura ao longo dos 137 km até Porteiras, enquanto o marido, Napoleão Tavares Neves, leva no colo um estojo com estetoscópio e prontuário e fala com empolgação sobre o que vê na paisagem já seca de agosto. “Aquele é o ponto mais extremo do sul da Chapada do Araripe”, ele ensina.

Depois se vira para o banco de trás e pergunta, apontando mais ou menos ao leste:

“Já foi em Missão Nova? Todo mundo acha que a primeira igreja do Cariri é a Sé do Crato, mas é uma que foi construída pelos capuchinhos bem ali”. Já chegando ao destino, o doutor mostra um lugar no horizonte: “Ali nas Guaríbas morava Chico Chicote. Sabe a história de Chico Chicote? A manhã em que a tropa do Tenente Zé Bezerra o atacou, em 1927, foi uma verdadeira epopeia nesse sertão”.

O rosário de Socorro durou a distância entre Missão Velha e Brejo Santo, mas a aula de geografia e história com Napoleão, se deixar, dura um dia inteiro. Naquela manhã de domingo, ele visitava as irmãs, Ranilda e Romilda, no distrito do Saco, na casa onde seu pai construiu um dos oito engenhos de rapadura que adoçaram a economia de Porteiras, quando este ainda era um distrito de Jardim. Porteiras tornou-se um município independente, depois veio a ser rebaixado novamente a distrito, ligando-se à cidade de Brejo Santo até se emancipar de vez, em 1953. O sítio foi basicamente batizado pela própria Chapada do Araripe, que o envolve como em um saco – visto de cima, é como se tivessem comido a Chapada em uma dentada. A casa de Joaquim Neves e Maria Tavares, pais de Napoleão, foi erguida justamente no recôndito desse U de 900 metros de altura, um semicírculo de cerca de 20km de comprimento, oito bocas d’água e uma imensidão verde, resistente às mais duras secas.

Do paraíso onde Napoleão passou os primeiros anos de sua infância ainda se avista, a duas léguas, a casa de Manoel Rosendo, seu avô materno, conhecido como Né Rosendo, para onde o menino corria todas as manhãs, montado em um cavalo de pau. Agora octogenário, Napoleão apoia uma bengala na mão e, na outra, carrega seu kit médico, aguardando a oportunidade de realizar uma consulta. Nem o chão entre as duas casas é mais o mesmo, já que a erosão e as chuvas torrenciais que desceram da serra nesse século que se passou criaram morros na área onde antes pastavam 800 cabeças de gado e existia uma plantação de cana-de-açúcar que era moída para mais de 1.500 engenhos do Cariri.

Toda sabedoria do mundo

Quando deu à luz Napoleão, no dia 17 de setembro de 1930, Maria já sofria há três dias as dores do parto. “Mas, também… Com uma cabeça grande dessas!”, diz o doutor mostrando o chapéu número 60, feito sob medida, e caçoando de si mesmo. O parto difícil foi feito por Pio Sampaio, médico que anos depois trabalharia com o menino que ajudou a pôr no mundo. Napoleão nasceu na fazenda do avô paterno, o Coronel Napoleão Franco, no Sítio Belo Horizonte, em Jardim, quando a cidade era só um curto trecho que começava na ponte sobre o Rio das Piabas e acabava na Rua da Baixa.

Jardim e Porteiras são cidades vizinhas, separadas pela serra alta, por onde a estrada faz o longo contorno que Napoleão percorria a cavalo. Nos anos em que viveu aos pés da Chapada, ele brincava de correr entre as caldeiras do engenho e de acompanhar os vaqueiros na lida. A convivência com os sertanejos que trabalhavam no Saco marcou a personalidade do pequeno Napoleão, impressionado com as histórias do cangaço, que para sempre assustariam sua mente de menino e, mais tarde, formariam o historiador que ele viria a ser.


 
 No sítio Saco com as irmãs, Romilda e Ranilda.

Montado em seu cavalo, ele fingia ser vaqueiro também, assistia aos aboios e pegas de boi, levava as reses para pastar e comia o típico almoço do sertanejo: farinha, rapadura e carne assada. “A carne do alforje é a mais gostosa do mundo!”, ele diz com intensidade, quase gritando, e explica o segredo: o sal impregnado no alforje sujo é o que dá o sabor, muito melhor do que a carne da cozinha, com o sal semeado. Deitados na bagaceira do engenho, os trabalhadores do Saco descansavam, admirando o céu estrelado, e aí então “a conversa truava até uma hora da manhã”, ele recorda. Eram pelejas de cangaceiros, estórias de trancoso e até aulas de astrologia.

As falas mais marcantes daquele tempo vieram de Antônio Farosa, um velho caboclo que parecia possuir toda a sabedoria do mundo. Sobre as estrelas cadentes, ele alertava a Napoleão: se aquela estrela bater em outra, o mundo se acaba. “E o que é que eu faço?”, ele perguntava. “Você reza: Deus te guie, Deus te guie, Deus te guie!”, Farosa ensinava a evitar uma hecatombe. “Eu ficava morrendo de medo, pensando: ‘eita rebuliço! Se ela bater e o mundo acabar, eu tô lascado!”, Napoleão ri. Mas nem só de peripécias vivia o velho sábio. Ele passou para Napoleão todo o conhecimento que tinha do Cariri – mística, natureza e cangaço.

O país das almas

“O Saco é o país das almas. Lá todo mundo vê alma”, Napoleão explica antes de contar a mais estranha de todas as histórias que ele presenciou, “A única vez que eu vi darem uma surra num defunto foi lá”. O fato aconteceu enquanto ele acompanhava o carregamento do corpo de um homem que morreu empurrando lenha no talhado do engenho. “Eles vinham descendo com o defunto em uma rede, até que um deles reclamou: ‘o defunto tá pesaaando’. Aí o mais sabido gritou: ‘Para, para, para! Isso é porque o diabo não quer que a gente leve ele pra igreja. Aí se escancha em cima da rede e faz pesar’. Eu fiquei todo arrepiado quando ele disse isso. Depois entrou no mato, tirou um galho de pau e deu uma pisa no morto. Enquanto ele dava, os outros descansaram”, contou. Quando testaram o efeito da surra, alguém elogiou: “Ah, agora tá manêro.

Aos 12 anos, acompanhando o aboio de 200 reses de uma fazenda a outra, Napoleão viu outro acontecimento, no mínimo mágico, digno de passagem em livro de Guimarães Rosa. A caravana se deparou com a caveira de um boi morto na estrada e, em vez de seguir caminho, todas os bois se puseram em torno do corpo do bicho e choraram. “Uma coisa que eu nunca vi na minha vida. A coisa mais linda. Os bois cavando em torno do irmão e urrando. Todo o gado, sem faltar um. Os vaqueiros então tiraram o chapéu, puseram no peito e baixaram a cabeça”. Maravilhado com o Cariri, o menino Napoleão começou a desconfiar que havia muita história a ser contada. Ele então adquiriu os hábitos que definiram sua personalidade e serviram para resgatar memórias dos caririenses: ele aprendeu a perguntar e a ouvir. Em sua biblioteca, uma estante que vai do chão ao teto guarda quase duas mil crônicas que já foram lidas em rádios de Barbalha e Crato, contando o que ele escutou ou viu em seus 89 anos de vida.



Se Napoleão não conseguia dormir, amedrontado pelos cangaceiros, não haveria como fugir: a sua avó materna, Ana Pereira Neves, a Donana, foi madrinha de Luiz Padre, o famoso cangaceiro de Serra Talhada. Para completar, o Saco era passagem de quem ia para Juazeiro do Norte através da Chapada. O caminho de Lampião no Cariri era sempre o mesmo: ele entrava por Macapá (atual Jati), ia direto para a Fazenda Piçarra (onde morava o amigo Antônio Teixeira Leite), subia a serra pela Ladeira da Salva Terra (entre Brejo Santo e Porteiras, onde Napoleão morava), até chegar na Serra do Mato (entre Barbalha e Missão Velha). Para entender a peregrinação do rei do cangaço e seus cabras, Napoleão recorria ao mapa sempre que ouvia as histórias da avó. “Donana me contava muita coisa e eu fui gravando tudo na cabeça”, recorda. Devota do Padre Cícero, ela se comunicava com o sacerdote por cartas. Uma correspondência em particular, Napoleão se recorda. Donana escreveu se lamentando: “Meu padrim, não posso subir ladeira, que me sinto cansada”. Ao que Cícero respondeu: “Isso é anemia. Vá em Porteiras e compre ferro em pó”. O doutor pondera: “Ele era muito prático, muito inteligente – pra a época e pra onde vivíamos”.

 A terra encantada do Saco, em Porteiras, 
onde Napoleão viveu a infância.

No caminho de Lampião

Quatro anos antes de Napoleão nascer, Lampião passou pela casa de Né Rosendo pedindo para deixar sua montaria descansando e pegar emprestados oito cavalos, para chegar bem apresentado em Juazeiro do Norte. Obviamente, Manoel não negou. Pediu para o filho Rosendo Miranda, então com oito anos, ir ao curral buscar os bichos para o cangaceiro. Esperto, o menino tentou uma façanha arriscada: escondeu os cavalos que ele mais gostava e trouxe oito burros de cambito, que Lampião aceitou. A cozinheira da casa de Né, Antônia Lúcia, contou a Napoleão outra passagem de Lampião pelo Saco: quatro de seus cabras se juntaram ao temido Horácio Grande para roubarem a fazenda. Antônia e Manoel, armados com os dois únicos rifles da casa, colocaram os homens para correr. José Roque, também morador do avô, contou a ele que, em 1927, andando pelo meio do mato, entre Porteiras e Jardim, foi surpreendido pelo bando de Lampião. Roque só conseguiu fugir quando começou um tiroteio entre os cangaceiros e policiais que apareceram de repente.

Em 1938, Lampião morreu em Sergipe enquanto Napoleão acompanhava tudo arrastando o dedo indicador pelo mapa do Nordeste e ouvindo as narrações através do único rádio de Porteiras – o da sua casa. “Eu soube pela voz de João Ramos, da rádio PRE9, que Lampião tinha morrido na grota dos Angicos”, recorda, com uma memória espetacular. No ano seguinte, forçado a largar as brincadeiras no canavial e as viagens com os vaqueiros, Napoleão se mudou para Jardim, a fim de estudar. A tia Beatriz Neves, professora normalista na cidade, preferiu educar o garoto em sua casa, em vez de mandá-lo para a escola. Nos anos que se seguiram, Napoleão foi alfabetizado, se preparou para o exame de admissão no ginásio e acompanhou o desenrolar da II Guerra Mundial pelo rádio, correndo sempre para o mapa múndi. Foi quando descobriu que o mundo era maior do que o vale encantado do Saco.

Aprovado no exame de admissão no Colégio Diocesano, ele se mudou para o Crato, de onde voltava a cada 15 dias. O velho Farosa ficou sendo o portador que o acompanhava no trajeto a cavalo. Saindo do Saco às 5 horas da manhã, os dois chegavam no Crato às 17h. Era um dia inteiro de cavalgada e muita história, enquanto o caboclo sábio ia deixando seu conhecimento com o amigo ainda adolescente. Em um desses dias, descansando na mata em Barbalha, Napoleão viu um morro com cinco cruzes. “O que é isso, Farosa? É um cemitério?”, ele perguntou. “Não. Aí estão enterrados os Fuzilados do Leitão”, explicou onde estavam os corpos de Lua Branca e outros quatro homens supostamente envolvidos com o cangaço, fuzilados em 1928. Lua Branca era o último dos irmãos cangaceiros de Barbalha que ficaram conhecidos com Os Marcelinos. Bom de Veras e João 22 já haviam sido assassinados, sobrando apenas o mais novo deles. Quando a Associação Pró-Memória de Barbalha quis reconstituir o local onde os fuzilados estão sepultados, Napoleão foi a única pessoa a saber onde estavam.

A verdadeira medicina

Nos anos entre Jardim e o Saco, Napoleão sentiu-se inspirado pelo trabalho do médico que o pôs no mundo, o barbalhense Pio Sampaio. “Desde criança, eu sabia que era aquilo que eu queria”, ele conta. “Eu gostava de tudo relacionado ao trabalho do médico, sobretudo o de atender a quem não podia pagar. Os exemplos que eu tinha eram daqui de Barbalha: Dr. Pio, Dr. Leão e Dr. Lírio Callou. Eles atendiam quem tinha dinheiro e quem não tinha. Aquilo me chamou a atenção e eu dizia comigo: ‘isso que é Medicina!”.

Formado em 1958 pela Fundação de Ensino Superior de Pernambuco, atual Universidade de Pernambuco, Napoleão encontrou a Medicina já em avanço no Cariri. O Crato tinha o Hospital São Francisco desde 1936 e, em 1955, Juazeiro ganhou o Hospital São Lucas. Fundado pelo bispo Dom Quintino Rodrigues, o São Francisco surgiu para tratar os acometidos pela peste negra (ou bubônica), enquanto o São Lucas, dirigido pela Sociedade São Francisco das Chagas, atendia com grandes médicos da época, lembrados até hoje, como Mozart Cardoso, Mário Malzoni e Mauro Sampaio, filho de Leão Sampaio, deputado federal desde 1933, responsável por trazer diversos recursos para o hospital.

“Do mesmo jeito que vinham atrás do Padre Cícero, as pessoas vinham de todos os lugares para se receitar com Pio e Leão Sampaio”, Napoleão conta. “Os romeiros iam para o Juazeiro e passavam por Barbalha. Depois voltavam pra terra deles falando que tinham se operado de graça, aí enchia de gente aqui”. Por muito tempo, Leão foi o único oftalmologista do interior do Nordeste, especializado em cirurgias de catarata. “Quando cheguei em Barbalha, eles estavam saindo”, ele lembra de quando os médicos da família Sampaio começaram a carreira política.

Napoleão morou por um tempo na casa de Edmundo Sá Sampaio, um primo distante, e acabou se apaixonando pela filha deste, Socorro. De acordo com os costumes da época, o rapaz saiu da casa para pedir a moça em casamento. Foi o pai de Socorro quem ajudou Napoleão a montar sua primeira clínica em Barbalha, onde o veterano Pio Sampaio atendia sempre que estava na cidade. No último dia em que Pio ficou sozinho no escritório do amigo, Napoleão foi interpelado por uma paciente, que reclamou: “Doutor Pio hoje me receitou, mas passou meia hora com a mão na testa, pensando. Tenho certeza que era escutando os santos para dar o diagnóstico”. “Eu contei a ele e ele riu”, Napoleão recorda, “E depois disse: ‘tome aqui a chave do seu consultório! Eu não venho aqui mais é nunca! Eu tô passando meia hora pra lembrar os nomes dos comprimidos”. Perguntado se Pio e Leão eram bons no que faziam, Napoleão responde sério: “Bons? Essa palavra não traduz o que eles eram”.

 Napoleão e Socorro
Não tem doente que escape

Seguindo os passos de Leão e Pio, Napoleão atendia em seu consultório de graça, sem nunca conseguir fazer o negócio lucrar. Por 33 anos, trabalhou no Sandu, em Juazeiro do Norte, concursado pelo Instituto Nacional da Previdência Social (Inamps), que mais tarde evoluiu para o atual SUS. Em 1970, foi inaugurado o projeto do hospital capitaneado pelo amigo Lyrio Callou e concluído pelas freiras Irmãs Beneditinas. Era o Hospital Maternidade São Vicente de Paulo, hoje o principal do Cariri, onde Napoleão trabalhou como diretor até ser convidado pela prefeitura para ajudar na atenção básica de Barbalha.

Já passando dos 70 anos de idade, o médico não havia perdido o ânimo pelo trabalho e nem a paixão pelo consultório. Ele labutou oito anos no Posto de Saúde das Malvinas, bairro periférico da cidade. Enquanto a maioria dos seus colegas atendia 20 pacientes por dia, ele chegava a receitar quase o dobro – até que, no Ministério da Saúde, estranharam que um único PSF tivesse atendido 60 mil pessoas em oito anos. A fiscalização que foi até as Malvinas viu que o doutor simplesmente cumpria os horários e não mandava nenhum morador de volta sem atendimento e medicação. Não faltavam prontuários para atestar a veracidade dos números. “Por que o senhor faz isso?”, um deles teria perguntado. “Porque tá aqui”, ele respondeu, batendo no peito, na altura do coração. “Nasci pra isso, então eu faço”.

Sobre os médicos que observou durante a juventude, ele resume: “Via de regra, eram sempre pessoas boas que tinham inclinação natural pra fazer o bem. Então a faculdade só fazia aprimorar”. E isso mudou? “Mudou! Mudou muito, mas muito mesmo. Hoje qualquer um que seja inteligente, tendo ou não tendo vocação pra Medicina, entra em uma faculdade. Aprende a teoria e depois se adapta. Hoje é difícil encontrar um médico que trabalhe por amor”, considera. “Mas aqui há duas faculdades de Medicina, soltando mais de 40 médicos no Cariri a cada semestre. Isso é muito bom. Não tem doente que escape!”.

 

Crônicas, filmes e relatos

Da varanda de sua casa, em uma tarde de segunda-feira, acompanhado da esposa Socorro e da filha mais velha, Jácia Maria, o médico com verve de historiador recebeu a CARIRI Revista. Jácia e suas duas irmãs, Raissa e Miria, se tornaram médicas também, e todas elas se casaram com médicos. Jácia é pediatra do Hospital São Vicente e, como o pai, não sai sem deixar um paciente sem atendimento. Pelas suas contas, em seus 10 anos no HMSVP, ela deve ter olhado para cerca de 60 mil crianças. Napoleão tenta explicar: “Dá uma satisfação íntima que a gente não sabe dizer o que é. Eu mesmo não sei”.

A paixão por ouvir o paciente dizer o que sente, pensar na solução e indicar o remédio acabou casando com a vontade de escutar também histórias como as de Donana e Farosa. Napoleão então criou o hábito de conversar com os mais velhos em seu consultório, tentando puxar relatos orais de fatos do Cariri. Raimundo Gomes de Figueiredo foi um desses, que chegou com verdadeiras joias: contou tudo a respeito de Júlio Pereira, o caririense que comprava munição para Lampião, e sobre Benjamin Abrahão Botto. As pesquisas do médico a respeito de Abrahão, secretário do Padre Cícero e fotógrafo de Lampião, serviram para Frederico Pernambucano de Mello preparar o roteiro do filme Baile Perfumado (1999).

O material que chegava na mesa do doutor também encheu a estante de crônicas e renderam três livros: Cariri – Cangaço, Coiteiros e Adjacências, Barbalha Cultural e Primeiro Templo Católico do Cariri. Por ser fonte recorrente para os alunos do curso de História da Universidade Regional do Cariri e ter seu nome citado em 3% dos trabalhos apresentados e publicados ali, Napoleão Tavares Neves recebeu o título de Doutor Honoris Causa da instituição.

“Minha filha, acho que eu tô louco”, ele desabafou com Jácia, no tempo em que ainda trabalhava, “Quando tá de tardezinha, eu quero que anoiteça, pra chegar logo a manhã e eu ir pro hospital, receitar”. No ano passado, Napoleão completou 58 anos em exercício, de volta ao ambulatório do Hospital São Vicente. Aos 85 anos de idade, parou de trabalhar porque as filhas o obrigaram a cuidar da própria saúde. “A gente já estava querendo que ele parasse e ele dizia que não. Aí a gente falou com a Irmã Ideltraut (diretora do HMSVP) pra ele ficar só meio expediente. Mas numa manhã ele atendia 40! Contrataram uma pessoa só para limitar o número de pacientes dele”, Jácia conta sem que ele ouça. Depois que a sala do doutor ficou vazia, volta e meia ainda aparece algum velhinho procurando pelo médico. “E agora? Com quem é que eu vou conversar?”, um deles saiu de lá se lamentando. “O que será de nós?”, outra reclamou.

“Era bom demais, rapaz!”, ele lembra de quando podia ir consultar, falando com uma satisfação tão grande que é como se descrevesse um hobby. Talvez de fato fosse. No domingo em que visitava o Saco, a única chance que Dr. Napoleão teve de atender um paciente foi quando este repórter se queixou de uma dor. “Onde é essa dor? Mostre aí. Na boca do estômago? Pare de tomar tanto café”, ele sentenciou.

Apoiado na bengala com os dois punhos, Napoleão admira a vista da Chapada do Araripe e, questionado se voltaria a trabalhar se pudesse, ele se vira e responde com a rapidez de quem acabou de ser acordado: “Volto! Eu já disse a Jácia que estou disposto”. Dificilmente Socorro e as filhas vão deixar. O estojo com o bloco do prontuário em nome de Dr. Napoleão Tavares Neves continua com as folhas em branco, o estetoscópio e o aparelho de pressão estão enrolados e, contra a sua vontade, o médico se aposenta.

 


Um pequeno grande homem
por Tadeu Alencar

“Quando conheci Napoleão Tavares Neves, ele não era nem o médico nem o homem. Era uma página vibrante da crônica da Rádio Salamanca, um Rubem Braga do Cariri. Era o ano de 1983. Eu tinha vinte anos. Ele, nascido no alvorecer da revolução de 30 e com o espocar dos seus disparos, tinha 53 anos, a idade que tenho hoje. Eu me iniciava na terra de Santo Antônio, onde viria a encontrar a eleita dos meus dias e ele já era uma autarquia, uma instituição. Tinha uma sabedoria que não terei jamais, mesmo com o passar galopante dos anos. Depois do cronista agudo sobre o cotidiano de sua gente, em especial de sua Barbalha, de quem foi o maior bardo, passei a ver aquela roupa branca com a sua sacralidade hipocrática, um médico da gente simples do sertão, à moda de um Leão Sampaio, de quem decerto era invulgar seguidor. Era culto, ilustrado, generoso, certeiro no diagnóstico, conhecendo como ninguém a alma do homem simples, cioso do papel de médico à moda antiga, dos partos em casa, da presença de todas as horas. Médico, psicólogo e catequista. No entanto, mais que o cronista, que o médico amoroso pelo seu ofício, o que me fez cativo para sempre do seu encanto foi o talento de historiador incansável, em sua curiosidade de menino travesso, ávido por tudo aprender. Napoleão era um João Brígido alimentado no bagaço da cana da Pedra Branca. Foi meu preceptor na arte da memória e na saga dos sertões adustos, da genealogia inebriante, dos jagunços de alma penitente, do Pe. Cícero, de Ibiapina, Floro e Bárbara – que, em sua extensão heroica, me foi apresentada por ele. Foi meu mais provocativo interlocutor em missivas que me faziam arregalar os olhos e abrir a mente. No meio da caatinga do caboclo, me mostrou o ouro que há nos veios da Chapada do Araripe. Um pequeno grande homem. Dos maiores que conheci”.

Napoleão pelos seus

“Hoje trilhando o árduo caminho da Medicina, eu imagino o quanto meu pai deixou de lado para que nada nos faltasse. Guardo lembranças de sua atenção, carinho e amor. Lembranças de noites de febre, com ele ajoelhado ao nosso lado. Lembranças do último beijo na hora de dormir e o apagar da luz do quarto. Lembranças do ajeitar do cobertor diariamente”.

Miria Neves Sá, filha, endocrinologista.

“Meu pai é um homem de muitas virtudes, mas duas delas para mim se sobressaem. A primeira é a gratidão. Sempre o vi cuidar com muito amor de quem zelou por ele ou por alguém de sua família. A segunda virtude é a valorização da minha mãe, Socorro. Isso para mim é extremamente belo e engrandecedor”.

Raissa Neves Fernandes, filha, reumatologista.
“Meu pai é um modelo de integridade, modelo de filho, modelo de amigo, modelo de médico. Meu referencial de bom senso, de fazer grandes e boas escolhas na vida. Meu referencial em como ser dono do seu dinheiro e não ser escravo dele. Olho pra ele com alegria, orgulho e felicidade de ter tido o privilégio de ser sua filha. Não é à toa que escolhi ser médica como ele”.

Jácia Maria Neves Coelho, filha, pediatra.

“Napoleão Tavares Neves, aos 86 anos, é detentor de uma bagagem cultural inesgotável, e transborda conhecimentos de história e geografia da rica e fecunda Chapada do Araripe. Dedicou grande parte destes 86 anos à Medicina voltada aos mais humildes, tornando-se uma referência de como deve ser um médico”.

Jairo Sá. Genro. cirurgião plástico.
 “Forjado na doçura das gamelas dos engenhos de rapadura e criado sob a beleza dolente dos aboios dos vaqueiros, Napoleão traz um legado de amor ao Cariri. Verdadeiro sacerdote da arte de Hipócrates, ele é um repositório vivo da História recente do Ceará, guardião incansável da sua memória e defensor intransigente da majestosa Chapada do Araripe”.

Leandro Cardoso Fernando, genro, cardiologista

Tudo  começou com Bonaparte


Napoleão Tavares Neves tem teses singulares para diversos acontecimentos. O comportamento pacífico de Lampião em relação ao Cariri, que muitos atribuem ao suposto respeito ao Padre Cícero, ele diz ter sido simplesmente estratégia do cangaceiro para não se indispor na região onde era obrigado a passar com frequência. Sobre o declínio dos engenhos de cana-de-açúcar, ele explica: a praga do bicudo destruiu as plantações de algodão do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, deslocando os trabalhadores da lavoura, principais consumidores da rapadura. Para o surgimento de um polo de saúde no Crajubar, ele tem uma teoria original.

Tudo começou com Napoleão Bonaparte. O militar francês invadiu Portugal em 1807, forçando a família real a fugir para o Brasil no ano seguinte. Com a vinda da corte para a colônia, muitos avanços foram empreendidos, entre eles a criação das Escolas Médicas de Salvador e Rio de Janeiro, por onde passou o barbalhense Leão Sampaio, formado em 1922, pioneiro em fazer o Cariri se tornar conhecido pelo atendimento médico. O irmão, Pio Sampaio, formou-se dois anos depois e, em 1930, estava atendendo em Jardim, onde fez o parto de Maria Tavares Neves, mãe de Napoleão.

Publicado originalmente na Revista Cariri

terça-feira, 21 de maio de 2019

Evento em Salvador, BA

Lançamento do Doc 'Assim era Dadá'

O Centro de Estudos Euclydes da Cunha - CEEC tem o grande prazer de anunciar o lançamento do nosso mais novo filme-documentário do professor e pesquisador Manoel Neto “Assim era Dadá – A vida pós cangaço de Sérgia da Silva Chagas.
 

O evento terá entrada franca e acontecerá no próximo dia 23 de maio de 2019, ás 19h, na Sala Walter da Silveira, Rua General Labatut, no prédio da Biblioteca Central da Bahia.



segunda-feira, 20 de maio de 2019

Opinião de Câmara Cascudo

Cangaceiro, vítima da Justiça

“Aqui no Nordeste brasileiro nós sabemos que o cangaceiro não é uma formação espontânea do ambiente. Nem sobre ele influi a força decantadamente irresistível do fato econômico. Nas épocas de seca a fauna terrível prolifera, mas nenhum componente é criminoso primário. Os bandos têm sua gênese em reincidentes, trânsfugas ou evadidos. Nunca a sugestão criminosa levou um sertanejo ao cangaço. É cangaceiro o já criminoso. E criminoso de morte.
 
 Xilogravura de Cláudia Nen

Depois de tanta discussão explicativa fica-se sem saber de que elementos estranhos sai o tipo hediondo, que outrora inda conservava o tradicional “panache” do heroísmo pessoal, do respeito às mulheres e aos velhos e da solidariedade instintiva à bravura. Nunca um cangaceiro digno desse nome matou um homem reconhecidamente bravo. Quase sempre ficavam amigos ou mutuamente se distanciavam.

Mas qual seria o fator psicológico na formação do cangaceiro? Para mim é a falta de Justiça, que no Brasil é corolário político.

A vindita pessoal assume as formas sedutoras dum direito inalienável e sagrado. Impossível fazer crer a um sertanejo que o tiro com que ele abateu o assassino de seu pai deve levá-lo à cadeia e ao júri subsequente. Julga inicialmente um desrespeito a um movimento instintivamente lógico e que a Lei só deveria amparar e defender. Daí em diante surgirá o cangaceiro vítima de sua mentalidade. Ele descende em linha reta das “vendettas” e da pena do Talião.

Este é o aspecto raro. O comum é o sertanejo matar o assassino que ficou impune e bazofiador. Neste particular a ideia de prisão é para ele insuportável e inadmissível. Surge, fatalmente, o cangaceiro.
Defensores de Mossoró em 13 de junho de 1927.

A desafronta constitui a característica inicial do “bravi”. Numa alta proporção de oitenta por cento o cangaceiro do Nordeste brasileiro apareceu num ato de vingança. E são estes justamente os grandes nomes que o sertão celebra num indisfarçado orgulho que não dista da possível imitação.


Adolfo Rosa quis uma prima e o tio mandou prendê-lo num tronco. Dois dias depois o tio estava morto e surgia Adolfo Velho Rosa Meia Noite, chefe de bando, invencível e afoito. É uma das figuras mais representativas do velho cangaceiro típico, generoso e cavalheiresco. Jesuíno Brilhante tornou-se cangaceiro defendendo os irmãos contra a Família Limão. Baixo, loiro, afável, risonho, Jesuíno é uma lembrança cada vez mais simpática para o sertão. E sua morte é guardada como a dum guerreiro:

Jesuíno já morreu

Acabou-se o valentão.

Morreu no campo da honra

Sem se entregar à prisão.

Antônio Silvino matou o que lhe matara o pai. Jesuíno, no ódio que tinha da Família Limão, declarou guerra a todos os limoeiros que encontrava. Destruía-os totalmente, mastigando os limões entre caretas vitoriosas. Antônio Silvino “acabou a raça” dos assassinos do pai.

O horrendo Rio Preto, hercúleo e feroz, não seria abatido se não fosse vingança doméstica. Os Leites, ajudados por meu tio Antônio Justino, fizeram guerra de morte ao moleque demoníaco. Se a Justiça chamasse Leite ou o negro Romão (escravo alforriado por meu tio, e que matou Benedito, o herdeiro de Rio Preto) às contas, estes se tornariam infalivelmente cangaceiros.

Não é fenômeno peculiar à zona nordestina do Brasil. Em São Paulo há o caso do jovem Aníbal Vieira. Quatro empregados duma fazenda violentaram lhe uma irmã. Aníbal não “foi à Justiça”, que por retarda e tardonha desanima.

Armou-se com seu pai e matou dois dos violentadores. Os dois restantes fugiram para Mato Grosso. Aníbal viajou para Mato Grosso e matou-os. Julgou-se de contas saldadas. Fora um justiceiro. Mas a Justiça não entendeu desta forma. Mandou prender Aníbal. A tropa de polícia que o perseguia encontrou-se com ele em Três Lagoas. Aníbal fez frente à força militar. Feriu dois soldados e fugiu. Aí estará o movimento inicial dum Dioguinho.”


Fonte: Diário Nacional, São Paulo, 03 de junho de 1930.

Pesquei no essencial Tok de História

domingo, 19 de maio de 2019

GAROTO-PROPAGANDA

Lampião e as Pílulas do Dr. Ross

Diversos anúncios desde o surgimento da fama do maior cangaceiro que pisou as terras nordestinas, surgiram em jornais, revistas, rádios e televisão.

Quem não lembra aquele anúncio do tecido Tergal? E muitas outras encontramos. O que você diria desse comercial feito pela atriz Tânia Alves (Maria Bonita da minissérie global) relatando as benesses do remédio Ovariuteran como regulador dos “tempos difíceis” da mulher?

E que dizer de comerciais vendendo comida de restaurantes, inclusive um mexicano? Pois então… Lampião vende de tudo, óculos, colchões, animações para o Natal e até mesmo remédios, como aquele comercial para prisão de ventre, como aquele das 'Pílulas de Vida do Dr. Ross'.

 Chamarei a atenção para um anúncio bastante interessante, da referida pílula, para combater prisão de ventre e que usa o rei do cangaço como garoto-propaganda. Saiu na revista Boa-Nova de dezembro de 1933 e que dizia tal como está escrito:


 

“LAMPEÃO, pelo terror dos seus crimes, é o pavor dos sertanejos. O bandido que invade os lares, levando a toda parte a soffrimento e a morte, não ataca de frente, jogando a sua vida na luta leal. Esconde-se nas trevas, acoita-se nos barrancos, embuça-se nas grotas para de lá espalhar a destruirão e a morte. Também a prisão de ventre, aninhando-se sorrateiramente no corpo humano, provoca a explosão de males infinitos, pelo relaxamento do intestino. Para o combate ao banditismo de Lampeão a paiz arma os seus soldados adestrados. Para combater o prisão de ventre, OS PÍLULAS DE VIDA DO DR. ROSS, no dose de uma ou duas por noite, são as armas seguras, de effeitos infalliveis.”

Pesquei em Zé Cangaço

sábado, 18 de maio de 2019

Antônio Silvino

1907 - O ataque do cangaceiro a Barra de São Miguel, PB
No fim do século XIX e início do século XX o Brasil assistiu a emergência do fenômeno do cangaço, cujo expoente foi Lampião e seu bando. Todavia, na região da divisa entre Pernambuco e Paraíba o principal nome do cangaço foi o conhecido Antônio Silvino. Vejamos uma imagem do mesmo:
Antônio Silvino - Jornal do Commercio (1915)
Antônio Silvino e seu bando passaram diversas vezes pelo território do município de Barra de São Miguel- PB, como veremos nesta e em outras reportagens desta série. Contudo, o principal ataque ocorreu no dia 26 de janeiro de 1907, quando a Barra de São Miguel era ainda a Sede do município de Cabaceiras e possuía uma rentável mesa de rendas. 
A seguir, vejamos como a imprensa da época noticiou este ataque. Segue reportagem do Jornal A República de Natal - RN, que reproduz matéria do jornal paraibano A União.

Jornal A República (1907)

 Segue a transcrição literal do relato jornalístico:

Antonio Silvino


A ultima façanha


Sobre a ultima façanha de Antonio Silvino, o ataque da villa da Barra de S. Miguel, na Parahyba, lemos o seguinte, na ,:


Segundo informações fidedignas recebidas dessa villa sertaneja, eis o que se passou por ocasião da estada ali do bandido Antonio Silvino.


No dia 26 de janeiro, depois de 11 horas da noite, entrou o grupo formado de 13 cangaceiros, inclusive o chefe, na villa, onde não havia a menor noticia da sua aproximação. Cerca de uma hora antes, estiveram na casa do delegado de policia, cidadão Nicolau Vitalino Correia de Araujo, distante da villa um kilometro e obrigara o mesmo delegado a acompanha-lo e a servi-lhe de guia.


Ao entrar na villa, Antonio Silvino dirigiu-se a cada uma das residências das praças de policia, que em um número de três guarneciam a localidade e foi prendendo-as cada uma por uma vez. Tomou-lhes as armas e os fardamentos, e obrigou-as a acompanha-lo.


Presa e desarmada a ultima praça, dirigiu-se o facínora á casa de João Anastácio, ex-praça do Batalhão de Segurança, que a cerca de quatro annos sutentara fogo contra ele na povoação do Boqueirão.


A voz do delegado, prisioneiro de Antonio Silvino, João Anastacio abriu a porta, sendo subitamente amarrado pelo grupo e arrastado para a rua, onde recebeu grande numero de açoites e duas facadas.


Depois seguiu o grupo para a casa do capitão Manoel Henrique do Nascimento Araujo, escrivão da Mesa de Rendas, ao qual intimou a entregar todo o dinheiro existente na repartição, no que foi obedecido.


Assim passou ás mãos de Silvino a quantia de trezentos e tantos mil reis, único dinheiro existente na Mesa de Rendas porque o respectivo administrador major Deodato Pereira Borges, tinha vindo pouco antes á capital recolher a arrecadação do ultimo trimestre.


Os bandidos obrigaram o referido escrivão a abrir a repartição, onde se apoderaram de todos os livros, papeis e estampilhas que conduziram para a rua e queimaram completamente. Silvino recomendou então ao escrivão que da arrecadação que fizesse, guardasse-lhe cada mez 50$000, que ele viria ou mandaria buscar.


Foram d’ahi á casa do subdelegado de policia, Candido Casteliano dos Santos, contra quem Antonio Silvino estava prevenido, e que recebeu a exigência de um conto de réis, sob pena de ver incendiado o seu estabelecimento comercial.


O sr. Candido Casteliano respondeu que não dispunha de quantia tão elevada porque fizera pouco antes remessa para a praça do dinheiro apurado, pelo que Silvino aceitou a importância de 400$000, tirando porem fazendas no valor de 200$000.

Exigiu e recebeu 50$000 do cidadão Olyntho José de Vasconcelos, 1º suplente do Substituto do Juiz Seccional.


Mandou esbordoar uma praça do destacamento de nome Pedro Rodolpho, porque esta declarou que só se entregara sem resistência por ter sido sorprehendida.


Tudo se fez no maior silencio de modo que as pessoas, que se achavam agasalhadas no interior das casas não presentiam o que se passava na rua.


Antes de retirar-se, Antonio Silvino mandou bater na porta do tenente-coronel Manoel Melchiades Pereira Tejo, que até então ignorava o que se estava passando, e que despertando, abriu a porta.

D’elle exigiu Silvino café para si e seus companheiros no que foi satisfeito, retirando-se da villa ás 3 horas da madrugada.

Em breve apresentaremos os desdobramentos deste ataque de cangaceiros a Barra de São Miguel - PB.
João Paulo França, 06 de julho de 2017.

Fonte: 

Jornal A Republica. 13 de fevereiro de 1907, Natal. Ano 19, número 33
Jornal do Commercio, 02 de janeiro de 1915, Manaus. Ano 12, número 334
Pesquei em Memória BSM

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Opinião

O verdadeiro herói de Angico

O escritor e jornalista Valdemar de Souza Lima,  (Foto) natural de Palmeira dos Índios, nos deixou um dos melhores estudos sobre o cangaço. O seu livro "O Cangaceiro Lampião e o IV Mandamento", lançado em 1977, traz informações detalhadas sobre as andanças do Rei do Cangaço e seu bando pelo Nordeste.

Até no prefácio do livro, que reproduzimos abaixo, encontramos informações importantes. Nele, o autor comenta sobre quem verdadeiramente conseguiu conduzir a Polícia Militar de Alagoas a cumprir o seu papel no combate ao cangaço. Valdemar de Souza Lima relata o papel destacado que teve o comandante Teodoreto Camargo do Nascimento, um nome pouco citado quando se conta a história do cerco a Angicos.

Nas próximas postagens, vamos reproduzir capítulos do livro com outras histórias sobre o cangaço. Agradecemos antecipadamente a Hugo Lima, filho de Valdemar, que nos cedeu o exemplar do livro e autorizou a publicação.

Duas palavras

Valdemar de Souza Lima

No ano de 1936 chegou em Maceió um rapaz moreno, alto e esbelto, natural de Sergipe — era capitão do Exército e se chamava Teodoreto Camargo do Nascimento. Tinha sido convidado pelo governador de Alagoas, professor Osman Loureiro, para comandar a Policia Militar do Estado.
Teodoreto Camargo do Nascimento chegou a Maceió como tenente do Exército e assumiu o comando da Polícia Militar.

Teodoreto Camargo do Nascimento chegou a Maceió como tenente do Exército e assumiu o comando da Polícia Militar.

De pronto se ficou sabendo que o órgão de segurança a cuja frente se colocara, passava por uma série de reformas, de vez que sua preocupação não se limitava a manter ou aumentar os efetivos da milícia, mas, sobretudo, pugnar pela indispensável qualidade deles. Talvez por isso o jovem comandante não conseguiu se transformar na moeda-de-vinte-patacas, que agrada a todos. Pelo contrário, passou a ser apontado como um homem arguto como poucos e extremamente duro, a ponto de descambar às vezes para a mordacidade, como recurso para se fazer mais facilmente compreendido. E o certo é que ninguém brincou com ele.


 Atravessávamos então uma fase verdadeiramente crítica. Convencido de que era mesmo “senhor e possuidor” do Nordeste semiárido, pois realmente, não tropeçava em obstáculos maiores para pousar onde queria, Lampião convertera aquilo numa ilimitada faixa de areia movediça, onde ninguém dispunha de um mínimo de confiança para arrumar sua magra economia primária e viver com relativa tranquilidade no seio de uma sociedade, ainda que obscura, organizada.

De posse dos elementos que julgou indispensáveis para dar um balanço em tão indesejável situação e após chancelar um plano estratégico que lhe parecera satisfatório, o novo comandante da Força Pública sugeriu ao governo a criação do 2° Batalhão da Polícia, com sede em Santana do Ipanema, cujo comando seria confiado ao major José Lucena de Albuquerque Maranhão, oficial reconhecidamente destemido e afeito ao combate à desordem na zona explosiva — e era assim de esperar que a partir daí o temível bandoleiro não contasse mais com as facilidades de praxe para cometer impunemente as suas tropelias.

Infelizmente essas avaliações otimistas e que oneravam extraordinariamente o orçamento estadual, não iriam acenar na prática com os frutos desejados. Nos últimos anos de sua tumultuosa existência, Lampião jamais se mostrara tão nocivo à nossa vida; enquanto isso, ao invés de reencontros decisivas das volantes com o seu bando, as medições constantes dos boletins não passavam de meras escaramuças.

Bando de Lampião em foto de Benjamin Abrahão


O coronel Teodoreto sentiu os riscos que afetavam a sua posição — embora não parecesse perceber os que pessoalmente corria, pois, eu mesmo, que nunca sequer troquei com ele um cumprimento, vi-o, por vezes, cruzando, quase sem escolta, a zona convulsionada, sujeito a cair de um instante para outro nas malhas da “gang” sanguinária — e evidentemente não iria contemporizar com uma colocação que se chocava com o seu temperamento e formação.

Chamou, portanto, Lucena a Maceió, visando identificar o dedo misterioso que incidia sobre o contexto e levava àquele resultado deplorável. É claro que ele não punha em dúvida a lealdade e competência do seu subordinado, mas precisava descobrir a causa da frustração e eliminá-la, custasse o que custasse. Cumpria restaurar a confiança das populações massacradas pelo cangaço, nas providências do governo, em última análise o responsável pela sua segurança.

Teodoreto não abriria mão a partir de agora de ação efetiva e ajustada, sob pena de apelar para medidas drásticas — e até arbitrárias — contra aqueles que fossem apanhados violando suas determinações. José Lucena revelou, no dia imediato, em casa de seu amigo Pedro Rodrigues Gaia, em Palmeira dos Índios, que saíra do encontro tão amargurado, que rumara dali para a Catedral, a fim de orar e pedir a Deus ânimo e luzes para se safar do sério embaraço em que se via metido.

E uma vez de volta a catinga, reuniu os comandantes de volantes, passou-lhes o ocorrido, frisando que não estava ali apenas como um emissário do seu chefe para fazer-lhes uma advertência, mas, na verdade como um executor inflexível de suas novas ordens. Menos de um mês após isso, Lampião tombava em Sergipe e o seu bando se desintegrava para sempre.

O tumulto que o extraordinário episódio motivou, desencadearia uma onda de publicidade como jamais imaginamos nos nossos mundos obscuros. Tudo agora a imprensa escrita e falada queria saber a respeito das figuras que, de uma forma ou de outra, tinham contribuído para aquele resultado. O comandante da Polícia não teve, porém, encontros com repórteres, segundo penso, pois, naquele instante seus cuidados se voltavam para um assunto mais humano e cristão, que era arrebanhar e cercar das necessárias garantias pessoais os remanescentes da quadrilha que se entregavam às autoridades — dando por essa forma o primeiro passo para sua recuperação. Eles eram irmãos nossos, reduzidos à mais extrema miséria — pelo rigor do meio-ambiente, pela seca, pelo analfabetismo e outras tantas mazelas que não vale repetir. E afinal, bem poucos entre os comparsas do terrível bandoleiro, preferiram prosseguir na senda do crime.

O general Teodoreto Camargo do Nascimento já não pertence mais ao número dos vivos. Pouco importa, para mim ele permanece como o artífice máximo do feito de Angicos — e mais do que isso: o homem escolhido pelo destino para vibrar o golpe de misericórdia no banditismo militante do Nordeste brasileiro. Este livro constitui, pois, o testemunho de minha veneração à sua memória.

Brasília, Setembro de 1977.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Convite

Tem cangaço na Semana dos Museus da Bahia



O historiador e geólogo Rubens Antonio fará a palestra "Cangaço ... fenômeno, crime e arte", nesta quinta (16), às 17 horas, no Palacete das Artes. O encontro integra a programação da Semana dos Museus que tem como tema “A Cultura do Sertão da Bahia nos Museus do IPAC”.

A programação completa está no site www.ipac.ba.gov.br

Entrada gratuita - Rua da Graça, 289

Na travessia avistei meus inimigos...

Orações que Lampião rezava

Por Raul Meneleu

Quando foi morto foram encontradas com ele algumas orações (rezas) e quero destacar e assentar por escrito ipsis litteris a da Pedra Cristalina, cuja origem é desconhecida e que hoje em dia está mudada um pouco. 

Todas essas das fotos, estão no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, em Maceió.


Oração da Pedra Cristalina

“Minha pedra christalina, que no mar fostes achada, entre o Cálice Bento e a Hóstia Consagrada. Treme a terra, mas não treme nosso senhor Jesus Christo no alta assim tremem os corações dos meus inimigos quando olharem para mim eu te benzo em cruz i não tu a mim entre o sol a lua i as estrelas e as três pessoas distintas da Santíssima Trindade meu Deus na Travessia avistei meus inimigos meu Deus o que fasso com elles i com o manto da Virgem sou cuberto e com o sangue de meu Senhor Jesus Christo sou valido tem vontade de atirar porem não atira si mi atirar água pelo cano da espingarda correrar se estiver vontade de mi fura a faca da mão cahira se me amarrar os nós se dizatarão e si mi trancar as portas si abrirão
 

Offiricimento
salvo fui salvo sou e salvo serei com a Chave do sacrario Eu me fecho.
 

1 P. ...: 3 Ave Maria i 3 Gloria a... i offereci a 5 Chagas de Nosso Senhor Jesus Chisto.”

 
O Poder e Seus Símbolos



Em seu livro "Lampião, senhor do sertão : vidas e mortes de um cangaceiro"muito raro, e apenas nas mãos de colecionadores e amantes da literatura de cangaço,  Elise Grunspan-Jasmin  em um dos capítulos sob o tema "O Poder e Seus Símbolos" diz que ao soarem as doze badaladas do meio dia, Lampião apeava do seu cavalo, ajoelhava-se, transfigurava-se, e erguia o único olho bom que possuía, olhava bem para o céu e exclamava suplicante: 

— Meu Deus! Quando terminará a missão que me destes na terra? Já é tempo de ter concluído o meu trabalho! 

Os bandidos criam naquela força e um terror mistico se apoderava deles, tornando maior o respeito que nutriam por ele. Afirma Elise Grunspan que nenhum deles desconfiava que aquilo "tudo não passava de uma artimanha usada para faze-los acompanhar sempre o chefe e respeita-lo cada vez mais".

Pessoalmente não acredito nessa afirmativa da escritora; ela não tinha o sentimento do sertanejo e nem chegou a conviver por tempo suficiente para ler a alma sertaneja. No nordeste brasileiro temos uma força religiosa muito grande, aliada à supersticiosas 
crendices. 

Vimos naquela época beatos saírem perambulando pelas cidades, vilas e povoados, pregando ao povo a salvação. Conhecemos a história de Antonio Conselheiro, de Padre Cícero, de Padre Ibiapina, a de José Lourenço e seus companheiro no Caldeirão.

Nesse seu livro, Elise Grunspan continua, "Os cangaceiros acreditam na "força" de Lampião e, diz-nos Vitor de Espirito Santo (N.A. Jornalista), "um terror mistico deles se apodera, reforçando o respeito que nutrem por seu chefe". 

Segundo ele, nenhum deles jamais duvidou de que se tratava  de um estratagema destinado a fazer que o acompanhem "eternamente" e o respeitem sempre mais. 

O misticismo de Lampião seria, para esse jornalista, um simulacro ao qual a comunidade sertaneja e alguns de seus padres deram sua caução. Essa imagem messiânica do bandido leva o jornalista a denunciar o abismo que separa dois mundos estranhos: o litoral civilizado e o sertão bárbaro, prisioneiro de um catolicismo ancestral e de um paganismo primitivo." 


Ranulfo Prata em seu livro "LAMPIÃO", segundo relatos, foi lido pelo próprio Lampião, que jurou mata-lo, fala que "sua religiosidade é feita de um fetichismo bárbaro e abusões católicas, que se condensam em um misticismo extravagante e selvagem." 

Continua, "Traz pendentes do pescoço, saquinhos encardidos contendo rezas salvadoras, bentinhos milagrosos, medalhas protetoras... Não esquece a oração do meio dia, hora má, como a da meia noite, em que o diabo se solta para perder as criaturas."

Todos os escritores da saga cangaço, escrevem e dão testemunho da grande religiosidade de Lampião. Ranulfo Prata nos diz que - "Quando o sol se empina e lhe cai em raios verticais sobre a cabeça, a sombra minguada aos pés, nos pousos, nas estradas, nos combates, ele verga os joelhos, genuflexo, no chão duro, pende a cabeça humilhada, e, contrito, com a grande mão ossuda e escura a bater no peito, reza com fervor. 

Os companheiros, em torno, fitam-no cheios de estranho respeito. Faz encenações que o revelam homem de mandigas. No povoado Novo Amparo almoçou em uma casa pobre com quatro velas acesas nos cantos da sala, fazendo a sua hospedeira acreditar que era senhor de rezas fortes que o protegiam. 

Jamais desrespeitou um padre. Trata-os como pessoas sagradas. intocáveis, merecedoras de respeito e garantias. Quando os topa pelos caminhos apeia-se, pressuroso, e humildemente lhes beija as mãos" (pg. 30 sem data e editado pela Traço Editora).


Também tenho dúvidas nesse relato de Ranulfo Prata pois mesmo sendo ele nascido na cidade de Lagarto-SE. em 1896, foi estudar medicina em salvador e concluiu no Rio de Janeiro em 1919. 

Clinicou em algumas cidades do interior de São Paulo e Minas, até fixar-se em Santos-SP onde dirigiu o Centro de Radiologia da Santa Casa e Beneficência Portuguesa, mostrando por esse breve histórico, que não tinha muita vivência dos melindres religiosos dos sertanejos e se bem que em Sergipe, não temos casos de figuras beatas aos moldes que se deu nas demais partes do nordeste.


O que leio e pesquiso em livros e em conversas com confrades, nesse pouco tempo de devoto à saga Cangaço, e pelas estórias contadas por minha avó dona 'Santa', mãe de meu pai, que visitou Jararaca na prisão da cadeia dos Paredões, que viu tarde da noite, a passagem da polícia com Jararaca para ser morto por traz do cemitério, e pelas contadas por minha mãe, que fugiu quando menina, de Lampião, junto com a inteira população de Mossoró, quando seu pai 'Chico Santeiro' ficou guardando a casa da mãe do Prefeito de Mossoró, é que ele era muito religioso e se tivesse sabido que a Padroeira da Cidade era Santa Luzia, jamais a teria atacado.

Pescado em Caiçara dos Rios dos Ventos

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Estácio de Lima

O acadêmico e o Mundo Estranho dos cangaceiros

Por Lamartine Lima*

No ano do centenário do falecimento de Nina Rodrigues, foi publicado, na “Coleção Ponte da Memória”, através da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, um importante livro, o derradeiro escolhido para re-ediçâo pelo falecido membro da Academia de Letras da Bahia, Guido Guerra. Foi escrito por um outro acadêmico, também falecido, que merece ter revistos seus traços bio-bibliográficos.




O autor, Estácio Luiz Valente de Lima, nasceu na cidade de Alagoas, depois denominada de Marechal Deodoro, antiga capital do estado de Alagoas, no dia 11 de junho de 1897, filho do desembargador Luiz Monteiro de Amorim Lima e de D. Francisca de Jesus Valente de Lima, caçula de 14 irmãos, compondo uma daquelas famílias numerosas nordestinas do passado, que deram grandes médicos, advogados, engenheiros, militares, sacerdotes e religiosos ao Brasil.

Fez o curso primário na sua cidade natal e o secundário em Maceió e Recife, para onde se transferira seu pai, quando a família foi residir no arrabalde da Várzea, onde, atualmente, localiza-se a Universidade Federal de Pernambuco. Rapazinho ainda, prestou concurso, alcançou o primeiro lugar e foi nomeado telegrafista dos Correios e Telégrafos. Nessa condição, no ano de 1916, despediu-se dos pais, irmãos e amigos, embarcou num paquete, veio para Salvador trabalhar naquela repartição pública, prestar concurso vestibular, em que tirou o primeiro lugar, e fazer o curso da famosa e primaz Faculdade de Medicina da Bahia.

Na capital baiana, morando na república estudantil “Não Posso Comer Sem Molho”, na Rua da Lama, bairro da Barroquinha, fez a boêmia da estudantada de seu tempo, todavia destacou-se como dedicado às ciências e também às letras, ficou conhecido como ótimo orador.




Assim, apreciado pelos seus mestres da Faculdade, recebeu convite para tornar-se acadêmico-interno do Serviço de Clínica Médica de Augusto do Couto Maia, no antigo Hospital de Isolamento de Monte Serrate, atual Hospital Couto Maia, na Península de Itapagipe, em Salvador, onde passou a desempenhar suas funções com grande proficiência, inclusive acompanhando as autópsias ali realizadas no Serviço de Patologia. No final do curso, foi eleito pelos colegas como orador da turma dos doutorandos, para a cerimônia em que solenemente colariam grau no ano de 1921.

Quis o Destino que o seu pai falecesse às vésperas da formatura, ele declinasse da honra de orador para outro colega, recebesse sem solenidade o diploma de médico, e colocasse no dedo o anel da eterna lembrança do genitor. Logo decidiu completar a formação profissional na Europa e, com esforço econômico, viajou para a Alemanha, onde fez estágio em Berlim, no Urbankrankenhauss, em que frequentou as clínicas médicas do cardiologista Max Koch, e do nefrologista Fritz Munck.

Estava na capital alemã, quando recebeu carta de Couto Maia, avisando-o do falecimento, no ano de 1923, de Oscar Freire de Carvalho, o segundo aluno preferido (o primeiro discípulo fora Júlio Afrânio Peixoto, nessa época catedrático no Rio de Janeiro) e sucessor, na cadeira de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, de Raymundo Nina Rodrigues, o Mestre da Escola da Bahia, que, no ano de 1906, falecera em Paris, França.

Oscar Freire, além de ter sido, também, fundador do Instituto “Nina Rodrigues”, sede do Serviço Médico-Legal do Estado, em Salvador, criara a especialidade na Faculdade de Medicina de São Paulo, e ali construíra o instituto que hoje tem o seu próprio nome. Imediatamente, Estácio de Lima voltou-se com afinco para o estudo da Medicina Forense com os sucessores de Casper, na capital alemã, com Leclerc em Estrasburgo, na Alsácia-Lorena, e com Balthazard, na capital francesa. Regressou ao Brasil, no ano de 1925, com o objetivo de fazer o concurso para a celebrizada cátedra que pertencera a Nina e a Oscar, onde teve como competidor o primeiro aluno deste último, Armando de Campos Pereira, importante jornalista, dirigente de “A Tarde”, o maior periódico da capital baiana.

Foi um muito disputado certame, em 1926, no qual Estácio apresentou tese sobre assunto então absolutamente novo – Indagação da Ascendência –, escreveu dissertação acerca do ponto sorteado – Responsabilidade Civil – e teve de dar demonstrações de grande domínio das matérias envolvidas nas questões teóricas e práticas científicas de laboratório e sala de necropsia, além de superar enormes obstáculos políticos, vindo a vencer galhardamente.

Por sua vez, Armando de Campos deixou Salvador e foi tornar-se legista de nomeada no Rio de Janeiro. Assumida a cadeira, o Professor Estácio de Lima tornou-se, ipso-facto, diretor do Instituto “Nina Rodrigues”, e resolveu retomar os trabalhos do Mestre Nina, na Antropologia Forense, e do Mestre Oscar, na Perícia Judiciária, procedidos paralelamente ao ensino, e, para tanto, contou com a assistência do seu conterrâneo recém-formado Arthur Ramos de Araújo Pereira – depois o extraordinário docente de Psiquiatria Social no Rio de Janeiro e revisor da obra do Mestre da Escola da Bahia –, mais Álvaro Dória, Egas Moniz Barreto de Aragão Júnior e outros profissionais escolhidos.

Assim, quando, em 1929, o capitão de cangaço pernambucano Lampeão (que muitos grafam hodiernamente Lampião) e seu grupo de cangaceiros, perseguidos desde Pernambuco, atravessaram o rio São Francisco, para a Bahia, alcançaram o Raso da Catarina, e aquele chefe procurou aumentar o seu bando com sertanejos recrutados nos municípios do interior baiano e sergipano, surgiu ocasião do Professor Estácio estudar os criminosos do banditismo rural. Sabedor de que existiam coiteiros poderosos para os cangaceiros, ele fez contatos com importantes fazendeiros daquela região porém não logrou obter entrevista com Lampeão e seu bando.

No ano de 1932, todavia, Mestre Estácio foi chamado a examinar, com seu assistente Arthur Ramos, dois jovens criminosos que haviam sido capturados no interior do Estado. Eram os cangaceiros Volta Seca – apontado como tendo sido, em 1929, o sangrador, a punhal, dos soldados da Polícia Militar, baleados por Lampeão e Corisco, no destacamento de Queimadas, – e Passarinho, noviço do bando. Seus exames clínico-psiquiátricos e antropológicos, em que suas histórias foram bem ouvidas, encetaram as anotações e registros médico-legais, inclusive fotográficos, que fundamentaram as primeiras observações científicas diretas sobre os bandidos do sertão brasileiro.


Dr. Athur Ramos


Seguiu-se que, em 1936, foram entregues, ao Instituto “Nina Rodrigues”, as primeiras peças de decapitação de cangaceiros, as cabeças de Azulão, Maria do Carmo (Maria de Azulão), Zabelê e Canjica, degoladas por uma Força Policial Volante baiana, comandada pelo civil contratado Eleutério, conhecido como Cravo Roxo, de Campo Formoso, que os pegou de emboscada numa fazenda em Baixa Verde, também no interior da Bahia. Tais segmentos cefálicos foram examinados e mumificados por Estácio de Lima. Trinta e dois anos depois, em 1968, elas foram inumadas, em nichos vedados, dentro de uma reentrância entre carneiras do velho Cemitério da Quinta dos Lázaros, por ordem do governador do Estado da Bahia. Em 2003, exumei-as, fotografei-as e fiz a respectiva ata, a pedido da administração daquela necrópole, onde elas estão postas em ossuário.




No ano de 1938, o Professor Estácio, mandou buscar em Maceió, onde estavam com o Professor José Lages Filho, no instituto que hoje tem o nome de “Estácio de Lima”, e recebeu no “Nina”, as cabeças de Lampeão e sua mulher, a cangaceira baiana Maria Bonita, mortos e decapitados, com mais nove bandidos, na Grota de Angicos, próxima do rio São Francisco, no município de Poço Redondo, estado de Sergipe, pela tropa do Tenente João Bezerra, da Polícia Militar de Alagoas. As duas peças foram minuciosamente estudadas por ele, que nelas não encontrou os famosos estigmas anatômicos apontados por Césare Lombroso.

Depois de modeladas suas máscaras mortuárias, foram mumificadas, pelos cuidados de um de seus assistentes, o suíço-baiano Dr. Charles René Pittex. Trinta anos depois, em 1968, foram também inumadas, juntamente com aquelas anteriormente referidas, no Cemitério das Quintas, por ordem do Governo do Estado.

Em 2001, exumei-as, a pedido da família do casal de cangaceiros, a filha, Expedita, e as netas, Vera e Gleuce, estas quem presenciaram todo o procedimento, de que fiz a ata, documentaram tudo com fotografias e filmagem, e conduziram as duas cabeças para sepultamento no túmulo dos parentes, em Aracaju, Sergipe. Ainda, no ano de 1941, o Professor mandou desenterrar, em Miguel Calmon, e trazer para o “Nina”, a cabeça e o braço direito fraturado por bala, do cangaceiro Corisco, que fora abatido quando fugia, com a esposa cangaceira Dadá; depois de pernoitarem em uma casa de farinha da Fazenda Juá, na Malhada da Areia, no local Barro Alto, vizinho do lugar Ventura, fronteira do município de Miguel Calmon, nos contrafortes da Chapada Diamantina, foram surpreendidos, de manhã, pela tropa do Tenente José Rufino, da Polícia Militar do Estado da Bahia.




As peças estavam saponificadas; mesmo assim, foram analisadas por Estácio de Lima e conservadas por Charles Pittex. Trinta e sete anos depois, as peças foram inumadas, igualmente às dos outros bandidos, por ordem governamental.

A cangaceira Dadá, viúva de Corisco, fora ferida na perna esquerda, amputada, na sede daquele município, e re-operada do coto, no Hospital Santa Isabel, da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, pelo cirurgião Aristides Novis Filho. Estava “sub judice” quando foi apresentada ao Professor Estácio, já presidente do Conselho Penitenciário do Estado, que a entrevistou, tornou-se amigo e, mais tarde, muito ajudou na formação e no encaminhamento prático das filhas e netos daquela senhora. Em 1977, a bordadeira Dadá, no segundo casamento, fez exumar e dar sepultura em túmulo condigno, àqueles restos mortais do seu primeiro marido, o cangaceiro Corisco, perto da capela do Cemitério das Quintas. Finalmente, em 1943, os últimos bandidos de Lampeão, os cangaceiros Labareda, Saracura, Deus-te-Guie, Candeeiro e Balão, através de acordo procedido por um fazendeiro de quem eram amigos, renderam-se ao juiz de Direito de Jeremoabo, Antonio de Oliveira Brito, foram presos, submetidos a júri, sentenciados, apenados e transferidos para a capital baiana, onde cumpriram alguns anos de prisão na antiga Penitenciária do Engenho da Conceição.

Do total de oito componentes do bando de Lampeão, aprisionados e processados pela Justiça na Bahia, sete deles foram condenados. Na qualidade de catedrático de Medicina Legal, Estácio de Lima os entrevistou, examinou-os, analisou individualmente suas personalidades, o comportamento carcerário de cada um deles, observados durante longo período, finalmente exarou seu Parecer.

Considerou os cangaceiros como homens imersos nas circunstâncias de seu áspero ambiente sertanejo; sujeitos aos costumes de reviçamento medieval em uma sociedade interiorana camponesa quase esquecida pelas autoridades constituídas regularmente nas cidades; diferentes daqueles que ali não se tornaram criminosos, talvez porque estes não sofreram ofensas maiores; os cabras da peste, umas vezes na situação de vitimados pela injustiça manipulada pelos coronéis, outras tantas pela truculência da polícia a serviço dos proprietários rurais, mais outras, deserdados da honra pessoal ou da terra de sua sobrevivência, pela indignação foram empurrados para o crime, na condição de rebeldes que pegaram em armas e viveram ou morreram como bandoleiros rurais.

No mesmo passo, reativos, a forte excitação endócrina, proporcionando o seu vigor pessoal, impelia à liberdade de ação e capacidade de imposição da vontade pelas armas, que os levou, em seguida, a fazerem daquilo rendosa profissão, na qual se tornaram conhecidos e seria quase impossível deixá-la. Seu julgamento popular ouvia-se pela boca dos simples cantadores de feira, nas comunidades pobres do sertão, do agreste ou da mata, recitando cordéis sobre suas façanhas e recebendo animados aplausos dos matutos humildes, que viam naqueles guerrilheiros os seus iguais heroificados. E os moços caipiras mergulhados naquela atmosfera, gênese de mais cangaceiros. Não negou, todavia, o Professor Estácio, a possibilidade de algum criminoso não ter maior razão para ser bandido, que um convite de um chefe de cangaço, e usar um falacioso escudo ético.


 Ele ponderou que, fora daquelas circunstâncias, aqueles homens seriam, como mais tarde demonstrariam ser, capazes de plena recuperação social, tornando-se cidadãos úteis. Logo conduziu a revisão de seus autos processuais no Conselho Penitenciário, arrazoou com seus fortes argumentos ao presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra, que lhes indultou as penas. Estácio conseguiu-lhes emprego digno, eles formaram família e criaram os filhos corretamente, como pessoas prestantes, nos padrões comuns da sociedade citadina.

Pelo resto de suas vidas, nunca mais delinquíram. Como também aconteceu com os cangaceiros Zé Sereno, Cila e Criança, que Estácio de Lima conheceria, bem mais tarde, em São Paulo, os quais, depois da morte dos principais chefes, conseguiram fugir para o Sul do País, onde começaram nova vida de trabalho e tiveram prescritos os prazos para serem levados à barra dos tribunais. Senhor das mais exatas informações e registros dessas fontes primárias, originais, o Professor Estácio de Lima, que, além de cientista e presidente da Academia de Medicina, também era literato e presidente da Academia de Letras, ambas da Bahia, sentiu a necessidade de escrever um livro sobre aquele mundo estranho dos cangaceiros. E assim o intitulou.

Elegeu os mais velhos daqueles bandoleiros – Labareda e Saracura – como regentes da orquestração dos outros antigos companheiros de lutas, para reviver na memória, para a qual não faltaram as relembranças de Dadá, aquele tão esquisito pequeno universo do cangaço.


 Benício Saracura


 Ângelo Roque, "Labarêda"

Determinou que um funcionário de sua cátedra na Universidade Federal da Bahia, acadêmico-monitor Rogério Henrique de Medeiros Pacheco, seu conterrâneo alagoano e estudante de Medicina, acompanhasse Labareda pelas históricas veredas do sertão baiano, anotasse e fotografasse os lugares e pessoas remanescentes dos tempos dos reencontros entre volantes e cangaceiros, e trouxesse o relatório de como estava aquele torrão depois de três décadas de exterminado o cangaço. Foi em busca de antigos comandantes de Forças Policiais Volantes, como os coronéis João Bezerra e José Rufino, famosos perseguidores de bandidos e matadores de cangaceiros, entrevistou-os, procurou velhos componentes das tropas, inclusive rastejadores, e colocou-os ao lado dos antigos cangaceiros para recontarem as suas versões de perseguições, fugas e combates.

Tendo ao seu lado a conterrânea e assistente, quem o sucederia em todas as cadeiras que ensinou, Professora Maria Theresa de Medeiros Pacheco, a qual conheceu tão bem os velhos cangaceiros, ele estudou as anotações, registros de entrevistas e fotografias.

Em seu estilo suave de amante das belas letras, entrecortado de frases pronunciadas pelos sertanejos rudes, Estácio de Lima construiu seu livro singular, preciosíssimo, O Mundo Estranho dos Cangaceiros, que foi lançado, em primeira edição, no ano de 1965, na Livraria Civilização Brasileira, pela Editora Itapoan, através do proprietário das duas, o falecido livreiro Demeval Chaves.

Para citar apenas uma cena marcante, aquela em que é descrita a eutanásia do cabra Sabino – dos mais valentes e cruéis homens do cangaço – quando, malferido em combate, e para não dar oportunidade à polícia que tanto o queria sangrar, tira o lenço vermelho do pescoço e o coloca sobre o rosto, enquanto roga ao seu compadre, o cabra Mergulhão, que lhe dê um tiro de parabélum no crânio.

Essa obra veio juntar-se a outras que escreveu desde a sua tese inicial, Introdução ao Estudo da Agonia, passando pelas acima citadas duas monografias para a cátedra, mais o trabalho pioneiro no País sobre A Inversão Sexual Feminina, os avançados Ensaios de Sexologia, a original pesquisa sobre O Infanticídio e o Estado Puerperal, o especialista demonstrado mais uma vez em Perícias e Pareceres, o ficcionista revelado em A Aeromoça e Outras Novelas Regionais, o etnólogo mostrado no O Mundo Místico dos Negros, livros editados, além de três centenas de ensaios, artigos e crônicas brilhantes e inspiradas poesias publicados em coletâneas, revistas e jornais. Lamentavelmente, faltou a reunião de seus discursos admiráveis, pronunciados de improviso, os quais não anotava, restando alguns gravados, nem sempre em condições perfeitas.

Recebeu Estácio de Lima a láurea de Professor Emérito, depois de haver sido, ainda, catedrático da Faculdade de Odontologia e da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, e titular da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador, e mais, fundador da cadeira e primeiro titular de Medicina Legal na Escola “Bahiana” de Medicina e Saúde Pública e na Academia de Polícia Militar do Estado da Bahia. Presidiu inúmeras bancas de concurso para titulares da especialidade, participou de congressos nacionais e internacionais de Medicina Legal, viajou pela América do Sul, voltou outras vezes à Europa, e, em duas oportunidades, demorou pesquisando na África Ocidental.

Como desejou, prosseguiu nos trabalhos de Nina Rodrigues, Mestre da Escola da Bahia, anotou, na qualidade de Ogâ do Terreiro do Gantois, as observações sobre a religião dos orixás, relacionadas com as práticas médicas; registrou as reações dos homens do povo, alcoolizados ou drogados pela maconha; documentou as entrevistas com homossexuais, masculinos e femininos; analisou os criminosos, particularmente os homicidas; estudou os costumes dos africanos no Continente Negro e na Bahia; criou uma coleção de objetos, que deu origem ao Museu Antropológico e Etnográfico “Estácio de Lima”; e, principalmente, ensinou através da teoria e da prática pericial, no exercício da função de grande educador, premiado pela Academia Nacional de Medicina.

Em reconhecimento, a Cidade do Salvador e o Estado da Bahia oficializaram sua cidadania, que já obtivera no dia-a-dia de serviços prestados aos concidadãos de sua comunidade.

O Professor Estácio de Lima, alagoano, baiano e soteropolitano, um homem admirável, faleceu aos 87 anos de idade, no dia 28 de maio de 1984, em Salvador, recebeu homenagens oficiais dos governos estadual e municipal, das universidades, academias e demais instituições a que pertenceu, e particularmente de seus antigos alunos, na Faculdade de Medicina da Bahia, em cujo Salão Nobre o féretro foi velado, sob a Guarda de Honra dos Cadetes da Polícia Militar. Depois de ato religioso celebrado pelo seu conterrâneo alagoano, confrade da Academia de Letras da Bahia e Cardeal Arcebispo Primaz do Brasil, D. Avelar Brandão Vilela, foi conduzido, sobre a elevação da escada de um carro de bombeiros, acompanhado por seus amigos, para receber sepultamento no Cemitério do Campo Santo.


A republicação de seu mais famoso livro, no ano de 2007, é, sem dúvida, a melhor homenagem que se poderia prestar, pela passagem do 110º ano de seu nascimento.

* Lamartine de Andrade Lima é médico e ensaísta, presidente da Academia de Letras e Artes do Salvador e presidente emérito do Instituto Bahiano de História da Medicina.

Pescado em Blog do Facó

Adendo Lampião Aceso: 



Na imagem acima o recipiente sepulcral de Estácio Luiz Valente de Lima, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Cortesia do pesquisador Rubens Antonio, Blog O cangaço na Bahia

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Jornal A Província (PE) – 23 de setembro de 1926

'Uma carta' de Lampião

Texto de Carlos Escobar transcrito por Antonio Corrêa Sobrinho



Compadre amigo. – Desde que nós teve junto, no Juazeiro, pra batizar o Toniquinho, não tive mais o prazê de me encontrar com o padrinho de minha cria. Mas um cabo da polícia de S. Paulo me informô que o compadre tá escrevendo pra um jorná muito brabo – U Cumbate, e me lembrei de lhe propô um negócio muito vantajoso para nós dois ambo. Vai esta carta por mão própria, e o compadre pode pôr as pontuação onde quisé e mascar os verbo como burro o emborná vazio.
Nós nasceu para andireitá o Brasil. Eu como rei e o compadre como Papa. Vamos fazê esta obra de caridade.

Nós tem de começar pela Constituição do Catete. Nós tem de muda o nome daquilo. Chamaremo a Constituisebo que vamos dá aos brasileiros; o primeiro dever do cidadão é trabaiá pra nós, ainda que tenha de tirá o pão da boca de seus fios. Só nós reconhece um dereito que é calá a boca, para não apanhã com canos de borracha, no corpo da guarda.

O equilíbrio financeiro nós faz mandando os cafezais de S. Paulo pro amazonas e os seringais do Norte para o Sul. O Instituto do Café ficará sendo o esqueleto do organismo político. Representará uma caveira de boi na roça de mio. Pra pagamento dos empréstimo, adotaremo a ideia de Lenine: fintá os credor.

Não há voto secreto. Voto aberto como no tempo em que (...) cantava nos costado do eleitor. A nossa Constituição ordena que se vote em quem nós mandá e que o deputado só fale o que nós quisé.
Não haverá lei de prensa. A única que nós admite é que os jornais tragam diariamente o retrato de Lampião. E si encherem as colunas com tesoura, pagarão dois cobres por linha, sob pena de força e depois prisão na sala comum, por toda a vida.

A única escola boa é não saber ler. Convidaremo o conde de Afonso Celso pra reorganizar a instrução pública. Não admitimos outra arte senão o tambor e a viola. O Menotti del Picchia será aclamado o primeiro poeta brasileiro, para escrever o poema de tia Rita, quando ela tinha dezoito anos e ponhava o lencinho vermeio no pescoço. O Carlito passava para a viola a “Bela Adormecida”.

A única religião que nós admite é a reza na capelinha do Senhor Bom Jesus do Arrocho, com foguetes, café e biscoito, caninha do Ó e bate-papo. Os padre pode ser nossos os governos. Consentiremos que andem de saia preta e recolham as esmolas das igrejas.

Nada de “cabeça seco”. Tenho raiva de soldado como de dor de dente. O nosso exército se comporá de jagunços. E pra homenagear em vida o padre Cícero, pregaremos o bicho num pedestal de cimento armado. Quando ele morrer passaremos lhe por cima uma camada de piche.

A fim de abaixar os fretes da Ingresa, restabeleceremos as tropas de burro na Estrada Vergueiro. E sobre os trios da Central, para se evitarem desastres, correrão carros de boi. A Light terá, como prêmio, os (...) do Ceará, para as suas represas. Suprimiremo os banco. Guarde cada um o seu dinheiro num lenço amarrado à barriga da perna.

Tal será a Constituisebo desta República, que se poderá chamar monarquia, à vontade dos contribuintes.

Aceita o negócio, compadre? Vai, para ajuda de custas, uma pele de onça.

Viva a República!
Viva a Constituição!
Viva nós!
Lampião.”


Eis a carta que recebemos do famigerado sertanejo. Ela promete, como todas as cartas de políticos na evidência. Tenham os brasileiros as esperanças de melhores dias. Lampião fala como o Messias dos estudantes do Rio Grande.

(Do Combate, S. Paulo, 7 de setembro)