segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Leandro Cardoso em entrevista

Faroeste no chinelo

Por: Luana Sena

Foto: Mauricio Pokemon
Leandro Cardoso é um cardiologista de meia idade cujo hobby predileto é estar entre os livros. Não são títulos de medicina, nem poesia, tampouco ficção. O que atrai o médico são histórias sanguinárias de um passado recente do nordeste brasileiro: livros, punhais, cartucheiras, chapéus e outros pertences originais ocupam quatro armários do chão ao teto. Em um dos cômodos de seu apartamento, na zona leste de Teresina, Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, está mais vivo do que nunca.

A paixão de Leandro pelo tema começou aos 12 anos, quando ganhou de presente do avô o livro “Lampião, cangaço, nordeste”. As marcas na dobradura dão pistas sobre o tempo, mas ele não é o mais antigo – nem seria o primeiro – livro daquela coleção. De lá para cá, Leandro seguiu lendo e pesquisando tudo o que diz respeito ao cangaço.

Leandro trabalhou por dez anos em São Paulo, “a capital mais nordestina de todas”, diz o médico. No consultório, conversa vai, conversa vem, vez por outra ele encontrava descentendes de cangaceiros – primos, irmãos, filhos – ou mesmo dos volantes (Força Volante era a tropa do governo montada para combater os cangaceiros nos anos 1930). “Eu fui médico da dona Mocinha, irmã de Lampião”, relembra. Cada personagem descoberto era como uma peça que faltava no quebra-cabeça do pesquisador.

Em maio de 2002, Leandro recebeu uma ligação inesperada de Aracaju. A voz do outro lado da linha disse sem cerimônia:

– A cabeça do vovô está aqui em casa, você gostaria de ver?

 Era Vera Ferreira, neta de Lampião. Pegou o primeiro avião. Tornou-se o segundo médico a confirmar que Lampião não era “lombroso” – a expressão remete ao médico italiano, Cesare Lombroso, criador da teoria de que traços físicos podem denunciar um perfil criminoso. “Orelha de abano, fronte fugidia, caninos possantes, eram algumas das características de um lombroso”, explica o médico. A teoria caiu em desuso, mas a curiosidade dos pesquisadores sobre Lampião permaneceu porque ninguém nunca tinha tido a oportunidade de examinar tão profundamente essas características.

Lampião e mais nove integrantes de seu bando foram mortos em 1938 por tropas da polícia na Gruta do Angico, sertão sergipano. As cabeças foram decepadas e permanceram por anos no Instituto Nina Rodrigues, na Bahia, até a família de Virgulino conseguir na justiça o direito de enterrá-la, no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. Mas, o início dos anos 2000 trouxe fortes chuvas a região, e a defesa civil obrigou a retirada das urnas do local. Elas foram entregues novamente as famílias. “Como eu sou amigo da Vera e ela sabia que eu estava escrevendo um livro, me ligou com essa proposta e eu nem pensei duas vezes”.

O exame resultou no livro “Lampião: a medicina e o cangaço – aspectos médicos do cangaceirismo”, escrito por Lendro em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo, umas das maiores referências em cangaço no Brasil. “Eu pude examinar o occipital dele por dentro e Lampião não era um lombrosiano nato”, diz o médico. O livro traz ainda outros diagnósticos sobre a figura do cangaceiro mais famoso da história, como a cegueira no olho direito. “Se você pegar a literatura, cada um diz uma coisa: catarata, glaucoma, mas tudo da boca pra fora”, afirma o pesquisador. “Durante um combate com uma volante, em 1925, uma bala pegou num espinheiro que estava perto de Lampião e ele foi atingido”, explica Leandro. “A causa mais comum de cegueira no sertão é trauma”, continua. “Se ele tivesse feito um transplante de córnea, provavelmente voltaria a enxergar, mas naquela época não existia”. Lampião virou um cego funcional e teve que aprender a ser canhoto quase aos 30 anos de idade.

Na prateleira, o livro escrito por Leandro divide espaço com mais de 100 títulos. Há ainda uma videoteca com filmes como “O cangaceiro”, de Lima Barreto (1953), “Nordeste sangrento”, com o estreante ator Paulo Goulart (1963) e “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira (1996). Entretanto, o filme mais precioso ali é um DVD um tanto caseiro com 11 minutos de imagens de Lampião e seu bando, registrados pelo sírio-libanês Benjamin Abraão na década de 1930. “Lampião aceitou que o libanês os filmasse porque ele era secretário de Padre Cícero”, explica Leandro. O filme ficou por anos preso no porões da ditadura Vargas e só se conhecia, afinal, seis minutos de gravação. “Benjamin passou meses lá com os cangaceiros, é provável que existissem horas e horas de gravação, mas boa parte do filme foi perdida ou danificada”. Foi Leandro e o cineasta Wolney Oliveira que encontraram, na cinemateca brasileira em São Paulo, mais cinco minutos inéditos de imagens.

Parte do acervo do pesquisador 
(foto: Mauricio Pokemon)

Além do acervo literário e visual, o médico também guarda peças originais do vestuário dos cangaceiros: chapéu, bornais floridos, cartucheiras, alpargatas e punhais – um deles foi presente de Moreno, considerado um dos cangaceiros mais valentes do bando de Lampião. “Parando minha recordação, eu ainda matei 21”, diz Moreno, aos 99 anos, no documentário “Os últimos cangaceiros”, lançado este ano no Brasil. Leandro conheceu Moreno e a mulher, Durvinha, cujas histórias de vida daria um filme. E deu! (Leia abaixo!)

Leandro fala de cada detalhe da indumentária do cangaço com um misto de admiração e extase. Ele sabe de cor as falas de Lampião no filme mudo. Tem na mente as datas dos combates, faz viagens frequentes para regiões que foram marco do “banditismo social” brasileiro e refuta pesquisadores. Para ele, um dos maiores equívocos é confundir o cangaceiro com a figura de um bandido. “O código penal da época era surra, bala e punhal”, explica. “Tratar o cangaceiro como bandido é um erro porque esse era o modus operandi daquela época”, defende. “A polícia agia assim e o coronel também”.

O médico vê o cangaço como uma manifestação contra a colonização, “um irredentismo brasileiro”, diz, citando a teoria de Frederico Pernambucano de Mello. “Cada vez mais eles foram empurrados pro sertão porque queriam viver sem lei nem rei”, afirma. O que os diferencia do bandido comum? “O bandido tende a se ocultar, viver na surdina. O cangaceiro não. Ele não se acha bandido porque tem um código de ética muito próprio. Você acha que um cara que se veste daquele jeito quer ficar oculto?”

O estilo cangaço também é outro ponto de equívoco sobre o que se prega a respeito de Lampião. Ao contrário do que vemos nas imagens da época, todas sem cores, as roupas não eram cinza, muito menos de estampa camuflada. “Parecia alegoria de carnaval”, brinca o pesquisador. “A roupa é espalhafatosa, mas nada daquilo é supérfluo”, explica enquanto mostra a forma correta de se abotoar um bornal. “Eles usavam quatro bornais em volta do ombro. O cara carregava mais de 30 quilos e podia rolar no chão que não saia nada do corpo”. Muitos desses detalhes estão no livro “A estética do cangaço” (Frederico Pernambucano de Mello), que traz ainda curiosidades sobre lenços, perfume francês, óculos alemão e outros delírios de consumo do vaidoso Lampião. “Era tudo muito bem feito, costurado em máquina, tinha uma preocupação visual”, diz o médico. “O faroeste americano não chega nem perto”.

Em outubro deste ano, algumas dessas peças vão estar expostas no 4º Congresso Nacional do Cangaço que acontece pela primeira vez no Piauí, na cidade de São Raimundo Nonato. Organizado pela SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Sobre o Cangaço), o evento vai reunir (de 27 a 31) os maiores pesquisadores brasileiros sobre o tema – Vera Ferreira, neta de Lampião, confirmou presença para uma palestra. Leandro, que coordena o evento, também vai ministrar palestra e lançar nova edição de seu livro – serão cinco dias entregue a histórias de sangue e sertão pra faroeste americano nenhum botar defeito. “A gente não acredita no que a gente tem”, diz o pesquisador intrigado com o fato de Hollywood vender há anos Billy the Kid como o maior fora-da-lei de todos os tempos. “Ele matou três pessoas! Três! Agora veja Lampião”, propõe. “Se Tarantino visse um negócio desse ficaria louco!”.

Os últimos cangaceiros

 Ninguém podia imaginar que o pacato casal Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, ambos com mais de 90 anos, tinham um passado tão misterioso quanto impressionante. Por quase cinquenta anos eles esconderam dos filhos um segredo revelado somente no século XXI: eles foram cangaceiros integrantes do bando de Lampião.

Os pesquisadores nunca chegavam a um consenso sobre o paradeiro daqueles que escaparam ao confronto sangrento em Angico, no Sergipe – alguns apontavam Ceará e Maranhão como possíveis destinos dos cangaceiros. Outros afirmavam que eles haviam morrido. Porém, escondidos atrás dos nomes falsos sobre os quais refizeram suas vidas em Belo Horizonte, estavam, na verdade, Antônio Ignácio da Silva, o Moreno, e Durvalina Gomes de Sá, a Durvinha.

Ele, cearense, e ela, pernambucana, estavam no interior do Ceará quando souberam da morte de Lampião e dos demais companheiros, em 1938. Disfarçados de retirantes, seguiram rumo ao sul, mudaram de nome e fizeram um pacto de nunca contar a ninguém o segredo.

 Lançado em 2014, filme mostra casal que pertenceu ao bando de Lampião 
(foto: divulgação)

A história teria mesmo ido ao túmulo, não fosse o fato de, pelo caminho, os cangaceiros terem deixado um filho, aos três meses de vida, aos cuidado de um padre em Tacaratu, no interior de Pernambuco. Acometido por uma doença em 2006, Moreno resolveu revelar a família o desejo que tinha de reencontrar o primogênito. Os filhos puseram-se a procurar o irmão, em Tacaratu, quando se depararam com a surpresa: “Ah, o filho dos cangaceiros?”

Com a revelação, pesquisadores de todos os cantos voaram para colher de perto os novos relatos e as recordações de Moreno e Durvinha – sabe-se que ela foi, num primeiro momento, mulher de Virgínio, cunhado de Lampião. Com a morte dele, Moreno assumiu Durvinha – era proibido mulher sozinha no bando.

A história virou enredo do documentário “Os últimos cangaceiros”, produzido por Wolney Oliveira. É o primeiro longametragem documental sobre o cangaço e, no seu lançamento mundial, em 2014, foi premiado em festivais de cinema no México, Havana e Bolívia. Moreno e Durvinha não chegaram a ver o filme pronto – ela morreu em 2008, ele, centenário, dois anos depois.

Além de relatos dos ex-cangaceiros, filhos, parentes (e o reencontro com Ignácio, o filho mais velho, deixado no Pernambuco), o longa traz cenas inéditas das gravações feita pelo libanês Benjamin, nos anos 1930 (aquelas, recuperadas por Leandro e Wolney na cinemateca). A produção conseguiu colorir frame a frame algumas imagens, que, além de modernizar, dão uma ideia mais realista da estética do cangaço. Outro trunfo são as legendas nas falas de Lampião e seu bando: uma equipe especialista foi contratada para decifrar o que os cangaceiros falavam no filme mudo. Wolney colocou Moreno e Durvinha para se reverem nessas imagens – o resultado, emocionante, está no documentário.

Pesquei em www.revistarevestres.com.br

domingo, 12 de agosto de 2018

Lampião Aceso responde...

Onde Sila estava nesta fotografia e quem é o homem trajado de cangaceiro ao seu lado

Por Kiko Monteiro

Eis ai uma foto, até então inédita na literatura lampiônica, cujo crédito do achado é para o youtuber e pesquisador do cangaço Robério Santos. 



A legenda sugere que seja a ex-cangaceira Sila, (Hermecília Brás São Matheus 1924 - 2005) em um evento no município de Itabaiana, SE. Não há qualquer dúvida que seja Sila, o que intrigou os seguidores do Robério é quem seria o senhor que aparece ao seu lado vestido de cangaceiro. Sugeriram que fosse um ex-cangaceiro, provavelmente o próprio Zé Sereno, de quem ela foi companheira.

Quando bati o olho não tive dúvidas e eis aqui a resposta ao enigma, inclusive corrigindo o local da foto. 

O senhor que aparece nesta foto é o lagartense José Bernadino Santos, popularmente conhecido como "Zé Padeiro".

Apaixonado por Lampião, segundo a historiografia local, ele ainda na adolescência teria pedido ao próprio Lampião para ingressar no bando, quando este se encontrava no sertão da Bahia [provavelmente na região de Paripiranga, área de atuação mais próxima de Lagarto.

Mas que para sua frustração o rei do cangaço não o aceitou na suas hostes, não teria reconhecido motivos para aquele jovem virar cangaceiro.

Frustrado, Zé Bernardino voltou para sua terra. Aprendeu o ofício da panificação, por isso o apelido. Porém, 20 anos depois, início dos anos 60, encomendou trajes, armas e acessórios, adotou o vulgo de ‘Azulão’ juntou 17 homens e duas mulheres e criou um grupo... folclórico, denominado ‘Cangaceiros de Lampião’.


O grupo sob o comando de seu criador. 
A moça que aparece atrás é sua filha, a mesma da foto com Sila.

Seu Zé faleceu em 1988. Mas a tradição do seu cinquentenário grupo é mantido até os dias de hoje por seus filhos e netos, que costumam se apresentar em diversos eventos na região. 

A apresentação cangaceiros de Lagarto faz um misto entre exibição de xaxado com tiros de bacamarte (todavia utilizando espingardas do tipo 'polvoreira' ou a vulgarmente conhecida como “de soca”) que assusta os distraídos, especialmente no Desfile cívico de 7 de Setembro.



Filhos, netos e bisnetos de Zé Padeiro, mantém o legado cultural do grupo em Lagarto, SE

Sim, mas e o local?

Foi justamente durante a visita de Sila a Fazenda do pecuarista José Martinho Almeida, no município de Lagarto, em 17 de janeiro de 1984.

O encontro é um dos capítulos do livro “Sila, uma Cangaceira de Lampião”, (páginas 110-111) escrito por ela em parceria com Israel Araújo Orrico, e publicado pela editora Traço no mesmo ano de 1984. O livro não traz qualquer ilustração desta visita a foto foi feita por familiares do fazendeiro.

Mas o que me deu mais certeza do local, não foi tanto pela presença de 'Zé Padeiro', mas pela do animal, um boi da raça Gir ou Zebu, cria de estimação do pecuarista Martinho Almeida, que teria convidado o brincante para recepcionar e homenagear a ilustre visitante junto com seu grupo.

*Fotos de Zé Padeiro e do seu grupo atualmente, cortesia de Eduardo Bastos

sábado, 11 de agosto de 2018

O casamento de Doca

O dia em que Lampião reencontrou um amigo de infância

Entre as terras desses guardiões, no povoado de São José, a 6km de Alagoa Nova, (Manaira, PB) morava Doca.

Manoel Bezerra de Macena, mais conhecido como Doca, era pai de Quitéria, de China e de Zé de Doca. Casou-se com a manairense Isabel Ferreira da Luz, conhecida por Isabel de Doca e que era tia de Didi Pereira da Silva. Todos esses nomes são de pessoas bem conhecidas dos manairenses. Ambos são descendentes dos primeiros fundadores da Fazenda São José. Ele, descendente de José Bezerra Leite, ela de Ignácio ou de Félix Ferreira da Luz.

Na juventude, Doca teria estudado algumas aulas junto com Virgulino Ferreira, construindo certa amizade, mantendo-a mesmo depois que este enveredou pelas trilhas do cangaço.

Nos anos 20, junto com Marcolino Diniz, comunicaram um local, julgado seguro, que permitiu a Lampião apoiar-se por algumas ocasiões nas imediações do Pau Ferrado.

Doca teve um desentendimento com o chefe do povoado onde residia e isso passou a trazer-lhe certos desconfortos. Quando resolveu casar-se com a manairense Isabel Ferreira da Luz, queria que a celebração ocorresse no São José, onde morava. O chefe da localidade mandou um recado a Doca informando que não permitiria que houvesse festa no casamento.

Motivo: Seria muita gente e ia fazer muito barulho. Naquela época, casamento tinha que ter o baile, mas ninguém podia ir contra uma ordem de um mandatário local.

Lampião soube dessa notícia e mandou um recado para Doca:

Amigo, pode contratá o sanfoneiro e organizá o baile que ninguém vai atrapaiá.”

No dia 23 de novembro de 1923, depois do casamento, chegou uma tropa armada. Vieram “passar a guarda” no casamento (garantir a tranquilidade).

“Lampião apitou num apito e mandou chamar Pai”. Pai foi e Lampião disse “pode botá o baile que eu quero vê quem num qué escutá”.

A festa aconteceu, o sanfoneiro tocou e nada interrompeu a alegria. Atrás da casa, sob as árvores, ficaram os cabras, aos quais foi servido um farto jantar. Há quem diga que eram 17, outros afirmam que eram 40 cangaceiros. Doca chamou Lampião para jantar dentro da casa e, ali pela madrugada, o convidado disse: “A festa tá boa, Doca, mas eu vou embora.”

Presentes de Lampião

Lampião levou como presente de casamento, para Doca, uma garrafa de fino vinho, envasado em uma garrafa de cristal decorado (foto abaixo).

Para Isabel, levou uma “vorta (colar) de muito bom tamanho, de ouro e mais um par de brincos.

Quitéria conta que, muitos anos depois, Isabel trocou por um cavalo, somente os brincos.

“Mas o cavalo morreu. O cavalo era de Feliciano, mas Feliciano morreu. Ele deu os brinco a Maria de Zé Grande, mas Maria de Zé Grande Morreu. Depois eu não sei mais não, acho que ninguém teve sorte com eles (os brincos)”.
    
Brincos e colar de ouro, para Isabel – Presentes de Lampião

Não somente na época do casamento, mas em outros momentos de lazer, na sala da casa de Doca tinha uma mesa onde Lampião fazia suas refeições e se distraía, jogando cartas de baralho. A mesa tinha uma grande gaveta, com fundo falso.
“Na revorta de 30, pai amarrou dois fuzi debaixo da gaveta (no compartimento do fundo falso). Os sordado vieram, quebraram tudo, inxero a casa de buraco de tiro, mas quando a guerra acabou nós chegô do Brejo (Triunfo) e nós chegô e tava lá os dois rife, a Puliça num achô.”
Uma bandeja em grosso alumínio era o prato utilizado pelo cangaceiro para sua alimentação. A casa ainda mantém-se de pé e é cuidada pela filha mais velha do casal que nos reconta essas histórias .

(Narrações de Quitéria de Doca)

Pescado em Manaíra.net

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

EVENTOS

Café Patriota e Cariri Cangaço: Novidade de Arrepiar em Fortaleza !

Nos acostumamos a afirmar que o Cariri Cangaço além de ser um grande indutor de fomento ao aprofundamento do estudo e da pesquisa sobre o cangaço e temas capilares da cultura nordestina, além de promover grandes seminários, visitas técnicas, debates, lançamento de livros e ter hoje um significativo grupo de mais de 600 pesquisadores de todo o Brasil, promove acima de tudo o encontro das pessoas e mais que isso, promove o encontro das pessoas com a verdadeira essência da alma nordestina.



É com esse sentimento que vem norteando todas as investidas de nossa marca, que o Cariri Cangaço firma a preciosa parceria com o Café Patriota; um empreendimento que nasceu com o forte sentimento de amor a história e às nossas verdadeiras raízes. 

O Café Patriota é um espaço especialmente diferenciado, cafeteria e restaurante com cardápio de primeira classe, livraria e espaço cultural para apresentações de conferências e palestras como também reuniões , situado bem no coração de um dos mais importantes bairros de Fortaleza, Aldeota, já se consolida como uma das casas referência quando se trata de unir gastronomia e cultura.


Anapuena Havena do Café Patriota:
"Já ansiosos por essa parceira com o Cariri Cangaço" 



A parceria foi firmada no dia 28 de julho último entre o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo Barbosa e os proprietários da casa, Lincoln Chaves e Anapuena Havena, numa indicação de que muita coisa boa vem por ai. "Já fazia tempo que estávamos, eu e Ingrid Rebouças, namorando o Café Patriota e hoje confirmamos esse namoro a partir dessa parceira onde o Café Patriota, dos amigos Anapuena e Lincoln, receberão periodicamente conferências, palestras, debates e encontros do Cariri Cangaço em Fortaleza, capital cearense, será mais um espaço onde certamente haverá o encontro da alma nordestina" ressalta um entusiasmado Manoel Severo.


Já a proprietária do lugar, Anapuena Havena revela:"Estamos ansiosos com essa parceria, o Café Patriota é na verdade um projeto de valorização da história e cultura brasileira e certamente o Cariri Cangaço tem muito a nos acrescentar".






 Bruno Paulino levou Antônio Conselheiro ao Café Patriota


Ingrid Rebouças e Manoel Severo



Bruno Paulino, Manoel Severo e Anapuena Havena

A ideia é promover periodicamente conferencias, debates, apresentação de vídeo documentários como também realizar encontros do Cariri Cangaço na cidade de Fortaleza. Personagens como Lampião, Maria Bonita, Padre Cícero, Antônio Conselheiro, Beato José Lourenço, Padre Ibiapina, Luiz Gonzaga, dentre muitos outros serão as estrelas principais da parceria Cariri Cangaço-Café Patriota. 

"Já estamos dando o primeiro passo nessa direção, estamos acertando com o Lincoln e a Anapuena já um primeiro encontro para o dia 11 de agosto, um sábado, as 10 horas da manhã nos salões da casa, esse será o primeiro momento do Cariri Cangaço-Café Patriota e nosso convidado especial será Virgulino Ferreira da Silva" confessa Manoel Severo. 

Café Patriota





 


 
"Conheci recentemente o Café Patriota. Criado por Lincoln Chaves, amante da história do Brasil, o Café Patriota traz uma mensagem de amor à pátria e ao seu povo. Com uma decoração repleta de símbolos e sentimentos, o Café Patriota tem em suas paredes quadros que retratam a história de nosso país. O café também possui uma livraria, em parceria com a Chiado Editora, e tem, na sua agenda cultural, lançamento de livros, com debates e conversas, além dos famosos Saraus Literários.

Os cafés, de uma forma geral, sempre foram ponto de encontro e de debates, e o Café Patriota quer resgatar esse costume. O cardápio do Patriota foi criado por Leandro Restrepo, trazendo pratos contextualizados historicamente, tudo uma delícia e feito com produtos de primeira qualidade. São pratos montados, tapiocas, sanduíches, drinks e outras bebidas, e, claro, os cafés mais tradicionais. O Café Patriota é mais uma opção gastronômica na querida Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, e traz um serviço diferenciado que certamente irá agradar aos seus clientes.

Viva a diversidade de ideias e os espaços para discussões sadias e responsáveis."

Leo Gondim

IN http://conhecendooceara.com.br/na-cozinha-com-leo-gondim-um-charme-de-lugar/
 
 

Café Patriota Av. Santos Dumont, 1453 Aldeota - Fortaleza - CE.
Estamos abertos todos os dias e feriados das 12h às 22h
 

Pesquei no sítio do coroné Severo

Histórias das Batalhas

Serra Grande se consolidou como a maior vitória

por Fernando Maia - Repórter


 Na casa para onde os feridos na batalha de Calumbi foram levados,
se vê a Serra Grande, local em que Lampião obteve a sua maior vitória no cangaço

Calumbi (PE). O enfrentamento motivou o ex-policial, pesquisador e colecionador Lourinaldo Teles a escrever, após seis anos de pesquisa, o livro “A maior batalha de Lampião- Serra Grande e a invasão de Calumbi”, o que valeu na época para Virgulino Ferreira o título de Imperador do Sertão. Para se ter uma ideia do material conseguido por Lourinaldo, ele coleciona mais de 300 projéteis retirados da serra onde foi travada a luta, além de cartuchos vazios, a maioria encontrados com um detector de metais. Nos cálculos do escritor, pelo menos cinco mil tiros foram deflagrados no evento no qual Lampião demonstrou toda a sua condição de estrategista.


 Lourinaldo Telles
(Foto Blog Cariri Cangaço)

Quando tomou conhecimento que o major Theófiles Torres seria nomeado comandante geral das forças volantes do interior pernambucano, Lampião, já sabendo que o principal objetivo do militar era prendê-lo ou matá-lo, buscou uma maneira de desmoralizá-lo. No dia 24 de novembro, sequestrou Pedro Paulo, o Mineirinho, representante da Shell na região. Seguiu para a Serra Grande, entre os municípios de Flores, de quem Calumbi se emancipou em 1964, e Serra Talhada. No local, além de ser acostumado a acampar, tinha no entorno vários coiteiros.


Lampião enviou uma carta para as autoridades de Serra Talhada exigindo uma quantia em dinheiro para liberar Mineirinho. A Polícia foi até o local do sequestro para levantar pistas. Enquanto isso, o cangaceiro e seu bando praticavam ataques e sequestros na região, numa indisfarçável tentativa de levar as volantes ao local onde cerca de 116 homens estavam entrincheirados.

Segundo o pesquisador, oficialmente a Polícia contava com 296 soldados, mas o número real seria 350, contra 116 cangaceiros. Num confronto que começou às 8 horas da manhã e foi concluído às 17 horas, o saldo foi o seguinte: 10 mortos e 14 feridos entre as forças policiais. Nenhum cangaceiro saiu ferido.

“Esse é o relato oficial. Entretanto, consegui encontrar pelo menos mais um outro policial que faleceu, conforme depoimento de seus familiares. Foi uma batalha extraordinária. Lampião estava armado até os dentes com o arsenal que recebeu em Juazeiro do Norte. Do outro lado, estava toda a elite da Polícia de Serra Talhada. É considerada a maior batalha de Lampião, pelo número de envolvidos, de mortos e feridos e munição deflagrada, pelo menos uns cinco mil tiros, se contarmos em torno de dez balas por homem”.

Na companhia de Lourinaldo, visitamos a casa de Zé Braz, no Sítio Tamboril, onde os feridos ficaram. “Sete dos mortos foram enterrados numa cova coletiva, depois que os três primeiros foram colocados em sepulturas individuais. Os 14 feridos vieram para cá. Esse pilão aqui é o original. Aqui os pintos eram jogados e o pilão era usado para triturar as aves junto com água. O preparo era dado aos feridos. A crendice popular indicava que aqueles que bebessem e não vomitassem escapavam; do contrário, morreriam. O certo é que todos os pintos do sítio foram sacrificados nesse dia”.

De cima da linha férrea da Transnordestina, Lourinaldo aponta para a região onde os homens de Lampião se entrincheiraram. “O local é conhecido até hoje como Serrote de Lampião. Era o ponto perfeito. Do alto da serra, se via tudo o que se passava embaixo. Além disso, existiam olhos d´água e muitos animais para a caça. Outro fator importante: vários amigos de Virgulino, antes de ele entrar para o cangaço se tornariam seus coiteiros. Por ali, quando adolescente, ele levava e trazia mercadorias para negociar em Triunfo e outras cidades com os irmãos, conhecendo cada centímetro daquela terra. Enfim, ele escolheu o território ideal para desafiar as forças oficiais”.

Polêmica

Embora reconheça em Lampião um “homem astuto, extremamente estrategista e inteligente”, Lourinaldo contesta o entendimento de que o Rei do Cangaço, capaz de práticas cruéis contra seus inimigos, jamais abusou de mulheres. “No meu primeiro livro, já citei um caso envolvendo uma mulher casada. A pedido da família, o nome não foi mencionado. Entretanto, brevemente lançarei outra publicação, intitulada “Lampião, o Imperador do Sertão”, no qual narrarei dois outros abusos, também de mulheres casadas. Já recebi a autorização das famílias para citar os nomes e o farei”.

Lourinaldo destacou que o que mais lhe impressionou na história do Rei do Cangaço “foi sua capacidade de liderar mais de cem bandidos da pior espécie”. Sobre o fato de policiais utilizarem os mesmos métodos de tortura praticados pelos cangaceiros, o pesquisador disse não haver a menor dúvida disso e tem uma explicação.

“Muitos personagens estiveram dos dois lados. Quelé do Pajeú, por exemplo, foi inspetor de Polícia em Triunfo (PE). Saiu da Polícia para se tornar cangaceiro de Lampião, com quem se desentendeu. Abandonou o bando e foi ser sargento na Polícia da Paraíba. Corisco era soldado do Exército. Quando saiu, entrou para o cangaço”.



Coleção

O pesquisador possui em sua coleção particular, além de centenas de balas e cartuchos encontrados na Serra Grande e até em Angicos, punhais que pertenceram aos cangaceiros Joaquim Teles de Menezes, Meia-Noite e Félix Caboge. Mas uma arma tem um valor inestimável. É a que Luiz Pedro, considerado braço direito de Lampião, matou acidentalmente Antônio, irmão de Virgulino. O fuzil é o mesmo com o qual Antônio pousa em suas pernas para a famosa foto de Lampião e o restante da família, em Juazeiro do Norte.


O escritor e colecionador conta que todos estavam bebendo e jogando baralho no acampamento, quando Antônio bateu na rede onde Luiz Pedro estava deitado com o fuzil engatilhado. A arma disparou um tiro certeiro em Antônio. Tal era a confiança de Lampião em Luiz Pedro que poupou sua vida, mesmo ele tendo tirado a do próprio irmão.

O fuzil foi deixado por Luiz Pedro na casa de uma irmã, chamada Elvira, que, muitos anos depois da sua morte, entregou a arma a Lourinaldo.

Publicado originalmente no Jornal Diário do Nordeste

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Em Fortaleza, CE

Estoril recebe exposição que lembra os 80 anos da morte de Lampião

A Prefeitura de Fortaleza, por meio das Secretarias Municipais do Turismo (Setfor) e da Cultura (Secultfor), em parceria com o Sesc apresentam a exposição No Rastro do Cangaço no Estoril. Do artista cearense Vlamir de Sousa, a mostra de arte lembra os 80 anos da morte do lampião, Virgulino Ferreira da Silva.



A exposição conta com mais de 20 obras que retratam a vida dos cangaceiros em pinturas a óleo, desenhos e aquarelas. A exposição conta com mais de 20 obras que retratam a vida dos cangaceiros em pinturas a óleo, desenhos e aquarelas.

Com caráter regional a exposição, que faz parte da série “Visões do Cangaço”, conta com mais de 20 obras que retratam a vida dos cangaceiros em pinturas a óleo, desenhos e aquarelas. A mostra ficará exposta até o dia 14 de setembro.

Homenageando Lampião, os trabalhos de Vlamir de Sousa abordam o dia a dia do grupo que marcou a cultura popular nordestina e retratam uma imagem diferente de Virgulino em suas obras, deixando de lado a violência e focando no ponto de vista da vivência do grupo.

Vlamir trabalha a mais de 20 anos em temas voltados para o cangaço. Com mais de 100 trabalhos, o pintor aborda diversas técnicas, trazendo consigo uma densa carga de conhecimento histórico e artístico.

Lampião ficou conhecido por ter atuado no nordeste brasileiro e por sua integração como o melhor líder cangaceiro da história, intitulado como o Rei do Cangaço.

Serviço

Exposição No Rastro do Cangaço

Local: Galeria Mário Baratta – Estoril (Rua dos Tabajaras, 397 – Praia de Iracema, Fortaleza)
Visitação: segunda a sexta-feira, 8h às 17h, sábado 9h às 15h
Acesso gratuito

Pesquei no Sebo Vermelho

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Primo e cabra de 'Sinhô'

Ascendência do Cangaceiro Cajueiro

Por:Valdir José Nogueira

José Pereira Terto, cangaceiro Cajueiro

Residente nas cercanias da Serra do Reino em Belmonte, o célebre cangaceiro “Cajueiro” tinha como nome de batismo José Pereira Terto, sendo filho de Manoel Terto Alves Brasil e de Antônia Pereira da Silva (Totonha). Amplamente conhecido no mundo do cangaço, Cajueiro foi o homem da mais elevada confiança de seus primos Sinhô Pereira e Luiz Padre.

Conta-se que em princípios do século XX, Cajueiro havia levado uma sova de um soldado por nome Cipriano de Souza, porém, ao chegar em casa, sua mãe dona Totonha Pereira não o abençoou.

Dias depois, Cajueiro resolveu assassinar o seu agressor e ao retornar para casa, foi abençoado por sua genitora. Depois deste fato, o mesmo resolveu ingressar no cangaço ao lado dos primos Sinhô Pereira e Luiz Padre.

Em 1919 foi para o Planalto Central com Luiz Padre. Retornando ao Pajeú no ano de 1922, Cajueiro foi de fundamental importância no estratagema de Sinhô Pereira, Luiz Padre e Ioiô Maroto que culminou no ataque a Belmonte no dia 20 de outubro de 1922, onde foi assassinado o coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, próspero comerciante daquela cidade sertaneja.

Cajueiro deixou seu nome marcado na história como um dos homens mais experientes do cangaço, muito valente e moralista.

Ascendentes de Cajueiro:

Lado materno:
Mãe; Antônia Pereira da Silva (Totonha, falecida em 06/05/1946 aos 80 anos de idade), filha do primeiro casamento de Dona Dé (Maria José Pereira da Silva) com o major Joaquim Pereira da Silva Tintão (este filho do Comandante Superior Manoel Pereira da Silva). Dona Dé era filha de Josefa Pereira da Silva (Dona Zefinha do Serrote) e de Joaquim Nunes da Silva. Portanto, Cajueiro era bisneto de Dona Zefinha do Serrote (Josefa Pereira da Silva) e também bisneto do Comandante Superior Manoel Pereira da Silva. O Barão do Pajeú era tio avô de Cajueiro.

Lado paterno:
Pai; Manoel Terto Alves Brasil, filho de José Alves dos Santos e de Carolina Jocelina (ou Marcionila) da Silva, esta filha do Padre Francisco Barbosa Nogueira e de Quitéria Pereira da Cunha da fazenda Cipó em Serra Talhada. Portanto Cajueiro era bisneto do Padre Francisco Barbosa Nogueira (este neto de Manoel Lopes Diniz fundador da fazenda Panela D’Água em Floresta).

Em virtude de umas querelas familiares onde residia, na fazenda Cipó em Serra Talhada, o casal José Alves dos Santos (Cazuza Cego) e Carolina Marcionila da Silva (filha do Padre Francisco Barbosa Nogueira e de Quitéria Pereira da Cunha), comprou em 1881, na Freguesia de Belmonte, uma propriedade na fazenda Campo Alegre, cercanias da Serra do Reino (cuja vendedora foi dona Jacinta Pereira de Souza), onde passou a residir. Este casal deixou nove filhos dentre os quais o Sr. Manoel Terto Alves Brasil que casou com Antônia Pereira da Silva (Totonha, filha do major Joaquim Pereira da Silva Tintão e Maria José Pereira da Silva, Dona Dé), pais de Cajueiro: José Pereira Terto.

Valdir José Nogueira,pesquisador e escritor
Pres. da Comissão Local do Cariri Cangaço
São José de Belmonte, Pernambuco



NOTA DO PESQUISADOR SOUSA NETO: Em 1923 ao chegar em Minas Gerais, Cajueiro ou Joaquim Araújo da Silva, nome adotado naquelas paragens torna-se amigo pessoal do Cel. Farnesi Dias Maciel, irmão do Presidente Olegário Maciel. Foi da guarda pessoal do Governador Olegário onde na revolução de 1930 deu total proteção a esse que junto aos primos JOSÉ ARAÚJO e FRANCISCO ARAÚJO, formaram um pelotão para guardar o Palácio do governador que esteve sob iminente ataque das forças getulistas.

Para ilustrar mais um pouco a bela matéria do nosso valoroso amigo Valdir José Nogueira, vejam abaixo a certidão de óbito do célebre Cajueiro. Atente para o detalhe: ele faleceu exatamente três meses e nove dias após Sinhô Pereira.


No Livro do cartório ambos os óbitos estão na mesma página. Outro detalhe, nasceram no mesmo ano 1896.

Abraço a todos! Depois contarei o resto.

Pesquei no Sítio do coroné Severo

Quem foi Monsenhor Berenguer?

Foi um padre que enganou Lampião

Por: José Gonçalves
Com Edição do Lampião Aceso

Este é o lendário Monsenhor Berenguer, que por quatro décadas foi pároco de Monte Santo, BA. Segundo a historiografia local, dentre as suas inúmeras façanhas está aquela de ter 'enganado Lampião'.


"O sacerdote, que se encontrou com Lampião no Cumbe [Euclides da Cunha], teve de contar com a ajuda de colegas para escapar da morte.

O sacerdote teria topado com o rei do cangaço nas proximidades do povoado Algodões [distrito do município de Quijingue] quando Lampião, acompanhado por oito cabras, pediu que o padre lhe cedesse um automóvel Ford de sua propriedade para transportar o bando até a vizinha cidade de Tucano. Porém o astuto Berenguer, simulou um problema mecânico no carro.

Os cangaceiros acabaram passando para um caminhão de propriedade do também padre José Eutímio.

Dias depois, Lampião ficou sabendo que o padre Berenguer estava se gabando de tê-lo ludibriado.

Sem perda de tempo, fez chegar ao sacerdote a seguinte ameaça: "padre Berenguer, no dia em que a gente se encontrar, vou ensinar o senhor a enganar Lampião". 

Graças à intervenção do também religioso Zacarias Matogrosso, que confirmou o tal defeito, o sacerdote escapou da vingança terrível do líder cangaceiro".

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Tributo

Das Volantes à CIPE Caatinga

Mais um vídeo produzido para a Série Memórias da PM da Bahia, sob a coordenação do major Raimundo Marins.

Neste capítulo "A evolução histórica das tropas baianas que enfrentaram o Cangaço no Sertão".



Pescado no Canal Carlos Alberto

domingo, 5 de agosto de 2018

Costa Rego X Lampião

Quando o Rei do Cangaço desdenhou do Governador das Alagoas

Pedro da Costa Rego, o célebre Costa Rego, nasceu no Pilar (AL), em 12 de março de 1889. Jornalista, escritor e político, na vida pública, foi secretário da agricultura (1912), deputado federal (1915-17, 1918-20, 1921-23), governador (1924-28) e senador (1929-30 e 1935-37), sempre por Alagoas.

A frente do Governo manteve também uma luta sem tréguas contra os cangaceiros que de vez em quando surgiam no sertão do estado.


Conta Leonardo Mota, em seu livro “Sertão Alegre“, que Lampião assim teria telegrafado a Costa Rego:

— “Eu tou costumado a travessar rio cheio quanto mais REGO…”.
Mas o fato é que o famoso bandoleiro 'comeu ruim' naquela época.

Ficaram no folclore alguns vestígios da perseguição de Costa Rego ao rei do cangaço. Diz uma velha peça de Reisado:

Costa Rego mandou um comandante
Com a tropa volante
Andar de déo em déo,
Lampião é a gota serena,
Mas com Zé Lucena
Ele acha o chapéo.


Ao som da “Mulher Rendeira”, cantava o povo naquele tempo:

Ao seu doutô Costa Rego
Lampião mandou dizer,
Que o tenente Zé Lucena
É duro de se roer.

Costa Rego já mandou
Volante para o sertão
Com Zé Lucena na frente
Para pegar Lampião.

Costa Rego em Alagoas
Não protege Lampião,
O que tem pra cangaceiro
Ou é bala ou é prisão.



Trecho do artigo 'Costa Rego no folclore alagoano' de José Aloísio Vilela, publicado originalmente em História de Alagoas

sábado, 4 de agosto de 2018

Recompensa atualizada

Trinta e sete cabeças de cangaceiros estão valendo 129:000$000 contos de réis

Por Joel Reis

"A Polícia Baiana organizou uma tabela de preços para as cabeças de Lampião e seus companheiros.  O capitão João Facó, chefe de Polícia, aprovou a tabela de preços organizada pelo Tenente Manoel Campos de Menezes, e já posta em vigor para quem trouxer as cabeças dos bandoleiros".
 
Capitão João Facó. Posse: 09.1931
Fonte: cangaconabahia.blogspot.com


Tenente Manoel Campos de Menezes 
Acervo do pesquisador Rubens Antônio

 "Estão valendo 129 contos"
Dizia a página 1 do jornal 'A Batalha' (RJ), ed. n. 1136, em 10 nov. 1933.

A referida tabela que o periódico publica é a seguinte:

Tabela: 37 cabeças valendo 129 contos de réis
Fonte: A Batalha (RJ), n. 1136, 10 nov. 1933, p. 2.

Tabela Explicativa:

- FAC-SÍMILE* da Tabela - Respeitando a ortografia do documento. Fac-símile - (do Latim fac simile = faz igual) é toda cópia ou reprodução de letra, gravura, desenho, composição tipográfica etc.

- Errata da tabela - A identificação e correção dos nomes dos cangaceiros: Conforme a Tabela da Figura 04 - Observa-se alguns nomes repetidos ou identificados como (2º), isto é, indicava que existiu ou existia um outro de mesma alcunha.

A explicação disso: os chefes de cangaceiros, ao recrutarem um novo membro para o bando, davam a ele a mesma alcunha de um cangaceiro que já não estava mais no grupo.

Assim, frequentemente a polícia anunciava a morte ou prisão de um cangaceiro e, com um tempo, o mesmo nome voltava a ser noticiado devido aos feitos praticados por esse novo cangaceiro de mesmo apelido. Com isso, as notícias de mortes e detenções divulgadas pelas autoridades se tornavam duvidosas e sem crédito diante da opinião pública, à medida que o mito da invencibilidade dos cangaceiros se sustentava. (OLIVEIRA, 2012).

- Os preços das cabeças dos cangaceiros em RÉIS  convertidos para o REAL. Levou-se em consideração a data da tabela  de 10 de novembro de 1933.

Tabela: Fac-símile, identificação e correção dos nomes, valores para o real (R$)
Fonte: viacognitiva.blogspot.com.br


Considerando a data da aprovação da tabela (10 de novembro de 1933) e a inflação nesse período foi - 2,0%. P.S.: Em 1933 houve -2,0% (deflação)...


... O valor atual (2018) das cabeças seria aproximadamente:



Lampião
Rs 50:000$000 = R$ R$ R$ 1.000.000,00 (Um milhão de reais)

Corisco
Rs 10:000$000 = R$ 200.000 (Duzentos mil reais)

Cirilo, Luis Pedro e Mariano
Rs 5:000$000 = R$ 100.000 (Cem mil reais)

Zé Baiano, Gato II, Moderno (Virgínio), Arvoredo II e Labareda
Rs 4:000$000 = R$ 80.000 (Oitenta mil reais)

Calais, Jurema II, Beija-Flor III, Maçarico II, Medalha II, Suspeita e Coqueiro II
Rs 2:000$000 = R$ 40.000 (Quarenta mil reais)

Bem-te-vi Moreno, Jararaca III, Alecrim, Bem-te-vi (de Corisco), Moita Brava II, Pancada, Criança III, Português, Boi Manso, Avião, Duca, Pai Véio II, Franqueza, Pó Corante II, Nevoeiro, Balão, Bom de Vera, Pedra D' Ave, Meia Noite III e Jurema
Rs 1:000$000 = R$ 20.000 (Vinte mil reais)

• Valor Total (todas as cabeças) $ 129:000$000 = R$ 2.580.000 (Dois milhões, quinhentos e oitenta mil reais)

Caso queiram aprender como fazer a conversão de réis para o real é só CLICAR AQUI

Publicado originalmente no  Via Cognitiva

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

No coito do pesquisador...

Como vai você, Luiz Ruben?

Aderbal Nogueira visita ao acervo do pesquisador pernambucano Luiz Ruben, uma referência no estudo do cangaço no Brasil.



Parte 2



Pescado no pioneiro, canal de Seu Aderbal

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Armas de fogo

 As 'Bergmann' de Angico

Por A. Fábio Carvalho Costa*

Caros amigos, em homenagem aos 80 anos da morte de Lampião e Maria Bonita, escrevi este texto especialmente para o blog do amigo Kiko, sobre as armas automáticas usadas pela polícia em Angico, espero que apreciem.

Os governos estaduais nordestinos buscavam a todo custo na década de 1930, a erradicação total dos bandos de cangaceiros. Para isso introduziram o conceito de tropas “volantes”, ou seja, tropas com grande mobilidade e sem circunscrição, que seguiam no encalço dos bandidos pelos sertões afora. Por vezes atravessando divisas estaduais com base em acordos celebrados pelos governos nordestinos.

O conhecimento do terreno, e do território, a adaptação às agruras e dificuldades da caatinga, davam aos bandoleiros óbvias vantagens táticas.

A vantagem do armamento policial composto pelos fuzis e mosquetões militares do tipo Mauser (geralmente os mod. 1908), no calibre 7 mm, inicialmente superior aos dos bandidos, foi suprimida em 1926 no afã de combater a coluna Prestes, com a cessão pelo governo federal de armas idênticas (e até mais modernas e cômodas de se usar, como os mosquetões FN 1922), o que se revelou uma estratégia no mínimo equivocada que talvez tenha dado sobrevida a Lampião por mais dez anos.

A solução encontrada foi prover os grupos com armas automáticas mais leves, complementares aos fuzis-metralhadores Hotchkiss 1922 ou Madsen 1918, para que a mobilidade da tropa não fosse comprometida, mas mantendo alguma superioridade de fogo. Principalmente em frações de tropas muito reduzidas.

As submetralhadoras Bergmann MP 28 II eram algumas destas armas automáticas.


 MP28

 MP35

Esta arma foi redesenhada por Hugo Schmeisser com base no modelo MP18.I, e tinham como modificações principais o alojamento do carregador, modificado para receber carregadores retos do tipo caixa, ao invés dos complicados e defeituosos carregadores tipo "caracol" da antecessora. E um seletor de fogo para o tiro intermitente ou automático, que era um pino transversal colocado acima do gatilho, e alça de mira tangencial graduada até mil metros.

O calibre era o 9 mm Parabellum, mas foram fabricadas também em 7,65 mm Parabellum, 7,63 mm Mauser, e talvez em .45 ACP.

As policias Nordestinas as usaram em calibre 7,63 mm Mauser, talvez devido à popularidade das pistolas Mauser C-96 “caixa de pau”.

A submetralhadora Bergmann MP 28 II era uma arma de construção robusta e bem feita, porém cara.

A Força Pública Pernambucana apreendeu em 1931 dos Irmãos Lundgren (além de muitas outras armas) 25 submetralhadoras de fabricação alemã com 71 pentes (SIC) e 23.472 cartuchos; 02 metralhadoras sem coronha. Estas armas pelo período, provavelmente eram estas Bergmann MP 28 II. Consta que foram usadas depois contra os cangaceiros.

A submetralhadora Bergmann MP 28 II foi copiada pelos ingleses durante a segunda guerra com o nome de Lanchester.

As policias Nordestinas ainda usaram submetralhadoras Bergmann MP 35.

O escritor Frederico Pernambucano de Mello cita no livro '”Guerreiros do Sol”, que uma Submetralhadora Bergmann MP34 também estaria presente no ataque a Grota de Angico. Mas uma análise da foto mostra que é uma modelo 1935 (as diferenças eram a longitude do cano, maior na MP34, e outros detalhes secundários).

 O então tenente Bezerra 
e a tropa que dizimou Lampião e parte do seu bando em Angico.

Esta é uma arma rara por aqui, e praticamente desconhecida do grande público. Aparentemente teve uso policial no Brasil somente no Nordeste.

A Submetralhadora Bergmann MP35 derivou-se de uma arma fabricada sob licença pela empresa dinamarquesa Shulz & Larsen, a BMP32, desenhada por Emil Bergmann (filho do célebre Theodor Bergmann, que desenhou a MP18). Esta arma tinha algumas características interessantes (o carregador é montado no lado direito da arma, com a janela de ejeção à esquerda, sendo o contrário mais usado em submetralhadoras. A alavanca de manejo do ferrolho é localizada na traseira da arma, sendo sua operação semelhante a do ferrolho do Fz. Mauser.

Para mover o ferrolho, gira-se para a posição vertical e puxa-se para trás. O gatilho é duplo, com dois estágios. O regime de fogo – semiautomático ou automático- é feito pela pressão do dedo do atirador). A BMP32 tinha cano com jaqueta de refrigeração perfurada, e usava o cartucho padrão dinamarquês cal. 9 mm Bergmann, usado nas pistolas M1910/21.

Bergmann melhorou o design em 1934, padronizando os carregadores das Schmeisser MP28 em cal. 9 mm Parabellum, cartucho padrão do exército tedesco, para facilitar a logistica e melhorando o sistema de segurança da arma. Surgindo assim a modelo MP34. Sendo logo encomendada em grande número pela Alemanha. A famosa casa Walther foi subcontratada pela Theodor Bergmann Und Co. Gmbh para fabricação desta arma.

Em 1935 a arma sofreu novos ajustes para a produção maciça, surgindo as Bergmann MP35 (a maior parte das MP35 foi usada pela Waffen-SS, embora a Wehrmacht, e a Policia alemã também a tivessem usado).

 Nesta imagem, o bravo Manoel Neto, porta uma Bergmann.

Aqui no nordeste creio que foram usadas pela polícia baiana, mas faltam documentos que atestem inequivocadamente seu uso (estaria esta MP35 dentre as duas submetralhadoras emprestadas pela Força Volante da Bahia comandada por Odilon Flor a João Bezerra? Seria esta a sua origem?).

Não nos esqueçamos que a Força Pública de Pernambuco usou também as pistolas automáticas Royal, um clone espanhol da Mauser C-96, que inovou adotando um seletor de fogo e carregador destacável. Estas pistolas metralhadoras também participaram de Angicos.


*Aurelino Fábio Carvalho Costa é baiano de Itapetinga, 49 anos, oplólogo autodidata e historiador amador, especializado em armamento leve sendo estudioso de armas de fogo e balística há mais de 29 anos. Já exerceu as funções de consultor técnico voluntário do Museu da Polícia Militar de São Paulo, e sempre batalha pela conservação da memória e da oplologia na história do Brasil.

Personagens terciários

Delegado Joel Macieira Aguiar

 
  Pescada in academiamaconicadesergipe.com.br

Joel Macieira Aguiar nasceu no dia 11 de agosto de 1905, em Maruim, município distante a 30 Km da capital sergipana , Aracaju. Foi cirurgião dentista, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926 e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito da Bahia, em 1936.

Aguiar exerceu o cargo de Promotor de Justiça, em Capela e em Neópolis; Foi Delegado de Polícia, em Aracaju, na gestão do Interventor Estadual Eronides de Carvalho; Foi Juiz de Direito, em Maruim, Estância e Aracaju. Mais tarde, tornou-se Desembargador do Tribunal de Justiça e Corregedor Geral da Justiça de Sergipe. 


 A seta indica o delegado na ocasião em que esteve na Grota do Angico.
Jornal A Noite, 3 de Agosto de 1938 

Joel Aguiar era um estudioso e parecia estar anos luz à frente das pessoas de seu tempo. Coordenou o levantamento cadavérico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, bem como dos demais cangaceiros assassinadas na grota do Angico, em Poço Redondo.

Seu primeiro contato indireto com Virgolino ocorre 8 anos antes:  Ele teria também atuado como promotor no Processo resultante do inquérito que a polícia do município de Nossa Senhora das Dores, zona da mata sergipana, presidido pelo delegado Antônio Paes de Araújo, instaurou no dia 16/10/1930, objetivando investigar a morte do cidadão José Elpídio dos Santos; e como juiz de direito, Nicanor Oliveira Leal.


Faleceu em Aracaju, aos 89 anos, em fevereiro de 1995, e foi sepultado em Maruim.

No dia 27 de junho de 1996, o então prefeito de Aracaju, José Almeida Lima, sanciona a Lei nº 2.416, que denomina a Rua “Desembargador JOEL MACIEIRA AGUIAR” (antes Rua “N”, localizada no Loteamento Tramandaí, bairro Grageru), prestando homenagem ao jurista maruinense.

Com informações e última foto de Keizer Santos do www.jornaldemaruim.com

terça-feira, 31 de julho de 2018

LAMPIÃO NO CEARÁ


A volta, na volta, do “Rei do Cangaço”
A dura situação do bando de Lampião em terras cearenses, após o fracassado ataque a Mossoró.

Por Sálvio Siqueira*


Era a boca da noite do dia 13 de junho de 1927. Lampião, na estação ferroviária da cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, já estava sabendo de que perdera dois de seus melhores homens no confronto, além de estar ferido Moderno, seu cunhado, As de Ouro e outro, com o abdome aberto pelo projétil de um dos homens da resistência, se contorcia e soltava gemidos involuntários devido a enorme dor. Esse último com um ferimento gravíssimo. O cangaceiro Sabino, seu “tenente” na época, reportara para o mesmo a perda e a impossibilidade de levar o plano adiante. Recebe ordens de reagrupar o bando para deixarem a cidade…

 ssO pesquisador Sálvio Siqueira realizando suas pesquisas sobre o cangaço nordestino.
As sombras da noite os engolira de repente. Tomaram, sob as ordens do chefe maior, um itinerário diferente daquele usado quando da vinda para a cidade do sal. Todos com caras de poucos amigos, sem pilhérias nem brincadeiras de tipo algum. Naquele ocaso do dia, o silêncio estava a consumir cada um deles. O silêncio só era quebrado pelos gemidos do cangaceiro agonizante e o soar das alpercatas “Xô-boi” levantando a poeira em solo potiguar.
 
A sua frente aparece um muro de varas e estacas, uma enorme e longa cerca, mas, não podiam parar, transpõem com rapidez e seguem em busca de um lugar para “lamberem suas feridas” físicas e morais, todas em carne viva. Não sabem ao certo por onde estão. Despontam em uma casa solitária. Pedem à mulher que abriu a parte superior da porta água e sal, para lavarem os ferimentos. 

A mulher, dona Maria Liberata, que tinha um sitiozinho nos arredores da cidade, estava a morrer de medo envolto pelos cangaceiros. Seu medo era tanto que, não sabendo onde esconder sua filha, a fez entrar embaixo d’um monte de cascas de feijão que havia no recanto da parede da sala. A pilha de cascas não era tanta e ao socar-se embaixo dela, os pés da adolescente ficam de fora. Lampião percebe o medo da filha e a agonia da mãe, então tenta tranquilizar as duas, dizendo só querer água e sal, depois diz para a senhora que pode mandar sair de debaixo das cascas quem lá estivesse que suas vidas estavam garantidas.


Viagem Mossoró Baraúna (1)
Onde hoje estão essas casas na cidade de Mossoró, 
na Avenida Alberto Maranhão, ficava a sede do Sítio Saco, 
local onde esteve o bando de Lampião antes e depois 
de atacar Mossoró. Foto – Rostand Medeiros.
  “- Dona, a senhora pode tirar essa pessoa que está por debaixo das cascas! Ninguém quer fazer mal a ninguém aqui!” (Dantas, 2005)
 
Recebendo o que pedira, os cangaceiros misturam o sal na água e lavam seus ferimentos. Rapidamente, ao findar esse pequeno tratamento, Lampião ordena para que a cabroeira se levante e coloquem os pés no caminho. Por fim chegam ao local de onde partiram para o ataque frustrado – o sítio “Saco”.
 
DEIXANDO MOSSORÓ PARA TRÁS
 
O chefe pernambucano portava-se igual uma fera acuada. Não parava em lugar nenhum. Ia pra um lado e retornava no mesmo instante, reclamando com tudo e com todos, porém, seu maior aborrecimento era referido ao cangaceiro Massilon Leite, pelo fato dele o ter convencido a atacar uma cidade do porte de Mossoró. Instantes depois de terem chegado, imediatamente a um pequeno “tomar fôlego” ordena que seus homens subirem em suas montarias para, mais do que rápido, deixarem as terras do Rio Grande do Norte.
 
Do ponto em que se encontravam Lampião não poderia pegar o rumo do sul, transpondo os limites dos Estados do Rio Grande do Norte e penetrar na Paraíba, terreno do seu conhecimento, pois, além dos homens do coronel Pereira, de Princesa Isabel, que não eram poucos, estarem a sua procura, no seu encalce estavam várias volantes paraibanas determinadas, valentes e perigosas. Então, só havia uma rota de fuga: seguir rumo ao Oeste, pois no poente ficava o território cearense, terra do Padim Padre Cícero, lugar onde a Força Pública não o perseguiria.




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Manchete do jornal A República, de Natal, do dia 14 de junho de 1927, um dia após o ataque – Coleção Rostand Medeiros
Virgolino sabia que estavam sendo caçados vigorosamente. Começa a aplicar táticas de vai-e-vem, além de ordenar cortarem os fios do telégrafo, para dificultar a trilha percorrida e atrasar os perseguidores. Segue por um caminho e, de repente, entra no mato, transpõem lajedos, e seguem sem poderem parar um só instante. O “Rei do Cangaço” não conhecia o terreno que percorria, nunca havia estado naquele Estado, por isso levava um senhor da região, Seu Formiga, desde antes ao ataque, servindo-lhe de guia. 

Com a andada sem paradas, o Senhor formiga começa a cambalear, estava quase que totalmente sem forças para prosseguir. Lampião dispensa os serviços desse guia e captura um senhor e seu filho para que tomassem o lugar dele. E assim prosseguem sem pararem para nada, nem para cuidarem dos feridos. Ao dispensar Formiga, Lampião manda que esse vá falar com o coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns. O coronel escreve um bilhete solicitando que familiares e amigos arrecadem certa quantia para que fosse libertado pelos cangaceiros, caso contrário, perderia sua vida, e pede ao Senhor Formiga que fizesse chegar até seu irmão, Tibúrcio Gurgel, para que o mesmo tomasse as devidas providências.


A FOTO DA VOLTA 3
 
Os novos guias levam a caterva rumo ao Ceará, seguindo os postes e fios do telégrafo. Assim percorrem léguas e léguas para ficar mais distante de Mossoró. Em determinado lugar, chamado sítio Baixa da Broca, Lampião ordena que parem e montam acampamento. Naqueles dias, os cangaceiros formavam um grande círculo fechando o perímetro. No centro, de um lado, ficavam o chefe e seus lugares tenentes, Sabino, Luiz Pedro, Moderno e etc., do outro os reféns sob a guarda de alguns cabras. Antes do alvorecer, os cangaceiros já estão bem longe daquelas paragens. Por volta das cinco da matina, cercam e invadem a fazenda chamada Jucuri, a qual tinha como proprietário o senhor Manoel Freire.
 
SUPLÍCIO NO JUCURI
 
Naquelas horas da manhã, o dono estava a ordenhar as vacas junto com seu vaqueiro Teófilo Lucas. Os dois são presos. O dono é obrigado a leva-los até a casa sede. Lá chegando, obrigam-no a chamar por sua esposa para que ela abrisse a porta. A casa é tomada imediatamente por uma horda de cangaceiros que começam a vasculhar cada centímetro do lugar. Além dessa bagunça toda, os cangaceiros exigem que se faça café para eles. Lampião e Sabino começam a apertar Manoel Feire pelos contos de réis. Freire responde que não tem. Sabino toma de conta do dono da fazenda e assume o interrogatório, ameaça-o de tudo quanto pode. O homem é valente e não diz onde está o dinheiro. Em vez de continuar só com a negativa, Manoel, a certa altura da coisa, faltando a paciência, diz:
 
“- Não tenho dinheiro para bandidos! Não tenho! Já disse!” (Dantas, 2005)
Rapaz, teria sido melhor ele não ter dito dessa maneira.



Viagem Mossoró Baraúna (134)
Igreja na comunidade Jucuri, próxima a Mossoró.
Foto – Rostand Medeiros.
Sabino, que já estava com o rebenque na mão, pequeno chicote de couro em forma de bengala para tocar a montaria, começou uma sessão de espancamento no pobre fazendeiro. Freire nada podia fazer a não ser levar as chibatadas e chorar de tanta dor. E quanto mais Manoel chorava, mais o cacete comia. Em certo momento, sua esposa, Dona Francisca, vendo que Sabino ia acabar matando seu esposo na chibata, resolveu interferir. 
 
Aí a coisa ficou pior. Tentar impedir que um homem como Sabino das Abóboras prosseguisse o que estivesse fazendo, era melhor nem tentar. Sabino em vez de atender àquela senhora, lhe solta a “macaca no lombo”, ou seja, bate nela sem piedade. A mulher gritava de dor e o meliante não cansava nem parava de bater. Até que os dois, marido e mulher, ficaram estendidos no piso da casa com suas peles rasgadas pela sola do chicote. Porém, o castigo em Manoel tem recomeço. O homem quase que nada mais dizia, soltava apenas sons pela boca, e a surra não parava.



A FOTO DA VOLTA 6
 
E Lampião? Ora, quem iria intrometer-se naquele meio contra Sabino? Nem ele! Enquanto o pau cantava nas costas do pobre fazendeiro, Virgolino, aproveitando o aperreio das filhas, começa a saquear suas joias. Após ter pego tudo que encontrou de valor dentro da casa ou com as pessoas, Lampião ordena que Sabino pare de bater no homem. Vai até ele e o condena a ser seu prisioneiro, sequestrando-o, estipula uma quantia para que fosse libertado.
 
“(…) Concluído o saqueio, o vesgo determinou ao subordinado a suspensão da muxinga (ação de bater; sova, surra). Segurou Freire pelo braço e sentenciou com autoridade:
– Olhe, o senhor vai com a gente! Sua liberdade vai custar dez contos de réis!
 
Em seguida tornou aos familiares do fazendeiro:
 
– Mandem alguém a Mossoró arranjar o dinheiro!


Sergio Dantas 3
O pesquisador Sérgio Dantas, autor de quatro importantes livros sobre 
o tema Cangaço, um deles intitulado Lampião e o Rio Grande do Norte
– A História da Grande Jornada, que considero o melhor
sobre a história do ataque de Lampião a Mossoró e aborda o tema 
com grande profundidade e riqueza de detalhes. Os textos e algumas 
fotos deste livro serviram de base para a criação deste artigo.
Foto – Rostand Medeiros.
 O agricultor foi conduzido de forma ridícula, em roupas de pijama (…).” (“ Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, 2005)
 
O FIM DO SOFRIMENTO DE DOIS DE OURO E O ATAQUE A FAZENDA VENEZA
 
Em seguida o chefe ordena que montem e partam em trote acelerado. O tempo urgia ficar o mais longe possível daquela cidade potiguar. Já não estava tão bem o cangaceiro ferido na altura da barriga. Com o trote forçado a coisa piora e alguns cangaceiros que estavam ao seu lado têm que parar para ver o que poderiam fazer em socorro ao companheiro. O sofrimento era tanto que o ferido suplica aos companheiros que tirem sua vida. Ninguém se habilita a tal coisa. As dores aumentam e ele retornar a suplicar que o matem. Havia, dentre os homens de Lampião, naquele instante, um com alcunha de Marreco. Esse vai até ele e diz que fará seu pedido. Arrastam o ferido para dentro do mato, levam-no até a sombra de uma grande árvore e lá, no meio do nada, Marreco o mata com um tiro.
 
(…) Afastaram o bandoleiro para lugar recatado, debaixo de velha quixabeira. Tiro seco e rápido tirou-lhe o resto de vida sacrílega.
 
Expiação finda, o corpo foi enterrado em cova rasa, à beira do caminho. Cruz tosca marcou o local(…).


A FOTO DA VOLTA 8
 
A tradição oral fixou que o cangaceiro enterrado nesse ponto da estrada foi o célebre Menino de Ouro. Tal não é verdade. O bandido em questão se quer saiu ferido do embate em Mossoró. Raimundo Lucena, em seu livro “Memórias”, refere-se à presença do bandoleiro-mirim na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 15/06/27. Não morrera, pois. Teve, sim, longa sobrevida. Foi encontrado n década de noventa pelo pesquisador Hilário Lucetti. Menino de Ouro, o Alagoano ou Oliveira, morrerá somente em 23 de novembro de 1999, com vetusta idade de oitenta e sete anos. 

O homem sepultado nesse ponto do caminho – o que foi revelado pós a exumação – não era tão jovem. Provavelmente o corpo era do bandido “Dois de Ouro”. O resto é tradição verbal. Pura lenda.” (DANTAS, 2005)
 
A caterva prossegue rumo a terras cearenses. Antes da linha limítrofe, ainda em território potiguar, tinha uma fazenda chamada Veneza que tinha como administrador o senhor Childerico Fernandes.
Por ter uma vasta área desmatada em sua volta, a visão de quem se encontrava na casa pegava todo o derredor. Por isso, a esposa do administrador, dona Felisbela, ao escutar um tropel de cascos no solo duro, ergue e avista o bando de cangaceiros aproximando-se. Vai até onde se encontrava o marido e lhe diz o que estava vindo em direção a eles, a tempestade que vinha chegando.
 
Sendo comerciante, Childerico havia comprado um rebanho de reses a prazo, ou feito um empréstimo e comprado o gado, mais provável. De posse das reses, começa a engordá-las e vai vendendo e juntando a quantia para fazer o pagamento. Tanto a esposa como o marido treme nas bases, principalmente por saberem ter em casa a quantia de dez contos de réis, os quais seria utilizado para saldar a dívida. Avexam-se a procura de um local para esconderem a “botija de dinheiro”.




Viagem Mossoró Baraúna (145)
Antiga sede do sítio Veneza, fotografada em 2010 e hoje parte de um 
assentamento rural
Foto – Rostand Medeiros
Lampião parecia já estar refeito da derrota em Mossoró, pois seu cérebro já tramava a mil por hora. Antes da aproximação da casa sede da fazenda Veneza, ele divide o bando, fica com alguns cangaceiros e os reféns. Envia Sabino com trinta cangaceiros a vivenda. Sem a preocupação dos reféns nem a marcha lenta dos guias como empecilho, a tropa liderada por Sabino esporeiam suas montarias e chegam muito rápido a casa e imediatamente a cercam, invadem e tomam conta de todo e qualquer recanto que havia nela. Na sala, estando Childerico, Sabino começa a fazer-lhe várias perguntas: onde estão, a qual Estado pertencem aquelas terras e por aí foi… O administrador ia respondendo a cada pergunta de acordo com a situação.
 
Dona Felisbela, de posse da grana junta, tinha tentado sair pela porta da cozinha para ir escondê-la, mas, não deu tempo. O cangaceiro apelidado de Coqueiro invade a casa por essa saída e impede que ela saia. Percebendo o nervosismo da senhora, o cangaceiro começa a procurar e acha tudo. Ela, sem ter outra opção, dispara pra sala onde se encontram seu marido, Sabino e vários cangaceiros, narrando o que tinha acontecido. Pelo que a senhora falou, Sabino, cangaceiro experiente, já sabia de quem se tratava e lasca o grito pra cima querendo a presença de Coqueiro imediatamente. 

De imediato o chefe ordena que lhe passe a grana. Ao receber nota a quantia e seus grandes olhos quase que saltam da face, sem acreditar direito no que via. O cabra das Abóboras afasta-se dos demais e começa a contar o volume de notas uma por uma. Fica meio que boquiaberto. Nunca pensara em encontrar naquela simples casa tanto dinheiro junto. A razão da soma, um tanto grande para a época, era simplesmente o acúmulo para pagar o que havia comprado, as reses, ou seja, aquele dinheiro não era de Childerico.





Viagem Mossoró Baraúna (154)
Alpendre da antiga sede da propriedade Veneza, zona rural de Baraúna, Rio Grande do Norte. Foto – Rostand Medeiros
O restante do bando, ao ver a quantia de notas nas mãos de Sabinos, imediatamente começa a fazer uma varredura no local. Não deixando inteiros os poucos móveis que ali havia. O administrador, cheio de pena, lamentos e raiva por estar perdendo tudo quanto havia conseguido na vida, protestou com o chefe, Sabino das Abóboras, que lhe responde para que ele vá reclamar com o coronel José Pereira, chefe político da cidade de Princesa Isabel, Paraíba, o qual havia lhe ensinado o que acabara de fazer. Essa ligação entre José Pereira, Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras” e o coronel Marçal Florentino Diniz, esse pai de Sabino com uma de suas empregadas, contaremos em outra oportunidade.
 
Pois bem, não contente, mesmo tendo encontrado a enorme soma, Sabino começa uma sessão de torturas no corpo de Childerico. Dessa vez, ele alterna os objetos que produziam as dores: usava o chicote e depois o punhal, voltava a usar o chicote e em seguida, novamente a ponta fina e dura da lâmina de aço. Assim o tempo passa, para Childerico, cada minuto parecia um tempo enorme… Uma eternidade!
 
O misticismo, catolicismo e messianismo foram, são e será uma válvula de escape sobre o sofrimento de parte da população mundial, arrancando daí uma fé às vezes doentia e entre os que usam dessa fé estão os sertanejos nordestinos. Em determinado momento, não aguentando ver o sofrimento de Childerico, sua esposa corre até o oratório, nicho ou armário com imagens religiosas; capela doméstica que surgiu desde a Idade Média no território europeu, como devoção popular tendo sido inserido em nosso convívio pelos europeus migrantes, pega uma imagem e a coloca na frente do rosto do cangaceiro. Tanto dona Felisbela, quanto o cangaceiro Sabino possuíam, não explicar como, a mesma fé interior. Ao deparar-se com tal imagem, o cangaceiro perverso larga do chicote, guarda o punhal na bainha e deixa Childerico de lado.
 
“(…) A essa altura, Dona Bebela (Felisbela), em prantos, correu ao oratório. Tomou nas mãos imagem de Nossa senhora e a colocou rente aos olhos do cangaceiro:
 
-Poupe nossas vidas! Já lhe demos todo dinheiro e nossos bens! Você não acredita em Deus; em Nossa senhora?
 
– Ora, deixe de choradeira! Já vem você com essa tapeação? Contrapôs Sabino, com sorriso amarelo.
 
A estratégia de alguma forma surtiu efeito. O cangaceiro – ignorante, fanático religioso por índole e cultura – temia as coisas do céu. Respeitava os Santos e reverenciava imagens. Teve, decerto, medo de sortilégio que podia advir de atitude tida por “herege”.
Sem mais discussão, largou Childerico (…) (DANTAS, 2005)




livro lampião e rio grande do norte
O livro de Sérgio Dantas.
Lampião estava acampado perto dali, havia combinado com Sabino que, tudo dando certo na fazenda ele enviasse um emissário com a senha “acabado o serviço”. Essa frase, para o chefe pernambucano significava que ele poderia aproximar-se com segurança. Virgolino percorre o a pequena distância entre seu acampamento e a casa, desmonta no terreiro da sala e entra na casa. A partir do momento da sua aproximação, desmonte e caminhada até onde estava o casal, não escutou som de voz alguma. 

Naquele momento, apenas sua presença fazia todos calarem-se. Um dos cangaceiros chega bem perto do sofrido administrado, agachasse e lhe pergunta se sabe quem seria aquele que estava em sua frente. Não entendendo o que o prisioneiro respondeu, pois até para falar doí-lhe tudo, o cabra insiste na pergunta. Depois termina lhe dizendo de que se tratava de Lampião.
 
O cangaceiro mor se aproxima mais ainda do prisioneiro, se abaixa e começa a fazer-lhe várias perguntas. Dentre essas, perguntou se seria parente do prefeito de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes. Acreditamos que nesse momento tanto Childerico Fernandes como dona Felisbela começaram a rezar fervorosamente, encomendando suas almas a Deus, pois ele era parente do Intendente de Mossoró, que organizou a resistência cívica naquela cidade.
 
Na historiografia do “Rei do Cangaço”, vemos fatos, ações e atitudes com tamanha distinção entre eles, que não sabemos do porque, agir daquela forma.


A FOTO DA VOLTA 7
 
Em vez de sacar a pistola e atirar na cabeça de Childerico, ou puxar seu grande punhal da bainha e sangrá-lo, Lampião começa por pedir que armassem redes para que ele, Sabino e o coronel Gurgel se deitassem. Depois começa a conversar, sem ameaças ou violência com o prisioneiro. Pede azeite para lubrificar as armas. Tanto fica dono da situação que o preso lhe oferece refeição de carne de gado. 

Meticuloso, Lampião diz querer comer galinha, as quais estavam no terreiro e todas foram mortas, a tiros, pelos cangaceiros. A comida é preparada e todos se empanturram de galinha cozinhada. Conversa vem, conversa vai, de súbito, Lampião ergue-se e ordena que a cabroeira monte que iam partir imediatamente. A coisa seria cômica, se não fosse tão trágica, pois, ao despedirem-se do casal prisioneiro, vão apertar-lhes as mãos e desejam-lhe felicidades.
 
Incrível essa maneira de mudar suas ações. Em repentino momento, muda da água para o vinho. Todos montados, apertam as pernas e aos sentirem as pontas pontiagudas das rosetas das esporas, os animais começam a caminhar para a terra dominada por Padre Cícero.
 
“(…) Os homens equiparam-se, apressados. Dirigiram palavras amáveis a Childerico e esposa. Apertaram-lhes as mãos. Ensaiaram, brevemente, atos de civilidade.
 
– Vamos embora! – insistia o líder supremo, algo nervoso.
 
A malta partia, satisfeita com refeição e sesta.
 
Em menos de hora cruzaram a fronteira cearense. Lampião alertou os carbonários. Deixou claro que a partir dali o comportamento deveria ser outro. Estavam nos domínios do Padre Cícero Rumão. Repetia e advertência:
 
– Aqui já é Ceará! Pra diante ninguém rouba mais, pois o Governo daqui não bole com a gente! (…) (LUCETTI e LUCENA, 1995,p. 210)
 
NO CEARÁ
 
Já em terras do Ceará, o cidadão Manoel Freire é libertado já em terras da fazenda Lagoa do Rocha, após de determinado portador ter entregue a Lampião a quantia por ele estipulada para o resgate. O proprietário dessa fazenda, Lagoa do Rocha, o senhor Anísio Batista dos Santos é informado de que um bando de cangaceiros seguia rumando à cidade de Limoeiro do Norte, o que teria de passar por a casa sede da mesma, ou bem próximo a ela, já que ficava um pouco ‘recuada’, dentro da mata. Resolveu ir até as autoridades e deixa-las ciente do que estava acontecendo em suas terras, à presença de Lampião e seus homens. Antes de partir, recomenda para seus familiares que não acendessem candeeiros ou lamparinas para não trair, mostrar, onde estavam com a claridade.



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Vista da região cearense por onde seguiu o bando de Lampião.
Foto – Rostand Medeiros
Quando a noite encobre aquela região com seu negro manto, Anísio parte para cumprir sua missão. Mais tarde, já alta noite, as pessoas que estavam dentro da casa escutam um grande tropel de animais no terreiro da casa. De repente, alguém bate a porta…
“(…) La fora, bateu-se vigorosamente à porta:
– Pode abrir sem medo! É de paz!
– E quem é?? – quis saber a mulher.
– Capitão Virgolino Ferreira! A senhora está garantida! Quero só um lugar para passar a noite! (…)(DANTAS, 2005)
 
Como comentado anteriormente, quando estudarmos a história do cangaceiro Virgolino, notamos altos e baixos, constantes, em suas ações. A senhora abriu a porta e deixou que a cabroeira entrasse. Lampião foi totalmente educado, assim como seus homens ficaram todos comportados. Após todos comerem o “Rei do Cangaço” solicita a dona da casa que arme três redes para eles. Lampião, mesmo cansado, ainda saiu ao terreiro e foi rezar. Mais tarde o dono retorna da sua viagem, conversa com Lampião e esse pergunta se ele viu soldados perto daquelas paragens ou no caminho de Limoeiro até ali. Recebe resposta negativa do senhor Anísio, no entanto, ordena que se façam vigias, guardas, nas estradas para evitar surpresas.
 
Já era madrugada do dia 15 de junho de 1927, dois dias iam ser completados desde a derrota em Mossoró. Antes da aurora, todos fazem o desjejum e, tomando o senhor Anísio como guia e seguem ao encontro do seu destino. Lá pelas dez horas do dia chegam à fazenda Cacimba da Vaca, onde suas terras iam terminar nos arredores de Limoeiro do Norte. Ordenando que todos desmontassem, chama o novo guia Anísio Batista e, lhe entregando certa quantia, o envia a Limoeiro para fazer compras. Manda também que ele dê uma sondada vendo se havia policiais, os macacos, na cidadela. Além de lhe mandar procurar algum familiar do coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns.




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Catedral da Imaculada Conceição, Limoeiro do Norte, Ceará 
– Foto – Rostand Medeiros.
O senhor Anísio, ao relatar que Lampião e seu bando estavam às portas da cidade, causa certo pavor na população. É realizada reunião urgente com as autoridades que se encontravam na cidade que, descartam de imediato formarem um grupo de resistência pois não havia armas nem munição, tão pouco gente suficiente e disposta. Nessa reunião ficou acordado que convidariam o “Rei do Cangaço” e seus cangaceiros para vir conhecer Limoeiro…
 
“(…) Ao fim das deliberações, encontrou-se solução bisonha, porém de inegável prudência: resolveu-se convidar o célebre prover do cangaço e seus sequazes para conhecerem a cidade (…). Fizeram saber ao guia o resultado dp debate de há pouco. Pediram-lhe que fosse ao encontro do cangaceiro e o informasse sobre as condições de uma possível visita à urbe:
 
– Diga a Lampião que pode entrar sem receio! O único soldado que havia nós mandamos embora! Pedimos, entretanto, que ele não faça nenhum mal a cidade! (…).” ((DANTAS, 2005)


Imagem do bando em Limoeiro
 Acervo Lampião Aceso
Lampião vai ser recebido pelo juiz de paz mais outra autoridades no caminho e na entrada da cidade. Bem recebido visita lugares. Os feridos são “remendados” e medicados. O chefe cangaceiro vai ao telégrafo  e etc..
 
Posam para fotos. Os homens se alimentam e fazem compras, pagando em dinheiro e recusando o troco e assim se passa o dia. Custódio Saraiva, juiz de paz e vice, ou subprefeito, de Limoeiro do Norte, o homem que recebeu Lampião, a noite, recebe um telegrama onde dizia que tropas volantes haviam partido das Russas em direção a sua cidade, assim como dois caminhões lotados de soldados também estavam no mesmo rumo. Temendo uma bagaceira pelas ruas de Limoeiro, Custódio conversa com Virgolino sobre ele deixar a cidade antes da chegada dos militares, para assim evitarem derramamento de sangue, o que é aceito pelo cangaceiro chefe.


 
Lampião pega seu apito e faz ouvir o seu silvo e todos já sabem o que fazer. Aprontam-se, montam e o pernambucano de Vila Bela agradece a acolhida e se despede de todos, tendo o Sr. Anísio como guia, as 11 da noite daquele dia partem rumo ao desconhecido…
 
O APOIO DOS GUIAS
 
Por já ser altas horas da noite, a caminhada é curta. Depois de mais ou menos caminharem 12 quilômetros, param para descasarem e dormirem um pouco. Já estavam nas terras do senhor José Tertuliano de Souza Vidal e nela acampam no ponto denominado Serrote dos Morros. Por ser noite de lua os cangaceiros notam silhuetas se movimentando próximo do morro. Lampião ordena que alguns cangaceiros façam as devidas investigações. Tratava-se de um idoso, o proprietário que estava procurando um local para esconder alguns animais, justamente para escaparem dos cangaceiros.
 
Além de pedir para ficar com os cavalos, trocando por aqueles que estavam cansados, Lampião “convoca” o velho para que sirva de guia, pois não conhecia o lugar. O velho dá sua palavra de que viria pelo amanhecer e o levaria. Pela manhã chega ao acampamento o velho Tertuliano acompanhado de um jovem, seu sobrinho Francisco Vidal. Chico Vidal veio para que se Lampião concordasse, servir de guia no lugar de seu tio, já idoso e cansado. Lampião aceita de bom grado. Com esse novo guia Virgolino libera Anísio Batista. Dá seus agradecimentos e lhe diz que se algum dia precisar dele, seja para o que fosse, era só mandar chamá-lo.



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Serrote à margem do rio, Morros, Limoeiro do Norte.
Fonte – http://mapio.net/pic/p-45191421/
“(…) Lampião mandou chamar Anísio Batista. Explicou-lhe que a partir daquele ponto não iria mais precisar de seus préstimos. Agradeceu ao guia a atenção e esmero. Por fim, deu-lhe autorização para retornar à sua casa. Acrescentou que, àquela altura, sua família deveria estar aflita. Por fim, deu-lhe algum dinheiro e – como prova maior de gratidão – anunciou-lhe bizarra recompensa:  
– Quando precisar de mim é só mandar me chamar! Seja o que for! (…).” ((DANTAS, 2005)
O senhor Anísio é dispensado para retornar a sua moradia e o velho Tertuliano também. Francisco Vidal começa a guiar o bando por terras desconhecidas ao chefe, dando sequência a grande volta até as terras do Pajeú das Flores, no sertão pernambucano.



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Cordel de autoria do poeta Antonio Pádua Borges de Queiróz, 
contando a passagem de lampião e seus homens em Tabuleiro de Areira, 
atual município cearense de Tabuleiro do Norte – 
Fonte – http://paduadequeirozcordelearte.blogspot.com.br
O sol já estava alto, quando a turba chega ao povoado por nome de Tabuleiro de Areia, hoje município de Tabuleiro do Norte. Nele os cabras de Lampião fazem compras. Numa grande feira, feita na bodega do senhor Antônio Alves Maia, eles colocam, além dos alimentos, “espelhos, lençóis de chita, meias de seda e duas dúzias de cerveja”, chegando ao total, toda a feira, de seiscentos mil réis. Após pagarem as despesas, Lampião monta em seu animal, seguido pelos demais, e despedem-se do dono da venda, reiniciando sua caminhada…  
Duas horas depois, estavam todos descansando nos tabuleiros do sítio Armador. Lampião escolheu aquelas terras por serem altas e descampadas, assim teriam uma grande vista ao redor, além de ter água para reabastecerem suas reservas. Virgolino tinha conhecimento de que volantes paraibanas e cearenses estavam em seu encalce, porém, demonstrava confiança.
 
Depois de cinco horas de descanso, lá pelas três horas da tarde, Lampião dispensa os serviços de Francisco Vidal, lhe agradece e diz que só o estava soltando devido a serem homens honrados e sem mentiras.
 
“(…) Na porteira da propriedade Lampião dispensou Francisco Vidal:
 
– Você só volta porque seu tio não mentiu! Vocês são homens de palavra! (…).” ((DANTAS, 2005)
 
Daí por diante, duas horas de caminhada depois, chegam às terras da fazenda Araras. Num movimento de guerrilha Lampião dividiu parte do bando em três grupos.




Massilon
O cangaceiro Massilon.
Fonte – http://lentescangaceiras.blogspot.com.br
Chefia uma parte, Sabino e Massilon os outros dois. Atacam e dominam rapidamente o dono das terras João Roque Macedo. Após está diante do cangaceiro mor, este diz ao senhor João, seu genro Sinésio Magalhães e o vaqueiro José Pedro, que necessita dos seus serviços para que levassem uma carta ao Delegado da Vila de Pereiro, Hidelbrando Mourão, “solicitando” determinada quantia. 
O primeiro e o segundo encarregaram-se dos bilhetes, já o vaqueiro tem outra obrigação, servir de guia. Além da missiva de Lampião, o coronel Antônio Gurgel pede aos emissários para que entregassem uma dele aos amigos em Pereiro, Décio e Artur Holanda. Nela, Gurgel referia querer saber como estavam as coisas sobre a grana do seu resgate, assim como solicita o apoio e a colaboração dos mesmos.
 
Emissários a caminho de Pereiro, o chefe Virgolino ordena então que sigam todos para outro local, por dentro da chamada “Mata Branca”, tentando esconder seus rastros. Após algumas horas de caminhada dentro da caatinga, ao chegarem à beira de um grotão, ordena que se faça no mesmo, onde suas barreiras serviam de anteparo para proteção. Tudo em total silêncio.
 
A noite do dia 16 passa sem complicações. Na madrugada do dia 17, logo cedinho, o cantar do galo já encontra a caterva de caminho afora. Naquelas paragens, sem nem sonharem com tanto cangaceiro por perto, os sertanejos levavam suas vidas como dantes, empenhados na labuta de seu dia-a-dia. Vez por outra um dava de cara com o bando. Já pensaram?
 
A pessoa vai de caminho a fora e dar de cara com Lampião e seu bando? Não era moleza não. Ao encontrarem esses roceiros, eles os abordavam e Virgolino fazia uma série de perguntas, dentre elas a principal: se tinham avistado soldados por perto. Todos respondiam que sim, que tinham visto muitos soldados pela vizinhança…
 
“(…) Pelo rumo das conversas, a certeza insofismável da presença de militares na região:
– Tem polícia por aí que faz medo! – era a resposta que brotava em uníssono da boca dos sertanejos (…).” ((DANTAS, 2005)




Padrão típico de uma volante policial nordestina nos tempos do cangaço, 
que sob o aspecto da vestimenta e acessórios, possuía muita similaridade 
com as roupas dos cangaceiros – 
Fonte Lampião Aceso
Em conversa, por certo, com o vaqueiro José Pedro, Lampião pede que esse o coloque em local que dê condições de enfrentarem qualquer ataque. Chegam e acampam nas terras do sítio Saco do Garcia. Escolhem um serrote com pedras e grotões, além de ter água em poços e “pias” de rocha, local ideal para acamparem. Lampião abate, a tiros, uma rês que pastava por perto. Os cangaceiros a sangram e tiram-lhe a pele, o couro, e fazem, preparam, a carne: salgam e a colocam no sol para desidratar e poderem colocar nos bornais para os dias vindouros. Ficou decidido que ali, naquele local, pela natureza das defesas naturais e a quantidade do líquido precioso, ficariam a esperar a resposta do delegado.  DRAMA DO CORONEL GURGEL
 
A maioria dessas informações ficaram registradas para a História através do diário do coronel Antônio Gurgel, que relata o que ocorria no bando, ou com o bando, nos terríveis dias do seu cativeiro.
 
O vaqueiro José Pedro, além de guia do bando, tornasse os “olhos e ouvidos” do “Rei do Cangaço”. Primeiro Lampião o envia a Vila de Alto Santo para averiguar como estava a situação, e se havia movimentação das volantes. Ao retornar, o vaqueiro reporta que havia um contingente com, mais ou menos, 150 homens na Vila. Notícia que coloca a pulga atrás da orelha de Virgolino. Este então manda mais uma vez que o colaborador vá a outras direções, vasculhe como se caça uma rês perdida na mata, por mais informações sobre a movimentação dos militares. 

Lá pela hora da Ave Maria Sertaneja, José Pedro retorna e com notícias negativas. Disse ao “capitão” que uma grande volante paraibana estava em seu encalce. Além de uma pequena tropa, uns vinte soldados, estava batendo em tudo que era lugar em busca de informações sobre ele. Nesse busca, relata o vaqueiro, os militares descem a macaca, roubam e praticam várias atrocidades contra os sertanejos.




3- O fazendeiro Antônio Gurgel e sua família. Ele foi sequestrado pelo bando, quando os cangaceiros segu
O fazendeiro Antônio Gurgel e familiares – 
Fonte – https://tokdehistoria.com.br
“(…) Acrescentou que, pelo caminho, os homens da milícia cometiam os maiores horrores – davam surras, seviciavam, roubavam sitiantes. Ressaltou José Pedro, por fim, que grande contingente paraibano parecia deslocar-se naquela direção. Lampião de imediato pressentiu algum perigo (…).” ((DANTAS, 2005)  
 
Passa-se a noite do dia 17. Já no alvorecer do dia 18, Lampião envia, mais uma vez, o vaqueiro para que desse uma averiguada nas redondezas. O sol já havia pendido para o poente, o calor estava abrasador e nenhuma brisa soprava para diminuir o mormaço.

 
Sínésio Magalhães retorna trazendo junto o vaqueiro Manoel Alves. Esse trazia a quantia estipulada por Lampião pelo resgate do coronel Joaquim Moreira, outro de seus reféns das terras potiguares. Recebida  a grana o coronel Moreira e libertado. O chefe cangaceiro chama Sinésio e lhe pergunta sobre sua missão. Esse reporta que o Delegado Hidelbrando estava ciente e de que responderia dentro do prazo.


A FOTO DA VOLTA 5A
 
Toda vez que ocorria algo assim, ser solto, ou liberado, um companheiro refém, o coronel Antônio Gurgel ficava desesperado. Procurava saber o porquê de não terem mandado o resgate para sua libertação. Já pensaram que agonia passou esse cidadão? Sem mais saber o que fazer, apela para o vaqueiro que trouxera o dinheiro para liberta o coronel Moreira, para que o mesmo levasse uma carta na fazenda Brejo. Manoel Moreira diz que a fazenda fica totalmente ao contrário ao caminho que teria que seguir. O outro vaqueiro, José Pedro, prontifica-se para levar a carta do coronel no dia seguinte. Então o coronel Gurgel escreveu o ‘bilhete’ dessa forma, maneira:

“Muita reserva Tilon:
Venho depositar em tuas mãos minha vida e liberdade.

Quando receber esta, sem perda de um minuto, monta a cavalo e corre até Mossoró para arrumares os 21:000$000 para meu resgate, o que farás com T. Filho e Jayme – Mesmo no caso de andar no mundo a outra remessa, consegue por tudo, meu irmão, a importância que te peço e regressa de automóvel para ganhar algumas horas. É muito importante e recomendo-te sobretudo o maior sigilo sobre essa informação, da qual ninguém por enquanto deverá saber, a não ser Tibúrcio e Jayme. Ouve bem: ninguém mais – além de vocês três, para evitar qualquer intervenção de autoridades, que neste caso só poderá me ser fatal. Quanto a este portador V. o guardará aí s/ qualquer pretexto até sua volta. Confio que terá maior cuidado nesta arrumação para que nada transpire e eu possa me livrar – pois tido agora depende de ti – do cuidado que empregares – sobretudo sigilo. O portador par vir com este poderá ser o velho Gaudêncio, ou se V. aí souber ou tiver um homem mais prático. Pensa bem na minha situação e fazem tudo para conseguir minha liberdade. Ao Guedes que telegrafe a T. Bezerra pedindo meu saldo que apesar de pequeno serve. Age com presteza e que Deus se cpmpadeça de minha sorte.
Teu irmão am°

Antônio Gurgel do Amaral (FERNANDES, 1985,p. 257-258)”
As coisas caminham de uma só maneira no acampamento. A chegada da noite encontra o vaqueiro José transmitindo oralmente mais um relatório para o chefe, e dessa vez ele arrisca aconselhar Lampião. Lampião acata o que Pedro disse e lhe ordena que os guie para outro coito. Pedro os guia, mesmo durante a noite, por mais ou menos seis horas de mata adentro, onde os coloca em outra grota, distante. Ao amanhecer, tudo estava calmo. Porém, os alimentos começavam a acabar. Teriam que encontrar mais… Otílio retorna à tarde com uma boa compra. Por enquanto, estavam abastecidos de alimento.




Vaq (13)
Muitas vezes foram os vaqueiros forçados a serem guias dos cangaceiros.
Fonte – https://wordpress.com
Porém, esse mesmo coiteiro alerta Virgolino que soube que um certo vaqueiro os viu e passou a informação para as autoridades, as quais estavam seguindo para onde estavam. Mais uma vez o acampamento é levantado as presas. Aproveitam a noite para se distanciarem daquela paragem e vão se alojar nas perto da Serra do Palhano. Acampam e passam a noite sem novidades.
 
EMBOSCADA DO SERROTE DA RODA
 
As coisas começavam a piorar: quando tinha alimento, faltava água. Quando faltava os dois, a saída era os cactos. Levantam acampamento novamente e seguem de mata adentro. Acampam, desta vez na Serra da Micaela, onde pelo menos tinha água abundante. À noite dormia-se pouco, qualquer ruído na mata fazia aqueles homens ficarem com os nervos a flor da pele, prontos para guerrearem.
 
Pela manhã Lampião recebe mais informações sobre a movimentação militar. O cerco se fecha e, por mais que tentasse Virgolino não conseguia se afastar o suficiente dos perseguidores. A coisa estava se complicando. Dessa vez Lampião modifica a maneira de locomoverem-se. Ele divide o bando em pequenos grupos para assim se movimentam mais rápido e, se fossem atacados, os outros saberiam a tempo, eliminado uma grande emboscada por parte dos militares.




9-Jornal A Imprensa, de Natal, cujo o diretor era Câmara Cascudo
Os jornais, na medida do possível, acompanhavam a perseguição a Lampião 
– Coleção Rostand Medeiros.
O “Rei dos Cangaceiros” mais uma vez acertou em cheio. Bem próximo a eles estavam duas volantes, uma cearense e outra da Paraíba, comandadas por seus respectivos tenentes. “(…)Ali bem perto, conglomerado de volantes, chefiadas pelos tenentes Luís Davi e João costa, das polícias cearense e paraibana, respectivamente, seguiam o rastro da chusma (…).” (Ob. Ct.) O tenente Luís Davi escolhe o Serrote da Roda como local para arma uma “arapuca” para os cangaceiros. A geografia do serrote dava condições favoráveis para uma embosca ser bem sucedida. 

Se os cangaceiros, acostumados a situações deveras adversas estavam nervosos, os soldados estavam em pior situação. Mesmo estando entrincheirados, protegidos, não permaneciam quietos e a todo instante alguém mudava de lugar, ou dava uma espiada para ver se via alguma coisa. Todos os soldados já tinham escutado de como os cangaceiros lutavam, com acréscimos, provavelmente, e isso os deixavam mais nervosos ainda quando, de repente, avistam chapéus de couro de abas largas e quebradas para trás se aproximando do local em que estavam…
 
Preparados para a emboscada no Serrote da Roda, os soldados comandados pelo tenente Pereira já estavam comprimindo os gatilhos das armas, fazendo mira nos cangaceiros que se aproximavam. O tenente dá a ordem de abrir fogo. O tempo se fecha naquelas terras assoladas pelo sol abrasador de uma tarde do mês de junho. Os homens de Lampião vinham cansados, porém, eram feitos no traquejo do combate. Quase no mesmo instante em que a saraivada de balas partia da encosta do serrote, os cangaceiros, na planície, pulam, jogam-se de lado, para trás e começam a responder ao fogo.




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Lampião no Ceará era notícia nacional  
– Fonte – http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-caminho-de-juazeiro-cidade-santa.html
Os homens que seguiam Lampião eram forjados na fome, na miséria do sertão nordestino onde, naquela época, a Lei era sempre protetora do mais forte, daqueles que podiam, tinham poder, nada comparado a eles, além das intempéries naturais em que os faziam beber líquido de cactos e comer alimentos que embrulhariam o estômago de qualquer outra pessoa. Cansaram de ver a morte de frente, mesmo sem ser em combate, e não seria naquela hora que não a enfrentaria com coragem.  
Nossos estudos sobre o “Rei do Cangaço” não se iniciaram tentando desvendar se esse chefe cangaceiro seria herói ou bandido, mas, com a ideia de compreender o emprego de táticas de guerra e de seus movimentos em meio a nossa natureza rude, improvisadas dependendo da situação, do tempo, do terreno e outras condicionantes. Aqueles que seguiam Virgolino aprenderam a lhe obedecer cegamente, bastava ele dizer o que queria para que fosse cumprido rapidamente a sua vontade. 

Em meio ao som dos disparos, Lampião começa a gritar dando ordens dizendo como deveriam agir… E os homens obedeciam como se fossem automáticos impulsionados por um botão.



2-O bando de Lampião
O bando de Lampião anos depois do ataque a Mossoró e os combates no Ceará.
Fonte – tokdehistoria.com.br
“(…) Homens que lhe obedeciam cegamente. Se submetiam, tal qual vassalos, à incomparável inteligência de um rei sem coroa. Conheciam com profundeza a astúcia e destreza da exponencial figura do cangaço. A liderança de lampião era sem dúvida algo inacreditável. E mais uma vez – à sombra do Serrote da Roda – provou a rara ascendência que detinha sobre a cabroeira.  Rápido, em simultâneo aos primeiros tiros da volante, ditou comando aos comparsas. Ao som de única palavra, os bandoleiros saltaram dos cavalos e buscaram refúgio nas pedras do terreno(…) 

Seguiram as ordens de Lampião como soldados treinados(…) Em segundos, já respondiam aos tiros dos militares, em cadência notável superior (…).” (“Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005)
 
A papoqueira de balas se alastra levando seu som amedrontador de sertão afora. Os animais, antes utilizados pelos cangaceiros, saem em disparadas que nem bala conseguiu alcança-los. Feitos no combate, muitos dos homens de Virgolino rolavam de lado para outro, atirando e provocando seus adversários com pretensão desses se mostrarem para tornar-se um alvo fácil. A posição em que se encontravam os homens do tenente Pereira era privilegiada. Atiravam de cima para baixo. 

No entanto, sob o comando de Lampião, os cangaceiros conseguem, no momento do “pega-pra-capar”’, do “vamos-ver”, retirar essa vantagem. Quando as coisas estavam, mais ou menos nesse patamar, 

Surge uma fuzilaria parte na retaguarda da posição de combate dos bandoleiros. Era os homens comandados pelo sargento Eurico Rocha, da “Briosa” cearense que vinham em socorro dos seus companheiros. Com isso a coisa muda de figura e os bandoleiros sentem nitidamente, na pele, esse novo fogo adversário. O cerco aperta mais e mais. A coisa “nublou-se” pras bandas da cabroeira…







Lampião
Fonte –Acervo Lampião Aceso
Mas, como se viu em vários e vários combates entre seres humanos, é justamente nessas horas difíceis que emerge a capacidade, o dom de um líder.  
 
Lampião vendo a coisa preta para seu lado e o de seus “meninos”, erguesse e, de arma nas mãos, atirando ligeiro com um raio, começa a esbravejar palavras de coragem para seus comandados, e, como num passe de mágica, consegue abrir uma brecha no “paredão” feito pelos soldados, por onde seus homens começam a deixar a “arapuca”. Contornam o serrote em seguida procuram embrenha-se na “Mata Branca”, na vegetação de caatinga, sua leal acolhedora em momentos como aquele.

 
ESPERANDO A FORÇA PARA BRIGAR
 
Aquela emboscada causou uma tremenda queda, no já caído, ânimo da cabroeira. Apesar de ter durado, mais ou menos uma três horas, os prejuízos para Lampião foram enormes. Com o barulho dos disparos os animais somem sem ninguém saber para onde e nem a distância que alcançaram os animais levaram em seus alforjes, coxins e coronas, alimentos, água, joias, dinheiro, armas e a “farda de major” que era de Sabino, o qual a tinha pego em uma residência na capital do oeste potiguar e tinha utilizado quando do ataque de 13 de junho em Mossoró. Além desse prejuízo um de seus homens, o cangaceiro Moreno, foi ferido em um dos braços. O projétil ao entrar em choque com o corpo do cangaceiro abre uma ferida de enorme tamanho, levando consigo parte do tecido mole, deixando a mostra parte do osso. Isso deixa seus líderes preocupados, pois se gangrenasse, teriam que sacrificar o companheiro.
 
As coisas iam de mal a pior para os bandoleiros. Estavam dentro da caatinga sem comida e água. Tinham que percorrer léguas, não sabiam como nem à distância exata que teriam que andar. Pois bem, daquele momento em diante, a cabroeira partiu sem rumo certo, tomando cuidados redobrados para que outro confronto não acontecesse, pois seria o fim de muitos deles que estavam a pé. Aquela viagem de volta pela caatinga estava colocando a prova todos os conhecimentos do líder do Pajeú das Flores, adquiridos desde os anos em que trabalhou como almocreve e vaqueiro. Aguçando seus sentidos, raciocinando com frieza, apesar dos problemas, Lampião prevê que seus adversários, as volantes, no intuito de lhe cortarem caminho, partiriam direto para a região do Cariri cearense, localizada no sul do Estado.


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Refazendo-se da agonia Lampião muda seus planos de imediato e segue, tomando todas as precauções e utilizando de despistes, como andar em sentido diferente na direção do município do Riacho do Sangue. Após algumas horas de caminhada ordena que se faça uma parada para descansarem.
 
Antes do raiar do dia 22 de junho, já estão de novo a caminhar numa busca desesperada por água. A situação se complica, ainda mais, depois que entram no leito de um riacho e esse estava mais seco do que suas gargantas. Autoriza uma parada e manda que alguém vasculhe as redondezas em busca de alguma coisa para comerem. Um dos cabras retorna trazendo a notícia de que havia uma casa e próximo a ela um riacho onde tinha uma cacimba com água. Dando-lhe dinheiro o chefe ordena que vá até a tapera, bata a porta e compre os queijos e rapaduras que lá tivesse. O homem vai e retorna com tudo que pode comprar, porém, para tanta gente, só deu uma refeição. Passaram o resto do dia e a noite naquele recanto de terra cearense.
 
Ao amanhecer do dia 23, dez dias após o ataque a Mossoró, partem sem saberem o que encontrariam pelo caminho, apenas de uma coisa tinham certeza, que a morte os rondava por perto. Na mata, a frente do grupo, escutam ruídos de cascos de um animal. Parando a cabroeira, Lampião começa a prestar atenção de onde vinha e se seria uma rês solta, o que significava alimento, ou se seria outro animal. De repente notam que se tratava de um homem encourado, um vaqueiro, que matinha a cabeça baixa ao andar da montaria, na certeza estava rastreando os rastros de uma rês desgarrada. O homem só vem perceber os cangaceiros bem perto, ao avistá-los, tenta virar o animal e dar o fora, no que é advertido pelos bandoleiros de que se assim fizesse morreria. Então o vaqueiro puxa as rédeas do animal que estanca.


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Sabino das Abóboras chegou rapidamente junto ao animal e manda que o homem desmonte. Nele foi colocado o cangaceiro ferido que não sabe-se como suportara tanta dor, pois seu membro superior já cheira mal, havia gangrenado.
 
Notamos a seguir a diferença de um líder que pensa e outro que só tinha em mente matar. O cangaceiro Sabino quer porque quer matar o pobre vaqueiro, dizendo que se ele vivo ficasse entregaria a polícia, a situação e posição deles. Lampião pensou mais além, sabia que necessitava de alguém que conhecesse as redondezas, então não autoriza a morte do homem.
 
“(…) O covarde suplício foi refutado por Lampião, justificando ao comparsa a extrema necessidade de um guia. Vagavam por região desconhecida.
       
Sabino não mais criou caso.
       
O matuto não coube em si de contentamento. Prostou-se de joelhos aos pés de Lampião:
– Obrigado “coroné”! Eu levo vocês até um esconderijo que conheço! Pode confiar na minha palavra! (…).” (DANTAS, 2005)
 
O novo guia os leva, agora numa marcha mais rápida, há um local com segurança. Dali, Massilon pega o vaqueiro e ordena que ele o leve a algum lugar para conseguir comida. Retornam ao anoitece com alguns punhados de farinha, queijos e um peru, coisa mínima para tanta gente esfomeada.



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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br
No coito, ou esconderijo, improvisado Virgolino começa a pensar nas volantes paraibanas, repletas de homens corajosos, astutos, corajosos e que “não abriam nem para um trem” e se questiona onde eles estariam? Com certeza em sua busca. Parece que estava adivinhando. Os cangaceiros estavam próximos do local onde se encontrava uma volante comandada pelo Oficial Germano Sólon de França, que tinha sob seu comando não paraibanos, mas uma Força cearense, que vinha escavacando tudo quanto era grotão, furnas, grutas, serras e serrotes, em todas as propriedades rurais, na busca de algum vestígio deixado pelos cangaceiros.  Sabino chama dois dos homens e sai à procura de mais alimentos. Encontra-se com um agricultor e fazem negócio em duas criações que serviriam de alimento para o bando. Preço acertado, Sabino puxa do dinheiro para pagar, quando, naquele momento nota a aproximação de soldados. 

Imediatamente caem fora, embrenham-se na mata e fogem. O dono das criações não consegue evadir-se, também não tinha por que, deve ter pensado. No entanto é preso e sumariamente torturado quando lhes conta o que estava fazendo. É tido como acoitador, colaborador, fica detido e preso.
 
“(…) Jeremias foi aprisionado. Não teve tempo de escapar. Sobre seus ombros pesou suspeita de ser coiteiro. De pronto passou por torturas e muito em breve pôs tudo a descoberto. Informou à polícia que Lampião estava próximo, acampado a mais ou menos três quilômetros, no sopé da Serra da Macambira (…).” ((DANTAS, 2005)







Lampião em 1936/37
Fonte – Acervo Lampião Aceso
Ao retornar para o acampamento Sabino reporta ao chefe tudo que havia se passado. Essas notícias só vieram confirmar as suspeitas de Lampião, principalmente quando é sabedor de uma grande volante circulava em seu encalço naquela zona. Lampião envia alguns homens, disfarçados, para sondarem se alguma volante estava seguindo para onde estavam. Cai à noite e Sabino chama seu chefe para darem no pé. Virgolino não aceita e diz que esperará aquela volante para dar uma brigada com ela. “- O filho do velho disse que tinha uma força grande por aí! Acho que a gente deveria fugir!” (diz o cabra das Abóboras)  

“- Não! Eu vou esperar essa força! Estou com disposição prá brigar! – reagiu Lampião. (DANTAS, pgs. 302 -303)
 
Sem darem um minuto de descanso aos cangaceiros, várias volantes, paraibanas e cearenses os perseguem dia e noite. Avançando durante a noite, já na madrugada do dia 25 de junho, um imenso cerco é formado em torno do acampamento onde se encontrava Lampião e seus homens. Aos poucos os volantes vão diminuindo o raio do perímetro, e o confronte teria início a qualquer momento.


A FOTO DA VOLTA 7B
 
O lugar tenente de Lampião vai até onde estão os reféns Antônio Gurgel e dona Maria José, relata o que está para acontecer e os leva até uma grota funda que ficava perto e os deixam neste local onde estariam protegidos dos tiros. Junto aos reféns também fora deixado o cangaceiro Moreno que estava ferido. Os reféns sempre estiveram o tempo todo sob a guarda do cangaceiro Félix da Mata Redonda, cabra sério e que os demais o respeitavam, porém, dessa vez, ficaram dois a guardá-los.
 
Em volta de onde estavam os cangaceiros, a coisa estava fervilhando de soldados. Segundo historiadores, seria um contingente, aproximado, de 400 homens doidinhos para matarem cangaceiros.
 
“(…) Ali bem perto, tropas militares posicionam-se. O comando da operação fora confiado ao tenente cearense Manoel Firmo. Ao seu lado, alentado efetivo, com aproximadamente quatrocentos homens. Acompanhavam o Oficial-em-comando os tenentes cearenses José Bezerra, Osimo de Alencar Lima, Luiz Davi de Souza, Veríssimo Alves Gondim, Antônio Pereira, Germano Solon de França, além do tenente João da Costa e Silva, da polícia paraibana (FIGUEIREDO,s.d.)(…).”
 
Diferentemente de quando fora emboscado, no serrote da Roda, Lampião era quem estava numa posição favorável. Quando o dia clareia Virgolino observa o movimento tomado pela tropa. Em seguida passa as ordens para os seus homens se posicionarem em determinados lugares. As estratégias empregadas por Lampião, sempre foram fatos de admiração até mesmo entre seus maiores inimigos.



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Davi Jurubeba 
– Fonte – http://blogdodrlima.blogspot.com.br
O nazareno Davi Jurubeba, policial e ferrenho inimigo dos irmãos Ferreira, citou sobre as artimanhas de Lampião em combate e afirmou que ele sempre levou vantagem. Já o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, que entrevistou Davi Jurubeba, trouxe em sua obra os seguintes apontamentos deste inimigo de Lampião:
 
“Lampião era de uma sagacidade sem nome. Era muito difícil pegar Lampião; ele não caía em emboscadas. Ele vinha de lá e de lá alguém nos avisava. Ficava um bocado esperando ele aqui. Grupos de quatro ou cinco volantes emboscados. Ele vinha, vinha, quando chegava a um ou dois quilômetros da emboscada, ele entrava pelo mato e desaparecia. Isso eu mesmo vi, não foi ouvindo contar não. Eu mesmo vendo. Não! Não sei o que é que ele era não. Não sei se era o Cão. Devia ser Satanás”.
 
O fogo rompe no Riacho da Fortuna. Cangaceiros colocados em lugares estratégicos “balançam suas armas”, atiram, em respostas aos tiros disparados pela tropa que cercara o local. O tiroteio primeiro dura por volta de hora e meia. Entre disparos e fumaça, escutava-se o vozerio daqueles que se digladiavam, cada um a sua maneira de provocar seu adversário. Xingamentos, palavrões e toadas cantadas no calor da luta…
 
Após o primeiro tiroteio, ao receberem um sinal do chefe, os cangaceiros param de atirar e ficam imóveis em seus lugares. Calados, sem moverem um músculo do corpo, permaneceram os cabras de Lampião. A tropa, talvez achando que seus adversários deram as costas, começam a sair de seus abrigos e avançarem na direção em que estavam posicionados os cangaceiros. 

Movimento errado e precipitado. Há um novo sinal do “Rei do Cangaço”, todos de balas nas agulhas das armas, os cangaceiros saem dos abrigos e abrem fogo contra a tropa exposta. Ao escutarem o silvo dos projéteis bem perto de suas cabeças, os soldados partem para bem distante, em busca de salvarem suas vidas adentram a mata ao contrário onde se realiza o confronto. Salta pra lá, corre pra cá, arrasta-se pra li e toda a organização da tropa se desfaz.



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O diário do coronel Gurgel foi uma grande fonte de informações 
sobre a ação dos cangaceiros antes e depois do ataque a Mossoró em 1927.
“(…) A debandada seguiu-se em desordem, aflita. Cada soldado tentava fugir  da melhor forma possível. Rastejaram, saltaram embrenharam-se no tabuleiro. À esmo, respondiam aos tiros da falange criminosa (…).”  ((DANTAS, 2005)  Aproveitando esse instante de desordem das volantes, Lampião dá outro sinal e todos partem seguindo o leito seco do riacho. Correm até perderem suas forças. Da parte dos cangaceiros, nesse confronto não ocorreu baixas, já do lado militar, a coisa foi terrível:
 
“Tombaram no teatro da luta os Cabos de Esquadra Raimundo José Augusto, Manoel da Silva Brito, José Felix do Monte e o soldado Aprígio José da Silva. Feridos com gravidade os praças Emídio José de Oliveira, Raimundo Rocha e José Casimiro.” (FIGUEIREDO, s.d.)
 
LIBERTAÇÃO DOS PRINCIPAIS REFÉNS E PERSEGUIÇÃO FEROZ
 
Descansando o suficiente, os cangaceiros empregam nova caminhada, saindo do leito do riacho, apagando seus sinais e começando a ação de despistar na caatinga. Lampião e seus companheiros sabiam que se topasse com outra tropa, e mais um confronto ocorresse, não haveria balas suficientes para tal. A preocupação aumenta entre o “estado-maior” de Lampião. O cangaceiro mor relata para os seus lugares-tenentes que chegara a hora de libertar os reféns. Durante o último confronto, Virgolino escutara por diversas vezes os soldados gritarem para que libertassem os reféns. Deixou eles cientes de que, libertando os reféns, a perseguição diminuiria e eles conseguiriam voltar para sua terra. Sabino foi o interlocutor para dar a notícia aos reféns, coronel Antônio Gurgel e dona Maria José, de que eles seriam libertados.




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Dona Maria José Lopes 
Fonte – Blog do Mendes & Mendes
Lampião ao despedir-se deles manda que uma das cativas, Dona Maria José Lopes, levada da fazenda Aroeira (hoje na zona rural da cidade de Paraná-RN) que tome bastante cuidado, pois estavam com volantes nas proximidades e estas poderiam, por engano, atirar neles. O coronel Gurgel chega-se pra perto de Lampião e estende-lhe a mão. Antes de partir, recebe do “Rei do Cangaço“ duas moeda de ouro, duas libras esterlinas, deixando o coronel surpreso e boquiaberto com aquela atitude. “Ao sair, recebeu duas moedas de ouro. Não conseguindo esconder a surpresa. Lampião justificou o ato:  
– É para sua netinha!” (FERNANDES, 1985, p. 189) – Sobre o caso destas moedas ver – https://tokdehistoria.com.br/2017/06/23/o-ouro-dos-cangaceiros-para-yolanda/
 
O dia seguinte, 26 de junho, foi cheio de espectros que surgiam em cada moita, levantavam-se de trás de cada pedra… E sempre partiam ao encontro daquela horda faminta, cansada e sedenta. À noite era pior, pois não conseguiram pregar o olho.
 
A caminhada era incessante. Não poderiam parar para nada. Desciam serra, subiam morros, atravessavam baixos e prosseguiam numa louca tentativa de salvarem suas vidas. Já iam longe, na segunda metade do dia 27 de junho, no lugar chamado Cabeça do Boi, quando são atacados por uma Força paraibana. Lampião e seus “meninos” rompem mais esse ataque e embrenham-se na sua aliada natural, a caatinga. Dessa feita não há baixas em nenhum dos lados. Porém os nervos dos cangaceiros estavam, cada vez mais, em total frangalho.




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Clementino José Furtado, o Clementino Quelé 
Fonte – https://tokdehistoria.com.br
No dia 29, após longa e sofrida volta ao rumo do Cariri cearense, os cangaceiros, sem notarem, estavam às voltas com os homens do antigo cangaceiro e companheiro de lutas Clementino José Furtado, o sargento Quelé, o conhecido “Tamanduá Vermelho”, agora comandante de uma volante paraibana e verdadeiro osso duro de roer.  Estavam eles, os cangaceiros, naquele momento sob os olhares dos homens da volante paraibana comandada pelo tenente Manuel Arruda Diniz. Diniz, segundo pesquisadores, não ordena que seus homens ataquem, e seria, ou teria sido, uma situação ímpar. O tenente distribuiu seus homens em duas fileiras, deixando um espaço que tinha condições dos cangaceiros passassem mesmo no meio da fila dupla de atiradores. Os cangaceiros passam e os soldados apenas os olham.
 
“(…) A emboscada preparada pelo tenente Manuel Arruda Diniz, da polícia paraibana, foi, entretanto, meramente figurativa.
 
Não houve tiro sequer.
 
O oficial – que no dia anterior (28 de junho) alardeava aos quatro cantos que iria arrasar o grupo – fez proposital vista grossa e os cangaceiros passaram incólumes entre as colunas (…).” (DANTAS, 2005)
 
Assim, volantes paraibanas, cearenses, pernambucanas e norte-rio-grandenses, passam a perseguir o bando de cangaceiros, desanimados, esfomeados e sem munição para enfrentar uma luta aberta contra tantos inimigos em comum.
 
Mas a coisa fica mesmo catastrófica, com a traição daquele a quem o “Rei do Cangaço”, caminha em busca de apoio e guarida, o coronel Izaías Arruda, da Fazenda Ipueiras…
 
A TRAIÇÃO DO CORONEL
 
O cerco ao bando de Lampião, em território cearense, a cada dia se fechava mais. Eles não tinham nem como descansar direito. Forças de três Estados estavam em seus calcanhares e não queriam “largar o osso”, pelo contrário, todos queriam era dar o golpe final. Acabar de uma vez por todas com o famigerado facínora que tanto lhes dava trabalho.
 
Para onde pendesse o bando encontra adversários. Uma grande tropa paraibana, comandada pelo tenente João Costa e pelo sargento Clementino Quelé, cercam o bando, ou o que restava dele na Serra do Velame. Nesse combate o pernambucano perde vários cangaceiros.
 
Procura refúgio e desça a encosta da serra. Ao chegarem próximos as margens do açude Velame, são novamente cercados e atacados pelos paraibanos que haviam dividido seus homens, deixando vários de seus combatentes na retaguarda. Mais vidas são perdidas e as baixas só aumentam. Nesse embate, não sabemos ao certo como, Virgolino consegue furar o cerco e cair fora com o restante de seus cabras. (LIRA, 1990)
 
Os cangaceiros estavam passando por uma prova que homens comuns não aguentariam. Além da perseguição constante das Forças Públicas de alguns dos Estados nordestinos, havia a fome e a sede que tirava os restos das suas resistências. A única coisa que sabemos que fora colaboradora de Lampião e sua turba naqueles dias, naquela volta terrível das terras potiguares, foi a sua aliada, a “mata Branca”. Quem respeita a caatinga e a conhece profundamente, tira proveito disso. Nela encontra-se o alimento e a água para matar a sede através da sua flora e fauna.




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Casa do coronel Izaías Arruda, Missão Velha, Ceará
Fonte – Rostand Medeiros.
A meta de Lampião, naqueles momentos terríveis, era uma só: chegar às terras de seu, até então, amigo coronel Izaías Arruda, na fazenda Ipueiras, sul do Cariri cearense. Na verdade, segundo vários autores, o plano para invadirem a cidade de Mossoró fora elaborado pelo coronel Izaías Arrudas e outros daquele meio, nas próprias terras que agora o “Rei do Cangaço” tentava alcançar em busca de amparo, proteção e com isso salvar sua vida.  
Lampião, diferentemente do que muitos pensam, dependia e muito dos coronéis sertanejos, pois sem a colaboração e o apoio deles seu “reinado sangrento” não teria durado quase vinte anos. Só que a coisa era na base do “toma lá, da cá”. Nem os coronéis faziam algo sem verem o que conseguiriam em troca, nem Lampião fazia algo sem ver o que receberia pelo feito. A “amizade” e a lealdade deles se baseavam unicamente nesse sentido, ou seja, na verdade nem uma parte nem outra tinham confiança mútua.


A FOTO DA VOLTA 2C
 
Além do mais para os coronéis havia as questões políticas e para isso era bom manter amizade e, quando possível, usarem os serviços daqueles que viviam da espingarda na mão. Eles, os “coronéis”, os principais políticos de sua época, fizeram e desfizeram de muita coisa a margem da “Lei”. No entanto a própria “Lei” os protegiam e só condenavam os pobres lascados. Isso é fato!
 
Pois bem, o coronel Izaías Arruda recebe a notícia de que Lampião e seu bando se encontram no município de Missão Velha e ou Aurora. Lampião, com as vestes em frangalhos, assim como as dos seus homens, solicitam acolhida ao chefe político. Izaías envia Lampião e ao bando para as terras fazenda Vivenda, de seu parente e cúmplice José Cardoso. Era para eles ficarem na casa sede, porém, como a coisa estava “quente demais”, Lampião, em cima da hora, já avistando a casa sede, resolveu levar os cangaceiros para a margem de uma vargem e alojam-se debaixo dos pés de oiticica e juazeiro que lá havia. Próximo a eles tinha um grande canavial de um lado e do outro a mata bruta. O coronel Izaías Arruda, vendo a coisa ficando preta pra o lado do seu aliado, resolveu dá um jeito de eliminá-lo.
 
Vemos duas situações nesse gesto do coronel: uma seria que ele, o capitão Lampião, estando morto jamais poderia abrir a boca sobre quem, onde e como fora organizado e planejado o ataque à grande cidade do sertão potiguar. Em segundo Lugar Izaías Arruda não era bem visto pelas autoridades cearenses e paraibanas, devido ter conseguido muito, inclusive ser Prefeito da cidade cearense de Missão Velha, a base das armas. Daí, sendo ele o autor indireto da morte do famigerado cangaceiro pernambucano, a sua situação poderia mudar de figura diante das vistas das autoridades.
 
O vaqueiro Miguel Saraiva é encarregado pelo próprio coronel Izaías para que esse colocasse veneno na comida que levaria para os cangaceiros. Além disso o coronel envia seus jagunços, que não eram poucos, juntos com uma tropa militar para que dessem cabo do bando. Além disso o coronel ordena que se coloque fogo na plantação de cana próxima ao acampamento dos cangaceiros e por último a tropa e os jagunços que faziam o cerco matariam a tiros aqueles que não morressem envenenados ou queimados.




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Local onde aconteceu o incêndio da Ipueiras 
com o serrote dos Cantins ao fundo. 
Foto do competente pesquisador José Cícero, de Aurora, Ceará.
“(…)Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva (da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. 
Neste episódio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Juazeiros. 

Uma decisão providencial e salvadora(…).” (“A Traição de Izaias Arruda” – José Cícero)
“(…) Dr. Izaías Arruda queria mesmo, naquele dia, exterminar o rei do cangaço e o seu já desfalcado bando(…) Além do veneno, o Dr. Izapias armou mais dois tremendos laços para Lampião: um foi em mandar tocar fogo em todo canavial existente no roçado; o último foi em por toda a sua cabroeira no pé da cerca, para que, quem escapasse do veneno e do fogo, não escapasse das balas de sua gente (…).” (“Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”- LIRA. João Gomes. 1ª edição. Recife,1990)
 
Alguns cangaceiros na verdade, ao comerem a comida envenenada, não morrem, apesar de passarem bastante mal. Aí surgiu o fogaréu na plantação. Não se sabe, mais uma vez, como danado foi que veio a ideia para que Lampião saísse do veneno e do fogo que consumia rapidamente a palha seca do canavial. Foi um momento, talvez raro, em que Lampião não estava prevenido, pois tinha o coronel Arruda como amigo e aliado, nunca esperava uma traição daquele tamanho. Mas ele consegue escapar!




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O major Moisés de Figueiredo, da polícia cearense, foi um dos que tiveram 
de se explicar sobre o fato de Lampião conseguir sair do Ceará.
Coleção Rostand Medeiros
Lampião fora um bandoleiro das caatingas sertanejas que agiu em sete dos nove Estados da Região Nordeste, mas quando dava sua palavra ele a cumpria. No entanto, por achar que os outros também agiriam assim, perdeu a vida e a cabeça num leito de um riacho seco em terras sergipanas na segunda metade da década de 1930.  
Aos trancos e barrancos, o “Rei Vesgo” consegue transpor os limites da linha divisória dos Estados do Ceará e de Pernambuco, ainda comandando um bando, bastante pequeno em relação ao que fora, não só pelas baixas, mas também pela separação dos homens do bando de Massilon Leite e deserções.
 
FIM DE UMA JORNADA E INÍCIO DE OUTRA




Serra Uman
Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã. Era irmão do cangaceiro Azulão, morto no Combate da Caiçara, em 10 de junho de 1927, próximo do atual município de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte. Foto do mesmo preso em Recife.
Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/
Estando no município da cidade de Bom Nome, já em Pernambuco, um dos cabras de Lampião, o cangaceiro “Mão Foveira”, também conhecido como “Serra do Umã”, cujo nome real era Domingos dos Anjos de Oliveira, vinha se contorcendo de dores devido ao veneno ingerido, solicita ao chefe sua dispensa. Pra que aquele cabra fez aquele pedido? 
 
O filho de Vila Bela se irritou muito e perdeu as estribeiras. Pois bem, o chefe, em vez de deixa-lo ir, coloca uma bala na agulha da arma e diz que o deixaria, porém, morto. Não sabemos de outra perda de serenidade nos estudos sobre Lampião como esse. O cangaceiro começa a implorar pela vida e só não perde devido todos os outros ficarem a seu favor. Fato esse também raro, se não único, nos feitos do cangaço lampiônico, em que toda a cabroeira fica contrária ao chefe.



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Jornais repercutiram muito mal na época a forma como Lampião conseguiu 
sair do Ceará.
Coleção Rostand Medeiros
“(…) Todo mundo contra Lampião, ficando todos ao lado do companheiro Mão foveira. Todo bando, por uma só voz falou a Lampião que, naquela jornada, por causa do veneno já havia morrido uma infinidade de companheiros, e, naquele momento, gritaram, dizendo que duvidavam como Lampião não atirava em Mão Foveira (…) Tendo, diante da forte recusa, Lampião desistido, deixando Mão Foveira com vida, apenas desprezado no meio da estrada, torcendo-se com as dores no intestino(…).” (Dantas, 2005)  
 
Nos dias, semanas e meses seguintes as volantes não deixaram “a pista esfriar”. Aperto em cima de aperto e o bando, aos solavancos, vai diminuindo. Morrem alguns, outros desertam e outros se entregam as autoridades. Lampião então vai refugiar-se na Serra do Umã. Segundo o saudoso João Gomes de Lira, ex-volante: “A inviolável Serra do Umã era habitada por Caboclos, cangaceiros valentes”. Lá refugiado Lampião tenta curar suas feridas. Não dá tempo de sarar não, pois Manoel de Souza Neto, o comandando nazareno conhecido como Mané Neto e apelidado como “Mané Fumaça”, valente que só a gota serena, sobe a serra para matar e prende muita gente. No entanto, mais uma vez, apesar de estarem lascados, Lampião e alguns cangaceiros, incrivelmente, já haviam se mandado.





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Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto” 
Fonte – http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2016/07/
Nessa constante, de seguidas perdas de homens, apesar de alguns outros homens entrarem para o bando, as coisas não melhoraram em nada para o “Rei dos Cangaceiros”.  Acaba-se 1927, entra 1928 e as coisas continuam do mesmo jeito, as volantes não dão trégua a Lampião. Em março de 1928, seu lugar tenente Sabino das Abóboras é morto na fazenda Piçarra, terras pertencentes a um dos maiores coiteiros, citam alguns autores que também traiu a confiança de Lampião.
 
Durante o decorrer de 1928, o bando vai diminuindo, e chega a tal ponto de só ter o chefe Lampião e mais cinco homens – Ponto Fino, Moderno, Luiz Pedro, Mariano e Mergulhão.



03_Lampeão em Pombal - dezembro de 1928
Lampião (primeiro a esquerda) em Pombal, Bahia – 1928.
Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com
Chega então, a hora do cangaceiro mor deixar as paragens entre Pernambuco, Paraíba, Ceará e o Rio Grande do Norte para ir à busca de novas terras em lugares distantes, para assim recomeçar seu sangrento “meio-de-vida”. As encontra no vizinho Estado da Bahia, após atravessar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, e ir refugiar-se sob a proteção do coronel Petronilo Reis, que mais tarde, também vai trair sua confiança.  
Mas, essa é outra história que depois a detalharemos…
 
Fontes
 
“Lampião – Memórias de um soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª Edição. Recife, 1990.
Cangaceiros Cariri. Com
 
Blog de Aurora.com
 
Fotos “Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005.
 
TokdeHistória.com
Cangaçonabahia.com
Cangaceiros Cariri. Com
Blog de Aurora.com