quinta-feira, 5 de março de 2020
Novidades em HQ
A revista Histórias do cangaço, de autoria do professor Moisés Reis, visa trazer à luz as ações de subgrupos de cangaceiros no sertão baiano precisamente na região de Fátima, Adustina, Cícero Dantas, Heliópolis e demais municípios vizinhos.
Essa primeira edição fala de Ângelo Roque, o cangaceiro Labareda, que atuou fortemente como chefe de grupo na região.
A intenção do autor é também que a revista seja um paradidático, ajudando o professor a trabalhar a temática do cangaço, assim como a história regional, em sala de aula. Para adquirir a edição virtual acesse o link abaixo. Valor R$| 5,00 (Cinco reais).
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Memória do Cangaço em Adustina, BA
Por Kiko Monteiro
Com mais uma preciosa informação colhida pelo amigo professor Salomão, o Cariri Cangaço foi levemente esticado para mim e para o confrade Narciso Dias, Presidente do Grupo Paraibano de estudos do Cangaço – (GPEC).
No último dia 2 de agosto rumamos novamente para Adustina, logo alí no sertão baiano, fronteiriço com Sergipe, para conhecer mais uma das testemunhas oculares da saga 'lampiônica' naquela área que era considerada na época um “corredor de cangaceiro”.
Em breve reunião com nosso anfitrião resolvemos de supetão esticar até o município vizinho de Coronel João Sá, pra visitar as cruzes dos cangaceiros Mariquinha, Chofreu e Pé-de-Peba, mas por conta da distância que restava e horário incompatível com compromissos dele, concordamos em adiar para uma próxima “incursão”.
No caminho de volta paramos no terreiro do seu José Dantas de Oliveira, exímio atirador que ficou conhecido como “Zé Pequeno Caçador”.
104 anos de idade, espanta tanto pela aparência, quanto pelo ritmo e disposição. Só se queixa de uma "dor nas juntas". Apesar do seu documento indicar Paripiranga ele afirma ter nascido no Arraial da Mãe D’Água de Cipó, (hoje Cipó), também no sertão Baiano. Mudou-se para o Bonfim do Coité, atual Adustina, quando ficou órfão de pai e mãe ainda menino e foi morar com parentes no sítio Algodão que já tinha este mesmo nome desde a época do cangaço.
Seu Zé, de memória ainda acesa nos relatou que assim como Seu Atanásio ele também foi coiteiro ou faz-tudo dos cabras de Lampião naquelas bandas.
Essa história ele mesmo conta.
“Conheci Corisco, Boa Vista, Balão, “Anjo” Roque, o Saracura, que era daqui, e sabendo que eu atirava bem o próprio Virgolino pelejou que eu entrasse no meio deles.
Eu disse – “não, capitão, no que eu puder servir eu sirvo, trago caça, peixe, aponto caminhos, mas virar cangaceiro, quero não”.
Também fui amigos dos ‘macacos’, arrumei muita caça para Odilon “Fulô”, comandante da volante que perseguia os cabras por aqui. Mas eles jamais souberam que eu era amigo dos cangaceiros, nem Lampião soube que eu me dava com os soldados.
"Deus o líve”, os soldados faziam muita malvadeza quando pegava um coiteiro que soubesse o rancho dos cabras e não entregasse pra eles.Seu Zé ainda contou que chegou a ficar por quinze dias acoitado com os cangaceiros. Ele diz que não presenciou nenhum fogo, ou morte isolada. Mas viu os cangaceiros Mariquinha, Chofreu e Pé-de–Peba, mortos no lugar Curral do Saco, pela Volante de Odilon.
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| A cangaceira Doninha |
Um dos fatos mais interessantes narrados por ele foi o de quando encontrou a cangaceira 'Doninha'*, companheira do cangaceiro Boa Vista, perdida na mata.
Ele não lembrou se ela estava tentando fugir do coito como outras assim tentaram.
O certo é que seu Zé pequeno cuidou da moça durante três meses. Até que um dia estava caçando, topou com os cabras e perguntou se Boa Vista ainda era vivo, com resposta positiva pediu para informar a ele o paradeiro da companheira e precavido rogou:
“Diga a Boa Vista que a muié dele ta lá em minha casa, mas que fique certo que o que eu devo a ela eu devo a minha mãe, apesar de ser jovem e solteiro".
Na linguagem sertaneja ele não se relacionou com a moça.
De acordo com a literatura, Doninha voltou para o convívio com Boa Vista e permaneceu com ele até o período das entregas.
| Professor Salomão, Kiko Monteiro e Narciso Dias. |
Antes de nos despedirmos perguntei a seu Zé, o que foi confirmado pela sua esposa, que essa foi a primeira visita de pesquisadores do cangaço que ele recebeu durante todos estes anos. Tanto eu quanto Narciso não identificamos nenhuma afirmação que destoasse da historiografia fiel do cangaço naquela região. Até onde sua memória lhe permitiu não citou nome de nenhum cabra fora do território de atuação de seu subgrupo na época em questão, nem fantasiou combates ou eventos que não tenha presenciado.
A convivência de seu Zé Pequeno com os cangaceiros só foi citada em 1980 no livro ‘A Serra dos dois meninos’ de autoria de Aristides Fraga Lima (1923-1996) que narra em um dos capítulos quando ele ajudou a encontrar os garotos que se perderam nas famosas matas de Paripiranga.
*A Doninha em questão era a "cabrocha" alagoana Laura Alves que a primeira vista chegou a escolher como companheiro o cabra Moita Brava, que a recusou. Ela findou se juntando com o Boa Vista. Consulta: ARAÚJO, Antônio Amaury Corrêa de. Lampião: as Mulheres e o Cangaço, Editora Traço 2ª Edição, 2012. Pág. 279
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Novo livro na praça
Por Kiko Monteiro
Baiana de Adustina, Gelza Reis Cristo, é formada em Letras pela Universidade Católica de Santos. No momento pós-graduanda em Língua Portuguesa pela UNICAMP (Universidade de Campinas). Há 37 anos ela reside em São Vicente SP onde leciona na rede estadual de ensino.
Além de professora é culinarista, poeta e declamadora, e escritora.
Depois de três livros, além da participação em onze antologias, ela lançou no último final de semana em Lagarto o seu primeiro estudo sobre o cangaço intitulado "Lampião é filho do Santo Conselheiro - Cangaceirismo e misticismo", pela editora All Print.
A pesquisa
Estudando "Cangaceiros", obra de José Lins do Rego, ela descobriu na personagem Aparício a identidade e a geografia de Lampião. Posteriormente lendo "Os Sertões" de Euclides da Cunha, descobre a geografia de Antônio Conselheiro.
"Uma mesma região, uma mesma gente inculta, necessitada de um líder, pois o governo estava distante de todos eles. Assim como o Conselheiro convenceu a sua comunidade de que eles poderiam viver sem a ajuda do governo, Lampião seguiu esse mesmo preceito", introduz a autora.
Relação histórica
"O padre Frederico Bezerra Maciel, em sua obra ´Lampião seu tempo e seu reinado´ já havia sugerido uma hiperligação entre as duas personagens do meu livro. Segundo a pesquisa, Antonio Conselheiro disse para um dos seus seguidores ´Dentro de 50 anos haverá de surgir no Sertão um homem que apesar de religioso será cangaceiro e dará muito trabalho aos governos´ ele estaria profetizando o surgimento de Lampião. Conjectura ou não é um dado interessante para a reunião destes dois mitos nordestinos", afirma Gelza.
É evidente que ambos pisaram o mesmo chão, palmilharam os cantos mais ermos do sertão seco e até mesmo florido, eram declarados inimigos públicos e enfrentaram as forças do governo cada um na sua proporção.
Corredor de cangaceiros
A intenção de Gelza não é só de reunir os dois ícones históricos, mas de resgatar sua Adustina como um corredor de cangaceiros e trazê-la de volta para as biografias do tema.
Povoado Quixabeira de Adustina ou como era denominada na época do cangaço, "Patrocínio do Coité", em 2 de Julho de 1927. (Acervo Kiko Monteiro).
"Como naquela época Adustina, ou melhor "Patrocínio do Coité" era um povoado de Paripiranga, até hoje muitos autores se esquecem de atualizar a geografia de seus capítulos. Conheci e conversei com algumas pessoas da minha terra sobre as andanças de cangaceiros pelas matas de Adustina. Em 2013 visitei a Serra do Capitão, ouvi estórias sobre coitos e até Botijas, inclusive um dos moradores exibiu no pescoço uma corrente que teria pertencido a um cangaceiro e foi descoberta em uma destas botijas. Enfim, a única coisa que se pode comprovar é o coito como um dos esconderijos destes homens e mulheres no passado", disse Gelza.
O avô da autora, Augustinho Gregório dos Reis, morava no pé da na serra do capitão. Certa vez um subgrupo chegou até a casa dele e pacificamente pediu que fizessem comida para a cabroeira porque eles pretendiam arranchar por umas horas naquela localidade. Após a passagem dos cabras Augustinho resolveu que ali não era mais seguro, pois ele tinha várias filhas moças e temia que algum cangaceiro botasse o olho e raptasse uma delas.
De acordo com as memórias dos antepassados da autora o líder cangaceiro que mais andou na região era Corisco.
"Encontramos a "Ponta da Serra" antiga denominação da Serra do Capitão em um dos capítulos do livro de Estácio de Lima, "O mundo estranho dos Cangaceiros". Na ocasião houve uma baixa no grupo e eles estavam esperando o líder do grupo que havia ido a Paripiranga pegar provimentos, para então poder enterrar o companheiro".
Serra do capitão é tema de um dos versos de cordel que Gelza canta em suas apresentações que promovem o livro.
"Em um jornal da Bahia
O povo lia com atenção,
Lampião ta escondido
No serrado do Sertão.
E a policia não sabia
Da Serra do Capitão.
A milícia passou perto
E fugiu na contramão.
O medo da Jaguaruna
Fez o macaco correr.
Cangaceiro aqui não ta
pois tem medo de morrer.
Olê muié rendeira,
Olê muié rendá...
O livro de Gelza contém um breve depoimento de Raimundo Matos, um morador de Adustina que afirma ter feito parte da volante do nazareno Odilon Flor, quando este perseguiu os cangaceiros pelo sertão baiano. Raimundo contava na época com apenas 16 anos.
Serviço
"Lampião é filho do Santo Conselheiro - Cangaceirismo e misticismo", All Print São Paulo 2016.
Nº de páginas: 206
Valor: R$ 45 com frete incluso,
Os pedidos devem ser feitos pelo email cristogelza@gmail.com ou pelo aplicativo WhatsApp cotato: (13) 99751- 7293
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sábado, 7 de junho de 2014
Seu Atanásio
Por Kiko Monteiro
Dando continuidade aos registros de minha pisada junto com o confrade Narciso Dias por terras que ontem pertenciam a Paripiranga e hoje são de Adustina, tivemos mais uma grata surpresa ao sermos avisados da existência, eu diria até espetacular existência e presença de Seu Atanásio. Ele é mais uma testemunha ocular dos fatos lampiônicos no sertão baiano, e que para nossa sorte naqueles dias se encontrava em tratamento de saúde na casa da sua filha.
Ex-vaqueiro e coiteiro assumido, Atanásio Gregório dos Santos já não enxerga à onze anos. Precisamente quando completou os 102 anos de idade... Hoje aos "111" desafia o tempo e o vento, sim, o homem nasceu em 05 de fevereiro de 1902. Com prova documental.
Confiram a data de nascimento no RG do "menino"
Ressalta que manteve boa convivência com policiais. Todavia ao botar na balança quem mais apreciava, deixa claro a sua simpatia pelo modus operandi dos cabras de Lampião. Afirma que presenciou muito mais atrocidades dos "Macacos". Afinal de contas...
- "O que mais tinha na policia era vagabundo a procura de comida e dinheiro. Era uma época de secas terríveis e estas pessoas não tinham opção. A única alternativa era pegar em armas para perseguir cangaceiros. Mas a única coisa que a maioria sabia fazer era pilhéria, covardia de bater em pobres coitados. Enfrentar os cangaceiros como devia de ser... Ah! foram poucos".
L.A. - Sabendo que havia violência de ambas as partes, por que o senhor preferia lidar com os cangaceiros do que com as Forças?
- "Vamos dizer assim: Eu não fazia nem cara feia, nem corpo mole. A volante exigia que eu matasse um bode dos meus, eu atendia, eles comiam, enchiam o bucho, nem sequer agradeciam e iam embora. Já os cangaceiros pediam a mesma coisa, porem ao se fartarem pagavam pelo animal abatido. Aliás, eu ganhava de cinco a dez mil réis por qualquer favor prestado a cabroeira".
L.A. - O senhor chegou a frequentar algum baile com os cangaceiros?
- "Fui dançar uma única vez um "pagode" convidado pelo próprio Ângelo Roque no Pinhão. Mas chegou uma força e teve tiroteio. Nesse dia não morreu ninguém, eu consegui fugir me arrastando pelo batente da choupana".
L.A. - E Lampião?
- "Conheci demais, ele andou muito no sitio (Do quinto), aqui pelas matas de Paripiranga, também, tinha preferência pelos coitos na beira do rio Vaza Barris que corta a região".
Também pudera, o homem na condição de coiteiro, e de quem viu muito assombro e desmandos de toda a sorte no sertão pode fazer o comparativo.
Certa vez ele guiou a cabroeira até a casa de uma mulher chamada Josefa de Bispo, que morava com três filhos no lugar chamado Quixaba. Ao perceber a fome que estes passavam, os cabras ruins do sertão num momento de benevolência(heroismo) se compadeceram da situação e deram-lhes comida.
Mas certa feita esta mesma mulher achou de informar para a volante comandada pelo Sargento Balbino a localização do coito dos bandoleiros. O cangaceiro (cujo nome ele não recorda e prefere não sugerir ) Tomou conhecimento da desfeita e a visitou mais uma vez, desta vez sem piedade nem tampouco caridade.
- "Ele cortou a língua dela com uma faca de ponta para servir de exemplo à todos que não soubessem manter silencio sobre suas presenças na região".
Pensam que o castigo lhe bastou? Dona Josefa, revoltada e sem a língua para caguetar, apontava com o dedo a direção do bando para a volante. Ligeiramente engraçado? No cangaço nada é cômico. Essas "apontadas" ocasionaram em tiroteio e como nova represália os cangaceiros intimidaram a velha de vez, matando dois dos seus filhos.
Recordou um outro trágico episódio envolvendo gente que desafiou o perigo, narrativas que ouviu dos próprios executores.
O jovem Manoel Caetano, “Manoelzinho” era caçador e certa vez deu de cara com um coito de cangaceiros que se preparavam para tratar uma vaca. Ao voltar para casa ao invés de segurar a novidade resolveu procurar o sargento Balbino e delatar o local. Novo embate com a policia... Não tinha outro, eles já sabiam quem os havia entregado e juraram vingança contra o Manoel. Tempos depois Manoelzinho que pensava que era invisível descia as margens do riacho sozinho e deu de cara com um cangaceiro que o cumprimentou pelo nome, Manoelzinho desconfiado perguntou quem ele era, e o cabra identificou-se como Soldado do governo".O caçador nem imaginava quem seria a caça, achou de fazer a média com o volante e foi proseando:
- Pois um dia destes, botei vocês no rastro dos bandidos, não mataram porque não quiseram.
- É verdade, mataram ninguém não, tanto que estou aqui conversando com você, seu filho de uma p... vais morrer agora mesmo.
Outros cangaceiros saíram do mato. Manoelzinho se ajoelha clama que poupem sua vida pois tinha uma boa quantia de dinheiro pra lhes dar.
- Tenho pra vocês um conto e quietos réis...
Trato aparentemente aceito, mas o levaram e mantiveram-no prisioneiro no coito e no final da tarde o mataram a punhaladas e deixaram o cadáver exposto em outro ponto da mata. Paisanos que passavam pelo local ao se depararam como aquela cena medonha e fugiram esquecendo-se das montarias.
Conta que conheceu "Mariquinha" prima de Maria Bonita e companheira de Ângelo Roque.
[Mariquinha também era natural de Jeremoabo e foi assassinada por Odilon Flor no lugar Riacho do Negro, (diz que na época o lugar também foi conhecido por Curral do Saco) juntamente com os cabras Pé-de-peba e Chofreu. Quem participou desta diligencia e está vivo para contar esta história é o ex volante Gerson Pionório entrevistado por João de Sousa Lima Leia Aqui ]
E que em 1938 após o massacre, descobriu que dois sobrinhos dele estavam junto com Lampião em Angico. Um deles recebeu o vulgo de "Zeppellim" e o outro não lembra, mas enfim, era o Pedrinho. Os dois conseguiram escapar. permaneceram escondidos durante seis meses na fazenda Caraíbas (Divisa entre Adustina e sitio do Quinto).
- "O Pedrinho tinha um ferimento de bala na coxa que ele tratou com farinha molhada".
L.A. - E o senhor? não chegou a ser convidado para pegar em armas e acompanhar os cangaceiros?
- "Com os meninos? Não, mas cheguei a marchar com Zé Rufino algumas vezes na persiga de cangaceiros". Recebi um fuzil e uma recomedação dele -"Se ver alguém não seja doido de atirar, espere minha ordem".
Seu Atanásio disse que também serviu como coiteiro do célebre Corisco.
L.A. - E Dadá, o senhor lembra dela?
- "A Dadá? Ah ali era uma “cabocla positiva”. Uma vez eu pesquei não sei quantos quilos de Jundiá pra ela e pra Corisco... Conheci o "Balão" e o Mariano quando ele era comandado pelo diabo Loiro... e outros e outros".
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Utilização das informações deste blog.
VAI COPIAR? POR FAVOR, LEIA ABAIXO.
Este blog destina–se à discussão, preservação e divulgação da memória dos eventos do Cangaço, em todas as suas dimensões e amplitudes.
Estão inteiramente liberadas para uso em publicações as postagens de minha autoria neste blog, devendo–se primeiramente realizar a formal gentileza de citá–lo como referência primária.
Para citar qualquer uma das postagens em publicações escritas ou em outro blog, site na internet, siga–se a seguinte fórmula: SANTOS MONTEIRO, Alessandro. “NOME DA POSTAGEM”, in: “Lampião Aceso” site: www.lampiaoaceso.blogspot.com acessado em DATA.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Memória do cangaço na vizinhança
Por: Kiko Monteiro
| Francisca Maria de Jesus FOTO: Kiko Monteiro |
A abordagem foi pacífica. Um deles, provavelmente o chefe, perguntou se poderiam ceder as montarias para o grupo, pois tinham animais, mas sem arreios.
Seu Eusébio que não era doido de negar, disponibilizou os apetrechos dele e ordenou que os outros fizessem o mesmo. O cangaceiro perguntou se Eusébio poderia lhe servir de guia até um povoado que eles não sabiam como chegar, aceitou, mas pediu que liberassem os outros dois. Trato feito.
Montou na garupa do cangaceiro e a primeira parada foi na casa de Martins de Leandro. Chamaram, mas não havia ninguém na propriedade. Ai a calma dos "meninos" terminou. Ordenaram a Eusébio que ele derrubasse a porta à golpes de machado. E mesmo sabendo que ali era propriedade de gente amiga teve que atender, percebeu que a benevolência dos cabras tinha prazo de validade.
Porta abaixo em poucos minutos, os cabras invadiram e fizeram uma pilhagem na casa de Seu Martins.
A caravana seguiu em frente. Parada para almoço, o cangaceiro que parecia ser o chefe manda um dos cabras providenciar o fogo e saiu mata à dentro. Ao voltar encontra Eusébio afastado do grupo encostado numa árvore com semblante triste e o pergunta se estava com medo, mas Eusébio responde que estava era com muita fome, porque os cabras se fartaram e não lhe ofereceram nem um pedaço de carne. O suposto chefe ordena que encham um coité (cabaça) com comida e reclama porque não tinham repartido o almoço com o guia. Um cabra diz:
- Ora! Ele não se serviu porque não quis.
Seu Eusébio finalmente satisfeito e o cangaceiro pergunta se ele tinha algum vicio. Respondeu ele que fumava e prontamente ganhou um cigarro. No entanto, após o primeiro trago deu uma baforada bem no rosto do cangaceiro causando espanto dos demais cabras pela ousadia...
Mas a única advertência que recebeu era de que ele voltasse pra debaixo da árvore onde estava, permanecendo afastado dos grupo, porque iam dar mais um tempo pro descanso, e que tinham feito fumaça e se os macacos lhes botassem emboscada que ele não corresse de pé, mas rastejasse, senão morreria confundido com um deles.Seguiram até o Baixão de Carrolina que é um povoado mais próximo à sede do município. Foram até uma casa, onde ganharam laranjas. Disseram a Eusébio que ficariam por ali. Antes de dispensa-lo ordenaram-no que recolhesse os animais... Mas que antes retirasse os alforjes dos cavalos e os colocasse nos animais do grupo já que alguns estavam montados à pelo. Eusébio mais uma vez atendeu a contragosto, e agora então, ao perceber que saia no prejuízo, perdendo os arreios novinhos?
Mas com poucas horas seu Eusébio retornava são e salvo para a alegria de todos.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Memória do cangaço na vizinhança
Por: Kiko Monteiro
Em julho deste ano, à convite do professor e memorialista Salomão Santos, e na boleia do confrade Narciso Dias (presidente do Grupo Paraibano de estudos do Cangaço - GPEC), fomos realizar uma pesquisa de campo na cidade baiana de Adustina. São vários os fatos ocorridos naquele território que se chamava à época Bonfim do Coité e pertencia ao município de Paripiranga. Realizamos a viagem no intuito de conhecer e fotografar a sepultura de um cangaceiro. O que eu nunca imaginei é que logo ali a 60km de minha cidade ainda pudesse encontrar testemunhas oculares dos fatos que aterrorizavam a região na década de trinta.
Patrocínio do Coité como era chamada no passado foi berço dos cangaceiros Saracura e Vinte e Cinco. A sede do município só foi atacada uma única vez, mas os distritos serviam como se dizia à época como “corredor de cangaceiros” que transitavam entre Jeremoabo, Bebedouro (Atual Cel. João Sá), Pinhão, Carira, Serra Negra (Atual Pedro Alexandre) etc.
Os cangaceiros tinham feito uma pilhagem na bodega de Manoel de Lia situada no Baixão de Carrolino, lugar bem próximo à Paripiranga e rumaram para o Olho D´água de Fora que hoje pertence à Adustina. Seu Diomédio contava treze anos de idade e morava com os avós.
Naquele dia estava somente ele e a irmã caçula. Da janela percebeu a aproximação de uma gente fardada montada em cavalos no terreiro da casa. Pensou ele se tratar de uma força Volante que guarnecia os povoados. Ele que portava uma pequena faca de ponta na cintura jogou-a embaixo da cama e correu pra sala. Lá estavam todos aqueles homens e duas mulheres, recorda que eram ao todo oito. Um deles, sem cumprimentar e nem fazer arrodeio, pergunta se tinha açúcar. Diomédio respondeu positivamente.
Em seguida, o mesmo cabra emenda:
- E Ouro?
O menino negou, e foi então que percebeu que estava diante de cangaceiros. Todavia, antes que pudesse formular uma desculpa, a irmã, que ouvia a conversa da cozinha, respondeu sem entender a pergunta feita pelo cabra. Não imaginava o perigo que corriam:
– Tem, e é uma mochila cheia.
Um dos cabras, percebendo a possível mentira de menino, deu-lhe um soco no abdômen que o fez cair ao chão. Tomado por uma repentina emoção, Diomédio viaja ao momento do episódio: Então me levantei e pedi para que entendesse, se quisesse bater, batesse, mas o que nós tínhamos era açúcar e não diacho de ouro. O resultado é que fui agredido pelo cabra novamente. Um deles visivelmente embriagado pela cachaça que furtara da venda de seu Manoel jogou a própria companheira para cima de mim, dizendo:
- Tome esta mulher pra você!!!
Nesse momento a cabroeira foi ao delírio. Ai eu gritei com mais raiva ainda: - Não quero porqueira de mulher nenhuma.
E um outro cabra se alterou inda mais. - Espia, quer dizer que é porqueira é? Ele não vai contar mesmo, atira neste cachorrinho.
Ai um deles manobrou um fuzil e o encostou na minha barriga e pediu pressa na localização da tal mochila de ouro. Era pra intimidar a todo custo.
Eu ainda insisti: - Não tem peste de ouro, o que tem aqui é açúcar, a menina entendeu errado.
O cangaceiro que perguntou pelo ouro, então, decide:
- Então você vai com a gente!
- Pois, não saio daqui pra lugar nenhum - Disse o moleque Diomédio sem estremecer.
E a cada negativa tome couro.
A narrativa ainda prossegue. Diomédio fala vagamente sobre um "fogo" ocorrido no dia seguinte à esta visita, que resultou na morte de um dos cabras de Ângelo Roque... Como o próprio Diomédio não recordava maiores detalhes e nós não obtivemos confirmação nem sobre a volante envolvida nem quanto à identidade do cangaceiro abatido, preferimos nos ater ao fato mais consistente que já faz de seu Diomédio mais que uma testemunha, uma personagem do Cangaço em Paripiranga.
Aguardem mais uma das histórias colhidas nesta nossa breve e proveitosa diligencia em Adustina.
Reitero nossa gratidão pelo convite e amizade do professor Salomão; Pela agradável companhia do casal Narciso e Catarina e pelo suporte técnico do "oráculo" Sergio Dantas na composição deste artigo.










