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terça-feira, 7 de maio de 2019

Teatro

As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão’ reflete sobre a potência do feminino

Fica em cartaz no Teatro do Sesi-SP de 25 de abril a 4 de agosto, o musical As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão, uma fábula inspirada nas mulheres que seguiam os bandos nordestinos que atuavam contra a desigualdade social da região.

O musical conta a história de um grupo de mulheres que se rebelam contra mecanismos de opressão que encontravam dentro do próprio Cangaço, e encontram, umas nas outras, a força para seguir. Além de reflexões sobre o conceito de justiça social que o Cangaço representava, o espetáculo também reflete sobre as forças do feminino nesse espaço de libertação e sobre a ideia de cidadania e heroísmo.



As canções originais foram compostas por Fernanda Maia (música) e Newton Moreno (letras), inspirados em ritmos da cultura nordestina. “Nas canções usei várias referências da música nordestina e tive uma abordagem afetiva desse material, por ser filha de paraibano e por ter morado no Nordeste enquanto fazia faculdade de música. Nessa época, pude entrar mais em contato com a cultura do Nordeste, que é de uma riqueza ímpar, cheia de personalidade, identidade, poesia e, ao mesmo tempo, muito paradoxal. Esse trabalho foi a união das vozes de todos. Não há como receber um texto de Newton Moreno nas mãos e não se encantar com o universo que existe ali”, conta Fernanda Maia.

Além dos atores cantarem em cena, o espetáculo traz cinco músicos para completar a parte musical (baixo, violão, guitarra, violoncelo e acordeão). Texto e música se misturam, palavra e canto se complementam, como se tudo fosse uma única linha dramatúrgica. “Optamos por uma narrativa que realmente seja uma continuação da cena e não um momento musical que pare para celebrar, ou para criar umas aspas dentro da história. Isso só é possível com canções compostas para o espetáculo. Buscamos um DNA totalmente brasileiro para a peça, tanto na embocadura, na fala, na construção do texto, como na interpretação dos atores. Não tem um modelo importado, não tem uma misancene importada, é uma investigação a partir de códigos que pertencem a uma estética do nosso país e do teatro brasileiro”, comenta o diretor Sérgio Módena.

Tanto a questão do protagonismo feminino como da cultura e da história do Nordeste sempre foram muito presentes na dramaturgia e no teatro feitos por Newton Moreno. “Eu achei que falar sobre as Cangaceiras unia essas duas fontes. Uma escuta sensível a várias vozes femininas, quebrando o silêncio e falando sobre tantas violências, isso me fez pensar sobre os espaços onde não imaginamos que existam lutas silenciosas ou que não são mostradas. Simultaneamente, acessamos documentários, materiais de internet, notícias de jornal e o livro “Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço”, da Adriana Negreiros, que discute a trajetória de Maria Bonita, falando que, apesar de o Cangaço ser um espaço de liberdade para algumas mulheres, era também um lugar violento. O cangaço reproduzia alguns mecanismos de violência do Sertão – abusos, estupros, desmandos. Enfim, ficou relativizado esse lugar de liberdade. Então, o Cangaço acabou virando um trampolim, uma janela, para falarmos sobre a situação de hoje. Por isso, fizemos a opção de não contar – elas são inspiração, mas não contamos a biografia de nenhuma dessas mulheres. Não há registro histórico de um bando dessa natureza. Mas, e se houvesse?”, explica Newton.

Uma das grandes características dessa dramaturgia é seu caráter fabular e não de uma reprodução histórica e factual do que foi o Cangaço e o próprio Nordeste brasileiro da época.

O enredo começa quando Serena (personagem de Amanda Acosta) descobre que seu filho, que ela acreditava ter sido morto a mando do marido, Taturano (personagem de Marco França), está vivo. Ela, então, larga seu grupo do Cangaço, chefiado por Taturano, para partir em busca de seu bebê. Neste momento ela não tem a dimensão de que sua luta para encontrar o filho se tornará uma luta coletiva, maior que seu problema pessoal. Outras mulheres que formavam o bando se engajam nessa batalha, além de futuras companheiras que cruzam seu caminho.

Segundo a atriz Amanda Acosta a peça “é o grito de libertação que estas mulheres não puderam dar, mas que darão agora através desta obra escrita pelo nosso grande dramaturgo Newton Moreno. Grito que fala sobre coragem, amor, empatia, união, insurreição e liberdade”.

“A partir do momento que essa dramaturgia traz um bando de mulheres, que é algo que nunca ocorreu, temos uma liberdade para abrir várias janelas de reflexão, inclusive, fazendo um paralelo com o que estamos vivendo hoje. É uma reflexão sobre o sistema de opressão, no caso a mulher, mas você pode estender para qualquer camada social que está ali sendo historicamente oprimida”, completa o diretor. (Carta Campinas com informações de divulgação)

SERVIÇO: 
As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão
Temporada: de 25 de abril a 4 de agosto
Horários: quinta a sábado às 20h; domingo, às 19h
Local: Teatro do Sesi-SP – av. Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Duração do espetáculo: 120 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Agendamentos: ccfagendamentos@sesisp.org.br

Grátis. Reservas antecipadas de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br abertas todas as segundas-feiras, às 8h. Ingressos remanescentes serão distribuídos no dia da apresentação, 15 minutos antes na bilheteria do Teatro.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A partir de hoje em Serra Talhada


Tributo a Virgolino – 80 anos da morte de Lampião




A cultura e a história que pulsa nas veias do sertão já tem evento, local e data marcada para sua comemoração: O “TRIBUTO A VIRGOLINO – A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO”, será nos dias 25, 26, 27, 28 e 29 de julho/2018, na Estação do Forró e no Museu do Cangaço, em Serra Talhada/PE – Terra de Lampião e Capital do Xaxado, reunindo grupos musicais, grupos folclóricos, pontos de cultura, feira de artesanatos, violeiros repentistas, cantores, poetas, historiadores e pesquisadores do cangaço e todo público geral, numa festa em homenagem aos 80 anos de morte de Lampião.

O “TRIBUTO A VIRGOLINO – A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO” é um projeto que congrega diversos grupos e artistas, produtores culturais e artesãos celebrando a cultura de raiz, integrando as seguintes linguagens:

1.   Música; 2.   Teatro; 3.   Dança; 4.   Fotografia; 5.   Cultura Popular; 6.   Literatura; 7.   Artesanato; 8.   Gastronomia.

Durante a programação do evento haverá apresentações musicais com Trios e Grupos de Forró Pé-de-Serra, apresentações de Grupos de Danças Populares, Feira de Artesanatos, Área de Alimentação com comidas típicas da região, além da realização da CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO, um momento em que todos os grupos e artistas convidados se reúnem para afirmarem a importância do Cangaço na identidade cultural do povo sertanejo, e O ESPETÁCULO O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO.



As atividades serão realizadas na Estação do Forró, na Área de Alimentação da Feira Livres, dentro das escolas, no Museu do Cangaço e no Sítio Passagem das Pedras – localidade onde nasceu Lampião, utilizando diversos espaços/palcos paralelos um do outro.

O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO é o maior espetáculo teatral ao ar livre dos sertões, em Serra Talhada/PE, com 120 atores e técnicos, contando sua história, mesclando acontecimentos reais com o imaginário popular e o folclore, com vistas ao fomento nas artes cênicas na região do sertão nordestino, bem como a geração de emprego e renda para as cidades circunvizinhas e incentivando o turismo e a cultura local, estimulando o conhecimento da história, promovendo a autoestima, valorizando profissionais do teatro, envolvendo artistas e técnicos da região e do estado. Toda programação acontecerá em ESPAÇO ABERTO, SEM VENDA DE INGRESSOS

Realização:
Fundação Cultural Cabras de Lampião

Incentivo:
Funcultura / Fundarpe / Secretaria de Educação / Governo de Pernambuco

Apoio:
Prefeitura Municipal de Serra Talhada
SESC/PE.
Secretaria de Cultura / Prefeitura de Serra Talhada.
Comércio local.

Serviço:

MUSEU DO CANGAÇO – Ponto de Memória
Ponto de Cultura Cabras de Lampião
Vila Ferroviária, S/Nº – Centro
CEP: 56.903-170
Serra Talhada – Pernambuco
Tel: (87) 3831 3860 / 99938 6035
E-mail: cabrasdelampiao@gmail.com

Fonte: www.cabrasdelampiao.com.br

terça-feira, 27 de maio de 2014

Influências

Quando Lampião veio para a festa  


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A figura do temido cangaceiro em uma peça do Teatro
de Revista do Rio de Janeiro

Era uma época onde o rádio se popularizava, mas os cariocas ainda sabiam dos acontecimentos do seu país e do mundo pelas várias edições diárias dos inúmeros periódicos que circulavam pela então Capital Federal. Já a distração era ocupada em grande parte pelo crescente futebol pré-Maracanã, pelos cinemas e os inúmeros teatros, onde os espetáculos do chamado teatro de revista eram muito populares[1].
 
No início do século XX este tipo de apresentação teatral apresentava entre outras coisas aquilo que era considerado picante ou obsceno. Tinha a intenção de agradar o público de maneira abrangente, a que preço fosse. Nessa época o teatro popular era a maior diversão e o teatro de revista era o principal polo da cultura popular.

Típica cena de teatro de revista no Rio de Janeiro - Fonte - http://cifrantiga3.blogspot.com.br/
 Típica cena de teatro de revista no Rio de Janeiro – Fonte – http://cifrantiga3.blogspot.com.br/

Com a Primeira Guerra Mundial o Brasil ficou separado do resto do mundo, sem receber influências do estrangeiro, e cada vez mais o teatro de revista nacionalizava-se, entrelaçando a música popular de forma estreita e indissolúvel. Afastando-se do modelo luso-francês surgiu uma nova fórmula onde a melodia passou a ser parte integrante do conjunto. O teatro popular havia adquirido um perfil tipicamente nacional iniciando uma nova fase na História Social da cultura brasileira. Havia neste contexto espaço para as criações regionais, colocando no palco personagens sertanejos.
 
No Rio de Janeiro a dupla Jararaca e Ratinho passa a fazer teatro de revista em 1929. Estes artistas faziam números mistos de músicas e piadas, explorando canções sertanejas, o humor, melodias, o trocadilho, as adivinhações, as críticas e sátiras políticas[2].
 
Renascendo das Cinzas
 
O imigrante italiano Pascoal Segreto, um descobridor de talentos, portador de uma visão empresarial extraordinária, mantinha várias companhias. Ele investiu no teatro de revista, sendo chamado pelo ator Procópio Ferreira de “papa do teatro brasileiro“. O seu principal empreendimento teatral foi a Companhia de Operetas, Mágicas e Revistas do Teatro São José, este também de sua propriedade[3].


Em 12 de setembro de 1931, com o São José funcionando como cineteatro, após a apresentação de “Amores e Modas”, de Mauro de Almeida, quando tinha início o filme “A minha noite de núpcias”, de Leopoldo Fróes, o prédio pegou fogo, só ficando de pé a fachada e as escadas laterais da sala de espera.
Intentando criar a casa da canção nacional, o dançarino e produtor Duque, em parceria com Segretto, aproveitou a parte não incendiada do teatro e instalou a Casa de Caboclo, reproduzindo a morada do nosso tabaréu: o madeiramento rústico, de paus toscos, coberturas de sapé, formando frisas e camarotes; palco e uma varanda de casa da roça, ao fundo[4].

Pascoal Segretto - Fonte - Wikipidea.org
Pascoal Segretto
Fonte – Wikipedia.org

No periódico carioca “Correio da manhã”, de 10 de setembro de 1932, as impressões da nova companhia de revista do Rio de Janeiro foi de certo espanto com o fato que tudo ali apresentado era “brasileiro”. Comentaram que “tudo é nosso: toadas, a suavidade das modinhas, desafios”. A apresentação de espetáculos tipicamente brasileiros não era novidade no Rio, mas a Casa do Caboclo chamou a atenção de maneira positiva da imprensa e do público.
 
Atores e Músicos de Primeira Qualidade
 
Dentro da estrutura clássica, entre quadros cômicos, sambas e marchinhas carnavalescas, a tônica dominante incidia no humor caipira, como por exemplo, as famosas imitações que Jararaca e Ratinho faziam de Getúlio Vargas e Washington Luís.

Em 1922 os Turunas Pernambucanos desembarcavam no Rio de Janeiro. Entre eles, Jararaca (o terceiro senatado à direita) e Ratinho (de pé, à esquerda, com o clarinete). pela foto podemos ver que o carioca conheceu a roupa e o imaginário dos cangaceiros ainda no início da década de 1920  - Fonte - http://mpbantiga.blogspot.com.br/
Em 1922 os Turunas Pernambucanos desembarcavam no Rio de Janeiro. Entre eles, Jararaca
(o terceiro sentado à direita) e Ratinho (de pé, à esquerda, com o clarinete). 

Pela foto podemos ver que o carioca conheceu a roupa e o imaginário dos cangaceiros ainda no início da 
década de 1920 – Fontehttp://mpbantiga.blogspot.com.br/

Certamente que uma das razões deste êxito estava nos atores, atrizes e músicos que ali se apresentavam. Muitos destes fazem parte de qualquer trabalho referencial sobre as artes no Brasil. Além de Alvarenga e Ranchinho estava na companhia uma jovem atriz de 25 anos, chamada Dolores Gonçalves Costa, mas que ficou conhecida como Dercy Gonçalves. No grupo de músicos um negro forte, que era flautista, saxofonista, compositor, arranjador e se chamava Alfredo da Rocha Vianna Filho, mas já era conhecido como Pixinguinha. Dois anos depois da companhia inaugurada foi contratada uma jovem de apenas 16 anos, chamada Vicentina de Paula Oliveira, mas que já se apresentava artisticamente como Dalva de Oliveira. Neste mesmo ano Francisco José Freire Júnior, mais conhecido como Freire Júnior, estreou na Casa de Caboclo com a revista “Carnaval do sertão”, de autoria de Duque.
 
O nordestino mais comentado no Rio
 
Em uma entrevista ao jornal “Diário da Noite” (Ed. de 5/7/1933, pág. 3), Duque comentou que seu sucesso em terras estrangeiras se devia muito ao nosso folclore, as características das raízes do Brasil, mas que para ele era muito pouco conhecido pelo público brasileiro em geral. Por isso a razão de criar aquela companhia teatral. Para Duque, tudo que fosse regional e chamasse atenção deveria ser apresentado na Casa do Caboclo. E se havia algo que vinha do Nordeste e repercutia com força nos jornais cariocas, eram as ações do cangaceiro Lampião e seu bando.

Antônio Lopes de Amorim Diniz Miranda, o Duque.
Antônio Lopes de Amorim Diniz Miranda, o Duque.

Mesmo atuando em uma região onde a infraestrutura era quase nada, as comunicações precárias, o apoio do Governo Federal mínimo, as peripécias e façanhas de Lampião eram publicadas quase diariamente em alguns periódicos cariocas.
 
O nome de Lampião tomou outra dimensão no Rio quando, no primeiro semestre de 1931, o capitão do Exército Carlos Chevalier, piloto da Aviação Militar, decidiu criar uma expedição militar ao interior nordestino. Pensava em utilizar aviões e aparato bélico moderno para caçar e matar o “Rei dos Cangaceiros”. Esta pretensa ação militar causou muito estardalhaço na imprensa e no meio do povo. Logo voluntários esbravejando muita valentia apareciam nas páginas dos jornais querendo pegar em armas. O negócio teve tal alcance que o plano foi apresentado a Osvaldo Euclides de Sousa Aranha, então ministro da justiça. Homem inteligente e capaz, mas certamente por ser gaúcho de Alegrete e desconhecer o sertão nordestino, Aranha caiu como um verdadeiro pato nesta maluquice desenvolvida pela mente necessitada de holofotes de Carlos Chevalier[5].
 
O inusitado plano encheu as páginas dos jornais cariocas, mas jamais saiu do papel para a ação prática. O capitão se tornou motivo de piada e Lampião se tornava cada vez mais conhecido na Capital Federal. Com um nome tão popular entre os cariocas, logo Lampião e o cangaço seriam atrações na Casa do Caboclo.
 
Lampião Vem Para a Festa

A peça foi promovida e dirigida por Duque. No final de agosto de 1933 ele divulga na imprensa que em breve estrearia “Lampião chegou ao arraiá”.

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A primeira apresentação ocorreu no sábado, 26 de agosto. Segundo os jornais cariocas o autor e diretor buscou explorar “a popularidade trágica do célebre cangaceiro nordestino”, mas sem esquecer o lado cômico, reservando aos espectadores “uma surpresa engraçadíssima” durante as cenas. 

Infelizmente os jornais não detalharam como seria o enquadramento deste contraste entre “a popularidade trágica” envolvendo a figura de Lampião, com “uma surpresa engraçadíssima”. Mas pelo próprio nome da peça “Lampião chegou ao arraiá”, deveria ser uma cena que evocaria uma chegada inesperada do cangaceiro em meio a festejos juninos. Mas isso é pura especulação!

passeata
Para promover a peça a “troupe” da Casa do Caboclo decidiu realizar uma “passeata” pela Praça Tiradentes, onde se encontrava o Teatro São José, inclusive com os atores montados em alimárias. 

Pela foto (acima) existente deste evento, podemos ver que o nível de reprodução cenográfica das roupas e equipagens do grupo de cangaceiro de Lampião ficou muito a desejar.
Nesta época Lampião e outros cangaceiros já haviam sido fotografados e, aparentemente pelo sucesso da companhia teatral, o problema desta cenografia tão limitada não foi dinheiro. Provavelmente tinha mais haver com a ideia de “Lampião chegou ao arraiá” ser uma peça cômica, onde o detalhamento não merecia a devida atenção.
Conclusão
 
“Lampião chegou ao arraiá” foi, como a maioria do trabalho desenvolvido por Duque na Casa do Caboclo, um sucesso. Ela não sofre nenhum processo de censura e nem os jornais tratam das apresentações de forma negativa. Mas igualmente não trazem maiores detalhes.

Atores e atrizes da Casa do Caboclo.
Atores e atrizes da Casa do Caboclo.

Certamente este e outros espetáculos que tinham como figura central o “Rei do Cangaço” foram produzidos no Rio de Janeiro. Seguramente estas apresentações ajudaram a popularizar entre os cariocas (talvez de forma distorcida) a imagem de Lampião[6].
 
Esta popularização só tendeu a crescer nos anos vindouros da década de 1930, principalmente com o trabalho de libanês Benjamin Abrahão Botto. As fotos e o filme por ele realizado, e censurado pelo Estado Novo, de um lado ajudaram a manter na mente de todos os brasileiros a imagem de Lampião, Maria Bonita e seus “cabras”. Mas esta exposição também contribuiu para que as autoridades do regime de força de Getúlio Vargas acentuasse junto às autoridades estaduais nordestinas a necessidade do fim deste cangaceiro. Como de fato ocorreu no dia 28 de julho de 1938.

Referências 

– Para compreender melhor como era A Casa de Caboclo, ver uma representação do especial da TV Globo “Dercy de verdade” - http://globotv.globo.com/rede-globo/dercy-de-verdade/v/dercy-se-apresenta-na-casa-de-caboclo-e-e-superaplaudida/1762999/
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-77042009000100005&script=sci_arttext#tx27
http://www.dicionariompb.com.br/freire-junior/dados-artisticos
www.mackenzie.br/…/O_teatro_popular_Rio_de_Janeiro__a_cidade_ polifonica__1930-1945_.pdf - Cadernos de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, “O teatro popular: Rio de Janeiro, a cidade polifônica (1930-1945)”, artigo produzido sob a coordenação e organização de Arnaldo Daraya Contier (Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.), com a participação de Andréa Cristina Primerano,  Andréa Rodrigues, Keila Haddad de Oliveira, Nívea Lopes (Alunas do Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie).
http://www.allaboutarts.com.br/default.aspx?PageCode=12&PageGrid=Bio&item=0801M2

[1] O que se chama teatro de revista é um género de teatro, de gosto marcadamente popular, que teve alguma importância na história das artes cênicas, tanto no Brasil como em Portugal, que tinha como caracteres principais a apresentação de números musicais, apelo à sensualidade e a comédia leve com críticas sociais e políticas, e que teve seu auge em meados do século XX.

[2] José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, era natural de Maceió, Alagoas, e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho. era paraibano da cidade de Itabaiana. Formaram uma dupla caipira, ou sertaneja, e fizeram as respectivas carreiras praticamente enfocando o gênero regional. Além de cantores foram compositores, atores e humoristas. Atuaram no teatro, rádio, cinema e televisão.

[3] O Almanak Laemmert aponta que o Teatro São José possuía em 1926 a lotação de 2 frisas, 28 camarotes, 840 poltronas, 57 balcões e 30 gerais.

[4] Duque, cujo nome verdadeiro era Antônio Lopes de Amorim Diniz Miranda, era protético dental de formação, mas dedicou-se à dança, criou coreografias, compôs canções que ficaram famosas. Excelente dançarino encontrou dificuldades e, em 1906, foi para Paris. Sua habilidade no maxixe foi fundamental para o sucesso na França. Maria Lino foi sua primeira parceira na Europa, mas a parceria mais longeva foi com a francesa Gaby. Logo, Duque abriu uma escola de dança em Paris e se apresentou com sucesso na América do Norte. De volta ao Brasil, escreveu e dirigiu revistas, ensinou no Conservatório Teatral e fundou a Casa de Caboclo.

[5] Sabemos que Carlos Saldanha da Gama Chevalier é autor do livro “Os 18 do Forte”, uma coletânea sobre a vida do militar e revolucionário Siqueira Campos. Em 1 de outubro de 1927, o então 1º tenente Chevalier, realizou no Campo dos Afonsos (RJ) o primeiro salto de paraquedas no Brasil. Foi utilizado um avião Breguet 14 pilotado pelo 1º tenente Aroldo Borges Leitão e tendo como observador o capitão Átila Silveira de Oliveira.

[6] Provavelmente o teatro de revista deve ter produzido outros trabalhos com foco em Lampião e no cangaço. Sabemos que em outubro de 1938, após sua morte, foi encenada no Rio a peça “Lampeão, o caboclo máu”.

Pescado no  Tok de História

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Teatro

LAMPIÃO, a vírgula na história do Sertão


Anúncio jornalistico sobre a peça "Lampião", de Raquel de Queiroz, com o ator Othon Bastos
Anúncio jornalístico sobre a peça “Lampião”, de Raquel de Queiroz, com o ator Othon Bastos. Estes atores trabalharam na montagem desta peça realizada no Rio de Janeiro.

Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu em Fortaleza – CE e desde cedo conheceu as agruras da seca (com destaque para a grande seca de 1915, a qual inspirou sua obra “O quinze”). O sertão lhe era familiar, seus habitantes e seus costumes eram uma constante na obra de Rachel. Ela teve intensa atuação política, foi membro do Partido Comunista Brasileiro e chegou a ser presa em 1937 por suas ideias de esquerda. Foi também a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977 e uma das mais importantes romancistas do movimento regionalista de 1930, iniciado com a publicação de “A Bagaceira” de José Américo de Almeida em 1928.

A peça Lampião marca a estreia de Rachel no teatro, é também um exercício de jornalismo, pois Rachel baseou sua criação artística em uma pesquisa investigativa acerca da vida da personagem, seus costumes, suas façanhas, seus companheiros. Apesar de ser fiel à história verídica, a peça não se resume a um relato histórico da vida de Lampião, preso a uma fria narrativa dos fatos, mas é repleta de ação e emoção.

A transição momentânea de Queiroz da literatura para o teatro deu-se num contexto de carência de bons escritores das artes cênicas. A busca por talentos em outras áreas da criação artística tinha a intenção de fomentar o crescimento do teatro do Brasil na época. Uma prática um tanto criticada, pois ao creditar a um romancista uma produção teatral, há o grande risco de perder-se a noção de cenografia. Sobre essa questão, Décio de Almeida Prado (2001, p.93) afirma:
A maneira à primeira vista mais fácil de remediar a pobreza do nosso teatro será a de trazer alguns escritores para o teatro. [...] Com isso teríamos o sangue generoso do romance e da nossa mais alta poesia aquecendo as veias algo atrofiadas do teatro [...] a fórmula é tão falsa quanto atraente: não adianta a qualidade literária, desacompanhada de um mínimo de qualidades teatrais.

Lampião estreou em 1954 nos teatros Municipal do Rio de Janeiro e Leopoldo Fróes em São Paulo. Apesar das críticas, recebeu o prêmio Saci pela montagem paulista, concedido pelo jornal O Estado de São Paulo. Com cenários de Aldemir Martins (que ainda não estavam totalmente prontos no dia da estreia) e atuação de Sérgio Cardoso como Lampião, contando ainda com participações de Jorge Chaia, Vicente Silvestre e Carlos Zara, a peça foi uma aventura de banditismo, lutas e muita ação.

A cearense Raquel de Queiroz
A cearense Rachel de Queiroz

A trama da peça decorre em meio ao apogeu do cangaço, movimento surgido no Nordeste brasileiro, no início do séc. XX. O cangaceiro era, normalmente, classificado como “bandido”, pois os assim chamados “bandos” seguiam suas próprias normas, ignorando as leis estabelecidas pelo Estado. Parte dessa marginalização do cangaceiro deu-se porque este era um empecilho aos desmandos dos grandes fazendeiros, ou “coronéis” da época, que exerciam grande influência junto ao governo. Na verdade, os primeiros bandos do cangaço eram forças armadas montadas por um “coronel”, para exercer o poder, que se libertaram do jugo do seu mandante.

O sertão de Queiroz, seus encantos e críticas

A autora de Lampião recria em sua obra um ambiente já muito explorado pela literatura da época. O sertão nordestino foi cenário de muitas obras da segunda fase do modernismo brasileiro, também conhecido como período do “Regionalismo”, ou “Romance regionalista de 1930”. Os autores dessa fase uniram a análise sociológica à psicológica, buscando a verossimilhança da narração com a determinação do tempo e do espaço. Por relacionar a linguagem narrativa à realidade, foram chamados de “neorrealistas”.

Queiroz, em particular, retrata o sertão à sua própria maneira, verídica e cativante. Os diálogos de Lampião são sempre arrebatadores, “não há ninguém, no teatro brasileiro, que dialogue melhor do que Rachel de Queiroz” (PRADO, 2001, p. 94), isso porque ela exprime toda a variedade de sintaxe e riqueza de vocabulário presentes na fala das personagens.

Esta cena da peça remete a prisão de dois representantes comerciais no interior de Pernambuco. Fato que ocorreu em 1926, quando o bando de Lampião prendeu dois representantes, de duas grandes empresas, com sede em Recife. Esta prisão culminou indiretamente com o combate da Serra Grande, na zona rural de Serra Talhada, o maior combate da história do cangaço
Esta cena da peça remete a prisão de dois representantes comerciais no interior de Pernambuco. Este momento é baseado em um fato real que ocorreu em 1926, quando o bando de Lampião sequestrou dois representantes, de duas grandes empresas. Este sequestro culminou indiretamente no combate da Serra Grande, na zona rural de Serra Talhada. Este foi o maior combate da história do cangaço.

Por outro lado, as paisagens de caatinga não são facilmente adaptadas ao palco, as cenas de corridas, lutas e perseguições geralmente perdiam seu teor magnífico quando encenadas, eram reduzidas em seu potencial espetacular pelos limites do tablado. Dentre as críticas recebidas por Lampião, está a de que há certa falha quanto à manutenção da unidade espaço-temporal na peça. A trama se desenvolve sem preparação e sem continuidade, formando um conjunto de atos pouco articulados entre si. O drama simplesmente acontece, fatos seguem-se uns aos outros sem que haja conexão plausível entre eles.

Em Lampião, Rachel busca mostrar as personagens características da região do interior nordestino, seus loucos, fanáticos religiosos e bandidos. A questão do fanatismo religioso é mais aparente em A Beata Maria do Egito (QUEIROZ, 1958), montada no Teatro Serrador, no Rio de Janeiro, tendo no papel-título a atriz Glauce Rocha. A autora mostra a devoção popular aos líderes religiosos da época como Padre Cícero e Antônio Conselheiro. Na trama, em 1914, a beata Maria do Egito, recém-chegada à delegacia de uma pequena cidade do Ceará, recruta populares para se juntarem à rebelião que Padre Cícero lidera em Juazeiro.

O retrato artístico de um cangaceiro
A trama de Lampião transcorre basicamente no sertão Nordestino, é difícil especificar uma região, pois o bando de cangaceiros é nômade e vive em acampamentos no meio da caatinga. Sabe-se, porém, que Lampião realizou suas pilhagens majoritariamente nos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Alagoas.

Cangaceiro Sabino, interpretado pelo ator Roberval Rocha, despoja um inimigo morto.
Cangaceiro Sabino, interpretado pelo ator Edgar Ribeiro, despoja um inimigo morto.

Virgolino Ferreira da Silva, ou Lampião, nasceu em 1898 no Vale do Pajeú, em Pernambuco. Seu nome remete à palavra “vírgula”, parada, talvez uma profecia de que o sertão iria parar de admiração, indignação e medo por seus atos. Lampião teve uma infância comum a todas as crianças de sua classe social, aprendeu a ler e escrever, mas logo foi trabalhar ajudando seu pai, carregando água, enchiqueirando bodes, dando comida e água aos animais. Mais tarde passou aos trabalhos de gente grande: cultivava algodão, milho, feijão de corda, cuidava da criação de gado. Posteriormente tornou-se vaqueiro e feirante.

Lampião viveu num período instável, de transições de séculos (do XIX para o XX), de amadurecimento da implantação da república, das transformações ocorridas no plano estético da arte com o advento das vanguardas europeias e, posteriormente, do modernismo brasileiro.
Sua entrada para o cangaço foi quase inevitável, depois de ter o pai assassinado por questões de briga familiar com seu vizinho José Saturnino, Virgulino e seus irmãos Antônio, Ezequiel e Livino Ferreira entraram para o bando de Sebastião Pereira, também conhecido como Sinhô Pereira. Em entrevista a Otacílio Macêdo para 'O Ceará', transcrita no Diário oficial, Recife, 1995, p. 9, Lampião disse:
Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva [...] Meu pai, por ser constantemente perseguido pela família Nogueira e em especial por Zé Saturnino, nossos vizinhos, resolveu retirar-se para o município de Águas Brancas, no estado de Alagoas. Nem por isso cessou a perseguição. Em Águas Brancas, foi meu pai, José Ferreira, barbaramente assassinado pelos Nogueira e Saturnino, no ano de 1917. Não confiando na ação da justiça pública, por que os assassinos contavam com a escandalosa proteção dos grandes, resolvi fazer justiça por minha conta própria [...]

Grupo de cangaceiros jogando cartas, uma atividade bem comum nos momentos de descanso.
Grupo de cangaceiros jogando cartas. Uma atividade bem comum nos momentos de descanso dos verdadeiros cangaceiros.

O banditismo foi a forma que os irmãos Ferreira encontraram para exercer sua vingança, “procuraram no bacamarte as leis que decidissem a questão por falta de outras” (BARROSO, 1930, p. 93-94). Em 1922 o comando do bando de sinhô Pereira foi dado a Lampião, então com 24 anos. Doravante, o bando do famigerado cangaceiro só cresceria e atemorizaria as regiões por onde passava. Neste ponto dá-se o início da peça de Rachel de Queiroz.

Na única cena do primeiro quadro são apresentados alguns dos personagens principais, a ação transcorre na casa de Maria Déa e seu esposo, o sapateiro Lauro, em ponta de arruado, à margem do rio São Francisco. Logo nos primeiros momentos Maria conta a seu esposo que o bando de Lampião se aproxima da cidade, deixando-o atemorizado, pois, além do medo normal que essa notícia causaria a qualquer pessoa, Lauro era um tanto covarde, o que causava muito desprezo e até náuseas em Maria.

Insatisfeita com seu casamento e a despeito de ter que cuidar de seus dois filhos, Maria Déa manda um recado a Lampião, dizendo que viesse buscá-la se assim quisesse, para viajar o sertão e entrar para a vida do cangaço junto com ele. Eis que Lampião recebe o recado e chega à porta da casa, juntamente com seu bando, para levar Maria Déa, conforme a vontade da mesma. O bando de cangaceiros é então composto basicamente por Sabino, Antônio Ferreira (irmão de Lampião), Ponto-Fino (Ezequiel, também irmão de Lampião), Moderno (cunhado de Lampião), Corisco (ou Diabo-Louro), Volta Seca, Pai-Velho, Zé Baiano, Azulão, Pernambuco e Arvoredo. Apesar das súplicas de Lauro, Maria Déa ganha o mundo com Lampião e seu bando. Num ato de aparente misericórdia, o chefe dos cangaceiros resolve poupar a vida do pobre sapateiro.

Lampião (a esq.) vem buscar a jovem Maria Déa, interpretada pela atriz Ana Maria (do TEB-Teatro do Estudante do Brasil), ante o desespero do seu marido, o sapateiro Lauro. Na vida real o marido de Maria Déa, que seria conhecida como Maria Bonita, era José Miguel da Silva, sapateiro e conhecido como Zé Neném.
Lampião (a esq.) vem buscar a jovem Maria Déa, interpretada pela atriz Ana Maria
(do TEB-Teatro do Estudante do Brasil), ante o desespero do seu marido, o sapateiro Lauro.
Na vida real o marido de Maria Déa, que seria conhecida como Maria Bonita, era José
Miguel da Silva, sapateiro e conhecido como Zé Neném.

O segundo quadro é composto por duas cenas, a primeira dá-se num acampamento na caatinga, um local não muito bem definido, debaixo de um grande Juazeiro. Dois viajantes são interpelados por Corisco, que desconfia que eles possam ser espiões delatores. À chegada de Lampião ao local, segue-se um diálogo no qual o cangaceiro designa os dois viajantes, o capangeueiro (negociador de diamantes) e o agente de seguros, para levar um recado ao interventor de Recife, uma carta de paz. Antônio Ferreira, Pernambuco, Arvoredo e Azulão os acompanharão até a residência de seu Juventino, em Barreiros, de onde seguirão viagem para Recife. Lampião pretendia cessar as hostilidades com os, por ele chamados, “macacos do governo”, trata então de propor um acordo: ele governaria o sertão a seu modo e o interventor governaria a Zona da Mata e o Litoral.

Na segunda cena deste quadro o mesmo acampamento é o cenário, algumas horas mais tarde. Lampião e Maria Bonita dialogam, ela mostra-se consciente dos riscos desse modo de vida, cita exemplos de Pedra Bonita e Canudos, casos em que o governo superou a resistência e repreendeu as revoltas populares. Lampião, por sua vez, acha essas comparações infelizes, diz que seu padrinho, padre Cícero, o protege e que tem o corpo fechado para mau-olhado. Ele revela o motivo de ter deixado o ex-marido de Maria e seus filhos vivos: para que tenha em quem “desabafar” quando não puder mais aguentar as pressões da vida no cangaço, da paixão por sua mulher, do medo de uma traição. Chegam ao local Azulão, Arvoredo e Pernambuco, contam que em casa de seu Juventino, Antônio Ferreira foi mortalmente baleado acidentalmente. Lampião parece acreditar na história, porém manda os homens deixarem o bando e as armas e sumirem no mundo. Mas assim que eles viram as costas, desarmados, o chefe dos cangaceiros ordena que abram fogo contra os três homens que ele julga responsáveis pela morte de seu irmão.

Representação do casamento de Lampião e Maria Bonita na caatinga.
Representação do casamento de Lampião e Maria Bonita na caatinga, com o seu marido lhe suplicando que retorne ao lar. Da forma como a cena é retratada, nada disso ocorreu.
Mas enfim é teatro!

O terceiro quadro possui apenas uma cena, o cenário é o mesmo, mas foi aperfeiçoado na tentativa de fazê-lo mais aconchegante. Volta-Seca foi fazer compra na cidade mais próxima e encontra um jornal no qual saiu a repercussão da carta enviada por Lampião para oferecer paz. Na primeira página, a foto do cangaceiro, uma matéria sobre a audácia dele em achar que pode tratar o interventor de potência a potência e a promessa do governo de represália a esse “insulto”. Sabino questiona a tentativa de paz de seu líder, diz que com o governo não tem acordo, que o chefe está esmorecendo, perdendo o vigor e a liderança. Lampião vê em Sabino uma ameaça, acusa-o de subverter seu irmão, Ezequiel, e, sem hesitar, fuzila-o com três balas à queima-roupa.

Ainda no mesmo cenário de acampamento, porém desmantelado, desenrola-se a primeira cena do quarto quadro, os cangaceiros e Maria Bonita aparecem em cena feridos e exaustos. O cerco do governo estreita-se sobre o rei do cangaço, e ele sente as consequências de querer ser um “estado dentro de um estado”. Desgastados, os três últimos homens de Lampião, Ponto-Fino, Pai-Velho e Moderno procuram água e mantimentos, já escassos. Ponto-Fino vai à busca de lenha, Moderno de água. Após um breve intervalo ouve-se um tiro, Lampião e Pai-Velho correm para averiguar a origem do disparo. Chega Ponto-Fino ao local em que Maria Bonita tinha ficado sozinha. Ele passa a assediá-la, oferecendo-lhe uma hipotética vida de calmaria na cidade de Juazeiro, proclamando que será o chefe do bando e ela será sua mulher. Maria Bonita fica indignada com tais pensamentos de seu cunhado, repreende-o. Chegam Pai-Velho e Lampião, este com uma fúria nos olhos, censura o irmão por ter atirado, justificando que o Sargento Calu está em sua caça e o tiro seria um chamariz.

Ponto-Fino, ou Ezequiel, desafia o irmão, acusando-o de ter mandado matar Antônio Ferreira e questionando a morte de seu outro irmão, Livino, que não aparece na história a não ser por esta citação. Lampião, irado com a ousadia de Ezequiel, desafia-o para uma luta de faca. Segue-se a luta, da qual Lampião sai vencedor. Ponto-Fino fica muito ferido, mas não morre de imediato. Na segunda cena, mesmo cenário, cai a noite, Moderno monta sentinela, na qual é substituído pelo próprio Lampião. Em conversa com Maria, ele tenta justificar o ataque ao irmão, culpando a insolência de Ezequiel. Ela diz que pressente que o castigo está próximo, que o sangue dos inocentes reclama a vingança. Chega ao local Corisco com um pequeno bando de jovens cangaceiros, para se juntar ao Capitão Virgolino e ajudá-lo na sua retirada à grota dos Angicos.

Dez anos depois da montagem carioca da peça "Lampião", o ator Othon Bastos voltaria a interpretar um famoso cangaceiro. Desta vez seria no cinama, atuando como Corisco, no antológico filme "Deus e o diabo na terra do sol", dirigido pelo baiano Glauber Rocha.
Dez anos depois da montagem carioca da peça “Lampião”, o ator Othon Bastos voltaria a interpretar um famoso cangaceiro. Desta vez seria no cinema, atuando como Corisco, no antológico filme “Deus e o diabo na terra do sol”, dirigido pelo baiano Glauber Rocha.

No quinto e último quadro o cenário é a Grota dos Angicos, segundo o próprio capitão, o lugar mais seguro de que ele dispunha. Lampião e Maria Bonita dialogam aos primeiros sinais da luz do dia. A mulher ambiciona deixar a vida de banditismo, ir para um lugar longínquo onde jamais se tenha ouvido falar em Lampião, este, por sua vez, afirma que seria como um atestado de covardia, coisa que ele não possuía. De repente, se ouve tiros, o refúgio derradeiro de Lampião é descoberto, ele foi traído. Ele e Maria Bonita são metralhados à morte, juntamente com os outros cabras que ainda dormiam. O fim da história de Lampião coincidiu com a decadência do cangaço. A entrada para a história, infelizmente, contou com a exposição de partes de seu corpo e dos homens de seu bando em praça pública. “As famílias dos cangaceiros do bando de Lampião, após uma longa batalha jurídica, puderam dar um enterro digno a seus parentes, vítimas da sociedade da época” (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1969).

Lampião por Queiroz
A obra Lampião assemelha-se a um quadro expressionista da figura de Lampião. Em vez de imprimir, de fora para dentro, no texto a imagem que tinha do cangaceiro, Rachel exprimiu, com suas palavras, o sentimento que lhe despertava a história de vida do homem Virgolino. Porém, há algo a ser criticado na peça, a escassez de tempo que é dado ao público para que participe emocionalmente da ação. Prado (2001, p.94) afirma que:
De repente um cangaceiro qualquer, mal delineado psicologicamente, desconhecido da plateia, vem ao primeiro plano, revolta-se e Lampião o mata, antes que tivéssemos tempo de tomar pé no assunto [...] de participar emocionalmente da revolta e do crime.

Mas isso não tira o mérito da grande Jornalista, cronista, romancista e dramaturga que foi Rachel de Queiroz, nem de sua peça Lampião. O estilo da autora é inconfundível. O Lampião de Queiroz em muito se assemelha ao imperador do sertão que se conhece hoje. Apesar de seus atos violentos, tinha também um lado humano e generoso. Ao Diário Oficial, 1995, p.9, Lampião revelou:
Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede algum do meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente.

Ao mesmo tempo em que roubava e matava, dava também aos pobres, chegou a distribuir mais de um conto de réis com o povo do Juazeiro. Era desconfiado, pois tinha medo de traição por parte dos seus. “Lampião suspeitava de todos os alimentos que lhe entregavam e fazia com que fossem experimentados [...] examinava com cuidado as garrafas” (GRUNSPAN-JASMIN, 2006). Católico e devoto a padre Cícero. Lampião certa vez disse (Diário Oficial, 1995, p. 9):

Sempre respeitei e continuo a respeitar o estado do Ceará, porque aqui não tenho inimigos, nunca me fizeram mal, e além disso é o estado do padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes
O homem Virgolino ou capitão Lampião não poderia se queixar da falta de menções ao seu nome, muitos foram os contos, livros, as músicas e cordéis que contaram sua história. “Era brabo, Virgolino Lampião, mas era, pra quê negar, das fibras do coração, o mais perfeito retrato, das caatingas do sertão” (Literatura de Cordel). O rei dos cangaceiros é mais uma vez retratado nessa brilhante obra de Queiroz, dessa vez com a fibra e a força características dos sertanejos.

Publicado originalmente em – http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_19497/artigo_sobre_lampi%C3%83o,_a_v%C3%8Drgula_na_hist%C3%93ria_do_sert%C3%83o

Pesquei no Tok de História
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Falando nisso...
O Prêmio Bibi Ferreira, Edição 2012/2013 foi para:
Melhor Musical Brasileiro | "Lampião e Lancelote"
Melhor Figurino | Marcio Vinicius - "Lampião e Lancelote"
Melhor Ator Revelação em Musicais | Daniel Infantini - "Lampião e Lancelote"
Foto: João Caldas
O encontro entre o cangaceiro nordestino e um dos cavaleiros medievais da Távola Redonda do Rei Artur se transforma em um duelo neste musical adaptado por Braulio Tavares do livro de Fernando Vilela. Lampião (Daniel Infantini) e Lancelote (Leonardo Miggiorin) disputam quem faz o melhor repente. A trilha sonora foi composta por Zeca Baleiro. Com Cássio Scapin, Luciana Carnieli, Vanessa Prieto, Ale Pessoa e Tarifa de Souza, além dos músicos Bruno Menegatti e Ana Rodrigues.
Informou: Sociedade do Cangaço