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terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Caldeirão das almas"

Estórias extras 

Quem nunca sentou de noite no alpendre de um sitio lá no interior pra ouvir de um avô ou parente qualquer aquelas inesquecíveis e "traumáticas" estórias de "malassombro", lobisomem, mula-sem-cabeça, etc. Talvez não entenderá a graça do pequeno artigo. Mas só pra deixar claro: Não estamos pregando crença no sobrenatural.




No fim das palestras ocorridas no segundo dia do Cariri Cangaço 2010 me aproximei para acompanhar algumas entrevistas com o senhor Raimundo Batista de Lima, 65 anos, zelador do sitio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, zona rural de Crato-CE.


Seu Raimundo mora ali há 14 anos numa casa cedida pela prefeitura. Não é descendente de seguidores do beato Zé Lourenço. Mas tinha duas primas que eram viúvas de fanáticos. Estes morreram durante o bombardeio aéreo na Serra dos cavalos.

Fiz uma rápida pergunta ao seu Raimundo à respeito de Assombrações! Na certeza de ouvir um daqueles causos que só tem graça de noite - se é que o mundo dos mortos ainda assusta as pessoas diante do nosso atual cotidiano de violência.



E ouvi: Ele nos conta com firmeza no olhar que... nunca viu... mas que era comum em noites esporádicas ou até durante o dia ouvir gritos de dor, choro de crianças, sons de lenha sendo cortada nos fundos da sua casa. No dia seguinte ele mesmo ia checar o resultado do serviço do misterioso lenhador e... nada encontrava. As árvores estão sempre todas intactas.

Além de dois locais que ele desafia os visitantes mais afoitos: Descerem até o caldeirão à noite ou ir até um certo “Pé de juá” existente na mata próxima ao redor do caldeirão.

Ele conta que certa vez recebeu visita de uns espíritas que após ouvir o mesmo relato desejaram ir até a misteriosa ávore preferencialmente à meia noite, mas que precisariam dele como guia... o velho Raimundo... dispensou o cachê,  e justificou:
- Respeito muito os donos do lugar, eu aponto o caminho, e quem quiser que vá sozinho.
A doutrina do espiritismo Kardecista explica que: "Quando a passagem se dá de maneira violenta, com muito ódio envolvido, a pessoa desencarnada raramente se desligará do mundo material. O ódio será um elo de ligação com quem provocou mal a esse desencarnado, juntamente com sua sede de vingança e de justiça, o tornará obsessor, irá perturbar a mente e o espírito do(s) encarnado(s) que lhes causou mal. Além de que esse ódio e o ato cometido se tornará uma maldição eterna, e que ambos deverão passar por provas, por sucessivas reencarnações, até que o perdão surja". Fonte: Diário da Tereza

A maioria das centenas de vítimas foram enterradas ali mesmo, nos fundos da igreja e na mata fechada que circunda o palco de uma das maiores tragédias brasileiras.

sábado, 13 de março de 2010

Até hoje procuramos

A Misteriosa Lagoa do Mel 
Por: Manoel Severo 

Desbravadores da Lagoa do Mel
Aproveitando uma pequena pausa em nossas andanças aqui pelo Distrito Federal, vou trazer para todos os amigos, um dos episódios mais marcantes e hilários de nossa visita a Paulo Afonso, ainda no começo desta mesma semana; como diz o Senador Mão Santa, do Piauíiiiiii: "Atentem bem!"
 
O Mistério da Lagoa !!!!
 
Era a terça-feira, segundo dia do Seminário Internacional de Paulo Afonso, toda a caravana de pesquisadores almoçava por volta das 13 horas, então propuz a todos uma visita ao local onde foi morto o irmão mais novo de Virgulino, Ezequiel; no fogo; como João de Sousa Lima nos fala: da Lagoa do Mel. Pois bem, de pronto quase todos, com exeção de Ângelo Osmiro e Paulo Gastão, que iriam tirar uma soneca, aceitaram o desafio de ir até o local, que não é muito distante do centro de Paulo Afonso. 

Marcamos para sair perto das 15 horas, mas... não sabíamos como chegar e João de Sousa não podia nos acompanhar; estava com um grupo de alunos com um vídeo sobre Maria Bonita. Aqui começou o nosso suplício, explico: Sua excelencia João de Sousa fez um "Mapa" e determinou um guia, Rubinho Lima, que disse no momento: "Conheço como a palma da mão".....É mole!!!!

E la se foi a caravana em busca da Lagoa do Mel e do local onde foi morto Ezequiel. Eu dirigindo, Alcino Costa ao meu lado e atrás mais quatro: Danielle Esmeraldo, Kiko Monteiro, Ana Lúcia e o famoso guia: Rubinho. João falou que era logo perto, era só pegar a rodovia que vai para Jeremoabo e quando passar de uma plantação de bananeiras, "entra a esquerda, tem uma pedra, e entra a direita, aí vão ver duas pedras:pronto é lá!!" Queria só saber como é que fomos "cair nessa", rsrsrs.


Em busca do elo perdido


Eleitor de Alcino Costa desde 1914


Enigmático Mapa de João de Sousa Lima
 
Depois de rodar cerca de 420 horas, contar quase todos os pés de bananeira da rodovia, fazer o senso de todas as entradas "à esquerda", examinar cada pedra a beira do caminho, e entrevistar 345 pessoas; que em todos os casos, nunca tinham ouvido falar da tal Lagoa do Mel ou tinham se mudado para ali há pouco tempo, até um antigo eleitor de Alcino, quando o mesmo era prefeito em Poço Redondo em 1914, encontramos; mas, a Lagoa do Mel, estava encantada!!

Nosso Guia Rubinho Lima, a beira do desespero confessava: "Estamos perdidos", na verdade, ele não sabia nem por onde começar. Olhou o espetacular mapa de cima para baixo, de baixo para cima, de lado, ao contrário, não tinha jeito... E tem mais, quando perguntei a ele onde, no mapa, ficavam as famosas bananeiras das quais falou João, ele candidamente me apontou: " Ali Severo, naquele verdinho"!!!! Meu Deus Rubinho, que verdinho meu amigo, o Mapa era em preto e branco!! Tivemos que admitir, nosso guia estava além de perdido, louco!

Alcino achou ótimo, mais uma polêmica para suas teses: "Olha não sei se Ezequiel morreu mesmo, porque realmente ninguém pode encontrar essa tal Lagoa do Mel, dessa forma, também naquela época não encontraram"!


Kiko Desiludido!


Rubinho apelando para a comunidade da vizinhança...


Constatação: Não convidem Rubinho Lima para Guia!

Kiko Monteiro com aquele jeitão maravilhosamente professoral declarou: "Calma pessoal isso acontece, não é a primeira vez que nos perdemos..." Eu, simplesmente, conclui que João de Sousa armou uma grande armadilha para todos nós e só avisou ao Vilela, que de última hora desistiu de nos acompanhar... João queria manter em segredo a famosa Lagoa do Mel. É um fato.
Naquela altura já estávamos procurando qualquer lagoa; do mel, do fel, lago, açude, riacho, poça d'água, qualquer coisa servia; mas, o máximo que achamos foi uma maravilhosa plantação de melancias. Bem, já estava anoitecendo, tínhamos as palestras da noite, precisávamos voltar e assim o fizemos, mas determinamos uma condição: Rubinho estava proibido de abrir a boca por todo o final do dia.

Moral da história: João de Sousa é um péssimo cartografo, Rubinho é um desastre em guia e nós, lamentavelmente: somos uma catástrofre como desbravadores do sertão.


Lagoa do Mel, nunca mais!!!

Manoel Severo do alto de seu Cariri Cangaço

sábado, 29 de agosto de 2009

Blog parceiro

Conheça o "Vitrine da Armaria"

Senhores, já anexamos à nossa cartucheira o link deste excelente espaço para quem deseja saber mais sobre armas e munições utilizadas na era do cangaço tanto por Cangaceiros quanto policiais. Mais uma vez recomendamos à pesquisa e artigos do confrade Fábio Carvalho " Senhor das armas" (Foto) que nos trouxe material inédito e pouco abordado nos livros do gênero. Vitrine da armaria? É essencial.
Clique aqui

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Contos

O DIA EM QUE LAMPIÃO ENFRENTOU "JOHN WAYNE"



Amanhecia. Um belo dia de céu azul sem nenhuma nuvem. Daqui a pouco o sol estará totalmente fora da serra. A noite fora fria, mas o dia prometia muito calor na pequenina Coité da Serra, perdida no Sertão seco e árido de Pernambuco. Hora para os cangaceiros, à frente Virgulino Ferreira, tomarem de surpresa a cidade. Nenhum aviso nem de um lado de do outro. Naquele momento Coité dormia depois de uma noite de absoluta tranqüilidade.Mas em cada esquina, a cabeça, depois o corpo todo suado e carregado de coisas, os cangaceiros.

Eles iam surgindo de três em três caminhando com cautela e de arma na mão.Os moradores dormiam a sono solto. Ninguém para testemunhar a invasão dos cabras de alparcatas comandados por Lampião. Pisavam de mansinho, olhos arregalados e ouvidos atentos. Pelo jeito de seus rostos vinham de longe. Cada passo era medido e todos em silêncio. Falar só o gestual. Em cada mão o rifle e o dedo no gatilho pronto para qualquer emergência.

Na outra rua, o grupo que caminhava com Lampião permanecia atento cobrindo o chefe como se fosse uma criança. Mesmo assim Lampião, que vinha mais atrás, não largava o parabelum engatilhado.No pátio coberto de relva já amarelecida pastavam alguns animais domésticos. Bois magros e bodes espertos.De repente, um cachorro vira-lata atravessa aos pinotes no meio da rua, latindo. Talvez assustado com a presença dos homens estranhos e silenciosos.

Os cabras quando viram o cachorro cada vez mais afoito puseram o dedo no gatilho pronto para abrir fogo. O animal ficou só rosnando e se defendeu correndo ladeira abaixo. Bastou um dos homens de Lampião bater o pé. Passado o susto continuaram a marcha lenta e cautelosa. No fim da primeira rua descobriram o bar. A porta estava ainda fechada. No alto uma placa desbotada indicava: "bar Ponto Alegre". Na frente, o salão com as mesas e lá atrás as de bilhar. Os homens se encontravam ali com as mulheres.

Era o baixo meretrício da cidade, depois ficaram sabendo.Lampião deu o sinal verde e todos de uma só vez estavam na rua principal, em cima do "Ponto Alegre". Na outra rua, a barbearia do seu Nozinho. Adiante, a farmácia de Odilon, também proprietário da "Funerária Adeus Amigos".

A esta altura os bandidos se juntaram no pátio aguardando a abertura do bar. A sede e a fome amoleciam aqueles corpos fortes e rudes carregando armas e apetrechos comuns a eles. Mas de cinqüenta quilos no lombo. Alguns exaustos se sentaram no chão. Outros ficaram de pé seguindo o chefe.No céu azul algumas aves à procura dos alimentos.

O sol estava alto. As primeiras janelas foram abertas timidamente. As pessoas quase apareciam ao mesmo tempo, mas recuavam ao ver o movimento inusitado de cangaceiros na rua. Há anos passaram por Coité da Serra alguns cabras de Lampião. Mas de passagem apenas.

No ar, os sons dos sinos da Matriz chamando os fiéis às orações. Porém poucos se atreviam diante do pessoal armado.

O bar, finalmente, abriu. Os cangaceiros se movimentaram rápidos. Quem estava sentado pulou de pé. Sempre com o fuzil na mão. Todos se dirigiram ao "Ponto Alegre". Água e comida, a primeira ação dos forasteiros. O bar rapidamente se encheu de homens mal cheirosos e famintos.Seu Cardoso, dono do estabelecimento, recebeu os cangaceiros com muita gentileza.

Chamou Tiãozinho e ordenou alimento e água para o pessoal de Lampião. Pão, queijo de coalho, ovos, salame, conhaque e muita água da jarra, recomendou. A algazarra era grande. Coité da Serra jamais ouviu tanta gritaria. A Cidade agora pertencia aos cabras de Lampião. "E tiro só se houver precisão!" - Avisou o Capitão.

Comeram e beberam fartamente. Uns pegaram cigarro e inundaram o salão de fumaça e cheiro de álcool. A cachaça foi servida em abundância.A delegacia de polícia não abriu as portas. Os dois únicos soldados que passaram a noite de plantão foram embora - informaram. O Capitão não gostou dessa história e mandou que cinco de seus cabras fossem buscar os soldados fujões. Custasse o que custasse.

E justificou a ordem: "macaco sorto não pode ficar. É armadia!" E saíram os cangaceiros atrás dos soldados. Outros ficaram ainda no bar comendo e bebendo à vontade.Lá fora, os comentários no pé do ouvido não eram poucos. Quase ninguém na rua. Os moradores cedo devem ter saído pelos fundos de suas casas com medo de violência.

Só depois do meio dia chegaram os cabras com os dois soldados amarrados, na presença do Capitão. Depois de ouví-los, ordenou: "Bota esses dois frouxos no xadrez, sem roupa, e traga a chave pra gente!" E falou mais uma vez: "Macaco sorto é causo de baruio. E como tamo aqui sem fazê baruio deixa os home no xilindró."Os cangaceiros saíram com os presos. Lampião e seu bando deixaram o bar prometendo retornar à noitinha pra conhecer as mulheres e os homens valentes do lugar.

Anoitecia quando Lampião e seus homens retornaram para o "Ponto Alegre". Antes, Virgulino passou pelo velho cinema que só funcionava duas vezes por semana, e era a alegria de boa parte da população. Quando chegou ao Cine Rex despertou a curiosidade o filme anunciado. Um faroeste com John Wayne. Não resistiu e avisou para seu lugar-tenente: "De noite vô vê esse caubói!".E saiu com seus cabras em direção ao bar. Sentaram-se, pediram conhaque e ficaram ali conversando enquanto planejavam a viagem de madrugada que iam fazer aos sertões de Alagoas.

Bem em frente ao Cine Rex Lampião parou. Muitas pessoas, inclusive meninos entravam tranqüilamente sem pensar nos cangaceiros que invadiram a cidade. Lampião entrou com alguns dos seus cabras. O filme começou com John Wayne brigando, dando tiros, quebrando tudo para prender os bandidos. O público vibra. Chegam a bater palmas. Lampião e os cangaceiros não desviam a atenção da tela.

De repente, a cena se transforma. É Lampião e John Wayne se enfrentando num duelo de vida e morte. Lampião de punhal na mão não teme a pistola. Um avança contra o outro. Tiros. Cavalo correndo. Tumulto. Lampião derruba o caubói. A poeira sobe. Os cavalos relincham. Um inferno dantesco.

Nesse exato momento, um cangaceiro que estava sentado ao lado de Lampião percebendo que o chefe dormia, bate no seu ombro e fala: "Capitão, capitão, acorda. O filme acabou. Tá na hora de agente preparar a viaje".

O chefe acorda assustado, já com a mão no parabelum, ainda sob o efeito do sonho que tivera com John Wayne, o mais famoso mocinho do cinema, matador de índios e bandidos, mas não de cangaceiros. O pessoal que estava no cinema saía comentando as façanhas de John Wayne com os fora-da-lei de Tombstone. Perdera o bonito cavalo branco, mas ganhara o amor de Mary, a garota mais bonita filha caçula do xerife Tom Bolling.

Antes do amanhecer Lampião deixa Cuité da Serra, com seus companheiros para nova caminhada em direção do sertão alagoano, mas ainda pensando no sonho que tivera no cinema.Coité da Serra ficou para trás. Calma e sonolenta à espera de outro dia sem cangaceiros.


Texto: Fernando Spencer, cineasta, crítico de cinema e escritor pernambucano.
Charge: Gilvan Lira.

Publicados no Jornal Cultural "O Galo", da Fundação José Augusto, Natal/RN., em fevereiro de 1997)