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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Tem mais reedição na praça

Lampião: Memórias de um soldado de volante

Dentro das comemorações ao centenário do seu autor o tenente João Gomes de Lira, foi lançada no ultimo dia 13 de julho a terceira edição de suas memórias.

Nascido em 13 de julho de 1913 na Fazenda Genipapo, distrito de Nazaré do Pico – Município de Floresta/PE, viveu ali parte de sua vida. Ingressou na Polícia Militar do Estado de Pernambuco em 16 de julho de 1931, com dezessete anos de idade integrou a volante que tinha como comandante o Cel. Manoel Neto que perseguia Virgolino Ferreira da Silva, o "Lampião".

Depois do fim da campanha contra o cangaço, foi destacar nos municípios de: Afogados da Ingazeira, Iguaracy, Tabira, Carnaíba e Flores todas cidades do interior  pernambucano, onde foi delegado de polícia. Foi várias vezes ouvido pela imprensa para contar relatos da luta dos seus conterrâneos contra o bando de Lampião.

Foto: Kiko Monteiro
Enquanto vereador de Carnaíba, João Gomes de Lira escreveu este livro, narrando sua vida e suas andanças em busca de cangaceiros. A primeira edição foi impressa em único volume e lançada no Recife, em 1990, pela Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco e Companhia Editora de Pernambuco.

João Gomes de Lira faleceu no dia 4 de Agosto de 2011, na cidade do Recife, depois de complicações de saúde que resultaram na sua morte, aos 98 anos.

A sua versão dos acontecimentos, estão publicados agora em dois volumes, somando 700 páginas.

Acompanhando uma troca de comentários num portal de noticias da região do Pajeú percebi que contestava-se a real participação do militar nas trincheiras contra Lampião. A mim (e certamente a outros companheiros), em visita realizada em 2007 o Ten. João Gomes foi enfático em dizer que só esteve diante do Rei do cangaço "uma única ocasião".
Foi no dia 6 de setembro de 1931 na Fazenda Aroeira, perto do povoado Riacho (hoje município de Paulo Afonso). Manuel Neto era o tenente e David Jurubeba, o sargento. João Gomes um novato, recém-alistado. Não teve sucesso no combate porque seu fuzil apresentou um problema. [1]

E que nunca matou cangaceiro nenhum, e não há nada que o contradiga nas páginas do livro, mas que alguns pesquisadores (tomados pela emoção de estar diante de uma personagem viva) propagaram por conta própria que ele era tão valente quanto Mané Neto.

O que não diminui em nada, muito pelo contrário lhe dá toda credencial para as narrativas que você vai encontrar no livro. João Gomes nasceu na época em que os trovões eram roucos de se ouvir, foi filho, primo, sobrinho... de combatentes. O que ele não viu e viveu "ouviu" atentamente e conservou tanto na memória quanto em diários improvisados em cadernos. Com centenas de relatos de familiares, superiores e colegas de farda sobre a saga do seu conterrâneo mais ilustre. E quantos de nós precisamos destas memórias? Eis aí a obra que é considerada por escritores dos mais respeitados como um referencial indispensável na biblioteca.

[1] Informações de Sergio Augusto Souza Dantas

Outros dados em: FloresPe.net e Cauê Rodrigues

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Serviço




Os dois volumes somam 700 páginas. Preço R$ 115,00 (Cento e quinze reais) com frete incluso, para todo o Brasil. Onde comprar? Com o revendedor oficial Professor Pereira, através do E-mail franpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 9911 8286 (TIM) - (83) 8706 2819 (OI). Aproveitem nossa oferta de relançamento e comparem com preços de edições usadas que não saem por menos de duzentos reais em outros sebos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Homenagem

Há 100 anos nascia João Gomes de Lira

Ten. João Gomes de Lira, um valoroso soldado das forças volantes que combateram Lampião. Um autêntico Nazareno, fez parte de um dos momentos mais sangrentos no nordeste brasileiro.
Se fosse vivo iria fazer 100 anos. Durante quinze anos fui amigo e estive com esse valente sertanejo inúmeras vezes.

Sábado, 13 de julho uma grande homenagem a sua pessoa será realizada em Nazaré do Pico - Floresta Pernambuco, sua terra natal.

Fica aqui registrada essa singela homenagem a esse bom amigo que tantas vezes me recebeu em sua casa na companhia de seu fiel escudeiro Paulo.



Att Aderbal Nogueira.
Documentarista, Fortaleza/CE

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Nazaré em festa

Centenário do tenente João Gomes de Lira



Dia: 13 de julho de 2013 em Nazaré do Pico - Floresta /PE

14:00 - Mesa Redonda ( Clube Recreativo)
            Tema: Nazaré do Pico: Historiando as Raízes do Cangaço

           Palestrantes - Paulo Moura - Recife/PE
                                Antônio Vilela Souza - Garanhuns/PE
                                João de Sousa Lima - Paulo Afonso/BA
 

Lançamento da 3ª edição do livro "Lampíão - Memórias de um Soldado de Volante", de autoria do Ten. João Gomes de Lira

 16:30 - Merenda

 17:00 - Inauguração do Busto / Apresentação de grupos culturais

 19:00 - Missa (Capela Nª Sra. da Saúde)

 22:00 - Festa na praça: Show com Josildo Sá.

Um agradecimento especial à Prefeitura Municipal de Floresta pelo apoio ao evento.



Att.
Lemuel Rodrigues
Presidente

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Centenário de João Gomes de Lira

Confira a Programação



Dia: 13 de julho de 2013 em Nazaré do Pico - Floresta /PE

14:00 - Mesa Redonda ( Clube Recreativo)
            Tema: Nazaré do Pico: Historiando as Raízes do Cangaço

           Palestrantes - Paulo Moura - Recife/PE
                                Antônio Vilela Souza - Garanhuns/PE
                                João de Sousa Lima - Paulo Afonso/BA
 

Lançamento da 3ª edição do livro "Lampíão - Memórias de um Soldado de Volante", de autoria do Ten. João Gomes de Lira

 16:30 - Merenda

 17:00 - Inauguração do Busto / Apresentação de grupos culturais

 19:00 - Missa (Capela Nª Sra. da Saúde)

 22:00 - Festa na praça

Um agradecimento especial à Prefeitura Municipal de Floresta pelo apoio ao evento.



Att.
Lemuel Rodrigues
Presidente

sexta-feira, 15 de março de 2013

Documentário

Cangaço, Sangue e Glória - Conflitos e Contradições

Documentário que resgata a história do fenômeno cangaço e do mito Lampião. Depoimentos de pesquisadores e pessoas que participaram desse período tão importante para história do Nordeste e do Brasil.

Autores: Hermes Pena, Amilton Leandro e Diana Vasconcelos.



Pescado na página do YouTube de k060879h

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Urgente!

REEDIÇÃO DE LIVROS DO CANGAÇO

por professor Pereira*

A bibliografia do cangaço e temas afins é extensa e diversificada. São centenas de livros à disposição dos estudiosos, pesquisadores, colecionadores e admiradores da história e cultura nordestina. Mas, infelizmente, dezenas destas obras não são mais encontradas nas livrarias e sebos especializados.

São consideradas esgotadas e, em alguns casos, raras. Quando são colocadas à venda, estão com preços exorbitantes, totalmente fora da realidade financeira da maioria das pessoas que desejam adquiri-las.

Faço, por meio deste artigo, uma indagação pertinente e natural: por que esses livros não são reeditados? Não é o meu propósito procurar identificar e analisar os fatores que dificultam ou impedem essas reedições, mas contribuir, positivamente, com este processo, para que o resultado seja promissor.



Aproveito a oportunidade para conclamar, solicitar aos autores, herdeiros de autores já falecidos ou quem esteja na posse do direito destes trabalhos, que procurem reeditá-los, pois são obras extraordinárias, que demandaram milhares de horas de leituras, pesquisas, viagens e entrevistas, com muito sacrifício, principalmente, em épocas mais remotas, quando os autores não dispunham de meios de transporte, comunicação, e a internet, que podemos utilizar atualmente.



Então, não se justifica a ausência destas relíquias, na bibliografia disponível do cangaço. Faço este apelo, em nome de milhares de pessoas que necessitam dessas obras para a efetivação das suas pesquisas, descobertas e fundamentações teóricas de monografias, dissertações e teses, no Brasil e mundo afora.



Os sites, blogs e comunidades virtuais ligados ao fenômeno do Cangaço, como: SBEC- Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, O Cariri Cangaço, O Lampião Aceso, Cangaço em Foco, Tok de história, Comunidade Lampião, Grande Rei do Cangaço entre outros, que estão sempre focados e à disposição da expansão do estudo da história e cultura nordestina, divulgando os lançamentos de edições e reedições de livros, revista e artigos referentes ao assunto, o que facilita o acesso deste material pelos pesquisadores, colecionadores e interessados no tema. Como consequência natural da utilização destas ferramentas, observo um crescimento considerável de pessoas interessadas no estudo do Cangaço. Além do uso da Internet na distribuição eficiente desses livros, o que contribui e incentiva os autores a editarem e reeditarem suas obras.



Tomo a liberdade e a iniciativa de citar algumas obras, por ordem cronológica, que gostaria de vê-las reeditadas e espero que os leitores acrescentem, por meio de seus comentários, outros trabalhos esgotados e raros aqui não relacionados:   
* Solos de Avena 1905, Alício Barreto;  
Os Cangaceiros, Romances de Costumes Sertanejos 1914, Carlos Dias Fernandes;  
Heróes e Bandidos 1917, Gustavo Barroso;  
Beatos e Cangaceiros 1920, Xavier de Oliveira;  
Ao Som da Viola 1921, Gustavo Barroso;  
A Sedição de Joazeiro 1922, Rodolpho Theophilo;  
Lampião, sua História 1926, Érico de Almeida;  
* Prestes e Lampião 1926, Ten. Adaucto Castelo Branco;  
Lampeão no Ceará, A Verdade em Torno dos Fatos 1927, Moysés Figueiredo;  
Padre Cícero e a População do Nordeste 1927, Simões da Silva;  
Os Dramas Dolorosos do Nordeste 1930, Pedro Vergne de Abreu;  
Almas de Lama e de Aço 1930, Gustavo Barroso;  
O Flagello de Lampião 1931, Pedro Vergne de Abreu;  
O Exército e o Sertão 1932, Xavier de Oliveira;  
Sertanejos e Cangaceiros 1934, Abelardo Parreira;  
Como dei Cabo de Lampeão 1940, Ten. João Bezerra;  
Lampeão, Memórias de um Oficial Ex-comandante de Forças Volantes 1952, Optato Gueiros;
Caminhos do Pajeú 1953, Luís Cristóvão dos Santos;  
Cangaceiros 1959, Gustavo Augusto Lima;  
Rosário, Rifle e Punhal 1960, Nertan Macedo;  
Serrote Preto 1961, Rodrigues de Carvalho;  
** O Mundo Estranho dos Cangaceiros 1965, Estácio de Lima;  
Lampião e Suas Façanhas 1966, Bezerra e Silva;  
Lampião, O Último Cangaceiro 1966, Joaquim Góis;  
Sertão Perverso 1967, José Gregório;  
Lampião, Cangaço e Nordeste 1970, Aglae Lima de Oliveira;  
Cinco Histórias Sangrentas de Lampião, Mais Cinco Histórias Sangrentas de Lampião (dois livros) 1970, Nertan Macedo;  
Vila Bela, Os Pereira e Outras Histórias 1973, Luís Wilson;  
Terra de Homens 1974, Ademar Vidal;  
*Bicho do Cão, Canga, Cangaço, Cangaceiro 1975, José Cavalcanti;  
Cangaço: Manifestação de Uma Sociedade em Crise 1975, Célia M. L. Costa;  
Figuras Legendárias 1976, José Romão de Castro;  
A Derrocada do Cangaço 1976, Felipe de Castro;  
* Lampião e a Sociologia do Cangaço 1977, Rodrigues de Carvalho;  
Antônio Silvino, O Rifle de Ouro 1977, Severino Barbosa;  
Capitão Januário, a Beata e os Cabras de Lampião 1979, José André Rodrigues (Zecandré);  
Gota de Sangue Num Mar de Lama, Visão Histórica e Sociológica do Cangaço 1982, Gutemberg Costa;  
Volta Seca, O Menino cangaceiro 1982, Nertan Macedo;  
Sangue, Terra e Pó 1983, José de Abrantes Gadelha;  
Lampião, as Mulheres e o Cangaço 1984, Antônio Amaury C. de Araújo;  
Lampião e Padre Cícero 1985, Fátima Menezes;  
Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil 1985, Frederico Pernambucano de Mello (Será lançado a 5º edição desse livro, agora em janeiro/2012); 
A Vida do Coronel Arruda, Cangaceirismo e Coluna Prestes 1989, Severino Coelho Viana;  
Lampião, Memórias de Um Soldado de Volante 1990, Ten. João Gomes de Lira;  
Nas Entrelinhas do Cangaço 1994, Fátima Menezes;  
Lampião e o Estado Maior do Cangaço 1995, Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena;  
Cangaço: Um Certo Modo de Ver 1997, Vera Figueiredo Rocha;  
Amantes e Guerreiras: A Presença da Mulher no Cangaço 2001, Geraldo Maia;  
Histórias do Cangaço 2001, Hilário Lucetti;  
Lampião e o Rio Grande do Norte, a História da Grande Jornada 2005, Sérgio Augusto de Souza Dantas.
*    Datas pesquisadas e inseridas por Lampião Aceso. 
* * Obs. Algumas dessas obras já foram reeditadas, mas, mesmo assim, estão esgotadas. Está lançado o debate. Vamos à discussão construtiva, formando um elo de entendimento, consultoria, convergência na direção do resultado positivo, e espero que possamos colher os frutos num futuro próximo, com novos livros no mercado.

Votos de Saúde e paz a todos! 
Francisco Pereira Lima
Cajazeiras - PB

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*Cumpadi Pereira é Advogado, Professor, Membro da UNEHS, SBEC e Conselheiro do Cariri Cangaço. Contato: franpelima@bol.com.br

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Culminando com a Missa de 7º dia

João Gomes, Lira que inspira e eleva

Por Aroldo Ferreira*

O cangaço, com suas expansões e reinvenções, possui seus mitos, contribui para um entendimento maior do Sertão, influi na dinâmica de nossas sensações e repercussões dos carrascais, dilui o tempo em nós mesmos, traz atemporalidades, constatações, dúvidas, conceitos, indeterminações.

No chão adusto e aduno aunado de macambiras e marmeleiros, cangaceiros percorriam distâncias variadas, corriam das Volantes, dos próprios fantasmas. Combatê-los, detê-los, vencê-los era tarefa indigesta, gesta de percepções inusitadas, atadas a senões e agouros, estouros de parabéluns e fuzis, vindouros momentos carregados de tensões e temeridades, distorções e desentendimentos.

Os lutos, abruptos, eram comuns. Os vultos, em insultos variados, varriam veios e vaus, vociferavam, vinham de vinditas e vazios, vertiam escuridões e temores.Comungava-se de receios e aperreios, constatava-se a precariedade da justiça, o apego à terra do catingueiro, a falta de estradas, o ensino ainda por se tornar revelador, questionador.

O Sertão era os grandes espaços, os traços de seus rios temporários, a mistura da lonjura com a dura realidade de uma época de textura obscura, insegura, saracura cantando e anunciando agruras, sepulturas. Viviam-se preocupações, ocupações determinadas pela ausência de perspectivas naquele mundo ressequido, colhido por solavancos e surpresas desiguais.

Os cangaceiros atormentavam, fomentavam instabilidades, debilidades constantes. Errantes, penetrantes, farfalhantes, apareciam e teciam dores, clamores, suores enviesados. Conduziam-se ferindo corpos, percepções. Habitavam as descontinuidades, as perplexidades.

João Gomes de Lira, morto há poucos dias, possuía a memória de quem, sendo perseguidor de cangaceiros, compreendeu suas cruas insinuações, seus breus e alucinações. Nazareno, sereno, conversava compactuando de cadências e coerências, conservava concepções claras, conhecia a força dos umbuzeiros e facheiros, das umburanas e umburuçus, das quixabeiras e catingueiras no universo sertanejo. Penetrou, ainda jovem, na participação de lutas incansáveis, testemunhou a morte de parentes, combatentes valentes, vivenciou as circunstâncias alucinatórias e vexatórias do cangaço. Foi um guerreiro na busca de uma afirmação de seus propósitos e sonhos, conheceu o peso das fatalidades, o intrincado movimento dos cangaceiros no solo sagrado do Sertão.

João Gomes some da face da terra, mas não de nossas almas, continua a espalhar sua canção de cordialidade e humildade, nos mostra que a vida, com sua fragilidade e efemeridade, constrói destinos nobres, abertos aos grandes vôos, aos entôos das peiticas e das seriemas, às percepções gentis, unidas a singularidades e vastidões.

O tenente João e o autor desta homenagem

Saber respeitá-lo, admirá-lo é, antes de tudo, uma forma de compactuar de sua sabedoria e comunhão com o cosmos, homem simples, filho do Sertão, de uma Nazaré que o viu nascer e percorrer caminhos que o tornaram tenaz, capaz de percorrer os carrascais atrás de bandoleiros e fluir na comunhão intrincada dos espinhos dos coroas-de-frade e xique-xiques. Tomba o grande lutador, a vida segue, os instantes consolidam os enigmas do Sertão, cantam os pássaros-carão e os joões-corta-pau, as baraúnas e aroeiras recriam lumes e larguezas, o cangaço trama suas histórias e infinitos, espaços e concepções.

Petrolina, 07 de Agosto de 2011
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*Aroldo Ferreira Leão é pesquisador de temas vinculados ao Sertão. Possui 130 livros publicados, tem participação em 22 antologias. É professor da UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). Ainda este ano estará publicando o livro Lampião: Um Estudo de Buscas e Essências. Mais informações sobre o autor estão na home page: www.aroldoferreiraleao.com.br .

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tenente João Gomes de Lira em vídeo inédito

Amigos.
 
Venho com profunda tristeza fazer uma justa reverência a um guerreiro das caatingas.
 
Nessa registro o Ten. João Gomes cantando presta também uma homenagem a outro grande guerreiro das matas nordestinas, Virgulino Ferreira.
Sim, muito embora de lados opostos, João Gomes soube reconhecer o valor de um verdadeiro líder.
 
Ao final da exibição ele diz o que Lampião representou para o povo nordestino e, em especial, ao povo de Nazaré.



Meu querido amigo, descanse em paz.
Meus pêsames à família Lira e especialmente ao seu fiel guardião e companheiro Paulo. 

Atenciosamente 
Aderbal Nogueira.  

Mais uma perda, mais uma fonte que seca

Informamos com pesar o falecimento do Tenente João Gomes de Lira, ex-volante da força de Nazaré

Um dos últimos remanescentes dos lendários "Nazarenos" morreu ontem, quarta-feira, as 23:00H no Hospital da Policia Militar da capital pernambucana aos 98 anos.

Nascido em 3 de julho de 1913 na Fazenda Genipapo, distrito de Nazaré do Pico – Município de Floresta/PE. A sua casa, sempre foi muito procurada por pesquisadores até do exterior.

Ali estava a farda dos seus tempos de combatente e, guardada a sete chaves, a sua Winchester 44, aos cuidados do guardião e amigo Paulo e do seu filho Rubelvan Lira. Fotos do tempo de militar da ativa, lembranças do pai o delegado Antônio Gomes Jurubeba diplomas e homenagens estão espalhados pelos móveis e paredes da casa.

O velho tenente sempre estava debaixo de uma frondosa árvore e até quando sua memória lhe permitiu contava, sem nenhum rodeio a sua versão dos acontecimentos, que estão publicados em seu livro dividido em dois volumes, com mais de 700 páginas com o título: “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”. 


Desde 2007 ano em que o conheci, reclamava de seu estado de saúde: “Minha saúde não anda boa, embaraçada. Diabetes, nervos, coração” mas Nazareno não fugia a luta e logo começava a relatar o que viu nesses anos de luta.

Falava com detalhes da chegada de Lampião, Antônio e Livino, distribuídos estrategicamente no lugarejo resultando no começo da questão em 1917. Sobre o casamento de Licor, com quem Lampião tinha namorado mas veio para o seu cerimônia e teria carregado a sanfona e com isso acabando a festa.

Da morte da mãe de Lampião, Maria Lopes “de aperreio” e do assassinato do pai José Ferreira dos Santos.

E os depoimentos continuavam por quase uma hora, com episódios de enfrentamentos da força policial contra os cangaceiros.


Em 16 de julho de 1931, com 18 anos entrou na carreira militar e já seguiu para a Bahia para atender um pedido de apoio do governo baiano. Seu comandante era o parente e compadre Manoel de Souza Neto.

Foi vereador na cidade de Carnaíba. Delegado em Afogados da Ingazeira, Flores entre outras cidades da Região do Pajeú, sempre prestando relevantes serviços ao Estado de Pernambuco.

Com esta partida, do amigo e confrade da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Tenente João Gomes de Lira, que nos consta, restam apenas dois daqueles bravos Nazarenos que combateram o Cangaço de Virgolino Lampião:

Manoel Cavalcanti de Souza - Neco de Pautília, que reside em Floresta-PE, e Herculano Nogueira, residente em Recife, PE.

João Gomes fará parte de um documentário que está sendo finalizado pela TV Mandacaru de Paulo Afonso, BA. Enquanto isto leia: - "Lampião – Memórias de um Soldado de Volante" – Vol. I e II – editado pela Prefeitura Municipal de Floresta-PE - 2007)

O sepultamento acontecerá às 09h de amanhã dia 05 de agosto, no Cemitério de Nazaré do Pico onde repousam familiares e outros bravos companheiros de armas.


Texto com base nas informações de Ângelo Osmiro; Deborah Ferraz ; Antonio Galdino; Euclides Ferraz Neto "Netinho"; Kydelmir Dantas e João de Sousa Lima.


À família do bravo tenente João, nossas mais sinceras Homenagens. 
Vai com Deus, Guerreiro! 

Att Kiko Monteiro 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Eleitor João Gomes de Lira? Presente! 

Por Inês Jurubeba (prima)
  
O velho guerreiro e a prima Inês.
97 anos bem vividos, intensamente vividos. Nunca se acomodou. Entrou para a polícia ainda adolescente, exclusivamente, com o fim de combater Lampião e o cangaço. Com o fim do bando de Lampião, continuou na polícia e foi um militar de carreira da melhor espécie, até quando deu baixa com honra por seus feitos. Aposentado, tornou-se vereador em Carnaiba, tendo criado a bandeira do município em 1977. Correu estes Sertões, com um gravador na mão, buscando histórias de combates e dos modos de vida dos cangaceiros e da volante policial. Compilou as informações e transformou essas histórias no livro Lampião: Memórias de Um Soldado da Volante; cuja 1° edição se deve a Dona Madalena esposa do inesquecível governador Miguel Arraes. Esse livro é referência até para pesquisadores estrangeiros.

Nesse meio tempo, ainda encontrou tempo para homenagear o compositor Dr. José Dantas, seu amigo de juventude. Com a ajuda de amigos do compositor, inclusive Luiz Gonzaga, promoveu uma grande festa e mandou erguer um busto do compositor em praça pública de Carnaiba, o que motivou a realização anual da Festa de Zé Dantas, sendo a maior festa de rua de Carnaiba até os dias de hoje.

Neste ano de 2010, com seus 97 anos, ainda escreveu o livro intitulado Memórias, isto só foi possível porque tem uma memória privilegiada, além de um bom humor incrível e contagiante.

Outro grande feito seu, foi vir de Nazaré do Pico, município de Floresta, até Carnaiba nos 1° e 2º turnos das eleições, só para exercer o direito cidadão de decidir a vida e o poder do Estado através do voto.

E deve estar feliz pois seus candidatos foram eleitos tanto no nivel estadual como no federal.

Ainda quando vereador, desmembrou a câmara de vereadores de Carnaiba, tornando a edilidade independente, equipou-a com os necessários para seu funcionamento e moralizou as reuniões proibindo a entrada de qualquer cidadão armado, inclusive os vereadores daquela época que tinham este costume.

Parabéns ao Tenente João Gomes de Lira.


Pesquei no Blog do Cauê Rodrigues

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estética

 O cangaço e ascalças culotes”.

Modificamos o título original escrito pelo Reverendo Ivanildo na comunidade do Orkut Lampião, Grande Rei do Cangaço que seria "Lampião, Corisco e as calças culotes" após ter notado e acrescentado ao texto outras imagens em que membros e oficiais das forças volantes posam com a aludida peça de roupa. 

Hoje, está em maior evidencia, o estudo da Estética do cangaço. O famoso escritor Frederico Pernambucano lançou, recentemente, o livro “Estrelas de couro” acerca do assunto, trazendo muitas informações sobre o tema, em análise. Excelente obra.

Observando as fotos, percebe-se que, já na fase final do cangaço, as vestimentas dos cangaceiros, já eram bastante estilizadas.

As calças destes grandes chefes além de outros cabras e alguns membros das Volantes, eram do modelo "Culote”, se apresentavam, bem folgadas, na parte de cima, (o que facilitava os movimentos), e, ajustadas, na parte das pernas.

Corisco
O grande chefe cangaceiro, para seu agasalho, usava duas blusas, uma por cima da outra. Ambas de manda longa, visando a proteção contra as intempéries; galhos de árvore e picada de animais peçonhentos.


Tenente João Gomes de Lira.
Cangaceiro “Corisco” Observa-se, ainda, como forma de proteção, que o diabo loiro usava, também uma " MEIA "; que lhe protegia as pernas.

Os calçados usados eram do tipo “Alpercatas ferradas”. Feitas de sola de couro de boi, e que tinham grande resistência para longas caminhadas.

 Ten. Nelson Leobaldo de Morais. 
Ex-comandante do 3º Batalhão sediado no município de Floresta/PE.

Com a entrada da “Cangaceira Dadá”, as vestimentas dos cangaceiros sofreram grandes transformações, pois ela introduziu os enfeites nos chapéus, bornais, calças e vestidos das mulheres. Ela foi considerada pelos estudiosos, como a estilista do cangaço.

Vejamos outras imagens em que a calça culote compõe o traje da Volante - Quem a incorporou primeiro?                                           


 Ten. João Bezerra.



Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal /RN

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Prazer em conhecer

Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e documentarista Aderbal Nogueira
 

Este cearense é atualmente o maior videomaker do cangaço. Frutos da sua produtora a Laser Vídeo seus inúmeros documentários se espalharam pelo mundo afora e são itens indispensáveis na coleções de nós cangaceirólogos.

E parece ainda há muita coisa por vir visse? É o que ele promete na entrevista que nos concedeu na ocasião do ultimo dia do Cariri Cangaço e que veremos a seguir.

A sua introdução no cangaço é semelhante à de muitos. Desde os tempos de menino. O avô era da RVC - rede de viação cearense; sempre lhe contava histórias sobre Lampião. Ele inclusive foi testemunha ocular do episódio ocorrido com o Cel. Isaías Arruda, em Aurora no Ceará.



Na infância adorava filmes de bang-bang e não imaginava aquelas histórias de tiroteios acontecendo ali na sua terra... Quando soube de Lampião... "O Faroeste Brazuca" Já viu né? Nunca mais deixou o tema.

Lia tudo que encontrava. Começou a viajar e gravar entrevistas apartir de 1984 e em 1997 conheceu aquele que viria à ser o seu grande parceiro de viagens... o estimado Paulo Gastão.


Messier Paulo e Aderbal, durante o Cariri Cangaço 2010.

 Á esquerda Dezinho Magalhães, Aderbal (com um punhal que foi do cangaceiro Sabino) e o chanceler Paulo na residência do colecionador em Serra Talhada, PE.

Estes dois cavalheiros juntos já fizeram incontáveis viagens em busca dos mais diversos depoimentos. Só para se ter uma ideia, a primeira vez que realizaram rumo à Angico foi em 1996 e, de lá pra cá, só para àquela região somam umas quarenta incursões, no mínimo. E de tudo que é jeito visse? Sozinho, com o grupo da SBEC, com jipeiros, com colegas que fazem trilha a pé, com grupo de ciclistas de Fortaleza, de caiaque, desceram desde a Cachoeira de Paulo Afonso até a forquilha do começo da trilha de Angico, na beira do Rio São Francisco remando com oito companheiros de Fortaleza. Levaram dois dias para ir de Paulo Afonso até a Grota.

Duvidam? Mai rapaz o "homi" é atleta!  E é evidente que ele prova todas essas façanhas em vídeo.


Equipe da Laser Vídeo em Angico, 1996.

Sila e Candeeiro na Missa do Cangaço em Angico
 
Gravando com Sila em Angico.

No Raso da Catarina, em 1997, entrevistou entre os índios Pankararés pessoas que eram amigas de cangaceiros; inclusive, encontrou entre estes um parente do cangaceiro Gato, oriundo desta tribo.
"Foi interessante porque no começo da entrevista um senhor que estava sentado e era cego, ouvindo a história, começou a chorar. Foi quando sua esposa disse: - Ele é primo de Gato. Essas entrevistas ainda hoje não foram usadas".
Vislumbrando o Raso da Catarina.


Na tribo com os curumins Pankararés


Então, apresente suas crias! 
- Nós temos em torno de sete documentários acerca do cangaço.
1 - FATOS; 2 - S I L A – Esse vídeo também apresenta uma entrevista com a ex cangaceira ADÍLIA companheira de Canário; 3 - A VIOLÊNCIA OFICIALIZADA NO TEMPO DO CANGAÇO; 4- CANDEEIRO depoimento do ex-cangaceiro Manuel Dantas Loiola; 5- MENTIRAS E MISTÉRIOS DE ANGICO e a série de dvd´s do 6 - CARIRI CANGAÇO 2009. E mais um trabalho ainda inédito “VINTE E CINCO, UM CANGACEIRO DE LAMPIÃO”. Nos comprometemos com o mesmo a apresentá-lo somente após sua partida, espero que tão cedo eu não realize este lançamento.

Filho preferido? 
- O documentário Fatos é o meu trabalho preferido. Por conter depoimentos de pessoas que conviveram com Virgulino antes de se tornar o Lampião e outros que estiveram com ele na ocasião de sua morte.

 Com Durval Rosa em sua residência. Piranhas/AL.

De outro autor? 
- “O Ultimo dia de Lampião” do Maurice Capovilla.

E o livro? 
- Guerreiros do sol, de Frederico Pernambucano de Mello “E assim morreu Lampião” de Antonio Amaury.

Qual é o primeiro título recomendado para um calouro? 
- Indico Billy Jaynes Chandler. Não pende a balança para nenhum dos lados da história.

Qual destes contatos foi, ou foram, os mais difíceis? 
- Foi com Aureliano Alves, o “Lero”. Filho de Zé Saturnino. Ele mantém uma resistência, até com razão, porque a maioria dos trabalhos tende a incriminar mais o pai dele que o próprio Lampião. Após muita relutância nosso encontro só foi possível graças a um intermédio do Seu Luiz de Cazuza que é como se fosse um tio e de seu filho Zé Alves. Ele aceita, mas sempre acusando a imprensa - embora eu sempre o lembrando que eu não era repórter – E que iria usar a entrevista exatamente como ele me relatasse.

Isso foi gravado há vários anos, mas ainda não a utilizei em nenhum trabalho. Em um futuro próximo espero, assim como inúmeras entrevistas que temos e nunca sequer assisti, pois o material é muito vasto e só produzimos esses vídeos quando nos sobra um tempinho na produtora para edição etc; e para quem trabalha em produção de documentários empresariais sabe que tempo é coisa rara.

Já teve que pagar para obter alguma entrevista?
- Nunca, pelo contrario, eu que sai recompensado com uma amizade sincera de todos esses personagens, por exemplo, o Candeeiro, reservado caseiro, não se ausenta de casa passou uma semana hospedado em nossa casa em Fortaleza. A Eliza filha dele ficou admirada com o pedido do velho que gostaria que eu fosse pegá-lo em Buíque/PE e eu fui prontamente.

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado? 
- Foi com o velho Antônio da Piçarra. Pra se ter uma ideia da ironia do destino eu viajaria num sábado com este intuito e ele vem há falecer dois dias antes.

Com quem gostaria de ter conversado? 
- Como documentarista você queria ter estado com inúmeros. Gravei muitos depoimentos importantes, alguns destes que até hoje eu nem assisti. Mas eu gostaria muito de ter conversado com o grande líder.

E filmado?
- Se eu pudesse estar presente, gostaria de ter registrado a invasão de Mossoró. Evidente que a resistência de Mossoró não é única, mas pense bem no pandemônio que foi em uma cidade daquele porte em total alvoroço com a chegada dos cangaceiros? Tiveram outras, como a pequenina Nazaré do Pico em Floresta, PE. Mesmo assim, eu imagino os fatos de Mossoró lendo o diário do Antônio Gurgel. Suas linhas nos relatam aquele final de tarde, chuva fina, o sino a repicar, a correria das pessoas, muitas embarcando no trem para se refugiar no litoral e a cidade fica praticamente deserta... Enfim, o restante da história quem pesquisa já sabe. Por isso eu, evidentemente, gostaria de estar presente.
Zé Cordeiro participou das trincheiras em Mossoró (1997)


Qual é o seu capitulo preferido? 
- Dentre tantos relatos emocionantes o meu capítulo é mais particular.
Eu viajava em companhia de Sila (ex-cangaceira, companheira de Zé Sereno) pelo interior da Bahia, cinco e meia da tarde, o sol se pondo, a seca predominava na paisagem, não pude deixar de perceber que ela estava chorando... (Pausa na entrevista - Aderbal viaja em pensamento e as lágrimas correm no seu rosto)
... Então eu pergunto - Sila você se sente mal? Ela não responde, continua chorando. Eu me prontifico a parar o carro e ela explica a razão: 
- Aderbal, essa é a hora mais triste da minha vida... Porque no mato eu começava a pensar: Meu Deus, onde eu ia dormir? Pensava se estaria viva ao amanhecer, se voltaria a ver meu pai, minha mãe e meus irmãos novamente. E nem ao menos se eu voltaria a comer arroz e feijão algum dia na minha vida. 
Então, Kiko, eu choro como chorei naquele dia ao presenciar as memórias de uma mulher de quase 90 anos, personagem desta história que a gente tanto persegue. Imagino o drama... É pra ficar imune ao sentimento? Como não ceder à emoção? 
Fico triste quando vejo algumas pessoas falarem tão mal de Sila. Pessoas que privaram de sua amizade e souberam utilizá-la. Mas que depois agiram de uma forma injusta. Não entendo... Tudo bem, se ela falou o que era mais conveniente para ela, – coisa que muitos outros ex cangaceiros fizeram, pra não dizer quase todos (tenha certeza disso) – Porém nós, como pesquisadores, é que temos que filtrar e colocar só o mais plausível. 
Eu, particularmente, só tenho a agradecer a todos com quem estive, pois todos me receberam muito bem e me ajudaram na hora em que precisei, então seria uma grande desfeita de minha parte hoje desdenhar de algum destes.

As meninas Sila e Adília depõem para o documentário
Um cangaceiro (a)? 
- Conhecendo alguns cangaceiros como eu tive a oportunidade eu elejo o Candeeiro! Principalmente pela irreverência.

Gravando com Candeeiro
 A direita o ex-cangaceiro "25"


Um volante? 
- Tenho um carinho muito especial pelo tenente João Gomes de Lira. Sempre me recebeu muito bem, tenho depoimentos seus gravados que não ainda tive oportunidade de utilizar.

 Equipe da Laser Vídeo com o tenente João Gomes.

Um coadjuvante?  
- Sr Saraiva o irmão do juiz de Limoeiro do Norte (CE) que estava presente na ocasião da visita do bando logo após o fracasso em Mossoró.

Uma personagem secundária?  
- O Cabo Panta, que diz ter sido ele o carrasco de Maria Bonita. Nunca provou e os seus contemporâneos, ou seja, colegas de farda sempre negaram este feito. (eu não estava lá, não posso julgá-lo... quem sabe foi ele mesmo? E outros dizem que não por quererem ficar com a glória; é muito fácil se dizer ‘conversei com fulano e ele disse que é mentira, quem matou foi ele e não o Panta’. Como saber se essa pessoa fala a verdade? Portanto, não podemos acusar alguém de mentiroso sem ter absoluta certeza.

Eu cito inclusive outro o soldado Bertoldo que também se declarou o samurai de Angico.
- Eis aí mais um mistério!

Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção? 
- Sou contra as coleções de relíquias tipo: tijolo, telha pedaço de madeira da casa de Lampião ou de qualquer outra personagem. Nêgo visita e resolve levar um souvenir diferente ai outros agem da mesma forma e amanhã? Minha neta e a de vocês não vai ver nada disso porque da história não vai restar nem os cacos. Enquanto outros estão guardando tudo em suas casas para o seu bel prazer, sem um mínimo de utilidade, é o que vai acontecer, quando estes se forem? A família que não vê qualquer importância vai jogar aqueles "cacarecos" no mato, e aí?... Não me levem a mal, é apenas o meu insignificante pensamento.

Portanto só coleciono imagens e vozes dos remanescentes e testemunhas desta história.
  
 A repórter Vânia entrevista os sargentos Elias Marques e Josias Valão às margens do velho Chico.

No local do Massacre da família Gilo.

Na residência do tenente nazareno Neco de Pautília em Floresta, PE,
junto com Luiz de Cazuza.


Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou? 
- Baile Perfumado. Embora não seja um filme exatamente sobre Lampião, mas sobre o mascate Benjamim Abraão. Ele conseguiu produzir o documentário que eu gostaria de ter feito (RISOS). Em minha opinião não há ficção alguma que supere a realidade.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião? 
- Houve um relato de que Lampião andava em Recife. Onde se podia conceber a figura já pública do rei do cangaço perambulando num grande centro sem ser reconhecido?

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”? 
- Não gosto de polemizar, no entanto acredito que ainda há muita coisa pra ser investigada acerca dos mistérios do cangaço. Esse caso Ezequiel: Nós inclusive temos um documentário sobre o assunto. Neste vídeo vocês vão ver seu Luiz de Cazuza que conheceu Virgulino e todos os irmãos Ferreira narrar o encontro com o suposto Ezequiel e o momento em que ele tem a certeza de estar diante do irmão de Lampião que todos acreditavam ter sido morto no combate na Lagoa do Mel em Paulo Afonso. O amigo João de Sousa conheceu o homem que disse ter enterrado Ezequiel. 

É impressionante, vejam bem: De súbito ele não reconhece traços semelhantes aos do velho amigo, a última vez que o viu ele estava equipado de cangaceiro. Naquele momento estava ali um homem trajando vestes comuns, como tirar esta dúvida? Seria preciso uma pergunta e ele se lembra de uma passagem entre eles no passado que só o próprio Ezequiel poderia recordar vou lhes contar a conversa:  
Pois bem, Estávamos eu (Luiz de Cazuza), Lampião, você e mais um cangaceiro (cujo nome seu Luiz não recorda) Tu lembras? 
- Lembro sim! 
- Quando vocês retornavam de Mossoró não foi? 
- isso mesmo! 
- Você há de lembrar que Lampião pede que eu vá buscar umas alpercatas que ele tinha encomendado... Pois bem, qual foi a reação daquele cangaceiro ao receber as alpercatas? 
E na lata o suposto Ezequiel responde: 
- Ele calçou e saiu pulando por cima de umas rochas gritando olha os macacos! Olha os macacos! 
- Aderbal foi daquele jeito mesmo. 
Só quem estava presente poderia saber se ele narrasse qualquer outro capitulo ele poderia estar simplesmente blefando, mas neste caso eu não posso duvidar da identidade do cabra. No evento do julgamento simulado de Lampião em Serra Talhada eu convidei dois importantes pesquisadores a ouvir este mesmo relato de seu Luiz e estes simplesmente se recusaram acreditar, por quê? Vai ver que não queriam comprometer seus trabalhos escritos e também porque não queriam correr o risco de se contradizerem mais tarde diante de um novo fato que fazia muito sentido! A obrigação do pesquisador é ouvir os fatos, não? 

Seu Luiz narra o aludido fato.

E Lampião: morreu baleado ou envenenado? 
- Do jeito que e história conta eu não aceito. Lampião morreu? Morreu. Mas como? É intrigante, pode até ter sido do jeito que se diz, mas é estranho.

Não posso concordar com a calmaria de Angico! Eu explico: Conheço muitos dos cenários visitados por Lampião, já cruzei a pé o Raso da Catarina. Sabe, eu gosto de sentir a atmosfera dos locais, então imagine a situação... Madrugada em Angico a aproximação de uma tropa de 40 e tantos soldados em sua maioria embriagados na escuridão para ninguém quebrar um galho, ninguém pisar numa pedra em falso... enfim ninguém produzir qualquer barulho que denotasse suas presenças? Acho improvável!

Em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes? 
- Meu próximo trabalho não é um vídeo, mas um livro. Um trabalho que tem como foco as minúcias do cangaço. Relatos que nunca foram escritos. Posso até antecipar um trecho: Gravando um depoimento do Sr. Chiquinho Rodrigues sobre o dia do ataque do cangaceiro Gato a Piranhas, na tentativa de libertar Inacinha, aquele tiroteio terrível, em certo momento ele diz: “– Olhe, foi a primeira vez que vi um homem sem chapéu!” Se não me engano, ele se refere ao Juiz da cidade que passa correndo por ele sem o chapéu. Avalie a importância que o chapéu tinha para o sertanejo? Ouvi relato também do Ten. Pompeu Aristides de Moura justamente sobre o uso do chapéu.
E além destes, são mais três relatos falando sobre este detalhe próprio da nossa gente. São assuntos deste tipo que vou colocar em folha.


O tenente Pompeu foi um dos responsáveis pela morte
do cangaceiro Virgínio, cunhado de Lampião. 

Uma coisa interessante é que não terá fontes bibliográficas, pois tudo será fruto de depoimentos colhidos por nós. Pra encerrar deixo aqui também registrada uma pequena mágoa. Já vi alguns relatos em livros que foram tirados de nossos vídeos, pois até então ainda não haviam sido registrados em nenhum outro trabalho, e nenhum destes autores citou a fonte.


Para não cometer injustiça, apenas o escritor canadense Gregg Narber atribuiu à nossa pesquisa os devidos créditos em seu excelente livro “Entre a cruz e a espada: Violência e misticismo no Brasil Rural”, da Editora Terceiro Nome.

 *As duas primeiras fotos foram concebidas por Coroné Severo.
Ô de casa?!

No último dia 10 de outubro uma comitiva especial de amigos cangaceirólogos esteve viajando pelas bandas do Pajeú para visitar amigos e fazer novos. Capitaneados por Paulo Gastão tendo ao seu lado o conselheiro consultivo da SBEC, Tomaz Cisne e os sócios coroné Ângelo Osmiro, Afrânio Cisne e Aderbal Nogueira.  

Na ocasião foi entregue ao tenente João Gomes de Lira, 97 anos, sua biografia. Ao Luiz de Cazuza, foi feita um homenagem pelo passagem do seu centenário ocorrido mês passado. Já em Cajazeiras PB tendo como anfitrião o confrade Professor Pereira conheceram Dona Filomena, 103 aninhos, que foi namorada do cangaceiro Chico Pereira.

Fizeram algumas imagens e agora compartilham conosco.







Homenagem à João Gomes de Lira.

sábado, 31 de julho de 2010

Tenente João Gomes de Lira

O inimigo de Lampião

Por: Leonardo Ferraz Gominho (*)

Amigo dos padres, inimigo dos cangaceiros. João Gomes de Lira, filho do velho Antônio Gomes Jurubeba (de Nazaré), escreveu um livro - Lampião, Memórias de um Soldado de Volante - onde, entre outras coisas, diz à página 367: - “Naqueles dias (final de 1926 ou início de 1927) verificou-se a visita de Lampião à cidade de Floresta. O primeiro ponto a chegar ali Lampião foi a conhecida Quixabeira de São (sic) Bom Jesus.

Foto: Kiko Monteiro
Ali o chefe Lampião deixou uma parte do grupo seguindo para a cidade com os cabras de sua maior confiança. Em Floresta Lampião visitou chefes políticos do município. Na época foi comentado que existia uma indiferença entre Lampião e os irmãos Gominho, por ter um deles dado a um cachorro o nome de Lampião que, por cujo motivo, o cangaceiro incendiou um caminhão de mercadoria do sr. Fortunato Gominho.

Dizem também que a entrada de Lampião em Floresta causou muita preocupação aos Gominho, pois por serem homens de respeito e amantes da paz, só desejavam a tranquilidade para todos. Também comentou-se que Emiliano Novais, amigo de Lampião, foi o intermediário em acabar com a indiferença entre os Gominho e Lampião, sendo naquele dia passada uma esponja no que existia. A entrada do cangaceiro em Floresta foi à noite. O bandido passou o resto da noite na cidade, tendo viajado na manhã do dia seguinte nos caminhões de Augusto Ferraz e Aprígio de tal.”

Na foto acima Tenente João ainda vivo, com 97 anos e 28 dias, em 31-07-2010.

Estranhamos, no texto acima, três afirmações do Sr. João Lira: primeiro, de que Lampião visitou em Floresta “chefes políticos do município”; segundo, que após a intermediação de Emiliano Novais foi “passada uma esponja no que existia” entre Lampião e os irmãos Gominho; terceiro, que o cangaceiro viajou no dia seguinte “nos caminhões de Augusto Ferraz e Aprígio de tal”. Houve aqui, sem sombra de dúvidas, equívoco do autor. E se comentários dessa natureza ocorreram na época, foram infundados. Vamos aos fatos reais. O Dr. Anselmo Ferraz é muito claro:  
- “Meu irmão Augusto nunca carregou bandidos no seu caminhão, muito menos os de Lampião. Emiliano nada fez pela paz entre Siato e Lampião, mesmo porque Siato não o aceitaria absolutamente, confiando sim a sua segurança a nossa família que o apoiava totalmente. Lampião sabia disso muito bem.”
Por sua vez, consultado a respeito, o Dr. José Goyanna, neto de Antônio Ferraz de Souza - este o maior líder e chefe político de Floresta, naqueles tempos -, foi taxativo a respeito da versão dada pelo Sr. João Lira:
- “Ela se torna fantasiosa, inverídica mesmo, quando afirma que Lampião, naquela noite, visitou “chefes políticos” em Floresta. De fato, foi voz corrente que, numa determinada noite daquele ano, Lampião, na calada da noite, entrou em nossa cidade acompanhado e ciceroneado por Emiliano Novais. É provável que ele tenha feito visitas, mas não aos chefes políticos locais. 
Ele deve ter visitado aqueles que ganhavam dinheiro favorecendo e negociando com a sua “poderosa” amizade. Lampião deve ter deixado o seu grupo à entrada da cidade, talvez mesmo na Quixabeira do Bom Jesus. Mas daí a se dizer que ele andou visitando pessoas de bem, vai uma grande distância. À época eu tinha doze para treze anos. À minha curiosidade de menino não passava despercebido fato de tamanha importância na vida da cidade. Nem jamais ouvi qualquer comentário do meu avô (Antônio Ferraz) a respeito, senão o de que Lampião estivera na cidade, nas condições já descritas, e que tomara cerveja com os seus amigos e hospedeiros.”
 “O que acontecia” - continua José Goyanna - “era que Lampião tinha um grande respeito para com a nossa família. Inteligente como era (isso não se pode negar) não interessava a ele abrir luta contra uma família numerosa, com poder econômico e com disposição para não se deixar desmoralizar pelas suas truculências.
Numa das vezes em que meu avô dialogou com ele, logo após o assalto à Baronesa de Matinha de Água Branca (meados de 1922), assunto questionado na ocasião, Lampião tentou explicar que procedera daquela forma como pagamento ou agradecimento seu a determinado amigo de cujo nome não estou lembrado. Na mesma ocasião o meu avô exprobrou-lhe o procedimento de ele estar, por carta, mandando pedir dinheiro a pessoas pacatas que nada tinham a ver com as suas estrepolias (por essa época Siato havia recebido uma carta pedindo dinheiro e munição). A essa reprovação, Lampião respondeu que só pedia dinheiro às pessoas suas amigas.

A esse argumento, meu avô lhe disse que ele estava simplesmente incomodando pessoas que não tinham nenhuma obrigação de financiar o seu modo de vida e, além disso, ele estava se expondo a fazer novos inimigos porque só atendiam a esses pedidos aqueles que lhe tinham medo. Os que não tinham, simplesmente se negavam a essas “contribuições” e, com isso, ele arranjava mais um inimigo.

Nessa ocasião, foi-lhe oferecida alguma recomendação no sentido de ele querer mesmo deixar aquela iniciante vida de bandido. Lampião chegou quase a prometer aceitar o conselho que lhe fora dado. Como reforço de sua argumentação, o meu avô citou o exemplo de “Sinhô” Pereira que, deixando uma vida de crimes recém-iniciada, retirou-se para o sul e, segundo corria, chegara a ser promovido a Oficial de Polícia de determinado Estado do Centro-Sul. Como se depreende, Lampião não cumpriu aquele quase pacto que, se cumprido, o Nordeste teria se livrado do flagelo que foi a sua vida de crimes e de violências. Mas, se não foi cumprido, daquilo tudo restou um grande respeito que o bandido sempre demonstrou ter para com Antônio Ferraz.”

 Tenente João Gomes, em época turbulenta.

E mostra esse respeito: - “Uma vez chegamos à fazenda Serrotinho, demos pela falta de um carneirinho “enjeitado” que o meu avô havia me dado e que era meu companheiro de brincadeiras, quando na fazenda. Como resposta a nossa indagação, o vaqueiro apresentou uma carta de Lampião, explicando que tendo chegado à fazenda e o grupo estando sem mantimentos, ordenara que se matasse aquele carneirinho que, depois, mandaria pedir a conta ao meu avô. De fato, na carta ele explicava os motivos daquela “desapropriação” e pedia que lhe fosse apresentada a conta do valor do carneirinho. O meu avô não lhe apresentou aquela conta. Certamente se lhe tivesse apresentado, ele a teria pago.”

Quanto à inimizade de Lampião com Siato e João Gominho Filho, José Goyanna definiu a posição de Antônio Ferraz (que era concunhado de Antônio de Sá Gominho, irmão de Siato): - “não era interessante abrir luta contra o bandido. As nossas fazendas eram desguarnecidas, estavam expostas ao capricho dos bandidos. A não ser Ildefonso Ferraz (sobrinho de Antônio Ferraz), os demais fazendeiros não dispunham de meios para garantir suas propriedades contra as arremetidas dos bandidos. Porém, os Gominho podiam ficar descansados porque em caso de ataque de Lampião a qualquer dos dois irmãos, a família entraria em luta sem qualquer hesitação, indo em socorro de suas vidas.

Acordo com Lampião, nunca houve. Isso jamais poderia passar pela cabeça dos então dirigentes da política florestana.

Vou citar mais um fato para corroborar com o meu pensamento e como desmentido à versão do livro do Sr. João Lira. Naqueles anos, houve uma ocasião em que Lampião tinha necessidade de passar em frente à fazenda Curral Novo. À época, ele estava com oitenta cabras. Apreendeu um caminhão que passava pela estrada. Mandou retirar toda a carga. Ele estava ali pelo Governador. “Atenciosamente” mandou um portador levar uma carta para o tio Ildefonso Ferraz, pedindo-lhe uma entrevista. A princípio Ildefonso hesitou em atender ao convite, preferindo reforçar a sua fazenda e “meter-lhe bala” se ele tivesse a petulância de passar com o seu grupo na frente de sua casa.

Depois, “para ele não pensar que estava com medo dele”, Ildefonso, após mandar avisar às fazendas próximas, resolveu atender ao pedido. Devidamente armado e municiado (pra bandido nenhum botar defeito), em companhia de Deoclécio Ferraz (cunhado dele) e mais “Caneta” e outro cabra que agora não me ocorre o nome, dirigiu-se ao ponto de encontro.

Lampião, avisado da aproximação do tio Ildefonso, levantou-se do lugar onde estava sentado, encostou o seu mosquetão à parede, obediente àquele código de honra vigente entre os sertanejos, e foi assim, desarmado, ao encontro dos que chegavam. Só quem vinha a cavalo era tio Ildefonso. Ao ajudar o cavaleiro a desmontar (tudo dentro daquele código) foi logo dizendo, em tom de brincadeira, que tinha mandado chamar tio Ildefonso como amigo mas via que ele tinha atendido ao convite “armado até os dentes”.

Tio Ildefonso lhe disse, então, que estava ali também como amigo, o que não impedia estivesse armado e pronto para qualquer emergência. Ao que Lampião respondeu que eles eram apenas quatro, enquanto o seu grupo dispunha de oitenta homens. Tio Ildefonso respondeu-lhe que aqueles quatro poderiam lhe “dar muito trabalho.” Lampião, sorrindo, disse que aquilo tudo era uma simples brincadeira.

Durante a conversa que se seguiu, o bandido perguntou, por três vezes, como estava o seu interlocutor. Tio Ildefonso, nas três vezes, respondeu que estava bem, sem problemas. Aquelas três perguntas tinham por escopo oferecer vantagens, talvez até pecuniárias, diante de respostas pouco firmes. O que não se deu.

Como corolário àquele “téte-a-téte”, tio Ildefonso disse que tinha um pedido a lhe fazer, depois de cientificado de que ele, Lampião, lhe pedia licença para passar com o seu grupo pela frente da sua fazenda. Coube, agora, a tio Ildefonso fazer o seu pedido: já que ele estava ali, ele podia continuar a viagem, mas que evitasse passar novamente, porque “a minha família tem compromisso com o governo” e não era conveniente que qualquer aproximação entre eles pudesse parecer um conluio, um traço de ligação.

O transporte do grupo foi feito em duas vezes. A primeira leva, quando chegou ao Curral Novo, já encontrou uma recepção à altura porque os parentes, avisados do evento, acorreram devidamente “apetrechados” para a ocasião. Passaram-se coisas engraçadas, dentre as quais pode ser citada aquela protagonizada por Manoel Ferraz (irmão de Horácio e de Oscar Ferraz, entre outros) que, devido à pouca iluminação do local e já era noite, pediu licença a Lampião para lhe iluminar a cara, com a “sutil” justificação de que poderia um dia “estar numa emboscada” e assim poder reconhecer, no meio do grupo, quem era Lampião.”

Esse fato, peculiaríssimo, merece ser narrado. Depois do encontro de Ildefonso com Lampião, o qual se dera na fazenda Várzea Comprida, de Martim Ferraz, o cangaceiro dissera que, ao chegar ao Curral Novo, queria ainda falar com Ildefonso.

Quando o caminhão ali chegou, o chefe dos celerados desceu e mandou que os demais continuassem no veículo. Chamou Ildefonso para um particular. O fazendeiro convidou Lampião para entrar em casa, dirigindo-se a um dos quartos. Foi seguido pelo cangaceiro e por Manoel Ferraz (v. Tenente-coronel João Serafim de Souza Ferraz). Já a sós, Lampião olhou para Manoel e perguntou quem ele era. Ildefonso respondeu que era um primo. O bandido perguntou ainda se era de confiança. O dono da fazenda respondeu que sim, que podia falar à vontade.

Lampião era, sem dúvida, um homem informado, principalmente sobre as coisas do seu interesse. Sabia que Ildefonso tivera um grande prejuízo quando um comprador de Belo Jardim ficou com uma boiada de sua responsabilidade e não o pagou. Disse, então:
 - Ildefonso, você teve um prejuízo e eu quero lhe compensar. Vou arrumar dinheiro para você comprar seus bois a dinheiro. E do dinheiro que eu lhe arrumar, você tira uma parte e vai comprando uma muniçãozinha para mim.
 O fazendeiro e boiadeiro respondeu de imediato:
 - Não faço isso, não. Eu não sou homem para fazer uma coisa dessa. Eu sou um homem da sociedade, um homem do governo, o governo confia em mim e eu não faço uma coisa dessa.
 Lampião insistiu:
 - Ninguém vai saber disso...
 - Não descobre hoje, descobre amanhã. Não dá certo.
Ainda discutiram um pouco mais, até que o cangaceiro viu que não conseguiria munição de Ildefonso. Disse então que queria comprar do fazendeiro três rifles, um deles calibre 32, outro cruzeta papo amarelo e outro mauser. Ferraz respondeu:
 - Eu também não posso vender.
 Por fim, Lampião pediu que Ildefonso não mandasse, outra vez, dar retaguarda quando estivesse atacando os “cachorros de Nazaré”.

Nesse momento, Manoel Ferraz viu Ildefonso arregaçar a manga da camisa e, passando a mão sobre o braço, dizer com a voz nasalada que tinha:
 - O sangue da família de Nazaré corre aqui dentro destas veias. Eu quero que você não tente entrar em Nazaré. Se fizer isso eu estarei pronto para ajudar os nazarezistas.
Ouvindo aquilo - coisa que jamais esperaria ouvir -, Lampião tratou de sair. Havia um candeeiro pendurado num prego, na parede. Manoel Ferraz o pegou e se dirigiu a Lampião, que na ocasião estava com um chapéu de massa, de aba larga e que lhe sombreava o rosto. Num tom de brincadeira, disse:
 - Agora olhe para mim aqui que eu quero ficar lhe conhecendo direito porque pode ser que um dia você se revolte contra a gente e seja preciso eu dar um tiro de emboscada.
O bandido, nesse momento, fechou a cara, mas agüentou calado. Era-lhe conveniente. Com certeza jamais esqueceu a figura alongada de Manoel Ferraz que, naquela época, tanto se empenhou, bravamente, lutando contra os cangaceiros que infestavam a região.

José Goyanna conclui seu pensamento afirmando que Lampião “se transferiu para a Bahia e quando voltou a Pernambuco, depois de 1930, a primeira coisa que perguntou foi por Ildefonso. Ao saber que ele havia morrido, disse que foi bom porque “desta vez eu iria matá-lo.” Esta frase dita por Lampião justifica plenamente que jamais houve qualquer pacto entre o bandido e nossa família. Nem poderia ser de outra forma. Foi fantasiosa a afirmação do Sr. João Lira”, finaliza. Lampião, sem dúvida, respeitava a família Ferraz.

 Ildefonso Flor 
Morto por Virgulino em 1925 no combate de Xique-Xique.  

Um fato passado no Juazeiro do padre Cícero, na década de 1920, merece ser contado. Ali fora ter João Ferraz de Souza (irmão de Antônio Ferraz) levando um parente que buscava no padre o alívio para os seus males. O atendimento era coletivo. O padre aproximou-se e perguntou de onde vinham e a qual família pertenciam. Ao lhe responderem, observou, sendo ouvido por muitos:
 - A sua família tem condições de dar um jeito em Lampião, se assim o quiser.
Supersticioso como era, se tomou conhecimento daquelas palavras o bandido jamais esqueceu.

 O velho Antonio Gomes Jurubeba, pai do tenente João Gomes.

E o que diria Siato a respeito de sua inimizade com Lampião? Em seu livro “Memórias” e a Frederico Pernambucano de Mello contou que, em lombo de burro, em julho de 1917, dirigiu-se ao povoado de São Francisco. Viajava sozinho e armado com uma simples pistola comblain de dois canos (“dois tiros e uma carreira”). Ia receber uma mercadoria que ali fora deixada em poder de Manoel Lopes, primo da mãe de Virgulino, que se destinava a sua casa comercial. Apresentaram-lhe um fretador de nome José Ferreira, tendo na ocasião contratado o transporte das referidas mercadorias. Lembra-se Siato de que José Ferreira era “baixo, moreno, cabelo bom, maneiroso”.

“Assim combinado” - conta Siato -, “José Ferreira, acompanhado não me lembro bem se por dois ou três filhos, com os quais não cheguei a tomar conhecimento, pegou as aludidas mercadorias realmente no dia aprazado, entregando-as em Floresta, tudo em boa ordem. Nessa oportunidade fiz o devido pagamento do transporte e, todos nós satisfeitos, despachei-o, ficando na impressão de que se tratava de uma boa pessoa para tratos e negócios.”

Tempos depois os filhos de José Ferreira envolveram-se em confusões com José Saturnino e a família mudou-se para a fazenda Poço do Negro, pertinho de Nazaré. Ali estabelecido, José Ferreira passou a freqüentar o comércio de Floresta, onde sempre fazia negócios com Siato. Certa vez, Ferreira chegou a ser convidado a almoçar com o comerciante, aceitando. Com os filhos de José Ferreira, entretanto, Siato não teve contato mais estreito. Não se recordava mesmo de suas feições. Acreditava, entretanto, que Antônio, Virgulino e Levino, os três filhos mais velhos, deviam lhe conhecer pois costumavam acompanhar o pai, auxiliando-o no que era necessário.

Em Nazaré, onde chegaram com o apoio local, os filhos de José Ferreira logo se desentenderam com o pessoal da terra. Rompendo um tiroteio e Levino sendo ferido em um braço, foi preso e remetido para Floresta, onde ficou à disposição do delegado de polícia (1919).

Diz Siato:
- “Lembro-me bem que Levino, na cadeia, tendo me conhecido de vista em 1917, quando, com o pai, transportou as minhas mercadorias de São Francisco para Floresta, achou por bem mandar me pedir um metro de morim para amarrar o seu braço que continuava em tratamento e cujo pedido atendi.”
E acrescenta:
 - “Mandaria para qualquer um que pedisse para um fim desse.”
Siato não diz, mas Frederico Maciel deixa claro que, em Floresta, a família de Virgulino votou em pelo menos uma eleição com a família Ferraz. Talvez devido a isso, Antônio Boiadeiro e Antônio Ferraz, principais chefes políticos da família, procuraram resolver o problema da melhor maneira para as partes (os nazarenos eram seus parentes): fizeram um acordo em que a família Ferreira deveria deixar a região, sendo solto Levino. Assim saíram os Ferreira, fixando-se em Alagoas. Retirando-se às pressas, José Ferreira deixava um débito de 70 mil réis com Siato, valor pequeno para a época e, consequentemente, jamais cobrado à família ou a quem quer que seja.

Continua Fortunato em suas memórias: - “Virgulino, antes de se celebrizar com o nome de Lampião e pelo fato de me haver conhecido de vista em 1917 em São Francisco, achou por bem, quando já com um grupo de bandidos, escrever-me uma carta pedindo-me que eu lhe mandasse quatro caixas de balas de rifle e três cortes de brim mescla, a fim de fazer roupa para seus companheiros.

Nessa ocasião, chamei o portador da carta, o qual, aliás, não conhecia. Sabia que, se mandasse uma vez, depois ele pediria mais. Não queria me incompatibilizar com ele e nem com o governo. Disse então as seguintes palavras:
 - Diga ao Virgulino que recebi a carta dele pedindo-me quatro caixas de rifle e três cortes de brim mescla para os seus companheiros. Entretanto, queira lhe dizer que eu sou um comerciante principiante, e não tenho condições para atender ao seu pedido, sobretudo de balas de rifle, que representa material bélico que, certamente, me comprometeria perante as forças que o perseguem e ao próprio governo do Estado. Espero que ele saiba compreender.
Com essa minha resposta, conformou-se Virgulino por vários anos. Porém, anos depois, quando já cognominado Lampião e, como tal, célebre na sua vida, mandou-me um novo recado por um determinado portador (Joaquim Novaes, mais conhecido por Quinca Maneca - v. AFN, Ttn 15 - e que era empregado do major João Novaes), dizendo-me que eu lhe mandasse dinheiro sob pena de me dar maior prejuízo, inclusive ameaçando a minha própria vida.”

Siato pensou no que responder. A situação era delicada. Chamou depois Quinca Maneca e mandou dizer a Lampião que continuava na mesma maneira de se conduzir, acrescentando:
 - Não intervenho em negócios da luta dele, mas também não coopero em nada que ele pretenda nesse sentido porque também não quero me incompatibilizar com as forças.
 O recado foi levado. Lampião continuou espalhando que lhe daria prejuízo.
 “Assim fiquei eu aguardando os acontecimentos e sem poder viajar para qualquer parte, durante mais de um ano.

Entretanto, precisando estar em Recife com o meu sogro Nequinho Ferraz e sua família, no dia 4 de fevereiro de 1926 viajei em um carro que por ali passou com um senhor, fiscal de consumo, que vinha de Salgueiro com sua esposa. Ao passarmos na fazenda Caraíba, no alto Riacho do Navio, cerca de 100 quilômetros da cidade, ainda no município de Floresta, eis que ali se encontrava, no aludido riacho, já de emboscada em um serrote, o grupo de Lampião. Estava esperando a força da Polícia Militar, sob o comando do valente tenente Higino Belarmino, que vinha no rastro dos bandidos.

Nós, os viajantes, nada sabíamos dessa situação. Ao chegarmos na fazenda Jacaré, que fica a cerca de três quilômetros da Caraíba, ali encontramos um caminhão carregado de mercadorias. Vinha de Rio Branco (hoje Arcoverde) para Floresta e conduzia um grupo de tangerinos (sic) que voltava da feira de bois de Rio Branco. Entre eles vinha Joaquim Serafim (Joaquim “Grande”, cabra de Cassimiro Honório e grande amigo da família Ferraz), meu velho conhecido e amigo que residia ali próximo e que me chamando à parte, reservadamente, disse:
 - Seu Siato, por aqui?...
 - O que é que há? - Perguntei-lhe.
 - O Homem está por aqui - acrescentou - e eu acho que o senhor devia voltar daqui.
 Refletindo um pouco, perguntei onde estava ele. Respondeu:
 - Ontem, por volta das quatro horas da tarde, estava ele com o grupo ali na fazenda Volta e escreveu cartas para algumas pessoas daqui da zona, pedindo dinheiro. Eu acho que o senhor devia voltar.
 Nesse momento tive uma inspiração; assim como ele podia estar na minha frente, na travessia para Geritacó, poderia estar nas minhas costas.
 - Mais vale quem Deus ajuda. Eu vou para a frente, continuando com a minha viagem com fé em Deus.
Nesse mesmo momento chegava ali o carro com o meu sogro e família que havia ficado atrás e ao passar na fazenda Caraíba soube da notícia de Lampião e disse para mim:
 - Vamos embora que as coisas aqui não estão nada boas.
 Assim, partimos todos da fazenda Jacaré para o povoado de Geritacó, onde felizmente encontramos um cabo de polícia com 15 soldados, que nos tranquilizaram. Ali almoçamos.

Posteriormente, já no Recife, soubemos através de telegrama que, ao partirmos da fazenda Jacaré, começou o grande tiroteio da força do tenente Higino, que caiu na emboscada de Lampião na Caraíba, brigando durante sete horas, tendo a polícia perdido três soldados, saindo feridos outros sete, inclusive com ferimentos leves no próprio comandante e em Manuel Neto. Após o tiroteio, Lampião chegou à fazenda Jacaré, onde encontrou um outro caminhão carregado de mercadorias para Floresta.

Esse caminhão, entretanto, logo foi invadido pelo grupo que se apossou de tudo o que lhe agradava, inclusive de um fardo de tecidos, destinado a mim, constando de nove peças de mescla denominada “Legionária”, que a firma Moreira Lima & Cia. me havia enviado por cumprimento de autorização do seu então viajante de nome Manoel Campos, cujos tecidos foram todos distribuídos ao pessoal ali presente.

Passado o assalto do caminhão, continuando porém a invasão dos cangaceiros, o motorista ou dono do caminhão pediu ao chefe Lampião que fizesse os rapazes descerem do caminhão a fim de que pudesse refazer a necessária arrumação, sendo logo atendido, adiantando Lampião:
 - Agora tire o seu caminhão para fora daqui que ninguém mais tocará no mesmo.
 Nesse momento um mau elemento do grupo reconheceu a marca de alguns volumes meus e também uma mobília que eu havia comprado no Recife e avisou a Lampião, perguntando se queria que as queimasse.
 - Não - respondeu Lampião -, eu já disse que naquele caminhão ninguém mais bole.
 E assim passou em paz a minha mobília.

Entretanto, antes de três meses depois aconteceu um fato de maior prejuízo. No mês de abril de 1926 tive eu oportunidade de despachar para determinadas firmas compradoras de Gravatá e Recife, 30 volumes de peles de bode, couros de boi e algodão em pluma, servindo de portador o meu costumeiro freteiro, de nome José Marques. Ao regressar, porém, de Rio Branco, onde deixou a carga que levou, o meu freteiro carregou os burros com mercadorias não somente minhas como de vários outros colegas comerciantes de nossa cidade, voltando para Floresta. Ao chegar à fazenda denominada Barra da Serra, arriou o seu comboio para pernoitar.

Aconteceu que, por volta da meia noite, inesperadamente, ali chegou Lampião com o seu grupo de 25 cabras, todos devidamente montados a cavalo ou burro e logo se dirigiu ao freteiro José Marques, dizendo:
 - Esse comboio é do Siato, não é?
 Ao responder o freteiro que não era meu, replicou Lampião:
 - Não negue, porque assim vai morrer...
 - Para falar a verdade, seu capitão, aqui vem algumas mercadorias de seu Siato, mas a maior parte é de outros comerciantes de Floresta.
 - Não quero saber de mais conversa - disse Lampião, voltando-se para o grupo -, queima tudo.
E logo trataram os cabras de arranjar o que se fazia preciso, dando início à queima, até quando começaram a estourar balas de pistola “mauser”, que vinham junto com as mercadorias de um dos meus colegas. Nesse momento Lampião deu ordem para que apagassem o fogo e catassem as balas, como realmente aconteceu. A seguir, Lampião encontrou um dos burros do pobre matuto e logo o pegou e o deu a um dos cabras que vinha mal montado.

Dali, Lampião seguiu sua marcha e antes do amanhecer assaltou o povoado de Algodões, onde se encontravam alguns soldados doentes de sezão (malária) e que voltavam da zona então perigosa do rio São Francisco para o Recife. Esses soldados deram alguns tiros contra o grupo, mas em seguida se retiraram do povoado. Daí em diante o grupo, tomando conta do povoado, praticou, segundo foi sabido, toda sorte de roubos e misérias que não se pode nem se deve descrever, retirando-se em seguida calmamente, sem nada sofrer, tomando o destino que bem quis. Foi sempre assim a marcha do hediondo malfeitor.” O ataque a Algodões se deu a 20.04.1926, segundo Billy Chandler.

Chegando ao Recife, Siato foi avisado por telegrama que Lampião declarara que estaria a sua espera, na volta a Floresta. Era recomendável seu regresso por Alagoas. Antônio de Sá Leal, primo de Siato, convidou-o para ir ao Palácio e falar com o governador Sérgio Loreto, de quem era amigo, para pedir-lhe garantias. Diz em suas Memórias: - “Não obstante esse convite, desisti do mesmo pois não confiava em promessas ou providências por parte do governador, já que o mesmo era parente e amigo do Comandante da Polícia do Estado, o C.el João Nunes, a quem ouvia para tudo, só decidindo de acordo com o pensamento daquele Comandante.

E nós sabíamos que o C.el João Nunes mantinha má vontade para Floresta, pois havia alguns anos fora assassinado naquela cidade um seu irmão, de nome Manoel Nunes, que ali exercia as funções de anspeçada de polícia e não correspondeu no cargo.” O anspeçada tinha desfeiteado um rapaz da família Carvalho, sendo por esse motivo assassinado.

Ficou Siato aguardando o resultado da entrevista do primo Sá Leal com o governador, da qual resultou apenas o envio de um tenente ou capitão da polícia “que não dispunha da indispensável idoneidade para a missão.” Acompanhado de apenas 12 soldados, seguiu para dar combate a Lampião. Vendo a partida, Siato fez ver a Sá Leal que aquela força não faria Lampião deixar a região. O primo então voltou ao governador e este colocou à disposição de Siato um caminhão com 10 soldados para escoltá-lo de Arcoverde para Floresta. Sabendo disso, Siato não aceitou a oferta. E conta: - “Nessa situação, declarei ao primo Sá Leal que podia dizer ao governador que eu ia mandar sustar o despacho (para Floresta) das mercadorias que havia comprado, em virtude de não ter garantias para o seu necessário transporte de Rio Branco para Floresta.

Um oficial com 10 soldados em um caminhão, num caso de um assalto de Lampião, nem mesmo aquela força poderia resistir, senão por pouco tempo, e o resultado seria a debandada da pequena força, deixando-me para ser fuzilado com minha própria esposa.

Em semelhante situação, resolvi regressar para Floresta por Alagoas.” Mais adiante, conta Siato: - “Lampião, no começo de setembro de 1926, achou por bem visitar algumas cidades do nosso Sertão, começando por Cabrobó.” A invasão se deu a 02.09.1926.

Dali “regressou Lampião, visitando também o nosso povoado de Itacuruba, distante cerca de 40 quilômetros de Floresta. Ali chegando, querendo arranjar uns dois bornais e encontrando uma costureira ao lado de sua máquina, logo a solicitou para costurar, sendo delicadamente atendido pela costureira, que era professora estadual. Essa professora era minha prima carnal, Maria Pina (mais tarde esposa do meu outro primo, Euclides Ferraz), que se achava em casa do seu mano Fausto Gomes de Sá Filho, conhecido e tratado por Faustinho. Os dois logo ficaram apavorados por saberem da minha incompatibilidade com Lampião, mas felizmente desse assunto ninguém tratou.” Era o dia 16.09.26.

Dali seguiu Lampião na direção de Tacaratu, indo dormir, no dia 17, na fazenda Tigre (Floresta), onde foi atacado no dia seguinte pelas forças aquarteladas em Floresta. Foi então ferido no peito ou no ombro, indo tratar-se “na serra do Preá”, em Tacaratu. Depois de reestabelecido, atravessou novamente o município de Floresta onde, na fazenda Juá, encontrou uma grande boiada pertencente ao fazendeiro e boiadeiro Joaquim de Alencar Jardim (irmão de Antônio Boiadeiro e tio da mulher de Siato).

Lampião “deu ordem a seu grupo para matar toda a boiada, a tiros. Terminada a matança, disse para as pessoas que ali chegavam que não admitia que ninguém aproveitasse a carne da boiada morta.” Este fato se deu a 12 de dezembro de 1926. Estava, portanto, bem claro que não havia acordo ou pacto com a família Ferraz.

Em junho de 1927, Lampião atacou Mossoró, perdendo aí grande número de companheiros. Fugiu para o Ceará, onde foi recebido com hostilidade e viu outros cabras debandarem. A perseguição tornou-se insuportável para o bandido, que passou a contar com 4 a 6 cabras. “E foi com esse reduzido grupo que Lampião resolveu atravessar o rio São Francisco e galgar o Estado da Bahia, onde após alguns anos se refez, infelizmente”, diz Fortunato Gominho.

Depois de contar outras façanhas de Lampião, Siato conclui: “Estas, finalmente, são as minhas lembranças do banditismo nos sertões do Nordeste e de como Lampião se tornou inimigo do modesto rabiscador destas despretensiosas memórias.” Em nenhum momento deixa transparecer ter havido qualquer acordo, ou que o bandido tenha deixado de ser seu inimigo.

Ao autor, contou uma conversa que teve com Emiliano Novaes. Fora procurado quando se encontrava trabalhando em sua loja. Era pleno dia e não a calada da noite, que foi quando Lampião esteve em Floresta.

Nessa conversa, Emiliano disse a Siato que a partir daquele dia ele poderia dormir em plena rua. Lampião não lhe causaria qualquer mal. O problema havia sido resolvido por ele, Emiliano. O comerciante, ouvindo aquilo, disse que “continuaria dormindo dentro de casa”. Emiliano adiantou: o cangaceiro estava precisando de munição e lhe pedia a colaboração. Somente então Siato compreendeu que se tratava de mais um pedido de Lampião. Indignado, disse a Emiliano que se o preço para não ser molestado era aquele, podia dizer a Lampião que “nada tinha para lhe mandar”. Preferia mesmo retirar-se de Floresta a continuar ali em semelhante situação.

Foi, talvez, nessa época, que resolveu comprar doze rifles e muita munição.
 - “Ele pode entrar aqui depois de gastar muita munição e nós acabarmos a nossa munição, mas nós reagiremos até a última hora”, disse.
E mandou abrir várias “torneiras” no sótão de sua casa comercial e no muro, por trás de sua residência. À família, sempre declarou sua “incompatibilidade” com o bandido, que durou enquanto o cangaceiro foi vivo. A relativa tranquilidade veio somente com a ida de Lampião para a Bahia, onde fixou seu novo centro de operações.

Quanto a João Gominho Filho (Joãozinho Gominho), que ganhou de um soldado de volante um cachorro a quem chamava Lampião, ousou conservar-lhe o nome. A rixa que lhe tinha o famoso cangaceiro, entretanto, era bem mais em decorrência de sua atitude em relação aos nazarenos, como bem esclarece Marilourdes Ferraz (O Canto do Acauã, 2 ed., p. 219): - “Pode-se afirmar que a resistência do povoado, no começo, pôde ser efetuada com a ajuda de um florestano, jovem e idealista, que comerciava em Nazaré: João Gominho Filho.

Este homem, vendo um ataque arrasador contra a localidade e seus habitantes, passou a auxiliá-los na tarefa defensiva, efetuando o intercâmbio de armas: recolhia-as de algumas fazendas e as transportava para as mais visadas pelo bando, escondidas entre suas mercadorias. Dessa forma, prestou um grande benefício aos moradores de Nazaré e arriscou, na mesma intensidade, a sua vida.”

Numa certa ocasião (1926) os nazarenos lutaram numa mesma semana com os revoltosos (Coluna Prestes) e com o grupo de Lampião. Seus estoques de munição reduziram-se a duas balas de rifle. Naquela situação aflitiva João Flor escreveu uma carta para Joãozinho Gominho, pedindo auxílio. Este correu o comércio, obtendo ajuda apenas de duas pessoas: Siato e Antônio Ferraz de Souza, então chefe político da família Ferraz. Siato deu uma caixa de balas e Antônio Ferraz duas. A estas, Joãozinho juntou outras duas, dadas por ele, e fez chegar às mãos de João Flor. Eram 250 balas que “foram recebidas como se fossem 10 mil”, tal o desespero em que se encontravam, na iminência de serem atacados por Lampião, não podendo se defender daquela forma.

Com o serviço de informações que tinha, o bandido, com certeza, tivera conhecimento do trabalho de Joãozinho Gominho. Daí seu grande ódio a essa família. Joãozinho era bastante ligado ao pessoal de Nazaré. Para ali levara, por duas vezes, a Banda Musical de Floresta, sem qualquer ônus para o povo do local, para animar as festividades da padroeira.

Capítulo de seu livro "Floresta uma Terra - um Povo", 1996, editora: Fiam.

1ª imagem e maiores informações vocês localizam no essencial site Genealogia pernambucana
As demais foram inseridas por nós para ilustrar a  matéria.