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sábado, 28 de julho de 2012

O Tenente Bezerra invadiu o Angico...

E Lampião, foi-se à 74 anos




A Sugestão da poesia foi do confrade Jorge Remígio, sócio Fundador do GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do cangaço.

Para descontar o impacto da foto, fazer jus ao título do artigo e homenagear o amigo Jorge "cangaceirólogo" e musicólogo desde que usava fraldas" Espie aqui ,que tal uma bela cantiga?

Apreciem a interpretação do "Cacai Nunes Quinteto" para um clássico da música nordestina "Tenente Bezerra" do saudoso "Gordurinha". Pescado na página do Grupo no YouTube.



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As voltas que o mundo "lampionico" dá

Maria já era centenária desde 2010, e não nasceu no dia internacional da Mulher

Comemorando 3 anos de atividade, apresentamos o primeiro resultado de uma minuciosa pesquisa gentilmente cedida pelo seu autor, nosso amigo e confrade Voldi, na ocasião do ultimo Cariri Cangaço.

A presente Nota Prévia tem como objetivo dar conhecimento público aos seguidores do Blog Lampião Aceso da localização e do registro do ASSENTAMENTO DO BATISMO de MARIA BONITA contendo a exata indicação das datas: de realização da cerimônia religiosa e do seu nascimento.

Resultado de pesquisa documental e oral, operada a partir de abril de 2011, quando da realização do III Seminário do Centenário de Maria Bonita, promovido pela Prefeitura de Paulo Afonso-BA e, principalmente, realização da exposição Maria Bonita em Nós, promovida pela empresa Cria Ação Comunicação e Arte Ltda., sob a curatela e criação do padre Celso Anunciação, que contou também com a nossa assessoria técnica.

Uma questão muito emblemática para todos, incluindo muitos pesquisadores e historiadores, era a exata confirmação da data de nascimento de Maria Bonita. As imprecisões começavam quando comparávamos: para Virgulino Ferreira da Silva, o capitão Lampião, se encontrou o assentamento do batismo católico e o registro civil de nascimento – é mister que se esclareça – desencontrados em datas, meses e anos. Contudo todos os estudiosos consensam ser o ano de 1898 com o do seu nascimento.

A pergunta que não calava era: por que para Maria Bonita só nos restaram imprecisões de anos ou a única indicação de data, mês e ano - 08 de março de 1911 – sem que se tenha apresentada qualquer evidência documental?

1. Os Registros Históricos do Nascimento de Maria Bonita na Voz dos Autores.

O quadro a seguir sintetiza de modo rápido as diversas indicações quanto à data de nascimento de Maria Bonita:



A primeira indicação da data somente foi encontrada na 9a referência, contida no livro “O Espinho do Quipá – Lampião, a História”, publicado em 1997, 87 anos após seu nascimento e, coincidentemente, 60 anos após sua morte, contudo sem prova documental. Esta constatação, portanto, é o que despertou e moveu nosso interesse em desvendar tão logo e grande mistério da historiografia do Cangaço.

Com o apoio e direta colaboração de Celso Anunciação, com o qual tivemos acesso aos registros eclesiásticos da Paróquia de São João Batista de Jeremoabo e também da Paróquia de Santo Antônio da Glória, cujos livros se encontram arquivados na Cúria Diocesana da atual Diocese de Paulo Afonso-BA.

Justiça seja feita. Com relação a Celso Anunciação, por mais insistência que tenha sido feita à co-autoria da presente Nota Prévia e do futuro livro a ser concluído em brevíssimo tempo, respeitando sua vontade não posso deixar de afirma que sem sua direta colaboração, possivelmente perderíamos a chance de encontrar o assentamento de batismo de Maria Bonita. Os livros consultados se encontram por demais comprometidos tanto na conservação quanto no factível dando físico se forem manuseados.

Também não posso suprimir a providencial orientação e anuência prévia do resultado desta pesquisa, obtida com o grande historiador e amigo pessoal Frederico Pernambucano de Mello.

2. A Missiva de 1971 ao Bispado de Bonfim

A terceira referência que faz referência ao ano do nascimento de Maria Bonita se encontra no registro do pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo, quando no ano de 1971, uma missiva foi remetida à sede do Bispado de Bonfim no estado da Bahia, endereçada ao padre Vicente O. Coutinho, referido como secretário do citado Bispado (Diocese). Esta missiva é de particular importância no presente estudo. Os termos da mesma demonstram a busca pelas informações do pesquisador referido.

Não é de se estranhar que após 40 anos, em 2011, se tenha encontrado a carta datada de 16 de março de 1971, aparentemente sem resposta daquele Bispado, com os seguintes dizeres conforme fac-símile a seguir:


Frente

 Verso



È explicável o motivo pelo qual não tenha havido resposta à missiva de Antônio Amaury por parte do Bispado de Senhor do Bonfim/BA, senão vejamos: há a imprecisa indicação dos nomes próprios do pai e da mãe e de Maria Bonita. Nada de mensurar criticamente o pesquisador. Na época, é de se imaginar com os dados disponíveis, que qualquer um poderia cometer tais equívocos. Vale, no entanto a intenção positiva do pesquisador hoje já consagrado.

3. Registros das Paróquias de Santo Antônio da Glória e de São João Batista de Jeremoabo e dos Cartórios do Registro Civil de Santo Antônio da Glória e de Jeremoabo/BA.

Dado o precário estado de conservação em que se encontram os livros consultados a pesquisa, além de difícil requereu a adoção de cuidados especiais para que os registros não fossem danificados.

Os registros paroquiais consultados foram os seguintes: assentamentos de batismos do período compreendido entre os anos de 1901 a 1922 e para os assentamentos de casamentos do período compreendido entre os anos de 1907 a 1940.

Os registros cartoriais e civis consultados foram os seguintes: termos de nascimentos do período de 1902 a 1937 e para os termos de casamento do período de 1900 a 1940.

4. O assentamento de Batismo.

Nas primeiras consultas foi identificado o que veio no final da pesquisa a ser confirmado como o Assentamento de Batismo de Maria Bonita, encontrado na Paróquia de São João Batista de Jeremoabo no Livro do período de 1909 a 1915, de número 04 e na folha 30 verso, conforme se encontram a seguir a imagem em substrato da folha fotografada e a Certidão emitida em 22 de agosto de 2011:


Imagem fotografada em substrato da folha pelo autor.

Transcrição



Na consulta ficou evidenciada a utilização dos termos “filha (o) legítima (o)” somente quando compareciam à cerimônia do batismo o pai e a mãe respectivamente.

Quando ocorria de comparecer à cerimônia apenas a mãe os termos utilizados eram “filha (o) natural”. Não foi encontrado nenhum assentamento de batismo com o comparecimento somente do pai.
Estes formatos de registros nos assentamentos de batismos são comuns nos livros consultados com distintos párocos e períodos.

Imagem da certidão escaneada na íntegra.


As confirmações encontradas podem ser assim relacionadas:  
a. A coincidência do nome civil da mãe, Dona Déa – Maria Joaquina da Conceição”;
 b. A celebração da festa religiosa anual consagrada a Nossa Senhora das Dores realizada no arruado de Santa Brígida, no mês de setembro, quando o vigário da paróquia de Santo Antônio de Jeremoabo, em período denominado “desobriga” atendia às celebrações religiosas de missas, batismos e casamentos. Confirmação obtida com entrevista realizada com Ozéas Gomes de Oliveira (irmão mais novo de Maria Bonita) e sua esposa Dona Abelízia, quando em visita realizada na sua residência na Malhada da Caiçara;
 c. Confirmação obtida com a Sra. Abelízia, esposa de Ozéas, da existência passada de um cidadão denominado “AGRIPINO”, morador do Sítio do Taráe, localidade vizinha à Malhada da Caiçara;
 d. A não identificação nos assentamentos de batismos pesquisados nas Paróquias de Santo Antônio da Glória e São João Batista de Jeremoabo, de nenhum registro que indicasse qualquer semelhança com o registro encontrado e fotografado e a certidão emitida e assinada pelo Padre José Ramos Neves;
 e. A não identificação dos registros civis dos termos de nascimentos dos cartórios de dos municípios de Santo Antônio da Glória-BA e Jeremoabo-BA, de nenhum registro que indicasse qualquer semelhança com o registro encontrado e fotografado e a certidão emitida e assinada pelo Padre José Ramos Neves.

5. Breve Conclusão.

Dada a evidência do Registro e da Certidão extraída e das confirmações relacionadas, bem como de se ter também encontrado o assentamento do casamento de Edvaldo Ferreira Dias e Joanna Maria d’Oliveira (irmã de Maria Bonita), realizado não na Matriz, no dia 18 de abril de 1936, pelo Vigário e Padre José Magalhães e Souza da Paróquia de São João Batista de Jeremoabo, se pode afirmar com segurança que MARIA BONITA NASCEU AOS 17 DE JANEIRO DE 1910.

As conclusões e outras possíveis novidades estarão impressas no nosso trabalho que se encontra no prelo, aproveitamos para apresentar a capa deste.



Crato, Ceará, 22 de setembro de 2011.
Voldi de Moura Ribeiro
Sociólogo e Pesquisador

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Culto

Missa na Grota do Angico celebra 73 anos da morte de Lampião

Texto e imagens de Valeria Lima (Divulgação Assessoria Semarh/SE)



Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, era o cangaceiro mais temido e respeitado pelo povo nordestino. Para celebrar os 73 anos de sua morte, uma missa foi celebrada no Grota do Angico, localizada entre os municípios de Poço Redondo e Canindé do São Francisco, local da chacina ocorrida em 1938, episódio apontado por historiadores como o marco do fim do cangaço no Nordeste brasileiro.




O extermínio do bando comandado por Lampião e Maria Bonita foi relembrado durante a 14ª Missa do Cangaço nesta quinta-feira, 28, familiares do casal de cangaceiros, representantes do governo do Estado e de organizações da sociedade civil acompanharam a missa celebrada pelos padres Fabiano Rodrigues e Murilo Moraes.


Após a celebração religiosa, houve a visita à sede administrativa do Monumento Natural Grota do Angico, construída pelo governo sergipano. O coordenador da Unidade de Conservação do Angico, Jefferson Simanas, destacou a importância da unidade para manter a preservação da caatinga, como também desenvolver atividades de pesquisa científica, educação ambiental, ecoturismo e visitação pública.

"Sacos plásticos foram distribuídos para os visitantes durante o percurso da trilha ecológica até a chegada ao memorial do cangaço visando a preservação do ambiente".

Para a filha de Lampião e Maria Bonita, Expedita Ferreira Nunes, o aniversário da morte dos seus pais é algo inesquecível, que levará para toda eternidade. “Fico muito feliz em ver todo esse pessoal prestando essa homenagem. Para mim, é um sinal de muito orgulho”, afirmou.

“A nossa pretensão é deixar viva a memória histórica do cangaço que é um motivo importante para nós, como também que as tenham consciência e busquem mais sobre a história do cangaço”, destacou a neta de Lampião, Vera Ferreira.

Outra figura que foi homenagear Lampião foi Inácio José do Nascimento, de 72 anos. filho de Zé de Julião o cangaceiro "Cajazeira". “A data de hoje traz a recordação de meu pai que fazia parte do bando de Lampião. Sinto muito orgulho de compartilhar minha alegria com todos que estão aqui presentes”, revelou emocionado.

Pesquei no Aqui Acontece

Adendo
Duas imagens para compor vossos arquivos sobre a Grota.

 A trilha até Angico vista por satélite 
Clique para ampliar 


Altimetria 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Foi há 73 anos, exatamente numa Quinta-feira...

O fim da história
Gilberto Gil

Não creio que o tempo venha comprovar
Nem negar que a História possa se acabar
Basta ver que um povo derruba um czar
Derruba de novo quem pôs no lugar.

É como se o livro dos tempos pudesse
Ser lido trás pra frente, frente pra trás
Vem a História, escreve um capítulo
Cujo título pode ser "Nunca Mais".

Vem o tempo e elege outra história, que escreve
Outra parte, que se chama "Nunca É Demais"
"Nunca Mais", "Nunca É Demais", "Nunca Mais"
"Nunca É Demais", e assim por diante, tanto faz.
 
Indiferente se o livro é lido
De trás pra frente ou lido de frente pra trás
Quantos muros ergam como o de Berlim
Por mais que perdurem sempre terão fim.

E assim por diante nunca vai parar
Seja neste mundo, ou em qualquer lugar.

Por isso é que um cangaceiro
Será sempre anjo e capeta, bandido e herói
Deu-se notícia do fim do cangaço
E a notícia foi o estardalhaço que foi.
 
Passaram-se os anos, eis que um plebiscito
Ressuscita o mito que não se destrói
Oi, Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez
Lampião faz bem, Lampião dói
Sempre o pirão de farinha da História
E a farinha e o moinho do tempo que mói.

Tantos cangaceiros como Lampião
Por mais que se matem, sempre voltarão
E assim por diante, nunca vai parar
Inferno de Dante, Céu de Jeová.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Eventos alusivos

Ontem foi dia de Maria

Amigos nos perdoem o atraso. Como já expliquei por meio de comentário não sou folião, sou um operário da folia através da orquestra em que sou um dos croners. E este Carnaval foi de muito compromisso, tanto que não houve uma brecha para que eu pudesse dedicar um artigo para o centenário de Maria Bonita.


Enfim o feriado móvel acabou por adiar a realização de alguns eventos como por exemplo o 3º Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita que será apartir do próximo dia 23 deste entre as cidades de Paulo Afonso, BA Piranhas, AL e Canindé no meu Sergipe.

Nem todos correram atrás do Trio Elétrico e algumas entidades promoveram cerimônias para marcar o aniversário da muié do capitão. João de Sousa Lima fez um resumo dos principais. Em Inhambupe, BA, foi comemorado a data com uma missa e uma palestra sobre a Rainha do Cangaço. O Evento foi organizado pelo MMTR- Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais.

Em Paulo Afonso o Grupo "Os Cangaceiros" fizeram uma demonstração teatral do que foi a morte de Lampião e Maria Bonita, na Grota do Angico, contando com uma grande multidão que aplaudia cada momento. Vários Jornais do país fizeram suas homenagens ao dia internacional da Mulher, assim como aos 100 anos de Maria Bonita.

CLIQUE AQUI e confira um resumo sobre a entrada, vida e morte de Maria no Cangaço feito por Antonio Amaury em entrevista concedida ao Jornal Estadão www.estadao.com.br

Em tempo, anuncio aos amigos de Sampa que no dia 11, próxima sexta-feira, acontece o...


PROGRAMAÇÃO 

19h00 - Exibição de vídeos documentários sobre as Mulheres e suas lutas
20h00 - Leitura dramática de um texto sobre Maria Bonita pela atriz Soraya Aguillera.
20h10 - Bate papo sobre Maria Bonita e o Dia Internacional da Mulher com Nalu Faria, psicóloga, integrante da SOF – Sempreviva Organização Feminista e membro da Coordenação nacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil e Antonio Amaury Correa de Araújo, pesquisador sobre Lampião e o cangaço, com 14 livros publicados sobre o assunto em 62 anos de pesquisa.
21h10 – Leitura de texto sobre Dia Internacional de Lutas das Mulheres
21h20 - Apresentações musicais com a Priscila Amorim acompanhada de violão e percussão, com performances de dança por Fabíola Camargo e Ricardo Silva.

Durante o evento haverá exposição de livros sobre o tema, mostra de telas da artista plástica Leila Monsegur e do cartunista Junior Lopes. O artista plástico Jorge dos Anjos produzirá um quadro com o tema Maria Bonita e Dia Internacional da Mulher.

Serviço 

O que: Dia Internacional de Luta das Mulheres e Centenário de nascimento de Maria Bonita
Quando: 11 de março de 2011, sexta-feira, a partir das 19h. 
Onde: Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima Av. Henrique Schaumann, 777 - Pinheiros - São Paulo (SP) – Tel. 3082 5023 / 3063 3064  
Produção: O Autor na Praça, SOF e o poeta Ricardo Carneiro e Silva.  
Assessoria de Imprensa: Edson Lima – 9586 5577 – edsonlima@oautornapraca.com.br

Apoio: Biblioteca Alceu Amoroso Lima / Secretaria Municipal de Cultura / Prefeitura do Município de São Paulo / SOF – Sempreviva Organização Feminista / AEUSP – Associação dos Educadores da USP / ARTVER.

Açude: Lentes Cangaceiras


E para fechar o artigo...

Quem tem medo de Maria Bonita?

Ao me referir ao capitão Virgulino Ferreira da Silva como “marido de Maria Bonita” pretendi apenas, de forma humorada e bem feminista, ressaltar uma das principais características da personalidade desta mulher digna, sem dúvida alguma, do adjetivo notável: audácia.

Mas o fato é que durante a relação ela esteve mais para protagonista do que para coadjuvante. É o que se depreende da leitura do extenso capítulo a ela dedicado por Oleone Coelho Fontes no já citado Lampião na Bahia, apropriadamente intitulado Maria Bonita a primeira-dama do governador dos sertões.

Além disso, ela tinha olhos azuis, gene de uma das avós, holandesa de nascimento e casada com um português.

Afinal, era como tal que Lampião se sentia, ao menos desde o dia 22 de dezembro de 1929, conforme ele próprio proclamou em recado dirigido ao então governador da Bahia, Vital Soares, escrito a lápis numa das paredes da sede da Sociedade Filarmônica Recreio Queimadense, na cidade de Queimadas, nordeste do Estado.

A propósito de marido seja dito que Lampião não era formalmente casado com ela; mais importante, era apaixonado por ela. Sendo assim, seu estado civil poderia ser referido como amancebado. É difícil, porém, imaginar alguém com coragem ou falta de noção do perigo para empregar este vocábulo, que soa como um palavrão, para definir a relação.

Mas um compadre dela fez até pior; e não morreu por pouco, conforme contarei adiante.

Expressa em pouco mais de meia dúzia de atitudes descritas por Oleone, a maioria recolhida no livro de Antonio Amaury Correa de Araújo intitulado Lampião: as mulheres e o cangaço, a personalidade de Maria Bonita me impressionou em igual número de aspectos. Ela me pareceu superior à personalidade de outra guerrilheira famosa, Olga Benário, descrita por Fernando Morais, inclusive em algumas facetas desta que são comprovadamente ficção destinada a consumo de facção partidária.

Maria Bonita era de fato audaciosa!

Não foi localizado registro do seu nome em documento oficial, que seria * Maria Alina, de apelido familiar Lina, segundo Frederico Bezerra Maciel; sendo filha de dona Déia, era conhecida e tratada por Maria de Déia; finalmente, e definitivamente, foi cognominada Maria Bonita por seu famoso amante, sendo tratada por homens e mulheres do bando simplesmente como Maria, dona Maria ou referida como Maria do capitão.

Privativamente Lampião a tratava por Santinha.

Embora não fosse referência de beleza, feia ela não era. Desleixada com aparência, também não. Muito pelo contrário! Na opinião da cangaceira Dadá, companheira de Corisco, Maria era excessivamente esnobe, “e até afetada”, conforme depoimento a Oleone. Além disso, ela tinha olhos azuis, gene de uma das avós, holandesa de nascimento e casada com um português.

Noves fora o julgamento de Dadá, beleza e elegância são evidentes na fotografia que ilustra este post, feita por Abrahão Benjamin, misto de pesquisador, fotógrafo e cinegrafista que se juntou ao grupo de Lampião por vários meses com o propósito de conhecer o modo de vida, fotografar e filmar seus integrantes, registrando diversos momentos do cotidiano deles.

A primeira pessoa a fazer referência à beleza de Maria de Déia conversando com Lampião foi Luis Pedro, referido por Oleone como “o cangaceiro do peito” do capitão, amigos inseparáveis. Falava a pedido dela, a quem conhecera em companhia do marido, que negociava sapatos na feira de Pedra de Delmiro, cidade localizada nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. O casal era natural desta, no território do atual município de Santa Brígida.
- Compadre Virgulino, eu encontrei uma mulher casada com um sapateiro, bonita como uns amores, que me disse que quer lhe ver o mais breve possível e que, apesar de nunca lhe ter visto pessoalmente, gosta de você.
Lampião não se mostrou muito interessado. Argumentou que tinha cisma de mulheres “amorosas” e disse a Pedro que “mulher só serve quando a gente se encontra com elas de sopetão”. Além disso, ponderou que cangaceiro não pode ter amizade com ninguém.
- Não resta dúvida, compadre, mas o que é certo é que eu não fiquei tonto porque a coisa é com você!
Pedro fez tanta propaganda que acabou por despertar o interesse do compadre e combinaram que na semana seguinte iriam juntos “olhar pra cara dessa pavoa”.

Dito e feito. Em companhia de Luis Pedro e de mais quatro cangaceiros foi bater na casa do sapateiro, onde foram recebidos por Maria, que os convidou a entrar. Ousada que era, declarou diante de todos, incluindo o marido:  
“Este é o homem que eu amo.”
Em seguida, dirigiu-se diretamente a Lampião: 
“Como é, quer me levar ou quer que eu lhe acompanhe?”
Parcialmente reformulado e bastante resumido, este relato do nascimento da histórica relação amorosa foi feito originalmente por Optato Gueiros no livro Lampião: memória de um oficial ex-comandante de forças-voltantes.
“Como você quiser, Maria; eu também quero. Se estiver disposta a me acompanha, vambora” – respondeu o Rei do cangaço.
Sem preâmbulos, ela deixou a sala e quando voltou foi com uma coberta a tiracolo e dois bornais contendo roupa e objetos pessoais, à moda cangaceira. Virou-se para o marido petrificado num canto da sala a quem disse simplesmente:  
“Adeus, Zé!”
E desapareceu em companhia do sonhado amor.

Estamos no final de 1930 ou princípio de 1931. Maria, que nesta época estava com 21 ou 22 anos, casara-se com José de Neném ainda muito jovem. Um irmão dele, sapateiro também e chamado Messias, se casou com uma das irmãs dela, de prenome Joana e apelido Dondom. Maria e Zé não tiveram filhos. Segundo Bezerra Maciel, ele seria impotente. O ingresso de Maria Bonita no cangaço abriu um precedente que iria ser seguido por vários membros do grupo. Ela ficou grávida poucos meses depois do início da relação com Lampião. O filho nasceu morto, como mortos nasceram mais dois.

Mais tarde, uma menina conseguiu sobreviver à gravidez que transcorreu, como as anteriores, em meio a viagens a cavalo pela caatinga, sob permanente risco de morte. Expedita nasceu na Fazenda Pedra d’Água, em Sergipe. Deste local até a casa do vaqueiro Severo Mamede, escolhido para cuidar dela, são trinta léguas dentro do território sergipano.

“Mas trinta léguas dessas de beiço, das que o Diabo mediu de cócoras em dia de mau humor”, escreve Joaquim de Góis no livro Lampião, o último cangaceiro, reproduzindo relato que ouviu do avô materno da menina, Zé Felipe, falecido em 1965, com 85 anos. Dona Déia morreu poucos anos antes em conseqüência de picada de cobra. O relato contém uma síntese da personalidade de Maria Bonita e por isso vale a pena ser lido tal como reproduzido por Oleone Fontes, que o recolheu no já citado livro de Antonio Amaury Correa de Araújo.

“Era um tempo calorento danado. A caatinga exalava um bafo quente, parecendo boca de fornalha. Maria tinha tido um resguardo de trinta dias e só na véspera é que tomara o seu primeiro banho frio, no que agira como todas as mulheres sertanejas.

Fez uma tipóia de uma toalha, passou-a obliquamente no corpo, tendo por suporte o pescoço, colocou a criança à tiracolo e partiu junto com o grupo com destino à fazenda Inchu, situada nas margens sergipanas do rio São Francisco. Aí a criança deveria ser entregue ao vaqueiro Severo Mamede, pessoa indicada e escolhida a dedo para criar a filha de Lampião.

Dizem que o intermediário da escolha desse vaqueiro, em arranjo com o proprietário dessas terras, Zequinha A. Tavares, foi o coronel João Maria de Carvalho, coiteiro e chefe político de Serra Negra, e o próprio Rei do cangaço. Voltemos, porém, a falar da viagem do grupo no rumo da casa do vaqueiro Severo Mamede.

No segundo dia, os cangaceiros dirigiram-se para uma ‘pias’ com a finalidade de reabastecerem-se de água. Encheram as ‘borrachas’, cabaças e cantis e seguiram o rumo desejado. Maria, por encontrar-se ocupada em cuidar da criança, foi a última a encher sua cabaça. A menina chorava desconsoladamente talvez em virtude do calor e debalde a mãe tentara amamentar-lhe, atrasando-se em relação aos companheiros que já caminhavam mais à frente.

O sol foi ficando cada vez mais quente, a caatinga parecia que iria transformar-se em uma fogueira a qualquer momento. Os cangaceiros já estavam a uns duzentos metros adiante em relação a Maria, que ia ficando para trás isolada. A criança continuava chorando sem que a mãe conseguisse aquietá-la; esta foi perdendo a paciência e começou a praguejar, gritando pelos companheiros que, indiferentes, avançavam cada vez mais.

Quando Maria começou a gritar, chamando a atenção de todos, Lampião mandou que parassem, protegendo-se da canícula infernal sob a sobra de um umbuzeiro. Sentado em uma raiz dessa árvore, o monarca das caatingas ficou esperando a chegada dela. Retirou o grande chapéu de couro da cabeça e colocou-o sobre os joelhos.

Maria vinha caminhando sob o sol ardente e só se ouvia o seu praguejar. A rainha do sertão estava nervosa, irritada e mais brava que onça fêmea acuada com os filhos na toca. Ao aproximar-se gritava como uma possessa:
- Cambada de fi da peste, mundiça miserave. Oceis num tão vendo isso não?
E virando-se para Lampião, que olhava em silêncio, gritou:
- E esse outro fii da peste! Mulelque! Canela de viado, também não ta veno isso não? Num vê qui a minina ta chorando i qui eu tenho qui anda mais divaga? U qui é qui ta pensano, seu cego veio?
Ninguém se atravia a responder. Só depois de muito xingamento, com Maria falando tudo o que queria e pensava, foi que Lampião, com início de sorriso a despontar-lhe nos lábios, apontando para a criança, disse:
- Mate isso!
Foi o suficiente para que, como uma tresloucada, Maria partisse para cima dele e rebentasse a cabaça cheia d’água na cabeça do Rei do cangaço, que todo molhado apenas ria da violência e reação da sua mulher. Os cangaceiros acharam o fato jocoso, riram, e um dos que mais se divertiram disse:
- Guenta, capitão, qui hoji dona Maria ta virada numa serpente choca! Ta uma jararaca brava!!!
Com dois dias ou mais de viagem chegaram na fazenda Inchu e dona Aurora, a esposa do vaqueiro Mamede, passou a amamentar o fruto da união de Maria Bonita com Lampião”.

Citado por Oleone Fontes na sequência deste relato, Felipe de Castro narra em "Derrocada do cangaço no nordeste" outro episódio emblemático da personalidade da fiel companheira do capitão Virgulino. Trata-se do episódio a que fiz referência no inicio deste post, com o qual irei encerrá-lo.

José Gomes dos Santos, conhecido por José Fulô, natural de Santa Brígida e compadre de Maria Bonita, quando soube que Lampião havia partido com ela ficou inconformado. Desconhecendo detalhes do que realmente aconteceu, esbravejou contra o procedimento do cangaceiro, resumindo o que pensava nos seguintes termos:
“Pra um homi que furta uma muié casada contra a vontade do deu marido só hai uma resposta – bala! Este homi não incontrou ainda um macho qui lhe desse um tiro na cara!”
A notícia da revolta de José Fulô correu célere pela caatinga até que chegou aos ouvidos do capitão Virgulino por intermédio de um coiteiro. Conforme ele relatou, na versão que se espalhou “o sinhô roubou Maria Bonita contra a vontade dela, o que tem provocado um grande desgosto nas caatingas”, referindo-se aos habitantes da região próxima. O capitão ficou possesso e disse o seguinte ao coiteiro:
“Apois você mesmo qui me trouxe a notícia desse valentão que ta tão danado por causo de Maria vim com eu, fica encarregado de mi apresenta este peste, amarrado que nem qui precise dos meus amigos pra isso, viu? Eu quero dar uma lição nesse cabra pra nunca mais ele se mete com a vida aieia”.
Maria Bonita não sabia do ocorrido, estava inocente quanto ao assunto.

A satisfação do desejo de Lampião não foi imediata. Longe disso. Ele de lá pra cá com suas ações e suas fugas; José Fulô de uma cidade pra outra – Canudos, Cocorobó – a comprar, retalhar e vender carne de bode nas feira para alimentar a família numerosa.

Eram 18 horas do dia 25 de novembro de 1935, quando ele chegou ao rancho de Antonio do Mocó, nas caatingas de Chorrochó, com quem fazia negócios. Bem recebido como sempre, não se apercebendo da traição contra si armada pelo dono da casa, foi, após, o café, deitar-se, e dormiu tranquilamente depois de longo bate-papo com seus amigos, para ser surpreendido ao acordar com os pés e mãos amarradas por Antonio do Mocó e outros elementos da casa. Ao perguntar o que significava aquela brincadeira de mau gosto, o dono da casa lhe respondeu incisivamente:  
“Você está preso por ordem de Lampião e vai ser entregue a ele”.
Os apelos não fizeram efeito. Seus carrascos não se comoveram com suas súplicas em benefício da família que o esperava ansiosa. No dia 2 de dezembro chegava Lampião, acompanhado do seu grupo, junto com Maria Bonita.

Ciente da excelente presa à sua disposição, o Rei do cangaço apresentou-se eufórico, certo de que estava prestes a executar a ansiada vingança. Não quis perder tempo com conversa alheias ao assunto, determinando que o presente fosse levado até ele.

Antonio do Mocó retira-se prazerosamente e vai cumprir a ordem recebida. Conduz José de Fulô até a varanda da casa, atado de pés e mãos. O pobre homem estava desfigurado e moralmente arrasado, como era natural que estivesse um indivíduo tão próximo da morte.

“Lampião recebeu-o alegremente constrangido, pois o riso que se esboçava dos seus lábios contrastava com o real sentimento que alimentava no seu íntimo, naquele instante rebelado pela avidez sádica de pratica a vingança a si mesmo prometida há vários anos” – descreve Felipe de Castro.

Reproduzo literalmente o restante da descrição:
“Maria Bonita, ao reconhecer o seu compadre José de Fulô, ficou atônica com a surpresa que aquele quadro horroroso provocou e, estática, aguardou os acontecimentos. Um silêncio profundo dominou o ambiente. Lampião aproxima-se do preso e segurando-o raivosamente pelo braço diz-lhe: ‘Então, seu valentão, o bandido que furta muié casada contra a vontade do marido merece um tiro na cara não é? Pois você agora seu peste vai morrê que é pra não se metê mais com a vida aieia!’
Mal vai se aproximando para a execução de sua vítima, esta, olhando suplicante para Maria, grita:  
“Minha cumade, pulo amor de Deus mi vala’.
Incontinenti, saltando no braço de Fulô e agarrando-o num gesto leonino e arrogante, grita Maria Bonita para Lampião:  
‘Cabra, este você não mata!’.
E com um solavanco violento arrebata-o das mãos do seu companheiro. Os cabras aí presentes entreolham-se, espantados ante aquele ato de violência, frontalmente exercido contra o seu chefe pela própria mulher; ficam totalmente parados aguardando silenciosos a eclosão do revide.

Mas Lampião surpreso com aquela atitude, inexplicavelmente assumida pela mulher que até aquele instante o aplaudia, respeitava e o amava loucamente, diz: ‘Dexa de bestera, Santinha. O qui é isto?’

Ao que lhe responde a sua companheira:  
‘Bestera não, Virgulino, eu tô ti falando agora com a mesma corage daquele dia qui sartei na anca do seu burro pra ti acompanhá pur amo. Este homi é de minha terra e é meu cumpade’.
Lampião, entre contrariado e visivelmente emocionado, olhos rasos d’água, exclama:  
‘Toma a bença a tua madrinha, peste! Santinha dá cá um beijo’.
Atracando-se com a sua amante e abrançando-se efusivamente, diz:
Leva o teu cumpadre pra casa, meu amô’.
Não localizamos o nome do autor da pesquisa, mas o açude é:  Trevo do Talvez

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ADENDO
*Maria Gomes de Oliveira é o nome da rainha do cangaço. 
Notem que as fontes são Oleone Coelho  e o polemico Frederico Bezerra Maciel 
Demais observações ficam a cargo do primo João e de quem mais desejar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Memória

17 anos sem 'Dadá'

Por: Ana Lucia

Neste ano de 2011, em que as mulheres ocupam uma posição de destaque na esfera política, econômica e social, como também mulheres ativamente envolvidas na arte, na música, na cultura, nas ciências e em vários outros setores, não podemos esquecer o centenário de nascimento da Rainha do Cangaço; Maria Gomes de Oliveira; a Maria Bonita. Mulher corajosa, a frente do seu tempo, determinou a enfrentar uma vida nômade, bandoleira, tornando-se a primeira mulher a entrar no mundo do cangaço.

A entrada da mulher no cangaço foi uma necessidade de afeto, de carinho e principalmente apoio e companheirismo diante de tantos atos criminosos praticados por seus companheiros neste sertão nordestino em que a própria sociedade como também por motivos diversos, contribuíram para que esses indivíduos se transformassem em cangaceiros ávidos por mudanças.

Diante desse exposto e recapitulando um pouco de sua história, destacamos a figura de uma outra mulher extraordinária, valente, guerreira... e amável: Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, mulher de Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco. Dadá, a Princesa do Cangaço, também chamada por Suçuarana justamente por sua valentia, tinha habilidades tanto no bordado e na costura como no manuseio de armas que, com muita precisão no atirar, foi à única mulher no cangaço a participar de forma ativa nas lutas e combates.

Dadá era diferente. Foi uma mulher forte, destemida, que seguiu seu companheiro quebrando também paradigmas sociais de sua época. Nascida em Belém do São Francisco, Pernambuco, casou-se oficialmente com Corisco tendo com ele sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Sobre sua convivência com as outras mulheres e os cangaceiros dentro do bando, ela afirmou em depoimento ao médico Estácio de Lima:

“[...] Era uma convivência maravilhosa, 
todo mundo tinha seu marido, uma amor danado, 
uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa. 
Uma vida bacana. Com Lampião, ali,
ninguém dava um nome, ninguém se enxeria com coisa
nenhuma. Agora, se ela saísse linha, o chumbo comia,
matavam, como aconteceu com Cristina de Português e Lidia.
Os cangaceiros eram muitos amorosos, tinham tanto carinho, 
eram capazes até de se esquecer das armas.”

Nesse relato, Dadá nos revela que, mesmo possuindo características marcantes como crueldade e hostilidade, por exemplo, os cangaceiros ao mesmo tempo mostravam-se capazes de demonstrar atos de doçura e amor por suas mulheres. Dadá lembra-se ainda que “quando não tinha tiro, tinha alegria, era tudo bom”. Em 1938 o cangaço se extinguiu com a morte de Lampião e de forma definitiva em 1940 com a morte de Corisco, que teimava em continuar para vingar a morte dos seus companheiros.

De pé: Maria do Carmo, sua filha


Entretanto, cabe aqui ressaltar a bravura de Dadá, esta mulher que após uma vida cheia de sofrimentos, alegrias, amor e lutas, morreu pobre na periferia de Salvador em Fevereiro de 1994 aos 78 anos, portanto, são exatos dezessete anos que Dadá não está mais entre nós. Aposentou-se como costureira, casando-se pela segunda vez com um pintor de paredes e uma vida dedicada a família com simplicidade e humildade acima de tudo e por tudo que ela significou para a história, foi uma guerreira notável e admirada por todos que a conheciam.Dadá ainda foi homenageada por sua luta e representatividade feminina em Salvador por sua personalidade forte e grandiosa como mulher, mãe e pessoa dotada de espírito solidário.

Homenagem justa, mas não podemos esquecer a importância desta figura feminina para a história social do Brasil que, no século XX, naquela época, eram tratadas para serem submissas aos maridos, sem valor, sem direitos e muito menos eram proibidas de subverterem contra qualquer injustiça tendo que se comportar de acordo com os padrões que regiam as convenções sociais, mas em pleno sertão rural nordestino, determinadas mulheres corajosas como Dadá, por exemplo, teve o denodo de enfrentar situações diversas e adversas por amor, cumplicidade e companheirismo participando ativamente do cangaço enquanto movimento popular, tornando-se um símbolo feminino contra a resistência política e social vigente.

São dezessete anos sem a nossa querida Dadá. Querida sim, pelos seus feitos, pela pessoa humana que foi, pela sua história de amor e dedicação que sobrepujou diante de todos por suas qualidades.

Ana Lucia Granja de Souza
Historiadora e pesquisadora


Adendo Lampião Aceso

Sérgia da Silva Chagas, a Dadá Morreu de câncer intestinal, dia sete de fevereiro de 1994, na capital baiana, precisamente no bairro de Mussurunga, sobrevivendo com uma pensão deixada pelo seu segundo marido. 


Viveu 12 anos de aventuras e perigos no bando de Lampião. Raptada por Corisco, aos 13 anos, na cidade baiana de Glória, Dadá acabou se apaixonando pelo "diabo louro". Em pouco tempo ela se transformou juntamente com Maria Bonita, a mulher de Lampião, numa das líderes do bando e, entre suas tarefas, no dia-a-dia do cangaço, era a costureira do grupo.
 
Deixou 3 filhos e *32 netos. O corpo é sepultado no cemitério Jardim da Saudade.

  
Fonte: Jornal A Tarde, BA
Foto de Maria do Carmo: Pag. 283 do livro "O mundo estranho dos cangaceiros" de Estácio de Lima.


*Número da época

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

30 de Julho de 2010

Há 66 anos, morria em Campina Grande o temido Antônio Silvino 

Por Severino Lopes
severinolopes.pb@dabr.com.br

Campina Grande - Aparentemente, a praça Félix Araújo, situada no bairro do Monte Santo, em Campina Grande, é apenas mais uma das tantas existentes na cidade. O que poucos sabem é que, por trás das árvores, bancos e pedras da praça se esconde um valioso tesouro, perdido no tempo e na história.

 Nádia Andrade, bisneta do cangaceiro, com a família,
exibindo uma foto de Silvino: orgulho do parentesco.
Foto: Katharine Nóbrega/Esp. DB/D.A Press


Na esquina das ruas Presidente João Pessoa e Arrojado Lisboa, existia uma casinha simples, que por sete anos abrigou Manoel Batista de Morais, o "Antônio Silvino", um dos precursores do cangaço, famoso antes do surgimento de Lampião, nos estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.

A casa, já demolida, ficava onde hoje funciona uma loja de automóveis e pertencia a Teodulina Aires Cavalcanti. O hóspede de Teodulina parecia ser pacífico. Andava com a Bíblia debaixo do braço e não gostava de falar de seu passado. "Ele era muito reservado. Dizia que tinha sepultado sua identidade", conta o pesquisador João Dantas. Nos últimos anos de vida, Antônio Silvino dividia seu tempo entre a casa da Teodulina e a Igreja Congregacional da Rua 13 de Maio, no centro da cidade.

A bisneta dele, Nádia Andrade da Silva, de 53 anos, ouvia a mãe, Maria Marciano de Andrade, dizer que Silvino era um velho bondoso. "Minha mãe contava muita história dele. Ela não falava que ele era uma pessoa tão temida. Não parecia ser um homem que amedrontava" revela Nádia, orgulhosa de ser parente do cangaceiro. O agricultor Paulo Roberto, 48, sobrinho dela e tataraneto do cangaceiro, também ouvia muitas histórias sobre o tataravô, mas nunca acreditou que ele tivesse sido um bandido.

Pernambucano de Afogados da Ingazeira, pequena cidade situada às margens do Rio Pajeú das Flores, no Sertão pernambucano, Silvino escolheu a casa modesta de taipa em Campina Grande para se refugiar nos últimos dias de sua vida, depois de ser solto, por ordem do então presidente Getúlio Vargas, após passar 22 anos na cadeia. Ele comandava um bando de cangaceiros quando herdou o nome de Antônio Silvino. Batizado de "rifle de ouro" e auto intitulado "governador do Sertão", durante 16 anos organizou saques, assassinou políticos, ignorou a polícia. Preso em 1914, foi anistiado em 1937. Morreu aos 69 anos, no dia 30 de julho de 1944, e foi enterrado no cemitério do Monte Santo, quase ao lado da praça onde passou boa parte de seus últimos dias.

Robin Hood - Nádia é uma das poucas bisnetas de Silvino ainda viva. Ela conta que o homem que espalhava o medo pelo Nordeste tinha um lado romântico. Nádia diz que cresceu ouvindo histórias de que o bisavô costumava roubar dos ricos para dar aos pobres. Apesar das supostas "boas intenções", ela não tem dúvidas de que o Silvino era um bandido. Mas custa acreditar que o bisavô era o monstro que se pintou na região. "Eu perguntava a minha mãe porque o meu bisavô tinha virado um bandido. Ela respondia que tinham matado o pai dele, o que criou um sentimento de vingança". Segundo Nádia, sua mãe se encontrou diversas vezes com Antônio Silvino, às escondidas. Com orgulho, a dona de casa apresentou várias fotos, entre elas uma de Antônio Silvino já mais velho, de chapéu e vestido com um terno gasto pelo tempo.



Desejo de vingança

Não foi por acaso que Antônio Silvino escolheu Campina Grande para viver os últimos dias de sua vida. Ele tinha laços profundos com a cidade e muitos coiteiros, que lhe davam cobertura. Por conta dessas amizades, ele atuou nos municípios próximos. No auge da vida de bandoleiro, agiu em Fagundes, Esperança, Monteiro, Alagoa Grande e Cabaceiras, até ser preso e levado para a Casa de Detenção, no Recife, onde ficou 22 anos.

Quando foi solto, Silvino resolveu morar em Campina Grande, na casa de uma prima do cangaceiro Silvino Aires Cavalcanti, chamado de Silvino Torto. Manoel Batista de Morais - mais tarde transformado em Antônio Silvino - entrou no cangaço motivado pelo desejo de vingar a morte do pai, Francisco Batista de Morais, conhecido como Batistão, assassinado na Serra da Colônia, no limite entre Paraíba e Pernambuco. Quando Silvino Torto morreu, Manoel Batista adotou o nome do líder e passou a se chamar Antônio Silvino. "Foi uma forma de ele homenagear Torto", conta o pesquisador João Dantas.

Antônio Silvino, segundo Dantas, foi um dos mais importantes personagens do cangaço. Antecessor de Virgulino Ferreira, o Lampião, ele substituiu cangaceiros como Jesuíno Brilhante, Cabeleira, Adolfo Meia-Noite, Preto, Lucas da Feira, Moita Brava, Silvino Aires e o próprio pai, Batistão. Segundo relatos da época, Silvino não praticava certas barbaridades, como estupros ou atos de extrema violência. Tinha um coração sensível.

Memorial - Um marco foi erguido por João Dantas no cemitério de Monte Santo, em Campina Grande. No local, garante ele, Antônio Silvino foi enterrado. O coveiro aposentado José Medeiros Maciel confirmou que o lugar é o mesmo onde Antônio Silvino foi enterrado. Medeiros trabalhou como coveiro 35 anos em Monte Santo e diz que conheceu o administrador do cemitério na época do sepultamento do cangaceiro. Dois anos e meio após o falecimento, os coveiros enterraram os restos mortais do cangaceiro em outro lugar do cemitério, até hoje desconhecido, porque a família não apareceu para retirar os ossos.

Publicado no Diário de Pernambuco: Diário de Pernambuco

O toque foi do O Nordeste

Quer saber mais? Lampião Aceso recomenda:

*Antonio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito
Sérgio Augusto de Souza Dantas, Natal - RN. 2006, Editora Cartgraf

O livro Antônio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito refere-se a algo inédito na historiografia nacional. De efeito, são poucos os títulos que cuidam da sua vida, e quando o fazem, a contam de forma exagerada e sem caráter científico. Em verdade, os melhores livros sobre a atribulada vida do cangaceiro foram escritos tendo como fonte quase única, folhetos de “literatura de cordel”.

O livro foi iniciado em 2002. De acordo com o autor Sérgio Dantas, foi concebido dentro dos mais rígidos critérios de pesquisa histórica. A busca de informações e dados para a composição do texto final, foi realizada em três vertentes: A primeira, através de pesquisas em jornais, em “Arquivos Públicos” da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A segunda, a partir da análise de documentos governamentais e comunicações entre Chefes de Polícia dos três Estados citados acima; e a terceira, por fim, utilizando-se de depoimentos de pessoas que tiveram conhecimento de alguns fatos relevantes em torno da polêmica personagem.

O livro – escrito não somente para estudiosos do tema, mas igualmente para leigos – pode ser dividido em três partes distintas, as quais refletem três diferentes fases do cangaceiro.
Importante, também, é o registro de encontros do cangaceiro – após seu aprisionamento – com intelectuais de expressão, como o potiguar Câmara Cascudo, o cearense Leonardo Mota, os pernambucanos Nilo Pereira e Jayme Griz, além do alagoano Graciliano Ramos e do líder comunista Gregório Bezerra, com quem o cangaceiro travou profunda amizade na Casa de Detenção do Recife.

A narrativa é finalizada com a descrição da morte do cangaceiro e seu funeral, repleto de populares, admiradores e curiosos, na cidade de Campina Grande, em 1944.

Esta obra encontra-se esgotada, recorra aos Sebos.
 

Resenha pescada em: Revista Raiz

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Opinião

28 de Julho 2010, 72 anos de culto ao herói errado

por Luiz Berto

Uma simbiose perfeita entre o homem e a natureza oferece, atualmente, um espetáculo fulgurante às cidades de Piranhas (Alagoas) e Canindé do São Francisco (Sergipe) com belíssimas paisagens, exóticas formações rochosas, águas cristalinas, trilhas ecológicas; e, sobretudo, uma singularidade ímpar de vegetação diferenciadamente exuberante e diversificada fauna.

Navegando pelo Velho Chico (aquele da “unidade nacional”), mais ao sul do lado sergipano entre cânions e rochas, ninhais de garças, praias fluviais e ilhas flutuantes, encontramos o município de Poço Redondo, na antiga região de campo-santo do Morgado do Porto da Folha; e, mais precisamente, após uma trilha de aproximadamente meio quilômetro, nos deparemos com a histórica Grota do Angico.

Tal Grota testemunhou, há exatos 72 anos, a derrocada do “Cangaço” quando da morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros. Tal empreitada foi comandada pelo célebre, e historicamente esquecido, comandante das “Volantes”, Tenente João Bezerra da Silva (Foto), da Polícia Militar de Alagoas, na manhã da quinta-feira 28 de julho de 1938.

Entendendo-se o Cangaço como hordas de bandoleiros e salteadores que aterrorizavam as cidades e povoados da região, marcadas pelo medo, pânico, pavor, terror e desmedida violência. Entendendo-se, por outro lado, as Volantes como forças policiais surgidas na década de 1920, itinerantes e de rápido emprego tático em ações no interior dos enfeudados sertões do nordeste “sub-saariano” brasileiro e criadas para combaterem este fenômeno fora-da-lei; poderemos conhecer o real significado do acontecimento, ora em transcurso, para estas ordeiras e honestas comunidades sequiosas de desenvolvimento e melhor qualidade de vida.

Contudo, não devemos nos esquecer que, na gênese do cangaço, mormente sua atividade criminosa e não justificada, manifestava-se uma forte reação social ao obtuso poder central, ao descaso dos políticos regionais e aos “coronéis de terra”, responsáveis pela miséria, trabalho servil e pelo abandono das populações interioranas da região Nordeste do Brasil.

Portanto, em vez de se querer “endeusar”, “martirizar” ou “canonizar” a figura de um bandido; conclamamos que seja feita uma revisão histórica dos fatos, atos e personagens envolvidos nos episódios em pauta. Talvez, se conhecêssemos melhor o verdadeiro papel das Polícias Militares (Força Pública ou Brigada Militar, à época) - em particular - as Forças Volantes; e, mais ainda, a trajetória policial-militar do Coronel Bezerra (então Tenente); talvez, não se cultuassem facínoras ou heróis errados de todos os matizes.


João Bezerra sentado fila de baixo, é o sétimo da esquerda para a direita.


O texto é de 2008. Atualizamos a data até porque todos hão de convir que Lampião é sempre atemporal.

Pesquei no :Besta Fubana

sábado, 7 de novembro de 2009

Aniversário de ex cangaceiro

Parabéns Seu Moreno!!!

Com um atraso de 7 dias, mas com a mesma satisfação gostaríamos de registrar aos amigos que no ultimo dia o ex cangaceiro Moreno completou um século de vida, com merecida festa que contou com a presença de vários pesquisadores e amigos da família em sua residencia na capital Mineira.


Parabéns Sr. Moreno 
e abraçando nossa amiga Neli


Kiko Monteiro