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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A maior das batalhas

Combate da Serra Grande - 95 anos depois
 

Por Valdir Nogueira

“O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, pelo senhor chefe de polícia, é atualmente o comandante das forças pernambucanas no sertão. Vimo-lo ontem a noite na Chefatura, conferenciando demoradamente com o Dr. Eurico de Souza Leão. 

As indicações que prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele oficial em todo sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados  e caatingas numa luta de vida ou morte contra os mais ferozes bandoleiros. 

O tenente Arlindo Rocha  é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado para responder então. Na face esquerda ostenta um gilvaz profundo: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.


- Onde foi esse combate? Perguntamos logo com nossa curiosidade despertada!
- Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Bellarmino. 

Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Dr. Júlio de Mello contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou às 8 e meia da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras, que Antônio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes pela retaguarda. E gritava: - Hoje tomo uma costureira dessas.
 

- E tomou?
- Não. Parece que tomou foi uma bala, pois parece que morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido nessa luta, acrescentou o tenente Arlindo só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a poucos passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Netto, ocupado em botar uma retaguarda.”

Volante de Arlindo Rocha, 1º a esquerda em 1935


Esse é uma parte do depoimento que prestou o tenente Arlindo Rocha ao “Jornal Pequeno” (PE) e que foi publicado na edição de n.241 de 20/10/1928, p.1. De acordo com o inquérito procedido foram mortos os seguintes policiais da Força Pública durante o Combate da Serra Grande em 26 de novembro de 1926:
 

Luiz Torres Barros
Severino Pereira da Silva
Pedro Aureliano da Silva
Targino Ferreira Primo
Octávio de Sá Araújo
João Terto
José dias dos Santos
Ângelo Inácio da Silva
José Arcôncio dos Santos e
Antônio Braz de Lima.
 

Da mesma Força Pública, policiais que saíram feridos:
 

Arlindo da Rocha
Sargento José Olinda de Siqueira Ramos
Manoel de Souza Netto (cabo)
Vicente Ferreira da Silva
Eduardo Pinheiro de Souza
Cícero Aristides Pereira
José Francisco Bezerra
José Caetano de Souza
Antônio Basílio de Souza
João Antônio de Souza
Luiz José de Souza
Antônio Alves de Lima.
 

CANGACEIROS QUE PARTICIPARAM DO COMBATE:
 

Virgulino Ferreira da Silva (Lampião chefe do grupo)
Antônio Ferreira da Silva (irmão de Lampião)
Vicente Feliciano
Antônio José da Silva (Beija-Flor)
Antônio Frazão (Pai Velho)
Luiz Pedro
Hermínio Xavier da Silva (Chumbinho)
José de Souza (Tenente)
João Soares (Juriti)
João Mariano (Andorinha)
Joaquim Mariano
Manoel Mariano
Severino da Silva (Nevoeiro)
Sabino Gomes
Isaias Vieira
Manoel Nogueira
Manoel Marcelino (Bom de Vera)
Ignácio de Medeiros (Jurema)
Felix Preto
Caetano da Silva (Moreno)
João Donato (Gavião)
Pedro Gomes
João Henrique
Antônio Rosa
José Lopes da Silva (Mormaço)
João Cesário (Coqueiro)
Manoel Antônio
Francisco Antônio
José Marinheiro
André "Marinheiro"
Antônio Marinheiro
Antônio Caboclo (Sabiá)
José Benedicto
José Angélica
José Generosa
Josias Vieira (Gato)
José Luiz (José Procópio)
José Preto
Cipriano da Pedra
Antônio Coelho
José Pedro da Silva (Barba Dura)
José dos Santos (Seu Chico)
Jorge Salu (Maçarico)
Raimundo da Silva (Aragão)
Antônio Francisco
João José da Silva Nunes
Marcelino Antônio dos Santos (Cobra Verde)
Antônio da Silva (Noite Braba)
Antônio Mancinho (Curise)
Marcelino Nunes da Cruz
Luiz Pedro do Retiro
José dos Santos (Três Pancadas)
Nunes Magalhães (Pensamento)
João de Brito
Euclides Bezerra (Criança)
Manoel Vieira da Silva (Coça Bomba)
Antônio Maneca
João Felix (Gasolina)
Urbano Pinto
Antônio de Tal (Antônio Romeiro)
Justo de Tal (Lua Branca)
Genésio de Tal (Genésio Vaqueiro)
 Vicente de Tal (Vicente Preto)
Antônio de Tal (Antônio Caboclo)
Pedro de Tal (Pedro de Quelé)
José de Tal (José Vaqueiro).
 

Coqueiro, Mergulhão, Valatão e Virgínio em Limoeiro do Norte, CE 1927

 

O Combate da Serra Grande travado no dia 26 de novembro de 1926, no município de Calumbi, bem próximo a Vila Bela deixou sua marca dolorosa gravada nos anais da guerra cangaceira, oportunidade em que as forças comandadas por nada menos que seis experientes comandantes, os temidos Gino, Mané Neto, Arlindo Rocha, Zé Olinda, Domingos e Euclides Flor foram espetacularmente derrotados pelo terrível cangaceiro Lampião. 

Para assinalar os 95 anos do ocorrido na última sexta-feira (26), um grupo de amigos liderados pelos historiadores Luiz Ferraz Filho (Serra Talhada) e Lourinaldo Teles (Louro Teles) de Calumbi, visitou o local do respectivo combate

 












Além destes dois historiadores o evento contou também com a participação dos pesquisadores Clênio Novaes (São José do Belmonte), Marrael Siqueira (Nazaré do Pico, em Floresta), Criscélio e Cristiano Carvalho (Tupanaci, em Mirandiba), Valdir Nogueira (São José do Belmonte), Wilton Santana (Jati-CE), Luiz Emanuel Nogueira (Nazaré do Pico, em Floresta), Amélia Araújo (Floresta), entre outros que colaboraram na visita. 

Uma cruz foi afixada para demarcar o local de sepultamento dos soldados mortos no triste combate, em seguida foi rezada uma oração em sufrágio de suas almas.
 

Valdir José Nogueira de Moura

domingo, 1 de dezembro de 2019

Arlindo Rocha

Uma entrevista com o matador do cangaceiro Sabino Gomes

Por:José Tavares de Araújo Neto

Retrato artístico de Arlindo Rocha
Acervo Denis Carvalho

Arlindo Rocha, (nascido em 23 de março de 1883 e falecido em 07 de outubro de 1956), na condição de delegado da cidade de Salgueiro, Pernambuco, tinha sob sua guarda o indivíduo conhecido por Antonio Padre, suspeito de ter cometido um crime na região. Inocentado, Antonio Padre roga um emprego ao delegado, que o leva para trabalhar em uma de suas fazendas de nome Barrocas, onde reside com sua família. Nessa relação próxima à família, nasce em Antonio Padre uma forte paixão por uma das filhas de patrão, que chega a propor que a jovem fuja com ele. Ao ter conhecimento da intenção do seu empregado, Arlindo o expulsa imediatamente de sua propriedade.

Injuriado pela humilhação a que foi submetido, Antonio Padre declara guerra ao seu ex-patrão, e vai em busca de proteção junto ao coiteiro Francisco Pereira de Lucena, o temível e poderoso Chico Chicote, proprietário da fazenda Guaribas, no município Brejo dos Santos (hoje Brejo Santo), localizado no cariri cearense, na divisa com Pernambuco e Paraíba.

Antonio Padre, vez por outra, enviava bilhetes extorsivos e recado ameaçadores dizendo que além de roubar a filha, iria “partir a MELANCIA, aterrar as BARROCAS e derrubar as CAEIRAS”, referências as três propriedades de Arlindo Rocha. Diante dessas ameaças, Arlindo Rocha forma um grupo armado, com pessoas de sua extrema confiança, constituído por parentes e agregados, pois sabia da alta periculosidade do seu antigo empregado, agora um afamado bandoleiro do bando do famigerado Lampião.

Em meados de 1924, Arlindo articula uma bem-sucedida emboscada contra o subgrupo de Antonio Padre, ocorrendo uma forte troca de tiros, no episódio que ficou conhecido como o “Fogo de Pilões”, que resultou nas mortes de Antonio Padre e Gavião. Em 26 de novembro de 1926, já promovido tenente, Arlindo Rocha participa da sangrenta Batalha de Serra Grande, considerada a mais importante vitória de Lampião sob as forças volantes.

Nesta batalha, que havia dito que os cangaceiros iriam comer bala, foi acertado por disparo na boca que quase lhe destruiu a mandíbula, que lhe trouxe problemas de mastigação e cicatriz pelo resto da vida, sendo então chamado pelos cangaceiros pelo apelido pejorativo de “Queixo de prata”. Em fevereiro de 1927, Arlindo comanda uma as das volantes no histórico cerco a Fazenda de Chico Chicote, evento que ficou conhecido como o “Fogo de Guaribas”, no qual é morto o temível fazendeiro e coiteiro cearense.

Em 13 de março de 1928, três forças volantes, comandadas pelos tenentes Arlindo e Eurico Rocha e o bravo sargento nazareno Manoel Neto, intensificam o cerco ao bando de Lampião no cariri cearense, precisamente no município de Macapá, atual Jati, na fazenda Jati, do fazendeiro Antonio Teixeira Leite, o celebre coiteiro Antonio da Piçarra. Já era tarde da noite, sob forte chuva, o céu entrecortado por raios e trovões, que um dos soldados da volante de Arlindo Rocha deflagrou um tiro certeiro no vulto de uma pessoa que atravessava um passadiço, pondo fim a vida do célebre Sabino Gomes, o mais importante cangaceiro do bando de Lampião, que, em entrevista em Juazeiro/CE, já o havia apontado como seu potencial sucessor.

 Capitão Arlindo Rocha e seu filho Edmar
Cortesia de Otavio Cardoso

Após a malfadada tentativa de Lampião de atacar a cidade de Mossoró, no oeste potiguar, ocorrida em 13 de junho de 1927, os governos do Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Pernambuco, uniram esforços no intento de eliminar definitivamente o cangaço dos seus territórios. A bem-sucedida “Campanha de 1927”, comandada pelo oficial cearense major Moisés de Figueiredo, em solo cearense, mas que também contava com contingentes policiais militares advindos do Rio Grande do Norte e da Paraíba, promoveu baixas, forçou deserções e fugas de cangaceiros rumo ao Estado Pernambuco. Em 21 de agosto de 1928, Lampião e seu bando, reduzido a apenas seis componentes (Ele; Ezequiel, seu irmão; Virgínio, seu cunhado; Luiz Pedro; Mariano e Mergulhão), em fuga, atravessam o Rio São Francisco e vão se homiziar na Bahia.

Em 20 de outubro de 1929, o Jornal Pequeno, de Recife/PE, veiculou uma entrevista concedida pelo tenente Arlindo Rocha, que reveste-se de importante documento para se entender melhor o mundo do cangaço.

Segue abaixo a transcrição integral da entrevista:

O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, é atualmente o comandante da forças pernambucanas no sertão.

Vimo-lo ontem, à noite, na chefatura, conferenciando demoradamente com o dr. Eurico de Sousa Leão. As indicações que se prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele policial em todo o sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida e morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado então. Na face esquerda ostenta uma cicatriz profunda: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.

 

 Arlindo no centro, sentados Theophanes Torres e 
Eurico de Souza Leão.
S. José do Belmonte, 1928.

Onde foi esse combate? Perguntamos logo, com nossa curiosidade despertada!

_ Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Belarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Júlio de Melo contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou as 8 da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras que Antonio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes e gritava: _ Hoje tomo uma costureira dessa.

E tomou?

_ Não. Parece que tomou foi uma bala, pois morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido, nesta luta, acrescentou o tenente Arlindo, só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a pouco passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Neto, ocupado em botar uma retaguarda.

Mas foi esse, tenente, o seu primeiro encontro com Lampião?

O tenente Arlindo riu e respondeu, a voz pausada:
_ Não. Eu já tinha brigado há tempos. Desde em que era subdelegado em Salgueiro, quando fui atacado e procurei tomar desforra. Mas isso no tempo em que, no sertão, cada qual se defendia por si mesmo. Eu e meus parentes demos uma brigada em Pilões. Brigada boa, aquela. Morreram de Lampião dois cangaceiros dispostos: Gavião e Antonio Padre. De lá p´ra cá tem sido essa marcha. Mas, de verdade, só melhorou a coisa com os drs. Estácio de Coimbra e Eurico de Sousa Leão. Foram eles quem me ajudaram, fizeram minha carreira militar; e é pór isso também que venho combatendo satisfeito sempre.

_ O sr. pode alto e bom som, disse o tenente Arlindo Rocha, que o sertão do Pernambuco está livre de cangaceiros. Pode acrescentar mais: os crimes de sangue e os assaltos a fortuna alheia se acabaram de vez.

E Lampião, tenente?
_ Lampião é, agora apenas, uma lembrança dos outros tempos. Dos tempos em que fora o rei do cangaço, dominando de Vila Bela a Salgueiro, do Ceará às margens do São Francisco. Avalie que eu mesmo, de uma feita, ao sair de Vila Bela com 12 homens, fui atacado na estrada pelos cangaceiros. Eram 26. Foi uma emboscada que me deu trabalho. Agora, no atual governo, jamais se viu Lampião procurar as forças para lutar.

Sempre na emboscada?

_ Nunca. É a fuga pela caatinga. O trabalho dos contingentes é todo para alcançá-lo e dar-lhe combate. Agora devemos argumentar com deficiência de comunicações, de aviso, de transporte e de víveres, etc. Entra-se pela caatinga adentro cinco, dez dias, um mês inteiro sem descanso. A comida é fruta e garapa de açúcar. E a cama é de pedra – um pedaço de jurema ou angico como travesseiro.

Mas onde anda Lampião? Inventam tantas coisas, às vezes ...

_ Bem sei, dr. Mas há muita mentira. O sr. argumente pelo pelos fatos da capital. Dá-se um conflito ali na esquina e na outra rua os mortos e feridos já estão triplicados. Basta notar o seguinte: seis meses atrás, Lampião com seis homens, pretendeu atravessar Pernambuco com direção ao Ceará. Não o pode fazer. Perseguimos o reduzido grupo um mês em Alagoas com o concurso esforçado e leal das forças daquele Estado. Encurralado, o bandido fez uma coisa que sempre se arreceara:

Atravessou o São Francisco, rumo à Bahia. As nossas fronteiras, de acordo com o plano traçado pelo dr. Chefe de Polícia, se acham inteiramente resguardadas de um impossível retorno dos bandoleiros. O próprio Lampião, por onde passa, diz que em nosso Estado não poderia mais viver. Na Bahia mesmo, a perseguição lhe foi terrível. Nossas forças como as daquele Estado, lhe moveram uma guerra tenaz. Na última corrida que lhe demos fomos pelo alto sertão baiano botá-lo a uma distância de mais de 100 léguas além de Juazeiro.

_ Quando Estive em Juazeiro da Bahia, contou-nos o tenente Arlindo, o prefeito perguntou-me porque sendo eu um homem doente e Lampião já em completa fuga, não mandava eu os meus homens em perseguição do bandoleiro e me arriscava aos percalços da caatinga. Respondi-lhe: É um entusiasmo que tenho pelo meu governo; quero ajudá-lo, assim de perto, cumprindo o meu dever. Lampião só tem cinco cangaceiros, segundo corre pelos sertões baianos, o seu objetivo é alcançar Goiás. E diz que não se entregou às nossas forças porque não tinha certeza se o trataríamos bem.

 

 Arlindo Rocha (esq.) e sua volante

Sabe quais os cangaceiros que vão com ele?
_ Sei. Ezequiel Ferreira, seu irmão; Virgínio Fortunato, seu cunhado; Mariano; Menino Oliveira e Luiz Pedro do Retiro.

E o famigerado Sabino?
_ Afirmam que morreu em Piçarra, no Ceará, num combate com minhas forças. O choque foi a meia noite. Debaixo de muita chuva e muita trovoada. Era um velho inimigo meu, o terrível Sabino. Lembro-me que num tiroteio ele gritava pra mim: “Arlindo das Barrocas, já te arranquei um queixo, quero levar o resto”.

Mas não levou, tenente ...
_ Não. Nem se cumpriram as promessas de Lampião, que me mandava dizer nos seus tempos folgados:

_ ”Quando passar na tua casa só deixo o chão molhado.”

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Oficiais

Arlindo Rocha, o Queixo de ferro

*Por Sálvio Siqueira

Arlindo Rocha nasceu no ano de 1883, filho gerado pelo casal Pedro de Aquino Rocha e dona Isabel Matias Rocha, era dono das fazendas Barrocas e Melancia, situadas no município de Salgueiro, PE.

Rocha era Delegado de Polícia na cidade citada, quando, certa feita, um criminoso, Antônio Padre, é absolvido em um júri popular. Não tendo outra saída no momento, Antônio recorre ao delegado pedindo um emprego. Arlindo o coloca para trabalha na fazenda. Tendo sua família morando na casa sede da fazenda Barroca, Padre cismou de apaixonasse por sua filha mais velha, Generosa Leite da Rocha.

Antônio Padre, sabedor de como se comportaria o delegado, convida Generosa para ‘fugir’, ir embora, com ele. A notícia vaza e Arlindo fica a par das intenções daquele que ele protegeu. Nas quebradas do sertão, a honra e o respeito são coisas para se levar na dianteira das pessoas. Arlindo sente-se traído, e até mesmo acha uma afronta de Antônio, então vai à fazenda Barroca e o expulsa da propriedade. O ex-presidiário não gostou nem um pouco.

Com o orgulho ferido e o coração partido segue rumo ao poente e vai alojar-se sob a proteção de Chico Chicote, em terras cearenses. De lá, dana-se a enviar recados dizendo que a qualquer hora voltaria para ‘roubar’ Generosa.

Passando-se o tempo, Antônio Padre consegue formar um pequeno grupo de bandidos composto por oito ‘cabras’. Junta seu grupo ao bando de Lampião e seguem para a fazenda Pilões em território salgueirense.
As intenções de Antônio Padre não era somente ‘roubar’, carregar a filha de Arlindo Rocha, Generosa Leite da Rocha “Os cabras de Antônio Padre, juntos a Lampião, conseguiram que este resolvesse partir para Salgueiro, para  “ Enterrar as Barroca e partir a Melancia, que eram duas fazendas do tenente Arlindo Rocha (...).” 
(“A derradeira gesta: Lampião e nazarenos guerreando no sertão” - Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros)
O delegado Arlindo Rocha é informado de que Antônio Padre e Lampião estavam aliados e que rumavam com a intenção de atacar a fazenda Pilões. Rocha reúne uma tropa, defensores convocados e voluntários, e vão dar combate ao bando de cangaceiros. A troca de tiros é intensa. No calor do ‘cortar da espoleta’ tombam o cangaceiro Gavião e o chefe cangaceiro Antônio Padre.

Ciente do perigo, iminente, que estava correndo, tanto ele como sua família, Arlindo Rocha viaja para a Capital do Estado pernambucano, a cidade de Recife, a fim de buscar ajuda para enfrentar a caterva do ‘Rei dos Cangaceiros’ junto ao chefe de Polícia do Estado, hoje seria Secretário de Segurança. Lá estando, deixa seu superior a par do que se passou no interior e solicita do mesmo armas e munição.

O Chefe de Polícia aconselha ao delegado a entrar para uma volante. Aceitando, é contratado como 3º sargento. Ao ser contratado, consegue que também contratem alguns parentes: ‘Vicente Pereira Matias’ e ‘Marculino Matias Leite’, que eram seus cunhados, ‘Antônio Matias de Santana’, um genro, ‘João Matias Rocha’ e ‘Manoel Matias Rocha’ seus primos, ‘Acilon Faustino’, um amigo e um dos seus empregados que trabalhava na fazenda Melancia, ‘Pedro Aureliano’. Pronto, estava formada a volante de Arlindo Rocha, aquela que se soubesse que Lampião estava no inferno, iria lá para brigar contra ele.

A partir daquele momento formara-se uma das volantes que mais deram combate ao bando de cangaceiros chefiados por Lampião, ou aqueles que só participavam de eventuais ações quando eram convocados pelo “Rei do Cangaço”, nos sertões nordestino. O comandante dessa volante, sargento Arlindo Rocha, foi ferido na altura da mandíbula, autores referem que o disparo partira da arma do cangaceiro “Caititu”, Luiz Pedro de Siqueira, quando da batalha na Serra Grande, em São Serafim, hoje Calumbi, PE, ficando conhecido como ‘queixo de ferro’ a partir daquele momento devido à cicatriz e ‘defeito’, sequelas, que ficara em sua face.



Alguns autores citam, equivocadamente, que Arlindo Rocha fora promovido a tenente antes do fogo da Serra Grande. Essa promoção só viera após aquele combate. Naquela batalha havia um tenente, Higino José Belarmino, dois sargentos, Arlindo Rocha e José Olinda de Siqueira, os cabos, Manoel de Souza Neto, Domingos Gomes de Souza e Euclides de Souza Ferraz mais o soldado Ducarmo, de Flores, comandantes das sete volantes, onde, juntos, formaram um contingente de mais de 300 homens para enfrentarem o bando de Lampião.

*Salvio é pesquisador e um dos mantenedores do grupo de estudos Ofício das espingardas

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Memórias de um oficial de Volante

Arlindo Rocha falou ao Jornal Ultima Hora, em 1953

Uma entrevista concedida pelo famoso tenente pernambucano, contando detalhes de sua vida, e dos combates que teve com Lampião, em cinco estados do nordeste.


 



 

 





Créditos para Ivanildo Silveira

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A maior batalha de Lampião em solo pernambucano

Serra Grande '86 anos'
Por José João de Souza

Em março de 1926, Lampião recebeu do Batalhão Patriótico de Juazeiro do Norte, a patente de capitão. Mesmo considerando que a patente não era legítima, o cangaceiro se tornou mais fortalecido e mais violento, também. Nesse ano, ocorreu uma série de atentados na região do Pajeú, com diversas mortes e sequestros, episódios que culminaram com a famosa Batalha da Serra Grande, ocorrida em 26 de novembro de 1926, a cinco quilômetros do distrito de Varzinha município de Serra Talhada.


A Serra Grande
Foto: Sérgio Dantas

Lampião tinha sequestrado Pedro Paulo Magalhães Dias, um inspetor da Standard Oil Company. O fato aconteceu na estrada de Triunfo para Vila Bela (atual Serra Talhada). Pedro Paulo era natural da cidade de Sabará, em Minas Gerais, e, por isso, ficou conhecido como Mineiro. Lampião pedia vinte contos de réis para libertá-lo, o dinheiro deveria ser entregue na Fazenda Varzinha, local indicado por Lampião.

Quando o bando chegou a Fazenda Varzinha, foi direto à residência de Silvino Liberalino, o qual tinha sido subdelegado de Vila Bela, no ano de 1911. Logo que viu a tropa, Silvino não percebeu que estava diante dos comandados de Lampião, pois, naquela época, as roupas dos cangaceiros eram iguais às da polícia. Então, saltou na calçada, com um rifle na mão, e fez a seguinte pergunta:
- É Lampião ou é Força?
O bando respondeu:
- É a Força Volante.
Silvino Liberalino se sentiu mais seguro e disse:
-Então podem entrar. Se fosse Lampião, ia comer bala.
Os cangaceiros entraram e pediram água para beber, quando Silvino colocou a mão no pote para retirar água, os cangaceiros o seguraram e se identificaram:
- Você está falando é com Lampião cabra.
E o prenderam, e para comemorar, deram alguns tiros em frente da residência, ainda hoje, existem algumas marcas de balas nas portas da casa.


Casa de Silvino Liberalino


Furo de bala disparada por cangaceiro em 1926

Os bandoleiros, que já vinham com o refém, Pedro Paulo Magalhães Dias (o Mineiro), levaram também, Silvino Liberalino, os dois presenciaram a Batalha na Serra Grande.

A intenção do bando de Lampião na Fazenda Varzinha, além de receber o resgate, era uma vingança por um antigo assassinato, ocorrido na Serra Negra, no município de Floresta, cometido por José de Esperidião, que se mudara para Varzinha.

O resgate foi levado por intermédio de Manuel Macário, homem da confiança de Cornélio Soares, no entanto, já na Fazenda Varzinha, o portador foi flagrado pela força policial do sargento Manuel Neto, que lhe aplicou severas torturas e recolheu o dinheiro.

O bando seguiu em direção à casa de José de Esperidião, cuja esposa, Rosa Cariri de Lima, ao ver de longe, a multidão, avisou o marido, alertando-o para que se retirasse. José de Esperidião perguntou:
- Quantas pessoas você acha que vêm?
Ela respondeu:
- Uns vintes homens.
Ele disse:
- Não corro com medo de vinte homens.
A mulher calculou muito mal, o quantitativo do bando era de aproximadamente, 68 cangaceiros.

José de Esperidião pegou seu rifle e dois bornais de balas e ficou entrincheirado no quarto. O tiroteio foi grande, de toda ribeira se ouvia o barulho das balas, após certo tempo de tiroteio, o bando resolveu colocar fogo na casa. Para tanto, retiraram toda madeira do curral, que ficava em frente da residência. Segundo o livro, o Canto do Acauã de Mariloudes Ferraz, na Varzinha o bando encurralou um rapaz que, sozinho, lutou até esgotar a munição.

Tiburtino Estevão ainda tentou socorrer o amigo. Pegou seu rifle e tentou se aproximar, mas foi visto por alguns cangaceiros, que passaram a atirar em sua direção. Uma bala atingiu uma galha de xique-xique, próximo da cabeça de Tiburtino. Vendo que nada podia fazer, o homem retornou à sua residência.

No dia seguinte, foram retirar o corpo de José de Esperidião para fazer o sepultamento, não encontraram marcas de balas no corpo dele, portanto, chegou-se à conclusão de que a morte fora por asfixia provocada pela fumaça.

José Pereira Lima, conhecido por Cazuza, filho da vítima, com apenas sete dias de nascido, encontrava-se deitado em uma rede na sala, no momento do tiroteio. Foi baleado, ficando com uma marca no pé pelo resto de sua vida. Geralmente, quando ia comprar sapatos, adquiria dois pares, um par 41 e outro par 42, pois o pé defeituoso ficara menor.

O bando seguiu viagem rumo às ribeiras do tamboril, chegando até o Sítio dos Nunes no município de Flores, de onde voltaram. Ao chegar ao Sítio Morada, hoje município de Calumbi, Lampião estava ciente que a policia estava no seu encalço, portanto, ali mesmo, abasteceu o bando e pegou o rumo da Serra Grande.

O sequestro de Pedro Paulo Magalhães Dias e os fatos acontecidos na Fazenda Varzinha foram interpretados como sendo um desrespeito às autoridades, por terem ocorridos na comarca de Vila Bela, na época, a sede do comando militar de combate ao cangaço no interior de Pernambuco. Portanto, foi preparado um destacamento com mais de 300 soldados, chefiados por seis comandantes de volantes, todos fortemente armados, inclusive com duas metralhadoras Hotchkiss, e muita munição, era um verdadeiro exército. Tudo inspirava confiança e dava a certeza da vitória.

Lampião estrategicamente com seus 68 cangaceiros, subiram a serra, e prepararam uma emboscada, em um local onde existem grandes pedras e fendas profundas, que lhe dava uma visão completa sobre o campo da batalha.

O combate teve início antes das 9 horas da manhã e terminou ao anoitecer, a polícia mesmo com um quantitativo superior, e os soldados atacando corajosamente, não conseguiram vencer a resistência do capitão Virgulino Ferreira e seus comandados.

A localização dos cangaceiros era ótima, conforme disseram os policias. Segundo o cangaceiro Ventania, no local que Lampião estava, nem canhão tirava ele de lá, no entanto, a posição dos soldados era extremamente precária, entrincheiravam-se como podia, sem comando, sem tática, salve-se como puder.

Arlindo Rocha recebeu um balaço no rosto que lhe fraturou o maxilar inferior, ainda no início do tiroteio, Manuel Neto foi baleado nas pernas, Luiz Careta de Triunfo faleceu com uma bala na cabeça, Euclides Flor recolocou ainda em combate as vísceras abdominais de Vicente Ferreira (Vicente Grande), atingido na altura do umbigo, o soldado Luiz José sofreu um ferimento na coxa.


Arlindo Rocha
Fonte: O Canto do Acauã, Marilourdes Ferraz.

Manoel Neto

Euclides Flor
Fonte: O Canto do Acauã, Marilourdes Ferraz

Para provocar os policiais, o cangaceiro Genésio deu um aboio triste e sonoro, os soldados se sentiram encurralados como gado, Antônio Ferreira não se conteve e se expôs totalmente, gritando como vaqueiro: Ei, booooi... Nesse momento, o sargento Filadelfo Correia de Lima, deu-lhe uma rajada de metralhadora, a partir de então, a polícia acreditava que Antônio Ferreira tinha morrido no combate.


Antonio Ferreira, irmão de Lampião.


Com a chuva de balas vindas de cima da serra, os soldados ficaram desesperados, portanto, aproveitavam a cobertura de fogo das metralhadoras para se debandar na caatinga, deixaram grande quantidade de armas, munições, cartucheiras, cantis, bornais, etc. Levavam apenas alguns companheiros feridos, quando podiam. Após a batalha, os cangaceiros recolheram 27 fuzis e mosquetões.

A Batalha da Serra Grande é considerada a mais violenta da história do cangaço, segundo o historiador Frederico Bezerra Maciel, morreram "26" policias e "38" saíram feridos, no bando dos cangaceiros não houve registro de morte.

Foram a Serra Grande verificar os fatos de perto, o Major Theóphanes Torres comandante de Vila Bela, o juiz de direito Dr. Augusto de Santa Cruz e o promotor de Salgueiro.

Antes do regresso para Vila Bela, o Tenente Higino ainda providenciou o sepultamento de sete corpos em uma única cova, no rancho de Pedro Rodrigues (proprietário local).


Higino José Belarmino
Fonte: O Canto do Acauã, Marilourdes Ferraz.


Tomaram parte na batalha os seguintes cangaceiros: Luiz Pedro, Maquinista, Jurema, Bom Devera, Zabelê, Colchete, Vinte e Dois, Lua Branca, Relâmpago, Pinga Fogo, Sabiá, Bentevi, Chumbinho, Ás de Ouro, Candeeiro, e seu irmão Vareda, Barra Nova, Serra do Mar, Rio Preto, Moreno, Euclides, Pai Velho, Mergulhão, Coqueiro, Quixadá, Cajueiro, Cocada, Beija-Flor e seu irmão Cacheado, Jatobá, Pinhão, Mormaço, Ezequiel e seu irmão Sabino, Jararaca, Gato, Ventania, Romeiro, Tenente, Manuel Velho, Serra Nova, Marreca, Pássaro Preto, Cícero Nogueira, Três Coco, Gaza, Emiliano, Acuana, Frutuoso, Felão, Biu, Cordão de Ouro, Genésio, Ferreirinha, Antônio Ferreira, Lampião e outros.

No dia seguinte à Batalha da Serra Grande, Lampião, já na Fazenda Barreiros, entregou uma carta a Pedro Paulo Magalhães Dias, endereçada ao então governador de Pernambuco, Dr. Júlio de Melo, propondo dividir o estado em dois, com os seguintes limites: ...Governo o sertão até as pontas dos trilhos em Rio Branco (Arcoverde), e vosmecê daí até a pancada do mar no Recife...

O relato sobre a Batalha da Serra Grande encontra-se no processo criminal contra Virgulino Ferreira et al., de 28 de novembro de 1926, 1° Cartório de Serra Talhada PE.

Está lá no Varzinha Net
OBS.Com excessão das segunda e terceira as demais fotos foram inseridas por nós.


Adendo Lampião Aceso

A Serra Grande dista da sede do município 25 km. Na rodovia que liga Serra Talhada a Custódia, terra de meu amigo "Re-mí-gio". A Standard Oil Company of Brazil hoje é a companhia Esso.

Tanto a quantidade de cangaceiros e soldados quanto o numero de baixas foi e ainda é passível de muita discussão durante estes anos. Muitos biógrafos trabalham com um numero,entre duzentos e noventa e cinco a trezentos homens no front. O numero de cangaceiros varia de 68 como apontado no texto, 90 e até de "130" cabras da peste, segundo um depoimento dado pelo Sr. Pedro Paulo "Mineiro" ao Jornal pequeno na edição de 29 de novembro de 1926.

O Boletim geral de nº 262  do dia 1º de dezembro de 1926 transcrito no Livro do confrade Geraldo Ferraz "Pernambuco no tempo do cangaço" (pág 147) apresenta relatório em que consta o numero de "260" (duzentos e sessenta) soldados.

O mesmo acontece quanto ao numero de soldados mortos: Autores, a exemplo do Bezerra Maciel citado no texto sugerem de vinte, até vinte e oito.

O Boletim geral de 29 de novembro de 1926 em trecho transcrito na pág 93 do livro "Lampião, Entre a espada e a lei" de Sérgio Dantas aponta o número de 14 feridos e "10" vitimas fatais.
O mesmo número consta no boletim de 1º de dezembro transcrito no livro de Geraldo Ferraz (páginas 143 e 144) e que estes dez mortos (soldados das forças de Pernambuco) foram devidamente identificados e enterrados sob orientação do major Theophanes Ferraz. que a propósito, e o texto já deixa claro, não participou diretamente do combate, pois estava em Vila Bella em contato com o Derby (Recife) Chegando só depois do fogo.