quinta-feira, 26 de julho de 2018

MARIA BONITA

A Primeira-dama do cangaço

Por José Bezerra Lima Irmão (*)

Lampião, em sua existência atribulada, não tivera ainda tempo ou disposição para dedicar suas energias a uma mulher de forma exclusiva. Tudo mudou quando o veterano cangaceiro do Pajeú, ao passar pela Malhada da Caiçara em dezembro de 1930, na volta dessa razia por Pernambuco, bateu os olhos numa caboclinha de maneiras firmes, meã de altura, toda roliça, de cabelos pretos, lisos e finos, à altura dos ombros, rosto arredondado, boca carnuda e olhos brilhantes. Apesar de morena, tinha os olhos azuis. Sua avó era holandesa de nascimento e casara com um português, tendo o casal emigrado para o Brasil em 1850, indo morar na região de Santa Brígida.

A caboclinha tinha uns 20 anos. Nascera e se criara ali mesmo, na fazenda Malhada da Caiçara, município de Santo Antônio da Glória, em terras hoje pertencentes ao município de Paulo Afonso, a duas léguas da atual cidade baiana de Santa Brígida, quase na divisa da Bahia com Sergipe.

O nome dela era Maria Gomes de Oliveira. Nasceu a 8 de março de 1911. Era filha de José Gomes de Oliveira, vulgo Zé Felipe, e Maria Joaquina da Conceição Oliveira, conhecida como dona Déia. Zé Felipe e dona Déia tiveram treze filhos – cinco homens e oito mulheres: José, Isaías, Oséias, Arlindo, Ananias (Pretão), Maria, Benedita, Olindina (Dorzina), Joana (Nanã, Nanzinha), Francisca (Chiquinha), Antônia, Amália (Dondom) e Deusinha. Sua família era modesta. Vivia da lavoura e da criação de bodes, cabras e umas vacas.

Por ser sua mãe conhecida como dona Déia, Maria quando solteira era tratada de Maria de Déia. Outros a chamavam Maria de Zé Felipe. Quando casou, em 1926, aos 15 anos de idade, foi morar em Santa Brígida. O marido era um sapateiro chamado José Miguel da Silva, seu primo em segundo grau, conhecido como Zé de Neném, passando ela por isso a ser chamada Maria de Zé de Neném, ou Maria Neném.

Zé de Neném e Maria casaram apenas “no padre”. Um irmão de Zé de Neném chamado Cícero, também sapateiro, casou-se com Dondom, irmã de Maria.

Maria e Zé de Neném não viviam bem. Não se amavam. Ela culpava o pai por ter “arrumado” o casamento. Não tinham filhos. Maria reconhecia que o marido era um homem honrado e trabalhador, tinha casa própria, um pequeno roçado e uma profissão definida, coisa rara naquela região, o que representava segurança quanto ao futuro. Porém ela não estava preocupada com essas coisas.

José Miguel da Silva
'Zé de Neném'

A sensação que tinha era de que estava desperdiçando a vida. Zé de Neném, apesar de ser apenas uns 6 ou 7 anos mais velho do que ela, era um homem conservador, calado, meio paradão e desconsolado, se bem que quando bebia uma cachacinha ficava mudado, caía na farra, chegava em casa no outro dia. Maria sentia-se sozinha no mundo. Antes de casar, ia a todas as festas, novenas e leilões daquelas redondezas, esmerando-se para ser sempre a mais bonita em todos os eventos. Agora, só vivia em casa, bordando, lavando, cozinhando. Para completar, contaram a Maria que Zé de Neném estava namorando com uma jovem senhora “largada” do marido. O diabo se soltou no dia em que Maria encontrou no bolso do marido um pente com o nome de uma moça de Santa Brígida.


Mulher geniosa, respondona, atrevida, Maria vivia às turras com o sapateiro. Estava sempre amuada, irrequieta, insatisfeita. Aquela vidinha monótona e insossa de todos os dias não se conciliava com o seu espírito aventureiro.

Porém, apesar das constantes rusgas do casal, Maria e Zé de Neném nunca tinham se separado pra valer. Estabanada como era, às vezes ela ia para a casa dos pais, na Malhada da Caiçara, mas uma semana ou duas depois Zé de Neném ia buscá-la, e tudo voltava à “normalidade”. Conhecendo os rompantes da filha, Zé Felipe e Dona Déia sempre ficavam a favor do genro.


 Zé Felipe e Dona Déia

A melhor amiga de Maria Déia era sua prima Maria Rodrigues, filha de Ursulina, do Sítio do Tará – Ursulina era tia e madrinha de Zé Felipe. Por ser quatro anos mais velha, desde criança Maria Rodrigues de Sá era quem organizava as brincadeiras e orientava a confecção das roupas das bonecas de pano e espigas de milho. Na adolescência e no começo da vida adulta de Maria Déia, a prima Maria Rodrigues era a sua confidente e conselheira. Se Maria não tinha ainda rompido de vez com o marido era em virtude dos conselhos da prima.

Em dezembro de 1930, depois de mais uma discussão com Zé de Neném, Maria decidiu passar uns dias na casa dos pais. Para não viajar sozinha, convidou uma amiga chamada Soledade e foram a pé para a fazenda.

* * *

Lampião já conhecia os pais de Maria desde o início de 1929, pois a fazenda deles ficava na rota de seus deslocamentos entre a Bahia e Sergipe. Às vezes, Lampião parava na Malhada da Caiçara apenas para pedir água. No oitão da casa havia ramalhudos umbuzeiros, onde a cabroeira descansava enquanto o chefe conversava com Zé Felipe. Certa vez, Lampião pernoitou na casa de Zé Felipe.

Dormiu em cima de uma mesa, enquanto Ezequiel dormiu num banco de madeira, pois não havia camas. Um sobrinho de Zé Felipe, que estava gripado, dormiu debaixo da mesa. À noite, o rapazinho teve um acesso de tosse, mas prendia a boca para não tossir, com medo de incomodar os hóspedes. Lampião percebeu o problema e tranquilizou o garoto:

– Tussa, cabrinha, pode tussi qui nun me incomoda não...

Embora os pais de Maria tivessem medo do cangaceiro, como a maioria dos sertanejos, sentiam por ele um misto de admiração e respeito. Nas conversas que mantinham, dona Déia já havia falado a Lampião a respeito de sua filha, dizendo que a moça sentia uma grande admiração por ele.

Coincidentemente, no dia em que Maria chegou à casa dos pais Lampião estava lá, em companhia do coiteiro Odilon Café (Odilon Martins de Sá), do Sítio do Tará, um dos maiores fazendeiros da região.

Maria e a amiga, vendo aqueles homens estranhos no alpendre da casa, passaram pelo oitão e entraram pela porta dos fundos. Lampião perguntou a Zé Felipe quem eram as duas moças. Zé Felipe respondeu:

– A de vistido azu é mĩa fia. É casada. Mora im Santa Brijda. A outa eu nun cunheço. Deve sê amiga dela.



Dona Déia e as filhas estavam atarefadas preparando o almoço para os cangaceiros. Maria e a amiga juntaram-se a elas. Os cangaceiros também ajudavam, uns apanhando lenha no mato, outros pegando, matando e depenando as galinhas. Durante o almoço, Lampião perguntou se Maria sabia bordar. Ela disse que sim. Lampião deixou quinze lenços de seda para que ela bordasse, dizendo que depois passaria ali para pegá-los.

* * *

Muita bobagem já foi escrita sobre Maria Bonita e sua família. Parte dessas bobagens é perpetrada por aqueles que escrevem “por ouvir dizer”, ou simplesmente dão asas à imaginação.
Sobre a forma como Lampião e Maria se conheceram, a versão de Frederico Bezerra Maciel é pródiga de romantismo e poesia, em que a crueza da vida cede espaço a uma visão idílica, irreal:

Lampião, montado num cavalo bem lavado e arreado, e Maria, vindo do banho, cheirosa, o cabelo comprido, solto, vestido mudado e estampado com flores miúdas e alegres, com babados... O cangaceiro, pasmo e extasiado, mal conseguiu pronunciar o nome da bonita sertaneja, e num instante já estavam sentados juntinhos, no banco de madeira sob o alpendre, onde ficaram a conversar longamente... 
Os olhos de Maria de Déia
colorizados por Rubens Antonio


Aduz o autor que, após esse encontro, para os dois, já de amor aceso, a noite que se seguiu foi de doces sonhos... E no dia seguinte, à mesma hora, retornou Lampião, vestido de branco, pontas de fino lenço perfumado no bolso superior do paletó, chapéu de feltro cinza-claro, de abas largas, jabiraca colorida no pescoço, presa por anel precioso, meias de seda e alpargatas enfeitadas com séries de ilhós brancos, sem descuidar dos apetrechos de guerreiro, portando mosquetão e, sob o paletó, cartucheira, pistola e punhal...



Maria recebeu-o com seu vestido novo, de festa, de chita estampada com saia larga pregueada e blusa fofa, o cabelo repartido à direita, formando uma linda trança enfeitiçante, com um cravo branco preso na ponta... Saíram a passear de mãos dadas, como dois namorados... Entreolhavam-se demoradamente... Abraçaram-se, a respiração em ofegos intermitentes de emoção, e Maria, encabulada, fechou os olhos meigos, para receber um beijo na face...

Ao contrário dessa descrição idílica, houve quem escrevesse sobre Maria Bonita procurado retratá-la como uma mulher vulgar, dando a impressão de que bastou Lampião estalar o dedo para ir atrás dele.

A versão mais chula da forma como Lampião conheceu Maria Bonita é contada por Optato Gueiros, com base num suposto relato de um ex-cangaceiro chamado Cambaio. Conta Optato que Lampião soube que a filha de Zé Felipe era a mulher mais bonita que havia naquele sertão, e teria dito: “Pois bem, a semana que entra irei olhá prá cara dessa pavoa”.

Deixou o grupo em certo ponto e foi à casa do sapateiro, acompanhado de cinco cangaceiros. Maria convidou-os a entrar, e foi logo dizendo “Este é o homem que eu amo”, acrescentando em seguida, “Como é, quer me levar ou quer que eu o acompanhe?”, ao que Lampião teria respondido “Como você quiser, Maria, eu também quero. Se estiver disposta definitivamente a acompanhar-me, vambora”; e então Maria pegou algumas coisas dentro de casa e, voltando-se para o marido, petrificado, no canto da sala, disse: “Adeus, Zé!”, e desapareceu com o seu sonhado novo amor.

Há outra versão segundo a qual Lampião teria humilhado Zé de Neném e por pouco não o matou. Não é verdade. Zé de Neném nunca viu Lampião e jamais foi molestado por ele ou por qualquer dos cangaceiros. E nunca precisou esconder-se, exercendo tranquilamente o seu ofício de sapateiro em Santa Brígida até o fim do cangaço, quando se mudou para Alagoas.

 Aspecto da Malhada antes da revitalização
* * *

Segundo Oséias, irmão de Maria Bonita, os fatos aconteceram assim:

Oséias, em foto de Manoel Severo
Tendo brigado com o marido, Maria, acompanhada de uma amiga chamada Soledade, foi passar uns dias na Malhada da Caiçara. Ao chegar, encontrou uns homens conversando com seu pai no alpendre da casa. Ela e a amiga rodearam a casa e entraram pela porta dos fundos. A mãe lhe disse que era gente de Lampião. Durante o almoço, Lampião pediu que ela bordasse uns lenços, mas só isso, praticamente não conversaram. À tardinha os cangaceiros foram embora.

Dias depois, dona Déia soube que sua mãe, dona Ana Maria, residente em Lagoa Grande, ao lado de Rio do Sal, estava doente. Dona Déia e Maria foram então visitar a anciã.

Dona Ana Maria realmente estava doente, mas não tanto a ponto de alterar a rotina da vida das netas. As primas de Maria lhe falaram de uma festa que ia haver numa fazenda vizinha. Maria acompanhou-as. Ao chegar lá, surpresa: quem patrocinava a festa era Lampião! Assim que as moças chegaram, Lampião bateu os olhos em Maria. Quando ele veio cumprimentá-la, Maria, nervosa, supondo que o cangaceiro iria cobrar os lenços que lhe dera para bordar, foi logo explicando:

– Ói, os seus lenço eu ainda...

Lampião interrompeu-a:

– Qui lenços, minina?! Aquilo foi só pra cunvessá cum você... Vamo dançá?

Dançaram várias vezes naquela noite. E também nas noites seguintes – ora numa fazenda, ora noutra. Uma semana depois, dona Déia disse:

– Maria, mãe já tá boa e nóis vamo vortá pra casa amanhã.

Maria sentiu um aperto no coração. Veio-lhe súbito à mente uma ideia providencial:

– Mãe, eu quiria ficá mais uns dia cum vó... Ela parece bem mió, mais tá tão fraquĩa... Dexe eu ficá tumano conta dela...

Dona Déia concordou. Voltou sozinha para a Malhada da Caiçara. Na mesma semana, seu irmão Ju chegou à Malhada da Caiçara com uma notícia alarmante:

– Déia, Maria fugiu cum um cangacero!
 

– Qui histora é essa, Ju? Maria fugiu cum um cangacero? Qui cangacero?
 

– Nun sei. Só se sabe qui é um cangacero.
                                                                                                                                                                
* * *

Oséias não sabe a data em que isso aconteceu, mas afirma que foi alguns dias antes do Natal de 1930.

Zé Felipe soube do fato pela boca da polícia: uma volante riscou em sua porta para ele dar conta do paradeiro da filha e de Lampião. Ao explicar que não sabia do que estavam falando, baixaram o pau nele.

Passado um mês, dona Ana Maria, já recuperada, estava lavando roupa num tanque, atrás da casa, quando alguém jogou uma pedrinha na água. Olhou para os matos e viu, escondida entre as ramagens, aquele rosto querido. Largou os panos e foi até lá. Maria estava sozinha. Um pouco afastado estava um homem de óculos, sério, de jabiraca, com um chapelão de couro na cabeça. Dona Ana Maria abraçou a neta:

– Mĩa fia, o que tá haveno cum você?

Abraçada à avó, Maria explicou:

– Vó, eu tou viveno cum Lampião. Nun vou largá mais ele.

– Mĩa fia, nun faça isso, pelo amô de Deus!...

– Tou dicidida, vó. Seja cumo Deus quisé. Console mĩa mãe e meu pai. Diga a eles qui me perdoi.

As duas continuaram abraçadas, chorando. Afinal, Maria desprendeu-se dos braços da avó e correu em direção ao cangaceiro.

Foi a última vez que dona Ana Maria viu sua neta.

* * *

Zé Felipe, a fim de demover a filha daquela ideia tresloucada, mandou dizer que queria vê-la. O encontro seria no outro lado do São Francisco, na fazenda Malhada, de Inácio Moreira, padrinho de Maria.

Lampião foi contra:

– Santĩa, quano você quisé vê seus pai é só dizê – Santinha era como ele a chamava –. Desde quano macaco me impata deu ir adonde eu quero? Você tá pricisano é dũa cumpanhera. Arranje ũa.

Maria pensou primeiro na prima Maria Rodrigues. Depois se lembrou de Mariquinha, sua prima e cunhada, que não vivia bem com o marido. Mariquinha (Maria Miguel da Silva), irmã de Zé de Neném, largou o marido, Eliseu, dono da fazenda Ingazeira, e juntou-se ao cangaceiro Ângelo Roque.

* * *

Foi assim que Virgulino, aos 32 anos de idade, conheceu o amor de sua vida.

A polícia passou a mover intensa perseguição à família de Maria, cometendo todo tipo de violência e ofensas morais. O tenente Liberato de Carvalho recebeu ordem de matar Zé Felipe. O pobre homem, avisado a tempo pelo soldado Antônio Calunga (Antônio Barbosa da Silva), fugiu para Alagoas – passou uns tempos na fazenda Salgado, em Água Branca (atualmente, município de Delmiro Gouveia, na beira do rio) e depois no povoado Salomé (hoje cidade de São Sebastião).

José de Déia, irmão de Maria, depois de ver várias vezes sua casa ser vasculhada por soldados, passando por vexames e humilhações, procurou a irmã e transmitiu sua decisão: queria ser cangaceiro. Maria não concordou. Mesmo assim, José acompanhou o bando durante uma semana, embora desarmado. Enfim, Maria chamou o irmão e disse:


 
Liberato de Carvalho


– Zé, vorte pra casa e vá tumá conta das coisa de pai. Disgraçada pur disgraçada, basta eu.

Até mesmo Zé de Neném foi preso e levado para Jeremoabo, acusado de ser coiteiro de Lampião!
As perseguições à família de Maria só cessaram depois do combate de Maranduba, quando Lampião mandou um bilhete para o capitão João Miguel, de Jeremoabo. O portador foi Tonico, primo e cunhado de Maria. Não se sabe o teor do bilhete. Sabe-se apenas que, depois de ler o bilhete, o capitão João Miguel disse a Tonico:

– Se você está numa missão dessa é porque Lampião confia em você. Diga a ele que pode mandar o sogro voltar para casa porque a partir de hoje não passa mais soldado em sua porta.

* * *

É duvidosa a origem do apelido “Maria Bonita”. Atribui-se a primazia a Ezequias da Rocha, um médico, professor (catedrático de História Natural da Faculdade de Medicina de Maceió), político (chegou a ser senador por Alagoas), jornalista e poeta (membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico de Alagoas), que fazia versos à moda dos trovadores de cordel com o pseudônimo de Alexandre Zabelê, ou simplesmente Zabelê. O certo é que de uma hora para outra o apelido passou a ser adotado pelos jornalistas, poetas populares, violeiros e repentistas.


 Ezechias da Rocha, à esquerda, 
e o poeta sergipano Hermes Fontes
In História de Alagoas.combr

No bando, ninguém a chamava assim. As outras cangaceiras chamavam-na simplesmente Maria, Maria do Capitão ou Maria de Lampião, já que havia mais de uma Maria no bando. Os cangaceiros, quando se dirigiam diretamente a ela, tratavam-na de Dona Maria, e quando se referiam a ela tratavam-na como a mulher do Capitão. Dentre os cangaceiros, poucos a chamavam de Maria, só os de “alta patente”, como Luís Pedro, Ezequiel e Virgínio. Na intimidade, Lampião chamava-a de Santinha, e ela chamava-o de Meu Véio ou, mais carinhosamente, “Nego Véio do meu coração”.

A notícia da cangaceira de Santa Brígida alastrou-se pelas caatingas. No sertão não se falava em outra coisa. O imaginário popular ganhava novos motes com esse sucesso nunca visto. Nas feiras, os violeiros e repentistas deslumbravam a gente sertaneja louvando o encantamento daquela mulher impossível. Os jornais estampavam a delirante façanha de Virgulino Ferreira, cujo reino agora estava completo – ascendera ao trono a ardente cangaceira, a bonita e aventurosa Rainha do Cangaço.

Lampião e Maria

(*) Texto extraído do capítulo 129 do livro “Lampião – a Raposa das Caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A partir de hoje em Serra Talhada


Tributo a Virgolino – 80 anos da morte de Lampião




A cultura e a história que pulsa nas veias do sertão já tem evento, local e data marcada para sua comemoração: O “TRIBUTO A VIRGOLINO – A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO”, será nos dias 25, 26, 27, 28 e 29 de julho/2018, na Estação do Forró e no Museu do Cangaço, em Serra Talhada/PE – Terra de Lampião e Capital do Xaxado, reunindo grupos musicais, grupos folclóricos, pontos de cultura, feira de artesanatos, violeiros repentistas, cantores, poetas, historiadores e pesquisadores do cangaço e todo público geral, numa festa em homenagem aos 80 anos de morte de Lampião.

O “TRIBUTO A VIRGOLINO – A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO” é um projeto que congrega diversos grupos e artistas, produtores culturais e artesãos celebrando a cultura de raiz, integrando as seguintes linguagens:

1.   Música; 2.   Teatro; 3.   Dança; 4.   Fotografia; 5.   Cultura Popular; 6.   Literatura; 7.   Artesanato; 8.   Gastronomia.

Durante a programação do evento haverá apresentações musicais com Trios e Grupos de Forró Pé-de-Serra, apresentações de Grupos de Danças Populares, Feira de Artesanatos, Área de Alimentação com comidas típicas da região, além da realização da CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO, um momento em que todos os grupos e artistas convidados se reúnem para afirmarem a importância do Cangaço na identidade cultural do povo sertanejo, e O ESPETÁCULO O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO.



As atividades serão realizadas na Estação do Forró, na Área de Alimentação da Feira Livres, dentro das escolas, no Museu do Cangaço e no Sítio Passagem das Pedras – localidade onde nasceu Lampião, utilizando diversos espaços/palcos paralelos um do outro.

O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO é o maior espetáculo teatral ao ar livre dos sertões, em Serra Talhada/PE, com 120 atores e técnicos, contando sua história, mesclando acontecimentos reais com o imaginário popular e o folclore, com vistas ao fomento nas artes cênicas na região do sertão nordestino, bem como a geração de emprego e renda para as cidades circunvizinhas e incentivando o turismo e a cultura local, estimulando o conhecimento da história, promovendo a autoestima, valorizando profissionais do teatro, envolvendo artistas e técnicos da região e do estado. Toda programação acontecerá em ESPAÇO ABERTO, SEM VENDA DE INGRESSOS

Realização:
Fundação Cultural Cabras de Lampião

Incentivo:
Funcultura / Fundarpe / Secretaria de Educação / Governo de Pernambuco

Apoio:
Prefeitura Municipal de Serra Talhada
SESC/PE.
Secretaria de Cultura / Prefeitura de Serra Talhada.
Comércio local.

Serviço:

MUSEU DO CANGAÇO – Ponto de Memória
Ponto de Cultura Cabras de Lampião
Vila Ferroviária, S/Nº – Centro
CEP: 56.903-170
Serra Talhada – Pernambuco
Tel: (87) 3831 3860 / 99938 6035
E-mail: cabrasdelampiao@gmail.com

Fonte: www.cabrasdelampiao.com.br

Gosta de história dos municípios?

Cabrobó: cidade pernambucana; em conta de chegada


 A obra contempla a história de Cabrobó e a história da transformação de Cabrobó.

Na primeira etapa estão presentes temas como origem de Cabrobó, nome e localização da fazenda de origem, fundação, fundador, construção da primeira igreja, extensão do território primitivo, evolução político-administrativa, exploração de cebola, e tentativa de mudança do nome de Cabrobó. Estão citados fatos e nomes de diversas pessoas, como eleições antigas e ocupantes de cargos legislativos e executivos, além de novidades acerca de Brígida de Alencar e Lampião entre outros.

Na primeira edição do livro de 1966 consta que o distrito de Cabrobó se estendia do rio Pajeú aos limites oeste e norte de então. Restringindo - se ao território do atual Estado de Pernambuco,  aquele  distrito,  que  já  era  extenso,  agora  se  amplia.  A  sua  reconstituição histórica,  que  ora  se procede com  base  em  informações  de  documentos  de  meados  do século  XVIII,  engloba  novas  povoações.  Assim,  da  ribeira  do  rio  Moxotó  para cima,  margeando  o  São  Francisco  e rumando  para  os  mesmos  limites de antes, tem-se o território imenso que pertencera ao distrito de Cabrobó.

Essa  reconstituição  é  relevante para esclarecer  que,  a  partir de Tacaratu  e  de Ibimirim, para o oeste, os atuais municípios da região estiveram ligados a Cabrobó.

Seguem  alguns  exemplos  representativos  daquela ligação: Jatobá, que pertenceu a Petrolândia,  que  também  já  foi  Jatobá,  que pertenceu a Tacaratu, esteve ligado a Cabrobó; Floresta, que já foi Fazenda Grande, que pertenceu a Flores, que já foi Pajeú de  Flores;  Serrita,  que  já  foi  Serrinha,  que pertenceu  a  Salgueiro; Bodocó, que pertenceu  a  Granito, que pertenceu  a  Exu; Araripina,  que  já foi São Gonçalo, que pertenceu a Ouricuri; Afrânio, que pertenceu a Petrolina, que pertenceu a Santa Maria da Boa Vista, que já foi Boa Vista, esteve ligado a Cabrobó.


Na imagem acima, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que foi construída em 1838, substituindo igreja sob a mesma invocação que se localizava na ilha de Assunção e fora destruída por cheia em 1792. Teve sua construção patrocinada por Dona Brígida Maria das Virgens, grande proprietária de terras da região. Trata-se de igreja de porte robusto, apresentando frontispício com predomínio de linhas retas, e duas torres sineiras com terminação piramidal. O frontispício é amenizado pelo desenho de gosto rococó do seu frontão. Apresenta contraforte em seu lado direito foi construído em função de outra enchente em 1919, que deslocou a população para local mais elevado, tendo a igreja sobrevivida, sem maiores danos. Internamente possui três naves interligadas por arcada e capela mor também separada por arcos, dos cômodos laterais. Fonte: Fundarpe.

Além  da  riqueza  de  informações  em Cabrobó:  cidade  pernambucana,  Arrisson Ferraz corrigiu várias distorções em publicações que citam o município. Por outro lado, há  registros  no  livro  dele  que, atualmente, são  motivos  de  divergências  por  parte  de outros  autores.  Sobre  elas,  estão  apresentadas  considerações  e  conclusões  na  nova edição do livro. Algumas delas e mais novidades estão citadas.

Lhe interessou?

Envie email para cl.rfernandes@hotmail.com / luizgonzagabf@yahoo.com / luiz.gonzaga@ipa.br ou entre em contato pelos números (81) 99976-0277 (Tim) / 98210-5547 (Vivo).

Créditos da informação para o cumpadi Denis Carvalho 

terça-feira, 24 de julho de 2018

Romance

Lobisomens e cangaceiros desfilam no livro “Homo Cactus”

O escritor chavalense, radicado em Parnaíba, Marcello Silva, lançará no segundo semestre deste ano, seu mais novo trabalho literário. A obra em questão se trata do livro de contos denominado “Homo Cactus” que será publicado pela editora paulista “Editorial Hope”.



O livro trás estórias e lenda da vida interiorana. São 15 contos que se comunica com o tempo e o espaço rural. “Cresci ouvindo boa parte dessas estórias. Costumava ficar observando as conversas dos meus avós e anciões da comunidade onde eu morava. Prometi que um dia eu colocaria no papel” afirmou o autor.

Há mistérios e suspenses em quase todos os contos como, por exemplo, em "Cangaceiro Sem Face" onde numa vila um sujeito estranho e misterioso aparece em uma noite a procura dos bisnetos do rei do cangaço; "O Lobisomem de Santa Cecília" narra a estória de fatos estranhos ocorridos na Fazenda Santa Cecília depois do aparecimento do silencioso Manoel Redondo. O amor ganha faces nos contos "O Pecado de Maria" quando a narradora vai fazer um trabalho de campo da faculdade conhece dona Celeste e seus segredos; "Buk e as galinhas" relata a vida rotineira de dois eternos amantes. Angústia e fé nos contos "Canto do Urutau I e II" quando uma mãe ganha voz e evidencia sua dor e drama ao esperar a volta de um filho que saíra de casa há quase três décadas; "Menino Vaqueiro" baseia-se em fatos, onde narra a angustia e a fé de uma família ao procurar pelo filho pequeno que se perdera no sertão. Enfim, os demais contos seguem essa temática e estilo.

Para o escritor e jornalista Pádua Marques “É bonito e gratificante ler uma obra igual a esta. E a gente acaba viajando entre os contos, seus títulos, frases e as letras, por entre as veredas que ninguém nunca imagina onde vão chegar...”

Para o escritor e professor Carvalho Filho: “nas narrativas de Marcello Silva um universo de homens duros e práticos, embora suscetíveis à fantasia, vivendo em um mundo a um só tempo lógico e assombrado.”. Mais adiante continua o professor Carvalho “Suspense e misticismo são alguns dos elementos encontrados nos contos deste volume. Quanto ao espaço, a zona rural se destaca como cenário privilegiado.”

Por fim, ponderou a escritora Luana Silva: “Esse abraço nostálgico que Homo Cactus nos traz é espinhoso, porém necessário. Essa resiliência que inspira, é o símbolo do sertão!”

O livro “Homo Cactus” estará disponível em breve no site do Grupo Editorial Hope (https://www.editorahope.com/ ) e será lançado no segundo semestre em Parnaíba/PI e Chaval/CE. Mais informações no blog do autor: www.marcellossilva.com.br

domingo, 22 de julho de 2018

De 26 a 28 de Julho

Seminário Sertão Cangaço em Piranhas

O Seminário Sertão Cangaço 2018  irá reunir grandes pesquisadores da temática Cangaço na cidade de Piranhas /AL, de 26 a 28 de julho de 2018.

Nesse ano o encontro abordará os 80 Anos de Angico, com exibição de vídeos e apresentação de pesquisas ainda inéditas que em muito contribuirá para entendimento da História do Cangaço. Tudo isso no Centro Cultural Miguel Arcanjo - Centro Histórico de Piranhas

Participem

Confira a programação completa.



sábado, 21 de julho de 2018

Extra, extra!


Com a sensacional manchete LAMPEÃO ESTÁ NO RIO DE JANEIRO?, o jornal "CRÍTICA", nas edições de 31 de julho, 1º, 2, 3, 4 e 6 de agosto de 1929, tentou demonstrar aos seus leitores, embora sem bons fundamentos, que o cangaceiro Virgulino Lampião estivera, em julho de 1929, em tratamento oftalmológico, na Cidade Maravilhosa, a então capital do Brasil, Rio de Janeiro.

Os demais jornais fluminenses, alguns deles circulantes em todo o Brasil, nenhuma linha eles escreveram, nada disseram a respeito da alardeada notícia dada por este menos expressivo "Crítica".

Pelo que eu li, "Crítica" foi um matutino, de existência efêmera, curta, pois fundado em novembro de 1928 e extinto em outubro de 1930, que funcionou basicamente como órgão de defesa e promoção da candidatura do paulista, governador de São Paulo, Júlio Prestes, à presidência da República. Observei, outrossim, que este jornal, nesta sua empreitada, valeu-se aqui e ali da figura nacionalmente famosa de Lampião, para desqualificar os seus adversários nordestinos, o ex-presidente Epitácio Pessoa e o seu sobrinho, o governador da Paraíba, João Pessoa, o vice na chapa de Getúlio Vargas, sempre acusando-os de promovedores do cangaceirismo, e que tais políticos mantinham ligações amistosas com o cangaceiro Lampião.

Fato é que os sulistas, de uma forma geral, que, naquele tempo, enxergavam e sentiam o cangaço como algo distante, espetacular, sensacional, devido ao modo mais das vezes romântico e humoristíco com que a imprensa, especialmente a do Rio e São Paulo, traduzia o banditismo nordestino, adorariam conhecer, estar com Lampião e divertir-se com a tropa de cangaceiros, devidamente paramentada, eles como verdadeiros artistas, num palco, simulando ataques, tiroteios, dançando xaxado.

Encheriam ruas, largos e praças, os cariocas, para ver e tocar no fenomenal personagem, um dos mais conhecidos brasileiros da história, símbolo maior de um banditismo que não surgiu por acaso, nem sem causas, o Lampião, um criminoso dos grandes, saqueador dos maiores, matador sanguinário, este foi o seu destino, e que o tanto fascínio que a sua longa e heroica tragetória causou, terminou por ofuscar a sua real história, mas iluminar na forma de enriquecimento, as artes, como a literatura, o teatro, o cinema etc.

Divirtam-se com esta matéria do jornal CRÍTICA, a qual, se longe de expressar cabalmente uma verdade, qual seja, a presença de Lampião no Rio de Janeiro, pelo menos, se presta a mostrar-nos um pouquinho dos modos de vida, hábitos, costumes, lugares, da mais belas das cidades, na terceira década do século XX passado.

Lampião no Rio de Janeiro?

O nosso correspondente na Bahia afirma a ignorância, naquele estado, sobre o paradeiro do famoso bandido. – Todas as vias de comunicação exterior da cidade estão sendo severamente vigiadas.

O bandido homiziado no Morro de São Carlos?

É este o boato que, à última hora colheu a caravana de CRÍTICA. Lampião, com dois asseclas, e suficientemente apadrinhado de poderosas figuras da política regional de certo Estado nordestino, encontra-se homiziado, aparentando-se um morador recente, nos labirintos de ruas duvidosas daquele morro.

Desta forma, uma investigação policial, bem orientada, naquele local, talvez redundasse em feliz e inesperado resultado. Toda pista, insignificante embora, merece sérias atenções e diligências. Clamoroso que este bandido, afrontoso, perambule por esta cidade, em uma segurança proveniente de desmoralizantes motivos aos homens encarregados da ordem social. Neste momento, de automóvel, partem para ali, a caravana de CRÍTICA, e vários investigadores de polícia.

A cidade empolgada com a notícia da estadia do famigerado Lampião. A realidade de semelhante acontecimento apresenta-se cada vez mais forte, com face de novas significativas circunstâncias. Ainda fizemos ver sob certos aspectos as restrições necessárias aos despachos telegráficos, quando das notícias sobre as carreiras do famoso bandoleiro nordestino. Os informes sofrem, não raramente, desmentidos formais. E ao afirmar-se que se encontrava ele, num cerco de morte e ferido de morte, nos sertões baianos, apressamo-nos a dirigir ao nosso correspondente naquele Estado, em uma intenção de sinceridade induvidosa, um despacho, pedindo urgentes informações sobre o cangaceiro, que dizemos estar nesta cidade, em estação de cura.

E oferecemos em outro local, a resposta prontamente obtida. Não estranhamos, de modo algum, o silêncio que a imprensa tem feito em torno do fato. Na verdade, é uma coisa quase inconcebível, porém que merecera a aceitação das nossas mais altas autoridades policiais, habilitados, assim, a um juízo dentro das verdadeiras possibilidades. O bandido, sabe-se amplamente, há transitado, incógnito, em cidades populosas nos interiores estaduais, onde a sua identificação seria feita, não fossem as hábeis precauções dele, imediata.

Envolvido, no caso, o padre Cícero?

Ontem, levantamos esta hipótese. Hipótese forte. Nos transes da moléstia que lhe torturava os dias, o bandido, dirigindo-se, talvez, à Meca cearense, implorara a proteção de “seu Padim”.

Dissera da sua situação dolorosa e como no conhecimento instintivo das possibilidades médicas do meio, falara da desconfiança que lhe inspiravam os curandeiros, utilizando, em suas operações, processos misteriosos e assombrativos. O velho Padre, com razões muito suas e por uma boa dose de perspicácia dos proveitos políticos que tiraria deste favor, auxiliou o bandido, encaminhando-o no Rio, mediante intermediários seguros e capazes.

Lampião não trepidaria, em absoluto, na empreitada conquanto a mesma tinha o placet do velho padre. A confiança absoluta que Lampião deposita no espírito do padre, já a afirmara, há tempos, nesta frase:

- Eu, por meu Padim, vou inté pro inferno, quanto mais pro çumitero que é logá sagrado.
No caso não se tratava ainda do inferno, tampouco do çumitero, mas do Rio de Janeiro um céu-aberto.

Quando a polícia dormia: Lampião, com efeito, está preocupando todo o mundo. Até a polícia. E surgem os primeiros ensaios de versos populares, como estes que nos foram enviados pelo trovador que se assinou Manoel Vieira de Lima:

Lampião no Rio quando a Polícia dormia

De trinta para trinta e um
O povo daqui nada sabia,
Que o Lampião do Norte
No Rio permanecia,
Com muita calma sem barulho
Veio ao Rio no mês de julho
Quando a polícia dormia.

Talvez fosse alta noite
Ou até mesmo de dia,
Quando ele aqui chegou
Pela calma que havia
Ele sutil e bem macio
Conseguiu entrar no Rio
Quando a polícia dormia.

Veio tratar de um olho
Que há longo tempo sofria,
No gabinete do oculista
Disse onde residia
Aproveitou daqui o frio
E assim gozou no Rio
Quando a polícia dormia.

Não sei se veio só
Ou se algum cabra trazia,
E assim pode saber
O que contra ele havia.
Dançou muito e nada viu
Rindo-se entrou e saiu
Quando a polícia dormia.”

Um que viu o Lampião!

Em nossa redação surgiu, hoje, um cavalheiro, cujo nome pediu não fosse declinado, que afirmou ter visto, nas proximidades do largo do Machado, no bairro do Catete, um indivíduo trazendo sinais idênticos aos do famigerado bandoleiro. Perguntamos-lhe porque não o apontara ao primeiro guarda civil ou não dera alarme?

Respondeu-nos que assim não procedera à falta de dados positivos. Aí fica a indicação confirmativa.

“Crítica” Diligência

A nossa caravana encontra-se em grande atividade, infatigável, vencendo obstáculos, no afã de descobrir o celebrado salteador, e mostrar até onde é errônea a suposição de alguns incrédulos da realidade da sua presença.

Temos diligenciado em todos os sentidos. A polícia por sua vez orienta em sentido idêntico sua ação. A assistência de amigos do Padre Cícero, estamos certos, obstam, em grande parte o melhor dos nossos esforços.

Se já esteve ele em outras tantas cidades, disfarçado. E sabe-se dos estupefacientes expedientes de que lança mão para estes fins. Lampião no Rio. Protegido pela política regionalística, do coronelato ignóbil dos sertões.

Lampião no morro de São Carlos!
A policia perseguindo um pacato morador do Morro do São Carlos

Lampião no Rio de Janeiro! “Crítica” vem insistindo nesta afirmação, porque, cada dia, se documenta em dados, informações, e indícios, tão evidentes que se tornam quase incontrastáveis. As hipóteses formuladas sobre a veracidade deste fato, mereceram, de maneira franca, a própria aceitação das nossas mais eminentes autoridades policiais.

De qualquer forma, as circunstâncias estão a indicar, por mais tenaz que se faça agora, a ação da polícia, fatalmente resultará infrutífera. O bandido, sentindo-se descoberto, pôs-se a fresco, tomando um rumo, ou local, que lhe oferecesse mais segurança e tranquilidade.

Seguindo a pista que nos fora fornecida, de seu homizio no morro de São Carlos, a caravana de “Crítica” para ali partiu, desenvolvendo no labirinto de ruas sórdidas do morro, uma ação que ultrapassou os próprios limites de suas possibilidades.

A nossa reportagem irradiou-se por toda aquela zona malandra da cidade, fortificada pelos desejos de fornecer, ao público carioca, a positivação deste formidável “crack” jornalístico que é a estada de Lampião da gloriosa cidade de São Sebastião. Os nossos esforços, quais os da polícia, resultaram baldados. O tradicional morro manteve encerrado, nos seus casebres e na sua sordidez o celebrado bandido.

A Polícia perseguindo um sócia do cangaceiro

Recebemos, na manhã de ontem, em nossa redação, a visita angustiada do Sr. Adolfo da Costa. Este senhor acaba de passar por uma maratona de susto. Disse-nos ser morador do morro de São Carlos, na rua do mesmo nome, nº 133, e trabalhar em certa obra da Estrada de Ferro Central do Brasil. E contou-nos que a polícia suspeitando-o ser o Lampião, persegui-o ferozmente, vigiando-lhe os passos, adivinhando-lhe nas atitudes mil intenções duvidosas.

Enfim, concluiu o Sr. Lucas, que a vida, de dois dias a este momento tornou-lhe um suplício. Vigias policiais por toda a parte.

- E, eu Sr. Redator, - finalizou – nem óculos uso. Tenho a visão tão perfeita.

Aí fica a reclamação do Sr. Lucas. E nós asseguramos à polícia que ele não se assemelha ao Lampião.
Entre Lucas e Lampião há uma grande diferença.

Uma carta aberta a Lampião

Ontem publicamos o jato poético que Lampião, vindo ao Rio, despertou em um poeta Manoel Vieira de Melo, hoje muito invejado dos seus rivais, porquanto alcançou, o que os outros não conseguem ser lido por cem mil pessoas inteligentes, que são os cem mil leitores de “Crítica”.

A ação da caravana de "Crítica"

As diligências procedidas pela caravana de “Crítica” e a polícia fazem supor ter o famigerado cangaceiro Lampião, tomado habilmente rumo ignorado todavia “Crítica” colheu informes incontrastáveis da estadia do bandido nesta cidade.


“CRÍTICA” continua empenhada, utilizando todos os seus esforços, no sentido de buscar uma confirmação positiva e incontrastável da estadia, nesta cidade, do sinistro bandoleiro Lampião.
As diligências da polícia, procedidas nestes dois últimos dias, no casario daquele morro, vieram avolumar as suspeitas sobre a realidade do fato de que “Crítica” vem tratando há dias.

Conforme, fazemos ver linhas mais abaixo, uma turma de investigadores, espalhando-se por aquela parte da cidade, capturou ali dois indivíduos sobre os quais pesam bem graves suspeitas. Queremos precisar, com esta circunstância significativa, o fundamento de nossas informações e a pista segura em que nos lançamos, desde a primeira revelação que nos fora trazida, através de um anonimato, que por ser anônimo nem por isso deixou de incutir-nos sérias suspeitas. Cumpre-nos, pois, como quase um último remate de nossas indagações, afirmar a fuga provável do bandoleiro, em face dos comentários populares e dos boatos que circulavam amplamente na cidade.

Que nos podem responsabilizar de, ao nosso alarido, o bandido ter escapado, rejulgamo-nos no direito deste reparo – a orientação da polícia (...) do mais limitado senso policial. Desprezou e não cuidou de apurá-las, durante largo espaço de tempo, as informações que lançávamos em torno da audácia do bandoleiro. Somente após informações que lhes dirigiram também, as nossas autoridades resolveram-se à atividade.

E aos seus primeiros passos foram encontrando indícios comprobatórios. Agora, inutilmente, depois de delongar uma solução urgentíssima, varejam o morro os homens da polícia, abrem interrogatórios, encarceram, vigiam.

“Crítica” apurou ainda vários indícios. Ouviu, em ponto diverso da cidade, informações precisas da passagem do bandido em demanda de um ponto onde lhe fosse favorável a uma fuga infalível.

Confirma-se, assim, a estadia nesta cidade, do famoso bandoleiro. A ação formidável da caravana de "Crítica"

Como último remate às investigações procedidas pela caravana de “Crítica” e, em parte, pelas derradeiras diligências policiais, podemos formular a afirmação de que, realmente, o bandido Lampião esteve no Rio, em procura de atenuantes médicos à sua enfermidade e que, ao ser denunciado, por este jornal, inutilizando, mais uma vez, com esta “reprise” de façanha sertaneja em pleno meio cosmopolita, quaisquer tentativas no sentido de captura-lo.

“Crítica” precisou, agora, em circunstâncias incontrastáveis, a veracidade da permanência do bandido nesta cidade. Lampião este no Rio.

Foi ao consultório do Dr. Murilo Melo. E ao do Dr. Geraldo Vieira. E instalou-se, sobressaltado, durante o tempo que lhe permitiu a reportagem de “Crítica”, em certa pensão do centro da cidade, nas proximidades viciosas do largo da Lapa, conforme apurou nossa caravana. E, certamente, residiu ou perambulou, como em local favorecido, nas ruas do morro de São Carlos, ali, dentro da cidade, às barbas de todo o mundo, nos princípios da rua Frei Caneca.

Quando o celerado se ocultara, rodeado de precauções, fugira, aproximara-se, novamente, dos sertões nordestinos, foi que a polícia, alarmada, pôs-se em campo, varrendo todos os lugares suspeitos, devorando tudo, homens e coisas, com os seus olhos de lince de jardim zoológico, sem alguma e nenhuma coisa alcançar. A residência efêmera do bandido, nesta cidade, fora descoberta pela nossa reportagem, que, consequentemente, deslindou tão sugestivas pistas e indícios, detalhes, informes, esclarecimentos, que são apresentados aos cem mil leitores de “Crítica” e, também, como último consolo, à perspicácia dos nossos policiais.

Lampião esteve na Avenida Mem de Sá

A pista que colheu a nossa reportagem, em última investida ao mistério que o cercou a viagem do bandoleiro Lampião a esta cidade, é por forma tal tão fortemente convincente que não dá lugar a dúvidas sequer. Em um “tour de force” jornalístico, “Crítica”, derramando na cidade, os auxiliares de sua caravana, imprevistamente, em local tão habilmente escolhido a fim de não despertar suspeitas, onde se instalara o bandido e onde estaria até o momento d’agora não fosse a denúncia que “Crítica” tornou pública.

Em sua estadia efêmera de três dias nesta cidade, Lampião hospedou-se na pensão da Avenida Mem de Sá, nº 20, dirigida pela senhora Laura Pereira de nacionalidade russa. “Crítica” esteve naquele prédio e ouviu aquela senhora, que nos disse o seguinte, após muita relutância e insistência da nossa parte.

Bonde Praça da Bandeira, Largo da Lapa, anos 30

- Há dias passados – narrou nos – apareceram, ali, dois cavalheiros trajados com muito apuro e que evidenciavam, em todos os ademanes de suas pessoas, elevada e evidente qualificação social.

Atendeu-os os visitantes, convidados à sala de entrada, declinaram estão os motivos que os trouxeram ali. Haviam recebido de pessoa distinta e muito conhecida em altas rodas da cidade as mais lisonjeiras informações acerca da casa e do tratamento dispensado aos pensionistas e, como, neste momento, um amigo, comum viajava do Norte a esta cidade, desejavam instalá-lo ali, certos de que, em condições idênticas, melhor não seriam servidos. Esperavam, assim, acolhimento à proposta que faziam. Desejavam um aposento, bem servido e instalado; não mediam despesas que passariam a vigorar do momento presente, desde que entrassem em acordo.

Em face de uma proposta assim, partida de tão altas e induvidosas pessoas, a senhora Laura exultou secretamente, e levou-os, incontinente, a um aposento vago, cujos inquilinos se haviam retirado no dia antecedente. Fecharam o negócio, retirando-se os visitantes.

Como verdadeira profissional de seu mister – a senhoria, correspondendo a reputação de sua casa, não mediu esforços a emprestar ao aposento uma necessária aparência de conforto e higiene, fazendo jus ao desconhecido e sobremodo recomendado inquilino. Não precisou o dia exato. Falhava-lhe a memória, não precisava exatamente a data. Porém, poucos dias após a visita, um dos cavalheiros chamou-a ao telefone, avisando-a da chegada, do outro em breve, do amigo que viajava para esta cidade. E indagava, solicitamente, dos preparativos e das disposições de tudo que se relacionasse ao bem-estar de tão cuidada e assistida pessoa. Passou-se os dias, e, a 26 do mês último chega o grande homem, tão esperado. Fez-se acompanhar somente de um dos seus anteriores amigos.

Quando lhe foi apresentado, o recém-chegado causou-lhe péssima impressão. E não fossem as circunstâncias do compromisso e muitas outras contingências, teria recusado, peremptoriamente, aceitar como pensionista semelhante indivíduo. Observou-lhe uma fisionomia dura, cerrada a toda expansão de cordialidade, quase repelente, inspirando profunda antipatia nos gestos, nas atitudes, uma desconfiança feroz.

E, pouco recomendável, legítimo caipira, mal calçado, mal vestido, à carantonha óculos escuros, que escondiam uns olhos vivado de enfermidade violenta. Vacilou um instante. Entre seus inquilinos pessoas de certa distinção, certamente que aquele contato desagradaria. Contudo, constrangidíssima não o recusou. E o homem, despedindo-se do amigo ilustre, sussurrando-lhe confidências, dirigiu-se ao aposento que lhe fora reservado, cerrando-o.

Um notívago misterioso

Decorridas algumas horas, uma criada bateu à porta do novo hóspede, indagando se não necessitava algo. Recebeu resposta negativa.

Chegara pela manhã, e a tarde toda permanecera encerrado, inacessível, inspirando já aos criados e à senhoria crescente curiosidade, em que participa, procriando coisas formidáveis, uma imaginação desocupada.

Cerca das sete horas da noite, na cumplicidade da hora, um desconhecido veio visita-lo. Trancaram-se os dois. Conversaram surdamente. Em seguida saíram.

Pela madrugada alta, quando alguns dormiam e outros se encontravam recolhidos já, o hóspede que ia inspirando mistério e curiosidade, voltou.

Sentiram-no subir cautelosamente as escadas. Dar volta à chave do aposento e recolher-se.
Pela manhã, serviram-lhe o café.

Às doze horas saiu, voltando logo depois, e encerrando-se, em não se sabe qual secreta e inconfessável ocupação. Confessou-nos, em face de tudo isto de equívoco, dona Laura a contrariedade de alojar tão estranho hóspede.

Aquelas precauções, desconfianças, sobressaltos, aquele pavor de sair à luz do dia, tudo inspirava desconfianças e desgostos à senhoria.

Contudo, sem motivos plausíveis, e como seria uma hospedagem efêmera...

Desde que ocupara o aposento, nem para a necessária limpeza diária o inquilino consentia na entrada dos serventes.

Tornara-se aquela porta, inviolável. Quando, ao sair raramente, durante dois dias, levava consigo a chave. O café era recebido de porta entreaberta, e a curiosidade espicaçadas dos criados somente se satisfazia em rápidos lances d’olhos ao interior. E muito pitorescamente, revelando bem o espírito de observação das donas de pensão, a senhora Laura Alexandroff reforçou suas suspeitas, afirmando:

- Acredite o senhor, nem banho aquele homem tomava. Foi embora daqui, sem saber onde ficava o banheiro...

Desaparecimento precipitado

Esta a situação de quatro dia, quando, inesperadamente, sem justificativas, o hóspede desaparece misteriosamente, anoitecendo e não amanhecendo.

As suspeitas avolumam-se e alguém dos pensionistas fez notar a coincidência do fato com uma revelação de “Crítica” sobre a estadia do bandido Lampião nesta cidade, D. Laura apavorou-se e, não fosse a oposição de alguns hóspedes, que lhe fizeram ver os inconvenientes desta medida, teria revelado à polícia distrital suas suspeitas.

Aguardasse ocasião mais oportuna. E os comentários surgiram, as suposições cresceram no espírito de D. Laura quando, comparando os traços fisionômicos do bandido, em uma fotografia que publicamos, com os do suspeitoso hóspede, constatou rara semelhança inequívoca. Se aquela era a fotografia do bandoleiro, indubitavelmente este era o homem que hospedara e que se apresentara tão fortemente recomendado.

Aposento onde esteve Lampião

Fomos conduzidos ao aposento onde, durante três dias, se alojara, quase principescamente, ferindo-lhe o exotismo de certos utensílios domésticos, o bandoleiro celebrado. A porta fora violentada, porquanto o bandido levara a chave em sua fuga. Deparamos comum interior amplo, arejado, de suas janelas ao fundo, larga cama, de pau cetim. Guarda-casaca, lavatório, e outros moveis acessórios, compondo excelente mobiliário de solteiro. Tapete, ocupando metade do solo do aposento. Entramos. Ainda indeciso da permanência do inquilino.

Papeis queimados ao solo. Manchas de vigorosas cusparadas no assoalho. Em baio do leito de pau cetim, um fragmento do “Jornal da Bahia”, amarrotado e que servira de invólucro de pequeno objeto. Nada mais de significativo.

Salvo o atraso da folhinha, ainda no último dia do mês passado.

Outros detalhes

A senhoria da pensão Mem de Sá, recebeu-nos justamente alarmada, mostrando terror indizível aos jornalistas e à polícia.

Evidenciou, ao mais fraco observador, profunda perturbação interior e traduzia, em sua narração, calculadas reservas, reticências estudadas e visível pouca vontade de precisar, afirmar, detalhar, abrindo parênteses de informações vagas, insuficientes. Explicava-se esta atitude. Aquela senhora, tornando-se sua pensão, embora acidentalmente e por espaço rápido de tempo, o esconderijo do famoso salteador, alvo de perseguições, vinditas, do povo e da polícia, alarmou-se naturalmente, rodeando-se de receios e precauções. A sua reserva breve, porém, dissipou-se, e, confessando, sincera, o esvaecimento de seus temores, de amigos que desejavam simples informações, abriu-se, loquaz.

Feriu de morte as reticências

O hóspede recebera visitas repetidas e que impressionavam.

Cavalheiros de notoriedade política, do norte do país, cujos nomes não se recordava, ou não ligava às pessoas. Um deles, viera durante o dia. E, como industriário, conhecendo perfeitamente o interior do prédio, dirigiu-se ao quarto, batendo à porta.

Demorou longo tempo

Retirou-se, após, sob o mesmo anonimato. Vieram dois mais. E, à noite, por duas vezes, dois seguintes foram recebidos.

Sabe D. Laura informar que, à tarde antecedente ao desaparecimento do hóspede misterioso, que acredita ser agora o bandido Lampião, um dos seus estranhos visitantes viera ao aposento, retirando-se com a volumosa maleta de mão que trouxera o hóspede.

As informações de um pequeno carregador

“Crítica” conseguiu ouvir o menor Álvaro Maciel, filho de Álvaro Maciel, residente na rua Fazenda da Bica, nº 59, casa 2, que transportara a “gare” da Central a maleta que se presume de propriedade do famoso bandoleiro. Um pretinho vivo, de olhar inteligente, e que, sem rebuços, foi falando:
- Sim, levara, dali, da avenida Mem de Sá, às proximidades do Largo da Lapa, uma maleta até a Central do Brasil, servindo, mediante uma gorjeta, a um indivíduo que o chamara para este fim. Não sabe informar se o viajante embarcara em noturno.

Conduzira, tão somente, o volume, sendo acompanhado, no trajeto, por um terceiro indivíduo.
Recebido o pagamento, abandonou a gare, onde o esperava já o indivíduo que lhe entregara a maleta.

Matéria transcrita pelo pesquisador Antonio Correia Sobrinho