domingo, 16 de maio de 2010

Ninguém arreda mesmo

Itiuba repeliu Lampião "2" 
Por: Rubens Antonio

O confrade Rubens Antonio (Foto) membro da comunidade do Orkut Cangaço, Discussão Técnica nos brinda com este excelente material fruto de depoimentos colhidos com moradores da cidade de Itiúba/BA como muitos já conhecem uma das cidades que fez o rei do cangaço desistir de sua temida visita. 

Depoimento de Robério Pinto de Azerêdo, de Itiúba:


Em Dezembro de 1929, Lampião chegou até a Fazenda Desterro, na margem esquerda do Rio Jacurici, Município de Monte Santo, ao lado norte de Itiúba. Ele se aproximou no tanque para dar água aos animais e encontrou um vaqueiro do Capitão Aristides conhecido Zezinho do Licurí Torto. Aí, perguntou quem era ele e o mesmo lhe falou que era vaqueiro do Capitão Aristides. Lampião disse que tinha uma carta para mandar para ele e redigiu-a ligeiramente para ele trazer aqui, para Itiúba, no mesmo dia, pedindo na mesma:

“Capitão Aristides mande-me três contos de réis de que preciso pagar meus coiteiros. Necessito desse dinheiro. Não bulo com seus animais, nem com suas fazendas, mande hoje mesmo.”E assinou: “Capitão Virgulino, o Lampião”

Aqui chegando, Capitão Aristides, então convocou as autoridades e resolveu armar o povo, inclusive, os negociantes daquela época. Contratou meia dúzia de soldados e determinou a seu vaqueiro que ele não voltasse lá, que ele poderia trucidá-lo. Armaram-se cento e tantos soldados e foram para a trincheira da Calçada de Pedra, para a saída da cidade que vai para Senhor do Bonfim, hoje, Filadélfia. E esses cento e tantos homens armados ficaram em piquetes, nas trincheiras, e sobre aviso, esperando a invasão. Lampião ficou esperando lá e ele não mandou o dinheiro. E o mesmo não veio, nem atacou a cidade.

Ele aí desceu em Dezembro de 1929. Eu era bem menino e vi a hora que chegou o portador na casa do Capitão Aristides. Lampião tentou entrar em Itiúba. Passou pelas cercanias duas vezes. Em 1929, ele desviou e a passagem dele foi para Queimadas. Aquele dia foi trágico. Véspera de Natal. Lampião trucidou sete soldados. Soltou os presos e depois matou um a um. Só deixou um sargento que pediu para ele não matá-lo."

Depois de dois anos, em 1931, ele voltou a passar pelas cercanias da cidade de Itiúba, precisamente, na fazenda Campinhos. Os negociantes e os mais importantes, também os operários, os camponeses, os pequenos comerciantes como Elísio Ferreira, o próprio Aristides, Manoel Pinto, irmão de Belarmino, foram convocados. Se armaram com fuzis, rifles, mosquetão e outras armas. O pai do Joãozinho do Bel foi um dos que se armaram. Suplicio, pai do seu Virgílio, que eram contratados. O comércio local contratava há muitos anos pessoas para enfrentar Lampião. Pagavam-nos por mês. Mandavam buscar homens bravos e destemidos na região de Paulo Afonso, Chorroxó, Campo Formoso, Canudos. Eu mesmo via eles aqui na rua, pra para cima e pra baixo. Os soldados não eram suficientes. Eles e os negociantes se armavam quando diziam:
- Lampião vai passando ou tá próximo em tal lugar... Ribeirão do Pombal... Jaguarari... Cansanção... 
Os contratados ficavam dia de sábado, domingo, na expectativa de esperar Lampião. (...) Nesse tempo, Itiúba era um arraial e quem administrava era o capitão Aristides e senhor. Belarmino, posteriormente o primeiro prefeito de Itiúba, que eram os encarregados por recomendação de Queimadas, município pelo qual Itiúba dependia. Em 1931, foi quando ele ameaçou mesmo invadir a cidade. Mandou uma carta do Desterro, do outro lado do Jacurici, e, de lá, foi para Queimadas. Ele entrou na área do Município de Itiúba, pelas cercanias de Campinhos, Ariri, até aqui no Umbuzeiro, na Varzinha e Posto do Cachorro.

Como já tinha notícias de que na cidade havia trincheiras à sua espera, aos sábados, ele mandava cabras de seu bando à feira de Itiúba, para sondar se tinha gente armada e se a cidade estava prevenida ou não, para que ele e o seu bando pudessem entrar. Pois o medo dele era encontrar moradores, contratados e os soldados armados esperando por ele e sua corja. Ele encontrou um casamento no caminho. Isso na Varzinha.
Parou o cortejo do casamento e perguntou:
- Vocês vêm de Itiúba?
E o pessoal respondia:
- Venho.
-Você me diga. tem gente armada lá?
- Sim, tem muita gente armada, o pessoal do Belarmino, muita gente contratada, muita gente armada até os dentes, capitão.
Ele olhou a topografia, as montanhas e viu que eram fechadas. Porque a ordem era a seguinte... Combater aqui, dentro no arraial.

Ele parou, conversou ali com os cabras dele:
- Nós não vamos entrar não em Itiúba. Itiubinha... Itiubinha... Dessa vez você escapa...
Aqueles do seu bando que esperavam à sua volta, nas pedreiras das montanhas, espancaram uma velha, saquearam o capitão Antonio Joaquim, avô daquele Mundinho dos Carvalhal. Tomaram dinheiro deles. Mais ou menos uns três ou quatro contos de reis. Mas aqui no arraial ele não entrou. Ficou com medo dos cabras machos que aqui os esperava.”

Tomei outros depoimentos, em Itiúba...

Depoimento que a professora Helena Isaura de Carvalhal, me concedeu, aos 93 anos, em Itiúba, pouco antes de falecer:

 “Nós corremos de Lampião até hoje, em nossos sonhos..
Lampião pintava horrores judiando, amarrando as pessoas em pés de mandacaru, matando. E, antes de matar ainda perguntava:
- Como é que você quer morrer? É deitado, sentado, ajoelhado ou em pé?
Contam os mais velhos, que, certa vez, Lampião pediu dinheiro a um jovem casal. Este se negou a dar. Lampião prendeu o marido na cauda de um cavalo e saiu correndo com o animal. A esposa acompanhou correndo até quando encontrou o bando numa fazenda tomando café. O marido continuava amarrado. Ela pediu tanto que ele soltou o homem dizendo:
- Solta esse diabo que parece que é casado de novo!..
Foi no ano de 27 que nós demos a primeira carreira. Eu tinha catorze anos. Vinha a história:
- Vem Lampião! Vem Lampião!
A gente pensava que Lampião vinha. Mas, longe, ele atacou a fazenda Triunfo. Era um lugarejo. No entanto, o medo era tanto que ninguém pensava em nada. Só em correr para escapar da tirania de Lampião e de seu bando. Aristides, parente nosso, tinha uma fazenda chamada Maravilha.

E, aí, um certo dia, ele mandou um vaqueiro que era procurador fazer um serviço lá na fazenda. E lá Zezinho Ferreira, primo de Júlio Ferreira, o vaqueiro contratador, encontrou Lampião que lhe perguntou:
- Quem é você, que vê Lampião e não muda?
Aí, ele disse:
- O Senhor é homem como eu.
Lampião achou isso uma vantagem, então disse:
- Aqui é a fazenda do capitão Aristides?
Zezinho disse:
- Sim.
Lampião perguntou:
- E ele é muito valente?
- É.
Então, Lampião disse:
- Olhe, vou fazer um bilhete.
E fez. No bilhete ele dizia:

Aristides, eu sou o Capitão Virgulino, o Lampião.
Escrevo porque sei que você é muito forte e quero ir aí em Itiúba para lhe encontrar.”
Tentou entrar aqui em Itiúba muitas vezes, mas não conseguiu porque só há três saídas e a cidade é cercada por serras...

O Coronel Aristides Simões de Freitas, homem forte, valente, intendente, recebeu o bilhete de Lampião pedindo que mandasse dois contos de réis. E este destemido mandou dizer que ele viesse buscar. Mas Itiúba era prevenida com homens contratados nas trincheiras das três entradas esperando Lampião. Aristides se preveniu. Mandou chamar o povo do Chorroxó. Eles já tinham feito buracos nas imediações do lugarejo, para esperar Lampião. E, atendendo ao chamado do capitão Aristides, o povo de Chorroxó veio. Eram uns onze homens.

Eu me lembro de um que chamava Luiz. E era bonito e forte. Logo depois, veio esse povo do Virgílio. Aí, Aristides esperou, esperou e ele não veio. Lampião não veio. Só pode ter sido com medo. Nisso, Aristides mandou a resposta do bilhete. Mas, quando o portador lá chegou, ele não estava. Não esperou a resposta de que eles podiam vim. E foram embora. Aristides ficou com esta força de homens armados e com os contratos, guardando a cidade. Tinha uma tropa na estrada de Senhor do Bonfim e outra estação, mas lá muito adiante, quase na fazenda Estado. Só tinham três entradas, e ele, o Lampião, não veio. Fugiu.

Quando foi em outra época, em meados de 1929, ele quis entrar aqui. Chegou até a casa da Fulo, na entrada da Calçada de Pedra, por onde ele tinha que passar para entrar aqui. As tropas continuavam a postos e armadas à espera de Lampião e o seu bando. De repente, ouviu-se um trotar. Era um jumento correndo. Nesse alvoroço, os guardas pensaram que era Lampião, e aí soltaram descargas de tiros. Aí todos responderam e fechou Itiúba de tiros. E todas as outras trincheiras começaram a atirar sendo que estavam avisadas, porque pensaram que os jumentos correndo era a tropa de Lampião. E a gente aqui correu para se esconder.

Mamãe sempre corria. Já era morfina. Vivia com as cobertas no corredor. Quando diziam:
- Olha! Lampião, está perto!
A gente ia se esconder na casa de Sinhá Preta. Mas, com medo dos tiros, corríamos para a Serra dos Macacos, pensando que Lampião tinha chegado. E o povo gritava:
- Lampião chegou!
E lá passamos três dias, porque podia ele chegar. Encontramos uma mulher que vinha com o chinelo na cabeça, e perguntamos:
- O que foi?
Ela disse:
- Já mataram Seu Simão, lá do Tatu, e foram para a casa de dona Amélia, do Castanho.
Eram todos tios nossos. Mamãe chega caiu do susto. Lá dormimos na cama feita de casca de feijão, mas tudo ficou em silêncio. No entanto, mamãe não quis descer. Com três dias depois, teve outro alvoroço, outro tiroteio. Aí fomos pela Fazenda Tapera, por dentro do mato. O mato grande não tinha caminho. A gente ficava cansada, mas tinha que continuar para fugir do tirano Virgulino, vulgo Lampião.

Aí, passaram-se poucos dias e Lampião entrou em Bananeiros. A notícia chegou até aqui pelos telégrafos. Mamãe quase que morre. Estávamos na escola. Nós quase não aprendemos a ler, porque eram só três anos de estudo na escola. Vivíamos fugindo.

O prédio era perto da Estação Ferroviária, local aonde Lampião iria primeiro, para cortar o sino. Porque bater o sino era um dos sinais que avisavam que Lampião estava chegando ou que estava por perto. Fugimos para a casa de Sinhá Preta, onde tinha um caldeirão. Papai dizia:
- Quando tiver tiroteio, vamos nos deitar, todos aqui atrás dessas pedras.
Quando foi um certo dia, no meio da noite, estávamos limpando o tanque da nação e tinha dois bangüês para carregar o barro. Quando nós enxergamos Vovó Iaiá Bebé com os bangüês todos melados de barro. Ela não caminhava. Não era pela idade que ela tinha, mais ou menos oitenta anos. Era porque ela sofria de asma e era murfina. Ficou tropa. Aí Aristides colocou ela dentro do bangüê e mandou entregá-la a papai. Aí foi quando teve outro tiroteio e avisaram que Lampião já estava na casa de Dona Fulo. E teve este tiroteio.

E teve este tiroteio. Nós, então, fomos para a Serra dos Macacos e deixamos vovó na casa de Sinhá Preta, que morava ali perto da Fazenda Umbuzeiro. Foi cômica essa história. Correu todo mundo. Só dois homens não correram, o Pai do Nino Pires e Acelino. Para piorar a situação, nessa noite papai não estava em casa. Tinha ido visitar um compadre e mamãe disse:
- Como é que a gente corre?
Eu só sei que corremos. Corremos nos capinzais adentro. Que fuga louca. Ali era verdadeira luta pela sobrevivência...

Eu sei de tanta coisa.

Uma delas é que meu avô materno contava que Lampião dormiu em sua fazenda, onde foi recebido com maior respeito. O rei do Cangaço abriu as cercas da roça de meu avô e colocou os animais para comer toda plantação. No dia seguinte o cangaceiro deu dinheiro para que fizesse uma nova plantação. Lampião pernoitou na casa de meu pai, e, na hora da janta, tirou uma colher de prata que trazia. Antes de comer colocou a colher na comida para ver se não estava envenenada. Caso a colher ficasse preta era porque havia veneno. Ele tinha vontade entrar na cidade, mas o mesmo temia o Coronel Aristides Simões, que também era conhecido pela sua valentia. Aristides e a população estavam sempre armados à espera do cangaceiro do Nordeste. O Rei do Cangaço estava furioso porque queria roubar o cofre o senhor Belarmino Pinto de Azeredo, que foi o primeiro prefeito de Itiúba, e saquear a feira livre.

Lampião e seu bando chegaram na casa de uma senhora conhecida como Fulô, na zona rural de Itiúba, ameaçando entrar na cidade. Ela disse a Lampião:
- Coronel Lampião, não vá não! Eu sou amiga para lhe dizer que lá tem forças fortes, soldados e homens contratados nas trincheiras. 
Desistindo da investida, seguiu para Queimadas. Cortou os fios da estrada de ferro para que ninguém mandasse telegramas avisando que estava chegando. Já em Queimadas foi para o quartel, onde prendeu o sargento e os soldados. Passou a noite dançando. Ao amanhecer o dia, seguiu novamente para o quartel e matou sete soldados, sendo um filho de Itiúba. E assim seguiram viagem para Santa Rosa..."

Depoimento de Maria José de Araújo, de Itiúba:


“Meu Pai foi para roça mais minha Mãe. Aí, o Volta Seca chegou e subiu numa cerca. Aí, o Lampião tava na casa do finado Domingos. Aí, o Rafael, meu irmão que morreu de tosse braba, tinha uns cinco anos e o Marcelino, aquele que tá ali, tava brincando no cercado. E peguei todos dois e botei no quarto e fiquei segurando na mão do outro. E o Lampião chegou e falou:
- Santinha! Não faço nada com você não... Cadê o oro de mamãe?
Eu disse:
- Nós não tem oro.
Ele queria oro. Não era dinheiro não. Minha mãe tinha dois par de argola de oro e duas aliança, uma dela outra do meu pai. Eles foram coisando a casa. Também não ficou nada. Jogaram tudo no chão. Aí ele disse:
- Santinha! Pra onde foi seu pai?
- Meu pai foi pro Cagagaio.
Eu era menina e, pra dizer papagaio, dizia cagagaio. Onde é esse Cagagaio é o Papagaio. Quando meu pai chegou na casa do finado Cecílio, na casa que era do Berilo, já sabia da notícia. Lampião ta aqui no Umbuzeiro.

Chegou aqui numa roça o Lampião. E tinha uma mulher chorando e ele perguntou:
- O que é que tem?
- O cara me botou na rua.
E o Lampião amarrou o cara no cabo do cavalo. E arrastou por cima de pau e de pedra.
- É pra você ter vergonha de não fazer mal as fia aléia.
Eu sei uma música do Lampião:

“Acorda Maria Bunita
torra o teu café”
Lampião ta na revista... 
Maria Bonita.... 
Lampião sé matava delegado, inspetor e os macacos do guverno...
  
“Acorda Maria Bunita torra o seu café
Lampião ta na revista
Maria Bunita já ta de pé
Faça o favor de perguntar
que me chamo Vergulino
cravo de moça cheirar”


Lampião era muito ruim. Pegou uma véia e deu uma surra. Era a Maria do Rufino, irmã do Felício. Foi nos Picos. Nos Campinhos.
- O que é que você anda fazendo?
Aí, pegou a véia e deu uma surra... Pois foi...”

Depoimento de Isaac Pinto da Silva, de Itiúba.

“Eu num vi ele. Eu não sei quantos era, mas num vieram aqui nessa casa. Aí, eles cortaram por aí e pegaram uns home. Aí, prenderam e levaram com ele, andando, andando. E, quando chegou ali por umas casas aqui mais véia do finado Teodoro, da minha avó. Aí, deixou os home e pegaram um como guia. Aí, pegaro o finado Domingos e levaram. Mas foi ligeiro que eles passaram. Eles foram com o Domingos até a Varzinha pra num perdê. Aí, quando chagou ali na Varzinha, Lampião acendeu umas velas e elas apagaram. Aí eles disseram:
- É... Itiubinha, hoje, num qué nós não...
Da Tapera eles desceram para Camandaroba. Daí foram batê na Queimadas. Chegaram lá de noite. Cortaram o fio do telegrafo. Prenderam os soldado que tinha. Soltaram os presos e deixaram os soldados presos. E dançaram a noite todinha. No outro dia, só era chamando de um e um. E era só atirando e o Volta Seca sangrano. Mataram os sete. A finada Delmira e o finado Baró iam para a Várzea da Roça de tardezinha. O Baró tinha um cavalo e ele levava a mulher na garupa. Quando viram, se toparam de testa. Eles correram.

Tomaram o cavalo. A mulher correu e foi pra debaixo da cama... Quando tinha uma notícia do Lampião, todo mundo corria afobado. A Preta teve filho na serra, no meio do mato.
O Lampião de hoje tá pior. Esses bandidos que estão espaiado no mundo, pra robá, só véve matando e robando.”

Depoimento de Libério Pinto, de Itiúba:

“Aqui ele não fez nada. Saí eu e uma irmã minha. Ele chegou. Abriu a porta. Aí, me puxou assim pelo braço. Botou a gente assim no meio da sala. Aí, quando saíram, minha irmã. Cadê? Foi em 32... Eu tô com 78. Eu tinha uns cinco anos... Até hoje tem o perfume lá no lugar. Mas também quase que não acaba. Ele chegava derramando tudo.”

Depoimento de Agenor Rafael da Silva, então com de 85 anos, de Itiúba:
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“No ano de 1929, morava na fazenda Cajazeiras, no Município de Itiúba... Lampião passou perto de onde eu morava, na fazenda Campinhos, região de Quicé. Lá, entrou em diversas casas. Em uma delas foi na de Joaquim. Nesta casa, ele agrediu o velho Joaquim. Nesse tempo não existia guarda–roupa e Lampião foi até o baú e começou a jogar os panos no chão. Quando Joaquim viu disse:
– O capitão! Não jogue os panos no chão não!
Lampião pegou o fuzil e deu uma pancada na cabeça de Antônio Joaquim. Nesta mesma casa tinha uma moça com o cabelo comprido. E Lampião virou-se para ele e disse:
– Porque não corta o cabelo para ficar bonita?
– Meu pai não gosta que eu corte o cabelo.

Então ele disse:
– Você faz muito bem em não cortar o cabelo. É muito bonito.
A moça estava com umas argolas bonitas e ele quis tirar as argolas das orelhas da moça. E o irmão da moça, por nome João, disse:
– Ô capitão dê licença. Eu tiro as argolas dela e lhe entrego.
Os cangaceiros vasculharam tudo atrás de dinheiro. Acharam o dinheiro escondido dentro de umas cabaças velhas escondidas debaixo de um painel de farinha, pois, naquele tempo não existia banco. Tinha um filho de seu Joaquim casado de novo. A casa dele ficava no terreiro do pai. Uma casa muito bonita, decente e bem construída. Os cangaceiros agarra-no e pediram dinheiro. Ele respondeu que não tinha. Passaram uma corda no pescoço dele para amarrar no cabo do cavalo e arrastar o rapaz. A esposa ficou gritando para soltarem-no que ia buscar o dinheiro. Foi até a casa e pegou quinze contos de réis e deu a Lampião que soltou o rapaz resmungando:
– Não tem dinheiro o quê?! Seu cabra descarado! 
Depois desse acontecido, Lampião pediu para colocar um banco no terreiro, perto do cavalo, para ajudá-lo a subir na montaria, pois estava carregado com cartucheiras de bala, fuzil nas costas e aqueles cantis de alumínio, para carregar água. Quando ele saiu da casa de seu Joaquim, a casa ficou cheirando tão mal que tiveram que lavar a casa com água e creolina, pois os homens não tomavam banho, não mudavam de roupa cheia de poeira, sangue de gente e perfume. Lembro-me de tudo. Na época, eu tinha mais ou menos oito anos. Me escondi muito em uma roça, atrás da casa. Um dia, de madrugada, chegou alguém chamando:
- Seu João! Seu João!
Meu pai responde:
- Quem é que fala?
O rapaz respondeu:
- É João Basílio! Venho lhe avisar que Lampião vem aí!
O rapaz morava na fazenda Boa Vista. Dentro de casa, todo mundo ficou alvoroçado. Minha avó era uma mulher de uns oitenta anos e meu pai disse:
- Levanta que é pra gente correr.
– Eu não vou não. O que é que o Lampião quer comigo?
– Não, senhora! Levante e vamos embora!
Só se via gente pegar coberta. Esteira de baixo do braço. Os cachorros, amarramos a boca para não latir. Para encurtar a história, ficamos uns três dias no mato. Soubemos que ele estava em Queimadas. Voltamos para casa. O povo contava que Lampião andava com uma agenda com o nome dos fazendeiros. Quando ele passou por lá, nessa época, andava com um guia. E ele perguntava para o rapaz:
- Onde é a fazenda do Zuza da Cajazeira?
Esse Zuza era meu tio e o rapaz que andava guiando-os respondeu:
- Ah, Capitão. Já ficou muito para trás.
– E onde fica a fazenda de João Rafael?
– Ah, Capitão. Também ficou muito para trás.
– E a fazenda de Antônio Rafael?
– Ah, Capitão. Ficou muito para trás.
– Não tem nada não. Na volta, a gente passa lá... 
Esses três eram irmãos. Por causa dessa conversa que meu tio soube, largou a casa muito boa e passou seis meses no mato, num rancho de palha com medo. De vez em quando, mandava um menino ir olhar lá na fazenda, se não tinha rastro de cavalo.

Depois que Lampião desceu da fazenda Campinhos, passou perto de Cajazeiras, da Fazenda Barras, no sopé da Serra do Souza. Ele foi para a Varzinha. Disseram que mandou um dos bandidos pesquisar Itiúba, mas, naquela época, estava cheio de homens. Onde tem o posto do Jackson era um grande pé de juazeiro cheio de dormentes, aqueles troncos usados na linha férrea. Ali, tinha mais de um homem armado esperando Lampião. Dizem que o bandido retornou e disse para Lampião que a cidade estava cercada e não dava para entrar, pois, se entrassem, morriam. Além dos soldados que aqui existiam, vinham pessoas de outros lugares, que o Coronel Aristides Simões mandava buscar, para reforçar a cidade. Essas pessoas eram chamadas de “contratados”. Eu sei que vieram algumas pessoas de Formosa, perto do Chorroxó, como Simplício e Berto. Capitão Aristides apoiou-os, pois viu que eram homens dispostos. Aqui ficaram e constituíram família.”

Depoimento de Isabel, do Maté, de Itiúba.

“Quando Lampião chegou no Maté foi com uma turma. Vinham montados e na carreira. Estavam sentados fora da casa do Teófilo e Piroca. Eles levantaram para correr e Lampião falou:
- Não corra! Senão eu atiro!
Perguntou ao Teófilo pelas montadas que tinha e ele respondeu:
- Só tenho umas é-é-é-guas.
Eles arremedaram Teófilo:
- Umas é-é-é-guas.
Lampião pediu água para beber a Joaquina, que estava mexendo uma comida no fogo, em uma cozinha que ficava fora da casa. Mas ela demorou para pegar a água, porque estava nervosa e trêmula. Mas ele achou que ela tinha colocado porcaria na água, e não bebeu. E jogou fora. Lampião perguntou a Joaquina o que tinha no fogo. E ela respondeu:
– Uma comida para uma doente.
Lampião arremedou-a e repetiu o que ela falou, pois Joaquina falava um pouco fanhosa.
A passagem dele no Maté já foi à noite. Ele já estava vindo da Varzinha e foi nessa passagem que ele entrou na casa de Mariinha e deu umas chibatadas nela. Dizem que ela também era gaga e quando Lampião lhe batia, ela dizia:
- Ba-ba-te, diabo!
O povo disse que ele já vinha do Umbuzeiro. Existia muita mentira. Uma época disseram que ele estava atacando Itiúba e estava uma guerra danada.

Diziam que Lampião não fazia muita perversidade. Perversos eram os seus cangaceiros. Há uma história que ele chegou em uma casa ai pra cima. Tinha alguém assobiando e Lampião colocou a pessoa para assobiar a noite inteira para os cangaceiros dançar. Quando amanheceu a pessoa estava com a boca inchada...
Em uma casa, para o lado da Pedra Vermelha, município de Cansanção, pediu para a mulher cozinhar umas galinhas para eles comer. Enquanto comiam, um dos cangaceiros reclamou que a comida estava sem sal. Lampião pediu à mulher que trouxesse um quilo de sal e fez o cabra comer todo.”

Depoimento de Gabriel de Souza, 85 anos, do Povoado de Varzinha, de Itiúba.


“Dizem que Lampião passou por fora da Varzinha. Ele ia passar aqui, mas foi Deus que o rapaz que vinha guiando levou para outro lugar. Eu e meus pais estávamos no terreiro da casa. Eram dezoito horas. Era menino. Tinha mais ou menos oito anos, mas me lembro. Ouvi uns tiros nessa serra, perto da Varzinha. Tem gente que o viu. Passou na casa da Canuto Mariinha, onde deu umas chibatadas nela. Aconteceu muitas vezes de ter notícias dele. Quando a conversa saía que ele estava na região nós corríamos para uma rocinha e íamos nos esconder lá. Estávamos sempre assustados. A gente dormia debaixo do pé de juazeiro ou no pé do lajedo. Não acendíamos nem a luz do candeeiro. Falavam que ele andava em Jenipapo, Jabucunã. Em Jabucunã um rapaz tinha um bar e Lampião passou por lá para beber junto com seus cangaceiros. Começaram a beber e os cangaceiros queriam que o dono do bar bebesse. Mas ele não quis. E um dos bandidos disse:
- Agora beba! Se você não beber, você morre.
Mas Lampião pediu que deixasse o rapaz em paz e fez uma proposta para ele:
- Quer se juntar ao nosso bando?
– Não posso. Tenho uma velha mãe que cuido e sustento.
– Resolva, porque nos quinze dias eu volto.
Foram embora, mas o rapaz, com medo que lhes fizessem mal, foi a Monte Santo e comprou uma arma boa. Alguns dias se passaram e o rapaz ficou de tocaia. Quando o bando ia passando ele conheceu o bandido que queria matá-lo no bar. Mirou e atirou na cabeça. Começaram a atirar no rapaz e ele caiu em uma bagaceira e escondeu-se. Eles olharam por ali e falaram que o cara era ruim. A seguir montaram e foram embora. Quando o rapaz viu a cascalheira, foi conferir e viu um cara morto.”

Depoimento de Maria Aristides Simões, então com 94 anos, nora do coronel Aristides, de Itiúba.

“No dia que o coronel Aristides Simões recebeu o bilhete, por sinal mal feito, a lápis, numa folha de caderneta, eu me encontrava na casa de minha irmã Marieta que esperava nenê e estava com a parteira em casa. Ademir Simões, meu marido, foi me comunicar que Aristides tinha recebido um bilhete de Lampião. No bilhete, ele pedia três contos de réis e que nunca tinha mexido com o capitão e sua família. Lampião tinha ido à fazenda Desterro e lá encontrou o vaqueiro da fazenda, Zezinho do Licuri Torto. Essa fazenda pertencia ao coronel Aristides. Ele que veio entregar o bilhete ao coronel. O coronel disse que era para ele vir buscar o dinheiro, mas o vaqueiro não teve coragem de voltar e dar o recado a Lampião.

O bilhete ficou aqui por muitos anos e eu dei para o doutor Jorge Calmon, da redação do Jornal A Tarde, onde foi publicado no mesmo jornal. No mês de Outubro, Lampião perseguiu muita gente. Meu padrasto vivia na Fazenda Alto do Brejo. Ficou com medo de Lampião e veio para a cidade, pois tinha sete moças em casa e tinha receio que o bandido pegasse alguma e fizesse perversidade. Havia conversas que Lampião arrancava os seios de moças. Aristides fez um rancho no Saquinho e levou toda a família para o rancho, inclusive uma filha doente, por nome Sininha, e a velha Iaiá Bebé, fundadora de Itiúba.

Quando Aristides sabia que Lampião estava nas redondezas, preparava o policiamento e até civis se armavam, inclusive médicos como o doutor Péricles. Com todo esse povo armado, eram feitas trincheiras nas entradas da cidade. Tinha pessoas escondidas no sótão da casa de Aristides. O armamento era guardado aqui no sótão. Hoje, moro na casa que pertenceu ao coronel Aristides...

 Calçada de pedra, próximo à cidade de Itiúba. 
Local de estabelecimento de trincheira, contra o assédio de Lampião.

*Rubens Antonio é Geologo, professor desta Ciência.


No sentido de enriquecer a bela pesquisa feita pelo Rubens, Ivanildo Silveira inclui esta foto do famoso Cel. Aristides da brava e valente Itiúba /BA
.

I

1926, estava em cartaz no Recife

O filme “Joaseiro do padre Cícero 
Nos primeiros dias do mês de junho de 1926, as colunas informativas sobre cinema, exibidas nos inúmeros jornais da capital pernambucana, traziam a notícia que em breve seria exibido um “film” que era considerado pelos jornalistas especializados como “diferente” e “interessante”. Era a apresentação de “Joaseiro do Padre Cícero”, um documentário que mostrava a mítica figura do padre Cícero Romão Batista.

Jornal recifense “A Província”, de 3 de junho de 1926. 


Durante as décadas de 1910 e 1920, fotos tradicionais do padre Cícero, com a sua inconfundível batina negra e seu cajado, freqüentemente eram estampadas nas páginas dos jornais recifenses. Mas normalmente estas imagens vinham acompanhadas de uma pródiga quantidade de críticas e comentários ácidos sobre a figura e a trajetória política do conhecido “Padim Ciço”. Não faltavam nas páginas dos jornais adjetivos como “líder de fanáticos”, ou “comandante de um valhacouto de facinorosos”. Com este fluxo de notícias, associado ao interesse do público local pelos acontecimentos da cidade cearense de Juazeiro, a exibição desta película nos cinemas de Recife chamou atenção de muitas pessoas.

Realizado em 1925, a película foi rodada em 35 milímetros, sendo dividida em cinco partes e a direção coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque. Sua primeira exibição ocorreu no Cinema Moderno, em 
Fortaleza, no mesmo ano de sua produção. Depois de seu lançamento, a película peregrinou por várias capitais brasileiras, através da ação de Godofredo Castro, então deputado estadual no Ceará, e do presidente da Associação de Jornalistas de Fortaleza, Lauro Vidal. 

A intenção destas apresentações era criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre Cícero, além de mostrar o crescimento da cidade de Juazeiro.

 

 Em Recife “Joaseiro do Padre Cícero” foi apresentado ao público local na última semana de maio de 1926, onde ficou em cartaz durante dois dias no tradicional Cinema Royal, localizado na Rua Nova. No dia 2 de junho foi exibido no Cinema São José. Segundo a edição do jornal recifense “A Província”, de 3 de junho de 1926, em uma reportagem sobre o filme, os propagandistas Castro e Vidal afirmaram que este projeto teria custado a soma avultada de “40 contos de réis”. Para se ter uma idéia do que significava este valor naquela época, na mesma edição deste matutino, temos um anúncio da loja “Oscar Amorim e Cia.”, localizada na Rua da Imperatriz, número 118, onde era oferecido o modelo mais barato da linha de automóveis da marca Ford, por cinco contos e seiscentos mil réis.

 Cena da película

Já a crítica, de uma maneira geral, se apresentou positiva em relação à obra de Adhemar Albuquerque e esta aparentemente chamou a atenção da elite cultural recifense. O próprio diretor do jornal “A Província”, Diniz Perilo de Albuquerque Melo assistiu a película e teceu comentários. Para o conceituado jornalista “Joaseiro do Padre Cícero” foi apontado como sendo um filme “nítido”, que servia para mostrar positivamente o “expoente da admirável feição moderna de Juazeiro, da sua vida intensa e dos seus aspectos naturais”. Entretanto ele não considerou “admissível o fanatismo” que era apresentado.

Os jornais mostram que “Joaseiro do Padre Cícero” não foi classificado como um filme "cansativo", com várias cenas que surpreenderam os jornalistas. Entre estas são comentadas as que mostravam o imponente açude do Cedro, as cidades de Juazeiro em dia de feira, Crato, Barbalha e paisagens da região do Cariri. Da capital Fortaleza foi focalizado o seu porto, o passeio Público, o Parque da Liberdade, entre outros locais. Mas a figura mais destacada era o padre Cícero Romão Baptista. Conforme vemos nas páginas do jornal “A Notícia”, de 3 de junho de 1926, ora o popular sacerdote era aclamado pelo povo, ora era apresentado na sua casa, mostrando seu trabalho como prefeito de Juazeiro e sempre junto aos seus fiéis seguidores.

Não conseguimos apurar a rota seguida por “Joaseiro do Padre Cícero” pelas capitais brasileiras. Mas têm-se notícias que foi exibido na então Capital Federal, em setembro daquele mesmo ano. Ocorreu sessão dupla na Sala Parisiense e o filme teria recebido fortes críticas da revista carioca “Cinearte”. Outra exibição confirmada por pesquisadores da história cinematográfica brasileira, mostra que esta película foi exibida no Cinema Politeama, no dia 30 de novembro de 1926, em Manaus.
O periódico pernambucano "O Jornal do Comércio", na sua edição de 2 de dezembro de 1926, informa que houve uma segunda exibição em Recife. Um interessante detalhe que não foi comentado por nenhuma das colunas cinematográficas dos jornais recifenses de junho daquele ano, da conta que aparentemente haviam sido inseridas para a segunda exibição, algumas fotos do grupo de cangaceiros do chefe Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Se esta informação é correta, estas fotografias certamente seriam as chapas obtidas em março de 1926, pelo fotógrafo Pedro Maia, quando da polêmica passagem do famoso bando de cangaceiros pela cidade de “Padim Ciço”.
Independente desta questão, observando as notas dos jornais recifenses sobre o filme, não se pode negar que aparentemente este projeto alcançou o resultado que era desejado pelos seus idealizadores e financiadores. Ou seja, a de desmitificar para as classes dirigentes e formadoras de opinião dos principais centros urbanos do Brasil, da segunda metade da década de 1920, que o padre Cícero era sim um líder carismático, que tinha um grande número de seguidores, mas ao mesmo tempo era um homem inteligente, sério, cumpridor das leis, que buscava tão somente o desenvolvimento de sua querida Juazeiro. Não temos informações sobre o destino desta película.


  
Adhemar Albuquerque, criador da “Aba Film”


Já Adhemar Bezerra de Albuquerque, o diretor de “Joaseiro do Padre Cícero”, possui o justo reconhecimento de ser cultuado como um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em 35 milímetros, onde são principalmente apresentados aspectos e acontecimentos da capital Fortaleza e de outras cidades do Ceará. A este homem empreendedor se deve a criação da famosa empresa ligada ao ramo fotográfico “Aba Film”, até hoje em funcionamento e pertencendo a seus descendentes.

Sobre esta empresa, não podemos deixar de comentar o famoso episódio ocorrido em 1936, que envolveu o emigrante Benjamin Abrahão Botto e a filmagem do bando de Lampião em plena caatinga. Com o apoio de Adhemar Albuquerque, o libanês de Zahelh, esteve em duas ocasiões com o “Rei do cangaço”, realizando uma proeza inédita e que se mostrava promissora em termos financeiros.

Cine Moderno: Seleta e privilegiada plateia para exibição do filme "Lampeão". 

Mesmo gerando toda uma expectativa entre o público, em pouco tempo a película é confiscada por ordem do governo de Getúlio Vargas. O Brasil se encontrava então em pleno período da ditadura do Estado Novo, que entre outras ações na região Nordeste, desejava exterminar definitivamente Lampião e o cangaço. Assim o filme de Abrahão seguia totalmente na contramão das ações governamentais, criando uma possível propaganda favorável aos cangaceiros e todo o projeto foi sumariamente encerrado. 

Logo depois, em maio de 1938, Benjamin Abrahão seria morto a facadas em uma pequena cidade do interior de Pernambuco. Após alguns meses, as margens de um pequeno grotão, próximo ao “Velho Chico”, em território sergipano, Lampião caia fulminado de balas, junto com sua Maria Bonita e outros companheiros.

Do filme sobre os cangaceiros pouco restou. Entretanto se não fosse à iniciativa do libanês Abrahão e o apoio correto de Adhemar Bezerra de Albuquerque, não existiria nenhuma imagem cinematográfica de Lampião e seu bando.

 O emigrante libanês Benjamin Abrahão Botto, o “homem que filmou o facínora” 


Notas e comentários:

Amigos, podemos contar atualmente com instituições que realmente ajudam a conhecer o nosso passado, a quem quer pesquisar. Uma destas instituições fica na Rua do Imperador, no Centro de Recife e atende pelo nome de Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
Quando puderem, façam uma visita. Sem dúvida alguma é o melhor de todo o Nordeste. E lá tem muita coisa, mas muita coisa mesmo.
De Natal a Salvador eu conheci, ou pelo menos tentei conhecer, todos estes arquivos públicos e o de Recife indubitavelmente me impressionou. Salvador vem em segundo e Aracaju em terceiro. O resto é depósito e o nosso Arquivo (Natal) até fechado está a mais de quatro anos.
O arquivo de lá possui, veja bem, 9.000 títulos de jornais. Não são 9.000 exemplares de jornais, são títulos de jornais diferentes e alguns remontam ao início do século XIX. È mais que a Biblioteca Nacional e com a vantagem da pesquisa ser gratuita.
 Em Recife, o pessoal do arquivo é ativo, profissional e interessado em apoiar o pesquisador. Funciona das 8:00 as 17:00, sem fechar para almoço, é arejado, sua localização é central e de fácil acesso. Existem falhas, mas são poucas diante das vantagens e do comparativo com outros locais. Fica no Centro, próximo ao Palácio do Governo.
 
Este pequeno texto foi feito somente com três notinhas, do material histórico que fotografei por lá.
 
Um abração,
Rostand Medeiros,  
Pesquisador

sábado, 15 de maio de 2010

Louváveis ações de um pesquisador

Quadrilha invade gabinete do Coroné!

Saudações Amigos

Recebemos a visita no último dia 08 de maio do pessoal da "Quadrilha Zé Testinha", Nove integrantes do grupo vinheram com o intuito de fazer pesquisa e uma entrevista sobre o cangaço, e a apresentação de um livro para uma gincana. Foi uma tarde de sábado bastante agradável na companhia dessa juventude interessada em aprender um pouco sobre a nossa história, fiquei muito contente com o interesse dessa moçada.

Segue foto da visita.


Ângelo Osmiro ladeado por integrantes em busca de conhecimento, 
garantindo pontuação na gincana Cultural.

* Angelo Osmiro Barreto é Pequisador escritor e presidente da SBEC - Sociedade brasileira de estudos do cangaço


Sobre a Zé Testinha

Desde 1976 o Arraiá do Zé Testinha, cujo nome é uma alusão ao seu gritador, Reginaldo Rogério, é a mais tradicional quadrilha do Estado, um exemplo de arte popular. Um grupo que dança, faz teatro, pesquisa e compõe as próprias músicas, uma das grandes quadrilhas juninas do nordeste, campeã de várias competições, Os integrantes da quadrilha mergulharam na história do cangaço, a fim de resgatá-lo como uma das expressões mais genuínas da cultura nordestina.


 Conheça o site Zé Testinha e o  Blog

Centro Cultural Zé Testinha 
Rua Riachuelo, 115 
Fortaleza - Ceará - Brasil 
Fone: (85) 3257 3304
  
Ei, Coroné Ângelo!


O respectivo grupo através da Tati entrou em contato com nosso blog. E eu sem vossa autorização sabendo que eram vossos conterraneos da capital cearense indicamos com plena certeza da sua atenção, hospitalidade e principalmente a importancia de um suporte responsável. Encontro este que com certeza proporcionou um trabalho sério e verdadeiro apresentado pela rapaziada do grupo. 


Cá entre nós: Notem a "modesta" biblioteca dedicada ao cangaço do nosso confrade. Modesta vem acompanhada de risos pois são "476 tíitulos" - Severo caguetou o nº exato - além do acervo do saudoso escritor Hilário Lucetti recentemente doado pela família como já devidamente registrado aqui no blog.


Nosso abraço e agradecimento. 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Cangaço, disputas políticas e lutas interfamiliares...

...No sul do Ceará 

Por José Romero Araújo Cardoso

O sul do Ceará é considerado um verdadeiro oásis no sertão, convergência de migrantes fugidos das secas há tempos imemoriais e palco de lutas sangrentas entre facções políticas e disputas interfamiliares no século passado.

As intermináveis lutas interpartidárias que explodiram nesta região sertaneja firmaram a repulsa entre os clãs Arruda e Paulino, nucleados, respectivamente, nos municípios de Aurora e Missão Velha, ambos localizados no Estado do Ceará. O cenário das contendas não se diferenciava dos anos que antecederam a restituição da oligarquia Accyoli, o qual firmou a arraigada disputa pelo poder entre os "coronéis" do cariri cearense.

Um pacto firmado entre os mandatários caririenses na então vila de Joazeiro, elevada à categoria de cidade no ensejo desse bizarro acordo, tentava selar a paz entre os estamentos superiores da sociedade sertaneja agro-pastoril da área de exceção correspondente ao cariri cearense.

Discórdias políticas denotaram a instabilidade entre os dois clãs, resultando em desarmonias envolvendo o "coronel" Isaías Arruda, famoso coiteiro de Lampião, inclusive responsável pela trama que redundou na tentativa de ataque a Mossoró, e o "coronel" Manuel Ribeiro Dantas, a quem os Paulino eram ligados.
A beligerância teve seu ápice no ano de 1925, quando "em meio a uma áspera disputa política que já durava meses, ferem-se vários tiroteios em Missão Velha entre os "coronéis" Isaías Arruda (dos mais fortes coiteiros que Lampião possuía no Ceará) e Manoel Ribeiro Dantas, o Sinhô Dantas, este último, chefe político municipal" (MELLO, 1985, p.100).

Durantes meses a questão política se desenrolou de forma mais ou menos inconstante, resultando em violento tiroteio nas ruas de Missão Velha, ocasionando ferimento à bala em um dos filhos do "coronel" Manoel Ribeiro Dantas.

No entanto, o mais encarniçado ataque desferido pelo "coronel" Isaías Arruda se concentrou ao sítio Barreiro, reduto de seu desafeto. Entre os defensores encontrava-se um sertanejo valente e destemido de nome João Paulino, membro de uma família guerreira, tarimbada na luta armada sertaneja dos séculos XIX e XX.
Prestigiado pelos governos Federal e Estadual, o resultado lógico para a política de época foi a ascensão do "coronel" Isaías Arruda à política regional. O encaminhamento "natural" dos fatos redundou na sua dominação efetiva, chegando a ocupar o cargo máximo do poder executivo em sua área de influência.

Os dissabores, contudo evidenciariam a essência da complexa relação inter-social existente no sertão. Em maio de 1926, João Paulino investiu contra um correligionário de Isaías Arruda, de nome João Gonçalves. Novamente Missão Velha estava em pé-de-guerra, denotando o insustentável grau de ebulição entre os clãs em luta armada, agora concentrado entre Arruda e Paulino. O desfio custaria caro, principalmente ao mais exaltado de todos.

A revanche aconteceu a 11 de junho de 1926. João Gonçalves e inúmeros jagunços fornecidos por Isaías Arruda desalojaram os inimigos entrincheirados na povoação conhecida por Ingazeira. Os vencidos buscaram refúgio em Aurora, recebendo a proteção do "coronel" Cândido Ribeiro Campos, parente dos Paulino.

Formou-se um contingente considerável de capangas, visto que a ameaça de um ataque era iminente. Este não se concretizou graças à oportuna intervenção do "coronel" Antônio Luís Alves Pequeno, chefe político do município do Crato, definindo normas para amainar os ânimos exaltados.

Dentro do acordo firmado, há a transferência dos Paulino para o extremo oeste do Estado da Paraíba. Estacionam na cidade de Cajazeiras do Padre Rolim, em um sítio conhecido por Lagoa do Arroz, propriedade de um sertanejo de nome João de Brito.

Cerca de quarenta e oito camaradas de armas, incluindo familiares, acompanharam João Paulino neste êxodo forçado pela violência da política caririense.
Durante várias oportunidades, forças volantes cearenses adentraram o território paraibano à caça dos desafetos do todo poderoso "coronel" Isaías Arruda. O alvo principal era João Paulino. Violência extrema era a característica maior dessas tropas formadas por policiais e jagunços, ambos pouco diferenciados no modus operandi.

Novamente é firmado um acordo de convivência salutar, embora fosse parte da trama arquitetada pelo imperdoável Arruda. Achando que tudo havia se normalizado em sua região de origem, resolveu João Paulino seguir viagem à localidade das Antas, município de Aurora, intuindo recuperar algumas cabeças de gado de sua propriedade que haviam ficado por lá quando da retirada forçada.

A esposa de João Paulino, que atendia pelo nome de Tapuia, verificou quando da partida do esposo que o patuá de rezas fortes, ostentado por cangaceiros e homens que se envolviam em questões, havia sido esquecido, como prenúncio da tragédia que estava preparada por Arruda. João Paulino, conforme nos contou a Sra. Ângela de Brito Lira, filha do proprietário do sítio Lagoa do Arroz, fazia uso de um rosário de quinze mistérios e cento e cinqüenta Ave-Marias com um saquinho repleto de orações fortes e mandingas. Segundo se propalava, o objetivo era "fechar" o corpo contra balas e armas brancas.

Corria o mês de setembro de 1926. O regresso ao Ceará foi feito na companhia de um irmão, de nome José Paulino, e um cunhado conhecido por Bidoza. A tocaia armada pelo "coronel" Isaías Arruda fora preparada no lugar Serrota. João Paulino foi alvejado por mortífera descarga, atingindo em cheio a veia femural. O requinte de crueldade da traição foi completado quando seus algozes obrigaram seu cunhado a terminar de matá-lo.

Após o martírio de João Paulino, Isaias Arruda ainda figurou destacadamente nas crônicas da violência regional. Exercendo influência sobre o cangaceiro Massilon "Benevides" Leite, instigou e organizou o ataque do bando de Lampião a Mossoró, em 13 de junho de 1927. O resultado foi o fracasso vergonhoso diante da decisão da população mossoroense em cerrar fileiras com o prefeito Rodolfo Fernandes na defesa da cidade ameaçada.

Quando da retirada vexatória dos cangaceiros em direção ao cariri cearense, confiantes na "neutralidade" do Estado onde se localizava a "Meca sagrada" dos sertanejos, apressa-se em por em prática suas táticas de traição, tentando envenenar o "rei dos cangaceiros".
Em 1928, embora desfrutando prestígio efetivo em dois municípios - Missão Velha e Aurora - Arruda tombou morto no trem, quando transitava pelo município de Aurora (MELLO, 1985, p. 101). Os autores, Francisco e Antônio Paulino, agiam movidos pelo desejo de vingança.

Cangaço e política se articulavam em uma só expressão da realidade forjada conforme os parâmetros definidos pela inflexível moral sertaneja que marcou o tempo das contendas entre os chefes políticos de outrora.

BIBLIOGRAFIA CITADA/CONSULTADA
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião, o "rei dos cangaceiros". Trad. de Sarita L. Barsted. Rio de Janeiro/RJ: Paz e Terra, 1980.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: O banditismo no Nordeste do Brasil. Recife/PE: FUNDAJ: Ed. Massangana, 1985.
PINHEIRO, Irineu. O Joazeiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914. Rio de Janeiro/RJ: Irmãos Pongetti Editores, 1938.
Entrevista:
LIRA, Ângela de Brito. João Pessoa/PB, 15 de outubro de 1990.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN, Campus Central, Mossoró/RN.

Revista Nordeste VinteUM a nova parceira do Cariri Cangaço

A nova parceira do Cariri Cangaço

Por Gabriel Barbosa


Aconteceu no final da tarde desta quarta-feira, dia 12, reunião entre o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, o diretor da SBEC, Aderbal Nogueira e os diretores da Revista Nordeste XXI. A reunião de trabalho se deu na sede da Editora Assaré, em Fortaleza.

Um dos pontos fortes do encontro foi a formalização oficial da parceria entre o Cariri Cangaço e a Revista Nordeste XXI, na oportunidade os organizadores do evento foram recebidos pelo Diretor-Presidente Francisco Bezerra,e ainda os diretores Lucílio e Orlando Junior.

Para o Presidente Francisco Bezerra, "a Nordeste VinteUM entrou de cabeça no Cariri Cangaço, sem dúvidas um dos maiores eventos do gênero, do Brasil. A partir de agora a revista é um dos parceiros preferenciais, estando presente em todos os momentos do evento e dedicando o espaço editorial de nossa publicação ao Cariri Cangaço". Para Aderbal Nogueira a parceria da Nordeste VinteUM, "reflete o resultado do trabalho sério e responsável do Cariri Cangaço que agora recebe formalmente a parceria de uma das mais respeitadas revista do nordeste".

 Aderbal Nogueira, Francisco Bezerra e Manoel Severo

Manoel Severo, Curador do evento afirma: "Para nós é uma grande felicidade fechar na tarde de hoje essa significativa parceria. Ter a Nordeste VinteUM dentre nossos parceiros preferenciais aumenta nossa responsabilidade, e estamos prontos para continuarmos trabalhando sério e determinados na direção de fortalecer a cultura, história e tradições de nosso nordeste".

A revista Nordeste VinteUM possui periodicidade mensal , tendo sua linha editorial voltada para um público qualificado; de acadêmicos, formadores de opinião e profissionais do terceiro setor; priorizando assuntos significativos ligados a região nordeste. A revista também tem se configurado como um dos mais qualificados espaços de discussão sobre história, cultura, tecnologia, meio ambiente, comercio e política.

Homi, tá quase na hora! Não fique de fora, pois Em agosto o Cariri Cearense será a "Meca dos cangaceirólogos" eu tô lhe dizendo?!


Pesquei no açude de Coroné Severo: Cariri Cangaço

Trailer Clip - Nas pegadas de Lampião


Através deste resumo vocês poderão conhecer o material produzido pelo pessoal da SOLAR 8 Interactive Media e da Zoon. Fotografia, para o projeto "Nas Pegadas de Lampião-Sertão do Apodi", desenvolvido pelo SEBRAE/RN.  A fotografia e câmera é de Rodrigo Sena, a edição de Rafael Beznos. 
Músicas: "Lampião em Mossoró"do grupo Embola Funk (RN) e "Porco Mouro"da banda Café do Vento (RN).


Um abraço.
Rostand Medeiros
Pesquisador

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Atenção: Sócios

A SBEC - Sociedade brasileira de estudos do Cangaço informa e convoca:

Estão abertas as inscrições de chapas para a eleição da nova diretoria executiva e conselho consultivo da SBEC para o período de junho de 2010 a junho de 2012.

Ângelo Osmiro Barreto
Presidente da SBEC

Fortaleza. 10 de maio de 2010

Contato: angelosmirio@zipmail.com.br

sábado, 8 de maio de 2010

A Fundação Cultural Cabras de Lampião informa:


Vencedores do 1º Festival de Músicas do Cangaço 

MELHOR INTÉRPRETE
HERBERT LUCENA
Música: HERÓI, VILÃO OU LIBERTÁRIO
Compositores: HERBERT LUCENA E DJA VASCONCELOS 
RECIFE – PERNAMBUCO

1º LUGAR
Música: CANGAÇO
Compositor: CARLOS GOMES
Intérprete: IVÂNIA CATARINA
DE PRAIA GRANDE – SÃO PAULO

2º LUGAR
Música: MARIA BONITA
Compositor: RUI GRUDI
Intérprete: RUI GRUDI
DE SERRA TALHADA – PERNAMBUCO
 
3º LUGAR
Música: CANGA
Compositor: LAÉRCIO BEETHOVEN
Intérprete: LAÉRCIO BEETHOVEN
DE SALVADOR – BAHIA

PRIMEIRO LUGAR – RECEBEU TROFÉU E 3.000.00.
SEGUNDO LUGAR – RECEBEU TROFÉU E 2.500.00.
TERCEIRO LUGAR – RECEBEU TROFÉU E 2.000.00.
E MELHOR INTÉRPRETE – RECEBEU TROFÉU E 2.000.00.

A COMISSÃO JULGADORA analisou a letra, melodia, harmonia, abordagem do tema e interpretação. Foi formada por:

Adriano Marcena – Formado em artes cênicas pela universidade federal de Pernambuco, é músico formado pelo conservatório pernambucano de música, compositor e dramaturgo. Membro da ordem dos músicos do Brasil.

Vanderlei CatalãoPoeta, jornalista, letrista, músico, ativista cultural de plantão. Secretario de cidadania cultural do ministério da cultura, representando o ministro Juca Ferreira.
AssisãoCantor e compositor, com mais de trinta anos de carreira. Ícone da música nordestina, património vivo da cultura de Serra Talhada.
Sara NascimentoProfessora de música do conservatório pernambucano de música é presidente do sindicato dos músicos de Pernambuco.
Rafael CortesFormado em comunicação social com habilitação em rádio e TV é pesquisador musical e coordenador de música da fundação do patrimônio histórico e artístico de Pernambuco – Fundarpe.

A comissão julgadora teve o acompanhamento técnico de Clébio Marques, vive presidente da Artepe.

A locução de palco foi feita por Rosa de Tuparetama e Albemar Araújo.

Todas as músicas foram executadas pelo “Bando musical cabras de Lampião”, formado por:
Cristiano Leite – bateria
César Rasec – guitarra e violão
Chicão – baixo
Fábio – teclado
Deivisson - sanfona
Felipe – percussão
Gil – percussão
Pequeno – percussão
Germano – trombone
Zezê – sax alto e flauta
Agnaldo – sax tenor e flauta
Beto Cellus – vocal
Bruna – vocal
Produção musical – Orlando Lima.

 "Durante o Festival foi gravado o DVD e o CD que, em breve, estarão à disposição do público".

Obrigado a todos.
Saudações cangaceiras,

ANILDOMÁ WILLANS DE SOUZA
KARL MARX
CLEONICE MARIA

Fundação Cultural Cabras de Lampião
Ponto de Cultura Artes do Cangaço
Serra Talhada – PE.

Scans

Revista Magnum, Ed. de 10 de abril de 1998
Reportagem de Aurélio M. G. de Abreu e Mário dos Santos Carvalho.






Clique para ampliar. 


Cortesia do confrade Augusto, Comunidade Lampião, Grande Rei do Cangaço. 

Solicitando informações

Câmbio! Chamando todos os coiteiros 

Em 5 de maio de 2010 Luiza Nóbrega escreveu:

Oi Romero

Vi no seu texto que fala sobre "O cheiro do queijo" o seguinte registro:
"
O "cheiro do queijo" era uma técnica useira e vezeira das guerrilhas do cangaço, sendo profusamente utilizada por Lampião e seus sequazes para matar desafetos ou para atrair incautos soldados volantes que por inexperiência eram ludibriados pelos bandoleiros das caatingas. Ignácio Loyola de Medeiros, o famigerado soldado desertor da Polícia Militar do Estado da Paraíba, natural de Santa Luzia do Sabugy, conhecido no bando pela alcunha de "Jurema", era especialista nisso, sendo o responsável por diversas mortes de volantes paraibanos no célebre combate de Serrote Preto, em Alagoas, no ano de 1925."

Minha pergunta é a seguinte: vc já ouviu falar num cangaceiro chamado ,
"João Ignácio de Loyola Gomes, que vive homiziado na fazenda Santo Agostinho do Termo do Teixeira, sob a proteção da família Dantas"? Esta denúncia está registrada em cartório de São José do Egito no contexto de uma carta de José Ferreira de Santana, Coronel Cazuza Santana, em 1909, sobre as desordens ´promovidas - a mandado dos Dantas - na região do Pajeú inclusive com invasões e roubos. Como vc falou neste outro Ignácio Loyola, me bateu a curiosidade. Obrigada, mais uma vez. 

Abraço, Luiza

José Romero pede colaboração dos confrades pesquisadores que possam ter esta informação, entrar em contato com a Srta. Luiza através do email  luizanobrega_ufpe@yahoo.com.br


Obrigado pela atenção de todos


Att Lampião Aceso! 

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Em boas mãos

Biblioteca de Hilário, doada a Ângelo Osmiro
 Por Manoel Severo 

Hilário Lucetti (Foto), grande escritor, tinha três paixões: A família, o Crato e o Cangaço. Um dos homenageados "in memorian" no Cariri Cangaço 2009, Hilário Lucetti, se destacou pela determinação e zelo que emprestou por toda sua vida a essas três paixões.

Neste último mês de Abril, a família do inesquecível Hilário, passou ás mãos do escritor Ângelo Osmiro, através de doação, a posse da Biblioteca de Hilário Lucetti, composta por mais de cem unidades, todas elas voltadas ao tema Cangaço e adjacentes. Na oportunidade foi confirmada junto à Dona Meire Lucetti, viúva do escritor e sua filha, Andréa Lucetti, a produção de uma nova obra, sob a coordenação de Ângelo Osmiro, reunindo todos os artigos publicados por Hilário nas revistas e periódicos, Itaytera e A Província.

Ângelo Osmiro passeando por Mossóró em pleno 1927.

 Pesquei no açude de Coroné Severo: Cariri Cangaço

Lado a lado

Cangaço e misticismo

Por Ângelo Osmiro Barreto

Cangaço e misticismo são temas genuinamente ligados às coisas nordestinas, ao sertão. O homem sertanejo que viveu no final do século XIX e início do século XX conviveu sobremaneira com místicos e cangaceiros. Produtos da mesma cultura, vítimas de igual opressão.

A fome e a miséria, que aumentavam com as secas, faziam com que se manifestassem dois tipos de reação: a formação de grupos de cangaceiros com armas nas mãos, assaltando fazendas, saqueando comboios, cidades e vilas; e seitas de místicos, geralmente em torno de um beato ou conselheiro, para implorar dádivas aos céus e pedir perdão pelos pecados. O fanático, em geral, era um homem que aprendeu a respeitar os santos, temer a Deus, praticar a virtude, ser justo, portanto não era um alienado, como alguns possam vir a pensar.

Paulo Dantas em seu prefácio para a segunda edição do livro “Lampião” de Ranulfo Prata, diz com bastante propriedade:
“Os beatos pertencem ao chamado folclore mágico, já os cangaceiros ao folclore heróico”.

O sertanejo vê no cangaceiro o anseio de justiça contra o poder político e as ordens dos coronéis. O cangaço acaba sendo uma forma de vingança. Lampião mata, depreda, incendeia, mas depois de alguns momentos reza, tira terço, ajoelha-se ao raiar do dia e ao final da tarde. A religiosidade arcaica do sertanejo é proporcional a sua valentia. O místico anda ao lado com o cangaço.

Não podemos falar em misticismo sem citar Padre Ibiapina, Antonio Conselheiro, beato José Lourenço e padre Cícero, (para citarmos os mais importantes), todos cearenses, exceto José Lourenço, nascido na Paraíba.  

As imagens abaixo estão na ordem da citação


Esta foto artística do Padre Ibiapina foi restaurada
e gentilmente nos enviada pelo designer gráfico
Wendel Marcus de Azevedo Araujo

Porém o acontecimento místico que talvez esteja mais ligado a nós, principalmente pelo legado que nos deixou, seja o do venerável padre Cícero Romão Batista, ao qual daremos destaque.

Cearense nascido no Crato, ordenou-se no seminário da Prainha, em Fortaleza no Ceará. Voltando a seu torrão natal, instalou-se em um povoado chamado Joazeiro, até então distrito do Crato. Naquela ocasião Joazeiro era um pequeno arruado com algumas poucas choupanas e uma pequenina capela.

No ano de 1889, na primeira sexta feira de março, a beata Maria de Araújo caiu em transe ao receber a hóstia das mãos do padre Cícero, fato repetido várias vezes. É dito também que as hóstias sangraram. A noticia se espalha, não só no Cariri, mas em todo sertão nordestino. Multidões acorrem a Joazeiro para presenciar o milagre. A Igreja interpreta a situação como uma ameaça a seu poder.

Anos depois o padre é acusado de acoitar cangaceiros. Uma das maiores polêmicas envolvendo o famoso reverendo do Juazeiro se deu no ano de 1926. Em maio daquele ano, Lampião e seu bando adentraram ao Juazeiro. O convite havia partido do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, médico baiano radicado em Juazeiro e uma espécie de braço político do Padre Cícero. O motivo seria que Lampião e seu grupo dessem combate a Coluna Prestes. Para tal, Lampião receberia uma patente de Capitão do Batalhão Patriótico. O Dr. Floro Bartolomeu é acometido de doença grave e é levado ao Rio de Janeiro, vindo a falecer.


O padre recebe o cangaceiro, e para outorgar as patentes prometidas, de forma até bizarra, convoca o Sr. Pedro Albuquerque Uchoa, único funcionário público federal do lugar, e manda redigir e assinar as patentes de capitão para Virgulino e de tenentes para Sabino Gomes, seu braço direito, e Antonio Ferreira, seu irmão. Pedro Albuquerque, depois chamado para se justificar no comando Militar do Recife, teria dito que naquela hora, com aquelas feras a seu lado assinaria até a deposição do presidente Arthur Bernardes, quanto mais uma patente de capitão para Lampião.

O padre Cícero iria ainda viver muitos anos, aumentando seu prestígio perante a população carente do nordeste. Quando de sua morte em 1934, Juazeiro já havia crescido muito, continuando a crescer depois dela, sempre na sombra daquele reverendo tão amado pelo povo humilde do sertão. Pediu para que os romeiros não deixassem de vir ao Juazeiro, mesmo depois de sua morte, e a prova está aí, hoje Juazeiro do Norte é uma das cidades brasileiras mais procuradas, quando o assunto é romaria.

Durante a perseguição que sofreu de alguns setores da Igreja, após os pretensos milagres, profetizou: “Chegará o tempo em que a própria Igreja vai me defender”, e esse tempo já chegou, como vimos a poucos dias uma comissão de clérigos, autoridades e políticos, dentre eles o governador do Ceará, foi ao vaticano reivindicar a reabilitação do padre Cícero.

 DR. PEDRO ULCHOA, QUE A PEDIDO DE Pe. CÍCERO ESCREVEU OS "TERMOS DA PATENTE - PARA LAMPIÃO" .

Cangaceiros e beatos são as duas faces da mesma moeda, habitantes de um sertão carente de tudo, principalmente de justiça. Com armas nas mãos, os cangaceiros. Com terços, os beatos. Cada um a sua maneira lutava contra as intempéries sofridas, contra secas periódicas que arrastavam consigo a miséria e a fome, além dos poderosos coronéis com suas leis impostas através da força e do trabuco. Como forma de resistência tinha duas opções: lutar, tornando-se um cangaceiro, ou ainda orar por dias melhores tornando-se um beato, conselheiro ou simples seguidor de um deles.

Juazeiro do Norte, a meca da fé nordestina.

(*) ANGELO OSMIRO- Escritor e pesquisador do Cangaço.
Presidente da SBEC 


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Relançamento

Um cangaceiro potiguar


Em 1970 o romancista e historiador Raimundo Nonato da Silva publicou Jesuíno Brilhante – O Cangaceiro Romântico (1844-1879), a vida de Jesuíno Alves de Melo Calado, o mais famoso e valente cangaceiro norte-rio-grandense, antecessor de Antônio Silvino e Virgulino Ferreira, o Lampião. No tempo de Jesuíno, Antônio Silvino era menino e Lampião nem tinha nascido.

Jesuíno reinou de 1871 a 1879, entre a Paraíba e o oeste do RN, quando foi o herói do sertão, o Robin Hood das terras do Patu. Temido pelas autoridades e querido pelo povo, tinha o seguinte código de honra: “quem entra para este grupo, não toca no alheio e aprende a respeitar a casa das famílias honestas”.

Jesuíno Brilhante nasceu no sítio Tuiuiú, Patu/RN, em 1844, e morreu de emboscada, em Brejo do Cruz/PB, em 1879, com apenas 35 anos de idade.

Até 1870 Jesuíno era vaqueiro e agricultor, chefe de família, filho de fazendeiro sem inimizades. Tudo começou com uma arenga entre a família de Jesuíno e os Limões, mas a gota d’água foi o desaparecimento de uma cabra dos Brilhantes, depois encontrada na panela dos Limões.

Raimundo Nonato reuniu todos os documentos jurídicos, históricos e literários sobre Jesuíno Brilhante, de grandes nomes da literatura: Luís da Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Juvenal Lamartine de Faria, dentre outros; e complementou com importantes anotações e comentários da história do cangaço no Nordeste.
Raimundo Nonato da Silva nasceu em Martins/RN, em 18/08/1907. Jurista e literato, publicou mais de 60 livros sobre o RN, em especial a região oeste.

Clássicos como Quarteirão da Fome (1949), A Revolução de Trinta em Serra Negra (1955), Lampião em Mossoró (1956), Estórias de Lobisomem (1959), Bacharéis de Olinda e Recife (1960), Os Revoltosos em São Miguel (1966) e este Jesuíno Brilhante, em 1970.

Faleceu no Rio de Janeiro em 22/08/1993, deixando uma obra da maior importância para a história do Rio Grande do Norte.


Por: Abimael Silva
sebista e editor

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