segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Moreno e Durvinha

Uma outra Saga
Por Mariana Pimenta

Moreno e Durvinha foram cangaceiros do bando de Virgínio, cunhado de Lampião. Entraram para o cangaço na década de 30 e abandonaram as armas no início de 1941, quando se viram sozinhos no sertão. O cangaço acabara em 1940, com a morte de Corisco. Subiram o rio São Francisco até Augusto de Lima, onde mudaram de nomes e construíram uma família.

Durvinha

Meu nome de batismo é Durvalina Gomes de Sá. Eu nasci em 1915 no Arrasta-pé, que era a fazenda de meu pai e que, hoje, é um povoado da cidade de Paulo Afonso, na Bahia. Nessa fazenda tinha criação de gado, cabrito e cavalo. Nós não saíamos da fazenda não, tinha tudo lá, plantávamos feijão, algodão... A minha infância foi só trabalho. Meu pai não dava tempo para mim, não. Ele era muito bravo. Minha mãe, coitada, era boa demais.

Nunca levei um tapa de minha mãe, mas meu pai, de vez em quando, dava um couro na gente. Éramos dez irmãos, quatro mulheres e seis homens. Lá não tinha escola que desse para os meninos irem estudar e voltar para trabalhar. Todas eram muito longes e os meninos faziam falta na fazenda. Meu pai agarrou lá um tal de mestre e pôs uma casa separada para os meninos estudarem. O mestre começou até bem, caprichando, brincando, chamava as moças para assistir o recreio. Até que começou a bater na gente. Batia mesmo. Ele perguntava e quem não falasse a letra certa ele metia a palmatória, que se chamava “celibó”. Era redonda, pesada e tinha um prego amarelo na frente. No primeiro dia que fui à escola, o vi bater em minha irmã. Ele deu 12 bolos em Rosinha, e ela dizia:  

“Ai, meu mestrinho, pelo amor de Deus”.

Nunca mais fui à escola. Pedi: “Meu papai, pelo amor de Deus, não me põe na escola não, me deixa crescer mais. Ele bateu tanto em Rosinha que eu fiquei com medo dele bater em mim”. Então ele decidiu que eu iria ajudá-lo no serviço. Aprendi o ABC de ouvir, e só isso que sei. Ajudava papai a cortar mandacaru e mucambeira para o gado no tempo de seca e tinha que dar aquela ração pro gadozinho de noite comer.

Eu fi cava só trabalhando. Quando era para ir a uma festa, era em tapa de casa. A tapa de casa era assim: fazia a casa, poisava as madeiras, punha umas tabocas e ali as moças marcavam a embarreação da casa. No dia em que as moças buscavam a água para por no barro para os homens embarrear a casa, tinha festa de noite e nós dançávamos valsa. Eu até tinha um irmão que gostava de tocar. O meu vestido quem fazia era mamãe, que era costureira. Avião, o primeiro que eu vi no mundo eu estava na casa de meu pai. Nós
estávamos no sítio e ouvimos aquela zoeira.  
“O que é isso?”, perguntei,
e papai disse: “É o zepelim que vai avoando para pousar lá em Pernambuco”.
Acho que ele pousava no ar.

Tinha até uma cantiga:
“Santos Dumont foi quem inventou
Ninguém nunca fez balão assim
Vamos todos aqui brevemente
No colosso balão zepelim
Didi, dada
E vamos todos no vôo do jequiá
Didi, dada
E vamos todos no vôo do jequiá”.
Eu ouvia falar em Lampião num nordeste longe, quando deitava de noite no terreiro. Tinha uma tal de esteira de tabul que põe no terreiro em noite de lua clara, e a gente deitava lá para conversar, e meu pai contava história. O relâmpago relampeava lá longinho, naquela pontinha. “É Lampião”, meu pai falava, “que vem chegando perto. Olhe ele pondo a língua lá”. Era o relâmpago. Falava só de destruição dele, de bagunça que ele fazia. Eu nem ligava não.

Quando é um dia, nós estávamos lá em casa e chega aquela homenzaiada, montada a cavalo, cada cavalo bonito, e tomou conta do terreiro. Lampião era cego de um olho e tinha os cabelos tudo grande. Nós éramos umas mocinhas novas, tudo bonitinha. Eles entreteram ali. Montaram no cavalo e saíram cantando, bonito mesmo:  
“Quem parte, parte chorando, quem fica, vida não tem. Adeus que eu já vou embora, não amo mais a ninguém”.
No grupo tinha um irmão de Lampião, Ezequiel. Dos irmãos dele, só tinha esse lá. Os outros já tinham morrido nos combates. Despediram e foram embora. Eu não tinha 15 anos. Era novinha. Só tinha tido menstruação duas vezes. Quando é um dia, meu pai chega lá em casa e diz: “Durvinha, vem cá”. Ele me deu 20 contos de réis. Eu digo: “E esse dinheiro?”. Ele diz: “Esse dinheiro é aquele dos cabritos seus”. Eu tinha uns cabritos gordos, bonitos. Lá em casa nós só comíamos carne de cabrito. Meus irmãos matavam cabrito, retalhavam e vinham vender carne em uma cidade que chamava Jeremoabo, no estado da Bahia. Ele me deu os 20 contos de réis e disse:  
“Esse dinheiro você guarda em segredo porque foram aqueles homens que passaram aqui. Eles comeram os seus cabritos e mandaram o dinheiro para você”.
Era um dinheirão. Em vez de ficar com raiva, eu fiquei foi muito alegre com aquilo. Fiquei com o dinheiro. Eles acoitaram no sítio de meu pai, detrás da roça, uma lavoura grande de algodão. Eles fizeram um acampamento detrás da roça, na cerca, e lá ficaram. Tomaram amizade com meu pai e de vez em quando aparecia um lá em casa, que era o cunhado de Lampião, Virgínio. Ele ia montando uma mula bonita por dentro da caatinga até lá em casa. Ali ele não tinha perseguição nenhuma, ficava lá escondido. Quando é um
dia ele me convidou para sair. Eu fui embora com ele para outra fazenda perto. De lá ele ia para onde morava Maria Bonita. Eu nunca tinha visto essa Maria, mas ela morava perto do Arrasta-pé. Conheci ela mais Lampião, que nós ficávamos tudo junto.

Maria era muito bonita. Outros dizem que ela era feia, mas ela era muito bonita, divertida. Já Lampião era feio, coitado. O olho dele era meio escuro. Mas ele tinha uma prosa muito boa. Ele só agradava quem agradava ele. Eu fiquei muito tempo no mato com Virgínio. Eu era tão inocente, não sabia de nada, era uma bobinha. Depois nós atravessemos da Bahia para Pernambuco, mais Lampião e a turma toda, a pé. A gente só andava de cavalo quando ia mudar para outro estado. Mas quando tinha uma volante grande atrás de nós, era tudo a pé, para a polícia não pegar o rastro. Fiquei com ele muitos anos, andamos tudo quanto foi lugar na Paraíba, Pernambuco, Alagoas e outros estados de lá, a pé. Mas nunca fui na praia. Vi o mar agora, quando fui de avião para Bahia ver meus parentes. Vi o mar lá de cima do avião.

Tive duas filhas com Virgínio. Dei as duas e não tive notícia nenhuma. Diz que meu pai chegou a criar uma das
meninas, mas não sei se era a minha não. Não podia ter criança no bando, com medo de chorar e a polícia encontrar nós. Eu não sabia cozinhar, quer dizer, sabia assim, já ouviu falar em imbu? Lá tem uns pés de imbuzeiro, aqui não tem não. Tem umas batatas grandes. Arranca aquilo, tira o miolo. Mata um cabrito como daqui a uma légua, leva na cacunda e tira o couro pra bicha morrer. Enche a batata de carne, cava um buracão no chão, muita dificuldade para fazer a buquinagem. Enche aquilo de carne, põe aquela bubuca com carne dentro ali no buraco, com terra queimada, rebuliça de terra e põe fogo em cima, tampado. No outro dia ou de tarde, abre aquela carne cozida gostosa, junta toda a gente e come um pouquinho.

A mulher no cangaço só fazia boniteza. Passava ruge, naquela época não tinha batom. Penteava aqueles cabelos bonitos, cada cabelão. Ficava lá numa rede balangando. Quando a polícia vinha e atirava, ficava lá tudo no chão. A gente deixava tudo. Eu costurava roupas, mas não sabia não. Aprendi por curiosidade. Meu
marido, Virgínio, ele era costureiro. Ele punha aquelas flores no bornal, moedas de ouro no chapéu, era ele quem pregava. Ele era todo enfeitado, era um homem muito bonito. Mas não era ciumento não. Ele era muito bom para mim. Fiquei triste quando ele morreu, mas lá ninguém sente tristeza não. Não sente tristeza porque o medo não deixa.

Quando ele morreu, fiquei andando mais outra amiga minha no bando, sem solução. Quando Moreno chamou para nós ir embora, ele foi e perguntou se nós queríamos ir embora, que ele mandava nós, sentava nós para nós viver. Eu falei que não queria não. Ele então perguntou se eu queria ficar mais ele, fiquei e estou até hoje com ele.

De repente nós se viu sozinho no cangaço. A gente só ouvia falar que tinha matado Lampião. Nós andávamos e onde nós tínhamos assistido fogo, achávamos pé, ossada... Nós saímos do cangaço na festa de Tacaratu. Nós caminhamos três meses à noite escondidos, a pé, até chegar em Montes Claros. A vida foi doída.
Nunca dormimos em casa, dormíamos debaixo de uns paus. Tinha um caldeirãozinho que a gente cozinhava, mas só comia peixe e farinha na beira do rio São Francisco, até nós chegarmos na lapa de Senhor Bom Jesus e, depois, em Montes Claros. Nós viemos subindo o rio São Francisco, Cabrobró, Orocó, Ibó. Passemos onde houve a guerra de Canudos. Cada buraco numas paredonas... Passava lá e até arrupiava. É chão, é terra até chegar aqui em Minas Gerais.

Nós viemos para Augusto de Lima só sofrer. Era ele cortando lenha e eu carregando no braço para empilhar até dar 1,20m de altura. Fazia assim para nós vender. Vendia para fazer carvão. Quando era dia de sábado, nós íamos vender, não dava para nada. Nós morávamos em uma terra que chamavam de indigente, que ninguém queria mais. Tinha muito pequizeiro lá. Os pequís caiam nas covas dos defuntos, eles não comiam e nós apanhávamos para nós comer, o pequi das covas dos defuntos.

Lá em Augusto de Lima tive mais cinco filhos. Fiquei dez anos lá sem ter filho até que nasceu Murilo. Minha família é pequena, seis filhos e 14 netos. Gosto demais de minha família toda. Eu tenho uma irmã viva, Ilda, e dois irmãos caçulinhas também são vivos. Coitados, foram os que mais sofreram. A polícia, quando foi em minha casa, tirou o chinelo deles para eles andarem descalços na fuga. Hoje eles moram no Rio de Janeiro. Covardia da polícia. Família de cangaceiro lá não ficou, não. Lídia e Maria Bonita eram vizinhas e a família delas a polícia arrasou. A polícia acabou com tudo. O que não acabou, escorraçou. Eu nunca pensei que ser cangaceiro tivesse alguma importância na história. Eu só pensava na polícia chegar e dar um tiro. Nós dormia era arriado, nos cantos, sentados. Não tinha casa para nós não.

Moreno
"Meus senhores e senhoras, a todos eu peço licença. Vou contar uma história arrancada do meu coração, vou falar um pouquinho do bando de Lampião”.
Meu pai chamava Manuel Inácio da Silva e eu nasci em Pernambuco. Fui batizado em Mata Grande, estado de Alagoas, com o nome de Antônio Inácio da Silva. Me criei até os 16 anos e sete meses no estado do Ceará. Meu pai, quando eu nasci, mudou de Pernambuco. Meu pai fez um crime em Pernambuco. Ele nunca
falou não, mas minha mãe falava que ele fez um crime em Pernambuco e mudou para o Ceará.

Eu era novinho. Criei lá. Tive escola, mas não aprendi nada. Eu aprendi um pouco já depois de homem feito, que eu cheguei aqui em Minas. Meu pai trabalhava na lavoura e minha mãe era só em casa, tomando conta da casa e dos dez fi lhos, cinco homens e cinco mulheres. Todo ano eu ia trabalhar na Paraíba. Com 12 anos eu já saía para apanhar algodão lá. Em 1927, eu estava com 16 anos e sete meses e fui para Juazeiro, na Bahia, para ver se eu podia ser polícia, que eu tinha vontade de ser um policial. Não tinha idade nem tamanho, de forma que não me aceitaram. Eu fui para a Paraíba. Cheguei lá e uma mulher me fez um falso com uma moça, bati na mulher e matei o marido dela. Tinha 16 anos e sete meses. Aí eu fui para Pernambuco. Fiquei trabalhando nas usinas, escondendo de ser preso.

Quando foi no ano de 1930, quando mataram João Pessoa, eu estava em Recife e um comandante de Sirinhaém falou: “Olha, eu vou te colocar na polícia”. Quando ele falou, pensei: “Graças a Deus vou ser um policial”. Ele foi e me deu um documento, eu não tinha registro, não tinha nada, e ele me deu uma carta para eu apresentar no quartel de Recife. Na época, eu trabalhava em usina e tinha conhecimento com o coronel Antônio Fontes e pedi a ele uma carta de representação. Ele me deu e fui para o quartel. Foram quase 15 dias junto com os policiais, esperando o decreto abrir. O dia que o decreto abriu tinha homem demais a escolha, só homão forte; eu, como diz, era aquele garrancho. Não quiseram eu não.

Eu trabalhava de barbeiro e fui trabalhar em uma barbearia em Santana do Ipanema, em Pernambuco. Lá, a barbearia só dava movimento em dia de domingo e dia santo, quando vinha gente da roça. Falei com o dono da barbearia que ia deixar a barbearia e ia trabalhar na roça, que dava mais para mim. Ele me propôs de trabalhar nos dias de domingo e dias santos na barbearia e o resto na roça. Assim eu fiquei. Até que vai na roça um homem e me chama:  
“Seu Antônio, estou com medo dos cangaceiros vim aqui. Se o senhor quiser tomar conta de minha casa, o senhor fica trabalhando seguido, em vez de trabalhar um dia para um e um dia para outro”.
Eu peguei o serviço e, com um mês e pouco, os cangaceiros chegaram. Encheu o terreno de cangaceiros.  
“De quem é essa casa aí?”, perguntaram.
E eu disse: “De Seu Antonino”.
Eles me deram uma carta e mandaram entregar a Seu Antonino. Quando ele veio, entreguei a carta a ele, que me perguntou:  
“Seu Antônio, o que eu posso fazer com esses homens? Eles me pedem 200 mil-réis e eu não sei o que eu vou fazer”.
E eu disse a ele: “Seu Antonino, eu não dou conselho ao senhor para dar nem para não dar, mas se fosse eu, eu dava, porque por 200 mil-réis pode salvar a criação”.
Ele concordou, foi embora e depois de três dias voltou com uma carta com o dinheiro e me deu. Passaram-se mais de um mês e os cangaceiros chegaram. Entreguei a carta para eles.
“Olhe, fale com seu senhor que se vier qualquer cangaceiro aqui, ele avise que foi Virgínio, cunhado de Lampião que esteve aqui e nenhum cangaceiro vai fazer nada com o seu senhor”.
E me convidaram para ir com eles. Eu com vontade de ir porque tinha vontade de ser polícia e, quando vi o pessoal armado, pensei: “Se ele me chamar eu vou”. Mas fiz que não queria ir. Por fi m, disse:  
“Não posso ir porque eu não entreguei a fazenda do homem. Entregando, eu vou, mas se não entregar, não posso não”.
E Virgínio respondeu: “Então você entrega e breve nós vêm te buscar”.

Mais uns dois meses se passaram e eles vieram. Era por volta de 1935. Eu fui embora com eles e, com uns três dias, Virgínio chegou com um homem e disse: “Aqui é um presente que eu trouxe para você”.
Eu pensei: “Se eu não matar esse homem, eles vão me matar”. Eu fui e matei o homem. Matei o homem e eles tomaram conhecimento comigo.

Logo, com uns quatro ou cinco dias, teve um tiroteio e eu assisti e não fui esmorecido. Eles viram, tomaram aquele conhecimento comigo e aquela confiança. Foi Luís Pedro que botou o apelido em mim de Moreno.
Ele disse:  
“Olha, vocês, cangaceirada, a partir de hoje, é para chamar esse moço aqui de Moreno”. 
Por Moreno eu fiquei. Eu era homem de confiança deles até o dia que Virgínio, cunhado de Lampião, morreu. Eu fiz o enterro dele. Virgínio morreu em um tiroteio, em uma emboscada. Antes dele morreu Jacaré e eu fiz o enterro dele. Morreu Gato e eu fiz o enterro dele. Gato saiu baleado em Piranhas, com arma surda que não dava explosão, mas eu vi. A bala batia no chão e levantava poeira. Eu atirei na cabeça de quem atirou. Eu vi a arma saindo, não sei se acertei, mas eu atirei.

Tiramos "Gato" que estava baleado e com sete dias ele morreu. Daí pra cá deu muito tiroteio, Nossa Senhora, eu assisti muito. Todos esses morreram e a polícia não ficou sabendo. Finado Virgínio morreu sete meses antes de Lampião, mas ninguém ficou sabendo porque eu fiz o enterro dele.

Agora, em junho de 2006, quando eu fui ao Ceará, eu tive notícia de que acharam a sepultura dele. Nós cavemos bem raso, porque não tinha ferramenta, foi cavador de pau e a terra é muito dura. Quando ele caiu, Durvinha ia à frente com dez homens, ou onze, e eu mais ele sozinhos atrás. Mas ia tudo perto uns dos outros. Eles passaram do córrego e não houve tiro, quando nós dois passamos, já atiraram, plá-plá. Nós pulamos dos cavalos no chão e atiramos. Ficaram os companheiros atirando por detrás de nós, eu no meio mais ele e os embosqueiros dentro do córrego. Tem hora que eu penso que essa bala que pegou fi nado Virgínio pode ter sido de um companheiro. Mas eu não sei. Eu saí atirando de ré e falei:
“Vamos tirar Virgínio, que ele está morto. Faz uma linha de fogo, avança e vamos atirar”.
Houve muito tiro. Os embosqueiros correram. Eu desarreiei Virgínio, dei o bornal para um e as armas para outro.
“Agora  vocês cessem fogo, põe ele na cacunda e sai com ele até quando estiverem cansados. Eu vou ficar aqui. Se vocês ouvirem tiroteio, correm com ele que é para a polícia não tomar e cortar o pescoço dele”.
Para a sepultura de Virgínio eu cortei muito mandacaru, xiquexique e tampemo, porque ele foi enterrado raso. Enterramos e saímos. Eu fiquei dominando essa homanhada dele e duas mulheres, Durvinha, que ficou viúva
com a morte de Virgínio, e uma outra viúva que tinha no grupe. Mas não podia ficar mulher sem homem no grupe. Falei com a moça que ia mandar ela embora mais Durvinha. No dia que eu fui mandar as duas embora, eu falei com Durvinha:  
“Se você quiser ficar comigo, não quiser ir embora, eu te aceito”. Ela então ficou.
Uma parte dos cangaceiros saltou o rio para o outro lado, outros fugiram, outros foram mortos e outros se entregaram. Certo que eu fiquei e quando deu meio de janeiro de 1940, eu andava sozinho mais ela e um cangaceiro. A solução é abandonar as armas Eu tinha medo, mas como se diz, em riba de medo, coragem por quê ? Se fosse me entregar, ia preso e podia ser morto, e eu tinha muito medo de me matarem. Em novembro de 1940, ela ganhou neném, no estado de Alagoas. Antes de um mês de nascido, houve um tiroteio. Ela estava lavando roupa no lajedo. Deu uma chuvinha e ela foi lavar a roupa do menino, Inacinho, filho meu que hoje é Segundo Tenente no Rio de Janeiro. Nesse dia estava só eu mais ela. Cisso não estava com nós. Eu sei que estava ela em riba do lajedo, quando eu vi a polícia e disse:  
“Pegue o menino e vai saindo que eu vou atirar que a polícia vem lá. Eu vou atirar para descontrolar e vai saindo”.
Ela saiu e eu atirei, plá-plá. Eu fui me retirando também e atirando. Quando nós nos encontramos, falei: “Vamos dar o menino”. Quando demos o menino, eu resolvi que ia ao estado do Ceará dar a benção a meu pai. Saí de Alagoas, cortei Alagoas, Pernambuco, peguei o estado do Ceará. Dei a benção a ele de madrugada.
Ele gritou: “Quem é que está falando na porta?”
Eu digo: “É Antônio, pai”.

Ele me abraçou, despedi e tornei a sair na mesma noite, não fiquei lá não. O delegado soube que eu tinha chegado lá e mandou a polícia para lá, para me matar na casa de meu pai, no terreiro. Mas eu não fui mais lá. Encontrei um colega de escola que me contou que um soldado foi sair por um lago e outro soldado atirou
nele. Ele morreu na porta de meu pai, dias depois que fui lá.

Eu tornei a voltar para Alagoas, andei por todo ponto e não tinha cangaceiro mais nenhum. Nem rastro não achava. O padre para quem entregamos o menino mandou carta pedindo para ir embora. Meu pai também pediu para ir embora, mas eu não podia porque tinha esse cangaceiro, não podia deixar Cisso sozinho no mato. Conversei com ele e ele disse: “Vou ver se encontro meu povo. Vou conversar com eles e te dou resposta”.

Ele saiu três dias. Quando chegou, falou: “Olhe Moreno, vou embora”.
Eu digo:  
“Então, se você vai, você não viaja para o lado que o sol chega não. Eu conheço a beira do oceano em vários estados e não tem lugar de você seguir, só topa água. Você viaje para o lado que o sol esconde, que tem lugar de você desaparecer”.
Então ele foi embora. Ficou eu sozinho mais ela. Ainda rodei uns três meses mais ela. Durante esse tempo todo que eu fui cangaceiro, eu nunca dormi um sono em uma casa, foi só no mato, feito bicho bruto. Um dia, nós íamos andando, começando a turvar, eu sozinho mais ela, eu na frente e ela atrás. Ela diz assim: “Moreno, deixa eu passar na frente que eu estou me arrupiando, estou com medo”.

Quando ela passou para frente uma cobra pegou ela. Fui com ela para a fazenda de um padre, mandei pedir remédio a ele, um contra-veneno que ela estava ofendida de cobra. Ele mandou o contra-veneno e eu dei a ela. Quando ela melhorou, eu falei para ela:  
“Cisso foi embora, agora nós vamos arriscar ir embora. O padre está só me pedindo para ir embora. Eu vou escrever para ele que atendo o pedido dele, mas que eu estou precisando de roupa, chapéu, calçado, porque nós não podemos sair nos trajes de cangaceiros”.
Ele mandou tudo e, no dia 2 de fevereiro de 1941, festa de Nossa Senhora da Saúde em Tacaratu, estado de Pernambuco, eu abandonei as armas. Partimos, viajemos, viajemos até que cheguemos aqui em Minas Gerais.

Quando eu cheguei aqui, fui trabalhar de machado, cortar lenha para a Central (Estrada de Ferro Central do Brasil). Cortei lenha muito tempo. Depois fui plantando roça, criando porco e fui trabalhando na lavoura muitos anos. Depois plantava mandioca. Fiz farinha muitos anos, vendendo na cidade. Não precisava entrar farinha de fora não, que eu servia todo o comércio de farinha em Augusto de Lima. Sou como filho de lá. Muito conhecido e conheço todo o mundo. Em Augusto de Lima me conhecem como Pernambuco. Já em Corinto é Zé Perna, de Zé Pernambuco.

Morei uns 25 anos em Corinto, que é umas quatro ou cinco léguas de Augusto de Lima. Tem poucos anos que estou em Belo Horizonte. Eu mexia com comércio lá, mexia com carvão, com carvoeiro. Eu mexi com carvoeiro dez anos, arrendando mato e fazendo carvão. Conforme, ia atrás de burro, ia atrás de boi. Lá eu tinha meus trens tudo, não passava falta de nada. Tinha casa, até mais de uma casa. Hoje não tenho casa para morar, moro na casa dos filhos. É certo que lá eu passava muito bem. Deus me ajudou.

Passaram-se anos e ano, eu falei com ela:  
“Olha, nós temos esse filho em Pernambuco, os irmãos não sabem não. Vamos falar com Murilo, que é o filho mais velho e pedir segredo a ele”.
Eu e ela tivemos mais cinco filhos em Minas Gerais, duas mulheres e três homens. Passaram-se mais uns três
anos e pensei: “Pode nós morrer primeiro, pode Murilo morrer e os outros irmãos não sabem que têm esse irmão”. Falamos para mais dois filhos. Neli foi um deles e resolveu encontrar Inacinho. Quando encontrei meu filho, virei e falei para ele:

“Dentro de meu coração nasceu um pé de flor
Por falta de pingo d’água toda a folhinha murchou
Mas veio o sereno que Jesus Cristo mandou
E no dia 5 de novembro de 2005, meu querido filho Inacinho,
Que ficou em Pernambuco, hoje em Belo Horizonte chegou”.

Eu não sou repentista, mas tenho assim, um ar de repentista, porque:

“Sua senhora, eu não sou cantor, nem canto de profissão,
Mas tenho você guardada dentro do meu coração”.
“Eu não sou poeta, nem sou repentista, nem sou compositor
Mas faço algumas cantorias para mostrar quem eu sou”.

Eu também formo música. Eu cantei, sem ser cantor, lá em Fortaleza.

“Como em folha verde, nas quebradas do sertão,
quem anda na mata virgem, na sombra da solidão,
procurando sua sorte naquelas matas virgens, onde anda Lampião.
Procura a sua sorte, mas lá ainda não achou
Achou o imbuzeiro, no estado de Sergipe
Onde nasceu Expedita, filha de Maria Déia, esposa de Lampião”.

Foto: Leonardo Lara
Fonte: www.escritoriodehistorias.com.br

Continua...

Depois da derrota

Lampião em Limoeiro do Norte


Após a terrível derrota que sofreu em Mossoró / RN em 13 de junho de 1927, em que perdeu dois grandes cangaceiros (Colchete e Jararaca), Lampião andando à cavalo, juntamente com seus comandados, adentrou no território cearense com destino á cidade de Limoeiro do Norte no Ceará.

Em rápido deslocamento, o rei vesgo do cangaço alcançou a fazenda do Sr. Anízio Batista, na Lagoa do Rocha, e sob sua direção entrou em Limoeiro, tendo sido recebido por Custódio Menezes (juiz de paz), em virtude da ausência do prefeito (Cel Felipe Santiago de Lima)*, e pelo padre Vital Gurgel.

Lampião, esperto como uma águia, antes de entrar na respectiva cidade, mandou Anízio Batista sondar as autoridades locais, sobre a possibilidade de recebê-lo, pacificamente, ou não.

Diante do gesto afirmativo das autoridades, de não promoverem nenhuma represália / agressão ao temível cangaceiro, até porque Limoeiro não tinha condições satisfatórias de defesa, Lampião entrou serenamente com seu grupo naquela cidade, tendo dito ao Sr. Anízio:
" O senhor vai na frente, pois se houver qualquer reação, a primeira cabeça a rolar será a sua ".
Já no interior da cidade, Lampião caminhou até o Hotel Lucas, onde mais tarde jantaria. Antes de iniciar a refeição exigiu que alguns cidadãos experimentassem a comida, antes dele e de seu grupo.

O padre Acelino Viana Arrais saiu de sua fazenda, Maçarico, com a finalidade de ver Lampião, com quem teve o seguinte diálogo:
" - Lampião, eu tenho coragem de acompanhar-lhes na vida do cangaço." 
Ocorre que o sacerdote era bem nutrido e possuia um ventre avantajado. Virgulino fitou-o, e fez, a seguinte observação:
" Seu vigário, homem barrigudo, não pode participar dessa vida, porque além de dura, nós se arrasta como cobra pru mode atirar nos macacos. Hômi da barriga grande não dá para isto "



Virgulino, ainda na cidade de Limoeiro procurou o doutor da cidade - Dr. Araújo. Foi á farmácia Araújo com os feridos ( tiroteio de Mossoró). Assistiu aos curativos e, após, insistiu em pagar os honorários. Não sendo atendido, presenteou o médico com um pequeno punhal de cabo de chifre, adornado com anéis de ouro. Em seguida, tomou conhaque num bar.

Um fotógrafo aproveitou a oportunidade, e convidou Lampião e seu grupo a deixar-se fotografar, no que foi antendido. Amante da publicidade, o Rei vesgo do cangaço convocou seus companheiros e os sequestrados (Cel. Antonio Gurgel, D. Maria José, etc..). Formou na linha de frente, com um joelho em terra e empunhando o mosquetão. Na segunda foto batida com vinte e poucos cangaceiros montados á cavalo, ele aparece tristonho, montado num burro. Os negativos foram revelados e copiados em Mossoró/RN, no atelier do Otávio.


As volantes do Ten. Costa e de Quelé vinham seguindo os passos dos cangaceiros. Lampião pretendia dormir em Limoeiro, mas devidamente informado do movimento das volantes, e atendendo aos conselhos das autoridades locais, resolveu não pernoitar na respectiva cidade.

No outro dia as volantes chegaram, ai já era tarde, o rei do cangaço, já estava distante com seu grupo.

FONTES DE CONSULTA:
1- Lampião em Limoeiro do Norte - Autor: Antonio Nunes Malveira
2- A Marcha de Lampião - Autor : Raul Fernandes

 
Uabraço a todos.
IVANILDO SILVEIRA
NATAL/RN

*O nome do prefeito nos foi informado pelo confrade Raimundo Gomes em 12 de Janeiro de 2013.
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Adendo importante!


Com relação as fotos das trincheiras em Mossoró, após a resistência do 13 de junho de 1927, e do Jararaca na prisão, inclusive ladeado pelos dois soldados, são, da autoria de José Octávio, dono do Atelier J. Octávio. Agora... As fotos feitas em Limoeiro do Norte-CE, que em muitos livros aparecem como de autoria do José Octávio, estas são do fotógrafo limoeirense Chico Ribeiro, que trouxe os negativos e as revelou no Atelier mossoroense. Melhores informações estão no livro "Nas Garras de Lampião - Diário do Cel. Gurgel" - Antonio Gurgel & Raimindo Soares de Brito. 2ª edição 2006. 


Kydelmir Dantas _ Mossoró-RN. 

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Download de uma relíquia do judiciário sergipano

Processo e pronuncia contra Lampião em Dores, SE

Atenção senhores pesquisadores eis aí o link para o Tribunal de justiça de Sergipe que em alusão aos 25 anos do seu arquivo judiciário digitalizou documentos que ajudam a contar a história do menor estado da federação.

Dentre estes, eles disponibilizaram para download ou apreciação o processo movido pela comarca de Capela contra o Rei do cangaço por ter assassinado o jovem Elpídio na cidade de N. Senhora das Dores.

É uma peça de 60 páginas em PDF que tem início 17de outubro de 1931 e concluído em 10 de janeiro  de 1932. além da Pronuncia com duas páginas. Entenda-se por concluída a elaboração, pois prisão mesmo... nunca foi possível.

É a reprodução digital de um rico material da época que agradecemos e louvamos a atitude dos servidores do órgão e fazemos questão de compartilhar com nossos "rastejadores".

Obs. Geralmente demora um pouco para abrir, mesmo com boa conexão. Ah e preparem-se para queimar as pestanas pois a caligrafia do escrivão é clássica. 

 Para visualização e download do processo https://www.tjse.jus.br/arquivojudiciario/arquivos/imagens/acervo-digitalizado/processo-lampiao.pdf

Conheçam demais conteúdos do Tribunal: TJ - Sergipe

Abraços, Kiko Monteiro

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Em Paulo Afonso

Começa Hoje: Evento que vai discutir Cânion e Cangaço 

Por Antônio Galdino
Folha Sertaneja


Este ano, alguns eventos importantes para a retomada do crescimento da região a partir do turismo, aconteceram em Paulo Afonso e na região.

Em março, em seminário promovido pela Bahiatursa foi revista o zoneamento turístico do estado e criada a Zona Turística Lagos e Cânions do São Francisco, sediada em Paulo Afonso, reunindo os municípios de Paulo Afonso, Glória, Abaré, Rodelas e Santa Brígida, que deixaram a ZT Lagos do São Francisco, sediada em Juazeiro.

A nova Zona Turística Lagos e Cânions do São Francisco foi aprovada pelo Fórum de Turismo da Bahia na reunião de 18 de março de 2009.

Entre 1º e 3 de outubro, estiveram na região um diretor e assessores do Ministério do Turismo, da área de investimentos públicos e privados e se reuniram em Jatobá-PE, num primeiro momento, com prefeitos e representantes do turismo da região. Ali estiveram os prefeitos de Paulo Afonso, Glória e Jatobá e representantes de Piranhas e Poço Redondo. Segundo o diretor Hermano, assessorado por José Rocha e Bruno, "esse encontro preliminar terá desdobramentos e o MTur estará bem mais presente na região".

Entre 16 e 19 de outubro aconteceu a Expedição D. Pedro II, a Rota do Imperador, um projeto de iniciativa privada que contou com o apoio e participação de prefeituras alagoanas(7), sergipanas(1), baianas(1) e pernambucana (1). O projeto refaz a viagem do Imperador D. Pedro II, feita em outubro de 1859, até a Cachoeira de Paulo Afonso.

Agora, Bahia, Alagoas e Sergipe, numa parceria da Bahiatursa e Prefeitura de Paulo Afonso, organizadores do evento, estarão reunidos em Paulo Afonso para discutir roteiros turísticos integrados para a região.

Os debates estarão focados para dois grandes temas, comuns à maioria dos municípios no entorno de Paulo Afonso: O cânion do São Francisco e o cangaço. 

Paulo Afonso possui o maior cânion natural navegável do mundo, com paredões de mais de cem metros de altura e o cangaço está presente nos livros de João de Souza Lima e Luiz Ruben, nas muitas andanças de Lampião pelo Riacho, Malhada da Caiçara, onde está o Museu Casa de Maria Bonita, Baixa do Boi, onde, na Lagoa do Mel, morreu Ezequiel o irmão mais novo de Lampião.

E no Raso da Catarina, em Água Branca, em Glória, em Canindé do São Francisco e dezenas de lugares na região. Mesmo sem nunca ter entrado vivo em Piranhas, ali foram expostas as cabeças de Lampião, Maria Bonita e sete cangaceiros, emboscados pela polícia na Grota de Angico, que está em Poço Redondo mas a sua visitação é feita pelo rio e trilha de 700 metros, por Canindé do São Francisco.

Seminários como o do Centenário de Maria Bonita, realizado em março deste ano em Paulo Afonso e muitos outros que acontecem na região têm sempre uma grande participação popular para um tema que já rendeu centenas de livros, filmes, seriadas de televisão, teses de mestrado e doutourado no Brasil e no exterior.

Para se ter uma idéia da importância ou da preferência pelo tema, os sites de consulta na internet revelam números fantásticos. A palavra cangaço, no Google, por exemplo, tem..... páginas, Lampião.... e o nome Maria Bonita tem quase 4 milhões de páginas nesse site.

Agora, no período de 9 a 12 de novembro, a Prefeitura de Paulo Afonso, a Secretaria do Turismo do Estado da Bahia, a Bahiatursa (Empresa de Turismo da Bahia) e os parceiros do Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil estarão realizando no auditório do Memorial Chesf, de 09 a 12 de novembro, o Seminário e Oficina de Roteirização Lagos e Cânions do São Francisco.

Representantes dos órgãos governamentais municipais, estaduais e federais, empresários e profissionais da cadeia produtiva do turismo, sociedade civil de diferentes segmentos sociais, como organizações locais, associações comunitárias, instituições de ensino, organizações não governamentais (ONGs), associações comerciais, entre outros, estarão reunidos para discutir a elaboração de novos roteiros turísticos integrados nos Cânions, explorando a história do cangaço, abrangendo os estados da Bahia, Alagoas e Sergipe. Assim como, avaliar os roteiros já existentes visando à sua qualificação.

A expectativa de todos os que atuam ou lutam para o desenvolvimento regional a partir da incrementação de projetos na área do turismo e de incentivos e apoios mais marcantes dos governos, em todas a esferas, assim como maiores investimentos também na oferta de um turismo da melhor qualidade é que este Seminário e Oficina de Roteirização do turismo na região, de forma integrada, conduzido pela Bahiatursa com todos esses parceiros, seja, realmente, o início de uma nova era nesse setor e não apenas mais uma "oficina de turismo" como dezenas de outras que já aconteram por aqui sem nenhum resultado, a não ser o de cumprir uma agenda dos governos estadual e federal.

Estamos acreditando que "dias melhores virão" a partir deste encontro regional.

PROGRAMAÇÃO

1º DIA – 09.11.09 - Segunda-feira
 18hs ás 21h - MEMORIAL DA CHESF 

18h - Abertura Oficial do Evento: 
· Boas Vindas – Prefeito de Paulo Afonso, Anilton Bastos;
· Pronunciamento das Autoridades Presentes.

19h30 – Exibição de Vídeo Institucional sobre o Turismo na Bahia e em Paulo Afonso;

20h – Apresentação de Coral Chesf Paulo Afonso e Grupo de Teatro APDP. Coquetel.

 2º DIA – 10.11.09 Terça-feira 
 8h30  às 12h30 - AUDITÓRIO EDSON TEIXEIRA

 Palestras:

 8h30 às 10h: - Políticas Estaduais de Turismo:

· 9h - BAHIA - Políticas públicas para o turismo do Estado;

· 9h20 - ALAGOAS - Políticas públicas para o turismo do Estado na região Cânions do São Francisco;

· 9h40 - SERGIPE – Políticas Públicas para o Turismo do Estado (Cânions do São Francisco);

. 10h - Coffe break

Mesa Redonda: 

· 10h15 - O Potencial Turístico Região Turística Lagos e Cânions do São Francisco: Antônio Galdino da Silva - DEMTUR/Paulo Afonso;

· 10h35 - Turismo Histórico e Cultural - Palestrantes: Jairo Luiz;

· 10h55 - Turismo de Aventura – Palestrante: Jannyne Barbosa, Diretora de Articulação, Negócios e Investimentos, Secretaria do Turismo de Alagoas;

· 11h15 - Perspectiva da Roteirização pela apropriação do Cangaço - Silvia Oliveira - Secretária de Turismo de Canindé do São Francisco- Se;

· 11h35 – Roteiro do Cangaço – Vera Ferreira – OSCIP – Sociedade do Cangaço;

· 11h55 - Revitalização do Rio São Francisco – MMA

· 12h15 - Abertura para perguntas – Mediação de Meraldo Rocha – APL Turismo Caminhos do São Francisco.

. 12h30 às 14h: Almoço

14h às 18h - Hotel Belvedere

· Oficina de Roteirização e Segmentação


3º Dia - 11/11/09 Quarta-Feira                                                                                       8h ás 12:30 HOTEL BELVEDERE

· Oficina de Roteirização e Segmentação

12h30 às 14h: Almoço

14h às 18h – Hotel Belvedere

· Oficina de Roteirização e Segmentação

19h – Pérgula da Piscina do Clube Paulo Afonso
Palestra: Piscicultura – SEBRAE/Ba
Confraternização de Encerramento;
Degustação da Tilápia;
4º - Dia – 12.11.09 - Visita técnica ao roteiro elaborado.
  
FONTE: OZILDO ALVES

domingo, 8 de novembro de 2009

Opinião

Uso da historia oral! 

Por José Eliton de Lima Dantas

O uso da História Oral como metodologia na pesquisa sobre o cangaço, ainda é uma constante. Em sala de aula tivemos a oportunidade de conhecer a obra do professor e pesquisador Gisafran Nazareno Mota Jucá, “A ORALIDADE DOS VELHOS NA POLIFONIA URBANA” que veio a ligar de forma ampliadora as nossas convicções a cerca da atitude na utilização da História Oral. Para a nossa pesquisa, autores como: Gustavo Dodt Barroso, Leonardo Mota e Vera Ferreira, sendo que os dois primeiros escrevem em épocas que nem fazíamos a noção do que seria hoje a História Oral (metodologia), entrevistaram e conviveram com suas fontes orais, para poder nos deixar uma série de informações que, não estão nas paginas de documentos oficiais.

Para entendermos como o uso da memória é importante nas pesquisas acadêmicas, o professor Gisafran Mota, fala e argumenta de forma incisiva que: “a maioria dos documentos expressava uma versão oficial, ou seja, as abordagens de autoridades políticas ou mesmo a opinião de uma elite acerca da realidade” não depreciando a importância da documentação oficial ele diz: “mesmo reiterando o valor da documentação consultada, percebemos os limites presentes em tais fontes, o que nos motivou a buscar uma alternativa de melhor entender a realidade” assim autores que aproveitam a memória dos agentes que viveram os acontecimentos, podem expandir suas linhas que limitam a pesquisa.

Partindo das idéias do uso da oralidade autores que se empreitaram na busca de informações verdadeiras, foram basicamente corajosos publicando entrevistas em épocas em que não se tinha um respaldo seguro para tal feito. Leonardo Mota no decênio de 1920 a 1930 publicou obras essencialmente orais de uso da memória, onde dedicou boa parte do seu tempo caindo em campo à procura de pessoas que estivessem dispostas a lhe falar de suas lembranças ou participações em diferentes episódios.

Seu livro, “No Tempo de Lampião”, onde o título já nos dá uma noção de como o autor fez uso da oralidade, buscando divulgar, que seus leitores iriam acha informações atuais acerca de um personagem que estava presente aos acontecimentos do hoje, do agora, e o que as pessoas que conviveram com Virgulino Ferreira o famoso capitão Lampião, diziam a respeito do afamado cangaceiro. Leonardo mota viajou incansavelmente a procura de informações que desvendassem mitos e lendas sobre Lampião, em uma de suas visitas a Penitenciaria Municipal do Estado de Pernambuco na cidade do Recife no ano de 1914, o mês era novembro, ele entrevista um cangaceiro chamado Antonio Silvino, que vivera a fazer suas andanças no mundo do crime antes mesmo de Lampião, e pergunta a ele:
- Silvino o que é que você diz de Lampião?
- Ah, seu Dr., Lampião é um prinspe!
- Príncipe por quê?
- Veio depois de mim. Os tempo são outro. As armas estão mais aprefeiçoada. Não falta quem lhe dê de tudo. Caixeiro viajante não é besta pra se esquecer de levar presente de bala pra ele, a policia quer só se encher de dinheiro no sertão. O mundo todo virou revoltoso, os governo deixam de mão os cangaceiros porque não tem tempo nem de cuidar dos revoltosos, não tenha duvida, Lampião é um prispe!

Inquieto em saber mais sobre Lampião ele corre a traz de colher mais informações, e ainda na casa de correção da capital Pernambucana diz que conversa a vontade com vários comparsas de Lampião, homens que estiveram ligados diretamente com o facínora, segundo Leonardo mota ali se encontrava, já felizmente presos e caídos nas malhas da justiça os cangaceiros: Serra Umã, Braúna, Pássaro Preto, Zabelê (Foto acima), Canção e Guará. Ele faz uma indagação a todos pra ver se algum deles se manifestava ou até mesmo podíamos dizer que usou a pergunta como forma de quebrar a tensão inicial da conversa que teria pela frente, e pergunta:
-Lampião é corajoso? Zabelê atendeu a pergunta e começou a falar:
- É, e tem uma coisa, pra prender ele ainda nasceu home. Pode nascer ou já nasceu pra juntar os pedaços dele, porque ele se esbagaça, mas não vai preso. Virgulino é home pra se acabar nas mãos doutro home, a qualquer hora do dia ou da noite, o cabra que se cair na besteira de se botar a ele segure o pulo porque se errar o salto ele o lambisca dipressinha, tão certo como dois e dois são quatro. Tem uma coisa, brigar a toa só pra esperdiçar munição ele não briga não.


Leonardo Mota (à esquerda na foto acima) envolvido com o uso da oralidade, naquele momento teve a feliz ideia de perguntar a eles se lembravam de algum caso engraçado, que envolvesse matuto medroso, a se ver as voltas com Virgulino e diz:
"Riram os bandidos como se o caso recordado fosse jocoso e não atestasse acima de tudo a perversidade de Virgulino. Mas para aquelas almas, embotadas pela torpeza de delitos inenarráveis, a brutalidade do gesto infame se afigurava de irresistível comicidade, Zabelê cochichou qualquer coisa aos ouvidos de Canção e este num riso de mostro, a mostrar a fileira de dentes pontiagudos, cerrados como caninos, desembuchou, desembaraçado, aquilo que Zabelê se acanhava de referir".
Percebemos ai a memória induzida pelo entrevistador, os cangaceiros submergidos em resgatar suas façanhas entram num êxtase emocional coletivo, pois tal feito perecia ter sido presenciado por todos eles e como uma espécie de porta voz do pequeno grupo relata o episódio:
A coisa mais engraçada que eu tive de assistir passou-se numa fazenda do município de Princesa, na Paraíba. O velho dono da casa tremia que era ver uma vara verde, Lampião botou ele debaixo de confissão, riscando o punhal nas costelas e ele acabou descobrindo o rumo da volante do tenente Mané binisso. Virgulino queria dar uma surra de relho, mas era tento choro de muié e menino, que o jeito foi se perdoar. Mais com pouca, Lampião tirou do bolso um maço de cigarro e ofereceu:

-Pita?
O velho ficou calado, fez que não tinha ouvido e Lampião tornou a perguntar, desta vez gritando no pé do ouvido dele:
-Pitaaaaaaaaaa? Ai todo tremendo, o velho disse:
-Pito, mas vamincê querendo eu largo o viço.

Vimos ai à importância do uso da oralidade empregada por Leonardo Mota, a memória usada como um ciclo capaz de fornecer ricas informações, talvez não como escolha de metodologia para sua obra, pois como já dissemos antes ainda não se falava de Historia Oral como forma de metodologia.
Assim como Gizafran Mota usa a oralidade dos velhos, para justificar a ampliação do conhecimento sobre fortaleza em épocas passadas, dizendo:
Por isso, as informações prestadas por eles trazem subsídios valiosos à compreensão do passado, uma vez que elas são apresentadas de uma maneira mais espontânea, deixando fluir o conteúdo restaurador do passado.

Leonardo Mota usa a oralidade dos contemporâneos de lampião e de outros cangaceiros igualmente famosos para justificar as ações dos bandidos que tanto se ouvia falar, mas, nada tinha escrito sobre eles. E até mesmo sem conhecer a possível metodologia que estava aplicando ele segue umas regras que servem de exemplo para quem quer se aventurar na arte da Historia Oral, diz:  
- O velho tabaréu a quem perguntei se o Lucas era valente deu um moxoxo e contestou:
-O que ele era, era um grandessíssimo desalmado. Era perverso, era levado do não sei de que diga, mas era frouxo, mijou-se todo na hora da morte.
- Não lhe quis obtemperar que a micção é natural nas mortes por enforcamento. Preferi deixá-lo desatar a língua a seu modo
- Lucas foi o diabo em figura de cristão, Deus o perdoe, aquilo não era gente, uma vez ele agarrou um negro beiçudo na estrada e sabe que é que fez com ele? Prendeu com prego caibral o beiço do infeliz numa arvore, quando acabou, disse ou suplicante que ia não sei aonde e mais tarde voltaria para capá-lo.

Observamos que ele deixa o entrevistado à vontade para falar aquilo que achar conveniente, fazendo assim uma relação de confiança entre ele e sua fonte. Gisafran Mota acha essencial a memória dos velhos, para a captação dos dados que irão ampliar os limites da historia e diz:
"O papel dos velhos, expresso através das opiniões coletadas, pode ser fundamental a compreensão do que havia sido esquecido, dependendo de uma decisão do pesquisador de incluí-lo no contexto estudado".
Tanto Gisafran Mota como Leonardo Mota usam a memória dos agentes da historia, para assim vincular os acontecimentos relativos à suas pesquisas, onde essas recordações trariam uma nova probabilidade de aprendizado sobre o devido tema. Para exemplificar bem vejamos o que Gisafran Mota diz:
"A memória remete a algo mais do que a um mundo pessoal, deixando transparecer a relação entre o individuo e o seu meio social, que torna mais abrangente o perfil da realidade estudada".
Considerações Finais

Os dois autores apresentados nesse artigo nos mostram a realidade de pessoas que estiveram presentes e atuantes, como agentes construtores do momento histórico. A narração na fala dos protagonistas não retrata o caso ocorrido de maneira singular, uma vez que cada sujeito divulga o experimento especial que viveu, sentiu ou captou em profundidade, tornando o fala muito mais opulenta do que a simples nota informativa ou referencia ao fato, fica certo a seriedade da oralidade para divulgar as memórias, contribuindo para a construção de uma história mais rica.

Fonte CAFÉ HISTÓRIA

sábado, 7 de novembro de 2009

Aniversário de ex cangaceiro

Parabéns Seu Moreno!!!

Com um atraso de 7 dias, mas com a mesma satisfação gostaríamos de registrar aos amigos que no ultimo dia 1º o ex cangaceiro Moreno completou um século de vida, com merecida festa que contou com a presença de vários pesquisadores e amigos da família em sua residencia na capital Mineira.


Parabéns Sr. Moreno 
e abraçando nossa amiga Neli


Kiko Monteiro 

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cabras de Lampião

"De site novo"
 

Acessem e conheçam o novo portal da Fundação Cabras de Lampião dos amigos Anildomá Willans e Cleonice Maria. www.cabrasdelampiao.com.br

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Hilário Lucetti

Doutor do cangaço 

Os amigos devem lembrar a recente entrevista com Ângelo Osmiro, presidente da SBEC. 

E da sua resposta para definir o melhor momento do Cariri cangaço? 

Eis aqui o vídeo, uma merecida homenagem póstuma da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço ao saudoso escritor cearense. 

A minha emoção se repete.

Resenha

Cangaceiros, de José Lins do Rego 
 por Braulio Tavares

É um romance que enxerga o cangaço pelo lado de fora, ou em volta dele. Em vez de descrever o dia-a-dia dos cangaceiros, seus combates, suas fugas, prefere contar a vida das pessoas que são parentes ou amigas dos cangaceiros, que pensam neles o tempo todo, que os temem, que os protegem, que torcem por eles ou contra eles. A toda hora chegam-lhes relatos das façanhas e das crueldades praticadas tanto pelos cangaceiros quanto pelas volantes de soldados que os perseguem.

A trama acompanha Bento, irmão do cangaceiro Aparício. Através dele, na fazenda onde que se refugia, ficamos vendo a quantidade enorme de boatos, de lendas, de informações falsas e de histórias mal contadas que cercam a atividade desses indivíduos, num Sertão da década de 1920, carente de comunicações e de estradas.

A literatura de Zé Lins desenvolveu um monólogo interior com feição própria, extensos parágrafos que se expandem por páginas e mais páginas, nos quais ele acompanha as idas e vindas do pensamento do personagem, seus avanços e recuos, suas decisões, hesitações, suas intermináveis discussões íntimas nos momentos de ameaça ou de crise. Como Zé Lins usa um vocabulário claro e direto, o leitor acompanha sem muito esforço essas reviravoltas mentais sem perceber o labirinto de idéias em que está se metendo.

O livro, que aliás é uma continuação direta de “Pedra Bonita”, formando com ele uma unidade sem cesura, mostra um enorme entendimento do autor da mecânica social do ambiente que descreve, e uma grande familiaridade com usos e costumes, resultado de uma memória vívida, de um ouvido infalível. Isto lhe permite criar personagens de peso como os três irmãos Vieira: o cangaceiro Aparício, o pacífico Bento, e Domício, o poeta cantador que acaba enveredando pelo cangaço.

Mas os dois grandes personagens do livro são para mim os dois neuróticos. O primeiro é o Capitão Custódio, desmoralizado pela vergonha de ter visto seu filho ser morto pelo Coronel Cazuza Leutério e nada ter feito para vingá-lo. O código de honra do Sertão da época não admitia que um pai não vingasse o assassinato do filho, e o Capitão remói sua culpa e sua humilhação em todas as cenas em que aparece. O outro personagem é o Mestre Jerônimo, que foi embora do Brejo por ter cometido um crime de morte, não gosta do Sertão, e vai pouco a pouco entrando num delírio paranóico equivalente ao do Capitão Custódio.

São dois personagens trágicos, que mostram o remoer de angústias e ansiedades que existe às vezes por trás da fisionomia impenetrável do sertanejo. Numa interiorização progressiva de culpas, ressentimentos, humilhações e medos, os dois vão sendo consumidos de dentro para fora diante dos nossos olhos. Quando Bento procura fugir dali, nos últimos capítulos, está fugindo ao terrível futuro que o ameaça, o de se tornar um cangaceiro como os irmãos ou um doido como os seus dois protetores mais velhos.

Artigo publicado originalmente em 12.6.2007 na sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB).

Acesse: Mundo Fantasmo

Lendas do cangaço Lampiônico

Lampião e a Língua de trapo
por Nertan Macedo

Amigos do Lampião aceso: O escritor cearense Nertan Macedo (Autor de 10 obras sobre o cangaço), em seu livro "Cinco Histórias Sangrentas De Lampião”, Editora Monterrey, pags. 105/107 , sem data a edição, nos traz mais um fato interessante, sobre Rei do Cangaço:

“... Ia já avançando o verão inclemente de 1936, quando Lampião chegou com seu bando à cidade de Simão Dias. Aí travou um rápido combate com as tropas do Tenente Osório e foi obrigado a fugir pela estrada velha no rumo de Propriá. Algumas léguas adiante parou, com seu bando, em uma tendinha que a preta Carmolina havia montado na beira do caminho para vender magros cafés com bolachas mofadas aos eventuais caminheiros daquela zona.

Lampião ficou decepcionado com a falta de sortimento da venda e resolveu dar à preta velha um auxílio, em dinheiro, para que melhorasse seu estoque:

- Tome quinhentos mil-réis... - disse o chefe do cangaço. - e compre muita carne de sol e farinha, que na próxima passagem por aqui, eu quero encher o bucho dos meus cabras. Couro de barriga de cabra meu tem que andar tinindo que nem corda de viola.."

E, abalou, em tropel ruidoso, com seus homens famintos, pois a Volante lhe vinha nos calcanhares, sem descanso. Algum tempo depois, o Tenente Osório, seguindo o rasto do bando, foi dar também à vendinha da preta Carmolina.
-Por onde seguiram os bandidos ? - Perguntou ele à mulher.
A velha soltou todas as informações. Contou que Lampião pessoalmente lhe dera quinhentos mil-réis para comprar maiores sortimentos e, pelo visto, pretendia voltar ali, com seus cabras, para encher a pança, quando tivesse outra chance.

A volante do Tenente Osório continuou no encalço do bando e várias vezes lhe deu combate nos povoados seguintes. Muitos meses depois Lampião foi informado, pelos seus espias, de que a velha Carmolina dera com a língua nos dentes e traíra a confiança do chefe. Não soubera retribuir à generosidade do Rei do Cangaço.
- Essa velha língua de trapo não perde por esperar ! - rosnou Lampião - Dei-lhe quinhentos mil-réis e ela me traiu. Pois vai ver, quando chegar o tempo!
Com efeito, quase dois anos depois Lampião voltou à tendinha para ajustar contas com a velha. Mas, que podia ele fazer de pior àquela pobre mulher indefesa ?
- Piedade, Capitão ! - Chorava ela, tremendo, nas mãos dos cabras do bando.
- Pode deixar que eu vou ter piedade, muita piedade ! - Rosnou o bandido. E chamando um dos seus ajudantes: -Traga-me depressa um tamborete, um prego e um martelo.
A ordem foi cumprida. Lampião mandou segurar a velha, abrir-lhe a bôca a força e puxar-lhe a língua para fora. Depois ele próprio, munido do martelo, pregou a língua da preta no tampo do tamborete.

A negra velha urrava de dor. Lampião falou de manso:
- Agora vá usar sua " língua de trapo " para mim delatar aos macacos (policiais), sua burra velha!
Zé Bahiano, usando uma foice, cortou, de um só golpe, o pedaço da língua entre o prego e a boca. E guardou-a, como troféu, no seu embornal, já cheio de orelhas ressequidas de outras vítimas exemplares. À partir dai dona Carmolina deixou de ser informante dos macacos. O bando de Lampião lhe confiscara a língua para sempre.


NOTA: O presente texto foi postado para discussão e conhecimento dos leitores, com a finalidade de aprofundarmos o conhecimento sobre o fato, haja vista, que tal evento, só é citado pelo escritor Nertan Macedo (Foto). Embora haja em seu relato, determinação: Data, Local, Ano e Personagem. Acrescente seus comentários sobre o fato, sem fanatismo, ideologia etc..

Um Abraço.
Ivanildo/Natal/RN

Resenha

Análise abrangente do cangaço

por Luiz Carlos Monteiro

O relançamento de Guerreiros do Sol - Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, quase 20 anos depois da primeira publicação, revela a atualidade de seu conteúdo e a inteireza de seus propósitos.

O fenômeno do cangaceirismo no Nordeste brasileiro já rendeu textos e estudos de variada espécie, produzidos e contextualizados nos moldes das ciências humanas e da literatura propriamente dita. Do século 19 para cá, debruçaram-se sobre o tema poetas populares, biógrafos amadores, romancistas consagrados, historiadores, sociólogos e antropólogos de orientação diversificada. No entanto, o estudo de maior completude e abrangência até agora, é o livro de Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do Sol - Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, relançado recentemente numa publicação conjunta das editoras Girafa (SP) e Massangana (PE).

O autor parte da circunstância do isolamento da terra e da população sertaneja com relação principalmente ao litoral, para descrever e explicar todo o complexo de violência que se abateu sobre a região nordestina desde a colonização. Os ataques do colonizador aos habitantes nativos, as reações sanguinárias destes, a própria ferocidade do homem do ciclo do gado, os prejuízos causados pelas grandes secas, tudo isso sedimentado num meio inóspito e hostil, representam motivações seguras para o aparecimento do banditismo e se processam na temporalidade vagarosa ou precipitadora dos sucessos dessa violência.

O homem rural nordestino, místico e fatalista, é um homem, na visão de Frederico Pernambucano, com "arquétipo mental" caracterizado pelo "individualismo arrogante, aventureiro e épico, plantado ali nos primeiros momentos da colonização e conservado sem contraste, ao longo de séculos, pela ausência de contaminação externa que o isolamento sertanejo proporcionou".

Com seu gosto pelas classificações, Frederico Pernambucano sugere, nesse contexto, uma tipologia humana de homens destemidos e corajosos, matadores covardes e traiçoeiros às vezes, que se inicia com o "valentão", passa pelo "cabra" e o "pistoleiro", até chegar ao "cangaceiro", que não admite patrão como os outros. O pesquisador vai desvendando as diferenças e semelhanças grosseiras ou sutis entre eles, seus comportamentos psicossociais e modos de atuação.

Pernambucano vai mais longe ao redefinir os tipos de cangaço que assolavam o sertão à época e as peculiaridades inerentes a cada um deles, que apareciam isolados ou em bloco, excluindo-se ou interpenetrando: o cangaço-refúgio, para quem estava a se esconder por crimes cometidos, o cangaço de vingança, para quem deveria lavar honra familiar ou individual com sangue, e o cangaço meio de vida, para aqueles que não tinham outras opções de trabalho.

Frederico Pernambucano ensaia uma definição para o que denomina de "escudo ético", que representava uma justificativa para se continuar no cangaço, "instrumento capaz de convencer a quem o utilizava, e à sociedade, da nobreza da vida putativamente vingadora dos bandidos, mas que não passava de um bovarismo épico facilmente aceito como real por uma cultura carente de símbolos desse gênero". O autor polemiza também em cima do que escreveram outros estudiosos do cangaço como Rui Facó, Cristina Mata Machado e José Honório Rodrigues, que fizeram interpretações ideológicas e econômicas simplistas e reducionistas.

No caso de Cristina Mata, que colocava em lados opostos o cangaceiro e o coronel, Pernambucano argumenta que as relações entre ambos se davam bem mais no plano da convergência e da colaboração do que no da disputa. O auge do cangaço e sua repercussão no país, preocupando autoridades estaduais e federais se verifica em 1926, representando "a imagem de um cangaço gigante, cangaço do mosquetão, do parabelo, da bala de aço furando pé-de-pau e exigindo trincheira de pedra, do bando de cento e cinqüenta homens, do ataque a cidade de luz elétrica, das primeiras páginas quase diárias dos jornais, da orgia - até financeira - dos trovadores populares, da freqüência às conversas do Catete e do Monroe, dos três, dos cinco, dos sete Estados da Federação".

A essa altura, Lampião que tinha se iniciado no cangaço para vingar a morte do pai, terminou por transformar a atividade em "meio de vida", amenizando e esquecendo a vingança para enriquecer e conquistar fama, conviver com coronéis e ter dezenas de bandoleiros à disposição a qualquer momento para a luta.

Num artigo sobre o romance Cangaceiros de José Lins do Rego, o antropólogo e folclorista Manoel Diégues Júnior reclamava, há meio século, da falta de um estudo substancial sobre o cangaço e suas consequências para a região nordestina. Este trabalho, Guerreiros do Sol, que tem como método geral classificar os eventos mais importantes "por predominância de recorrências", na expressão de Gilberto Freyre, somente apareceria no Recife duas décadas depois, em 1985. E esta nova edição enseja revelar apenas a atualidade de seu conteúdo e a inteireza de seus propósitos num Brasil que padece de violência e banditismo extremados, notadamente nas áreas urbanas periféricas e perigosas, sem minimizar seus efeitos no campo com a prática da pistolagem e os conflitos gerados pelas invasões de terras.

*O texto nos foi enviado por um amigo que não cita o veículo. 

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Opinião

POR QUÊ LAMPIÃO MATAVA?

Por Paulo Moura 


Julgamos importante iniciar este capítulo fazendo referência a um texto extraído do livro de Sigmund Freud “A Psicanálise da guerra” (1941), onde se lê: “Não há lei que ordene ao homem que coma e beba ou que o proíba de introduzir as mãos no fogo. Os homens comem e bebem e não põem as mãos no fogo, instintivamente, por temer os castigos naturais e não os legais.

A lei não proíbe senão aquilo que os homens seriam capazes de realizar sob o impulso de alguns dos seus instintos. O que a própria natureza proíbe e castiga não tem a necessidade de ser proibido e castigado pela lei.

Assim podemos concluir, sem vacilação, que os crimes proibidos por uma lei são crimes que muitos homens praticam facilmente por uma inclinação natural. Se as más inclinações não existissem, não haveria crime e se não houvesse crime, não haveria necessidade de proibi-lo”.

O bandido José Gomes, o Cabeleira, que reinou e aterrorizou grande parte da mata norte do estado de Pernambuco e adjacências, ainda nos tempos do império, celebrizou-se mais pelas atrocidades que praticava – instigado pelo pai, o perverso Joaquim – que pelas motivações naturais que seriam responsáveis por sua vida de crimes. Cabeleira, diferentemente de Lampião, foi um aventureiro sem causa social. Matava indistintamente, apenas pelo prazer de matar.

Estimulado pelo Joaquim, homem de espírito diabólico, que ensinou o filho, desde criança, a sacrificar passarinhos, preás, coelhos, para que no futuro o rapaz pudesse “matar gente”. José Gomes aprendeu, ainda na infância que era preciso matar, para não morrer. Quando cresceu, viveu de matar. Antes para intimidar o inimigo do que para se proteger, já que tinha a cabeça a prêmio.

Lampião foi, levado pelos infortúnios da vida, coagido à prática do crime, pois na adolescência não nutria índole má. Era do bem. Todos os escritos relacionados ao indivíduo Virgulino Ferreira apontam que ele fora um menino bom e que, dentro dos moldes sertanejos foi-lhe dada uma boa educação.

Daí seguir o exemplo do pai, José Ferreira, homem honesto e de passado limpo, entregue aos afazeres da almocrevaria. Um bom pai de família. Todos os pesquisadores são unânimes em admitirem isto. Não há registro de bandidos anteriores a Lampião no seio de sua família. Os Ferreira detinham o respeito e a admiração dos vizinhos por serem pessoas honestas, trabalhadoras e educadas. Mostras de valentia só se via na prática de amansar animais e nas pegas de boi, no que eram admiravelmente bons.

Na família Alves de Barros, de Saturnino das Pedreiras, bem antes das desavenças ocorridas com a família Ferreira, já existiam cangaceiros. O próprio Cassimiro Honório, respeitável cangaceiro manso do Navio, era tio legítimo de Saturnino. Vicente Moreira, cabra de Cassimiro, era cunhado de Saturnino. Quando tem início a briga entre as famílias, o tio é chamado a intervir. Ao descer a serra, o velho afirma:
- Vou às Pedreiras, ensinar meu sobrinho a brigar! 
Virgulino - assim como tantos outros sertanejos - viu ao seu redor as injustiças praticadas pelos “homens do poder”. O jovem fora então “lapidado” pelos elementos do seu meio e, como já tinha inclinação para a coisa - pois era homem de coragem, de ação - não recuou na empreitada. A brutalidade no comportamento do homem sertanejo está impregnada em sua raça desde tempos de antanho.

Lampião sabia que se não matasse, morreria. Como morreu seu pai, sem reagir. Se fosse pego com vida sofreria as mesmas torturas que ele mesmo praticava com quem tinha a infelicidade de cair-lhe prisioneiro. Aprendeu estas artes na mesma escola dos seus inimigos, homens brutos, afeitos à luta e que nutriam total desprezo pela vida.

Lampião, como em tudo que fazia era bem feito, foi também um perfeito assassino. Dependendo da raiva que sentia no momento, trucidava o inimigo da forma mais horrenda possível. Nisso, saciava sua vingança e celebrizava sua fama, usando ainda da tática do terror para fazer tremer o mais valente perseguidor seu, à simples notícia de sua aproximação.

Virgulino Ferreira matou por encomenda, como foi o caso de Gonzaga Ferraz, prefeito de Belmonte que havia mandado dar uma surra num parente de Sinhô Pereira, então chefe do grupo de Lampião.

Matou por vingança, a exemplo da família Quirino, que foi praticamente dizimada pelo bandido. Muitos outros inimigos foram perseguidos e mortos por Lampião e, quando não, tinham as suas propriedades totalmente destruídas.

Porém quem mais sofreu nas garras do bandido Virgulino foi a polícia e os contratados, que viviam de perseguí-lo. Para estes não havia perdão, pois o cangaceiro sabia que se lhes poupasse a vida, estaria criando cobra para ser picado - era o que dizia. Embora se sabe que muitos policiais escaparam da fúria do seu punhal de três quinas e do seu rifle papo amarelo, por obra e graça do Altíssimo, a exemplo do coronel João Nunes, feroz perseguidor de cangaceiros que foi preso e na hora de sua morte Lampião desistiu de matá-lo, soltando-o em seguida, a pedido de um cangaceiro, ex-soldado de volante.

Outro exemplo, entre vários, é o do soldado que ao vê-lo numa cidade (Queimadas) com seu grupo, ajoelhou-se na sua frente e pôs-se a rezar. Quando já estava para ser sangrado pelos cangaceiros Lampião saiu-se com esta:
- Não bulam com este homem, não estão vendo que ele está doido? 
Denunciantes, traidores, soldados, contratados, estes eram os inimigos em potencial do rei do cangaço. Matava-os sem piedade, em combate ou não. Embora preferisse matar homens valentes no campo de luta, nunca à traição ou indefeso. Dizia: “homem valente é prá morrer lutando, prá tirar raça de cabra macho”.

Vicente Moreira, cabra de Cassimiro e cunhado de Saturnino, batalhou contra Lampião horas a fio, protegendo a casa do cunhado que havia se evadido do campo de luta. Vicente, junto com dois cabras seus, sustentou o fogo até enquanto pôde. Cercado, foi forçado a se render, porque já estava sem munição. Virgulino, estranhamente, o deixou em paz, exaltando sua valentia e prometendo não mais combater contra ele se o mesmo jurasse não mais pegar em armas para brigar com Lampião. A proposta foi prontamente aceita. Lampião admirava-o.

O pulso que Lampião impôs sobre o sertão foi, no molde de quem lá vive ou viveu, tão bem elaborado por sua pessoa que o fez alcançar notoriedade e respeito nos quatro cantos do país. A sua estratégia de Marketing foi o impacto, sob a forma do terror e da violência. Lampião agia como um furacão devastador, numa terra onde os meios de comunicação eram precários ou quase inexistentes, o bandido fez ressoar, na forma de propaganda boca-a-boca os seus feitos, mostrando que não estava para brincadeiras. Que era, antes de tudo, um homem revoltado com o destino que lhe fora impingido. Que a sua luta, de longa envergadura, vingança e domínio, iria alcançar o objetivo, como de fato alcançou.

Embora que, como o crime não compensa, teve o seu fim, trágico e ironicamente medíocre, pois não morreu lutando como queria.

E surgem Lampiões, vão-se Lampiões, o mundo continua com seus bandidos vários, uns de arma em punho, outros de gravata, alguns de farda, extorquindo cidadãos e fabricando novos bandidos. No mundo atual, onde Lampião é apenas uma lembrança menos terrível, a banda podre da polícia e a banda corrupta da política continua a roubar-nos o direito de ser cidadãos e de poder viver num mundo onde a justiça faça valer o seu nome.

PAULO MOURA é poeta, escritor, pesquisador e membro da: SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço) autor do livro "Lampião, a trajetória de um rei sem castelo"
 Este texto foi feito para o lançamento do livro: PERNAMBUCO NO TEMPO DO CANGAÇO (Antonio Silvino, Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira, Lampião).Subtítulo: THEOPHANES FERRAZ TORRES, UM BRAVO MILITAR (1894-1933)
Lançado em 2003 o livro, escrito pelo pesquisador Geraldo Ferraz, conta a trajetória de um dos mais destacados comandantes de Forças Volantes entre 1894 e 1933. O Alferes Theophanes Ferraz Torres que foi o responsável pela prisão do cangaceiro Antonio Silvino no ano de 1914.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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Abraçando o jornalista e escritor cearense Barros Alves 

Padres e Cangaceiros

Misto de Guerra e paz 
Por Ângelo Osmiro Barreto

padre José Kherle
A relação entre religiosidade e banditismo no Sertão nordestino é antiga. O sentimento religioso do sertanejo é especialmente voltado para o culto católico, este ainda remetendo ao catolicismo medieval, onde Deus estava ligado ao castigo, ao fim do mundo.

Predominou por muito tempo essa cultura religiosa nessas paragens, onde a religião ainda repleta de superstições, os milagres ajudavam a suportar as agruras.

A ligação entre cangaceiros e padres atingiu os dois extremos: amigos e conselheiros, mas também ferrenhos inimigos, chegando a travarem combates bélicos.

O cangaceiro Adolfo da Meia -Noite ainda no século XIX, após entendimentos prévios com o Padre Bernardo de Carvalho Andrade, sacerdote que ficou conhecido como bom samaritano dos flagelos da seca em virtude de sua atuação em favor dos flagelados da seca de 1877, uma das mais devastadoras que aconteceu no nordeste, conseguiu a realização de seu casamento. Após a realização da cerimônia o padre foi autorizado pelo cangaceiro a dizer o seu paradeiro, pois segundo o mesmo, estava pronto para morrer sem escolher ocasião.

Padre Bernardo de Carvalho Andrade. 
Fonte Fundação Joaquim Nabuco 

Henry Koster no seu excelente trabalho Viagem ao Nordeste do Brasil cita o padre Pedro, que na década de 1800 mantinha em suas terras, a vinte léguas do Recife, grande número de cangaceiros a seu serviço.

O Padre Pedro foi chamado pelo representante de Dom João VI para prestar esclarecimento sobre os mesmos. Compareceu acompanhado de alguns cangaceiros armados até os dentes. Chegando ao Recife declarou que não tinha culpa de o sertão ser violento, não havia criado aquela situação, porém precisava de proteção, e a solução que encontrara para se resguardar dos inimigos veio por meio dos cangaceiros.

Antes mesmo da fama de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que ainda submetia-se ao comando de Sinhô Pereira, ficou conhecido no sertão o ataque ao padre Lacerda do Coité. José Furtado de Lacerda era inimigo do Major José Inácio do Barro, esse, por sua vez, amigo de Sinhô Pereira, primeiro e único chefe de Lampião.

 padre José Furtado de Lacerda

Aproveitando-se da amizade com o chefe de cangaceiros, o Major José Inácio arregimenta homens que junto aos cangaceiros do Pajeú atacaram o reduto do Padre Lacerda . seu grande inimigo. O combate durou cerca de uma hora e meia, sendo inclusive ferido no mesmo, Antônio Ferreira, irmão mais velho de Lampião. Este ataque desencadeou uma perseguição ferrenha ao Major José Inácio pelas autoridades cearenses, que culminou com sua retirada para o estado de Goiás.

O cangaceiro Lampião, por exemplo, manteve contatos com padres que ficaram marcados na sua biografia. O encontro com o padre Cícero em 1926 em Juazeiro e sua relação com o padre José Kherle em Serra Talhada, ambos dignos de nota.

O primeiro encontro de Virgulino Ferreira com padres deu-se no seu batismo realizado pelo Cônego Joaquim Monteiro Tôrres, então vigário em Floresta de Navio. Seu relacionamento com o padre alemão José Kherle, deu-se em virtude dele ter sido vigário em Vila Bela, quando das estripulias praticadas por Lampião naquele território.


Durante 16 anos o padre Kherle foi vigário na terra natal de Lampião. 
O cangaceiro devotava-lhe grande admiração e respeito, sempre o obedecendo. 
Foto de 1919 quando foi pároco em Arcverde, PE.  
FONTE: Dicionário Histórico Pesqueirense.

Prova da obediência que Lampião nutria pelo padre deu-se em junho de 1923 quando do casamento de sua prima Maria Licor Ferreira com Enoque Menezes. Lampião invadiu o povoado de Nazaré, distrito de Floresta do Navio/PE, acompanhado com cerca de quinze homens, dispostos a brigar com os nazarenos, seus ferrenhos inimigos.

O padre José Kherle interveio pedindo a retirada de Lampião e seu bando do povoado para evitar brigas e até mortes, pois além da aguerrida população do povoado, estava para chegar uma força policial ao lugar. Lampião atendeu o pedido do padre amigo, porém antes exigiu levar a sanfona, pois se ele não iria dançar, ninguém também dançaria no povoado. Assim foi feito e por intermédio do padre José Kherle evitou-se uma tragédia no pequeno povoado pernambucano.

O relacionamento de Padre e Cangaceiro mais comentado, sem dúvida é o de Virgulino Ferreira com o Padre Cícero Romão Batista, em Juazeiro no Estado do Ceará.

Padre Cícero Romão Batista

O cangaceiro, atendendo o chamado do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, grande amigo do Padre Cícero, uma espécie de braço armado do líder juazeirense, adentra em Juazeiro em maio de 1926 com intuito de alistar-se no Batalhão Patriótico a fim de combater a Coluna Prestes. Por esses tempos a Coluna vinha adentrando no sertão nordestino.

Por motivos de saúde o médico baiano Floro Bartolomeu não se encontrava na cidade, sendo o cangaceiro e seu bando recebidos pelo Padre Cícero. O desenrolar dessa história culmina com a famosa patente de Capitão do Batalhão Patriótico outorgada ao famoso cangaceiro.

O grande respeito e admiração que Lampião nutria pelo Padre Cícero de Juazeiro advém também do amparo que o reverendo cearense dava a sua família refugiada no Juazeiro. Fatos facilmente comprovados pelas fotos tiradas na cidade em 1926, mesmo ano da visita dos cangaceiros.


Lampião e seus meninos em Juazeiro do Norte

Padre Cícero, também teve participação decisiva na retirada para Goiás dos cangaceiros de Sinhô Pereira (primeiro e único chefe de Lampião), neto do Barão do Pajeú e Luís Padre, primos e integrantes da família Pereira de Serra Talhada, na época em guerra com a família Carvalho.

Em setembro de 1926, Lampião adentra em Granito, estado de Pernambuco, acompanhado por mais de cem homens. A população amedrontada procura a casa paroquial em busca de refúgio.

O padre do lugar reverendo Joaquim de Alencar Peixoto, destemido e polêmico, que inclusive havia tido desavenças políticas com o Padre Cícero Romão, procura o cangaceiro, mesmo antes que esse o faça. Os dois entraram na casa do padre, conversaram por alguns minutos em particular, nunca se soube o teor do diálogo, o que se sabe é que os cangaceiros, depois dessa conversa, vão embora e inclusive pagam todas as despesas feitas nas bodegas da cidade.


 Padre Alencar Peixoto  
Fonte: Blog Portal do Juazeiro

No Ceará, em 1927, o Padre Vital Lucena tomaria parte da história do cangaço, dessa vez em Limoeiro. Após frustrado ataque a cidade de Mossoró no Rio Grande do Norte, o grupo de facínoras adentrou a região jaguaribana no território cearense. Chegando a cidade de Limoeiro, Lampião e seu grupo foram recebidos pelas autoridades do lugar, que temendo saques e mortes preferem receber os bandoleiros em paz.

Entre os membros da recepção estava o Padre Vital Lucena, que ficou encarregado de arrecadar a quantia de dez contos de reis exigida pelo cangaceiro. Sob o comando do padre, a população consegue arrecadar cerca de dois contos. O próprio padre Vital foi incumbido da árdua missão de entregar o dinheiro arrecadado incompleto ao cangaceiro, mas Lampião recebeu a quantia e de nada reclamou, ficando satisfeito com a quantia recebida.

O Padre Vital ainda pediu um favor ao cangaceiro do Pajeú: que soltasse os reféns que vinham presos desde o Rio Grande do Norte, o que foi negado pelo bandoleiro, alegando precisar de dinheiro. Mesmo assim para ser agradável ao padre, soltou o refém de nome Manoel Barreto Leite.

No dia 19 de abril de 1929, na cidade de Poço Redondo, estado de Sergipe, o padre Artur Passos estava tranquilamente rezando uma missa para sua comunidade quando de repente aparece na igreja Lampião e seus cabras, num total de dez homens muito bem armados.

O padre, segundo seu próprio depoimento, continuou a missa, apesar de constrangido pela presença do bando sinistro do rei do cangaço. Após a celebração religiosa o padre Artur manteve um diálogo com o cangaceiro, tendo inclusive Lampião deixado um bilhete de próprio punho com os nomes de todos os cangaceiros visitantes com suas respectivas idades, exceto o de nome José Alves dos Santos, vulgo Fortaleza, cuja idade não consta na referida carta.

Outro interessante episódio ocorrido envolvendo padre e cangaceiro deu-se em 1937, mas precisamente no dia 10 de outubro, quando do casamento do cangaceiro Corisco, o Diabo Louro, e Dadá. Resolvido a casar com sua companheira de longas datas, Corisco pediu ajuda de um fazendeiro amigo para trazer o padre José Bruno da Rocha, pároco da igreja de Porto da Folha, para oficiar seu casamento. O fazendeiro escreve um bilhete ao padre pedindo sua presença urgente na fazenda para professar uma extrema unção.

O padre atendeu ao pedido o mais rápido possível, ficando surpreso ao chegar ao local solicitado e se deparar com os cangaceiros. O fazendeiro explica a situação e o padre José Bruno rapidamente faz o casamento de Corisco e Dadá. O cangaceiro ainda pergunta se para casar é mesmo ligeiro daquele jeito, o padre com pressa de ir embora, apavorado com a situação, realizou a cerimônia bem mais rápido do que o habitual.

O cangaceiro Corisco teria ainda uma ligação muito forte com o Padre Bulhões, de Santana do Ipanema, em Alagoas, homem muito respeitado em toda a região. Ao referido padre seria entregue seu filho Silvio , criado pelo reverendo e hoje economista, morando em Maceió.

Fato deveras pitoresco foi contado pelo ex-cangaceiro Ângelo Roque da Costa, vulgo Labareda, ao Dr. Estácio de Lima e que foi transcrito no seu livro O Mundo Estranho dos Cangaceiros, eis o relato.

Em uma fazenda no município de Santo Antônio da Gloria, estado da Bahia, chegaram os cangaceiros onde estava havendo uma festa com a presença do Padre Emídio, vigário do lugar. Relata o cangaceiro que chegaram em paz, almoçaram com o padre, além dele, o chefe Lampião e ainda Ezequiel, irmão do chefe, e Virginio, cunhado.

Após o farto almoço resolveu se confessar com o Padre Emídio e assim o fez. Conta o cangaceiro que após a confissão o padre aconselhou:
"Num mate mais os macaco, meu fio. Nos mandamentos tá proibido. Quando pegá um, você cape ele, i sorte capado".
A correlação existente entre Padres e Cangaceiros no sertão, apesar das exceções, reforça mais uma vez o poder que a igreja representava (e ainda representa, hoje em menor escala) para os nordestinos de um modo geral.

O respeito de Lampião, aqui representado como o cangaceiro em geral, para com a autoridade dos padres, traduz de certa maneira o respeito às Leis de Deus e santos representados aqui na terra pelos sacerdotes. Dos poderes oficialmente constituídos, a Igreja parece ser o que mais os cangaceiros respeitavam.

*Historiador e Pesquisador do cangaço/ Membro da Sociedade Cearense de Geografia e História- Cadeira nº 09 - e atual presidente da SBEC Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

Remédio pra todos os males

A Farmacopéia Cangaceira
por Aglae Lima de Oliveira

Lampião representava, no cangaço, o médico clínico, o cirurgião, o ginecologista, o parteiro, o cirurgião-dentista, o farmacêutico e adivinho do bando. Suas mezinhas enriqueceram a farmacopéia cangaceira e eram usadas por fazendeiros e moradores de casebres nas caatingas. Êle e os bandidos sabiam de curiosos remédios.

Eliminavam casos de piolhos com um processo interessante. Torravam sementes de pinha, formavam uma pasta, a que adicionavam óleo de piqui, untavam a cabeça e ficavam expostos ao sol por algum tempo. Os parasitas caíam todos. Para calvície, machucar môscas e untar a cabeça.

Dores de cabeça: Fôlhas de algodão aquecidas; mascar gengibre.

Doenças de olhos: Lavar os olhos com água na qual cozinhavam fôlhas de juàzeiros.

Espinhas: Estêrco de galinha, de preferência choca.

Amigdalite: Chá de formiga e cozimento de angico com sal (gargarejo)

Resfriado: Umbu verde cozido no leite. Primeiramente, cozinhava-se o umbu e deixava a leite esfriar; tomar quente.

Asma (puxado): Lambedor de cebola xexéu (cebola branca) . Uma colher de sopa de banha de ema.

Boqueira: Espuma de pau.

Verrugas: Leite de avelos e sangue de menstruação, sem que o doente saiba.

Dor de dentes: Inchados, estalecidos. Preparava-se um mingau com 7 ingredientes:
1 — água;
2 — pucumã (teia de aranha misturada com sujo de telhas) ;
3 — dente de alho;
4 — pimenta-do-reino;
5 — barrode (casa de besouro) ;
6 — sal;
7 — uma pitada de goma.
Raspavam-se também, troncos de goiabeiras, para tampões de furos de balas. Lavavam-se com fôlhas de quixaba e fumo. Usavam ainda estêrco de gado e cabelo de mocó.

Indigestão: Azeite de carrapato e vinagre com goma.

Tétano: O doente ficava incomunicável. Tomava apenas líquidos dados por uma só pessoa. Vestia uma roupa preta e ficava no quarto escuro, se possível pintado de prêto ou forrado com fazenda preta (os casos de tétano eram raros) .

Diabete: Chá de casca de biratanha. Conhecia-se o diabético porque no local onde ficava se juntava formiga ou êle sentia vontade de urinar freqüentemente e se alimentava bastante.

Para curar o vício da cachaça: Cinco gôtas de jurubeba do Pará na bebida.

Garrafada de carne verde. 5 pedaços de carne verde em infusão, sem que o viciado soubesse. Vomita e aborrece a bebida. Repetir 3 sextas-feiras com esta oração:

"Oh! Divino Redentor
Quando fulano beber
Êle há de se enjoar
A bebida há de feder.


Meu senhor, Meu Jesus Cristo,
Minha Santa Virgem Maria
Valei-me Padrinho Cícero
E a Sagrada Família.


Com a santa fôrça do credo
E o vosso santo poder
Tu hás de sentir a bebida
Nas tuas ventas feder."

Para incômodos das senhoras bandidas:

Cólicas: Água serenada.
Flôres Brancas: Chá de Ipepaconha branca com farinha serenada.

Lesões: Cavar um buraco no chão para fechá-lo devagar, usando a terra retirada. Colocar em cima um feixe de lenha. Não passar mais no local. Levar susto. Garrafa de vinagre com sal de pedra serenado.
Evitar pisar em rastro de côrno.
Avistar carne verde e mulher descascando mandioca.

Quedas: Purgante de cabacinho.

Ferimento de bala: Mata-pasto pisado com água.

Lesões pulmonares: Estira-se no chão duro.

Grandes ferimentos em tiroteios: Sumo de cipó de fôlha de carne e emplastro de pimenta malagueta pisada com casca de caroço.

Usava-se o chá de pinto. Lavava-se o ferimento com teia de aranha e pucumã com açúcar. Pegava-se um pinto, vivo de preferência, pedras, amarravam-se as pernas, colocavam-se as pernas dentro de um pilão, reduzia-se o pinto a uma pasta, na qual se misturava um cozimento de casca verde de quixaba. Coava-se num retalho de morim nôvo.

O doente bebia. Era necessário vomitar. O vômito significava resultado eficaz. Espalhava-se o sangue. Se o doente não vomitasse havia preocupação.

Quando defecava, preparava-se a mortalha. Se os intestinos foram perfurados, tratava-se de preparar a rêde para enterrar (fedeu a cocô, fede a defunto) .

Costurava-se o ventre com agulha de costurar couro. Proibia-se qualquer pessoa ao lado do doente, para não arruinar a ferida. Mulher não entrava no quarto, principalmente se estivesse menstruada.

Febre alta: Suador de semente de melancia, casca de angico em água serenada.

Fraqueza dos pulmões: Leite de jumento de manhã, de preferência da primeira cria.

Reumatismo: Garrafada de tipim, fricção de banha
de cobra cascavel, de veado e banha de ema.

Doença venérea: 

Chá de carne-sêca de ema e sumo de limão serenado. Espremiam-se 12 ou mais limões, o suficiente para cobrir um ôvo com casca e tudo. Deixavam-se no sereno, dentro de um prato de barro virgem. 0 limão comia a casca, a clara e a gema, deixando apenas um caldo espêsso a que chamavam gosma. Bebia-se em jejum, antes de o sol nascer, e não se olhava para mato verde, nem mulher. Era proibido mergulhar nos açudes, porque ficava cego. Exigia dietas. Não se podia alimentar de frutas que tivéssem espinhos, nem de caça e de animais de bico.

Feridas de coceiras: Pó de enxôfre com óleo de piqui. Cobrir a ferida com fôlha de pimenta malagueta.

Dor de barriga: Chá de pai-Pedro (erva cidreira), sapirnanga, lôdo de pote.

Sarna: Raspar côco e misturar ao enxôfre, passando 8 dias sem molhar.

Prisão de ventre: Chá de raiz da gitirana, do lado em que nasce o sol.

Rins: Chá de côco catolé.

Engasgo ou sufocação por comida: Usavam-se tições. Levantar os dois braços.

Vermes intestinais: Lavagem de manipueira

Impotência sexual: Chá de velame, 6 dias sem sair de casa. Cabeça-de-negro em jejum (chá), água de arroz. À pimenta e ao caminho em jejum chamavam. "mingau levanta homem".

Para suspensão de regras: Infusão de grão e café na aguardente, durante 9 dias. Chá de pega-pinto e do casco do mulungu. Semente de manjiroba em infusão.

Casos de bexiga: Resolvia-se com o banho às escondidas, à meia-noite em ponto, no mesmo poço em que os cavalos se banhavam. Bebiam-se gar¬rafas de cachaças misturadas com pólvora inglêsa. Aguardente alemã e chá de jarrina.

Sangue pelo nariz, provocado pelo excesso do calor solar: cheirar algodão queimado.

Dores de ouvido: Tampões de fôlhas de algodão.

Pneumonia: Beberagem de quina; quina e sangria.

Torceduras — Luxações: Emplastro de clara de ôvo batida com breu. Untar a parte dolorida com banha de ema.

Purga da jalapa: Exigir dieta rigorosa 5 dias, dentro de um quarto, sem sair. Purga de velame: 3 dias para os homens enfraquecidos.

Falta de ar: Chá de trombetas. Conseguir um cancão e dar o resto da comida do doente ao pássaro, sem que o doente saiba.

Mordeduras de cobra: Para o sertanejo, o mês perigoso para cobras é Maio. Nesse mês elas se encontram em pleno cio. Geralmente os bandidos não eram atacados por cobras. Todos acreditavam na superstição, na cura do rastro. Entretanto, usavam medidas preventivas, como perneiras e tinham atenção nas caminhadas, cuidado em pôr as mãos no "ocos" das árvores. Ensinava-se queimar a parte picada imediatamente com um tição de fogo ou cortava-se com uma faca afiada. O paciente ficava bom, porém apresentava-se nervoso na fôrça da lua.

Empingem brava: Chá de raiz de inhame. Engasgo: Virar dois tições e levantar os braços.

Para combater o mau hálito: Mastigar olhos da goiabeira branca.

Erisipela: Amarrar a perna com fita vermelha e

Hemorragia: Suco de arnica .

Males do coração e tonturas: Chá de quiabo .

Doenças intestinais, fígado e baço: Maxixe cortado em rodelas, em água, num prato de barro virgem. Qualquer remédio que ficasse exposto ao sereno, pôsto no telhado da casa, exercia o poder da cura. Extraíam-se as balas a cru na ponta do punhal, à luz dos candeeiros. Para a sêde excessiva quando se sentia perder a visão, os lábios grossos, a bôca espumante, conseguida a água, deveria ser sorvida aos goles, misturada com rapadura . Se fôsse bebida com sofreguidão, não pararia no estômago. Por mais sêde que sentisse, o bandido vomitaria.

As bandidas tinham partos normais, sem nenhuma higiene. 0 umbigo do menino era cortado com as unhas e não contraíam tétano. Amamentavam bem. Essas mezinhas eram empregadas de fato. Lampião foi ferido em dezembro de 1927, na Serra das Panelas, pelas fôrças do tenente Teófanes Tôrres, ficando com o pé esquerdo apenas seguro pelos tendões .
Os bichos devoravam o pé do bandido e espalhavam-se por todo o corpo. Com as unhas êle os retirava dos olhos, dos ouvidos, do nariz e da bôca.

O sangue esguichou do profundo ferimento que absorveu duas cobertas. Conseguiu ocultar-se e ficou à espera de que passasse alguém. Os cabras estavam dispersos e se retiraram. Lampião resistiu ao sofrimento. Êle e seus companheiros, quando feridos, tomavam, como primeira medida a de evitar beber água. Quando foi socorrido, restabeleceu-se apenas com mezinhas. Passou 40 dias em tratamento.

Nem sempre os bandidos conseguiam, nas marchas incertas, a matéria-prima para a fabricação dêsses remédios, sabiam, porém, receitá-los e usá-los, quando abrigados.
Além das mezinhas, conduziam amuletos e rezas na parte doente de espinhela caída ou de desmentido do pé, como chamavam.

Naquela época, era comum nos grandes centros e no interior a sífilis e a tuberculose. Matavam como o câncer atualmente. O ar da natureza, serras e serrotes, impedia o registro de casos de tuberculose. Sómente alguns bandidos ficaram tuberculosos.

Praticavam extrações dentárias com pontas de punhais e alicates. Em seguida, bochechos de mandacaru. Raspa de juá evitava o aumento da cárie. Lampião, Zé Baiano, Labareda e Virgínio eram os cirurgiões do cangaço. Não ocorriam casos de doença de raiz (câncer) e, se se encontrava em algum lugar, medicavam com "água forte", calangros e sapos recém-mortos na parte afetada. A doença de raiz passaria a correr na carne em que se colocasse.

Usavam ainda:

Para reumatismo e puxado : Chá de osso de jumento.

Para tosse, ferimentos e panarício: Erva babosa e sumo de assa-peixe.

Erisipela e asma: Chá de perna de ema. Rouquidão: Chá de perna de siriema.

Epilepsia, ar de fora e vento maligno: Chá de perna de garça.

Ouvido estourado: Banha de traíra.

Juntas entrevadas: Banha de capivara.

Asma: Banha de ema.

Para hidrocele e hérnia: Banha de baiacu.

Reumatismo: Comer carne de cascável.

Tosse brava: Banhos de sândalo e alcaçuz.

Lombrigas: Erva de cruz.

Catarros e pedradas: Batata de purga.

Cabeça-de-negro: Para afinar o sangue.

Caspa: Casca de Juá

Constipação : Alecrim caseiro.

Sinusite: Alecrim salobro.

Dor de barriga e cãibras de sangue: Alecrim canelinha.

Diabete: Jucá.

Fígado e Rins: Castanha mineira.

Para quedas e frios: Quixaba.

Hemorróidas: Sentar no couro do animal conhecido por "papa-mel da preguiça".

Feridas crônicas na perna, conhecidas por perna santa: Couro de jacaré de papo amarelo : fazer o rapé e o chá.

Ventosidade: Chá de veado (couro) .

Asma: Couro de jacaré papo amarelo.

Fonte "Lampião: Cangaço e Nordeste"  de Aglae Lima de Oliveira,  pág. 131/139: Grafia original da obra. 

Transcrito por
Ivanildo Silveira