sábado, 4 de agosto de 2012

Andanças do "Cangaceiro romântico"

Jesuíno Brilhante na Serra do Martins
Por Epitácio Andrade                                     

A cidade de Martins está localizada no alto da serra do mesmo nome, com 745 metros de altitude, no sertão do médio-oeste do Rio Grande do Norte, distante 377 km da capital. Constitui-se num dos principais sítios de Memória do cangaço de Jesuíno Brilhante (1844-79) e compõe o circuito turístico, denominado "serras potiguares".

Serra do Patu vista de Martins
                             
Do alto da Serra do Martins se pode avistar a Serra do Patu, terra natal do cangaceiro Jesuíno Brilhante, que no ano de 1876, invadiu a cidade, num episódio que ficou conhecido como "O Fogo de Imperatriz", que também imortalizou a música "Corujinha".

"Corujinha"


Corujinha, que anda na rua,
Não anda de dia,
Só anda de noite
Às Ave Maria.

Isso é bom, corujinha
Isso é bom...


Banana madura
Comida no cacho,
Isso é bom, corujinha,
Banana madura
Comida no cacho.

Isso é bom, corujinha
Isso é bom...

Corujinha, que vida é tua
Bebendo cachaça
Caindo na rua
Isso é bom, corujinha
Isso é bom...
 

Cancioneta de domínio popular, cantarolada pelo bando de Jesuíno Brilhante.
                        
Com o intuito de raptar e assassinar seu arquiinimigo, Amaro Limão, que estava preso na cadeia pública de "Imperatriz" (hoje Martins) e resgatar uma moça "depositada" na casa do cidadão Porfírio Leite, Jesuíno e seu bando invadiram a cidade e foram cercados pela polícia, conseguindo escapar após arrombar as paredes de uma casa a outra e cantarolar a música "Corujinha" para despistar a volante. Este episódio ficou registrado na literatura do cangaço e num processo judicial da comarca como "O Fogo de Imperatriz".

Museu de Martins (1871)
                                           
Instalado numa construção arquitetônica datada de 1871, o museu da cidade de Martins é testemunha de parte da história que se remonta ao período do cangaço de Jesuíno Brilhante.

Banner do centenário de Raimundo Nonato
                                      
O principal biógrafo do cangaceiro Jesuíno Brilhante é natural da cidade de Martins. O escritor Raimundo Nonato, autor de "Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro Romântico", editado pela Pongetti, do Rio de Janeiro/RJ, em 1970, nascido em 1907 e falecido em 1993, teve seu centenário comemorado, festivamente, na cidade no ano de 2007.

 A biblioteca do Hotel Serrano alberga considerável acervo, onde se pode encontrar obras da coleção "Mossoroense" e a maior parte das obras do professor Raimundo Nonato. "Uma Nota sobre o Quebra-quilos da Parahyba do Norte", do tribuno Almino Álvares Afonso, está entre as publicações encontradas neste espaço cultural.

 Raro livro de Almino Afonso
   
"Uma Nota sobre o Quebra-quilos da Paraíba do Norte", do jurista Almino Afonso, foi publicada originalmente em 1875 e reeditada em 2002. Almino Álvares Afonso foi um dos intelectuais que atuaram na linha de frente ao enfrentamento do cangaço de Jesuíno Brilhante, e nesta obra se reporta a aliança do coronel João Dantas com o cangaceiro Jesuíno Brilhante para resgatar seu irmão Lucas num episódio que ficou conhecido como "saque a cadeia pública de Pombal/PB", em 1874.

Igreja Matriz e Praça Almino Afonso

A bela praça ao lado da igreja matriz da "Campos do Jordão do Rio Grande do Norte" homenageia o tribuno abolicionista Almino Afonso, que segundo o escritor Cleilson Carlos, baseado em entrevistas com descendentes, sua migração do sertão pode estar relacionada a desdobramentos do fenômeno social do cangaço de Jesuíno Brilhante.

 Escritores Cleilson Carlos Epitácio Andrade
                          
Em "A Saga dos Limões - Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante", informa-se que o coronel João Dantas de Oliveira tornou desafeto de Jesuíno Brilhante depois da recusa da empreita para o assassinato do jornalista Juvêncio Vulpis alba, denunciante em artigo publicado no Jornal de Pernambuco, da trama que culminou com o saque a cadeia pública de Pombal.

Serra dos 3 cabeços vista de Martins
                        
Do alto da Serra do Martins se avista a Serra dos Três Cabeços, localizada no município de Almino Afonso, que também homenageia o político abolicionista e articulista de enfrentamentos ao cangaço de Jesuíno Brilhante. Na sua "Nota sobre o Quebra-quilos", Almino Afonso apresenta o coronel João Dantas como um dos protagonistas da revolta no sertão. Esclarecida a sua participação no saque a cadeia de Pombal, o coronel João Dantas migrou para Patu, onde se aliou ao clã dos "Limões" para o conflito com os "Brilhantes" e para espalhar a Insurreição dos Quebra-quilos pelo oeste potiguar a partir de Patu, chegando a Barriguda (Hoje Alexandria), Vitória (Atual Marcelino Vieira, onde também se deu o início da resistência a Lampião nas terras potiguares, em 1927), Luiz Gomes (lugar onde permaneceu a maior parte dos remanescentes da família Limão) e Apodi (Mais antiga localidade do sertão potiguar, a "Aldeia de São João do Apodi dos Tapuias Paiacus").

No dia 20 de julho de 1736, Aleixo Teixeira, capitão-mor da Aldeia de São João do Apodi dos Tapuias Paiacus, recebeu a carta de data da sesmaria de terras no alto da serra conhecida como Serra do Campo Grande, posteriormente conhecida como Serra da Conceição. Esta passagem que antecedeu o cangaço de Jesuíno Brilhante em mais de 150 anos, ficou seguida da chamada "Guerra dos Bárbaros", que dizimou a nação indígena tapuia, deixando entre seus remanescentes a família Limão, que veio a ser a principal algoz do cangaceiro potiguar.

Artista Raimundo Damasceno em sua residência
                                                                 
Reportando-se a relatos da história oral da Serra do Martins, o artista plástico e defensor do patrimônio cultural martinense Raimundo Damasceno, mais conhecido como Raimundo de Ozório, conta a história de cinco irmãos que ficaram escondidos na serra, fugindo do recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, e reapareceram, provavelmente, no ano de 1873, três anos após o término da guerra, para erguerem o marco religioso denominado de "Nicho", que veio a ser a primeira igreja de Martins, sendo a padroeira Nossa Senhora do Livramento.

"Nicho", igrejinha de N. S. Livramento 
(1873)

Em Imperatriz (Hoje Martins), o Professor Francisco Alves de Oliveira Maia compôs uma relação de ricos senhores da província que fizeram doações para o recrutamento, concedendo 4% de seu ordenado e gratificação, e também passou a organizar a campanha de arrecadação de donativos para as tropas recrutadas.

Ilustração de Jesuíno Brilhante em HQ, de A. Sales e E. Amaral
                                                           
Entre os recrutadores da região de Imperatriz, estava um primo de Jesuíno Brilhante, o Alferes Francisco Alves Brasil, "Capitão Rola", que recebeu a incumbência de recrutar os negros Limões, assim chamados como forma de se legitimar a captura naqueles tempos escravagistas. O caboclo Chico Limão resistiu ao recrutamento forçado e alvejou com uma descarga de bacamarte o alferes, que veio a falecer e fez Jesuíno jurar vingança, dando início ao conflito cangaceiro entre os Brilhantes e os Limões.
 
Fazenda Bela Flor. 
Pescada In: Blog do Pôla Pinto
                                       
Em 1884, quatro anos após a morte de Jesuíno Brilhante, a família Alves Brasil vendeu a Fazenda Bela Flor, na zona rural do município de Olho D'água do Borges, ao também capitão da Guarda Nacional Justino Leite da Costa, migrando para o norte do país para se inserir no ciclo da borracha.

Museu Júnior Marcelino
                                                   
Uma prova material do legado do cangaço de Jesuíno Brilhante na Serra do Martins pode ser encontrada na coleção de punhais do Museu do auto-didata Júnior Marcelino.

Pesquei no Blog do autor

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