terça-feira, 14 de agosto de 2012

A saga de Vilmar Gaia

Do sertão de Serra Talhada, onde não se brinca de valente, narrativas de morte e vingança

Caco e seu filho Ian, 1976. Fonte: Revista Trip
Este é mais um conflito que marcou a terra do Rei do Cangaço. Conheçam a breve peleja de Vilmar Gaia, que para vingar a morte do pai, de policial passou a ser um pistoleiro foragido e considerado na época "o 2º Lampião" com direito a David Jurubeba no rastro... Apresentado aqui numa super reportagem do jovem Caco Barcellos quando escrevia para a revista Versus. Publicada originalmente em 7 de Dezembro de 1976.
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Os inimigos ali na frente, vendo a sua agonia. Nenhuma facada a mais. Nenhuma agressão. Nunca um Gaia agonizou aos olhos do inimigo. Batista Gaia, o mais corajoso dos Gaias, do alto sertão de Pernambuco, está morrendo num quarto de bordel de Serra Talhada.

Os inimigos continuam ao pé da cama. O velho mal consegue erguer os pés. O corpo esticado sobre a cama já não lhe obedece à vontade. Batista põe a folha do poema para tapar o buraco do pescoço ferido pelo punhal e jamais deixa de encarar os homens que estão de pé com a faca. Se ao menos a menina de 20 anos que está com ele acordasse...

Consegue arrastar o braço pelo lençol ensangüentado. Apóia a mão esquerda na cabeça da mulher. Sacode. Mas ela dorme. A única arma de Batista é a que resta em sua mão: a poesia – que escrevia para ela naquela hora – folha molhada de sangue que joga na cara de um inimigo.

A perseguição
- Por que não matam de uma vez esse velho!?
O grito é de uma mulher, veio da boca de mais um inimigo que está no quarto e o velho ainda não sabia. Matem logo! O pedido é da menina loira que fingia dormir. Uma traição a Batista em troca de 500 cruzeiros e de proteção que os três inimigos prometem. A traição parece tê-la enlouquecido. A mulher vê Batista esfaqueado, vivo, olhando e continua gritando matem, matem!

Ela está desesperada quando os três homens terminam de matar Batista com coronhaços de rifles na cabeça, facadas e tiros no sexo. Quase meia-noite, a mulher chora sobre a cama ensangüentada, os 500 cruzeiros estão espalhados no chão e o corpo do velho é arrastado do cabaré até a sarjeta de uma rua escura que sobe no Alto do Urubu, em Serra Talhada.

Serra Talhada fica numa planície, são cinco ou seis ruas paralelas que rodeiam uma praça, as casas são baixas e antigas. Todo caminho termina numa subida. A cidade é cercada por montanhas que têm profundas rachaduras cobertas de vegetação rasteira. Daí o nome Serra Talhada. E em um desses morros que cercam a cidade, no Alto do Urubu, que Vilmar Gaia, um rapaz parecido com Batista, moreno, alto, olhos amendoados, pele de índio, encontra o cadáver do pai. A cabeça esmagada, a camisa em pedaços, sem calças, o sapato trocado de pé e no lado do corpo, o rifle 44 em cima de uma folha escrita pelos inimigos, com data.

Vilmar Gaia 
Print do Globo Repórter de 31/01/1982.

Dia 6 de junho de 1971: “Última poesia do velho mulherengo”.
Minha morte é uma justiça. No sertão não se brinca de valente. Os Gaias mataram os soldados. Eu morro com os inimigos na frente.

Sertão de Pernambuco, seca de 1970.
A história da morte de Batista começa em 30 de dezembro de 70, durante a grande seca, numa frente de trabalho da SUDENE. Os trabalhadores reclamam pela falta de dinheiro ao engenheiro encarregado do pagamento. Batista está entre os homens que reclamam. Também estava na multidão quando dois soldados da Polícia Militar de Pernambuco, Adalberto Clementino de Moura e Alberto Alves de Moura, começam a agredi-los a pontapés e cacetadas. Os trabalhadores, humilhados, voltam à fila. Mas não todos. Aqueles cinco irmãos com cara de índio se revoltaram. Armados de foices e lambedeiras, cinco irmãos Gaia, Cícero, Eduardo, Tozinho, Antônio e Enoque, matam a dupla de soldados. E o velho Batista Gaia escreve uma poesia em homenagem à vitória da família. Ainda durante a seca, começa a perseguição ao velho, que é assassinado seis meses depois, naquele cabaré, no Alto do Urubu.

Alto do Urubu, voltamos a junho de 71.
Morre Batista Gaia e, no enterro, seu filho Vilmar agarrado ao rifle 44, jura vingança. Ele desconfia dos parentes, dos amigos, até do padre que benze o caixão de Batista. Todas as pessoas que vê para ele são o inimigo. A namorada, o juiz da cidade, as crianças. Vilmar interroga todos que estão no cemitério de Serra Talhada. Faz tantas perguntas que a loira amante de Batista lhe confessa quem são os criminosos:

Três soldados (da 17ª Companhia Militar de Pernambuco) mataram Batista!

Ainda na noite do dia do enterro, Vilmar, 22 anos, de bermudas, chinelo e sem camisa, vai à caatinga e torna-se pistoleiro. Coloca na mata um lampião a 50 metros de distância, apóia o rifle na clavícula, mira, aperta o gatilho e os tiros apagam o fogo mais de 20 vezes nessa madrugada. Amanhecia quando Vilmar é visto atravessando a Praça Nossa Senhora da Penha. Às 8 horas continuava investigando. Vestia apenas a bermuda, com dois revólveres na cintura, quando entra no prédio da delegacia para falar com o delegado Sebastião Nogueira. Seu plano começava a dar certo porque o delegado aceita o seu pedido.

Agora Vilmar, além de pistoleiro, é policial da 17ª Companhia.

Nos primeiros cinco dias na polícia, Vilmar continua nas investigações e ganha dezenas de cartucheiras dos soldados. Conversa sobre o crime pelos corredores e à noite tiroteia em garrafas de cerveja, latas de sardinhas, em alvos cada vez menores. Em uma semana descobre o inquérito sobre a morte do pai nos arquivos da delegacia, e sabe, assim, os nomes dos soldados criminosos.

No dia seguinte à descoberta, o delegado Sebastião Nogueira reprova Vilmar no teste de capacidade intelectual. Ele é expulso da 17ª Companhia e duas semanas depois mata com 16 tiros um dos três inimigos, Arnaldo Cipriano, num bar de Salgueiro, a 300 quilômetros de Serra Talhada.

Fazenda Lavra de Mangueira, outubro de 73.
O suplente de comissário, Pedro Inácio, dá uma festa na fazenda. Como fazia o velho Batista, Vilmar entra na festa acompanhado de uma prostituta. Pedro Inácio manda ele embora. Os dois discutem, brigam e depois tiroteiam. Vilmar é ferido no ombro e cai. Do chão ele atira e mata o comissário. O baile continua.

A polícia é avisada do crime e Vilmar dança no salão. Calça e camisa pretas, duas cartucheiras na cintura, ele dança uma rancheira. A prostituta veste uma saia curta a um palmo do joelho e aperta o corpo de Vilmar. Ela rebola, desabotoa a camisa do pistoleiro e beija-lhe o peito na hora em que alguém dá um tiro.

Apagam-se as luzes, é a polícia chegando.

Vilmar está na escuridão dentro da casa cercada pela patrulha. Da janela ele vê que outro matador de seu pai, o soldado Natalício, está na chefia da patrulha. As mulheres gritam e correm do salão, puxadas pelos homens. O último a sair na porta do salão é Vilmar Gaia, com rifle na mira de Natalício, que morre com um único tiro no peito. Nenhum outro soldado reage. E Vilmar foge a cavalo com a prostituta.

No Velório de Natalício: à meia-noite Vilmar vai ao velório do inimigo. A mesma roupa preta, um chapéu de abas largas, óculos de lente escura, ele distribui cópias da última poesia do velho mulherengo e vai embora.

Três dias depois da morte de Natalício: É morto o cunhado de Vilmar Gaia, Luiz Zuza. O corpo é enterrado na caatinga.

Tribunal de Justiça, outubro de 74:
O juiz Ítalo José Nandi decreta prisão preventiva de Vilmar. E também é acusado de matar o primo Antônio Augusto que teria se vendido para a família de José Cipriano. A família que pagou para matar seu pai. Morre o soldado Luiz Gonzaga que Vilmar perseguia para completar sua vingança. O povo atribui a Vilmar mais de 30 mortes. E o juiz sofre um atentado, um dos tiros quebra a antena do seu carro.

Novembro.
Circulam folhetos de cordel em homenagem ao pistoleiro que fez sua própria justiça no Alto do Sertão de Pernambuco:

“Filho de Serra Talhada/ No sertão de terra quente/ onde nasceu Lampião/ Natureza de serpente/ Agora tem Vilmar Gaia, feio, disposto e valente/ Dizem que ele se encanta/ Num pé de mandacaru/ Vive também envultado/ Numa onça canguçu/ Extasiando maior assombro no Vale do Pajeú/ Só tem 26 anos/Esta é a sua idade/Mas dizem que ele briga/De 110 qualidade/ Briga dentro da caatinga e luta em qualquer cidade/Já fez 32 mortes/Abraçou a miséria e deu coice na sorte/ É o maior cangaceiro que temos aqui no Norte”.

Fevereiro de 75. Chegada de David Jurubeba e seus pistoleiros em Serra Talhada. Jurubeba veio para acabar com os Gaias. Ele é um rastejador profissional desde a década de 20, quando perseguia Virgulino Lampião. Sua inimizade aos Gaias vem dessa época, pois o velho Batista protegia o cangaceiro das volantes. Com a morte dos soldados Natalício e Luiz Gonzaga, seus parentes, aumenta o ódio de Jurubeba:

David Jurubeba. Acervo Ivanildo Silveira
– Vim para matar. Venho das terras de Nazaré e só voltarei quando for eliminada a raça dos Gaias. Eu sou do clã dos Ferraz Jurubeba. Minha vida é no mundo perseguindo bandido. Se esse tal de Vilmar é valente como falam eu o perseguirei até a morte. Quero cortar a cabeça desse cabra como fizemos com Lampião. Batista era coiteiro e família que protege o cangaço não merece o perdão. Estou pronto para a luta.


Primeiros dias de março.
Jurubeba e dois pistoleiros carregam munição para uma camioneta, defronte ao prédio da delegacia. No mesmo dia um cunhado de Vilmar, Arnaldo Gaia, é fuzilado no balcão da caixa da sua mercearia, no centro de Serra Talhada. No dia seguinte é a vez de Batistinha Gaia, irmão de Arnaldo. Os pistoleiros fuzilam à queima-roupa. No dia 5, as cinco famílias dos irmãos do velho Batista estão em pânico com a entrada de Jurubeba e sua volante em suas terras.

Os fuzis apontam para os cinco irmãos.

Os dois canos grossos da arma estão bem junto aos olhos de Laudelino. O fuzilamento será à queima-roupa. Ao lado de Laudelino está Tozinho, pele de índio, cabelo preto, liso, com a baioneta do fuzil quase lhe raspando o nariz. Depois de Tozinho vem Eduardo, depois Cícero e por último Enoque. Todos os irmãos Gaia morrerão se não responder à pergunta:
– Onde está Vilmar Gaia?
– Respondam bandidos!
No milharal da fazenda, as mulheres vêem aquela cena e pedem de joelhos proteção a São Tomás de Aquino, a Frei Damião e a Padre Cícero. As crianças cantavam orações. De longe dali se ouvia a cantoria que só não era mais forte que o som dos gritos do fuzilamento.

Fogo nos bandidos!

Como nenhum dos irmãos fala sobre Vilmar, os policiais apertam o gatilho. Os tiros fizeram mulheres e crianças correrem e os animais da fazenda corriam juntos para todos os lados. Mas os Gaias continuam de pé. O fuzilamento fora uma ameaça. Os tiros passaram rentes à cabeça de Enoque e ele permaneceu como estava, o olhar fixo nos olhos do carrasco.

Indiferente, mudo, parece tranqüilo. Enoque está tão calmo que Jurubeba, o carrasco, assustado, muda de tática. Amarra os pulsos de Enoque e a mesma corda é amarrada nas encilhas do cavalo. Assim ele começa a ser arrastado pelas terras do distrito de São João, a norte de Serra Talhada.

O cavalo de Jurubeba é um animal selvagem que corre a trotes largos em direção às montanhas. A estrada é de pedregulhos e o corpo de Enoque se mantém um pouco atrás das patas do cavalo, os braços esticados, a cabeça erguida, o peito arrastando, já sem botas e sangrando. Nas poucas vezes que abre os olhos, o que vê é poeira e patas. O cavalo abre caminho. Enoque ainda ouve o relincho quando cruza os milharais.

Enoque ainda vive.
– O cavalo de Jurubeba é arisco, selvagem. Mas não consigo imaginar a que velocidade anda. Sei que andava rápido quando começou a malvadeza. Naquela hora você não sente dores. Eu estava sendo arrastado de bruços e sentia as pedras que batiam no meu corpo, sentia as pedras entrando na minha carne. Os galhos secos eram espinhos grandes e a terra queria devorar a minha barriga. Meu corpo estava mole, saltava como borracha.
Mas um homem nesta hora ainda sente muita força.
– Nunca me passou a idéia de trair o meu sobrinho. Eu sabia que estava sofrendo a malvadeza por causa dele. Mas eu sou dos homens que não sabem trair o irmão de sangue. Dizer onde está Vilmar Gaia é desprezar a nossa grande vingança. Seria uma atitude de homem que não preza amor da família. Que as patas me furem os olhos mas eu não falo. Podem me chutar a boca, que me quebrem os dentes porque eu não digo. Vou proteger a pele do menino Vilmar até a morte se for preciso. É certo que Vilmar é pistoleiro e bandido. Mas também é certo que um homem só é afoito e valente se antes ele foi revoltado e corajoso. O caso de Vilmar é de revolta pela morte do pai. Ele fez sua própria justiça aqui no sertão. A justiça que os homens tiveram medo de fazer. Jamais vou trair um menino assim. Eu esperava pela morte porque a morte me salvaria daquele momento. Eu queria que a morte viesse depressa para não dizer o esconderijo de Vilmar, queria a morte como salvadora, como uma aliada contra o inimigo.
O sol é forte no sertão quando Jurubeba desata a corda do pulso de Enoque desfalecido. A roupa está úmida do sangue que escorre do rosto, a sobrancelha puída pela terra, a cabeça de Enoque é uma grande ferida. O couro cabeludo foi pelado, os fios de cabelo ficaram pelo caminho da tortura. E aquelas perguntas continuam...

Os habituais interrogatórios aos Gaias tornam-se trágicos. Maria Aparecida, uma tia de Vilmar, morre de colapso cardíaco quando vê o corpo de Enoque torturado. Ninguém denuncia, mas David Jurubeba continua a perseguição. Oferece um Volks para o Gaia que delatar Vilmar.

Serra Talhada, 22 de março.
O governo do Estado de Pernambuco contrata o campeão brasileiro de tiro-livre, capitão João Ferreira dos Anjos, para perseguir Vilmar Gaia. E a Secretaria de Segurança pernambucana substitui todos os policiais de Serra Talhada, inclusive o delegado Sebastião Nogueira. Quarenta policiais militares selecionados, com modernas metralhadoras, granadas e bombas de gás lacrimogênio auxiliam o capitão João Ferreira nas diligências.

Capitão Ferreira
Fonte: Print do Globo Repórter de 31/01/1982.

Maio de 75.
A Rede Globo de Televisão oferece $25 mil ao capitão João Ferreira para que ele garanta uma entrevista exclusiva de Vilmar no dia em que ele for preso. A família Gaia é interrogada todos os dias.

Caatinga, junho, julho, agosto.
Tem dias que o capitão João Ferreira caminha 40 quilômetros a pé na caatinga. Os Gaias estão aflitos. Toda a família. Quando ouvem um ruído de carro, eles pensam que é volante que vem chegando. Mec Gaia, uma criança, quase um bebê, nunca mais voltou de uma fuga. A polícia acha que ele está no esconderijo de Vilmar.

A única pista da polícia é o cocô de Mec. Um cocô enroscado, fino, menor que o de um gato. É o que resta na caatinga de uma criança de dois anos, de um foragido da volante. Os cães, um rastejador profissional e 30 homens armados perseguem Mec.

Sem camisa, o calção puído na bundinha, o fugitivo chupa bico e carrega no pescoço, preso a um cordão, um presente do tio Vilmar: o cartucho 44 do tiro de vingança. Talvez ele esteja morrendo. A merdinha do Mec diminui a cada dia. Mas a família Gaia crê na sobrevivência do menino, crê na proteção da caatinga aos perseguidos, crê no sol como um alimento a Mec. Eles crêem que um dia Mec voltará transformado em mais um Gaia vingador.

De 17 a 20 de agosto de 76.
O capitão João Ferreira não dorme há três dias e avança o sertão do Ceará em direção à fronteira da Paraíba. Às 4 horas da madrugada do dia 22 chega ao vilarejo de Ipaumirim e dá ordens para 30 soldados fazerem o cerco na casa da Fazenda Quitéria.

Duas portas e oito janelas na mira de três metralhadoras, dez mosquetões, bombas de gás lacrimogênio, uma pistola e um rifle. Na casa tudo quieto – apenas Vilmar Gaia, que dormia nu em uma rede, se movimenta para pegar o revólver Taurus 38. A polícia nunca esteve tão perto depois que ele fugiu de Serra Talhada.

Os soldados estão prontos para matar, o capitão João Ferreira está deitado no chão com a arma carregada de balas alemãs. A porta se abre, peito nu, cabeça baixa para a braguilha que tenta abotoar. Depois Vilmar levanta a cabeça, ergue os braços e caminha em direção ao capitão João Ferreira dos Anjos.

Vilmar Gaia chega preso ao xadrez de Serra Talhada.

Os homens esqueceram a justiça. A justiça de Deus é com ele. Minha justiça eu já fiz. Agora o capitão João Ferreira que faça a dele.


Capitão Ferreira, em destaque, e sua tropa.
Fonte: Print do Globo Repórter de 31/01/1982.

Dia 20 de agosto. David Jurubeba, maior inimigo dos Gaias, abandona Serra Talhada. Carrega uma maleta de mão, cartucheira, um rifle nas costas, volta às terras de Nazaré e fala decepcionado:
“Eu não sei viver sem um grande duelo. Desde Lampião espero por um bandido perigoso que me desafie. Vilmar era a minha grande esperança, eu queria matar esse menino, queria matar todos os Gaias em um grande incêndio. A prisão de Vilmar não teve graça. Por isso continuarei na perseguição aos pistoleiros. Ainda espero pelo grande duelo, tenho paciência. Enquanto esse dia não chegar perseguirei até mulher barriguda do sertão. Alguma coisa me diz que a cada segundo pode nascer um homem perigoso, um novo Lampião. A polícia de Pernambuco que se cuide”.
No dia da prisão de Vilmar Gaia, as rádios de Serra Talhada transmitem a notícia de dez em dez minutos. E tocam a música Cabra macho do Rocha, inspirada no pistoleiro. O comércio fecha, estão suspensos os expedientes dos bancos e repartições públicas. Uma multidão empurra os soldados na porta de entrada da delegacia para ver Vilmar.

Às 9 horas do dia, o capitão João Ferreira comunica a prisão de Vilmar ao secretário de segurança, Rui Aires Lobo, que dá ordens para uma escolta levá-lo ao Dops de Recife. Nessa hora as crianças brincam de Vilmar Gaia pelas ruas de Serra Talhada.

Um menino que nem forças tem para manter a arma erguida também brinca na janela do colégio. A arma está engatilhada. Ele faz a pontaria enquanto a professora escreve no quadro negro. Quando a professora vira de frente o menino recua e se agacha. Espera alguns minutos e quando aperta o gatilho o tiro é certeiro e acerta de verdade no alvo: a nuca de um coleguinha. Ninguém soube dizer os motivos do crime. O menino fugiu. O povo conta que o menino era Mec Gaia porque a arma do crime foi descoberta.

Era um rifle calibre 44.

Pesquei no site da Versus

Adendo Lampião Aceso
As fotos foram inseridas por nós para ilustrar a matéria. Pesquisando um tiquim a mais sobre o fato descobrimos que Vilmar foi transferido para Caruaru, PE e liberado em março de 1977. Encontramos no Blog do Alvinho Patriota um comentário do leitor e possível parente, Paulo Gaia, afirmando que Vilmar Gaia, vitima de depressão, tirou a própria vida em 3 de novembro de 2011 em algum lugar no estado de São Paulo onde provavelmente residiu os últimos anos. 

8 comentários:

ADERBAL NOGUEIRA disse...

grande matéria. Relíquia, valeu.

NETO disse...

Caro Kigo, uma postagem muito interessante. Gostaria de saber mais sobre essa história da família Gaia de Serra Talhada/PE, se possível enviasse algumas fonte de pesquisas, fico muito agradecido.
Segue meu email: netosilva_01@yahoo.com.br

Atenciosamente,
Neto - Natal

Aryadne disse...

Fico agradecida em ver a historia de meus tios e avô contadas aqui, apesar de tudo.

Aryadne Gaia.

Anônimo disse...

poxaaa eu adoro história, principalmente essas, é bom para estudo, sou fanático, e adorei esta, não piscava um olho lendo, rsrsrs, adorei, parabéns pela matéria! queria saber mais

Luis Filipe disse...

Excelente reportagem que, em algumas passagens, relembra "A Sangue Frio" de Truman Capote.LF

Anônimo disse...

O nome do capitão não e joao e sim jose ferreira dos anjos

Anônimo disse...

VILMAR GAIA MORREU?

Janailson Kevin Pereira Lima disse...

Valmir morreu sim, ou você acha que estaria vivo até hoje? Kkk