domingo, 24 de abril de 2011

Fogo da Abóbora - 82 anos

A Morte de Mergulhão 

Por Rubens Antonio

A 07 de Janeiro de 1929 travou-se o combate de Abóbora, povoado de Juazeiro, BA, lembrado pela morte de Mergulhão, (foto) cujo nome real era Antônio Juvenal da Silva, mas que aparece citado também, na literatura sobre o Cangaço como Antônio Rosa. Da visita ao local pode colher alguns depoimentos e bater algumas fotos.

Antecipando algo do material, observo que a povoação está muito mudada, em relação ao contexto de então, mas há muitos elementos reconhecíveis e outros identificáveis através de testemunha ainda viva dos eventos.

Sabemos que o fogo se deu quando a volante chegou e os cangaceiros dançavam em uma casa, num forró.

A causa do forró, na verdade, era alheia aos cangaceiros. Era festejo local pela construção de uma nova "armação" para a feira do povoado, que, na verdade, não passava de uma arranjo descontínuo e desordenado de casas mais esparsas. O cemitério local foi o sítio de maior destaque, onde morreram os dois policiais, soldados José Rodrigues e Manoel Nascimento.

Segundo a autópsia:
"José Rodrigues, com um ferimento com orifício de entrada na região dorsal superior e orifício de saída sobre o mamillo direito; Manoel Nascimento com três tiros; um que penetrava entre a 6ª e a 7ª lombar, com destruição das anças intestinais e orifício de saida sobre a crista illiaca com fractura; outro na região anterior direita do thorax e outro na região cervical esquerda."

Na imagem acima vemos com o número "1" o sítio em que se situava o antigo cemitério. Ele foi eliminado com a reurbanização. As lápides foram retiradas, mas os restos ficaram no local. Aí, portanto, "sob a rua", é que estão os restos dos soldados.

Em "2" temos o local das casas em que dançavam os cangaceiros.

Em "3" estão algumas lajes rochosas bem baixas, mas que "apadrinharam" bem os cangaceiros durante o tiroteio.

Em "4" está a sepultura, perdida, em um quintal de casa, uma propriedade particular, do cangaceiro Mergulhão. Segundo depoimentos do dono do terreno e de um outro senhor, havia apenas algumas pedras e uma cruz de madeira, que ficou velha e caiu, sem ser substituída

Tira-gostos:
"BUM! PÁ! PÁ! Foi papoco pá peste! E isso de que a puliça abriu a cova do cangacêru é mintira! Só tiraram os mininu da puliça mesmu e trabaiaru e colocaru di vorta... O cangacêru mexeram nele não! Ficou a cova lá fechadinha!"
"Aquele Calais! Êta cabra faladô! Mas nas ora dos papôco, mais dispois, ô cabra pra corrê! Faladô prezepêru... mas covarde que nem só ele mesmu!"
"E no tiroteio que teve lá adipsois? Na curva? Foi anos depois... Eu ainda lembro da curva... O Azulão era uma peste muito bom de pontaria... Acertô bem na testa da burra... ô pontaria do cão!"
"Sabe o que eu achei ingraçado? Adispois de muitos anos, aqui, pra fazê esta rua nova, sabe quem trabaiô? o Bem-ti-vi... que foi também cangacêru... Trabaiô pra fazer a terraplenagi... Era muito sorridente... Simpático... Foi até lá.. Oiô a sepultura do Merguião... Falou nada não... Só ficou quietu oiano..."

Os detalhes do evento consegui lá mesmo em Abóboras a partir do relatório do tenente Othoniel.
Sobre as descrições dos cadáveres, a partir do exame do legista Anísio Teixeira.


Edilson dos Santos, proprietário do terreno, aponta a localização da sepultura do cangaceiro Mergulhão.

O esquema que fiz acima é uma indicação relativamente precisa...Posteriormente publicaremos outros depoimentos; Tomei dois, porque agregavam praticamente tudo o que os outros diziam...
São o do senhor "Joãozinho", que presenciou o fogo... está quase cego, mas enxergando o suficiente para, acompanhado do filho, me conduzir e indicar o sítio do cemitério... e o Manoel, que é um jovem que herdou o terreno onde foi sepultado Mergulhão...


 Rochedo em que Lampião e Ezequiel se apadrinharam para disparar contra a volante, que se encontrava no Povoado de Abóboras.  A posição da volante era aproximadamente a da caixa d'água vista ao longe, entrincheirada no antigo cemitério.
 

João Alves Guimarães apontando localização da entrada do antigo cemitério. As pedras diante dos seus pés são do antigo portal.

A terraplenagem e a pavimentação foi feita somente com a retirada das lápides. Portanto, o restos dos sepultos ainda estão aí. Próximo à quina branca que se vê à esquerda estão sepultados os restos de um dos soldados mortos no tiroteio. Seguindo-se em frente, em direção à rua, encontram-se os restos do outro soldado.


 Monumento em praça de Abóbora

Detalhe
Uma coisa é interessante nas abordagens de campo..

Olhando Abóboras... e andando... localizando os pontos em que se abrigaram os cangaceiros e a volante... percebi o seguinte... A distância entre o cemitério.. e onde Ponto Fino e Lampião estavam, disparando contra eles, é de cerca de 150 a 180 metros... Acertar alguém desta distância é braba...

Luiz Pedro estava disparando deitado em um descampado a cerca de 100 a 120 metros ... Era o que estava menos protegido.

Os outros dois cangaceiros envolvidos, Mergulhão e Corisco, partiram de cerca de 150 metros, em movimento diagonal, até chegarem ao cemitério. Ali, na quina, Mergulhão recebeu o tiro que o derrubou. O tiro seccionou seu húmero e rasgou as veias e artérias do braço, causando a hemorragia que o matou.
Os dois policiais vitimados fatalmente, conforme o depoimento do seu João, foram atingidos quando tentavam pular o muro do cemitério e usá-lo como entrincheiramento... por disparos vindos de Lampião e/ou Ezequiel, daquela distância toda... 150 a 180 metros... Imaginem só... O cemitério tinha muro de madeirado, só tendo em pedra o portal.

Praticamente todos os volantes... além dos dois mortos... mais seis praças, um sargento e o tenente, foram baleados. Entraram em fuga.

O estudo de campo mostra que Mergulhão foi morrer a cerca de 180 a 200 metros de onde foi alvejado...
Foi enterrado praticamente no local em que tombou.

Ele chegou a ser ajudado por dois cangaceiros que o carregaram, e foi assim que os habitantes o viram ser levado e adentrar a caatinga... mas, como visto na distância, não conseguiram ir muito longe...

Quem o encontrou, ainda agonizando, foi um viajante que vinha chegando a Abóboras. O cangaceiro parece ter tentado se esconder atrás de um amontoado de xique-xiques... Olhou o viajante e disse:
- Quem está falando aqui é homem...
Tirou do bolso um canivete e estendeu para o viajante... e expirou.

Abraços!
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Rubens Antonio é Professor e palestrante sobre História Geológica da Bahia, Antropologia, Geologia, Epistemologia, Metodologia do Trabalho Científico, História da Ciência.


CRÉDITOS:
Artigo pescado na comunidade "Cangaço, Discussão Técnica" de compadre Ronnyeri.

*Foto de Mergulhão foi cortesia de Ivanildo Silveira.

3 comentários:

Rubens Antonio disse...

Prezados amigos e amigas
Eu havia cuidado de informar à Prefeitura de Juazeiro do estado atual da sepultura de Mergulhão...
Fui hoje informado pelo pessoal da prefeitura de Juazeiro que está já confeccionada uma cruz apropriada para marcar o local da sepultura. Esta será colocada em evento apropriado.
Assim que o mesmo se realize, passarei a Vcs fotografias do evento.
Um abração
Rubens Antonio

Anônimo disse...

nossa eu nõ sabia desse fato em ABOBOBA!

Anônimo disse...

Muito bem... Vale também lembrar que foi perto de Aboboras que Corisco capturou e esquartejou Herculano Borges, na fazenda Bom Despacho, no vizinho município de Jaguarari.