quarta-feira, 4 de agosto de 2010

30 de Julho de 2010

Há 66 anos, morria em Campina Grande o temido Antônio Silvino 

Por Severino Lopes
severinolopes.pb@dabr.com.br

Campina Grande - Aparentemente, a praça Félix Araújo, situada no bairro do Monte Santo, em Campina Grande, é apenas mais uma das tantas existentes na cidade. O que poucos sabem é que, por trás das árvores, bancos e pedras da praça se esconde um valioso tesouro, perdido no tempo e na história.

Nádia Andrade, bisneta do cangaceiro, com a família,
exibindo uma foto de Silvino: orgulho do parentesco.
Foto: Katharine Nóbrega/Esp. DB/D.A Press
Na esquina das ruas Presidente João Pessoa e Arrojado Lisboa, existia uma casinha simples, que por sete anos abrigou Manoel Batista de Morais, o "Antônio Silvino", um dos precursores do cangaço, famoso antes do surgimento de Lampião, nos estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.

A casa, já demolida, ficava onde hoje funciona uma loja de automóveis e pertencia a Teodulina Aires Cavalcanti. O hóspede de Teodulina parecia ser pacífico. Andava com a Bíblia debaixo do braço e não gostava de falar de seu passado. "Ele era muito reservado. Dizia que tinha sepultado sua identidade", conta o pesquisador João Dantas. Nos últimos anos de vida, Antônio Silvino dividia seu tempo entre a casa da Teodulina e a Igreja Congregacional da Rua 13 de Maio, no centro da cidade.

A bisneta dele, Nádia Andrade da Silva, de 53 anos, ouvia a mãe, Maria Marciano de Andrade, dizer que Silvino era um velho bondoso. "Minha mãe contava muita história dele. Ela não falava que ele era uma pessoa tão temida. Não parecia ser um homem que amedrontava" revela Nádia, orgulhosa de ser parente do cangaceiro. O agricultor Paulo Roberto, 48, sobrinho dela e tataraneto do cangaceiro, também ouvia muitas histórias sobre o tataravô, mas nunca acreditou que ele tivesse sido um bandido.

Pernambucano de Afogados da Ingazeira, pequena cidade situada às margens do Rio Pajeú das Flores, no Sertão pernambucano, Silvino escolheu a casa modesta de taipa em Campina Grande para se refugiar nos últimos dias de sua vida, depois de ser solto, por ordem do então presidente Getúlio Vargas, após passar 22 anos na cadeia. Ele comandava um bando de cangaceiros quando herdou o nome de Antônio Silvino. Batizado de "rifle de ouro" e auto intitulado "governador do Sertão", durante 16 anos organizou saques, assassinou políticos, ignorou a polícia. Preso em 1914, foi anistiado em 1937. Morreu aos 69 anos, no dia 30 de julho de 1944, e foi enterrado no cemitério do Monte Santo, quase ao lado da praça onde passou boa parte de seus últimos dias.

Robin Hood - Nádia é uma das poucas bisnetas de Silvino ainda viva. Ela conta que o homem que espalhava o medo pelo Nordeste tinha um lado romântico. Nádia diz que cresceu ouvindo histórias de que o bisavô costumava roubar dos ricos para dar aos pobres. Apesar das supostas "boas intenções", ela não tem dúvidas de que o Silvino era um bandido. Mas custa acreditar que o bisavô era o monstro que se pintou na região. "Eu perguntava a minha mãe porque o meu bisavô tinha virado um bandido. Ela respondia que tinham matado o pai dele, o que criou um sentimento de vingança". Segundo Nádia, sua mãe se encontrou diversas vezes com Antônio Silvino, às escondidas. Com orgulho, a dona de casa apresentou várias fotos, entre elas uma de Antônio Silvino já mais velho, de chapéu e vestido com um terno gasto pelo tempo.



Desejo de vingança

Não foi por acaso que Antônio Silvino escolheu Campina Grande para viver os últimos dias de sua vida. Ele tinha laços profundos com a cidade e muitos coiteiros, que lhe davam cobertura. Por conta dessas amizades, ele atuou nos municípios próximos. No auge da vida de bandoleiro, agiu em Fagundes, Esperança, Monteiro, Alagoa Grande e Cabaceiras, até ser preso e levado para a Casa de Detenção, no Recife, onde ficou 22 anos.

Quando foi solto, Silvino resolveu morar em Campina Grande, na casa de uma prima do cangaceiro Silvino Aires Cavalcanti, chamado de Silvino Torto. Manoel Batista de Morais - mais tarde transformado em Antônio Silvino - entrou no cangaço motivado pelo desejo de vingar a morte do pai, Francisco Batista de Morais, conhecido como Batistão, assassinado na Serra da Colônia, no limite entre Paraíba e Pernambuco. Quando Silvino Torto morreu, Manoel Batista adotou o nome do líder e passou a se chamar Antônio Silvino. "Foi uma forma de ele homenagear Torto", conta o pesquisador João Dantas.

Antônio Silvino, segundo Dantas, foi um dos mais importantes personagens do cangaço. Antecessor de Virgulino Ferreira, o Lampião, ele substituiu cangaceiros como Jesuíno Brilhante, Cabeleira, Adolfo Meia-Noite, Preto, Lucas da Feira, Moita Brava, Silvino Aires e o próprio pai, Batistão. Segundo relatos da época, Silvino não praticava certas barbaridades, como estupros ou atos de extrema violência. Tinha um coração sensível.

Memorial - Um marco foi erguido por João Dantas no cemitério de Monte Santo, em Campina Grande. No local, garante ele, Antônio Silvino foi enterrado. O coveiro aposentado José Medeiros Maciel confirmou que o lugar é o mesmo onde Antônio Silvino foi enterrado. Medeiros trabalhou como coveiro 35 anos em Monte Santo e diz que conheceu o administrador do cemitério na época do sepultamento do cangaceiro. Dois anos e meio após o falecimento, os coveiros enterraram os restos mortais do cangaceiro em outro lugar do cemitério, até hoje desconhecido, porque a família não apareceu para retirar os ossos.

Publicado no Diário de Pernambuco: Diário de Pernambuco

O toque foi do O Nordeste

Quer saber mais? Lampião Aceso recomenda:

*Antonio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito
Sérgio Augusto de Souza Dantas, Natal - RN. 2006, Editora Cartgraf

O livro Antônio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito refere-se a algo inédito na historiografia nacional. De efeito, são poucos os títulos que cuidam da sua vida, e quando o fazem, a contam de forma exagerada e sem caráter científico. Em verdade, os melhores livros sobre a atribulada vida do cangaceiro foram escritos tendo como fonte quase única, folhetos de “literatura de cordel”.

O livro foi iniciado em 2002. De acordo com o autor Sérgio Dantas, foi concebido dentro dos mais rígidos critérios de pesquisa histórica. A busca de informações e dados para a composição do texto final, foi realizada em três vertentes: A primeira, através de pesquisas em jornais, em “Arquivos Públicos” da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A segunda, a partir da análise de documentos governamentais e comunicações entre Chefes de Polícia dos três Estados citados acima; e a terceira, por fim, utilizando-se de depoimentos de pessoas que tiveram conhecimento de alguns fatos relevantes em torno da polêmica personagem.

O livro – escrito não somente para estudiosos do tema, mas igualmente para leigos – pode ser dividido em três partes distintas, as quais refletem três diferentes fases do cangaceiro.
Importante, também, é o registro de encontros do cangaceiro – após seu aprisionamento – com intelectuais de expressão, como o potiguar Câmara Cascudo, o cearense Leonardo Mota, os pernambucanos Nilo Pereira e Jayme Griz, além do alagoano Graciliano Ramos e do líder comunista Gregório Bezerra, com quem o cangaceiro travou profunda amizade na Casa de Detenção do Recife.

A narrativa é finalizada com a descrição da morte do cangaceiro e seu funeral, repleto de populares, admiradores e curiosos, na cidade de Campina Grande, em 1944.

Esta obra encontra-se esgotada, recorra aos Sebos.
 

Resenha pescada em: Revista Raiz


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