terça-feira, 2 de abril de 2019
Contos do além-cangaço
por Wanessa Campos
Iniciamos uma pequena série sobre assombrações do Cangaço. Elas foram contadas por duas pessoas respeitadas: João Jurubeba e Amaury Corrêa. O primeiro, falecido, pertenceu as volantes e o segundo, sério pesquisador e escritor do Cangaço. No final, Valter Rosa Borges, respeitado parapsicólogo, explica o fenômeno:
Era uma noite de 1956. A temperatura estava quente numa localidade chamada Pau Ferro, próxima de outra chamada de Serrote Preto, Alagoas. Ali existia um poço conhecido como Avelino com água potável da melhor qualidade. Era costume de os moradores buscarem água nesse poço, principalmente em época de seca. Assim fez Amália Araújo. Aquela noite, além de quente, havia lua cheia, céu sem nuvens. Pegou o pote, a rodilha e foi caminhando na terra esturricada em direção ao Avelino por volta das 20h. A lua alta iluminava a estradinha estreita e deserta. Não fazia medo. Encheu o pote e fez o caminho de volta.
Mal deu alguns passos, ouviu barulho de gente falando alto. Estranhou, porque na ida não escutou nada. Procurou ouvir de onde vinha o barulho. Viu embaixo de uma árvore frondosa uma fogueira grande e ao redor dela, homens e mulheres conversando, rindo alto. Para espanto de Amália, todos vestiam roupas do Cangaço, inclusive bornais. Ela ficou paralisada. Controlou os nervos e os músculos. Não tremeu. O pote na cabeça não derramou uma gota d´água. Observou que alguém do grupo também a olhava sem dizer uma palavra. Ficaram assim se entreolhando por alguns instantes. Até que Amália se deu conta de que a fogueira estalava. Sinal que ia desabar. Não podia ser verdade. Lampião e o bando morreram havia 18 anos. Decidiu ir para casa. Chegando, colocou o pote no chão e foi se deitar. Não conseguiu dormir só pensando na cena. Não contou a ninguém, pois iriam dizer que estava louca. Não pregou o olho, até ouvir o galo cantar. O dia amanhecera. Levantou, fez o café e partiu para o Poço Avelino com pretexto de buscar água.
Foi até a árvore onde os “cangaceiros” estavam. Nenhum rastro, nenhuma brasa, nenhum pau queimado da fogueira. Nenhuma marca de alpercata, nenhum rastro. Nenhuma cinza. Nada…ela jamais esqueceu o que vira. Sonho, não era possível…. Não teve coragem de contar a ninguém que viu assombração. Muitos anos depois, resolveu contar. Disseram que foi visão.
Pescado sítio de comadre Wanessa
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Entre Maceió e Salvador...
Transcrição de Antonio Correia Sobrinho
O jornal "CORREIO DA MANHÃ", no dia 13 de Agosto de 1938, assim noticiou:
Para o Museu do Serviço Médico- Legal
Chegaram à Bahia as cabeças de Lampião e Maria Bonita
Bahia, 12 (Havas) – Chegaram a esta capital de avião as cabeças de Lampião e Maria Bonita, recompostas pelo doutor Arnaldo Silveira, médico comissionado pelo governo para conseguir as mesmas para o museu do serviço médico legal.
Bahia, 12 (Havas) – Chegaram hoje, às nove horas, de avião, as cabeças de Lampião e Maria Bonita, trazidas pelo doutor Arnaldo Silveira, médico comissionado pelo governo para estudar os despojos do “rei do cangaço”.
O doutor Arnaldo Silveira recompôs as duas cabeças, tendo tirado modelagens em gesso que ficaram no Museu Arqueológico de Alagoas.
Falando à imprensa, o doutor Silveira declarou que teve grande trabalho para fazer a recomposição, pois as duas cabeças tinham todos os ossos fraturados, provavelmente devido a coronhadas de armas.
Acrescentou o Dr. Silveira que haviam desaparecido as obturações em ouro dos dentes de Lampião como também de sua companheira.
As cabeças de Lampião e de Maria Bonita ficarão no Museu do Serviço Médico do Estado.
segunda-feira, 25 de março de 2019
"O amanhã" edição de 07/01/1927
Transcrito por Antonio Correia Sobrinho
Amigos, leiam a entrevista do jornalista cearense Júlio de Matos Ibiapina, concedida ao jornal "O Amanhã" do Rio de Janeiro, sobre o banditismo nos sertões nordestinos, publicada na edição de 07/01/1927, quer dizer, mais de onze anos antes da morte do rei do cangaço Lampião, no momento, por um lado, em que este já considerado o novo rei do cangaço agia mais confiante e serelepe pelos adustos territórios de Alagoas ao Ceará, carregando no ombro a patente de capitão do exército, fortalecido de armas, munições, além de fardamento do batalhão patriótico, dádivas recebidas do governo federal, ainda que de forma ilegal e indireta, pois pelas vias do poderoso chefe religioso e político do Ceará, Padre Cícero Romão, para os fins de combater no Nordeste os rebeldes comunistas chefiados por Luís Carlos Prestes.
Por outro lado, num momento de forte censura contra o prestigioso tratamento dado pelo governo ao sanguinário cangaceiro do Pajeú, na imprensa e nas casas do Congresso Nacional, isso associado à mudança nos comandos dos governos federal e estaduais; Washington Luís substitui Artur Bernardes e as unidades federativas ganham novos governadores, sem mencionar o convênio celebrado entre Estados nordestinos no sentido de as forças militares destes combaterem o banditismo de forma conjugada e com a possibilidade de as volantes atuarem além fronteiras.
Os Governos nordestinos coligam-se para combater o banditismo sertanejo - Falta de camaradagem
Desde anteontem acha-se nesta capital o Sr. J. de Matos Ibiapina, nosso colega da imprensa do Ceará, onde dirijo um jornal independente, o mais importante do Estado, pela sua ampla circulação e pelo seu bem orientado programa de combate aos partidos políticos e ao governo.
Como se ache, atualmente, em foco, no Nordeste, a questão de repressão do banditismo profissional, agitada pelo Sr. Estácio Coimbra, resolvemos ouvir a opinião do Sr. Matos Ibiapina sobre o assunto.
Começamos por perguntar-lhe se acreditava na eficiência dos governos estaduais para exterminar o bandoleirismo.
Assim nos respondeu o ilustre jornalista:
- Combate-se uma epidemia sem eliminar as suas causas?
E acrescentou:
- Todos os governos novos, a fim de impressionar bem aos seus governados e aos dirigentes da nação, tomam a iniciativa de guerrear os bandidos dos sertões. Não é a primeira tentativa que se faz nesse sentido. Mais de um entendimento tem sido promovido entre os diferentes estados do Nordeste. Tudo tem sido debalde.
Por quê?
Simplesmente porque as causas geradoras do banditismo persistem em vários Estados.
Não haveria cangaceiros se por toda parte houvesse o respeito à lei. São os administradores que inoculam no espírito do caboclo do sertão essa revolta contra os fundamentos jurídicos da sociedade.
Não compreende ele que o governo de um povo consista no espezinhamento dos direitos alheios, justamente por parte dos que têm a responsabilidade de sua defesa.
É o exemplo das arbitrariedades policiais que transforma o pacífico e obediente homem do sertão na fera que é o chefe de bando.
Os elementos destinados à garantia da ordem assumem o papel no hinterland nordestino, de instrumentos de perseguição manejados pelos amigos políticos dos governos.
São eles que arrastam às prisões, por mero capricho dos reguletes locais, os adversários políticos e seus apaniguados.
São eles que lhes tomam as propriedades, que deixam impunes os atentados à honra das famílias.
São eles, em uma palavra, que incutem na alma dos sertanejos a convicção de que ou se devem deixar escravizar ou reagir pelos mesmos processos de que são vítimas constantes.
Um dos atuais chefes de bandoleiros do Nordeste era um cidadão pacífico, que exerceu o cargo de prefeito de uma vila cearense. Teve de recorrer ao cangaço indignado com a polícia que lhe incendiou as propriedades.
- Mas Lampião, por exemplo, não está nesse caso. É um criminoso perverso.
- Os bandidos dividem-se em duas grandes categorias: a dos revoltados contra as injustiças dos poderosos e os lançados na carreira pelos mandões, que os perseguem quando não mais precisam dos seus serviços.
No primeiro caso, está Santa Cruz; no segundo, Lampião.
Aquele, que é um bacharel em direito, depois de assistir as mais torpes violências contra a sua família, reagiu, e, de queda em queda, teve, por força das circunstâncias, de chefiar um grupo, em que se alistaram criminosos da pior espécie.
Este serviu, durante muito tempo, às ambições de políticos da Paraíba e vivia na intimidade de elementos de destaque da política cearense.
Quando, no meu Estado, cogitaram de organizar os célebres batalhões patrióticos, Lampião foi convidado pelo “general” legalista para assumir uma posição de comando nas hostes governistas.
Essa declaração foi feita pelo padre Cícero, do Juazeiro, ao meu jornal e pelo próprio Lampião, em entrevista que nos concedeu.
Só ultimamente, é que se verificou o rompimento de relações entre esse famoso bandido e conhecido cangaceiro político da Paraíba. Essa desinteligência foi até registrada pelos vates do sertão.
Lampião, como vê, está ligado à história pátria como um dos baluartes da legalidade. Por mero acaso, ele não é hoje um herói nacional, depois de ter sido, durante muito tempo, um colaborador dos políticos do sertão.
Nessas condições, é evidente que, enquanto perdurar essas semelhanças entre os políticos e os bandidos, os governos que prestigiam àqueles não podem dar combate a estes.
No meu Estado, os amigos do governo – aliás chefiado por um desembargador – para ganharem uma eleição de prefeitos, mandaram a polícia prender um juiz de direito e um promotor.
Não é de admirar que Lampião recorra ao saque para alimentar os seus homens e ao assassinato para se defender dos seus inimigos. O banditismo de Lampião é muito justificável do que o dos políticos governistas.
- Não acredita, pois, na extinção da praga que, de tempos imemoriais, vem infestando o interior nordestino?
- Absolutamente, não.
Acho até que essa iniciativa dos governos é uma falta de camaradagem.
É mais uma classe desunida.
______________
Júlio de Matos Ibiapina (Aquiraz, 22 de setembro de 1890 - Rio de Janeiro, 1947).
Personagens secundários
Por Colô do Arneiroz
Nasceu ao 1° de Janeiro de 1885, filho de Antônio Ferreira Lima e de Luiza Joaquina de Menezes. Foi batizado no mesmo dia pelo Padre Cícero Romão Batista. Foi aluno do professor Pedro Correia de Macedo, seu 1° professor, que mantinha uma escola régia em Juazeiro, na época povoado. Em 1904 e nomeado Fiscal da Vila de Joazeiro, pelo Sr. Joaquim Bezerra de Menezes.
Dai em diante, ocupou vários cargos públicos como: vereador, promotor de justiça, advogado da Policia do Ceará e Fiscal das Coletorias. Aos 18 de julho 1909 é fundado o jornal "O REBATE" pelo Padre Alencar Peixoto, professor José Marrocos e Dr. Floro Bartolomeu, e José Ferreira de Menezes, fez parte da equipe de redatores do jornal.
Aos 26 de setembro de 1909, José Ferreira de Menezes comanda uma rebelião nas feiras de Crato, por ter o Padre Tabosa de Crato, afirmado de púlpito "que o povo imundo de Joazeiro, vive guiado por Satanás".
Aos 10 de agosto de 1910, José Ferreira de Menezes, juntamente com Dr. Floro Bartolomeu, Paulo Maia, Cel. Neri, José Cancún, José Xavier, reúnem-se e começam a organizar a luta pela independência de Joazeiro.
Segundo Fátima Meneses, aos 23 de Janeiro de 1926, em meio a passagem da Coluna Prestes pelo Nordeste, José Ferreira é encarregado por Floro de enviar a famosa carta para Lampião, convidando-o a se juntar ao Batalhão Patriótico que defenderia o Sul do estado contra a coluna.
Aos 28 de junho de 1930, Padre Cícero apresenta José Ferreira de Menezes através de uma carta, ao presidente Matos Peixoto, para candidato a prefeito de Juazeiro. Aos 10 de outubro de 1930, o então prefeito eleito de Joazeiro José Ferreira de Menezes, é impedido de tomar posse em vista da revolução de 30. Em seu lugar assume como interventor municipal, o Sr. José Geraldo da Cruz. Estes são alguns dados sobre esse insigne personagem da história de Juazeiro do Norte.
Um homem que foi contemporâneo de todos os fatos históricos deste torrão.
quarta-feira, 20 de março de 2019
O POVO, Edição de 22 de novembro de 1948
Primeira reportagem da série "As Façanhas do Rei do Cangaço", publicada no Jornal O POVO em 22 de novembro de 1948.
A partir do dia 22 de novembro de 1948, o Jornal O POVO passou a publicar uma série de 11 reportagens sobre a vida criminosa de Virgulino Ferreira, conhecido como Lampeão e seu bando de cançaceiros.
A primeira reportagem teve o título "Revelação de uma irmã do rei do cangaço:
Lampeão não foi morto pela polícia" que foi escrita pelo jornalista e farmacêutico José Geraldo da Cruz.
"Na verdade, ninguém está em melhores condições do que José Geraldo para fazer a crônica emocionante da capital do fanatismo e do cangaço, a única terra que Lampeão respeitou e amou. O chefe da UND, antecipa-nos alguns itens da sua narrativa sensacional. A respeito do Rei do Cangaço, de cuja trajetória sangrenta o Nordeste ainda está cheio de marcas, afirma-nos que o célebre bandido não foi morto pela polícia.
E, antes que externássemos nossa surpresa e incredulidade, acrescentou:
- A fonte onde obtive esta informação é a melhor possível: uma irmã do próprio Lampeão, que residiu em Juazeiro e morreu recentemente.
Era conhecida aqui por todo o mundo. Pena é que você não a tenha encontrado viva. Mas eu lhe posso dar todos os detalhes sobre o assunto, e qualquer juazeirense os confirmará. Chamava-se Virtuosa Ferreira e morava à rua Santa Rosa. Sou padrinho de um filho dela. Virtuosa se correspondia com seu mano, Lampeão (Virgolino Ferreira), de quem, mensalmente recebia dinheiro.
Quando foram estampados nos jornais as cabeças dos cangaceiros trucidados pela polícia de Alagoas, ela ria-se diante daquela que era atribuída a Lampeão, exclamando que seu irmão não era aquele, pois morrera num recanto do interior da Bahia.
Tinha bilhetes comprovando tudo isso."
Créditos para José João de Souza
terça-feira, 19 de março de 2019
O cordel de Emilly
No último dia 13 nós atendemos mais um convite do professor Renato Araújo para resumir a saga de Lampião para todos os alunos do ensino médio do Colégio José Augusto Vieira (rede particular de Lagarto,SE).
O ensaio histórico foi aberto para convidados, dentre estes a pequena Emilly de Souza Monteiro, de 10 anos, que movida pela curiosidade foi acompanhando sua mamãe, a professora M.ª Érica Monteiro.
Ontem a Emilly nos surpreendeu ao revelar que foi proposto aos alunos do 5º ano do Colégio Mundial, onde ela estuda, que produzissem um poema de tema livre para um concurso interno.
Surgiu um breve dilema, a indecisão sobre o que escrever, e ela nos disse que de repente veio uma luz, precisamente a luz de um Lampião que não se apaga. A pequena notável lembrou da nossa palestra e criou um pequeno cordel com as suas impressões e inclusive algumas das passagens que mais lhe impressionaram.
Vamos conferir a transcrição dessa lindeza...
Lampeão
Cangaceiro arretado do Sertão quente
Tiro certeiro que passa pelo dente
Cangaço perigoso e pavoroso
Faca que dói como uma serpente.
Maria Bonita, sua linda esposa
Ficava a esperar e os tiros a escutar
Orava pra Lampeão pra não morrer nesse sertão
Rezava pra não morar naquele lugar.
Cangaceiro Balão, cangaceiro de Lampião
Chamou alguém que confiava de coração
Rasgou os ombros como promessa
Dentro tinha hóstias que botou Lampião.
Criança na mata não podia
O choro profundo acordava a polícia num segundo
Era mandada para padres confiáveis
E os pais não tinham noção da criança no mundo.
Cangaceiro rico com cinco anéis em cada dedo
Todos os acessórios de ouro brilhante
Na caça, armas de porte grande
Brilhante como lua minguante.
Mulher no cangaço não podia trair
Se traísse algo iria atrair
Poderia morrer sim
Lampião pena não tinha a sentir.
A morte deles foi anunciada
Dois dias depois do acontecido
Triste notícia, mas era pedido
Recompensa grande, prazer enorme
Cangaceiros mortos, esquecidos.
segunda-feira, 11 de março de 2019
Rostand Medeiros
Em 2010, em alternadas viagens, estive percorrendo pela primeira os cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927.
Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna. Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.
Para traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor de Lampião e a grande Jornada – A história da grande jornada.

Um dos fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados aqueles dias tumultuosos de 1927.
Cruzeiros marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.
Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.

MARCELINO VIEIRA
A área próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.

Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente militar.

ANTÔNIO MARTINS – ZONA RURAL
Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu viver.

Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.



Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.

A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra.
ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA
Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da cavalaria de cangaceiros.

Durante todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio Grande do Norte.
LUCRÉCIA


A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para soltar o popular fazendeiro.

Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré, cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré. Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar, vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes. Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro sequestrado foi terrível.

Atualmente, as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”, ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem velas em honra desses homens.
MOSSORÓ
Caso da Igreja de São Vicente de Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca.
A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.

Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.
Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.

O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade, enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram bravos sim!
Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos resistentes?
Por que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a resistência? Por que as fotos dos heróis da resistência são tão pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da resistência!

Fonte sobre o túmulo de Jararaca – Valdecy Alves, “MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!” – http://valdecyalves.blogspot.com/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html
quarta-feira, 6 de março de 2019
O homi de Porteiras
Estamos em Brejo Santo - CE, início da década de 1990. O presente documentário traz o maior coiteiro do Rei do Cangaço em terras cearenses. Antônio Teixeira Leite, mais conhecido como Antônio da Piçarra.
Em seu sítio Piçarra, em Porteiras - CE, aconteceu o famoso episódio do cangaço denominado o "Fogo da Piçarra" em 27 de março de 1928 e a morte do cabra "Sabino das Abóboras", homem de confiança de Lampião, onde em março de 1926 teria recebido a patente de Segundo-tenente do Batalhão Patriótico de Juazeiro.
Esse registro pertence aos descendentes de Antonio da Piçarra, gentilmente nos cedido pelo pesquisador e escritor Luís Bento de Sousa, o Luís Carolino, de Jati - CE.
A primeira parte deste documentário foi dirigido por Rosemberg Caryri;
Apresentação: Tom Cavalcante
Música: Pingo de Fortaleza
Narração: Tom Barros
Pescado no canal A Munganga Promoção Cultural










