quinta-feira, 28 de maio de 2009

Memórias do cangaço em Sergipe

Nossa Senhora da Glória
Por Caio César Santos Gomes

Entre fins do século XIX até meados da década de 1940, o sertão brasileiro serviu de palco para um movimento de caráter social que aterrorizou populações e deixou profundas marcas na memória dos indivíduos, que vão além de prejuízos materiais e mortes. Os bandos independentes que originaram o movimento do cangaço tiveram como figura principal o cangaceiro, sendo Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o mais famoso e temido por todo o sertão. Em meio às andanças pelos sertões do Nordeste brasileiro, Lampião e seu bando percorreram vários estados, inclusive Sergipe.

Em 22 de abril de 1929, o Jornal Gazeta de Sergipe, na edição de número 424, noticiou a entrada de Lampião em Sergipe pela região do atual município de Canindé de São Francisco, de onde seguiu para Poço Redondo, vindo posteriormente para Nossa Senhora da Glória, em 20 de abril de 1929. Essa passagem de Lampião pela cidade de Nossa Senhora da Glória, ocorrida em um sábado, dia da feira local, provocou uma onda de pânico na população que temia saques e derramamento de sangue.

Alguns dos atores sociais que vivenciaram a data, como é o caso de Gerino Tavares, que na época tinha 24 anos de idade, relembram como foi o 20 de abril de 1929 em Nossa Senhora da Glória. De acordo com o depoente, a passagem de Lampião e os cangaceiros pela localidade ocorreu de forma “tranqüila”, uma vez que em Nossa Senhora da Glória, o capitão do sertão agiu de forma diferente, contrariando a expectativa da população local, que temia uma passagem violenta. Outros entrevistados confirmam a passagem tranqüila, como é o caso de Maria Gerovina Aragão, que relembra:

“Eles ficaram e almoçaram e depois que almoçaram saíram. Saíram e ficaram na rua olhando isso e aquilo outro, mas não mataram nem nada, só fizeram medo e acabou”,

referindo-se ao comportamento dos cangaceiros na cidade após almoço que ela ajudou a preparar na casa do seu padrinho, o intendente João Francisco de Souza.

Em uma publicação sobre a história da cidade, da década de 1980, produzida pelo Banco do Nordeste, encontramos o depoimento de Maria Nila de Almeida, que ratifica a informação da passagem tranqüila e ainda aponta atos de generosidade praticados por Lampião na cidade, distribuindo moedas entre as crianças, inclusive a própria, que na época “já era uma franguinha de moça”. Nesta mesma publicação o senhor Manoel Messias relembra como foi ver Lampião em sua frente, quando este foi fazer a barba com Zé Bisonho. Segundo Manoel Messias, Lampião deixou dois cangaceiros na porta da barbearia para impedir que a multidão curiosa invadisse o local.

Além da passagem dos cangaceiros pela sede do município, de acordo com o testemunho oral, Lampião e seu bando circulavam pelos povoados da região, deixando marcas da sua passagem. Para Maria Eurides Santos, a passagem de Lampião pela sua casa, no povoado Lagoa Grande, deixou um registro de medo em sua memória, uma vez que o cangaceiro em meio a ameaças mandou seus pais encherem de mantimentos uns bornais que eles carregavam. Após o ocorrido, Maria Eurides lembra que Lampião ordenou que uma vizinha sua apagasse as pegadas deixadas no chão a fim de evitar que alguma volante os seguisse pelo rastro deixado. As marcas do chão foram apagadas, mas as da memória da depoente permanecem até hoje.

Um outro dado da historiografia sobre o cangaço em Nossa senhora da Glória revela a passagem da volante baiana de Zé Rufino pela fazenda Malhada, em direção à Poço Redondo em busca de informações sobre o paradeiro de Lampião. A caçada ao cangaceiro fez com que Zé Rufino e sua volante se tornassem alvos de coiteiros e espiões. Por isso, em sua caminhada rumo a Poço Redondo, sabendo do risco que corria Zé Rufino e seu grupo, mudaram de rumo e seguiram para Nossa Senhora da Glória, onde acampou na Fazenda Malhada e ali foi informado que a volante sergipana de Zé Luís tinha estado na região à procura dos cangaceiros.

No ano em que a morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros na chacina de Angicos, em Poço Redondo, completa 70 anos e a cidade de Nossa Senhora da Glória festeja 80 anos de emancipação política, informações como estas revelam um lado pouco conhecido da história local e a relação com o cangaço. A passagem de Lampião e seu bando pela cidade já é conhecida pela população, porém esses detalhes que somente os testemunhos de quem viveu a época podem revelar, mostram um lado ainda desconhecido do fato, mas que tornam a história não só mais rica, mas também mais viva e comovente.

Publicado originalmente no JORNAL DA CIDADE / Aracaju em 10/08/2008  

Lampião e seus cabras: Representações do cangaço na cultura popular

Representações do cangaço na cultura popular 

Por: Caio César Santos Gomes

Os estudos sobre o cangaço estão presentes nas diversas áreas da pesquisa histórica, uma vez que essa temática foi e continua sendo um ponto de discussão sobre o qual emergem diversos questionamentos que contribuem para a produção de pesquisas acadêmicas e profissionais.

Do ponto de vista da historiografia, muitos estudos referentes ao cangaço já foram produzidos, o que corrobora a importância de tal assunto para a história regional e nacional. A maioria dos estudos realizados se debruça sobre o movimento em questão, bem como o resultado material de suas ações pelos sertões do nordeste brasileiro. Porém, cabe salientar que a presença o cangaço tem sua importância reconhecida não apenas devido às proporções que o movimento tomou ao longo de décadas. Uma das marcas deixadas pelo cangaço foi a forte influência nas formas de representação cultural.

O movimento do cangaço tem uma presença marcante em diversos segmentos da cultura popular do Nordeste brasileiro. As influências podem ser facilmente percebidas, merecendo destaque a literatura pela vasta produção sobre o assunto. Mas essas influências não estão restritas ao campo da literatura, elas também aparecem com bastante solidez no teatro, na música, nos grupos de bacamarteiros, na culinária, no artesanato, no cinema, enfim, numa série de manifestações que retratam o cotidiano popular.

O artesanato regional é um forte repositório dos elementos figurativos e representativos do movimento. Em qualquer ponto turístico da Bahia ao Ceará é possível encontrar diversas lembrançinhas que remetem a figura dos cangaceiros. Outro repositório são as feiras livres, que vendem a céu aberto vários utensílios típicos da época e que remonta ao período do banditismo social e a ação dos cangaceiros nos sertões como os típicos chapéus e sandálias em couro, armas brancas como facas e facões, lamparinas, esteiras, chapéus de palha, enfim, uma série de elementos que eram utilizados no dia-a-dia por Lampião e seu bando.

Uma das maiores formas de representação e difusão do cotidiano do cangaço são as quadrilhas juninas, desde aquelas que apresentam o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita, até as que trazem no nome a referência ao cangaço. Um dos refrões mais conhecidos do grande público: “Acorda Maria Bonita! Levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já ta de pé.” é presença garantida na maioria das quadrilhas juninas, e mostra como era o dia-a-dia de um grupo de cangaceiros: acordar cedo, preparar algo para comer e logo em seguida sair em fuga para escapar das forças volantes.

A existência dos elementos representativos do cangaço na cultura popular como observamos, é uma realidade que a todo tempo se mostra presente no nosso dia-a-dia. Por vezes, é comum que esses detalhes passem despercebidos aos nossos olhos, mas basta observar ao nosso redor e veremos que ainda se mantém viva as tradições e as memórias de Lampião e seus cabras em na região, e cabe a pesquisa histórica e principalmente as futuras gerações preservar esse patrimônio tão rico e memorável que são as tradições, as representações, enfim, a cultura popular, maior marca da identidade de um povo.

Caio César Santos Gomes - Graduado em História pela Universidade Tiradentes (UNIT); Pós-graduando em Ensino de História pela Faculdade São Luís de França (FSLF)

I ENCONTRO NORDESTINO DE CORDEL EM BRASÍLIA

Evento debaterá ações para o setor e trará para cidade grandes nomes do repente e do cordel.

O Teatro da CAIXA recebe nos próximos dias 28 e 29 de maio, o I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília. Organizado pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno (Acrespo), patrocinado pela CAIXA, e apoiado pelo Ministério da Cultura, o Encontro apresenta, com entrada franca, seminário, mesas-redondas, lançamento de livro, exposições de publicações em cordel e shows.


São esperadas para a abertura oficial, no dia 28, as presenças do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, do Ministro da Cultura, Juca Ferreira e da presidente da Caixa Econômica Federal, Maria Fernanda Ramos Coelho.

O I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília tem por objetivo valorizar, difundir e fortalecer as manifestações culturais do Nordeste a partir da linguagem do Repente e da Literatura de Cordel. Para isso, foi montada uma completa programação que engloba desde o debate e a proposição de ações estruturantes para o setor, até lançamento de livro, exposições de Cordéis e shows com cordelistas, repentistas e cantadores. À exceção da abertura oficial, restrita para convidados, os outros eventos são abertos ao público.

A atividade âncora do Encontro é a realização, no dia 29, do Seminário “Políticas Públicas para o Cordel”, que reunirá artistas, editores, professores, pesquisadores, gestores públicos, políticos, empresários, dirigentes de entidades do terceiro setor, entre outros interessados nos temas. O Seminário discutirá, em duas mesas-redondas, duas importantes ações para o setor: A proposta de criação da Cooperativa Nacional de Cordel em âmbito nacional como instância de integração, mobilização e proposição de ações comuns entre os diversos atores e iniciativas existentes no País ligados ao Cordel e suas linguagens afins; e, A mobilização em torno do pedido de registro, junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Repente e da Literatura de Cordel como patrimônios imateriais brasileiros.

Na parte artística, a Acrespo, organizadora do Encontro, celebra a relevância da ocasião apresentando ao público diversas manifestações que dialogam com o cordel. O Encontro abre espaço para o lançamento em Brasília, do livro “Lula na Literatura de Cordel”, do escritor Crispiniano Neto (RN) e para a exposição no foyer do Teatro de folhetos, CDs e outras publicações de editoras especializadas em literatura de Cordel. Por fim, o I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília encerra com uma homenagem especial ao consagrado poeta popular do Nordeste brasileiro, Patativa do Assaré, no ano em que se comemora o seu centenário de nascimento.

PROGRAMAÇÃO

28/05 (quinta-feira) - Abertura oficial para convidados
18h- Recepção de Convidados – área externa da CAIXA Cultural
• com a Orquestra Marafreboi (Ceilândia/DF).

19h - Abertura Oficial – Teatro da Caixa Cultural Mestre de Cerimônia: Chico Simões (Mamulengueiro).
• Execução do Hino Nacional em Frevo pela Orquestra Marafreboi e pelos alunos de música do Ponto de Cultura Menino de Ceilândia (Brasília).
• Apresentação dos repentistas Chico de Assis (DF) e Antônio Lisboa (PE).
• Fala do Presidente da Academia Brasileira de Cordel, Gonçalo Ferreira.
• Apresentação dos Repentistas Ivanildo Vila Nova (PE) e José Luis (RN).
• Fala em verso de Crispiniano Neto (Repentista/Secretário de Cultura do Estado do RN).

21h - Coquetel de lançamento do livro “Lula na Literatura de Cordel” – foyer do Teatro da CAIXA e abertura da exposição de livros e publicações de cordel.

29/05 (sexta-feira) Seminário “Políticas Públicas para o Cordel”
9h – Abertura - fala de representantes institucionais: Francisco de Assis (Presidente da Acrespo) e Fabiano dos Santos (Secretaria de Articulação Institucional do Ministério da Cultura).

9h30 - Mesa-Redonda: “Criação da Cooperativa Nacional de Cordel – desafios e perspectivas”.Mesa: Crispiniano Neto, cordelista e Secretário de Cultura do Rio Grande do Norte; Francisco de Assis, repentista e Presidente da Acrespo; e Tarciana Portella, chefe da Representação Nordeste do Ministério da Cultura.Mediador: Gonçalo Pereira (Presidente da Academia Brasileira de Cordel).

10h30h - Debate com o público participante.

12h00 - Encaminhamentos sobre a proposta de criação da Cooperativa de Cordel (Crispiniano Neto, Francisco de Assis)

12h15 – Encerramento com apresentação dos Emboladores de Coco Roque (PE) e Teresinha (RN).

12h30 - Intervalo para almoço.

14h – Mesa-Redonda: “A importância da Literatura de cordel e do repente como Patrimônio Imaterial”.Mesa: Luiz Fernando Amaral, Presidente do Iphan; e os repentistas Antonio Lisboa (PE) e João Bosco Bomfim (CE).Mediador: Crispiniano Neto (Natal-RN).
16h00 - Debate com o público participante.
17h30 – Encerramento. TRIBUTO A PATATIVA DO ASSARÉ Homenagem aos 100 anos de nascimento do poeta Patativa de Assaré

19h30- Apresentação de Cordelistas e Repentistas:
Paulo de Tarso (CE).
Ivanildo Vila Nova (PE) e José Luiz (RN).
Moreira de Acopiara (SP).
Antonio Lisboa (PE) e Ismael Pereira (CE).
Zé do Cerrado (PB) e Zé Maria de Fortaleza (CE).
Antonio Francisco (RN).
João Santana (DF) e Valdenor de Almeida (PB).
Arievaldo Viana (CE) Marcus Lucenna (RJ).

Serviço

I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília
Data: dias 28 e 29 de maio de 2009
Horário: ver programação
Local: Teatro da CAIXA - SBS Qd 4 lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA
Recepção: 3206-9448 - Administração: 3206-9450

Maiores Informações:
Produção do Evento Seminário “Políticas Públicas para o Cordel”
Data: 29 de maio de 2009
Horário: das 9h às 17h30 (ver programação)
Local: Teatro da CAIXA - SBS Qd 4 lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA
Inscrição gratuita: pelo telefone (61) 3522- 5202 ou pelo e-mail encontrodecordel@gmail.com

“Tributo a Patativa do Assaré”
Data: 29 de maio de 2009
Horário: 19h30 (ver programação)
Local: Teatro da CAIXA - SBS Qd 4 lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA
Entrada franca
Classificação Etária: Livre

Assessoria de Imprensa do evento: Amanda Guerra e Luis Flávio Luz 
(61) 8484- 3390/ (61) 7815- 5472 / (21) 7868- 6006.
ID 97*1912 ID 97*1913.
Assessoria de Imprensa Caixa Econômica Federal
CAIXA Cultural - Brasília/DF (61) 3206-8030 / 9895(61) 9202-2144. imprensa.cultura@caixa.gov.brwww.caixa.gov.br/caixacultural

terça-feira, 26 de maio de 2009

Desta eu não sabia


Porquê Sergipe segue sem um museu do Cangaço

Há muito tempo Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria, tem desejado implantar o Memorial do Cangaço, espaço que comportará todo o seu acervo e enfim a história de seus avós. Sabe-se que desde então o projeto não sai do papel, e não fica claro o impasse: se é só o dinheiro etc. Mas na gestão do ex governador Albano Franco descobrimos o porque da não realização. 

A matéria é do ano passado, não consegui um exemplar impresso em compensação o site disponibiliza semanas após a retirada de circulação das bancas.

Lampião setenta Publicado em: 30/07/2008 no Jornal da cidade Aracaju - SE.

Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião que durante muitos anos aterrorizou o nordeste brasileiro, completou neste final de semana 70 anos de falecido em Sergipe, quando foi abatido pelo comandante da Força Volante, o coronel José Bezerra, numa gruta entre os municípios de Piranhas e Poço Redondo, o primeiro em Alagoas e o segundo em Sergipe. Sete décadas depois do seu fim, a figura de Lampião ainda continua sendo discutida se foi um bandido ou a vítima de violências que o revoltaram no agreste onde vivia.
 

O capitão Virgulino, como era conhecido, formou um grupo de parceiros e durante anos invadiu fazendas, cidades e povoados onde matava quem reagia a ele e roubava os pertences em dinheiro, armas ou objetos. Os bandoleiros nadavam a cavalo e agiam constantemente em suas agressões aos sertanejos de todos os estados. Coiteiros eram denominados alguns fazendeiros da região que atemorizados pelos ataques se aliavam aos bandidos facilitando a sua ação criminosa e até oferecendo dinheiro a eles para protegê-los. 

Um desses ricos fazendeiros residentes em Propriá enchia sacos de cédulas para oferecer aos bandoleiros quando estes entravam na cidade. Lampião tinha uma companheira que se chamava Maria Bonita, com quem teve sua única filha chamada Expedita que foi criada pelo tio João Ferreira. Expedita ainda mora em Aracaju e sua filha Vera escreveu o único livro que existe sobre Lampião em parceria com um jornalista local que editou a obra ainda hoje consultada pelos pesquisadores.

Vejamos agora a "melhor" parte da matéria!

O
governador Albano Franco quis criar o Museu do Cangaço em Aracaju para fins turísticos, colecionando pertences do bando, mas foi desaconselhado pelo seu secretário do Planejamento, Marcos Melo, que o advertiu a não valorizar a memória de bandoleiros. Lampião acabou, mas a sua figura ainda é relembrada.

O que terá pensado João Alves que sucedeu Albano Franco e o que pensa atualmente Marcelo Déda com relação a implantação do tão aguardado museu?
 
Marcos Antônio de Melo atualmente ocupa a Cadeira de número 40 da Academia Sergipana de Letras (ASL).

Terra de cangaceiro 2

O cangaço na vida de Poço Redondo 
Por: Alcino Alves Costa

Ao contrário dos que garantem e afirmam ser o cangaço um flagelo que teve seu início por volta de 1870, pode-se afirmar com segurança que ele surgiu nos campos do sertão nordestino desde os idos do Brasil Colonial.

O cangaço e as secas foram os grandes flagelos dos povos sertanejos. Todo o nordeste se rendeu aos horrores daquela tenebrosa sociedade do crime. A seca dizimava os campos e a vida pastoril. O cangaço fazia nascer e florescer brutais criminosos, mestres do bacamarte e do clavinote. Alguns desses sanguinários matadores se tornaram célebres personagens da história sertaneja. Estão nos livros as aventuras de Inocêncio Vermelho, João Calango, Jesuíno Brilhante, Né Dadu, Sinhô Pereira, Luiz Padre e aquele que foi a sua maior e mais luminosa estrela: Virgulino Ferreira da Silva – Lampião.

Em se estudando o cangaço não se pode desconhecer uma verdade pura e cristalina que é aquela de se verificar que essa epopéia nordestina legou o seu povo a um terrível sofrimento, uma provação sem precedente e que varou anos e mais anos, só vindo ter fim na histórica chacina de Angico, no Riacho do Tamanduá, conhecido famosamente como Riacho do Angico, em Poço Redondo, local onde morreram Lampião, Maria Bonita, e ainda, nove de seus companheiros.

Pode-se atestar, com toda convicção, que o cangaço, através da sanha perversa e homicida do cangaceiro, e até das volantes do governo, eram pestes que só traziam dores e sofrimentos para os povos catingueiros.

Nada neste mundo se compara ao sofrimento e agonia que viveu a nossa indefesa gente cabocla, vivendo, por tão longos anos, a mercê daquela turba sanguinolenta que sentia especial prazer em judiar, esfolar e matar as pobres, desvalidas e desafortunadas famílias caipiras.

Cangaceiro e soldado achavam-se os senhores da vida e da morte dos que habitavam as terras dos cafundós dos sertões.

Positivamente, cangaço e volante foram desgraças que enlutaram o povo sertanejo. Que os digam as 83 mortes acontecidas no Estado de Sergipe, sendo 69 delas acontecidas no Sertão do São Francisco. Infelizmente, o nosso sofrido e heróico Poço Redondo teve a desventura de ver suas terras empapadas pelo sangue de 55 pessoas assassinadas pelas armas bandoleiras e pelos soldados de volante.

Os tempos de Lampião causaram estragos irreparáveis na vida do homem do campo. O flagelo do cangaço foi o responsável pela perda total da tranqüilidade e paz do simplório campônio que viu estupefato e indefeso o seu mundo sertanejo preso, dominado, oprimido e torturado pelos senhores do crime e pelos senhores da lei, tão ferozes como aqueles.

O sangue sertanejo embebeu a terra cabocla de Poço Redondo. Desesperada e indefesa, a população do lugarzinho de China deixou suas casas e se jogou pelo mundo, não ficando uma só família, um só morador naquela abandonada e triste povoação. O êxodo foi total. Por duas vezes – 1932 e 1937 – essa diáspora do povo de Poço Redondo aconteceu. As ruas e praças ficaram abandonadas, nelas não se via um ser humano. As taperinhas com suas portas e janelas abertas e os animais silvestres descansando em seus telheiros, sem nenhum receio de serem atacados pelos caçadores. Os pebas e tatus faziam suas moradias nas salas, varandas, quartos e cozinhas das casas desertas. Quem visse Poço Redondo estava vendo um cenário de dor e infinita tristeza.

Fugindo da maldição daqueles terríveis tempos, os tempos do cangaceiro e das volantes, os habitantes de Poço Redondo deixaram o seu mundo amado e foram viver em outros lugares, principalmente Canhoba, Telha, Propriá e a então Serra Negra do tenente João Maria de Carvalho.

Essa comovente aventura conhecida como “As carreiras” é um marco glorioso na história de Poço Redondo que após a morte de Lampião viu seu povo retornar e refazer o seu lugarzinho tornando-o com o andejar dos anos um lugar de respeito e destaque em todo Sertão do São Francisco.

Filho do sofrimento e da pobreza, mesmo assim, a coragem e a fé dos filhos e habitantes de Poço Redondo fizeram-no um grande e considerado município que é um dos fortes pilares do Sertão do São Francisco e de Sergipe.

Publicada: 19/06/2008 no JORNAL DA CIDADE

Uma seleção do melhor da Almanaque Brasil


Obra traz histórias publicadas nos últimos 10 anos da revista

Por Livia Deodato

No dia de ontem, mas no ano de 1940, o tenente Zé Rufino marcha mais de mil quilômetros atrás do último cangaceiro vivo. Todo o bando de Lampião havia morrido ou se entregado dois anos antes. Antes de pegar a estrada ao lado de sua mulher, Dadá, Corisco corta a cabeleira. Leva consigo apenas um revólver, 300 contos de réis e dois quilos de ouro. No dia 25 de maio, Zé Rufino finalmente o alcança, mas Corisco não se rende: "Sou homem pra morrer, não pra me entregar." É metralhado pelas costas. Ouro e dinheiro jamais foram vistos.

Há dez anos, Elifas Andreato e João Rocha Rodrigues se debruçam sobre as mais intrigantes e genuínas histórias que recontam o Brasil de Norte a Sul. Desde 1999, origem de expressões populares, efemérides dos 365 dias do ano (junto aos seus respectivos santos), características marcantes dos signos do zodíaco e particularidades só vistas em terras tupiniquins ilustram a revista Almanaque Brasil, distribuída em voos da TAM e por meio de assinaturas. "Os 150 mil exemplares mensais desaparecem em menos de 15 dias. É um sucesso danado", comemora Elifas.

Pois a parceria bem-sucedida entre a companhia aérea, cujo slogan é o Orgulho de Ser Brasileiro, e a Andreato Comunicação e Cultura acaba de render uma compilação que reúne os mais relevantes fatos publicados nesta década. Brasil - Almanaque de Cultura Popular, que terá lançamento fechado para convidados hoje no MAM e já se encontra disponível nas livrarias, é uma espécie de "melhores momentos" das dezenas publicadas mês a mês desde 1999. "Extraímos o que achamos mais interessante, sem deixar de contemplar as efemérides sempre presentes em almanaques, assim como as brincadeiras como, por exemplo, a seção intitulada Estação Colheita, em que apresenta o que ?se colhe? em cada mês", relata Elifas. "Se antes era retratada a visão dos sertanejos, agora é comprovação científica", diverte-se. Em tempo: até o dia 31 é época de laranja, pimentão verde, seriguela e tangerina.

Logo após a apresentação de Ziraldo, tão divertida quanto todo o almanaque, é destrinchada a história dessa publicação no mundo e no Brasil - a etimologia teria vindo do árabe al-manakh, lugar onde os camelos se ajoelham para beber água em meio a uma viagem. A crônica Como se Inventaram os Almanaques, escrita por Machado de Assis em 1890, também presente na obra, profetiza: "E hão de chover almanaques. O Tempo os imprime, Esperança os edita; é toda a oficina da vida."

Serviço
Brasil - Almanaque de Cultura Popular. De Elifas Andreato e João Rocha Rodrigues. Ediouro. 256 pág.
R$ 54,90. MAM. Parque do Ibirapuera, portão 3. Hoje, 20 h, (Só para convidados).

FONTE: Estadão

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Lugares da memória

Inaugurado o Mini Museu de Alagadiço


Foto Antonio Correia Sobrinho



Eu e o confrade Marcelo Rocha estivemos presente sábado passado (23/05) na cerimônia de inauguração do "Mini Museu do Cangaço" idealizado e mantido pelo escritor Sergipano Antônio Porfírio, autor do Livro "Lampião e Zé Baiano no povoado Alagadiço".

Evento este que mais uma vez movimentou a vida pacata da localidade, prestigiado por alguns pesquisadores e amantes do Cangaço além de diversas autoridades locais.

O mini museu tem em anexo uma pequena e valiosa Biblioteca contendo quase que 60% de literatura Sergipana, com destaque para a obra completa de Tobias Barreto, além de trabalhos de meus conterrâneos, os lagartenses Sílvio Romero, Laudelino Freire e Joel Silveira.



Pelas fotos acima os amigos vão notar e reprovar o acesso "indevido" que tivemos ás peças apresentadas, o contato foi inevitável, também não concordamos. Apesar de não serem "comprovadamente" utilizadas pelo cangaço elas não deveriam estar expostas sem proteção de uma redoma ou vitrine, os amigos sabem que o contato com o suor e outras substâncias do ar aceleram o processo de oxidação dos metais que de fato tem mais de setenta anos.

Detalhes a parte, parabenizamos mais esta ação do confrade Porfírio que vem ampliar e dignificar ainda mais a rota do cangaço em Sergipe. Tudo indica que em Julho ocorrerá a segunda edição do encontro Cultural de Alagadiço com shows artísticos, Grupos Folclóricos além de presenças e palestras de importantes figuras e estudiosos do cangaço.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Personagens históricos do Cariri cearense


Os Macedo
Melito Sampaio Alencar e seus irmãos, Brigadeiro José Sampaio Macedo e Dr.Otacílio Macedo são responsáveis pelas melhores estórias do Crato.


Dr. Otacílio
Todos muito inteligentes, dotados de um humor irônico, sarcástico.O Melito contava suas piadas ou fazia suas presepadas extremamente sério. Não ria de forma nenhuma. Só interiormente! Costumava fazer ponto na Praça Siqueira Campos pela manhã. Era produtor, dono de engenho.O Brigadeiro era reformado da Aeronáutica, tendo sido o primeiro comandante da Base Aérea de Fortaleza. Participou da Revolução de 32, como legalista, combatendo as forças paulistas com ataques aéreos.  

Em 1934 comandou uma tropa de 54 homens que tentou prender o famoso Lampião.

Chegou a travar tiroteio, sendo atingido no tornozelo, deixando-o com uma seqüela. Lembro-me, bem menino, tê-lo visto fazendo rasantes no Crato, dando “loops” e “parafusos”. Voava quase na vertical, parava o motor e o avião vinha caindo em parafuso. Era a chamada “folha seca”. Tudo isso em teco-teco! Aliás, o primeiro pouso de avião no Crato foi na década de trinta, pilotado pelo Brigadeiro.O avião ainda estava taxiando, quando populares correram para junto do avião.

Um deles, parente do Brigadeiro, foi degolado pelo avião. Outra façanha do Brigadeiro foi estabelecer as bases para a implantação do Correio Aéreo Nacional, juntamente com o Marechal Casimiro Montenegro Filho. Enquanto o, então, tenente Montenegro vinha estabelecendo as bases do sul para o Ceará, o Brigadeiro fazia o percurso contrário. Também era produtor, no Crato, dono de engenho.

O Dr. Otacílio era médico, excelente orador e jogador profissional de baralho. Mas a sua grande vocação mesmo era o jornalismo. Patrono da cadeira nº 13 do Instituto Cultural do Cariri. Ficou famosa a entrevista que ele conseguiu com o Lampião, quando esteve em Juazeiro do Norte. Foi a melhor entrevista concedida pelo famoso cangaceiro. Os irmãos Macedo tinham mesmo uma tendência a envolver-se com o Lampião...

Brigadeiro e Melito.
O interessante é que não se falavam entre si, mas não deixavam de participar das conversas, na praça. Com um detalhe: para se dirigirem um ao outro, precisavam de um “intérprete”. Caso o Brigadeiro quisesse dizer alguma coisa para o Melito, falava para o “intérprete”. Este repetia tudo, mesmo estando a uma distância de menos de meio metro um do outro. Em seguida o Melito respondia, e o “intérprete” repassava para o Brigadeiro...O Luís conviveu muito de perto com todos eles. Recorda-se com muito carinho das estórias dos Macedo.

O Brigadeiro José Macedo fez muita história no Crato. Era uma figura polêmica e não fazia questão de contemporizar. Não gostava nem um pouco do Padre Cícero. Por isso diziam que ele havia bombardeado o acampamento do Caldeirão, do Beato José Lourenço, apadrinhado do Padre Cícero.

Nas conversas, na Praça Siqueira Campos, quando questionado, dizia irritado:-  
“Que nada! Eu lá joguei bomba naqueles fanáticos! O que eu fiz foi dar uns vôos rasantes, dizer muitos desaforos e jogar uns panfletos. Naquele tempo os aviões nem carregavam bombas. Além do mais a topografia do local não permitia vôos para bombardeamentos”.

Fonte: http://sonocrato.blogspot.com/

domingo, 17 de maio de 2009

Guerra no Sertão sergipano

A batalha de Maranduba
Em princípios de janeiro de 1932, na fazenda Maranduba, no sertão do Sergipe, Lampião repetiu o fato militar da Serra Grande, em 1926, ao derrotar uma numerosa força militar, integrada por famosos combatentes contra o cangaço.


Fotos de Marcos Carvalho

Na opinião de um desses destacados militares, o Tenente Manoel Neto, da força pernambucana, em Maranduba “ele nunca tinha visto tanta bala como viu ali”. A intensidade do tiroteio travado entre Lampião e o seu bando e as forças militares foi de tal intensidade que um contemporâneo dos acontecimentos registrou o fato de que “uma coisa que foi muito comentada e com curiosidade, foi que no local em que aconteceu o fogo de Maranduba, durante vários anos, das árvores e dos matos rasteiros não ficaram folhas. Tudo era preto, como se tivesse passado um grande fogo. As árvores ficaram completamente descascadas de cima abaixo, de balas”.


Foto de Marcos Carvalho

Tal como ocorrido em Serra Grande, Lampião preparou uma emboscada com o objetivo de liquidar, de uma só vez, todo o efetivo militar. Mais uma vez, os chefes da força policial subestimaram a competência de Lampião e acreditaram que a superioridade que detinham em homens e armas seria um fator de desequilíbrio na batalha.

Alguns historiadores tentam "minimizar" a vitória obtida por Lampião depois de uma feroz batalha, admitindo, apenas, de que, no final das contas, houve “perdas humanas tanto entre os cangaceiros como entre as forças volantes, porém com maior prejuízo para estas ...”

Para que se tenha uma idéia do que representou esta batalha para ambos os lados e para a história das lutas sociais do Nordeste, dois pontos devem ser ressaltados:

O primeiro ponto importante refere-se à participação, nesta batalha, dos aguerridos e temíveis Nazarenos. Os nazarenos, uma força policial dedicada em tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e seu bando, já eram lendários nos sertões nordestinos, por suas ações militares. Nesta batalha participaram sob o comando do Tenente Manoel Neto.

O segundo ponto a ser destacado é que, apesar da longa, dolorosa e sangrenta campanha contra Lampião e da experiência militar adquirida, mais uma vez os chefes militares deram provas de que sua inteligência sempre ficou abaixo dos arroubos da valentia. A raiva, a fúria e a arrogância foram confrontadas com o sangue-frio, a paciência e a inteligência de Lampião. Rodrigues de Carvalho chegou a afirmar, analisando estas e outras batalhas que Lampião tinha praticado “façanhas de deixar muito curso do Estado Maior com água na boca”.

No caso específico de Maranduba, o historiador Rodrigues de Carvalho não hesita em afirmar que, apesar da superioridade em homens e armas, por parte das forças militares, Lampião demonstrou uma superioridade tática sobre seus adversários. Escreve ele: “E a verdade deve ser dita: quem primeiro abandonou o campo de luta foi a força”. E, mais adiante: “O fato é que durante a extensão da tremenda refrega, que foi por toda a tarde, pode dizer-se sem medo de cometer injustiça, o domínio da situação pertenceu ao ardiloso facínora. Estava todo o tempo, como se diz vulgarmente, serrando de cima”

O cangaceiro Angelo Roque (Labareda) que participou nesta batalha, em depoimento prestado a Estácio Lima e publicado no livro O Mundo Estranho dos Cangaceiros, descreve o que aconteceu, neste dia, no seu linguajar típico:

“... Nóis cheguêmo na caatinga de Maranduba, pru vorta di maio dia, i tratemo di discansá i fazê fogo prôs dicumê, i nóis armoçá. Mas a gente num si descôidava um tico, i nóis sabia qui as volante andava pirigosa. Inquanto nóis discansava, botemo imboscada forte, di déiz cabra pra atacá us macaco qui si proximasse.
Nóis cunhicia us terreno daqueles mundão, parmo a parmo. Us macaco num sabia tanto cuma nóis. Todos buraco, pedreguio, levação, pé di pau, pru perto, nóis sabia di ôio-fechado, i pudia tirá di pontaria sem sê vistado. Nisso, vem cheganou’a das maió macacada qui tivemos di infrentá. I us cumandante todo di dispusição prá daná: Manué Neto, qui us cangacêro tamém chamava Mané Fumaça, Odilon, Eucride, Arconso i Afonso Frô.

Fotos: Sérgio Augusto de Souza Dantas
Tamém um Noguêra. Nesse bucadão di macaco tava u Capitão ou Tenente Liberato, du izérto. Dizia us povo qui ele era duro di ruê. I era mesmo. Brigava cuma gente grande, i marvado cumo minino. Mas porém, valente cumo u capêta. Di nada sirvia a gente gostá i tratá com côidado um mano qui êle tinha na Serra Nêga. Essa Força toda dus macaco si pegô mais nóis na Maranduba. Nóis era trinta e dois cabra bom.
 U Capitão Virgulino tinha di junto, nessa brigada, us principá cangacêro: Virgino, Izequié, Zé Baiano, Luiz Pêdo i seu criado Labareda. Dus maiorá só fartava mesmo Curisco sempre gostô di trabaiá sozinho, num grupo isculido di cangacêro, mais Dadá. Briguemo na Maranduba a tarde toda i nóis cum as vantage cumpreta das pusição, apôis us macaco num pudia vê nóis. A volante di Nazaré deve tê murrido quaji toda. Caiu, tamém, matado di ua vêis, um dus Frô, qui si bem mi alembro, foi u Afonso. Cumpade Lampião chegô pra di junto do finado i abriu di faca a capanga dêle, i achô um papé qui tinha iscrito um decreto dizeno qu ele já tinha dado vintei quatro combate cum u cumpade Lampião.
Veio morrê nu vinte i cinco. A valia qui tivemo nessa brigada foi us iscundirijo. Morrero, aí, trêiz cangacêro i trêiz ficô baliado. Us istrago qui fizemo nessa brigada foi danado ! Matemo macaco di horrô !”

Do depoimento de Labareda e de outros testemunhos da batalha de Maranduba,alguns pontos devem ser destacados:
1. O completo conhecimento que Lampião e os cangaceiros tinham do terreno onde foi travado o combate.
2. A competência tática de Lampião em contraposição à incompetência dos chefes militares.
3. A participação dos nazarenos, comandados pelo Tenente Manoel Neto, um veterano nas lutas contra Lampião e o cangaço.
4. As baixas entre nazarenos: seis mortos e oito feridos.
5. As baixas entre os cangaceiros: três mortos e quatro feridos.
6. Um detalhe importante: as tropas militares eram superiores em número, na proporção de três para um.

Enfim, a batalha de Maranduba constituiu-se num acontecimento invulgar na história recente do Nordeste. Na opinião de Rodrigues de Carvalho, este combate pode ser considerado como sendo o mais “renhido e porfiado de todos os cheques armados desta controvertida campanha contra o banditismo no eixo Sergipe-Bahia. Foi uma chacina horrível pelas deploráveis consequências que tivera para as forças legais empenhadas no combate. O número de baixas fatais foi muito grande, exagerado mesmo, em relação ao número de combatentes empenhados na refrega”

Diante da tragédia que significou esta derrota das forças militares diante de Lampião e seu grupo, a historiografia oficial tenta minimizar o fato. O Capitão João Bezerra, personagem central do nebuloso episódio de Angicos, no seu livro de memórias, ao referir-se ao episódio de Maranduba, afirma apenas que neste local foi travado um “encarniçado combate com grandes perdas de parte a parte entre mortos e feridos”. Quase a seguir, duas páginas adiante, ele retifica a sua informação, dizendo que Lampião tinha sido “destroçado em Maranduba”.

Fonte: Souza, Jovenildo Pinheiro, em Sertão Sangrento: Luta e Resistência.
Transcrição: Ronnyeri (Comunidade Cangaço Discussão Técnica).

------------------------------------------------------------------------------------- 
Adendos por Ivanildo Silveira:

Vê-se, nas fotos abaixo, que o "Combate", aconteceu quase em campo aberto. Lampião, como grande estrategista que era, postou seus homens, entrincheirados em "Sete Pés de Umbu", de modo que os soldados ao entrarem no campo de fogo, ficaram cercados. de acordo com os ensinamentos do renomado escritor /pesquisador do Cangaço Dr. Sergio Augusto de Souza Dantas em seu livro "Lampião: Entre a Espada e a Lei pág 313, ainda existem, remanescentes, dois pés de umbuzeiro, no local onde aconteceu o Combate. Eis as arvores abaixo.


 Foto: Sérgio Augusto de Souza Dantas
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Correções de suma importância, fornecidas por Hildebrando Nogueira Neto (Netinho)

Amigos, tenho que fazer algumas ressalvas sobre o depoimento de Angelo Roque e do historiador Rodrigues de Carvalho:

1) Não houve seis mortos e oito feridos entre os Nazarenos.
De Nazaré morreram 4 homens: Hercílio de Souza Nogueira e seu irmão Adalgiso de Souza Nogueira (primos dos irmãos Flor), João Cavalcanti de Albuquerque (tio de Neco Gregório) e Antônio Benedito da Silva (irmão por parte de mãe de Lulu Nogueira, filho de Odilon Flor).

2) Não houve feridos entre os Nazarenos. Alguns componentes da Força de Pernambuco, oriundos de diversas cidades do sertão pernambucano.

3) Afonso Flor (irmão de Manoel Neto) faleceu em Recife na Revolução de 30 numa luta contra revoltosos vindo da Paraíba, portanto não poderia estar em Maranduba em 1932, como afirma o bandido Angelo Roque.

4) Os irmãos Odilon e Euclides Flor não estavam em Sergipe no início do ano de 1932. Se encontravam em Alagoas e Pernambuco respectivamente.

História dos Volantes

Cel. Zé Rufino - "O Matador de Cangaceiros"

Por Ângelo Osmiro Barreto.

José Osório de Farias, o afamado Zé Rufino, conheceu LAMPIÃO- Rei do cangaço quando ainda era um sanfoneiro, percorrendo o sertão brabo das ribeiras do Pajéu e adjacências, no sertão de Pernambuco, estado onde nasceu.

O primeiro encontro entre os dois valentes sertanejos deu-se nas terras do município de Salgueiro. Zé Rufino tocava numa festa de casamento e LAMPIÃO era um dos convidados, a empatia do chefe dos cangaceiros com o sanfoneiro foi imediata. LAMPIÃO convidou Zé Rufino para ingressar no bando. Com muita habilidade o futuro matador de cangaceiros disse que não podia acompanhar o grupo, pois sua mãe já era idosa e como "arrimo" de família tinha os irmãos para criar, além de tudo não gostava de armas, o capitão o desculpasse, mas não tinha nascido para aquela vida.

Passado algum tempo, aconteceu um novo encontro com o rei do cangaço, mais uma vez LAMPIÃO convidou Zé Rufino para acompanhá-lo. Com medo de negar novamente um pedido do Capitão, disse ao rei do cangaço que antes precisaria solucionar alguns problemas familiares; como iria deixar sua mãe e seus irmãos? Tinha que resolver essas questões.

LAMPIÃO o liberou, entretanto marcou uma data para sua apresentação e dessa vez não aceitaria desculpas. Zé Rufino agora tinha que se decidir, ,ou entraria no cangaço para acompanhar aquelas verdadeiras feras humanas ou iria se apresentar como soldado na volante, o que pouco diferenciava de um cangaceiro, como sanfonciro não poderia mais ficar.

LAMPIÃO não o perdoaria. A decisão foi difícil, mas Zé Rufino optou por entrar na polícia, seu destino agora seria perseguir cangaceiros. Zé Rufino foi um dos mais temidos perseguidor de cangaceiros, chegou rapidamente ao oficialato, alcançando a posição de Coronel da Policia Militar da Bahia.

Consta na literatura sobre o cangaço cerca de vinte e duas mortes feitas pela volante comandada por Zé Rufino. Sua volante ficou famosa no sertão por cortar as cabeças dos cangaceiros mortos em combate. Sua façanha mais conhecida foi à morte do cangaceiro Corisco o "Diabo Louro", um dos mais famosos cangaceiros que se tem noticia. Marcando definitivamente ente o fim do cangaço.

O Coronel Zé Rufino, combateu na volante baiana até o extermínio do cangaço.Terminada a campanha contra o banditismo, “comprou algumas fazendas na região de Geremoabo” no estado da Bahia, aonde já idoso veio a falecer.

*Ângelo é Pesquisador e escritor do Cangaço. Membro Efetivo da ALMECE/CE 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Afim de enriquecer, eis algumas informações complementares de nosso colaborador Ivanildo Silveira .

Em 1936, em um período em que Lampião já vivia uma discreta decadência, Zé Rufino eliminou o bando de Mariano, um cangaceiro da velha guarda que acompanhava o Rei do Cangaço há 13 anos. O bando foi destruído em Cangaleixo (SE), o que ajudou a torná-lo o maior matador de cangaceiros.
Segundo afirmou ao cineasta Paulo Gil Soares, Ele eliminou cerca de vinte integrantes dos bandos ligados a Lampião. Os homens de Mariano usavam roupas muito ricas, com peças de ouro e moedas de prata nos chapéus de couro. As cabeças dos bandoleiros foram cortadas e expostas em vários locais com o objetivo de provar à população que eles haviam sido eliminados.
Um ano depois Zé Rufino, um simples civil (sanfoneiro) contratado para combater os cangaceiros, enfrentou os grupos de Lampião e Zé Sereno no episódio conhecido como Fogo de Domingos João, na Fazenda Crauá. Aparentemente, esse foi o último combate de Lampião. O cangaceiro “ BARRA NOVA” foi morto no confronto e o soldado da volante Antônio Izidoro saiu ferido no braço.
De acordo com a descrição do pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo, o combate se deu da seguinte forma:
Rosalvo Marinho, amigo e coiteiro de Lampião, chegou à fazenda correndo e avisou os cangaceiros:
"Foge que vem aí! Sai daí! Sai já, que a força vem aí!"
Lampião, calmamente, perguntou:
"Força de quem?"
O coiteiro respondeu que era de Zé Rufino. Mais tenso, Zé Sereno ordenou a seu bando que se equipasse (pegasse as armas e demais equipamentos). Lampião, ainda mais tranqüilo, disse:
"Se a força vier, nós vamos brigar; se não vier, vamos comer. A comida já está no fogo e não vamos deixar pros macacos. Ou comemos ou briguemos."
Pouco tempo depois rajadas de metralhadora espalharam as brasas do fogo e atingiram nas costas o cangaceiro BARRA NOVA, cozinheiro de plantão. O cangaceiro“NOVO TEMPO” também foi ferido. Os cangaceiros fugiram depois de garantir a retirada de Maria Bonita e das cangaceiras Sila e Dulce. 

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Conversa ao pé da cerca

 Cangaceiros: Primeiros e últimos

Transcrevo mais um excelente e utilíssimo tópico da comunidade Lampião, Grande rei do sertão. Aqui nosso confrade Geziel Moura após a leitura de um texto sobre Lucas da Feira dirigiu um questionamento, aos demais participantes e via email para o ilustre pesquisador Potiguar Sérgio Augusto Souza Dantas.

O texto enviado por Sérgio Dantas como bem destacado por nosso amigo Ivanildo Silveira foi uma "aula" digna de méritos na história do cangaço, livre de quaisquer dúvidas, totalmente encontrada em tempo e lugar. Confiram, copiem que é matéria nobre.


A Pergunta de Geziel:


É imperioso que se busque localizar no tempo e no espaço os episódios históricos, para que se possa contextualizá-los a outros momentos históricos para uma melhor compreensão do fenômeno estudado de forma global, o cangaço não fica fora desta análise e portanto perguntaria aos especialistas e estudantes desta comuna:  

Como podemos de maneira razoável (Reconheço a complexidade que a pergunta pode trazer), estabelecer uma marco para o início do cangaço? Quais seus primeiros personagens?Será que o movimento acabou mesmo com Corisco?Quais as prováveis motivações?


A resposta de Sérgio:
Amigo, é praticamente impossível em razão da falta de registros.

Frederico Pernambucano faz algumas referências a um holandês (cujo nome não recordo), que já atuava com um pequeno bando de salteadores. Mas entendo que isso não é ainda cangaço.

Há referências também, encontradas por mim no Arquivo Público de Pernambuco, onde o Governador da então Capitania, Duarte Coelho, escrevia ao rei pedindo um melhor processo seletivo em relação aos colonos que aqui eram enviados, pois os que vinham, em maioria, se ocupavam de viver ocultos pelos canaviais para saquear quem bem lhes aprouvesse.

Assim, é complexo definir data. Com característica de cangaceiro, somente o famoso ‘Cabeleira’, que já andava em bando, praticando crimes diversos. E se acabou com Corisco, o meu entendimento é sim, pois banditismo rural não é cangaço como ‘modo de vida’, com indumentarias próprias, modo de agir específico, etc.

Houve tentativas de retorno, como você pode ver no próprio Guerreiros do Sol, mas não vingaram.


2ª mensagem:

Ainda complementando o e-mail que enviei, disse que existiram algumas tentativas frustradas de retomada do cangaço, mas que não vingaram. Não declinei nomes porque estava de saída , mas acho importante acrescentar o seguinte: Pelo menos dois nomes ficaram famosos como espécies de cangaceiros ‘pós-Lampiônicos’.Um deles, ANTÔNIO DE DINA, proveniente da Bahia em fins da década de 40, foi para Pernambuco e ali arregimentou alguns sertanejos broncos e violentos, sob promessa de conseguirem dinheiro fácil em trabalho de ‘empreitada’. A turma poderia ser bronca, mas não era burra. Em pouco tempo, a matutada percebeu que o cidadão era sanguinário e extorquia dinheiro sob ameaça. Alguns deixaram o grupo e outros o assassinaram, desaparecendo pela caatinga. Há um inquérito que apura a morte do mesmo, porém não se há referência a qualquer nome, a não ser apelidos, mesmo assim de forma imprecisa.

Um outro, classificado temerariamente por alguns de ‘cangaceiro’ seria FLORO GOMES, que atuou já em fins da década de 50 e início de 1960. Não teve mais que 5 homens sob seu comando e se restringiu a área da bacia do rio Ipanema (Pernambuco e Alagoas). Na verdade, usou o mesmo pretexto de Lampião (a morte do pai), para cometer crimes os mais diversos, mas sua briga principal era com a família Vieira, de Olivença, Alagoas, terra natal da estudiosa e escritora Luitgarde Oliveira. É verdade que o cabra usava bornais e chapéu de couro (não no estilo dos homens da época de Lampião), mas esteve longe de ser o ‘cangaceiro’ pela definição clássica. Floro morreu assassinado em 1971, bem depois de ter dissolvido sua pequena falange de bandidos comuns.

Se for se considerar, no meu entender, qualquer grupo de bandidos que saqueia, rouba bancos ou mata por encomenda pelo vasto sertão brasileiro, teremos, então, cangaço até hoje. Isso é uma generalização perigosa.O cangaço foi fruto da ignorância e da ausência de Estado, o qual abandonou miseravelmente o sertão. Hoje a realidade é diferente. O banditismo rural de hoje baseia-se em esquemas organizados, não são ligados a vinganças pessoais e há brigas constantes entre facções rivais (isso não havia na época de Lampião, um aglutinador por natureza).

Assim é preciso estabelecer ‘linhas’ que definem o cangaço tradicional, senão, qualquer salteador de hoje, desde que atue no sertão nordestino, pode ser considerado como tal. Por isso acho que o fim do esquema tradicional, baseado (mesmo que muitas vezes de forma fictícia) em um ideal de VINGANÇA, deu-se mesmo com a morte de Corisco.

Abraço.

PROGRAMAÇÃO - VII ENCONTRO NORDESTINO DE XAXADO


A Fundação Cultural Cabras de Lampião / Ponto de Cultura Artes do Cangaço – incentivada pelo FUNCULTURA/FUNDARPE/SECRETARIA DE EDUCAÇÃO/GOVERNO DE PERNAMBUCO realiza o VII ENCONTRO NORDESTINO DE XAXADO, nos dias 05, 06 e 07 DE JUNHO/09, na busca de fortalecer a identidade cultural e manter viva a história do homem sertanejo. A Terra de Lampião é o local que será palco deste memorável evento, que fará o sertão estremecer e a poeira subir, reunindo cangaceiros dos mais distantes rincões do Nordeste.

PROGRAMAÇÃO

05 de Junho de 2009 (sexta-feira)

09 horas:
Ø Apresentações na Área de Alimentação da Feira Livre:
- Grupo Artefatos – Moreno/PE.
- Grupo de Xaxado Maria Bonita – Serra Talhada/PE.

15 horas:
Ø Exibição do filme CORISCO – O DIABO LOIRO, no Museu do Cangaço.

18h30min:
Ø Desfile dos grupos de xaxado – saindo do Patamar da Igreja de Nossa Senhora da Penha - pelas principais ruas da cidade.
Ø Abertura solene.

20 horas:
Ø Grupo Cangaceiros de Paulo Afonso - Paulo Afonso/BA.
Ø Grupo Peneirou Xerém – Aracajú/SE.
Ø Grupo de Danças Gilvan Santos - Serra Talhada/PE.
Ø Grupo de Xaxado Cabras de Lampião - Serra Talhada – PE.
Ø Grupo Bandoleiros do Sertão – Triunfo/PB.
Ø Grupo Artefatos – Moreno/PE.
Ø Apresentação Musical com Os Vilarim.

06 de Junho de 2009 (SÁBADO)

09 horas:
Ø Exibição do Documentário LAMPIÃO – DO HOMEM AO MITO, no Museu do Cangaço.

10 horas:
Ø Mesa Redonda “LAMPIÃO – SEU LEGADO NA CULTURA” com Adriano Marcena, Dierson Ribeiro, Giovanni Sá e Dolores Moreira, no Museu do Cangaço.

15 horas:
Ø Forró no Palhoção da Estação com Forró Pé de Serra Talhada/Andanças.

19h30min:
Ø Grupo Manoel Messias – Serra Talhada/PE.
Ø Grupo Peneirou Xerém – Aracajú/SE.
Ø Grupo de Xaxado Maria Bonita – Serra Talhada/PE.
Ø Associação Paulo-Afonsina de Danças e Teatro – Paulo Afonso/BA.
Ø Grupo Bando de Lampião – Touros/RN.
Ø Grupo de Xaxado Cangaceiros do Sertão – Santarém/PB.
Ø Apresentação Musical com Epitácio Pessoa, Humberto Cellus e Produto Nordestino.

07 de Junho de 2009 (DOMINGO)

09 horas:
Ø Passeio Ecológico/Histórico NAS PEGADAS DE LAMPIÃO, no Sítio Passagem das Pedras, onde nasceu Lampião.

10 horas:
Ø Forró no Clube da Fazenda São Miguel.

16 horas:
Ø Exibição do documentário LAMPIÃO, UMA HISTÓRIA DE AMOR E SANGUE, no Museu do Cangaço.

19h30min:
Ø Grupo de Danças Bom Jesus - Serra Talhada/PE.
Ø Grupo de Xaxado Luiz Pedro – Triunfo/PE.
Ø Grupo Pegadas de Lampião – Santa Terezinha/PB.
Ø Grupo de Xaxado Maria Bonita – Umarí/CE.
Ø Grupo Filhos do Sertão – Patos/PB.
Ø Apresentação Musical com Assisão e a Banda Nêga Fogosa.

Durante a programação, haverá:
Ø Feira de livros e cordéis.
Ø Feira de artesanato.
Ø Área de Alimentação.
Ø Barracas de bebidas.
Ø Parques de diversões.
Ø Visitação aos pontos turísticos da cidade: museus, igrejas, praças, mercado público, serra que deu origem ao nome da cidade, feira livre.


Maiores informações:
Fundação Cultural Cabras de Lampião
Ponto de Cultura Artes do Cangaço
Serra Talhada – PE.
(87) 3831 2041 / 9938 6035 / 9616 1959

Roubo das telas de Portinari


Cangaceiro recuperado

As telas levadas no domingo e recuperadas no final da noite de ontem foram "Figura em Azul" (1923), de Tarsila, "Cangaceiro" (1956) (Imagem) e "Retrato de Maria" (1934), de Portinari, e "Crucificação de Jesus", de Teruz. Juntas, estão avaliadas em R$ 3 milhões.

Com um vaso de flores para simular a entrega de um presente no Dia das Mães, cerca de 15 homens invadiram a casa, que fica na rua Estados Unidos, nos Jardins (zona oeste de SP), e roubaram as telas. Para retirar as obras da moldura, os ladrões usaram uma espécie de faca --o que pode ter danificado as obras.

O grupo armado trancou duas moradoras e quatro funcionários em um dos cômodos, além dos quadros, levou uma quantia não especificada em dinheiro e joias. A ação teria durado uma hora e meia e a polícia informou que a quadrilha pode ter 20 ladrões.

Inicialmente, a polícia afirmou que os ladrões eram "amadores" e que provavelmente não tinham as obras como alvo do roubo. Posteriormente, os policiais mudaram a linha de investigação e afirmaram que os quadros eram o alvo principal da quadrilha.

A tela "Cangaceiro", 80x100, de Portinari está avaliada em singelos R$1,2 Milhões de reais.

FONTE: Paulo Toledo Piza para a Folha on line

terça-feira, 5 de maio de 2009

Paisagem de Interior

Cantor interpreta misto de Lampião e Raul Seixas
Por ANTÔNIO VICELMO Repórter

Crato/CE. Uma simbiose de Raul Seixas com Lampião. Com esta mistura de “rock and roll” e xaxado, o artista de rua Antônio Carlos Ricardo da Silva, conhecido por “Raul Lampião”, conquistou o público, fazendo publicidade de lojas nas ruas do Crato. O sincronismo dos dois personagens numa só pessoa chama a atenção dos transeuntes.

O biótipo, a barbicha, a voz e os trejeitos irreverentes são de Raul Seixas, o “Maluco Beleza”, que em suas letras musicais abordava, com igual desenvoltura, temas tão díspares quanto sentimentos humanos, críticas ao sistema político, esoterismo e agnosticismo. De chapéu de couro, cartucheira e alpercatas, ele incorpora o personagem Virgulino Ferreira, o “Rei do Cangaço”, símbolo maior do Nordeste cangaceiro.

Os dois personagens transformaram Antônio Carlos em um “show man”. Diariamente, ele empurra um carro de som no centro comercial do Crato, fazendo publicidade. A propaganda é intercalada com músicas, piadas, dublagens e comparações bíblicas. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Crato (CDL), Geraldo Pinheiro, que também anuncia com Raul Lampião, o estilo de publicidade atende, principalmente, os varejistas.

O Raul Lampião, como é conhecido, tem contrato com oito lojas. Cobra R$ 20,00 por uma hora de locução. No final do mês, dá para apurar em torno de R$ 500. “Tá bom demais”, comemora. Ele diz que o valor é o suficiente para sustentar a mulher. O artista de rua lembra que, no começo, tentou vender CDs piratas. Foi um desastre. A Polícia apreendia os produtos.

Enquanto fala e gesticula, Raul Lampião puxa de uma bolsa um litro d’água e toma alguns goles. Em seguida, desabafa: “Isso aqui é água da nascente do Crato, que eu trago lá de casa, a melhor água do mundo. Pouca gente tem a felicidade de tomar dessa água.”

O artista tem motivo de sobra para tanta felicidade. Ele mora no sítio Bebida Nova, localizado no sopé da Serra do Araripe, de onde se avista o vale do Cariri, Crato, Juazeiro e Barbalha. “Isso aqui é um paraíso, um cantinho de felicidade. A conquista da felicidade vem no aprendizado diário de viver sabendo aceitar e expressar os desejos e sentimentos, construindo os próprios projetos de vida e empenhando-se para realizá-los”, completa.

Início

A história de Raul Lampião começou em Fortaleza, no final da década de 1980, aos 14 anos de idade. Sob o impacto emocional da morte de Raul Seixas, em 1989, o menino rebelde, criado solto nas ruas da Capital cearense, tornou-se “cover” de Raul, mas sempre pensou em morar no Interior. Amante da natureza, foi para o Crato, onde encontrou a tranquilidade que procurava, mas não conseguiu “emplacar” o seu personagem Raul Seixas. Foi aí que surgiu a idéia de incorporar o personagem de Lampião que, segundo afirma, faz parte da história sertaneja.

Nas primeiras apresentações como “Rei do Cangaço”, não faltou gente para assistir, lembra o artista, acrescentando que, a partir daquele momento, descobriu que a saída era explorar a imagem de Lampião. Hoje, aos 35 anos de idade, ele só acalenta um sonho: quer ser radialista, “ou melhor, um comunicador”, como faz questão de esclarecer, para valorizar o seu sonho original.

Mais informações:
Artista de Rua Raul Lampião
Sítio Bebida Nova
Crato - CE
(88) 9261.6490

Eventos da Fundação Cabras de Lampião

Trupe de artistas populares percorre locais por onde passou Lampião, no Sertão

Em cada localidade visitada haverá apresentações culturais, oficinas e palestra.

Uma trupe de artistas vai percorrer o interior de Pernambuco numa caravana pelos locais por onde passou Lampião, o famoso Rei do Cangaço. No percurso, poetas, atores e artesãos semeiam cultura em oficinas e apresentações de dança e teatro.
Nas localidades, também haverá palestra com o historiador e escritor Anildomá Willans de Souza, que debaterá a vida de Lampião e a cultura nordestina. Além disso, será exibido o filme Lampião e Maria Bonita (1982), do diretor Paulo Afonso Grisolli.
A caravana é promovida pela Fundação Cultural Cabras de Lampião
.

Confira abaixo a programação completa e as localidades que serão visitadas pela caravana: Viagem ao Interior da Terra


Programação:

Oficinas de danças populares (xaxado, coco e frevo), iniciação ao teatro e pintura em pedras;-
apresentação do grupo de xaxado Cabras de Lampião;- apresentação do Mistura Pernambucana (frevo, caboclinho, ciranda, coco e reisado);- palestra sobre a vida de Lampião e a cultura nordestina com o historiador e escritor do cangaço - Anildomá Willans de Souza;-
Exibição do filme ‘Lampião e Maria Bonita’;- Declamação de poetas populares.


Roteiro:

Bernardo Vieira - 7 e 8 de maio; -Varzinha - 14 e 15 de maio; -São João do Barro Vermelho - 18 e 19 de junho; -Caiçarinha da Penha - 9 e 10 de julho; -Água Branca - 16 e 17 de julho; -Santa Rita - 6 e 7 de agosto; -Logradouro - 13 e 14 de agosto; -Fazenda Saco - 20 e 21 de agosto.

Pesquei em:  Pe360graus