O jornal noticiava a morte do cangaceiro Manoel Victor, após 7 anos de estripulias.
Manoel é considerado por alguns pesquisadores como o único cangaceiro comunista, pois teria se aliado ao partido comunista em 1934. Caso queiram saber mais sobre a história desse bandido que não era do bando de Lampião, pelo contrário, tinha inimizade com ele, basta pesquisar vídeos de canais sérios no youtube que contam a sua biografia.
Na foto estão, da esquerda para direita: Soldado Toinho Rocha, o cangaceiro Manoel Victor já morto, escorado para foto e o soldado Gerôncio Calaça.
Créditos: Guilherme Velame Wenzinger (Facebook Lampião Cangaço e Nordeste)
Era alta madrugada do dia
8 de julho de 1939 quando um grupo de homens fortemente armados chega a uma
modesta casa onde viviam os habitantes da fazenda Curral dos Altos, no município
de Bebedouro (Hoje Coronel João Sá – Ba), os bandidos invadem a residência com
facilidade, rendem os ocupantes do imóvel e iniciam a execução de um terrível
plano de vingança.
Logo, tiros de parabélum ecoam pela caatinga imersa na
escuridão da noite, três corpos caem mortos, são Olegário Bispo, filho da dona
da fazenda e dois viajantes, que seguiam para Paripiranga-BA e tomaram a
infeliz decisão de pernoitar ali, foram friamente mortos, eram Antônio Elias e
Nonato Terêncio.
O bando segue a sua romaria de crimes, viajam até a
fazenda Logradouro, no mesmo município, e lá assassinam Jovina Maria de Jesus para
logo em seguida, atear fogo em sua residência, deixando para trás uma noite de
crimes, uma cena digna dos momentos finais do cangaço, atuada pelo bando de Ângelo
Roque como uma vingança a uma suposta delação cometida por Josefa Bispo, que
resultou na morte de três integrantes do grupo, inclusive a companheiro do
chefe, Mariquinha.
A descrição que você acaba de ler, foi relatada nos autos
do processo contra Ângelo Roque, Benício Alves dos Santos (Saracura) e Domingos
Gregório (Deus-te-Guie), os cangaceiros que se entregaram em Paripiranga em
abril de 1940 e seguiram para Salvador onde cumpriram pena pelos seus crimes.
Uma vez estabelecido o roteiro dos crimes que levaram à
condenação dos três cangaceiros acima citados, me dedicarei a narrar os eventos
posteriores, mais especificamente, os episódios ligados ao julgamento desses,
tendo como base os processos de ambos.
O primeiro e mais polêmico elemento a ser analisado é o
local da realização do julgamento, visto que, no processo, consta claramente
que o julgamento em si, depoimento de testemunhas, condenação e sentença,
ocorreu na cidade de Jeremoabo entre 1940 e o final de 1942, como indicado no
trecho a seguir: “Sala da sessão do tribunal do júri em Jeremoabo, aos cinco
dias de novembro de 1942”, ou, ao finalizar um ato, o escrivão registra: “Dada
e passada nesta cidade de Jeremoabo aos 12 dias de novembro de 1942”, conforme
imagem abaixo:
Fonte: APEB
Existem outras
referências no texto que dão margem ao entendimento de que o julgamento em
questão tenha sido realizado, de fato, na famosa cidade de Jeremoabo, contudo,
existem alguns detalhes que precisam ser analisados antes de se chegar a qualquer
conclusão. O primeiro deles, com efeito, é o fato de esse evento, se realizado
em Jeremoabo como consta do processo, não ter deixado nenhuma outra evidência,
nem fotos ou registros em jornais da época nem mesmo ter sido rememorado pela
memória popular.
Pensando por esse
viés, percebemos o quão problemático é o ofício de contar a história, posto que
a fonte para esse trabalho é um documento oficial, assinado por autoridades
conhecidas como, para ficar em um exemplo, o juiz Antônio Ferreira de Brito.
A cronologia dos fatos indica que no dia 04 de fevereiro
do mesmo ano é emitida a Carta de Guia com uma condenação de 30 anos de prisão,
é esse documento que define o número do interno Ângelo Roque da Costa como 1522.
No
dia 04 de novembro de 1942 sai a condenação pelo assassinato de Olegário Bispo
da Conceição, Antônio Elias e Nonato Terêncio, no dia seguinte, 05 de novembro,
sai a sentença de mais 30 anos pelo assassinato de Jovina Maria de Jesus, na
fazenda logradouro e incendiado à casa dela.
Em
12 de novembro de 1942, o Juiz Antônio Ferreira de Brito, decide determinar que
o réu cumpra os 30 anos de prisão apenas por esse homicídio seguido de incêndio,
nesse mesmo dia o escrivão, Manoel Luiz Gonzaga, finaliza o manuscrito
É
sabido que em 1941, pelo menos, esses homens já estavam presos em salvador e é
possível que o julgamento em questão tenha sido realizado lá e registrado como tendo
ocorrido em Jeremoabo, mas a hipótese, a meu ver, mais plausível, é que o júri tenha
se reunido de fato em Jeremoabo sem a presença dos réus.
A
inconclusão do tema, todavia, não invalida a importância histórica do documento
de posse do Arquivo Público do Estado da Bahia pois, através deste, foi possível
reunir muitas informações acerca dos procedimentos envolvendo os ex-cangaceiros
enquanto estiveram na capital baiana.
Sabe-se
que os 30 anos de prisão a que foram condenados não foram cumpridos por nenhum
dos três cangaceiros citados, contudo, o que era desconhecido até o presente
momento, era o documento de comutação das penas, emitido pelo gabinete do presidente
Eurico Gaspar Dutra a 18 de setembro de 1947:
Fonte: APEB
Conforme
se lê no fragmento acima, o presidente do conselho penitenciário, Estácio de
Lima, emitiu relatório favorável à comutação das penas, relatório utilizado
como base para a decisão de comutar as penas dos internos.
A
conversão das penas vai surpreender o leitor, visto que o chefe do bando, Ângelo
Roque, teve sua pena de 30 anos reduzida para 10 anos, ao passo que seus dois
ex-comandados, Saracura e Deus-te-guie, de acordo com o mesmo documento,
tiveram suas sentenças reduzidas para 12 anos cada, pegando dois anos a mais que
o antigo chefe.
Por Moisés
Santos Reis Amaral, Professor há 21 anos do Município de Fátima, Licenciado em
História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira,
Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das
obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista e da HQ
Histórias do Cangaço e dos livros Fátima: Traços da sua Histórias e O
Embaixador da Paz.
Primeiro processo em que Lampião aparece como réu é entregue ao acervo da Justiça de Pernambuco
Documento marca período em que Lampião assumiu comando do bando que fazia parte, na década de 1920.
Por Iris Costa, g1 PE
A história pernambucana ganhou um novo capítulo nesta semana. Foi entregue ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) o primeiro processo judicial no qual Lampião aparece como réu. São aproximadamente 1.400 páginas escritas à mão, com detalhes da época do Rei do Cangaço.
No documento, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando são acusados pelo homicídio de Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, um coronel influente e reconhecido líder político da época. O crime, contado em detalhes no processo, aconteceu em 20 de outubro de 1922, em São José do Belmonte, no Sertão do estado.
“Luiz Gonzaga veio da cidade de Floresta e se tornou um comerciante próspero em São José do Belmonte. Aconteceram algumas desavenças com as lideranças políticas do município e, devido a isso, uma dessas lideranças contratou o bando de Lampião para fazer essa empreitada contra o comerciante”, explicou o desembargador Alexandre Assunção, presidente da Comissão de Gestão e Preservação da Memória do TJPE.
Segundo o magistrado, o processo incluiu muitas pessoas que faziam parte do bando de Lampião. Foram 13 anos em andamento na Justiça até que acontecesse o primeiro julgamento, mas Virgulino nunca chegou a ser condenado.
O nome de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva, aparece na página inicial do processo entre os indiciados — Foto: Iris Costa/g1
“Quarenta e duas pessoas foram denunciadas, mas nem todas foram levadas a julgamento porque morreram antes. Eles foram pronunciados, que é a primeira fase do processo de homicídio. Como o material é muito frágil, nós ainda não fizemos a análise completa. Mas já sabemos que aconteceu um julgamento em 1935. Lampião morreu antes da condenação, porque era necessária a presença dele para ocorrer o julgamento”, disse o desembargador.
O material do processo foi entregue à Comissão de Gestão da Memória do TJPE e já está em fase de limpeza e conservação. Embora o manuscrito tenha desbotado pela ação natural do tempo, ele ainda apresenta boas condições de leitura e deve ser digitalizado e disponibilizado para consulta pelo Memorial de Justiça.
Mônica Pádua é a historiadora chefe do Memorial da Justiça de Pernambuco. De acordo com ela, o processo era procurado por pesquisadores porque marca o início da trajetória de Lampião como líder de um bando de cangaceiros. Até então, ele participava do bando de Sinhô Pereira, seu antecessor no comando.
“Lampião deixou de ser um membro de um bando para ser líder de um bando, apesar de ele estar como réu e não ter sido pego. Ele era do bando do Sinhô Pereira, esse processo é justamente no período em que ele passa a ser o líder do bando dele. A gente sabe que ele só foi pego em 1938 quando ele foi morto”, explicou a historiadora.
O manuscrito foi entregue ao TJPE pela família do juiz Assis Timóteo, de Triunfo, no Sertão do estado. A chefe do memorial explicou que até o final da década de 1990 não existia nenhum órgão na estrutura do Tribunal para cuidar do acervo histórico. Então era comum que juízes ficassem com o material, como recordação e acervo pessoal.
“O Assis Timóteo tinha o cuidado com os acervos da justiça, então ele se preocupou em salvar uma parte dessa documentação que ele via que era preciosa. A gente tem até que agradecer à família por ter preservado esse documento por tanto tempo, já que a gente não tinha essa cultura de preservação desses acervos antigos”.
Segundo Mônica de Pádua, ter esse processo no acervo do Memorial de Justiça é uma conquista importante para a consolidação da história brasileira. Após ser disponibilizado digitalmente, qualquer pessoa interessada poderá acessar o documento. Ele também servirá como fonte oficial de pesquisa sobre a história do cangaço.
No momento, o material está passando por um processo de limpeza mecânica. “A gente tira todas as ferragens para não ter oxidação das folhas. Depois faz um interfolhamento com papel alcalino, para impedir que as folhas antigas fiquem mais ácidas. Junto com essa fase, as folhas são organizadas em ordem e numeradas", contou Mônica de Pádua. De acordo com ela, o processo pode estar disponível ao público ainda esse mês.
“A gente vai dar prioridade a esse processo. Se tudo der certo e não tiver folhas muito rasgadas, em três dias a gente consegue digitalizar. Até final de setembro eu acredito que a gente já consiga colocar isso na internet para o público”, finalizou a chefe do Memorial.
Domingos Gregório dos Santos,
o cangaceiro "Deus te Guie", foi um dos bandoleiros entregues em 1940 em
Paripiranga, com o grupo de Ângelo Roque.
Juntamente com o chefe e outros companheiros como Saracura,
Cacheado e outros, foram encaminhados para Salvador, julgados e condenados a
diferentes penas pelos crimes cometidos durante os anos de cangaço.
Euclides
Custódio, vulgo Cacheado, detido na casa de detenção de Salvador no ano
de 1944. Apesar de pouco falado, era extremamente perigoso, após a
morte do cangaceiro Gato, Cacheado passou a executar para Lampião
algumas das missões mais cruéis designadas pelo rei do cangaço.
Créditos Helton Araújo
De acordo com o processo ao qual tive acesso, contava, quando
foi preso, com 22 anos de idade, era filho de João Gregório dos santos e
Francisca Maria de Jesus.
Deus te Guie foi recebido na penitenciária do Estado
da Bahia a 15 de fevereiro de 1943 e registrado como prisioneiro de número
1523, sentenciado inicialmente a 10 anos e doze meses de prisão por participar
do assassinato de Olegário Bispo da Conceição, Antônio Elias e Nonato Firmino,
crime ocorrido em 8 de junho de 1939 pelo grupo de Ângelo Roque em Bebedouro. Por
esse triplo homicídio, inclusive, Labareda pegaria 30 anos de prisão, conforme
processo ao qual também tive acesso no arquivo público da Bahia.
Ainda de acordo com o documento abaixo, Deus te Guie teria amargado
longos 12 anos e dez meses de prisão celular, isto é, regime fechado, na
capital baiana.
O alvará de soltura do ex-cangaceiro é datado de 12 de
outubro de 1953. Foi essa a data exata que o ex-integrante do temível grupo de
Labareda ganhou a liberdade após pagar a sua dívida com a sociedade.
Alvará de Soltura de Deus te Guie - Arquivo Público da Bahia.
Decidi fazer a minha versão em bonecos dos ícones da cultura pop nordestina, os cangaceiros Virgulino Ferreira, o "Lampião" e a Maria de Déa, a "Maria Bonita". Para o Lampião utilizei um corpo e cabeça do Ken, modelos "Fashionistas" e para a Maria Bonita, um corpo e cabeça da Barbie sendo a cabeça um modelo vintage
do início dos anos 2000. Todos ganharam novas maquiagens, cabelos,
penteados e acessórios seguindo como base a caracterização dos atores Nelson Xavier e Tânia Alves respectivamente os personagens protagonistas da minissérie "Lampião e Maria Bonita"
da Rede Globo (1982). As roupas foram feitas em malha e tingidas a mão.
Todos os acessórios como bornais, cantis e armas também foram criados
exclusivamente para esse projeto que consumiu ao todo 15 dias de
trabalho. O resultado vocês conferem abaixo:
Trecho de ‘Guerreiros do sol’, de Frederico Pernambucano de Mello, relançado pela Cepe Editora
Volante pernambucana do tenente
Sinhozinho Alencar, em Belmonte, Pernambuco, 1926. Notar o à vontade
das crianças em meio às armas dos soldados Foto Cortesia de Valdir Nogueira
CANGAÇO: DO ENDÊMICO TOLERADO AO EPIDÊMICO REPELIDO
Vejamos agora o cangaceiro, indiscutivelmente a personagem mais destacada e complexa de todo o elenco que estamos analisando.
Em estudo de comparação entre as culturas dos dois grandes ciclos
nordestinos, afirmou Câmara Cascudo que o ciclo da cana-de-açúcar não
poderia ter produzido o cangaceiro.1 À parte algum exagero
retórico que a assertiva parece conter, não resta dúvida de que o homem
do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia no representar do
modo mais completo o conjunto dos atributos e qualidades que
caracterizam o homem do ciclo do gado. As noções de independência,
improvisação, autonomia e livre-arbítrio conheceram nele seu cultor
máximo. Ninguém o excedeu no dar asas soltas ao aventureirismo e ao
arrojo pessoal. Ninguém mais que ele soube gozar e sofrer, a um só
tempo, as peculiaridades do viver nômade. Foi, a ferro e fogo, senhor de
suas próprias ventas, atuando — como se diria com expressão do velho
Nordeste colonial — sem lei nem rei.
Ao contrário do que teimam em afirmar certos intérpretes, não é
possível surpreender uma relação de antagonismo necessária entre
cangaceiro e coronel, tendo prosperado — isto sim — uma
tradição de simbiose entre essas duas figuras, representada por gestos
de constante auxílio recíproco, porque assim lhes apontava a
conveniência. Ambos se fortaleciam com a celebração de alianças de apoio
mútuo, surgidas de forma espontânea por não representarem requisito de
sobrevivência nem para uma nem para outra das partes, e sim, condição de
maior poder. Por força dessas alianças, não poucas vezes o bando
colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político, que se convertia,
em contrapartida, naquela figura tão decisivamente responsável pela
conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no
Nordeste, que foi o coiteiro.
Sobre o relacionamento — muito mais
convergente que divergente — do cangaceiro com o proprietário rural, é
interessante assinalar uma outra opinião de Graciliano Ramos, contida em
seu livro Viventes das Alagoas. Com a autoridade de ter sido
ele próprio, durante largos anos, um ativo vivente de uma Alagoas que
era chão e tempo de cangaço, sustenta Graciliano que a aliança
mostrava-se “vantajosa às duas partes: ganhavam os bandoleiros, que
obtinham quartéis e asilos na caatinga, e ganhavam os proprietários, que
se fortaleciam, engrossavam o prestígio com esse negócio temeroso”.2
Deve restar bem claro que o relacionamento não produzia vínculo de
subordinação exclusiva para qualquer das partes. A característica
principal do cangaceiro, vale dizer, o traço que o faz único em meio aos
demais tipos já aqui analisados, é a ausência de patrão. Mesmo quando
ligado a fazendeiros, por força de alianças celebradas, o chefe de grupo
não assumia compromissos que pudessem tolher-lhe a liberdade. A
convivência entre eles fazia-se de igual para igual, agindo o cangaceiro
como um fazendeiro sem terras, cioso das prerrogativas que lhe eram
conferidas pelo poder das armas, sem dúvida o mais indiscutível dos
poderes.
Houve cangaços dentro do cangaço — convém timbrar aqui. Em nosso estudo Aspectos do banditismo rural nordestino,
publicado pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais em 1974,
tivemos oportunidade de identificar modalidades criminais bem distintas,
abrigadas sob o rótulo indiferenciado de cangaço.3
Com base no que já havia sido sentido e acusado de forma não
sistemática por autores como Câmara Cascudo, Irineu Pinheiro, Coriolano
de Medeiros, Gustavo Barroso, Ariano Suassuna e, principalmente, Xavier
de Oliveira,4 foi possível isolar, dentro do quadro geral do
cangaço nordestino, formas básicas perfeitamente caracterizadas, com
traços peculiares inconfundíveis, capazes de atribuir colorido próprio
exclusivo e fácil distinção entre si. Os que conhecem, ainda que
superficialmente, a história do nosso banditismo rural sabem que a
existência criminal desenvolvida por um Lampião, por exemplo, não pode
ou, ao menos, não deve ser confundida com aquela levada a efeito por um
Sinhô Pereira ou um Jesuíno Brilhante. No campo subjetivo, diferiam as
motivações, os interesses, as aspirações, como diferiam os gestos, as
limitações e as atitudes, no plano objetivo. Diversos foram os fatores
que condicionaram a adoção do viver pelas armas em cada modalidade, como
diversa se mostraria sempre a medida da conduta no respeito a certos
valores, no comedimento das ações e na própria violência empregada.
São em número de três essas formas básicas: o cangaço-meio de vida; o
cangaço de vingança e o cangaço-refúgio, tais como as intitulamos no
estudo citado.
A primeira forma caracteriza-se por um sentido nitidamente
existencial na atuação dos que lhe deram vida. Foi a modalidade
profissional do cangaço, que teve em Lampião e Antônio Silvino os seus
representantes máximos. O segundo tipo encontra no finalismo da ação
guerreira de seu representante, voltada toda ela para o objetivo da
vingança, o traço definidor mais forte. Foi o cangaço nobre, das gestas
fascinantes de um Sinhô Pereira, um Jesuíno Brilhante ou um Luís Padre.
Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação
para homens perseguidos. Representava nada mais que um refúgio, um
esconderijo, espécie de asilo nômade das caatingas, como dissemos no
trabalho mencionado.
Lampião. Foto: Lauro Cabral de Oliveira, cortesia de Raul Fernandes, Natal, Rio Grande do Norte
Se deixarmos de lado já agora as distinções — a serem estudadas com
rigor ao longo do capítulo seguinte — fixando-nos na acepção de
abrangência mais ampla da palavra cangaço, acepção que traduz apenas as
linhas essenciais do fenômeno, tais como, o seu caráter grupal, a sua
ambiência rural e o seu traço marcante da não subordinação a patrões ou
chefes situados fora do bando, veremos que essa forma criminal conhece
tradição bem antiga, sendo mesmo uma das mais antigas dentre todas as
modalidades que floresceram e, em alguns casos, ainda florescem na
região, especialmente em sua área seca.
Aprendida do índio, ao longo das primeiras escaramuças com que o
colonizador português procurou firmar sua presença no solo que lhe
cumpria conquistar, a guerrilha — essa mimética e eficientíssima forma
de guerra sem cerimônias ou protocolos, de estonteantes avanços e
recuos, emboscadas e negaças — cedo se poria a serviço do próprio
colonizador, tanto se prestando a causas nobres, como a da Restauração
Pernambucana de 1654, por exemplo, como a alimentar a técnica criminal
trazida do Velho Mundo por alguns dos primeiros povoadores, em parte —
como se sabe — sentenciados remetidos aos novos domínios pela Coroa
portuguesa.
Com efeito, a necessidade de sustentar combates numa terra
de topografia frequentemente irregular, coberta de vegetação de
densidade variável mas de presença contínua, exuberante nas matas, nos
canaviais e nos mangues das areias e do massapê litorâneos, encapoeirada
e espinhosa nas faixas agrestadas ou propriamente sertanejas, terras às
quais mostravam-se estranhos os grandes espaços abertos à europeia,
responsáveis pela formação de toda uma doutrina militar clássica, impôs
ao colonizador uma atitude de humilde atenção para com os modos de
guerrear dos nativos. E ainda que tais modos parecessem, a princípio,
pouco dignos a olhos reinóis, porque baseados em procedimentos
traiçoeiros, à luz dos quais a emboscada e o assalto revelavam-se
procedimentos recomendáveis, e o movimento de retirada, longe de merecer
censuras, impunha-se sobre avanços temerários e mesmo sobre
entrincheiramentos pouco práticos, vão sendo assimilados e desenvolvidos
empiricamente por um imperativo de respeito à ecologia da terra por
conquistar.
Crescentemente, vai-se produzindo a assimilação de técnicas
militares indígenas pela gente luso-brasileira, a ponto de, no século
XVII, já ser comum a essa gente “a consciência de uma arte ou estilo
militar próprio do Brasil e melhor adaptado às suas condições do que
qualquer outro”.5
Os movimentos de resistência ao holandês
invasor, muito particularmente os que se desenvolvem após 1644, assistem
à vitória sobre os padrões europeus da chamada guerra brasílica, ou guerra do mato,
que nada mais era que uma guerra volante em que a espingarda de
pedernal preferia aos mosquetes e arcabuzes de mecha facilmente
inutilizados pela chuva e de difícil emprego nos assaltos; onde o
desprestígio das europeíssimas praças-fortes resultava da convicção de
que não há lugar mais protegido do que o mato; onde a estrepitosa
cavalaria cedia lugar ao cauteloso caminhar a pé, e onde, finalmente, os
valores tradicionais da ética militar, como a bravura, a lealdade e a
honradez, viam-se substituídos pela mais completa velhacaria. Num ponto,
em especial, as lições indígenas mostraram-se preciosas, para além dos
aspectos do viver e do guerrear ecológicos que comentamos.
Trata-se da
fundamentalíssima arte de rastejar no mato os passos e vestígios de
qualquer natureza da passagem do inimigo. Numa pedra mal rolada, galho
deslocado, folha levemente acamada ou de colorido esmaecido, e não só na
impressão de marcas plantares, os rastejadores iam buscar todo um
roteiro de descoberta do inimigo, fornecendo ainda aos perseguidores
informações adicionais às vezes sofisticadas, como a disposição física
dos marchadores, se iam lépidos ou estropiados, leves de peso ou
carregados, se levavam feridos, se estavam sóbrios ou haviam feito uso
do álcool, sutilezas nada desprezíveis na urdidura de planos de ataque
ativos ou de emboscada. Nas suas Memórias diárias da guerra do Brasil,
Duarte de Albuquerque Coelho fala com entusiasmo do “capitão índio João
de Almeida”, por demonstrar este “filho da terra” notável habilidade em
“descobrir e assegurar os caminhos”.
Também a um outro memorialista das
guerras com os holandeses, frei Manuel Calado do Salvador, não passaria
despercebida a importância da contribuição militar do rastejador. Ele
refere um certo capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, assinalando
tratar-se de “um dos mais espertos homens em diligência que há no Estado
do Brasil, para tomar o rastro e descobrir emboscadas e andar por entre
os matos e de ânimo e valor para qualquer perigosa facção, e sobretudo
grande espingardeiro e mui certo no atirar”.6
Quase três séculos depois, este rastejador estará presente nas
campanhas de repressão ao cangaceirismo como uma espécie de periscópio
de que dependiam as volantes a cada passo. Ranulpho Prata nos dá um
retrato muito vivo de seu papel e de sua condição nos primeiros anos da
década de 1930. Vale a pena, num parêntese ao assunto geral que estamos
comentando, reproduzir-lhe o depoimento autorizado de sertanejo
contemporâneo dos fatos que narra e com os quais nos fornece um perfil
irretocável dessa figura fundamental para a compreensão da arte
guerreira de cangaceiros e de macacos, seus perseguidores:
Ganha quatro mil-réis diários e, à testa das volantes, que se lhe
entregam de corpo e alma, numa cega confiança à proverbial lealdade
sertaneja, ele as conduz meses a fio em marchas incessantes pelo
deserto. O bom ou mau êxito das batidas depende dele, exclusivamente. É
tudo na coluna porque é a visão, maior do que o cérebro, no sertão
ínvio. Detém-se, de repente, em lugar onde a vegetação rala e o solo
entorroado e pedrento nada evidenciam a olhos vulgares. Esbarra,
acocora-se, examina com simples toque de dedo grosso, seixos e
cascalhos, “assunta” de mão no queixo, “magina” minutos, e, volvendo a
face tostada de sóis, onde chispam olhos vivazes, conta ao tenente, em
fala remorada, o seu achado, apontando, com segurança inabalável, a
pista do bando. Segue-a a tropa pressurosa, com o batedor à frente,
“escanchado” no rastro.
Sem perdê-la, trazendo-a sempre debaixo dos
olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras
humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga
precípite. Recomeça novo trabalho de pesquisa de rumo, descobrimento de
novo rastro, seguindo-se a caminhada exaustiva que tem como remate
escaramuça quase sempre descompensadora.
Não é adivinho nem mágico,
porém, o matuto privilegiado. Ele enxerga “realmente” vestígios,
baseia-se, nas suas afirmativas, em indícios tangíveis, concretizados em
pequena folha machucada, cinza de cigarro ou borralho, um fósforo,
toiças de capim acamado, pegadas de levíssimo desenho.
O mais é ilação,
agudeza, experiência de gerações, trabalho de inteligência vivacíssima e
o que eles chamam o “dom”. Ao debruçar-se sobre um rastro diz se é
fresco, isto é, recente ou se velho, de dias, e de quantos dias.
Pormenoriza estupendamente, adiantando se após o grupo passou gente que
lhe é estranha, e dissociando os sexos. E não é só pegada humana que o
batedor descobre e segue. Rasteja todos os animais, avantajando-se,
muita vez, aos próprios cães, dando, muito antes deles, com o rastro da
caça que lhes atrita no focinho para avivar-lhes o olfato. Segue os
pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a
vegetação sob o seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o
chão com sutileza de quem traz veludo nos pés. As próprias abelhas são
“rastejadas” nos ares, seguidas no seu pesado voejo, mato adentro, até
os troncos onde têm as suas “casas”. Para neutralizar, porém, a ação do
rastejador, os bandidos contrapõem artimanhas e ardis. Com o fito de o
desnortear, passam a andar trechos e trechos de caminho a um de fundo,
todos a pisarem cuidadosamente a mesma pegada, simulando um só viajor.
Invertem as alpercatas, ficando os calcanhares para a frente, produzindo
atrapalhação de rumo. Quando sentem a tropa perto, pega não pega,
trepam nas cercas e a firmarem-se como equilibristas desengonçados,
varam quilômetros e quilômetros, suspensos do solo, onde não ficarão
vestígios delatores. Vezes outras, em estradas largas, um deles
desloca-se do grupo, e armado de espesso e folhudo galho de árvores,
segue-o à distância, apagando sinais da marcha, “baraiando” o rastro.7
Não esquecer também que essa forma especial de guerra “oferecia a
única maneira de utilização militar da camada mais ínfima e
economicamente marginalizada da população local, mestiços ociosos,
malfeitores, foragidos da justiça d’El-Rei, inábeis para a disciplina
das guarnições como antes já se tinham revelado refratários à rotina dos
engenhos”.8
Eis aí a eficiente escola militar informal em que se graduariam tanto
o heroico “capitão de emboscadas” da guerra contra os holandeses,
responsável, muito mais do que o soldado do Reino e mesmo o veterano de
Flandres, pelo terror da gente batava, quanto o “facinoroso” e
“desprezível” chefe de bandidos, o cangaceiro avant la lettre.
Nas mãos de um e outro, a sabedoria comum representada pela assimilação e
pelo aperfeiçoamento de um ecológico modo de brigar indígena, ao qual
se juntariam seletivamente alguns dos modernos artefatos e processos
militares europeus para a consolidação de uma ainda tão pouco teorizada
arte militar brasileira, que irá mostrar-se aplicável, mutatis mutandis,
com a mesma eficiência diabólica, em trópicos de ecologia bem
diversificada, no úmido da guerra contra o holandês, tanto quanto no
seco das lutas de Canudos, mais de dois séculos depois, quando a gente
de Antônio Conselheiro novamente ensinará ao nosso soldado que aqui não
se combate à europeia.
Descrevendo os primeiros tempos da capitania de Duarte Coelho,
Oliveira Lima refere várias vezes a insegurança que a caracterizava,
pela irrefreada atuação de criminosos em correrias sem fim. No século
XVII, ainda mais intensa revela-se a ação de “salteadores” e “bandidos”,
segundo palavras do mesmo cronista.9 Ao longo do período de
colonização holandesa no Nordeste, vamos surpreender o nosso banditismo
caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas
de ocupação, sendo de franceses e holandeses o contingente mais
expressivo que se mesclava aos aventureiros da própria terra e aos
negros fugitivos. E não ficamos nisso, apenas. Houve mesmo chefes de
grupo que eram holandeses. Assim o caso do célebre Abraham Platman,
natural de Dordrecht, ou ainda, de um certo Hans Nicolaes, que agia na
Paraíba à frente de trinta bandoleiros por volta do ano 1641. Três anos
após esta data, em 1644, os manuscritos holandeses fazem referência a um
outro chefe de bandidos que já se tornara notório: Pieter Piloot,
igualmente holandês.10 Eram os boschloopers, salteadores ou, literalmente, “batedores de bosque”, da designação holandesa do século XVII.
Na esteira das depredações na Bahia, a melhor revista nacional à época coloca Lampião na capa, em maio de 1931, valendo-se de fotografia de cinco anos antes. Foto de Lauro Cabral de Oliveira. Foto: Cortesia, arquivo Nirez, Fortaleza, Ceará
O século XVIII não fugiria à tendência até aqui vista, mostrando-se
pródigos os registros históricos no que diz respeito ao assinalamento de
violências cometidas por bandidos. Não esquecer que foi na segunda
metade desse século que o bandoleiro pernambucano José Gomes, o célebre
Cabeleira, desenvolveu sua atividade, tão rica em peripécias que viria a
fazer dele o primeiro desses campeadores a ser perpetuado pela
literatura erudita da região e não apenas pela popular, campo este
último em que sua presença legendária vem atravessando séculos, em
versos como o pernambucaníssimo:
Fecha a porta, gente Cabeleira aí vem Matando mulheres Meninos também
Ou as seguintes formas variantes, igualmente populares:
Feche a porta, gente Cabeleira aí vem Fujam todos dele Que alma não tem
Fecha a porta, gente Fecha bem com o pau Ao depois não digam Cabeleira é mau
Corram, minha gente Cabeleira aí vem Ele não vem só Vem seu pai também11
No século XIX, presentes os mesmos fatores e condicionamentos,
assiste-se ao mesmo panorama de insegurança do século anterior, mas com
uma novidade: o sertão, que já se acha à época razoavelmente povoado,
embora dispondo de uma economia pecuária apenas incipiente, além de
envolvida em luta tenaz contra processo de decadência prematura cujos
primeiros sinais datam de fins do século XVIII, começa a se converter no
cenário por excelência do banditismo, até porque, no litoral, a
colonização florescia em todos os sentidos, permitindo uma repressão
mais eficaz como fruto da estruturação social que crescentemente se
aperfeiçoava.
É evidente que com o deslocamento do foco central do banditismo para o
sertão, onde aliás ele viria a receber o batismo de “cangaço” ou
“cangaceirismo”,12 não desapareceria o banditismo litorâneo. O
que se quer dizer é que, a partir da primeira metade do século XIX, as
evidências históricas demonstram que essa forma de criminalidade passa a
se desenvolver no sertão em ritmo idêntico ao da sua decadência no
litoral. E mais: no sertão viria o cangaço a se requintar notavelmente,
tanto sob o aspecto quantitativo quanto sob o qualitativo, pelo aporte
de uma rica tradição de violência, muito própria — como vimos — do ciclo
do gado, de que este sertão não foi apenas cenário, mas condicionante
ecológico-cultural decisivo.
Fornecendo ao banditismo um nome próprio de sabor regional, um tipo
de homem vocacionado à aventura, um meio físico de relevo adequado à
ocultação, coberto por malha vegetal quase impenetrável, e uma cultura
francamente receptiva à violência, o sertão não poderia deixar de se
converter no palco principal do cangaço.13 Principal, mas não
exclusivo, havendo algum exagero nas palavras de Graciliano Ramos
quando diz do cangaço ser “fenômeno próprio da zona de indústria
pastoril, no Nordeste”.14 A nosso ver, mais certo anda
Gustavo Barroso, para quem “não somente nessas zonas sertanejas existem
cangaceiros”. Barroso amplia ainda mais a sua concepção ao sustentar que
“os bandidos não são produtos exclusivos das terras brasileiras do
Nordeste”, isto porque “em todos os povos têm existido com denominações
diversas”.15
Também a Câmara Cascudo essa uniformidade universal do banditismo não
passou despercebida, entendendo ele que “o cangaceiro não é um elemento
do sertão” e sim uma figura que “existe em todos os países e regiões
mais diversas”.16 Entre os estudiosos estrangeiros que se
ocuparam do banditismo rural de suas e de outras terras, poderíamos
apontar, filiado a essa linha universalista, o italiano de uma Itália
tão fortemente contaminada em sua época pelo banditismo, que foi
Garofalo, autor do clássico Criminologia.17 A esses
registros já históricos de Garofalo, de Barroso e de Cascudo, datados,
respectivamente, de 1891, 1917 e 1934, veio juntar-se, nos dias
correntes, o de Hobsbawn que, em seu livro Bandidos, lançado em
1969, reafirma a tese da universalidade. “Geograficamente, o banditismo
social se encontra em todas as Américas, na Europa, no mundo islâmico,
na Ásia meridional e oriental, e até na Austrália”, diz Hobsbawn, com
base em amplo estudo comparado.18
Não somente a realidade do fenômeno se mostra assim abrangentemente
universal em suas características estruturais: o mito que sobre este
vai-se formando, em decorrência do adensamento da gesta que envolve o
nome dos mais bem-sucedidos capitães, parece ser o resultado de
processo igualmente invariável e universal, e que visto sob ângulo
particularizado, com base no estudo do caso nordestino, apresenta duas
facetas tão curiosas quanto frequentes: a de seu surgimento ainda em
vida da personagem celebrada — não raro isto se dá muito cedo na
carreira do bandido — e a da sua permanência e mesmo crescimento após a
morte dessa personagem. Não havendo, após isto, novas façanhas a
comentar, a permanência faz-se muitas vezes às custas de um desprezo
cada vez maior pelos temas deste mundo, em benefício do sobrenatural, em
cujos domínios o cangaceiro desaparecido passa a conviver
sem-cerimoniosamente com os residentes do céu e do inferno.19
A despeito do que há de exato na fixação desse caráter universal — e,
portanto, nem originária nem exclusivamente sertanejo ou nordestino ou
brasileiro — do cangaceirismo e do processo de mitificação que parece
acompanhá-lo invariavelmente, convém não esquecer o enorme papel do
nosso sertão, com todas as contradições e peculiaridades da cultura
pastoril, na formação da imagem que temos hoje do fenômeno cangaço. A
imagem que ficou, e se conserva de modo mais generalizado em nossos
dias, é cronologicamente a última. É a da década de 1920, com seu auge:
1926. Esta é a imagem de um cangaço gigante, cangaço do mosquetão, do
parabelo, da bala de aço furando pé-de-pau e exigindo trincheira de
pedra, do bando de 150 homens, do ataque a cidade de luz elétrica, das
primeiras páginas quase diárias dos jornais, da orgia — até financeira —
dos trovadores populares, da frequência às conversas do Catete e do
Monroe, dos três, dos cinco, dos sete Estados da Federação. Aqui, sim,
está-se diante de um cangaço tipicamente sertanejo e talvez a este e só a
este tenha-se referido Graciliano Ramos quando disse ser fenômeno
próprio da nossa zona pastoril. No Nordeste, com esse volume todo, de
fato foi. Mas pelo volume, não pela forma, fique sempre claro.
Do casamento de modalidade criminal de si mesma rica em violência —
como é o caso do cangaço — com ambiente natural e social profundamente
predisposto a esta — caso da área sertaneja do Nordeste — resultaria o
surgimento, a partir do meado do século XIX, de um banditismo rural cada
vez mais desenfreado, findando por levar a região a clima que beirava o
socialmente convulso, nas duas últimas décadas daquele século, e que
foi capaz de produzir, na primeira metade do seguinte, sagas criminais
de dimensões nunca vistas em qualquer outro período anterior da história
do Nordeste, como as de Antônio Silvino e principalmente a de Lampião.
Cartaz
distribuído no governo Frederico Costa, da Bahia, no meado de 1930, em
vias de ser apeado pelo movimento revolucionário. Em 1938, morto
Lampião, o tenente Bezerra receberá esses 50 contos de réis, em Salvador
— valor de 10 automóveis novos — e mais outro tanto no Rio de Janeiro,
da Perfumaria Lopes. Recuperação de imagem por Sandra Rodrigues
Convém particularizar melhor o assunto, o que faremos através da
indicação de dois momentos máximos de recrudescimento do cangaço,
selecionados a partir dos vários registros que compõem a história do
fenômeno no Nordeste, na qual ele figura quase ininterruptamente como
ocorrência de sentido crônico em largas áreas da região, desde as
primeiras etapas do esforço colonizador.
Embora as indicações impliquem sempre em algum subjetivismo
indesejável, cremos não se mostrar historicamente temerário apontar o
ciclo da grande seca “dos dois setes”, no século XIX, e a já referida
década de 1920, no passado, como dois momentos nos quais o paroxismo da
ação desenvolvida pelos grupos em armas faz com que a habitual
cronicidade do cangaço se aqueça até o ponto de ceder lugar à instalação
de quadro agudo, muito próximo de uma convulsão social generalizada.
A importância de que se assinalem esses dois momentos, nos quais o
fenômeno evolui do ordinário-endêmico para o extraordinário-epidêmico,
está no fato de ter sido sempre possível à sociedade sertaneja — e dela
não excluímos aqui o componente representado pelo poder público —
conviver, sem maiores traumas, ou, ao menos, sem traumas insuportáveis,
com o cangaço. Não custa relembrar que a sociedade surgida da pata do
boi, da luta permanente contra o meio hostil e da afirmação cruenta
sobre os primitivos habitantes era uma sociedade violenta, que vivia sob
a égide do épico, naquela atmosfera “admirável nos seus efeitos
dramáticos” a que se referiu Caio Prado Júnior ao comentar precisamente o
tipo humano da pecuária setentrional no Brasil.20
Ninguém mais que o cangaceiro encarnou esse épico tão querido,
dando-lhe vida ante os olhos extasiados do sertanejo. Por força disso,
ajusta-se perfeitamente à realidade uma representação da sociedade
pastoril do Nordeste em que o contingente populacional se mostre
dividido entre os que apenas convivem bem com o cangaceiro e os que —
como geralmente se dava com os jovens — chegam francamente a admirar-lhe
os feitos guerreiros.
A palavra à idoneidade do poeta sertanejo Francisco das Chagas
Batista, contemporâneo e biógrafo de um grande do cangaço como Antônio
Silvino, para retratar com fidelidade o ambiente sertanejo e neste, a
imagem social do cangaceiro:
Ali se aprecia muito Um cantador, um vaqueiro Um amansador de poldro Que seja bom catingueiro Um homem que mata onça Ou então um cangaceiro21
Os surtos de cangaço epidêmico, em cuja etiologia acham-se sempre
presentes fatores de desorganização social e de consequente inibição das
atividades repressoras, tais como, revoluções, disputas locais,
agitações de fundo místico ou político ou social, lutas de família e
principalmente as prolongadas estiagens, provocavam o rompimento do
equilíbrio que permitia à sociedade sertaneja viver, produzir e
continuar crescendo lado a lado com o cangaceiro, com base em
compromisso tácito de coexistência.
Falando inicialmente de um tempo de cangaço apenas endêmico, em que
“cangaceiros bonachões preguiçavam”, mandando aqui e acolá emissário que
“chegava à propriedade e recebia do senhor uma contribuição módica”,
Graciliano Ramos, em artigo contemporâneo ao segundo dos momentos
epidêmicos aqui analisados, assinala que “tudo agora mudou”, denunciando
em seguida que “os bandos de criminosos, que no princípio do século se
compunham de oito ou dez pessoas, cresceram e multiplicaram-se” e que
“já alguns chegaram a ter duzentos homens”. E ele próprio conclui que,
em consequência disso, “as relações entre fazendeiros e bandidos não
poderiam ser hoje fáceis e amáveis como eram”.22
Nada de diverso se passou durante o outro apogeu mencionado, o que
corresponde ao período da seca de 1877-79, em que também se rompe o
especialíssimo compromisso de coexistência que ligava o sertanejo ao
cangaceiro, por força de uma admiração mal-disfarçada pela liberdade
selvagem que este último encarnava e que lhe permitia materializar, no
aqui e no agora do cotidiano, o conteúdo talvez mais forte do arquétipo
mental do sertanejo do Nordeste: o individualismo arrogante, aventureiro
e épico, plantado ali nos primeiros momentos da colonização e
conservado sem contraste, ao longo de séculos, pela ausência de
contaminação externa que o isolamento sertanejo proporcionou. Mas nada
disso importa agora.
Com o rompimento do compromisso, impõe-se ao
sertanejo denunciar o cangaceiro mais próximo, o que passa em sua porta,
malsinar o cangaço em geral, protestar, fazer tudo o que estiver ao seu
alcance para obter a restauração de um clima que, se não chegava a ser
jamais de inteira e completa segurança individual e da propriedade, era
ao menos tolerável, no relativismo das garantias oficiais deficientes,
sob cujo império mambembe sempre viveu o sertão. A seca de 1877-79,
talvez a maior de todos os tempos, representa momento bem eloquente no
demonstrar esse jogo de substituição momentânea do banditismo endêmico
pelo epidêmico mais desabrido, a suscitar empenhos de governo igualmente
especiais, em consequência do alarido do povo, multiplicado pela
imprensa. Na fala com que encerrou a primeira sessão e abriu a segunda,
da legislatura da Assembleia Geral do Brasil do ano de 1879, lamentava o
Imperador a quebra “em alguns lugares” da “segurança individual e da
propriedade”. “Às causas notórias — dizia ele aos parlamentares — por
mais de uma vez trazidas ao vosso conhecimento, acresceram outras
provenientes da calamidade da seca e consequente mudança da condição e
hábitos da população. O governo empenha-se em combater essas causas e
acredita que cessando os efeitos daquele flagelo e mediante a enérgica
repressão ao crime, seja mantida a segurança individual e respeitada a
propriedade”.23
Na superposição das causas extraordinárias
oriundas da seca, e como tal transitórias, àquelas de caráter ordinário e
crônico — “causas notórias”, segundo as imperiais palavras — contém-se
toda a estrutura da criminalidade rural tornada epidêmica. A história
nos mostra que esse beijo trágico une condições socioculturais básicas a
uma causalidade episódica deflagradora.
À fixidez das primeiras,
opondo-se à mutabilidade da segunda, que tanto pode ser uma seca como
uma agitação política ou qualquer outra convulsão socialmente traumática
responsável pelo afrouxamento das estruturas sociais e consequente
inibição do aparelho repressor. Não esquecer o importante indicador
representado pela quebra nesses momentos do compromisso tácito de
coexistência entre o homem do sertão e o cangaceiro, capaz de eclipsar a
admiração daquele por este e de, em decorrência, decretar uma perigosa —
para os cangaceiros, já se vê — suspensão de determinadas atitudes
comissivas ou omissivas com as quais o sertanejo exercia uma espécie de
militância tácita e difusa em favor do cangaço endêmico, vale dizer, do
cangaço moderado e tolerável dos tempos normais. Citando Bournet, autor
do La criminalité en Corse, de 1887, afiança Garofalo que “na
Córsega, a criminalidade endêmica, uma ou outra vez comprimida por uma
forte repressão, ressurge sempre que esta afrouxa”.24
Como
entender essa realidade irmã gêmea da nossa e de tantas outras que vimos
acima senão pela admissibilidade de uma colaboração popular ao
banditismo, representada ao menos por uma conduta omissiva? Ainda assim,
pareceu-nos bem clara a ideia de que antes de demonstrarmos a quebra,
por ocasião dos surtos epidêmicos, do especialíssimo compromisso que
unia o homem pecuário do Nordeste ao cangaceiro, cumpria-nos evidenciar
ao menos alguns aspectos dessa mais que complexa aliança, além de, como é
natural, demonstrar a sua própria existência.
Aliás não é outra coisa o
que vimos fazendo nestas últimas páginas: mostrar o quanto o cangaceiro
realizava os valores de uma sociedade peculiar em muitos de seus
aspectos, abafada pelo isolamento, agredida por todo um conjunto de
fatores naturais e sociais hostis, além de inviabilizada crescentemente,
sobretudo a partir de fins do século XVIII, por processo de decadência
econômica que negava ao homem maiores oportunidades de ascensão pelas
vias ditas normais ou legais, fornecendo ao mesmo tempo a esse homem uma
via atapetada por inegável chancela cultural — que era o cangaço —
através da qual ele poderia saciar os humaníssimos requerimentos de
mando, prestígio, patrimônio e notoriedade, exercendo uma “profissão”
cheia de aventuras, nada monótona, sedutora mesmo, pelo que nela é
oportunidade de protagonizar o épico tão do gosto do sertanejo.
Que as
especificidades socioculturais sertanejas mostravam-se capazes de
empurrar os temperamentos jovens e mais vibrantes na direção do cangaço,
não temos qualquer dúvida. Mas daí a cair neste vai um passo, a ser
dado pela predisposição psicológica. Porque havia sempre os recursos
heroicos da resignação e da fuga, capítulo este último em que a maniçoba
do Piauí, a seringueira do Amazonas e o industrialismo de São Paulo, ao
menos no período que corresponde aos dois surtos epidêmicos de cangaço
aqui comentados e em ordem de sucessão no tempo, desempenharam papel de
não pouca expressão.
Assim, parece-nos exagerado ver no cangaço o que a
passionalidade de Manuel Bonfim o conduziu a ver: caminho “inevitável” e
“único” para uma “população forte e a quem a ordem normal nenhuma
possibilidade oferece de boa atividade social e política”.25
Certo na essência, ou seja, no caráter criminógeno da sociedade
sertaneja por tantos de seus aspectos, o sergipano nos parece pouco
sensato na dose.
Os que conhecem os fatos históricos do cangaço e os a este vinculados
diretamente, como os que resultam da reação oficial à sua existência,
sabem não ser fácil encontrar registros diretos dessa colaboração dada
pelo sertanejo ao bandido. Na boca da polícia tais registros sempre
pareceram desculpa para os reiterados insucessos, o que não deixava, em
algumas ocasiões, de ser verdade. Em todo caso, por basicamente
suspeitos, não surgiram em profusão e, quando surgidos, não mereceram
muita importância. Igual impedimento tocava aos políticos, só que por
uma outra razão: a de não desagradar a um eleitorado que jamais poderia
encarar racionalmente sua condição de colaborador, não o do tipo
específico, o coiteiro — não é a este que nos estamos referindo aqui —
mas o genérico, aquele que, espécie de coiteiro cultural do cangaço, fez
da sociedade sertaneja toda ela uma sociedade coiteira, a justificar
frase que ouvimos de velho e ilustre sertanejo que mascateara, ainda
menino, no Pajeú de 1914, Gerson Maranhão, que insistia em afirmar que
“naquela época, todo mundo era cangaceiro”. E explicava: “todo mundo
tomava partido pelo cangaceiro”. (…)
FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO
possui formação em História e Direito, sendo procurador federal
(aposentado). Na Fundação Joaquim Nabuco, integrou a equipe do sociólogo
Gilberto Freyre, de 1972 a 1987, período em que se especializou, sob a
orientação deste, no estudo da História Social do Nordeste do Brasil,
com maior foco em seus conflitos.
A Guerra Total de Canudos sob um olhar pernambucano
Por Autor – Anco Márcio Tenório Vieira – Publicado originalmente na Revista Suplemento Cultural, outubro/novembro de 1997, págs. 4 a 9.
O blog TOK DE HISTÓRIA resgata para seus leitores uma interessante reportagem de 1997, onde o escritor Frederico Pernambucano de Mello, trouxe muitas informações sobre a Guerra de Canudos, com base em uma extensa pesquisa para um livro que foi lançado naquele ano.
Rostand Medeiros e Frederico Pernambucano de Mello.
Sendo reconhecidamente o maior especialista brasileiro em
cangaço, com uma obra que se tornou leitura obrigatória para todos os
que se dedicam ao tema, o historiador Frederico Pernambucano de Mello
publica, aos 50 anos de idade, o seu sexto livro: Que foi a Guerra Total
de Canudos (Editora Stahli).
Se há surpresa para os que o tinham
somente como um pesquisador do banditismo no Nordeste, maior ela será ao
constatar que este livro de 317 páginas não é apenas mais um, entre
centenas, a tratar de Canudos. Nele, vamos encontrar uma revisão crítica
das muitas verdades difundidas e aceitas ainda hoje sobre o que foi a
Guerra de Canudos, bem como dados até então inexplorados pelos
especialistas da área.
Um deles, a participação, em campo de batalha,
dos soldados do Norte e do Nordeste, em particular, os de Pernambuco. 0
livro, que chegará às livrarias até meados de novembro, também reabilita
alguns personagens e textos que estavam esquecidos pelos pesquisadores:
a figura de Tereza Jardelina de Alencar (única mulher a compartilhar r
do círculo íntimo do Conselheiro); o lado humano e romântico do general
comandante da 4“ expedição, Artur Oscar; a obra do general e
ex-governador de Pernambuco, Dantas Barreto; o livro de cabeceira do
Conselheiro: A missão abreviada, do padre José Manuel Gonçalves Couto
(obra muito aludida, mas até hoje pouco analisada); entre tantos outros
detalhes esquecidos nas dezenas de relatos, documentos, atas e ofícios
produzidos durante a Guerra.
Apesar dos inúmeros convites que vem
recebendo para participar de eventos alusivos ao centenário de Canudos,
no Brasil e no exterior — artigos para jornais, palestras em
universidades, conferências para os vários comandos militares do
Exército, seminário em Colônia (Alemanha) — Frederico Pernambucano nos
concedeu esta entrevista, realizada na sua sala de trabalho, no antigo
sobrado que pertenceu a Delmiro Gouveia — localizado no tradicional
bairro de Apipucos, no Recife — hoje, sede do Instituto de Documentação,
da Fundação Joaquim Nabuco, onde exerce o cargo de Superintendente.
Em
sua sala, rodeado de retratos, quadros (entre eles, um Vicente do Rêgo
Monteiro), peças e documentos que nos remetem ao ciclo do cangaço
nordestino, ele discorreu sobre o que foi a Guerra Total de Canudos.
O livro Guerra Total de Canudos, de Frederico Pernambucano de Mello.
Suplemento Cultural — Poucos temas da nossa história
republicana foram tão estudados como o da Guerra de Canudos. São
centenas de ensaios, artigos e livros que tentam explicar o que de fato
teria motivado a mais sangrenta guerra civil brasileira. Ante tudo o que
já foi dito e publicado sobre o assunto, por que o senhor, que é um
especialista em cangaço, decidiu escrever também sobre este tema?
Frederico Pernambucano de Mello — Em primeiro lugar,
porque para ser, ou pretender ser, especialista em cangaço é preciso
ter uma grande a finidade com o quadro geral da história regional do
Nordeste. E aí entra, como ponto de prioridade, a história das vastidões
rurais do Nordeste, sobretudo a história da região sertaneja. O
conflito de Canudos, na minha visão, se coloca como o episódio máximo
desse grande abismo gerador de exotismo em nossa história, que é o do
desenvolvimento paralelo de culturas, de sociedades, e de homens
litorâneo e sertanejo.
A sociedade no litoral se desenvolvendo de
maneira lenta (porém, constante), pelo aporte de inovações, de dados
novos que chegavam pelos navios, vindas da Europa, e a partir de um
determinado momento, pelos Estados Unidos, enquanto que o Sertão, desde a
metade do século XVII, quando se inicia propriamente a sua colonização,
com homens que estavam indo do litoral, mais propriamente do Recife,
outros contingentes que vinham da Bahia, da Casa da Torre, muito
rapidamente entraram em decadência. No caso do Recife, o exército de
desempregados que resultou da vitória sobre os holandeses, em 1654. E
como nós sabemos, esse exército de desempregados foi recompensado pela
Coroa Portuguesa.
Tropas federais que participaram da Guerra de Canudos.
Não com dinheiro, que ela não tinha, mas com datações de sesmarias,
no Agreste e no Sertão (na Mata os engenhos já tinham sua titulação de
propriedade). Esses homens penetram o Sertão juntamente com baianos e
com paulistas, da Vila de São Paulo (que era, na época, miserável, e não
dava riqueza nenhuma, a não ser a preação de índios), e se fixam no
Piauí e nas zonas mais a Oeste do Estado da Paraíba. Esses três
contingentes, caracterizando uma forma de colonização dura, cruenta e
que muito cedo, repito, entra em decadência, fazendo com que os valores
sertanejos, que eram os valores do quinhentismo e do seiscentismo da
cultura portuguesa, ficassem mumificados ali e jazessem intocáveis até
eu diria, metade do século atual. Isso na língua, nos costumes, na moral
— inclusive sexual — na condução patriarcal da família, na
religiosidade, em todos os aspectos que caracterizam a cultura. Canudos
é, portanto, o paroxismo dessas fricções que surgem entre duas culturas
que não se encontravam, que não se reconheciam.
O traço mais saliente
disso nos é dado pelo tenente-coronel Dantas Barreto que, durante à
noite, em Canudos, no meio da sua tropa, ele, na barraca, ficava ouvindo
a conversa dos soldados — não por intuito negativo, mas para saber o
que a sua tropa pensava — e ouvia estarrecido um soldado dizer para o
outro: “quando eu voltar ao Brasil, vou fazer isso ou aquilo”.
Monumento de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos
LUCIANO ANDRADE/
Tão estranhos eram a olhos litorâneos o homem do Sertão, com as suas
barbas longas, sua roupa, hábitos e costumes originais, sua maneira de
se conduzir. De passagem, lembro Kari Jaspers, no seu tratado de
psiquiatria: “O estado de consciência do homem primitivo é alguma coisa
inteiramente diversa da doença mental.” Nós não tínhamos, nos homens de
Canudos, doença mental, mas um estado de consciência primitivo, mantido
nas características primitivas da mumificação sertaneja. Fanatismo,
banditismo, misticismo: todas essas peculiaridades do Nordeste que o
fazem atraente para turistas, estudiosos, pesquisadores etc., e brotam
dessa espécie de Fenda de Santo André, que é a dicotomia Litoral/Sertão.
Suplemento Cultural — Os Sertões, de Euclides da Cunha,
tornou-se, ao longo dos últimos 95 anos, a obra de referência e a versão
mais “balizada” sobre Canudos. A imagem que temos de Canudos é, de uma
certa forma, a que foi fixada por Euclides da Cunha em sua obra. A nossa
pergunta é: quais são, no seu entender, os principais equívocos
cometidos por Euclides ao escrever sobre Canudos e que os seus
contemporâneos (como Dantas Barreto, por exemplo) não cometeram, apesar
de muitas dessas testemunhas oculares da Guerra terem tidos, nos últimos
cem anos, suas obras relegadas?
Frederico Pernambucano de Mello — A impressão que eu
sinto quando releio O5 Sertões (para minha felicidade eu tenho até uma
primeira edição, de 1902, que Euclides não reconhecia muito como
oficial, porque precisou corrigir lá uns advérbios, aperfeiçoamentos
obsessivos de estilista que ele foi) é de quem, ao final, sai de uma
peça de teatro, com muita grandeza, nobreza, profundidade, tragédia, que
se assiste com a tentação de estar ajoelhado diante daquele drama.
Mas é evidente que as noções geográficas e físicas de Teodoro
Sampaio, a ciência de Nina Rodrigues, os grandes inspiradores de
Euclides no plano científico, especialmente os autores estrangeiros (que
talvez ele não conhecesse tão bem para citá-los com a desenvoltura com
que cita); toda essa ciência, realmente, está muito envelhecida.
Ademais, Euclides ficou apenas cerca de dez dias no chamado teatro de
operações. Ficou pouco tempo.
Não se sentiu bem, não esteve à vontade, e
a observação direta dele é pouca. Ele, então, teve que se valer de
autores que já tinham produzido obra – especialmente Última expedição a Canudos,
de Dantas Barreto – e comete erros, por conta disso, não só por não ter
estado muito tempo no teatro de operações, mas por depender também de
outros autores que estudaram o tema, e por ter fontes jornalísticas nem
sempre confiáveis, vários deslizes ligados aos fatos da Guerra. Por
conta dessas limitações na percepção — Afrânio Peixoto há muito já disse
que Os Sertões não é o livro do que ficou nas vistas de
Euclides, mas é o livro do impacto da Guerra na alma de Euclides, nas
concepções que ele tinha — é um livro, de certo modo, personalíssimo,
revelador do interior de Euclides. É o livro também da sua decepção com a
República.
Ele chega, no cenário dos combates, republicano, inflamado
pela pregação jacobina, militarista, e sai de Canudos decepcionado com
aquela perspectiva que se esboçava para uma nova ditadura militar no
País. No entanto, o grande problema de Euclides foi a sua incapacidade
de compreender a figura sertaneja do Conselheiro, de encadeá-lo num
processo que vem desde quando começam as missões no Sertão, com
capuchinhos, com oratorianos, com homens — no plano pessoal — de moral
ilibada, que combatiam a igreja colonial brasileira (repleta de padres
amancebados, funcionários públicos pagos pela Coroa, dentro da
instituição do padroado real).
Antônio Conselheiro
E à margem dessa igreja colonial, que era o oficialismo do tempo,
surgem vocações de missionários, como o capuchinho frei Vitale da
Frecarolo, na passagem do século XVIII para o século XIX, que morre
jovem, em 1820. O frei é uma figura mística que fascina o Sertão,
pregando o maravilhoso, aquilo que fazia com que o sertanejo deixasse de
ver tudo o que havia de limitado à sua volta — uma natureza maninha,
uma dificuldade material imensa — para se empolgar com as realidades. as
visões bíblicas, as passagens perenais que o misticismo podia
proporcionar. Esse homem, como o quê, é seguido, a partir de 1853, por
uma espécie de segundo segmento, representado pelo padre oratoriano José
Antônio Pereira Ibiapina, que junta ao misticismo de frei Vitale o
obreirismo. Porém, o obreirismo dele talvez fosse até maior.
Há
registros de repreensões dadas pelo padre Ibiapina aos seus beatos,
porque eles estavam julgando que a sua missão estava feita apenas na
oração. Ele dizia: “não”. Tem que ser na obra, na intervenção sobre a
natureza, na caridade, na ajuda material ao próximo e nas obras pias,
lembremo-nos que Antônio Conselheiro bebe dessas fontes. Não só o
maravilhoso de frei Vitale como do obreirismo do padre Ibiapina, e junta
a tudo isso um terceiro segmento estrangeiro – muito divulgado no
Brasil, através de uma obra terrível, cheirando a enxofre, que era o
livro Missão abreviada, do padre, também oratoriano de Goa, na índia,
Manuel José Gonçalves Couto, que poderia ser resumida numa frase: “o
mundo está podre, mas tão podre que já não há salvação”.
Ruínas em Canudos!
Euclides da Cunha não compreende Antônio Conselheiro; criado, moldado
nesse ambiente secular, e parte para interpretá-lo de maneira fácil, a
partir de questões psiquiátricas. De uma psiquiatria, ã época, muito
presunçosa — lembremos que é desse período que data Lombroso, Erico
Ferri e outros proponentes de esquemas simplórios, reducionistas de
interpretação da conduta humana. E ele, então, com Riva, Maudsley
pretende esclarecer tanto os casos individuais de patologia mental,
quanto os casos coletivos. Nisso, de fato o seu livro hoje não tem mais o
que nos dizer.
Foi minha preocupação, nesse meu novo estudo, mostrar o
Conselheiro, antes de tudo, como sertanejo e, como tal, um homem situado
no seu chão, no seu tempo, e em volta dele, desse tempo, os homens que
no plano místico, como frei Vitale, padre Ibiapina e Manuel Gonçalves
Couto, lideram o misticismo maravilhoso, o ombreirismo impenitente e as
escatologias de tragédias que são dadas pela Missão Abreviada.
Soldados do Exército Brasileiro ao final da Guerra.
Suplemento Cultural — Seguindo ainda essa trilha da
religiosidade, gostaria que o senhor nos dissesse o que aqueles vinte e
cinco m il sertanejos encontraram na figura do Conselheiro que os
levaram a abandonar tudo e segui-lo, e também como se manifestava a
autoridade religiosa do Conselheiro no dia-a-dia do Arraial?
Frederico Pernambucano de Mello — Antônio
Conselheiro, cearense de Quixeramobim, pardo, bastardo, mas nascido numa
família aguerrida, que era a família Maciel (em luta permanente contra a
família Araújo), nasce com essas duas grandes desvantagens sociais. Ele
é um homem que sai colecionando derrotas na sua vida, mas se recupera,
para a produção de um conjunto de obras úteis para a sociedade em que
vivia, através da pregação religiosa de frei Vitale, já morto, do
testemunho vivo, ao seu tempo, do padre Ibiapina, parecendo até que o
acesso a Missão abreviada só vem no momento seguinte — porque houve uma
fase nele que era francamente de auxílio ao povo, à terra, sobretudo aos
menos favorecidos. Curiosamente o Conselheiro nunca se disse um Deus.
Pelo contrário, ele mandava que se levantasse da sua presença quem se
ajoelhava e tentava beijar-lhe os pés ou as mãos, dizendo claramente:
levante-se. Deus é outra pessoa. E quando perguntavam quem ele era, ele
dizia: eu sou apenas um peregrino em busca dos mal-aventurados. Ele era
um homem de definições absolutamente claras, ilibado nos seus costumes,
pobre, que não amealhava valores, o que entrava por um bolso saía pelo
outro para os pobres. Essa característica se choca, na visão do
sertanejo, com o que era visto na igreja colonial brasileira: o padre
com família constituída, às vezes morando na casa principal do vilarejo,
apresentando publicamente a mulher, os filhos, entregues à simonia mais
desenvolta, dominando o processo político (lembremos que, à época, as
eleições eram feitas nas igrejas).
Enfim, essa Igreja um tanto desmoralizada sofre um impacto com esses
missionários que se apresentavam com a moral ilibada, desinteressados de
valores e preocupados com o lado místico. É assim Conselheiro, e
ninguém o incomoda enquanto assim foi; o peregrino que construía
estradas — algumas das quais ainda existentes no Sertão -, capelas,
igrejas, cemitérios, açudes, barreiros, inspirando a formação de ordens
sacras.
Só em 1892, quando ele se insurge, já no período republicano,
contra a cobrança de impostos e, perseguido pela polícia e alvejado por
alguns soldados da Bahia, foge com os seus seguidores para fundar o
Arraial do Belo Monte de Canudos, que ficava arredado das zonas povoadas
do Sertão, só então é que começa a se formar aceleradamente, alguém
diria que até dentro de um processo de patologia social — não sei —, em
quatro anos, o que viria a ser a segunda cidade da Bahia, a maior e a
mais populosa depois de Salvador.
Ela surge do nada, onde apenas existia
um povoado de cinquenta choupanas em decadência, para a pujança de seis
mil e quinhentos casebres, dos quais mil e seiscentas casas boas, com
telhas e algumas até com piso de taco. Com uma economia pujante, feita à
base de cultura de subsistência, onde estava presente o ofício da
confecção do tecido, da rapadura, e da produção dos couros de bode e
carneiro para exportação. Nesses quatro anos é que o Conselheiro se
transforma num ímã social, porque ele cria um tipo de ajuntamento pio
onde não era admitida a presença de delegado, promotor, juiz,
prostitutas, bares abertos. alcoólatras.
Antônio Bruega, ex-combatente da Guerra de Canudos, clicado por Audálio Dantas em 1964.
Cria uma sociedade moralmente limpa, com um certo coletivismo dos
meios de produção, afinado com o que ele tinha aprendido com a cultura
indígena das tabas do Sertão. E mais: a capacidade que ele teve ao se
tornar uma figura aguerrida em relação ao meio circundante, atraindo
para si negros libertos de 1888, os decepcionados com a República, os
caboclos do Sertão, os vários remanescentes de tribos indígenas – como
os dos rodellas, kiriri, e várias outras que se associaram a ele no
Arraial -, e ao manter o burgo de Canudos à margem da politicagem aldeã.
Canudos é a soma desses fatores sociais e econômicos aos fatores
físicos.
Localizado num trecho do Vaza Barris, que era uma grande zona
de drenagem das chuvas daquela zona sertaneja, com a possibilidade de se
ter uma boa cultura de legumes, de cereais, Canudos era, como disseram
várias testemunhas, uma vasta criação de boi, de bode, de cabra, etc.
Todos esses fatores conspiraram para que o Conselheiro mostrasse o rumo
de uma colonização diferente daquela que estava sendo levada a efeito
pela Coroa, na fase Imperial, e pela República, nos anos mais recentes;
um caminho novo de vida que, no entanto, paradoxalmente, era um caminho
de passado, era um caminho de volta aos bons velhos tempos da vida
arcaica, dos primórdios da colonização.
Canudos na década de 1940.
Suplemento Cultural — Há alguma relação entre a moral
religiosa apregoada pelo Conselheiro, aceita sem nenhum questionamento
pelos jagunços, e a forma como estes se comportavam frente ao inimigo?
Lembro aqui, por exemplo, o fato (revelado em seu livro) dos jagunços só
reagirem às investidas das tropas do Exército quando eram atacados.
Frederico Pernambucano de Mello — Canudos tem um
período curto de vida. Evidente que nós estamos falando de um
ajuntamento urbano que rapidamente cresce em complexidade. Muito cedo,
uma liderança política baiana, sertaneja, como era o barão de Jeremoabo,
começa a escrever artigos para a imprensa da Bahia, se queixar das
lideranças políticas do Estado, de que não havia mais fazenda que
pudesse ter a sua vida normal, uma vez que já não havia mais
mão-de-obra, toda ela drenada pelo Conselheiro para o seu projeto de
teocracia no Belo Monte. Era uma teocracia, efetivamente, o que havia no
Belo Monte.
Porém, nota-se claramente que o Conselheiro já não
conseguia mais administrá-la. Primeiro, porque estava envelhecendo,
achacado por doenças; segundo, porque já não era possível administrar
sem delegar poderes, sem especializar tarefas e atribuí-las a pessoas de
sua confiança. É quando se nota, que ele, fiel a uma velha tendência
ainda dos tempos de peregrino (desde quando funda o Belo Monte que ele
perde esse caráter de peregrino, ele fica sedentário, e ao optar por ser
sedentário, assume uma postura de rei espanhol da antiguidade,
aparecendo pouco ao seu povo, valorizando as suas aparições, que era
sublinhada por foguetório imenso, emoções, desmaios, dobres de sinos
etc.), se faz cercar das pessoas de sua confiança, os seus conterrâneos,
os chamados cearenses.
Como
se encontrava na década de 1940 o canhão inglês Withworth de 32 libras,
a famosa “Matadeira”, utilizado pelo Exército em Canudos e destruído
corajosamente pelos seguidores de Antônio Conselheiro.
Quando digo os chamados, é porque aí estavam os que nasceram no
Ceará, como ele, mas também os tangidos, em geral, pela seca. Na época,
para a imprensa do Centro-Sul, em particular a carioca, cearense era uma
espécie de sinônimo de nordestino vítima da seca. Então ele cria, no
seu projeto teocrático, uma estrutura de poder que repousava nos seus
iguais, nos sofridos como ele, nos mal-aventurados como ele, e esses
homens eram sempre os cearenses. Sempre ele tem um cearense como
lugar-tenente.
Cearense era a sua inspiração divina, o padre Ibiapina.
Cearense foi a única mulher, Teresa Jardelina de Alencar, a mais bonita e
a mais vaidosa do Arraial, conhecida como a “Pimpona” que – sustenta
Dantas Barreto, tendo ouvido de jagunços lá em Canudos — privava não
apenas do círculo íntimo do Conselheiro, mas também com quem o
Conselheiro conversava, sofrendo dela alguma influência.
E isso é
estranho, principalmente quando sabemos que diante de qualquer mulher
que aparecesse, a atitude do Conselheiro era sempre de permanecer de
vistas baixas. Mas a autoridade do Conselheiro, em primeiro lugar,
provinha da pureza da sua vida privada e da sua pregação, do
desprendimento em face dos valores. Ele era um pregador insinuante, uma
palavra persuasiva, um grande autor de catequese, um grande
evangelizador, possuía todos os atributos que se espera de um místico
para levar a sua pregação a um ponto de sucesso.
Oficiais do Exército Brasileiro e uma moradora de Canudos ferida em uma padiola.
A sua autoridade era uma autoridade indiscutível, teocrática,
absoluta, lembrando a dos aiatolás mais recentes no Irã, cujas ordens
ninguém discutia. E ele teve ocasião de manifestar essa sua autoridade
de maneira drástica. Vou dar apenas aqui um registro. Quando ele chega a
Canudos, encontra lá uma família grande de pequenos comerciantes: os
Mota Coelho. Mas ele trazia consigo um cearense de sua confiança, uma
grande vocação de comerciante, que era Antônio Vilanova. Por convite do
Conselheiro, Vilanova começa a bancar o comércio no Arraial do Belo
Monte. Muito cedo se choca com as pretensões mercantis dos Mota Coelho.
Conselheiro, que sabia que o seu projeto de poder dependia da sua rede
de cearenses, manda lentamente exterminar a família Mota Coelho. Só não
morrem os que fogem, um dos quais assenta praça na polícia da Bahia, e
dá entrevista para os jornais explicando toda essa tragédia que se
abatera sobre sua família. Então, era uma autoridade incontrastável, que
preenchia todos os vazios, mas era uma autoridade que começava a se
esgotar diante do volume que o Arraial estava tomando. Então, grande
parte do poder já tinha resvalado para o célebre João Abade, que era uma
espécie de Ministro da Guerra; para o seu primeiro general, o
pernambucano Pajeú, natural da Baixa Verde, que foi o seu grande
cabo-de-guerra; e as funções de Casa da Moeda e Juiz de Paz atribuídas
ao citado Antônio Vilanova.
Ruínas em Canudos.
Não obstante, o seu poder ainda era tão grande que, apesar de alguns
dos seus guerreiros terem pretendido adotar uma estratégia ofensiva,
quando viram que o Exército estava tropeçando nas próprias pernas, nada
disso foi feito. Não porque faltasse ao sertanejo a intuição militar de
fazê-lo. Pelo contrário. Essa intuição militar sobrava no sertanejo.
O
próprio exército admite isso. Acontece que o Conselheiro era radical na
pregação de que o papel militar deles era de defender o Belo Monte. Não
fazia parte da estratégia do Conselheiro derrotar o Exército. Fazia
parte defender o mundo sertanejo que ele compreendia de uma concepção
litorânea que lhe era completamente estranha. E em Canudos, o que há de
mais dramático é que os litorâneos, em nenhum momento, compreenderam os
sertanejos, e os sertanejos não tinham como compreender os litorâneos.
Foto de uma nota do jornal natalense A República de 1897, sobre o desenrolar da Guerra.
Suplemento Cultural — Como se dava a organização militar
dos jagunços — suas táticas de guerra, seus armamentos etc. — para que
eles pudessem enfrentar o Exército e saírem vitoriosos em três das
batalhas? Ainda dentro da pergunta, quais foram as principais falhas
táticas cometidas pelas expedições militares?
Frederico Pernambucano de Mello — O conhecimento
militar dos jagunços claramente não eram alguma coisa que exultasse de
uma verdade revelada. Quando acontece a 1ª Expedição Militar, do tenente
Pires Ferreira, os jagunços, que se chocam com essa expedição no
povoado baiano de Uauá, perdem uma quantidade enorme de adeptos. É
verdade que conseguem colocar a tropa do Exército para correr, mas
enquanto os militares perdem cerca de dez homens, os jagunços perdem
cerca de cem ou mais. Eles ainda não conheciam bem o sistema de combate.
A partir da 2ª Expedição, de Febrônio de Brito, eles começam a receber,
de permeio com a população, cangaceiros famosos que vinham de
Pernambuco, da Bahia, e começam também a aprender alguma coisa
observando os próprios militares. O que é preciso lembrar, ao contrário
do que dizia Euclides da Cunha, é que a 1ª Expedição Militar, a de 1896,
já era equipada a fuzis Mannlicher, modelo 1888, e não a Comblain, que
era um fuzil mais antiquado e não era uma arma de repetição. Os jagunços
começam a aproveitar essas armas e aprendem a fazer uso delas
maravilhosamente. É curioso assinalar que, apesar, de desde a 2ª
Expedição, os jagunços disporem de fuzis do Exército, eles não abandonam
os seus bacamartes.
Outro grupo de militares.
O bacamarte é uma arma que provocava um tiro fragmentário, com
pregos, pelouros de chumbo, pequenas pedras de hematita, muito
abundantes no local, enfim, que era usado muitas vezes para fazer uma
varredura, ou manter uma posição. Os jagunços tinham uma consciência –
que pode ser coisa arcaica, mas que na verdade é uma caraterística até
de guerra moderna — de que o seu bacamarte tinha um uso militar. Eles
combinam maravilhosamente o uso do bacamarte com o uso dos fuzis
recolhidos do Exército. Atuavam numa ordem tática admirável.
Com
formação diluída, piquetes de 12 a 20 homens, manobrando em formação e
desfazendo aquela formação rapidamente. Os que seriam comandantes de
companhia, na linguagem militar, que eles chamavam de cabos de turma,
usavam apitos para dar as vozes de comando. E nas distâncias maiores, em
que o apito não era audível, eles usavam o bacamarte, com tiro de
pólvora seca, para formar e desmanchar as linhas de atiradores, promover
o ataque de flanco, promover a retaguarda, e fustigar, enfim, a tropa
militar de todas as maneiras.
Os remanescentes das 2ª e 3ª Expedições
trouxeram para o litoral uma crônica sobre o modo de combater dos
jagunços que era aterrorizadora, porque eles diziam o seguinte: nos
comboios, os jagunços atiravam logo nos cavalos. Aí imobilizavam os
comboios e, facilmente, não tinham mais pressa, a partir desse momento,
de destruir os homens que seguiam juntos com aqueles comboios.
Jornal dos Estados Unidos comentando a vitória das forças legais em Canudos.
Chegavam ao requinte de retirar a farda dos soldados mortos,
vestirem-se com essas fardas, penetrarem nas linhas do Exército, e
disseminarem o pânico completo, atirando quase à queima roupa nos
soldados que supunham estar sendo alvejados por seus próprios
companheiros. Enfim, usavam de todas as velhacarias. Há um
correspondente do Jornal do Brasil, na época, que diz: os jagunços se
vestiam de folhas, traziam chocalhos ao pescoço, para mais
insidiosamente penetrarem nas linhas dos soldados e poderem matá-los. E o
que mais se vê da crônica militar é a consideração de que o jagunço era
invisível. De fato, há aí um campo extraordinariamente rico.
O jagunço,
já em 1897 (sintonizado com uma virtude militar que só seria teorizada
em termos finais, e colocada em prática, sistematicamente, em 1904,
pelos japoneses, na Guerra Russo-Japonesa, mais especificamente na
Campanha da Mandchuria), com a sua mescla azul desbotada e a sua túnica
de algodãozinho, muitas vezes fiado nas rocas e nos fundos do próprio
Arraial, ofereciam cores que, segundo os manuais militares, desaparecem
da vista humana entre cento e cinquenta e duzentos e trinta metros.
Enquanto isso, o nosso Exército, fazendo uso do azul ferrete, nas
túnicas, e do vermelho escarlate, nas calças, se fazia visível ao
jagunço em distâncias superiores aos setecentos e até compatíveis com os
mil metros de afastamento do atirador.
Jornal
“A Republica”, 10 de dezembro de 1897 – A tropa de potiguares do 34º
Bataslhão que seguiu para Canudos retornou para Natal no vapor “Una”, o
mesmo que os transportou oito meses antes. Às onze e meia da manhã, em
torno de 4.000 pessoas aguardavam o desembarque, depois seguiram para a
Matriz para uma missa, havendo uma quase interminável seção de discursos
no quartel e finalmente os veteranos para as suas casas. Os jornais
comentam, com uma sutileza típica da impressa na época, que muitos
soldados voltaram “doentes e inutilizáveis”. No outro dia a tropa e a
população da cidade inauguraram o monumento aos mortos da guerra no
cemitério do Alecrim.
O Exército de homens do Norte e do Nordeste, e também de sulistas,
era, basicamente, de litorâneos, salvo pelo Batalhão de Polícia da
Bahia, composto por barranqueiros do São Francisco, homens que Euclides
considerava ajagunçados. Esses eram diferentes, eram, inclusive,
eficientes na guerra contra os homens de Conselheiro. Mas os litorâneos,
ao chegarem ao Sertão, não viam como se apropriar das riquezas
sertanejas, que não são à flor da pele. Quem chega na caatinga pensa que
vai morrer de fome em pouco tempo, mas o catingueiro sabe que tem por
si o mel de abelha, que lhe permite o suprimento calórico fabuloso, as
várias formas alimentares, inclusive de fauna e de flora, que a olhos
especializados se oferecem com facilidade.
O Exército não enxergava nada
disso, não conseguia tirar daquela terra as riquezas necessárias, e
padece de fome grave. Houve um grande descuido, da parte dos comandantes
militares, em todas as expedições, quanto ao aprovisionamento de
munição, aquilo que hoje se chama de logística. No entanto, é
imperdoável a ausência dessa logística, porque ela já era muito antiga,
como imperativa a qualquer força expedicionária que vá combater
território inóspito. Mas no Exército Brasileiro dessa época prevalecia a
ideia de que toda força expedicionária teria que se valer dos recursos
locais, e assim era, mesmo quando se tivesse a certeza de que esses
recursos locais eram inexistentes.
Na
edição de “A Republica” de 17 de julho, estão listados os nomes dos
mortos, seus beneficiários e suas patentes. Ao ler a lista, salta aos
olhos um fato interessante; dos 41 integrantes do 34º Batalhão de
Infantaria listados pelo jornal como mortos no conflito, não há um único
oficial. No total são 3 sargentos, 9 cabos, 3 anspeçadas (patente
atualmente extinta), 3 músicos (corneteiros) e 23 soldados.
Outro problema do Exército era a excessiva liberdade que os chefes
militares tinham de polemizar entre si. A Guerra de Canudos foi
extremamente permeada por um número enorme de correspondentes de guerra
dos jornais do Centro-Sul e da Bahia. Havia um deles, capitão honorário
do Exército, José Benício, do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro,
que era com uma pena numa mão e, com a outra, um mosquetão. Como
historiador, eu só encontro a Guerra do Vietnã, recentemente, para
comparar com o que foi a presença íntima da imprensa nas linhas de fogo,
mandando informes de Canudos a cada instante. Havia linha telegráfica
de Monte Santo transmitindo esses artigos para Queimadas, de Queimadas
para Salvador, e de Salvador para o Rio de Janeiro, e os chefes
militares ficavam, através dos seus artigos, polemizando pela imprensa.
Um caso dramático foi o do chefe supremo da 4ª Expedição, o general
Artur Oscar, que manda dizer à imprensa do Rio que o inimigo era, no
mínimo, de quatro mil combatentes, e o coronel Carlos Teles, comandante
da 4ª Brigada de Infantaria, que escreve para o mesmo jornal, em
desmentido, e afirma que os jagunços não passavam de seiscentos homens.
Isso causa um impacto enorme na imprensa.
Eram dois chefes militares, um
subordinado ao outro, mas que abrem polêmica pela imprensa no momento
mesmo em que os combates se feriam. A outro caso, o do tenente Marcos
Pradel de Azambuja que responde ao tenente-coronel José de Siqueira
Menezes, desmentindo, até de maneira dura, um artigo que tinha sido
mandado por este. Era o tempo do chamado bacharel soldado. A Escola
Militar tinha um curriculum enciclopédico, onde se discutiam os temas da
Revolução Francesa, e ninguém discutia a matéria técnica conexa à arte
militar. Então, essa ausência de ensinamento de técnicas militares vem
também dificultar a aplicação das ordens de comando no campo de batalha.
Foi em Canudos que o gênio de Euclides da Cunha criou a frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E é mesmo!
Suplemento Cultural — Existe um episódio em Canudos,
praticamente desconhecido, que é o da participação dos soldados
pernambucanos na Guerra de Canudos. Ressalta-se muito a participação dos
gaúchos na 4’ Expedição, organizada pelo general Artur Oscar, mas se
tem esquecido dos soldados nortistas e nordestinos. O senhor, de maneira
pioneira, estuda essas participações. Comente um pouco a presença
desses soldados no campo de batalha.
Frederico Pernambucano de Mello — Em cem anos de
bibliografia sobre Canudos, o que se passou para o público foi a ideia
de que, além de um conflito entre litoral e Sertão, teria havido,
também, em Canudos, um conflito entre Norte e Sul. O Norte, termo
genérico que englobava na época o Nordeste, representado pelos jagunços,
e o Sul, representado pelo Exército. Então, eu pude verificar – e é um
dos pontos de pioneirismo do estudo que estou apresentando – que as
tropas que intervieram na fase mais penosa da Guerra, que é a fase
inicial, a partir de 25 de junho, com os primeiros combates a 27 e 28
também de junho, são tropas do Norte e do Nordeste.
Do Recife — que foi
uma cidade particularmente lançada em todos os episódios da Guerra —
parte, escolhido pelo presidente da República, o comandante supremo, o
general Artur Oscar, para o teatro de operações, à frente de uma força
expedicionária portentosa, tão logo corre a notícia, mais ou menos a 7
de março, da morte do coronel Moreira César (ele morrera a 3 de março,
mas a notícia só chega à imprensa em tomo do dia 7).
Vista do mirante de Canudos, a estátua de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos, na Bahia LUCIANO ANDRADE/AE
O general era um carioca, agauchado pelo longo período de permanência
na fronteira Sul do Brasil, e um herói de verdes anos da Guerra do
Paraguai. Mas esse homem morava no Recife com a sua esposa, dona Maria
Helena, figura marcante em todos os passos da sua vida. Artur Oscar
parte do Recife com o 14º Batalhão de Infantaria, que era de Pernambuco,
e o 27º Batalhão de Infantaria, da Paraíba. Poucos dias depois, recebe o
aporte do 34° Batalhão, do Rio Grande do Norte; do 35º, do Piauí; do
2º, do Ceará; do 5°, do Maranhão; e do 40°, do Pará.
Em seguida, o 26°,
de Sergipe, e o 33°, de Alagoas. Ao lado de três batalhões gaúchos, é
essa tropa, inicialmente, quase que esmagadoramente predominante de
nordestinos e nortistas, que intervém na Guerra. Por Recife passam
quantidades imensas de tropas. A cidade se alegra, se engalana, se
prepara para receber maravilhosamente, ao longo dos meses de março e
abril, essas tropas que passavam, e se converte no que, um pouco naquela
ideia que foi desenvolvida com a Segunda Guerra Mundial, em relação a
Natal, no Rio Grande do Norte, em uma espécie de trampolim da vitória da
Guerra. No dia 15 de março sai daqui o comandante supremo, no mesmo
navio, com tropas do Norte e do Nordeste.
O engano de se supor que o
exército era, todo ele, de sulistas, é que, na fase final da Guerra,
muitos meses depois de iniciada a ação, as tropas vão sendo substituídas
pelas tropas frescas vindas do Sul, e acontece que, em um determinado
momento, já a seis dias do final da Guerra, esses sulistas estavam em
bom contingente. Alguns, até chegados recentemente.
E ao chegarem, com
eles segue o fotógrafo Flávio de Barros, contratado pelo ministro da
guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, para fazer a cobertura dos
lances finais da Guerra. Assim, a iconografia da Guerra remete o
historiador apressado à crença de que o Exército era todo aquele
contingente de homens de bombachas, tomando chimarrão, com chinelas à
beduíno, quando, na verdade, o grande suporte da Guerra é de nordestinos
e de nortistas.
Suplemento Cultural — Estou lembrando que no livro No
calor da hora; a Guerra de Canudos nos jornais, de Walnice Nogueira
Galvão (1977), a pesquisa para nos jornais da Bahia. A autora deixa sem
levantamento, assim, tudo o que também se publicara nos outros
periódicos do Norte e Nordeste. Eu pergunto se há algo de exclusivo que
os jornais pernambucanos registraram e que passou desapercebido pelos
outros jornais da época.
Frederico Pernambucano de Mello – Há uma riqueza
muito grande nos jornais pernambucanos por uma circunstância afortunada.
É bem verdade que tanto os jornais do Sul quanto os de Pernambuco
reproduzem bastante matérias transcritas dos jornais da* Bahia. Eram
feridos que desciam para Salvador e eram ouvidos pelos repórteres, ou
eram ouvidos em Queimadas, na ponta da linha do trem, ou até mesmo em
Monte Santo.
Mas no Recife aconteceu uma coisa curiosa. Dada a união
romântica, muito bonita, do general Artur Oscar com a sua esposa, dona
Maria Helena, ele se permitia mandar telegramas quase diários para ela,
relatando cada passo dos combates. Consequentemente, muito cedo a
imprensa de Pernambuco descobre que era na casa do general que estava
uma das melhores fontes de notícias frescas sobre o teatro de operações.
E aí há uma verdadeira orgia de informações patrocinadas pela esposa do
general.
Ela recebia os telegramas, lia e passava para a imprensa, e essa
imprensa muito frequentemente vinha a público agradecer a generosidade
de dona Maria Helena, “sem cujo concurso a nossa redação estaria
completamente à mingua de notícias”. Então, o diferencial positivo da
imprensa do Recife é de natureza romântica e doméstica, porque passa
pelo amor do general pela sua esposa, e pela generosidade dessa esposa
em alimentar de informações a imprensa da cidade a que ela tanto amava.
Eu tive o cuidado, no livro, de colocar uma grande quantidade desses
telegramas, que começam sempre de maneira muito bonita: “Monte Santo,
data tal, Maria Helena, saudades”, e aí segue seu relato. Essa fonte
alternativa, romântica, muito simpática, e muito insuspeitada de
informações, não há em nenhum outro ponto do Brasil, era privativa do
Recife. Para esta cidade ele volta ao final da Guerra, desdenhando de
ser recebido no Rio de Janeiro pelo presidente da República, o que
causou um grande frisson. Ele vem de Salvador para o Recife,
onde recebe as mais retumbantes homenagens que um chefe militar possa um
dia sonhar em receber.
SC — Morre no Recife?
Frederico Pernambucano de Mello — Não, morre no Rio,
mas já anos depois. Ele vai morrer em 1903, seis anos depois da Guerra,
já reformado e morando no Rio de Janeiro.
SC — No apêndice do seu livro temos verbetes biográficos
dos homens da Guerra. Traçando a trajetória de vida desses que foram os
artífices da Guerra — militares e civis — o senhor encontrou algum dado
revelador, até então desconhecido?
Ruínas da Guerra.
Frederico Pernambucano de Mello — O livro tem um
apêndice com três contribuições que eu reputo de importância para a
compreensão da Guerra. O primeiro é o memorial deixado pelo frei João
Evangelista de Monte Marciano, um italiano chegado ao Brasil, em 1872,
que esteve no Arraial, em 1895, tentando, através da pregação religiosa,
dissolver o Arraial, que já era considerado pela Igreja Católica como
uma força contrária ao ultramontanismo de Roma, porque se formava ali
uma Igreja popular. Por exemplo, uma instituição de igreja popular era a
“beija das imagens”. Isso vinha do padre Ibiapina.
Terminada a
solenidade, o Conselheiro ia beijando imagem por imagem. A Igreja
Católica, na sua ortodoxia, não reconhecia esse ato como fazendo parte
da liturgia. Também o papel da República se voltando contra aquele
irredentismo de Canudos. Tudo isso está no relatório do frei Monte
Marciano. Ao lado disso, eu tive o cuidado de, em mais de dois anos de
investigação, purificar a informação sobre as armas empregadas na
Guerra. Isso parece irrelevante, mas na verdade tem um grande papel,
porque a bibliografia centenária da Guerra nos remete a uma grande
confusão.
Ainda recentemente, instituições sérias têm publicado
verdadeiros disparates nesse campo, apontando armas que jamais foram
utilizadas ali, ou enaltecendo o papel de canhões, como as baterias
Canet, que morreram virgens, porque chegaram em Monte Santo e de Monte
Santo não foram levadas para o teatro de operação, e, no entanto, são
apontadas como sendo as grandes armas de importância em Canudos. Então
houve essa preocupação de purificar a informação militar sobre os
petrechos bélicos, e chegar a um grau de confiança que parece bastante
aceitável.
Por fim, uma biografia das figuras envolvidas na Guerra. E aí
há revelações bem curiosas. Uma delas é a figura de Teresa Jardelina de
Alencar de quem já falamos anteriormente. Foi possível também
verificar, nesse cotejo das figuras da Guerra, que um nome avultava em
meio a todos os demais: o do então tenente-coronel Dantas Barreto.
Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos.
Pernambucano de Bom Conselho, herói da Guerra do Paraguai, para onde
segue com 15 anos de idade, volta como alferes por bravura, e que na
Guerra de Canudos, onde chega, a 25 de junho, comandando o 25° Batalhão
de Infantaria, vindo do Rio Grande do Sul, em pouco tempo é elevado ao
comando da 3° Brigada de Infantaria. É o idealizador do
entrincheiramento mais importante, que teve o nome de Linha Negra, e
fica por ser o expugnador da Igreja Nova, que era o baluarte máximo dos
jagunços. Esse homem fica do primeiro ao último dia da Guerra, o que é
uma raridade, em trincheiras insalubres, fétidas, atacadas pela varíola,
infestadas de muquiranas e de piolhos, onde a desinteria grassava a
cada instante e onde, muito frequentemente, os oficiais passavam apenas
seis dias, porque caíam doentes.
Dantas, por ser sertanejo e de origem
humilde, fica do primeiro ao último dia da Guerra e pratica as façanhas
mais importantes.
No plano militar é, ao meu ver, o grande herói da
Guerra. Também será esse homem que produzirá, entre os seus
contemporâneos, a obra literária mais vasta sobre a Guerra de Canudos,
embora inteiramente esquecida, apesar de a Última Expedição a Canudos,
de 1898, ser o livro mais citado por Euclides da Cunha em Os Sertões. Mas o Dantas nos deixa também os livros Destruição de Canudos, de 1912, e Acidentes da Guerra, de 1914. Acidentes da Guerra
é o primeiro romance histórico, escrito por militar, abordando aspectos
da Guerra, inclusive o perfil mental do coronel Moreira César.
É uma
figura que compreendeu que o Conselheiro era um pregador persuasivo, era
um homem, como ele dizia, de vistas superiores, um grande condutor da
sua gente.
É a Dantas Barreto que nós devemos a convicção — e não a Euclides,
jamais a Euclides — de que o Exército não se bateu em Canudos contra
nenhum idiota, nem nenhum doente mental. Porque a ideia que se tem que
Conselheiro seria um paranoico, um desequilibrado — como disse Euclides:
um neurótico vulgar — é que o nosso Exército, que perde em Canudos
cinco mil soldados, tinha tido um papel estranho de não conseguir vencer
um homem com todas essas qualidades negativas. Na verdade, Dantas
mostra claramente que o Conselheiro tinha virtudes de condottiere das
massas.
SC — O seu livro também trata dos excessos da Guerra de Canudos. Quais foram esses excessos?
Frederico Pernambucano de Mello — Muito se fala
sobre os excessos da Guerra de Canudos. De fato, é uma Guerra
absolutamente sem quartel. Mas os excessos foram de parte a parte.
Normalmente, nós vemos mais o excesso do Exército, ao não permitir
prisioneiros masculinos, quase todos eles degolados ao final da Guerra;
ao patrocinar uma diáspora de crianças, os chamados jaguncinhos, que
eram doados pelo comandante supremo a quem os solicitasse.
O próprio
Euclides da Cunha levou um desses meninos, que viria a ser um professor
primário em São Paulo. Outros deram a essas crianças destinos menos
nobres. As mocinhas, às vezes de 12, 13 anos, eram estupradas
impunemente pelos soldados. Formaram-se comitês de auxílio. Um deles,
chefiado pelo jornalista Lelis Piedade, que encaminhou, em Salvador,
algumas dessas crianças para um destino melhor, mas, no geral, órfãs,
elas sofreram uma diáspora, foram espalhadas por todo o país.
Os homens adultos, degolados, com as carótidas cortadas, ao estilo da
fronteira, ao estilo uruguaio, da malagataria, e argentino, da
província de Corriente, bebido no Rio Grande do Sul, desde o levante
Federalista de 1893. Mas também do lado jagunço, o retalhamento a facão
dos feridos da 1ª e 2ª Expedições, e da 3ª, do coronel Moreira César — o
próprio Moreira César, juntamente com o capitão Salomão da Rocha e o
coronel Tamarindo, foram retalhados a facão. Era uma guerra sem
condescendência, de parte a parte.
Com relação ao Exército, é
interessante dizer, porque quase não há investigação nesse sentido, de
que, já em 1900, o Exército assumia uma posição de censura aos excessos
de conduta praticados por um de seus membros, o general Artur Oscar, na
condução da Campanha de Canudos.
Esse fato nos vem da seguinte
revelação: nesse ano de 1900, o general Artur Oscar se dirige
oficialmente ao Senado da República pedindo a instituição de uma
comenda, com o que seriam galardoados os militares participantes da
Campanha de Canudos. O Senado abre vistas do processo ao Exército, e o
Exército envia o assunto ao Estado Maior. Presidia o Estado Maior o
general João Tomás da Cantuária, considerado um militar brilhante na
época.
E o parecer do general é um primor de equilíbrio, ao dizer que o
Exército Brasileiro, oficialmente declarado ao Senado da República, não
era favorável a instituição de uma comenda, devido aos excessos
praticados numa Guerra que, em final de contas, era um conflito de
brasileiros contra brasileiros, realizado inteiramente no âmbito de um
Estado da Federação.
Corpo de Antônio Conselheiro.
Então, o que se pode ver do episódio de Canudos é o Exército punindo e
limitando o próprio Exército. E esse pequeno ponto de luz é sempre
interessante que se tenha em vista, no momento em que, costumeiramente, o
mais fácil, o mais sensacional, é apenas mostrar a sistematização da
degola praticada pelos militares, em Canudos.
Suplemento Cultural – Euclides conclui Os Sertões dizendo
que “ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas [do
Conselheiro], as linhas essenciais do crime e da loucura…”. O senhor, de
certa forma, conclui o seu livro discordando dessa assertiva, quando
transcreve os resultados científicos que, em dezembro de 1897, o médico
Nina Rodrigues revelou ao país. Para este, não havia “nenhum a anomalia
que denunciasse traços de degenerescência” no Conselheiro. Porém, como
fizera Euclides, antes, o senhor deixa o leitor mais uma vez curioso,
pois fica sem saber qual foi a reação das autoridades e do povo
brasileiros com o tão esperado laudo de Nina Rodrigues, depois de tudo,
que se tinha dito e escrito na imprensa contra o Conselheiro.
Frederico Pernambucano de Mello — É verdade.
Observe-se que Os Sertões é um livro que cria uma ideia de um
Conselheiro monstruoso. E por conta talvez dessa crença que existia, e
que Euclides captou e terminou por traduzir em seu livro, ao terminar a
Guerra, no dia seguinte, 6 de outubro de 1897, foram feitas escavações
numa área ao lado da Igreja Nova, e onde se sabia ter residido o
Conselheiro até a sua morte. Rapidamente, foi encontrada uma área de
areia fofa, onde se pôde exumar o cadáver de um homem de um metro e
sessenta de altura, pardo, desprovido de dentes nas maxilas, vestido com
uma batina de mescla azul, e envolto em lençóis brancos e esteiras de
cera de carnaúba. Cabelos ainda fortemente escuros, negros, a barba
apenas um pouco grisalha, o nariz já parcialmente comido pelos vermes, e
que era Antônio Conselheiro.
Representação dos jornais brasileiros mostrando Antônio Conselheiro contra a República Brasileira.
Um médico da Expedição, chefe do corpo sanitário, que era lotado
aqui, no Recife, e sai daqui junto com o general Artur Oscar, o
major-médico José de Miranda Cúrio, que operava, fazia amputações,
conversando o tempo todo com os amigos, contando piadas, e ali fazia 20,
30 amputações de pessoas que chegavam feridas ao Hospital de Sangue,
entende de cortar a cabeça do Conselheiro. Remove a massa encefálica,
coloca cal para conservação, encerra-a numa urna, e leva ele próprio
para Salvador a cabeça do Conselheiro, para que ela fosse periciada pela
grande sumidade da ciência nacional, Raimundo Nina Rodrigues.
Este
recebe o crânio e se permite trocar ideias com o maior psiquiatra
brasileiro do seu tempo, Juliano Moreira.
Eles analisam exaustivamente o
crânio do Conselheiro do meado de outubro até o meado de novembro,
quando, então, para surpresa geral, inicialmente deles próprios, depois
da Nação, eles revelam que o crânio de Antônio Conselheiro não
apresentava nenhuma anomalia que pudesse responder pela sua suposta
criminalidade, pela sua violência, pela sua conduta irredenta. Ele tinha
o crânio normal, tinha até traços superiores, porque era um
dolicocéfalo, mesorrino.
A partir dessa proclamação, que é feita com
grande surpresa por Nina Rodrigues, inicia-se no país um grande complexo
de culpa nacional, que só tem feito crescer, nesses cem anos passados,
desde quando a Guerra terminou. Conselheiro não era um criminoso.
Cruzeiro de Canudos na década de 1940.
Conselheiro era apenas um homem diferente, o outro, uma concepção de
vida sertaneja que estava inteiramente desconhecida e ignorada no
litoral e que, graças a isso, a Guerra não teve por si nenhuma tentativa
diplomática de acomodação, de diálogo, de entendimento, e foi até o
fim, terminando apenas com o que Dantas Barreto chamou “superação
absoluta de um contendor pelo outro”. Mas assim mesmo, o Exército que
sai vitorioso da guerra, perde um 1/3 do seu efetivo no campo de
batalha. O efetivo do Exército à época, nominal, por lei, era de vinte e
dois mil homens, mas, na prática, esse efetivo nunca supera quinze mil.
E mesmo esse contingente foi mesclado com forças policiais do Pará, do
Amazonas, de São Paulo e da Bahia. Auxiliado também por tropas
pernambucanas, que não combateram em Canudos, mas que receberam a missão
de etiquetar toda margem esquerda do Rio São Francisco, para impedir um
dos grandes perigos que o Exército considerava, que seria a adesão do
outro grande arraial místico nordestino, que era Juazeiro do Norte, no
Ceará, tendo à frente o padre Cícero, um homem tão poderoso que
levantaria, estalando um dedo, oitocentos homens em armas, no momento em
que desejasse.
O Exército temia que esses jagunços do padre Cícero
pudessem se deslocar para o Sul, atravessar o São Francisco e ganhar o
Arraial do Belo Monte, se solidarizando com o Conselheiro. Coube ao
Estado de Pernambuco criar, para isso, um corpo provisório de polícia,
com cerca de trezentos homens, e tornar inviolável essa fronteira de
Pernambuco para com a Bahia e Alagoas e impedir, portanto, a
possibilidade de auxílio, em homens e em gêneros, para a luta que se
feria no Belo Monte.
Anco Márcio Tenório Vieira é jornalista, em 1997 era doutorando em Literatura Brasileira na UFPB.