quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pobre major Gonzaga

O ataque de Lampião a Belmonte

Por Rostand Medeiros

Como já foi bastante comentado, devido a sérias perseguições contra a família de Virgulino Ferreira da Silva, seguido do assassinato do seu pai pela ação desastrosa de um grupo de policiais alagoanos no lugar Matinha de Água Branca, em 9 de junho de 1921, fez com que ele e seus irmãos Antônio e Livino, se transformem definitivamente em cangaceiros.


Uma das primeiras imagens de Lampião e seu grupo, 
ele está sentado sendo o 2º da esq. para a dir.

Os irmãos Ferreiras se juntam ao bando conhecido como Porcinos e depois, em agosto de 1921, passaram a servir sob as ordens do chefe cangaceiro Sebastião Pereira, o conhecido Sinhô Pereira. Em meio às ações junto com Sinhô, Virgulino recebe a alcunha de Lampião.

A ligação de amizade entre Sinhô e Lampião vai ocasionar em outubro de 1922, a morte de um importante comerciante chamado Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, da cidade de Belmonte (atual São José do Belmonte), no sertão pernambucano. Este caso, um dos mais emblemáticos do período em que parte do Nordeste foi flagelado pela figura do temido cangaceiro Lampião, teve uma grande repercussão.


 A cidade de Belmonte, atual São José do Belmonte, no mapa de Pernambuco

Muito já foi comentado sobre este caso, mas no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, nas suas amareladas páginas dos antigos jornais, foi possível encontrar novas informações.

Uma interessante carta

No domingo, 11 de março de 1923, foi publicada no jornal recifense “A Província”, uma grande carta vinda da cidade de Belmonte, cujo autor se intitulou “Um Assignante”. Neste volumoso documento ele narra pormenorizadamente o conflito ocorrido na sua cidade em outubro do ano anterior, que culminou na morte do comerciante Gonzaga.


Sinhô Pereira sobreviveu para contar sua história.
Foto: cortesia de Antonio Amaury

Em maio de 1922, segundo o autor da missiva publicada no periódico, se encontrava em Belmonte a volante da polícia de Pernambuco, comandada pelo tenente Cardim. Esta volante estava a caça do grupo de cangaceiros de Sinhô Pereira e tinham informações que estes se encontravam no lugar “Olho D’água”, uma serra próximo a fronteira do Ceará e da Paraíba.

Para alcançar seu objetivo o tenente Cardim solicitou apoio de uma volante da polícia cearense, que teria em torno de sessenta membros, cujo autor da carta não declina o nome do comandante, mas afirma que este era “um antigo cangaceiro”.

Consta que Cardim desejava realizar um cerco contando com o apoio dos cearenses. Mas o comandante desta volante não participou da ação policial e, pior, saiu a praticar toda sorte de atrocidades contra a população, principalmente terríveis surras. Este fato assustou toda a comunidade e alertou o bando de Sinhô Pereira que desapareceu na caatinga. A carta afirmava que Cardim se encontrou com seu colega cearense, dispensou seu apoio, mas antes passou uma ríspida descompostura no seu comandante pela ação dos seus soldados.

Evidentemente insatisfeito com a reprimenda, com a frustrada ação policial no estado vizinho ao Ceará, onde a sua marca principal era a tortura em larga escala na busca de informações, o tenente cearense buscava alguma compensação. Consta que o militar recebeu uma informação sobre um possível coiteiro e parente de Sinhô Pereira e, para não “perder a viagem” no caminho de volta para casa, fez uma “visitinha” a esta pessoa e sua família. A propriedade era conhecida como Cristóvão, pertencia a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto, um homem pacato e que vivia longe de complicações, apesar de ser membro da família de Sinhô Pereira.[1]



 
 Documentação mostrando Crispim Pereira, 
proprietário das terras denominadas "Cristóvão"

Segundo a tradição oral da região comenta, e que conseguimos apurar em nossa visita a Belmonte em 2008, o mínimo que posso dizer em relação à visita da volante cearense ao pobre do Ioiô Maroto foi que “o cacete comeu” e sobrou para sua já vetusta mulher e suas filhas. Consta que um policial negro, conhecido como “Uberaba”, teria praticado contra as mulheres “toda sorte de misérias e imoralidades, entre a risadaria de todos, inclusive do tenente que achava em tudo muito espírito”.[2]

Depois do ocorrido, segundo a versão publicada no jornal de 1923, consta que Ioiô Maroto soube que o oficial da polícia cearense esteve na cidade de Belmonte, onde se arranchou na casa de seu compadre e amigo, o comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Foi informado ao fazendeiro ultrajado que Gonzaga declinou ao perverso tenente que Ioiô Maroto era parente de Sinhô Pereira.


 Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. 

O autor da carta publicada no jornal, por razões óbvias, não declinou o nome do militar, mas se sabe que ele era o tenente Peregrino de Albuquerque Montenegro.[3]

Versões

Em seu livro “O Canto do Acauã” (2011, pág. 157), a pesquisadora Marilourdes Ferraz dá outra versão para o caso. Ela afirma que o tenente Montenegro recebeu uma carta, onde havia uma denúncia contra Ioiô Maroto, informando ser ele um coiteiro de cangaceiros. Segundo a autora de “O Canto do Acauã”, afirma que a dita carta foi falsamente atribuída ao comerciante de Belmonte. Gonzaga, por saber de qual família vinha Maroto, correu a afirmar ao fazendeiro que não tinha culpa neste caso.


 A ilustre visita do Bispo D. AUGUSTO ÁLVARO DA SILVA a paróquia de Belmonte em 1912. Da esquerda para a direita sentados: Frei Lucas, D. Augusto Álvaro da Silva e Padre Sizenando de Sá Barreto. De pé: Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, Capitão Tertuliano Donato de Moura, Manoel de Medeiros Filho, Dr. Isídio Moreira, Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, Dr. Felisberto dos Santos Pereira, Capitão Miguel Lopes Gomes Ferraz, Capitão João Lopes Gomes Ferraz, Major Manoel da Mota e Silva, Tenente Augusto Nunes da Silva e o Major Joaquim Leonel Pires de Alencar. Crianças: Antônio Brandão de Alencar, Luiz Alencar de Carvalho (Luzinho), Otacílio Gomes Ferraz e Napoleão Gomes Ferraz. Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

A autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, Maria Christina Russi da Matta Machado (1969, pág. 73), não afirma que Ioiô Maroto e Gonzaga eram amigos e nem compadres, mas que os dois tinham uma desavença antiga. A autora aponta, sem detalhar nada, que o problema entre os dois “foi coisa sem importância” e que Ioiô Maroto não imaginava que Gonzaga aguardasse a oportunidade de “liquidar as contas”, lhe denunciando a volante cearense que lhe desonrou em sua própria casa.

Já João Gomes de Lira, autor de “Memórias de um Soldado de Volante” (1990, págs. 77 e 78) tem outra versão. Segundo este antigo membro de volantes que perseguiu cangaceiros, Ioiô Maroto residia em um lugar chamado “Queimada Grande” e durante a surra aplicada pelos militares cearenses, soube da boca do próprio tenente Montenegro, que a pessoa que lhe havia denunciado foi o comerciante Gonzaga.

Mas é a própria Marilourdes Ferraz que aponta duas ocorrências, que mostram uma possível solução deste pequeno mistério.

A primeira razão teria ocorrido em maio de 1922, quando foi saqueada por Sinhô Pereira e seu bando, composto inclusive de Lampião e seus irmãos, uma carga de tecidos de Gonzaga, que era transportada para Rio Branco, atual Arcoverde. Parte da carga foi distribuída entre os bandidos e o resto eles atearam fogo.


Crispim Pereira de Araújo, o "Ioiô Maroto" com seus filhos ou netos.
Acervo de Ivanildo Silveira

A outra razão seria o fato que depois desta ocorrência, Gonzaga começou a atender as exigências dos cangaceiros que viviam pela região. O comerciante para se ver livre desta corja de malfeitores entregava mercadorias e dinheiro. Entretanto, em uma ocasião em que estava ausente consta que sua esposa, a Senhora Martina, tratou muito rispidamente o portador da mensagem dos bandoleiros. Diante dos episódios ocorridos, a autora afirma que Gonzaga contratou homens para a sua proteção, de sua família, de seus negócios e de suas propriedades.[4]

A notícia da desatenção da esposa de Gonzaga e do fato dele contratar homens para sua proteção chegou aos chefes dos cangaceiros causando insatisfação. Estes guardavam muito rancor de quem não lhes atendia seus pedidos e de quem tomava estas atitudes de defesa.

Sabendo destes fatos narrados em “O Canto do Acauã” e lendo o teor do material publicado no jornal recifense “A Província”, em 11 de março de 1923, ao cruzarmos as informações, podemos facilmente deduzir que Gonzaga, tendo homens armados para lhe proteger e com o comandante da volante cearense arranchado em sua casa, se sentiu seguro para relatar ao tenente Montenegro os problemas que acontecia consigo e a ligação de parentesco entre Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.


Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1922

Depois do fracasso da atuação de sua volante em Pernambuco, da reprimenda do tenente Cardim, não é difícil imaginar que o tenente Montenegro deduziu que fazer uma visita ao parente de Sinhô Pereira poderia lhe trazer alguma vantagem. [5]

Evidente que isso é apenas uma dedução e nada impede que a triste sina de muitas pessoas de “botarem lenha na fogueira”, possa ter desencadeado tudo que ocorreu depois.

Lampião chefe de bando

No meio de toda esta história, enquanto Ioiô Maroto tentava curar suas feridas e Gonzaga se preocupava com seu futuro, em 4 de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou ao seu bando que em breve vai entregar o comando a Lampião.

Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde e seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida e ir embora para o sul do país.[6]

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próximo, Lampião efetivamente já é chefe de grupo, onde começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que “Cangaceiros, em numeroso bando assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa”.


 Casarão da Baronesa atacada e roubada por Lampião e seu bando
Acervo Lampião Aceso . 

Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres, viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma inútil resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.

No dia 1 de julhos este periódico alagoano informa através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.[7]

Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem, dançam xaxado e cantam a mítica melodia “Mulher Rendeira”, embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré. O fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz, o conhecido Manuel Flor e como policial se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.[8]


Manoel Flor 

Finalmente, no dia 22 de agosto de 1922, Sinhô Pereira parte da fazenda Caraúbas, perto do lugar Bom Nome, em Pernambuco, para Goiás.[9]

Mas antes de partir, Pereira pediu a Lampião que fosse a Belmonte resolver a desfeita sofrida por seu parente Ioiô Maroto. Lampião certamente possuía uma dívida de gratidão com Sinhô Pereira, por tudo que ele havia lhe ensinado em meios as andanças pelas caatingas e jamais iria lhe negar esta solicitação. Além do mais, ele sabia que Gonzaga tinha dinheiro e isto era o que realmente lhe interessava.

Gonzaga não acreditou no vaqueiro

Marilourdes Ferraz informa que Ioiô Maroto agiu de forma dissimulada e buscou a paz com seu amigo e compadre, que diante desta atitude decidiu dispensar seus guarda costas.[10]


A cidade de Belmonte atualmente
http://www.blogdoirmaogeo.com.br

A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada no domingo, 11 de março de 1923, dá um informação que se aproxima da versão de “O Canto do Acauã”. Consta que diante da surra em Ioiô Maroto, o comerciante Gonzaga começou a se desfazer de seus negócios em Belmonte, seguindo com a família para a cidade pernambucana de Bom Conselho. Então, segundo o jornal “A Província”, o próprio Ioiô Maroto teria escrito uma carta a Gonzaga, afirmando que não iria lhe fazer retaliações, que “era seu compadre e amigo”, que a amizade voltaria a ser o que era. “Um Assignante” afirma que Ioiô pediu então, certamente como prova de boa vontade, para Gonzaga dispensar os seis rapazes armados que ficavam em sua casa.


A casa de Gonzaga em foto de 2013.
Fonte: Kiko Monteiro

O jornal afirma que às dez da noite do dia 19 de agosto de 1922, um vaqueiro de Gonzaga conhecido como “Manoel Pilet”, foi a sua casa e afirmou ter visto muitos cangaceiros na propriedade “Cristóvão” de Ioiô Maroto, mas Gonzaga não acreditou. O vaqueiro chegou a se oferecer para fazer companhia e proteger o patrão em sua casa na cidade de Belmonte, mas Gonzaga recusou.

Sua sorte estava selada.[11]

O Fogo de Belmonte

No livro “Serrote Preto”, de Rodrigues de Carvalho (1961. Págs, 157 a 161), o autor comenta que certa noite, provavelmente um ou dois dias antes da manhã de 20 de outubro, Lampião e seu bando chegou a propriedade de Ioiô Maroto pronto para resolver a questão. Rodrigues de Carvalho afirma que o parente de Sinhô Pereira não queria mais a vingança e que seguiu com Lampião praticamente obrigado.[12]

Já a carta publicada no jornal “A Província” comenta que nesta época a cidade de Belmonte era guarnecida pelo sargento José Alencar de Carvalho Pires e mais 10 praças. Havia uma ordem que, no caso de serem ouvidos disparos, os comandados do sargento Alencar deveriam ir para o pequeno aquartelamento policial para serem tomadas as medidas de defesa[13].

Depois de uma noite de muita chuva, que facilitou o ataque dos cangaceiros, as quatro da manhã do dia 20 de outubro de 1922, uma sexta feira, foram ouvidos tiros espaçados e depois a fuzilaria aumentou. Nesta manhã o sargento Alencar se achava adoentado na casa do seu sogro, o coronel João Lopes, irmão de Gonzaga. Mesmo assim Alencar saiu a rua e disparou contra os cangaceiros “cerca de 40 tiros” e foi para o pequeno quartel para dar ordens ao seu pessoal. Mas no lugar, ao invés dos 10 militares só estavam os praças Manoel Rodrigues de Carvalho, José Francisco e José Oliveira.

A cidade entrou em polvorosa. Pessoas buscavam refúgio em baixo dos poucos móveis existentes, muitos correram para o mato, deixando tudo para trás e saindo apenas com os familiares e a roupa do corpo.

Jornal recifense “A Província”, 11 de março de 1923

Em pouco tempo chegaram para defender a urbe os soldados Severino Eleutério da Silva e Heleno Tavares de Freitas. Este último foi logo alvejado e morto.[14]

Após isso o sargento Alencar distribuiu a munição e saiu a rua acompanhado dos soldados Manoel Rodrigues de Carvalho e José Oliveira. Ele deixou um soldado na casa do coronel João Lopes e outro na casa do escrivão Manoel Medeiros. O militar posicionado na casa do escrivão tinha ordens de abrir fogo contra o prédio do açougue, onde estava alojado um grande número de cangaceiros, pois o sargento Alencar iria atacar o açougue pela retaguarda. A fuzilaria era cerrada e desigual, pois a cidade era defendida, segundo afirma o jornal, por apenas 6 militares, uns poucos civis, contra 65 cangaceiros.[15]

Os militares que estavam no quartel, mesmo cercados, mataram Antônio Pereira da Silva, conhecido vulgarmente como “Antônio da Cachoeira” e primo de Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.[16]


Outras notícias sobre o ataque

Pessoas da localidade participavam da defesa. Entre estes estava Manuel Gomes de Sá, conhecido como Manuel Justino, seu filho João Gomes de Sá, que foi ferido. Um cangaceiro alcunhado “Baliza”, vendo este cidadão em apuros pulou o muro e sua casa disposto a matá-lo. A ajuda veio de Dona Luzia Gomes, esposa de João Gomes, que municiou o rifle e animou o esposo para a luta. João Gomes matou “Baliza” com um tiro no peito. Outro que pegou em armas foi o cidadão Luís Mariano, que junto com outros disparava contra a corja de bandidos de dentro do curral de Tertuliano Donato.[17]

Consta que o sargento Alencar expulsou os cangaceiros do açougue e de uma janela deste estabelecimento comercial, gritava palavras de apoio a Gonzaga e mandava bala contra os cangaceiros. O sargento imaginava que Gonzaga estava resistindo dentro de sua casa. Mas aí, segundo está textualmente descrito no jornal, o próprio Lampião gritou “-Eu levo daqui um comboio de fazenda; eu vou ficar rico!…”. Deixando entender que a situação do comerciante não era das melhores.

Alencar percebeu que a única maneira de expulsar os cangaceiros seria atacar pela retaguarda da casa de Gonzaga. Mesmo com poucos homens e a munição acabando, ele seguiu para o local e abriu fogo contra a “cabroeira”.


 Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja "A Rosa do Monte" do Coronel Gonzaga Ferraz e mais adiante a sua famosa residência, adquirida tempos mais tarde
pelo Sr. João de Pádua.
Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

De dentro da casa eram ouvidos gritos de euforia e de pavor. Dona Martina, a mulher de Gonzaga, suas filhas e outras mulheres que estavam no interior gritavam pedindo proteção aos céus. Foi-me narrado quando estive em Belmonte que um cangaceiro chamado José Tertuliano, conhecido como Zé Terto, e possuindo o vulgo de “Cajueiro”, protegeu as mulheres da família de Gonzaga da sanha de seus companheiros, empurrando-as para dentro de uma dispensa.

Ainda dentro da casa os cangaceiros gritavam de euforia, parecendo que haviam alcançado a vitória desejada. Mas para o sargento Alencar e parte do seu valoroso destacamento, o que importava era entrar na residência e expulsar aquela corja para longe de sua cidade. A tática deu certo. Era perto das oito da manhã e depois de um fogo intenso o bando de Lampião saiu de Belmonte cantando a “Mulher Rendeira”.[18]

Provavelmente ao entrar na casa do comerciante, o sargento Alencar entendeu o porquê dos cangaceiros e Ioiô Maroto irem embora cantando.

Saldo do ataque

Gonzaga Ferraz jazia morto na sala existente logo na entrada. Estava envolto em panos, onde certamente os atacantes iriam atear fogo no falecido e consequentemente na casa.[19]

Ele teria tentado se defender da turba que buscava invadir o local pela porta dos fundos. Havia chegado a atirar com o que tinha, mas diante da desvantagem empreendeu fuga indo para o grande sótão que até hoje existe na casa. Ao tentar se esconder, ou buscar fuga utilizando uma janela, ele despencou na sala e teria morrido da queda, ou então sido chacinado pelos cangaceiros.


Sótão da casa de Gonzaga.
Fonte-Solón Almeida Netto

O certo foi que Ioiô Maroto, mesmo ferido levemente, alcançou sua pretendida vingança. Já Lampião e seus homens roubaram o que puderam do comerciante. Para o “Rei do Cangaço” o produto do butim que mais lhe chamou atenção foi a aliança de Gonzaga.

O saldo para o povo de Belmonte, além da morte de Gonzaga e do soldado Heleno Tavares de Freitas, foi a morte de um civil que “A Província” chama apenas como “um velhinho” e que se achava na porta de sua casa quando foi alvejado. Já o jornal “Diário de Pernambuco”, transcrevendo um telegrama enviado pelo delegado Manuel Guedes ao então Chefe de Polícia, Desembargador Silva Rêgo, dá conta que o civil morto se chamava Joaquim Gomes de Lyra. [20]

Entre defensores de Belmonte feridos, além do citado João Gomes de Sá, o próprio sargento Alencar estava com um ferimento leve, em decorrência de ter tido sua arma destroçada por um balaço dos cangaceiros. O jornal “A Província” de 1923 dá conta que depois de encerrado o tiroteio, cinco pessoas da cidade vieram “participar da defesa”, ajudando a transportar o “corpo” do sargento Alencar. Como este não estava morto, provavelmente desfalecido devido ao seu ferimento de natureza leve, se levantou e passou a maior descompostura naqueles que só ajudavam “carregando os defuntos”.[21]

Corredor da casa. Por aqui passaram os cangaceiros.
Fonte: Solón Almeida Netto

Além de “Antônio da Cachoeira” e “Baliza”, os cangaceiros aparentemente tiveram um terceiro homem mortalmente alvejado pelos defensores da cidade. As fontes apontam que poderia ser um antigo membro do grupo de Sinhô Pereira, de alcunha “Pilão”, ou um cangaceiro conhecido como “Berdo”.[22]

Já as fontes apontam sempre de forma controversa, que o número de feridos entre os atacantes chegou a até cinco homens e os nomes variam. A unanimidade é o nome do paraibano Cícero Costa, que seria uma espécie de enfermeiro do grupo e em menos de dois anos seria morto no tiroteio da Serra das Panelas.

Consequências

A notícia do ataque a Belmonte teve forte repercussão na imprensa pernambucana. Uma semana depois do ocorrido, o periódico recifense “Jornal do Commercio” fazia uma severa crítica ao então governador pernambucano, Sérgio Teixeira Lins de Barros Loreto pela falta de segurança no sertão. O jornal traz estampada uma carta da viúva de Gonzaga, datada do dia da morte do seu marido, pormenorizando os fatos e responsabilizando Ioiô Maroto.


 Casa de Gonzaga.
Fonte - Solón Almeida Netto.

O Desembargador Silva Rêgo, Chefe de Polícia de Pernambuco, divulgou na imprensa que havia recebido informes de seus colegas da Paraíba, Alagoas e do Ceará. Estas autoridades transmitiam as tradicionais solidariedades, criticavam a ação dos cangaceiros e se colocavam a disposição. Mas de prático só o telegrama do Dr. Demócrito de Almeida, da Paraíba, afirmando ter informações vindas do bacharel Severino Procópio, que se encontrava na cidade de Conceição, dando conta que os cangaceiros estavam acoitados no velho esconderijo de Sinhô Pereira, na Serra do Olho D’água.


 Família do Coronel Luiz Gonzaga. Foto tirada no Porto da Madeira, Recife, onde passaram a residir logo depois do ocorrido em Belmonte. Sua esposa é a senhora vestida do preto, de luto pelo falecimento de Gonzaga. Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Dias depois, o “Diário de Pernambuco”, de 1 de novembro, reproduz na página 4 uma nota do jornal oficial do governo paraibano, “A União”, informando que o bando havia sido visto na Serra do Catolé, ainda em território pernambucano, mas próximo a fronteira paraibana. Estariam nesta serra 50 bandidos e o bacharel Severino Procópio, junto com o tenente Manuel Benício e uma força paraibana, estavam a postos para atacar os cangaceiros. Mas o bacharel solicitava reforços de Pernambuco, para assim alcançarem um número de 150 policiais, pois devido às condições geográficas da região, só um número grande de homens para desalojar os cangaceiros do alto das serras. Mas aparentemente nada foi feito.[23]

Na sequência a família de Gonzaga vendeu tudo que tinha na região, partiu primeiramente para Recife e depois para o sul do país.[24]

 Pesquisando sobre cangaço no sertão de Pernambuco

Não é novidade que a pesquisa em jornais antigos, associada à pesquisa em livros, artigos em revista, internet e, obviamente, a uma pesquisa de campo junto aos descendentes dos que presenciaram os fatos, se não traz nenhuma grande informação bombástica, mostra que é sempre possível conseguir novos detalhes e informações sobre o cangaço que, como me disse em certa ocasião um respeitado autor do tema do cangaço “-São fontes de informações pequenas, mas que sempre dá para saciar a todos”.

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[1] Sobre a posse da propriedade de Ioiô Maroto, ver “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 34, 1925, onde o “Cristóvão” é sua única propriedade listada no município de Belmonte.

[2] Sobre esta visita, foram realizadas entrevistas com pessoas da comunidade, que trazem apenas lembranças transmitidas pelos seus antepassados. Em minha opinião as fontes escritas foram mais proveitosas.

[3] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada em “A Província” quase um ano após os fatos, corrobora a tradição oral da região em muitas informações.

[4] Na “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 33, 1925, são listadas as propriedades “Varzeota” e “Contendas” como pertencentes a “Luiz Gonzaga Torres Ferraz”, ao invés de “Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz”, onde acreditamos que ocorreu um erro de datilografia na feitura deste documento.

[5] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011.

[6] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Págs. 144 e 145, 2007.

[7] Para muitos esta seria a primeira grande proeza de Lampião e seu bando, tendo o fato sido noticiado com destaque nas edições de 5 e 7 de julho de 1922, no respeitado periódico “Diário de Pernambuco”.

[8] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011. A competente autora, mesmo ligada por laços de parentesco ao comerciante Gonzaga, no nosso entendimento busca apontar de forma aproximada do que destaca a tradição oral da região em relação aos acontecimentos.

[9] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Pág. 146, 2007.

[10] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 157, 2011.

[11] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[12] Em seu livro Carvalho tem um posicionamento extremamente crítico contra Gonzaga e um tanto complacente em relação a Crispim Pereira. Não se pode negar que este autor viveu na região na época dos fatos, mas sua versão literária é diametralmente contrária em relação à figura de Gonzaga, tanto quando comparamos com os antigos jornais, como na tradição oral da região.

[13] O jornal “A Província” afirma que o sargento Alencar só tinha cinco anos que havia se incorporado a polícia pernambucana.

[14] No centro da cidade de São José do Belmonte existe Rua Sd. Heleno, em honra a este militar.

[15] Os jornais de época apontam apenas seis soldados defendendo a cidade e três civis, outros autores dizem que foram 8 os militares e quatro civis. Em relação ao número de cangaceiros que atacaram Belmonte, os autores que se debruçaram sobre o assunto apontam um mínimo de 30 e um máximo de 70. Rodrigues de Carvalho afirma que eram 70 homens comandados por Lampião. Ver “Serrote Preto”, Rodrigues C. Pág. 158, 1961. Já João Gomes de Lira afirma que eram “trinta e tantos ou quarenta cangaceiros”. Nesta obra o autor informa que foram denunciados pelo Promotor Público de Olinda 33 pessoas pelo ataque a Belmonte e o assassinato de Gonzaga. Mas o autor aponta que faltaram vários nomes de cangaceiros participantes, como os irmãos de Lampião e Lavandeira. Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 78, 1990.

[16] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987.

[17] Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 79, 1990 e “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987. Já Bismarck Martins de Oliveira, em “Cangaceiros do Nordeste”, pág. 208, 2002, informa que “Baliza” seria o primeiro cangaceiro a andar com Lampião a ter esta alcunha. Que era pernambucano, havia membro do bando de Sinhô Pereira e se chamava Gabriel Lima. Já Erico de Almeida, em “Lampeão, sua história”, pág. 27, 1926, diz que o nome de “Baliza” era José Dedé. Este foi o primeiro livro a dar destaque ao ataque a Belmonte.

[18] Entre as várias fontes pesquisadas existe uma grande disparidade sobre a duração do ataque, que variam de uma a até quase quatro horas de combate.

[19] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987. Em 2008 quando visitei a região e esta casa, ela se mantinha bem conservada e original em muitos aspectos, graças aos esforços de suas atuais proprietárias, professoras da rede pública de ensino.

[20] Em “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987, afirma este civil chamado Cicero Januário, seria um padeiro e também um espião de Lampião. Mas apenas este autor dá esta informação.

[21] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[22] Em relação a esta questão, o periódico recifense “Jornal do Commercio”, edição de 8 de novembro de 1922, na sua página 3, dá conta que desde o dia 3 de outubro de 1922 estava preso na cadeia de Belmonte um cangaceiro conhecido como “Bêrdo”. O mesmo, depois de atacar a propriedade denominada “Três Passagens”, onde teria assassinado o proprietário e sua esposa, sofreu forte de populares e estava ferido no peito. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[23] Ver na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, edições de 21 e 28 de outubro e 1 de novembro de 1922, sempre nas páginas 4.

[24] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Págs. 159 e 161, 2011.

Rostand Medeiros é pesquisador na área de História, com artigos publicados nos jornais Tribuna do Norte, Novo Jornal e na revista cultural Preá. Autor do livro "João Rufino-Um Visionário de Fé" (2011), Coautor do livro Os Cavaleiros dos Céus - A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete (2009). Consultor do SEBRAE no projeto “Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”. Membro do IGRN (Instituto de Genealogia do RN) e SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço). Técnico em Turismo, atua há mais de 15 anos na área. Fundador da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte, entidade que atuou em parceria com o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis na preservação do patrimônio espeleológico do RN. 

Contatos: rostandmedeiros@gmail.com / (84) 9904 3153 / 3231 0222.

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Uma foto...

Uma legenda, um mistério.

Gostaria que os amigos reparassem a fotografia abaixo.



Esta imagem foi publicada originalmente no jornal baiano "Diário de Notícias" em 07 de Março de 1929 e reproduzida no livro "Lampião e os interventores, pág 175, do confrade Luiz Ruben, como sendo Antonio Ferreira irmão de Lampião. A única informação que dispomos é esta, não se sabe do que a manchete tratava, se identifica Antonio como um dos cangaceiros atuantes em recente episódio ou se é uma retrospectiva da vida de Lampião até aquela data.

A segunda opção seria mais adequada pois Antonio morreu por "acidente" com arma de fogo em 1926.

A questão vem a tona pois esta é um das imagens resgatadas pelo pesquisador Rubens Antonio em sua garimpagem pelos jornais da Bahia. Foi postada na comunidade do Orkut "Lampião Grande Rei do Cangaço" e dividiu opiniões de vários pesquisadores e colecionadores.

Eu particularmente acredito que o único imbróglio seja na matéria do jornal, um total desencontro de informação. Prática nociva e muito comum da imprensa desde os tempos remotos quando se trata de cangaço.

Resta saber em que ocasião esta foto foi tirada. Rubens sugere com muita pertinência que tenha sido na mesma oportunidade da visita de Lampião a Juazeiro do Norte em 1926. Virgulino e seu braço direito posaram para fotos individuais.

Eis a reunião da família Ferreira.


Não queremos induzi-los, mas reparem atentamente nas fotos abaixo.



Cliquem para ampliar e percebam as semelhanças anatômicas e estéticas.
Apesar da primeira está ligeiramente de perfil e mais aproximada dando uma impressão de um homem mais gordo enquanto que a segunda é de pose frontal notem o músculo orbicular da boca (abaixo do lábio inferior).

Indicados pelas setas
Os ilhoses da testeira e do barbicacho.
Uma única correia cruzando o tórax.
Esta é pra fechar a nossa conta de evidencias "uma mesma marca de ombro do uniforme do cangaceiro".

Tirem suas conclusões.

Abraçando
Kiko Monteiro 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Lampião invadiu a ABL

Aspectos Históricos e Literários do Cangaço


Palestra de Leandro Cardoso Fernandes proferida na Academia Brasileira de Letras, no Programa Brasil, Brasis – Cangaço e Literatura, no dia 26/05/2011, na cidade do Rio de Janeiro.



 A palavra Cangaço – à parte de também nomear o bagaço das vinícolas – vem representar a vida nômade dos bandoleiros nordestinos, que, por alusão à canga do boi, carregavam em torno de si os apetrechos necessários à sua sobrevivência. Ao observador incauto, parece designar apenas salteadores sanguinários, criminosos que não mereceriam mais que a inclusão no rol de bandidos comuns. Mas, ao melhorarmos o foco, percebemos que a análise correta deste fenômeno ultrapassa o simples confronto entre mocinhos e bandidos.

O Cangaço começou a aparecer nos documentos oficiais em meados do século XIX, a partir de registros sobre o célebre José Gomes, o Cabeleira, que vivera no século anterior. Mas não começou aí. Seus rastros vêm da aurora da nossa colonização, e para segui-los é preciso evitar os vieses frequentes dos nossos registros históricos, quase sempre favoráveis ao colonizador em detrimento de quem resistisse ao afã dominador. Daí a profusão de qualificações depreciativas para os insurretos, geralmente descritos como bandidos, facínoras e revoltosos, na clara intenção de criminalizá-los. Um sofisma largamente difundido é a colocação do Cangaço como “revolta” pontual de limites definidos no interior nordestino. No entanto, devemos levar em conta aspectos peculiares de cada região, com seus catalisadores históricos, que apontam para uma escala cromática de cangaços, Brasil afora.

Precisamos recontar nossa História e ouvir aqueles que sucumbiram no violento choque da nossa formação.

São os esquecidos da História. Deixemos, então, que eles no apontem onde está a forja do cangaceiro.
Capitania de São José do Piauí, sertão de dentro, por volta do ano 1700. O colonizador europeu avança palmo a palmo no território antes ocupado pelos nativos, enxotando-os para o norte e para o Maranhão. A cada légua avançada, ficam atrás novos currais e arremedos de vilarejos.

Francisco Dias D’Ávila e seus agregados põe abaixo a aldeia dos índios Aranis, próximo à freguesia de São Antônio do Surubim, onde hoje está a cidade de Campo Maior, Piauí. Deste cruel massacre, escapam dois curumins: uma menina de 13 anos e seu irmão de 12 anos, a quem foi dado o nome cristão de Manuel, e o apelido de Mandu. O menino foi enviado a um aldeamento jesuíta, o Boqueirão dos Cariris, situado a 60 léguas do Recife. Alguns anos depois, o índio Mandu retorna ao Piauí, na tentativa de reencontrar sua irmã. Ao sabê-la morta pelas mãos do português, decide pegar nas armas e formar um bando com remanescentes de várias tribos, algumas inclusive inimigas entre si. Passa a ser chamado de Mandu Ladino, graças à eficiência em ludibriar os portugueses e índios “preados” postos no seu encalço. Contra Mandu e seus índios “corsários”, como eram conhecidos, vieram de São Luiz forças volantes de El-Rei, que terminam por matar o chefe índio depois de quase 10 anos de guerrilhas.

Nesta síntese biográfica de Mandu Ladino, um dos esquecidos da nossa História, está a infância do cangaceiro. O clavinote genocida do colonizador e o peso de suas botas a esmagar qualquer resistência à expansão de seus domínios. Além do índio, vergaram sob a dominação o negro, o sertanejo, todos eles empurrados para a sombra do vulcão adormecido da revolta e do inconformismo latente, que o Prof. Frederico Pernambucano de Mello brilhantemente chamou de “irredentismo”. Muitas das manifestações de violência popular, ao longo da História trazem na verdade esse eco antigo dos nossos índios sublevados, nossos negros e caboclos sem cabresto. De quando em vez, esse vulcão dos rancores explodia em revoltas como a de Mandu Ladino; como o Quilombo dos Palmares; as lutas pela Independência do Brasil; a mal-contada Balaidada, e, finalmente, o cangaço, com as suas variadas nuances.

O cangaceiro, portanto, é produto dessa sociedade arcaica, onde mais sobressaía quem se impusesse pelas armas e pela valentia. Segundo a análise de Frederico Pernambucano de Mello, na sua obra Guerreiros do Sol, estas condições eram “fundamentais para se dobrar as resistências do índio e do animal bravio como condição para o assentamento das fazendas de criar”. Ou seja, durante quatro séculos, fomentou-se a cultura da violência, onde o indivíduo é senhor do seu destino e deveria traçá-lo a talhos de facão. O Código Penal sempre foi surra, bala e punhal. Era muito mais fácil, para o sertanejo, a justiça direta guiada pelo revide e pela autodefesa. A outra, a dos tribunais das capitais, não era uma alternativa. Muitos foram empurrados para a garganta do Cangaço por terem reagido violentamente, de modo moralmente aceitável em sua aldeia, mas reprovável aos olhos da civilização litorânea.

Houve ainda aqueles que abraçaram a espingarda por não ter outra opção de subsistência. Gustavo Barroso recolheu uma quadrinha, que traduz muito bem o modus vivendi no sertão de outrora, e que diz o seguinte:

“Meu pai fez diversas mortes/porém não era bandido/matava em defesa própria/quando se via agredido/pois nunca guardou desfeita/e morreu por atrevido”.

No sertão, o Cangaço encontrou não só o ambiente social para prosperar, mas também o ambiente físico. Como disse Euclides da Cunha: “a Geografia prefigura a História”; e a caatinga foi o mais forte aliado do cangaceiro contra a repressão, pela quase intransponibilidade de seus espinheiros e arbustos, o que minava o vigor dos perseguidores. E Lampião soube tirar proveito disso. De 1928 para trás, na primeira metade da sua vida de guerreiro, vivia nas caatingas brabas do Pajeú pernambucano e da Floresta do Navio, que lhe serviam de refúgio. Mas, quando necessitava de refrigério, corria à fronteira com o Ceará, e regalava-se na paradisíaca Chapada do Araripe, no verdejante Vale do Cariri Cearense.

Já na fase pós 1928, na Bahia, vivia circundando o Raso da Catarina, a maior extensão de caatinga do Brasil, dela usufruindo quando precisava impor as agruras do terreno às Forças Volantes. Mas quando necessitava de refrigério, recorria à beleza do Vale do Rio São Francisco, onde a região limítrofe entre Bahia-Sergipe-Alagoas, com seus potentados e coiteiros, lhe fornecia ampla e organizada rede de apoio.

Lampião, por mérito particular, aperfeiçoou e modernizou o cangaço! Ao contrário do que muita gente pensa, era um sujeito calmo, circunspecto, educado, avesso a farras, profícuo em fazer amizades, inclusive com autoridades. Fazia-se, às vezes de coronel itinerante, manifestando explicitamente o gosto por sofisticações, como fotografias, whisky, filmes, ao tempo em que, paradoxalmente, repudiava, por instinto de sobrevivência, o progresso das rodagens e dos trilhos que começavam furar os carrascais.

À parte do cuidado com a segurança individual e coletiva, os cangaceiros preocupavam-se em larga medida com o apuro da indumentária, usando-a inteligentemente a seu favor. O traje não tinha por objetivo a camuflagem na caatinga. Bem longe disso: passava pela imposição da personagem perante os interlocutores. O fardamento exuberante era motivo de orgulho para o portador, que além das cores vibrantes das jabiracas e bornais, exagerava em perfumes sobre o corpo suado.

Contrastando com esse apuro estético, estava sua atuação sempre pelo recuo, pela imposição do terror, em guerrilha onipresente pela divisão do grupo em subgrupos. As Forças Volantes, até pela gravitação em torno dos cangaceiros, e necessidade de adaptação, foram progressivamente trocando o uniforme cáqui da Força Pública pelos chapéus de meia-lua, enfeites e longos punhais. Exerciam seu poderio militar às custas da arbitrariedade e da imposição do medo, de maneira semelhante à atuação dos cangaceiros. Muitas vezes, a única coisa que os diferenciava era o lado que ocupavam na contenda.

O Cangaço latu sensu, deixou representantes em diversas regiões fora daquela associada a atuação de Lampião, como no caso de Lucas da Feira (Feira de Santana, Bahia), o Raimundo “Cara Preta” (na lutas da Balaiada, Piauí e Maranhão), Silvino Jaques (interior do Mato Grosso), Antonio Dó (sertão de Minas Gerais), dentre outros.

Aliás, falando em Antonio Dó...

Aqui abro espaço para os jagunços tão magnificamente perfilados por Guimarães Rosa, na obra “Grande Sertão: Veredas”, como Medeiro Vaz, Hermógenes, Zé Bebélo, Joca Ramiro. Todos eles legítimos capitães de cangaço. O termo jagunço lhes foi emprestado por que assim eram eles conhecidos nos vastos campos gerais. Mas, indiscutivelmente, eram capitães de cangaço. Jagunço por conceito é aquele que vive exclusivamente pelas armas, mas a serviço de um potentado, ou seja: sem bando independente, tendo como única ocupação o conflito armado. O cangaceiro manso é aquele que se aparta de suas obrigações de vaqueiro ou de lavrador para resolver uma contenda, retornando, posteriormente, às suas atividades pacíficas.

Já o cangaceiro volante é o tipo imortalizado por Antônio Silvino, que, nômade, troca de nome e passa a viver debaixo do cangaço. Lampião foi cangaceiro manso até os acontecimentos que culminaram com a morte de seus pais; a partir daí, cangaceiro volante, e – diga-se de passagem – o mais bem sucedido. A ele se aplica um verso do poeta condoreiro do Cariri cearense, Barbosa de Freitas: “as águias nascem pequenas/mas quando lhes crescem as penas/sabem bem alto voar”. E Lampião voou alto. Com ele, o Cangaço alcançou seu apogeu, nos anos 20, mas também recebeu seu tiro de misericórdia, na madrugada de 28 de julho de 1938, em Angico, Sergipe. Mas não morreu aí. Estrebuchou até maio de 1940, com a morte de Corisco, o Diabo Loiro.

Um dos responsáveis pelo mitificação de Lampião foi a Literatura de Cordel, herança da Península Ibérica. De Portugal, as “Folhas Soltas”; da Espanha, “Los Pliegos Sueltos”; e da França a “Literature de Colportage”, cuja influência foi espalhada aqui pelos colonizadores. Os versos, feitos preferencialmente em sextilhas, septilhas e décimas, eram muito agradáveis de ler, ouvir e cantar. As estrofes caíam celeremente no gosto e na memória do povo, tornando-se uma espécie de noticiário da oralidade do meio em que viviam. O jornal, que em Portugal ocupou completamente o espaço do Folheto, aqui no Brasil não logrou tal êxito, por ser quase inacessível ao sertanejo, fato que ainda hoje se observa. Geralmente, o jornal retratava um cangaceiro criminalizado e um sertão com o rótulo do atraso. Já o cordel exibia um cangaceiro heróico, guerreiro, astuto e superpoderoso, cujo escudo ético servia aos sertanejos de maneira geral.

É da época dos primeiros folhetos impressos, ou seja, meados de 1870, que os romances da literatura dita culta recebem as cores do sertão. Cito aqui duas obras da vanguarda desse período. O primeiro é “O Cabeleira”, publicado em 1876, do cearense Franklin Távora: um romance histórico com sugestões regionalistas, não dissociado do melodrama de folhetim. É o marco literário inicial do Cangaço, sendo Távora um grande entusiasta das tradições e tipos legendários do Nordeste.

A segunda obra é pouco conhecida do público e da crítica, mas não menos importante. É o primeiro dos nossos romances a ter a seca como palco dramático do enredo. Segundo a professora Maria Gomes Figueiredo, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí é “o primeiro romance de fundo essencialmente regionalista, que focaliza de forma realista o drama da seca no sertão do Piauí”. Trata-se de “Ataliba, O Vaqueiro” do piauiense Francisco Gil Castelo Branco, lançado em 1878 como folhetim no Diário de Notícias e posteriormente publicado pela Tipografia Cosmopolita do Rio de Janeiro, em 1880.

Este livro, tal qual João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor, é o bom augúrio dos excelentes trabalhos que estavam por vir. “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio, publicado em 1903; “A Bagaceira” de José Américo de Almeida, publicado em 1928; os clássicos “O Quinze”, de Raquel de Queiroz, de 1930 e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, de 1938.

Aliás, neste mesmo ano, Graciliano publicou um artigo no Jornal de Alagoas, onde relata uma visita que fizera a Antonio Silvino, na companhia de José Lins do Rego. Fica patente a surpresa de Graciliano ao encontrar um Silvino diferente do que sempre imaginara: era branco, olhos claros, bem apessoado, educado, inteligente... ou seja, bem distante da imagem sugerida do Capitão-de-Cangaço sanguinário, fruto da degeneração racial, lombrosiano, incapaz do convívio social normal. José Lins do Rego, por sua vez, já conhecia o ex-cangaceiro da infância no engenho do avô. Dessas memórias ele retirou os clássicos de seus clássicos: “Pedra Bonita”, “Menino de Engenho”, “Fogo Morto” e “Cangaceiros”, todos contemplando a figura do capitão-de-cangaço e as agruras do sertão.

O tema Cangaço nunca envelheceu. Contaminou gerações de escritores, vários romancistas e poetas, alguns polivalentes, inclusive derivando seu talento para a dramaturgia, como Rachel de Queiroz, com a peça “Lampeão”, publicada em 1953 e Ariano Suassuna, com o fantástico “Auto da Compadecida”, publicada em 1955. Não poderia deixar de citar aqui um dos retratos mais realistas da violência rural na nossa Literatura de ficção, embora baseado em fatos reais, que é “O Tronco” do goiano Bernardo Élis. Obra de fôlego, que mostra em cores a convulsão instalada na pequena Vila do Duro, sufocada e impotente entre os desmandos do coronel e a arbitrariedade da Polícia Militar.

O “O Cabeleira”, citado há pouco, também foi ponto de partida para outra vertente literária, que não o da ficção regionalista. Trata-se da literatura histórica específica que nasceu do resgate da tradição oral, e adornou-se de ensaios sociológicos, antropológicos e psicológicos a cerca do tema. Cronologicamente, citaria o trabalho do cearense Gustavo Barroso, notadamente “Terra de Sol”, de 1912, e “Almas de Lama e de Aço”, de 1930; e as duas biografias publicadas em vida de Lampião, a primeira por Érico de Almeida, em 1926; e a segunda pelo médico Ranulpho Prata, em 1933, ambas com o título de “Lampeão”.




O imortal Gustavo Barroso
Dos trabalhos contemporâneos referenciais, citaria “Assim Morreu Lampião”, do paulista Antonio Amaury Correa de Araújo, publicado em 1971, onde o autor passou o pente fino sobre os acontecimentos do dia em que Lampião foi morto, e colocou-os em ordem cronológica, a partir de depoimentos de cangaceiros, soldados e coiteiros que participaram do epílogo de Lampião. Também da lavra de Antonio Amaury, “Lampião: As Mulheres e O Cangaço”, publicado em 1984, e que foi o primeiro trabalho dedicado ao universo feminino no Cangaço.



Mas ainda havia uma lacuna. Faltava um ensaio sobre a violência rural brasileira, que se esquivasse da visão simplista e fatalista, então vigente. A lacuna foi preenchida pelo livro “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello, historiador social de sede matada nas fontes da escola gilbertiana. É um trabalho maduro sobre as bases sociológicas do Cangaço, e que foi complementado pelo recentemente publicado: “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”, este último o mais completo trabalho de análise e documentação sobre uma personagem da nossa história, no caso o cangaceiro.

Dito isto, termino por aqui parafraseando Guimarães Rosa: Cangaço está em toda parte! Também aqui na Casa de Machado de Assis, neste importante encontro. Afinal de contas, cultura e educação são nosso oxigênio. Sem as duas, apenas vegetamos. E em tempos de poluição cultural e educação rarefeita, o brasileiro está apático, sem interesse pelos problemas do seu país. Tem se preocupado, quando muito, com os desfechos dos programas televisivos de confinamento e com o dia-a-dia das celebridades. Vale a pena, então, puxarmos as máscaras de oxigênio e fazer ver a esse povo que a cor da nossa identidade é reflexo do colorido das penas do índio Mandu Ladino e dos enfeites dos chapéus dos cangaceiros.

Muito obrigado.
Leandro Cardoso Fernandes

REFERÊNCIAS:
1) Neto, A. “Raízes do Piauí”. Edição do autor. Teresina. 2010.
2) Castelo Branco, ANL. “Mandu Ladino”. Editora Halley. Teresina. 2006.
3) Mello, FP. “Guerreiros do Sol”. Ed. A Girafa. 2° edição. 2004.
4) Barroso, G. “Almas de Lama e de Aço”. Ed. Melhoramentos. São Paulo. 1930.
5) Costa, RAL. “Antologia da Literatura de Cordel”. Secretaria de Cultura, Desporto e Promoção Social. Fortaleza. 1978.

sábado, 4 de junho de 2011

Novo livro na Praça

De João Bezerra Nóbrega: Lampião e o cangaço na Paraíba

Trabalho do Coronel da PM/PB João Bezerra da Nóbrega.

Apaixonado pelo tema e reconhecendo a necessidade o autor se dedicou nesta pesquisa, totalmente centrada, dando devida atenção a capítulos e respectivos personagens que antes só eram levemente tocados nas principais biografias. Enfim, assim como Oleone Coelho palmilhou os cenários da Bahia o Cel. Nóbrega dedicou anos de estudo aos fatos de Virgulino e seus cabras em solo paraibano.

Entre alguns destes:

Atos de racismo de Lampião / Os Juremas / Liberato Cavalcante de Carvalho Nóbrega / Soldado Mêlha / Soldado Jaqueira / Capitão Antonio de Barros / Morte de Jurema / Almanaque paraibano do cangaço / Coronel Manuel Arruda / Soldado Caldeira / Cidades paraibanas atacadas por cangaceiros / Cangaceiros da Paraíba / Cangaceiros abatidos pelos volantes paraibanos / Desertores das volantes / Caçadores de cangaceiros / bravos volantes paraibanos / Escatologia de Serrote Preto / Morte de Livino... Iconografia e muito mais.



O lançamento oficial só ocorrerá em Julho. Porém você já pode adquiri-lo junto ao nosso confrade Sgt. Narciso Dias pelos contatos: narciso_dias@hotmail.com (83) 8832-7456 - 9614-0042.

Valor: R$ 38,00 (Frete incluso)

ÓI! ATENÇÃO, COCHICHO DE PÉ DE CERCA, CONTEM PRA TODO BICHIM...
Este preço aí é "LOTE PROMOCIONAL" após o lançamento o mesmo vai pra R$ 50,00 + FRETE

Aproveitem!

Estórias ordinárias # Final

A revolta do capitão Vanderli e o sequestro de madmoisele Andréa.

Por Kiko Monteiro, Fábio Costa e Marcelo Lima

Enquanto o Anspeçada "Netinho" incomunicável, se recupera de sua última batalha em que fora atingido na "região glútea" por um tiro de parabellum de origem ainda desconhecida... nós vamos dando fim à serie de reportagens sobre a saga do Capitão Vanderli:


 Anspeçada Netinho descansa sob custódia... 
Quer dizer em Custódia, cidade pernambucana

Hoje a conversa é tão curta quanto coice de girafa pois escrevi a matéria e sai correndo pra salvar minha pele pois a revelação a seguir é de alta combustão...

Por que Vanderli tornara-se cangaceiro?  
by Kiko

Fortes e virís indícios nos levam a crer que foi compromisso de vingança contra o capitão Fábio que acompanhado do Anspeçada Netinho foram até o Sítio em que o pai dele se refugiou em Macaíba - RN, anunciaram que a propriedade estava cercada com arame farpado e pediram a entrega imediata dos que estivessem lá arranchados.

Eis que surge na janela o véio Vanderlão com um pedaço de fumo na mão apontando para a força com palavras que mais pareciam ser em dialeto desconhecido, amigos, em fração de segundos os comandados do Capitão Fábio sacaram de suas armas e em sincronia atiraram deixando lá estirado na varanda... Xaninho o gato siamês zanôio que pertencia ao Capitão Vanderli.


O bichano teria pensado Que p... é essa?



Foi de veras um golpe duro na vida do errante Potiguar, pois a exatos quinze dias, um preá (porquinho da índia) e um soim (Mico) já haviam fugido de casa com medo das represálias, e agora sem Xaninho ele não haverá de ter paz enquanto não vingar sua morte.

Sequestraram Andréa, valei-me!!!.
By Fábio Costa 

As duas tropas volantes de sempre (respectivamente a minha unidade "Capitão Fábio", e a do 2º Tenente Kiko) guiados pelo primo Potiguar do rastreador e dedo-duro profissional pernambucano José Teiú, o cabra José calango, chegam ao reduto do Cap. Vanderli que neste época respondia apenas por arruaças nas vila da região.

Mas com o correr da diligencia o Anspeçada Netinho ficaria furibundo, pois no cerco ao cabra Vanderli, na caatinga suja, localizamos com dificuldade no meio de quixabeiras e xique-xiques, a casinha velha de reboco caído e janelas azuis esburacadas. O cachorro baleia logo começou a latir dando sinal pra a família de malfeitores (como dizia Luiz Gonzaga: cachorro de pobre sempre tem nome de peixe). Num vacilo de meu ordenança Netinho, o velho Vanderlão, o zanoião véio, o havia acertado nas partes almofadadas com uma espingarda “pica pau” caseira das mais fuleiras!

Agora com o orgulho ferido, ele ameaça meter a baioneta no bucho de quem falar que ele tinha 2 furos no traseiro (Netinho a culpa é do Kiko foi ele que começou essa história!!! ) . Bem no meio da lambança, vi que Vanderli se homiziava detrás de uma pilha de lenha cortada!! Não tive duvidas, sentei o dedo nessa... e mandei uma rajada da metralhadora Bergman pra cima do desenfeliz, voou lasca de lenha pra todo lado, e tora de pau virou palito!! Mas no meio da fuzilaria passou um civil inocente: Xaninho, o gato Zanoio (VESGAÇO MESMO!!) do desenfeliz do Vanderli, que ainda não era “capitão”, era só arruaceiro.

A casa virou um paliteiro de tanto furo, cobertos pela quadrilha dos “manos do agreste”, os primos marginais de Vanderli, que promoveram intensa fuzilaria, até os canos das papo-amarelo ficarem vermelhos e terem de ser esfriados no xixi!! Desceram a ladeira que tinha nos fundos da casa virados no 600! Nem Ferrari turbinada os pegava.

Gritei : - Isso é o tira-gosto viu? A janta tu come mais tarde cabra safado!!! Vi pelo canto dos olhos que o sádico do Ten. Kiko estava fazendo o que mais gostava, e com um facão cego degolava o gato Xaninho!!
Falei : home! Nem gato escapa? 
- Capitão - Respondeu o jovem oficial - Como o Vanderli escapou, tenho uma caixinha lá em casa que vai ficar linda com o “coquinho” (cabeça) deste gato.

Deixei pra lá pra num contrariar, afinal o cabra já estava babando! (já mandei ele parar de comer pão, já viram o tamanho da cara de lua cheia q ele está? Assim num vai guentá corre na caatinga horas... ).


 Cap. Fábio em plena ação. Utilizando sua "Uinchester"
própria para atirar de esquina, sem botar a cara. 

Vanderli Voltou horas depois, todo ralado, esfolado de macambira e xique xique... ao ver o cadáver do gato Xaninho, chorou largado no meio da roça!! Jurou no túmulo de seu amigo de infância que não daria sossego aos nazarenos Kiko e Netinho, e ao capitão baiano.... Aliás o couro do gato pintado, passou a enfeitar a saia do primo (uia! ) de Vanderli, Vanderléio, que tempos depois seria conhecido no meio do cangaço como Vanderlete! “A Diaba do sertão” (uia 2! ) que sempre dizia que Maria Bonita morria de inveja do seu chiquê (arre!)...

Assim foi que capitão Vanderli entrou para a vida bandida e criminosa que leva até hoje....

GAZETA DE NAZARÉ, NOVEMBRO DE 1936
(EM CONJUNTO COM O JORNAL A TOCHA DA LIBERDADE DE RECIFE)



EXTRA, EXTRA A TOCHA TRÁZ COM EXCLUSIVIDADE: TERMINOU O RAPTO DA FILHA DO CEL. GEZIEL... 
POR:  Theofanes Pedreira Madureira (por telegrafo, já que no sertão ele não pisa mais) 



Descansava eu, o Capitão Fábio da Força Pública da Bahia, na nossa bela capital, entre um gole de uísque e outro, descansava na rede olhando as ondas do mar... nem pensava em vestir farda, depois de meses de tantas fuleiragens na caatinga, só queria descansar. Mas, uma mensagem do Quartel Dos Aflitos me tirou do sossego. Vesti minha farda mais nova, impecavelmente engomada e lá fui eu, alugando um carro de praça “Ford canela seca” 1929.


Esta refinada bebida foi cortesia do facínora Capitão Vanderli que lhe enviou pessoalmente, pelo respeito que tinha ao grupo. Respeito? Sei, ele queria deixar a tropa exausta com a figura estampada no rótulo.


Ao chegar no QG, fui recebido pelo Coronel Elesbão Santana, que estava reunido com mais alguns oficiais superiores, pensei com meus botões: aí vem m...

- Capitão, seja bem vindo, sente-se. 

O coronel Laranjeiras falou sem delongas – o Sr. É um dos nossos melhores oficiais (se eu não puxar brasa pra mim quem é que vai?) e recebemos uma solicitação das autoridades sergipanas, pois sabemos que o Sr. mais de uma vez, devido ao convênio de cooperação entre os estados, atuou em solo sergipano ao lado da volante do Tenente Kiko.

- Sim de fato... – respondi alegre pelo elogio.

- Pois bem, a filha do Coronel Geziel, foi sequestrada pelo sub-grupo do Capitão Cuarisco!

- Capitão Cuarisco! Gritei me levantando eufórico da cadeira, Lampião está na área? 

- Não, não, interferiu o Major Almeida do serviço de inteligência, não, infelizmente não é o Cristino não, este tal Capitão Cuarisco, é um “cover”, um cabra q começou a carreira disfarçado de “paiaço assassino” (fantasia de “Clóvis” segundo o mesmo) tomando doce de criancinha e assustando as velhinhas quando vão buscar a aposentadoria nos bancos da caatinga, nos meios da policia local é conhecido como Cuarisco . 

- Hum Corisco Cover.... Quais as circunstâncias do rapto?

Entregaram-me um relatório completo, que eu deveria ler para me inteirar da situação.


Menina Andréa em seu cativeiro, sozinha no meio do mato, 
ui... perdão "ai" quis dizer - Ai que pena do coronel...
Andréa,(Foto) A filha do mal afamado Cel. Geziel, que era coiteiro de cangaceiro, e o pior, fornecia as maldosas balas dum-dum para eles alvejarem nossos meganhas, havia sido sequestrada. Ela havia voltado das Orópa, onde havia se diplomado em professora, mas havia voltado vermelha!! Comunistóide toda! Com umas história de ficar do lado dos fracos e oprimidos, dos pobres e miseráveis, queria fazer a revolução na caatinga, destronar os coronéis e criar comunidades rurais auto-sustentáveis, já tinha até o protótipo de uma no papel: “Rolinhos” (uma clara alusão a canudos). 
 Ficava horas falando com os vaqueiros, e com os agregados do Cel. Geziel, que a esta altura estava com o que lhe restavam dos cabelos em pé com o que a revoltada social da filha falava! Numa reunião com os vaqueiros, um deles chegou a perguntar sobre a mais valia, férias, vale transporte, vale refeição, 14º salário, etc. etc!! (uia ! ) !!
 - Pois bem Capitão, nosso presidente Vargas detesta esta gente, mas a menina é filha do infeliz do homem, e ele é importante aliado na política local. Vá lá, ache a moça, e prenda o Cuarisco!! Boa sorte! 

 Capitão Cuarisco e seu lugar tenente Zé Cabrunco


FLASHBACK DO ACONTECIDO 

A revoltada Andréa, vestindo seu Channel salmão pálido, já da coleção 1937 (não ia perder a pose né? revolucionária mas chique com estola rosa no pescoço e tudo!), foi até a enorme destilaria do pai conhecer a fabricação da pinga que era vendida a toda a região! Chegando lá , quando viu o pessoal derramando num dos tonéis pra desdobrar a “afamada” cachaça do pai (que por acaso tinha o sugestivo nome de “gato preto morto”) soda caustica, metanol, cal, querosene, casco de boi e de cavalo, cipó de leite, cabeça de frade moída, e ficou mais revoltada ainda.

A Rosa Luxemburgo do agreste pegou um banquinho, subiu em riba, e começou uma nova pregação no galpão. O coronel Geziel que já andava com as orelhas ardendo de tanta doutrinação política, não se aguentou, pegou a moçoila pelo braço, colocou na charrete e despachou pra vila do Furado Grande.

Mandou o cabra José teiú levá-la ao padreco Ivanildo pra tomar uns conselhos (se bem que disseram que o santo homem estava num resort de Maceió, num ‘retiro’ com as meninas da casa de Dª Branca, se enchendo de uísque e churrasco), e ao armazém de seu Salim, que havia recebido uns tecidos bonitos, quem sabe fazendo compras ela não se quietava?

Mas no meio do caminho aconteceu o pior... O capitão Cuarisco apareceu com sua fantasia colorida de palhaço assassino, e o pior, acompanhado dos cabras mais perigosos do grupo do Capitão Vandeli. Inclusive o famigerado primo (lembram da Vanderlete! “A Diaba do sertão” (uia ! ) ) que olhou pra a filha do coronel/defensora dos pobres, com mortal desprezo, mas ficou de olho comprido na "estola rosa" que esta trazia no pescoço!

Ao ver os bandidos, José teiú abriu todo o gás do turbo, e desapareceu na caatinga seguido por uma nuvem de poeira!

Andréa maravilhada disparou:

- Camaradas cangaceiros, justiceiros das caatingas, leve-me com vocês! Juntos traremos justiça social, isonomia, e “pax perpetum” a estas isoladas paragens!

- Tu entendeu o que a moça falou Cuarisco? – perguntou o seu lugar tenente cabra "Zé Cabrunco"

- Deve de ser o sol, coitada abilolou o juízo! Vamos indo cabroeira. – Falou o bandoleiro mor. Pegando a moça pelo braço.

Assim adentrou o desconhecido sertão a missionária da revolução popularista, Andréa, vestindo seu elegante Taileur francês.

A minha Volante havia chegado de trem, e marchado já dezenas de quilometros, quando se encontrou com a unidade policial de Sergipe, comandada pelo Tenente Kiko, logo soube que outra tropa comandada pelo ex-Capitão da reserva Marcelo, também estava na área, tão importante era para o governo do estado voltar as boas com o Cel. Geziel. Com as efusivas saudações de sempre aos queridos colegas, logo observei:

- Tu num diminuiu o pão e a pizza né Kiko? Olha a tua cara de lua cheia!

Reparei também que o Anspeçada Netinho estava totalmente recuperado do ferimento sofrido no conflito com o velho Vanderlão. Os nossos rastreadores seriam, o indefectível José teiú (Geziel havia ficado furioso com a fuga do mequetrefe e mandou dar uma sova, o cabra tava todo roxo de pancada, que mais parecia uma berinjela gigante) e seu primo João Mocó (mocó é aquela preazinha que tem o traseiro vermelho e dá nas pedras... peraí, dá nas pedras não pega bem, "mora" nas pedras,)

Pedi a palavra como maior patente presente e informei aos homens sobre a severidade da missão!

– Senhores, a missão é delicada, caso achemos o bando cuidado na pontaria, pois tem refém importante, mas não tenham piedade pois o Corisco (cover) é um elemento deletério, e...

- Capitão – me interrompeu o José Teiú” - que gôta é deletério?

- Ruim homi, o cabra é ruim!!! Diz que quando era pequeno se disfarçava de Chuck, Boneco assassino pra bater e tomar o doce dos outros meninos, agora cresceu e foi promovido ao palhaço IT, do Stephen King, cês num vão no Cine Progresso no domingo não? Cês num cunhece o moderno cinema americano?

A tropa fez um AHHHH, de quem num tinha entendido e fez que tinha, entenderam? Todos maravilhados cum minha explicação.

Sem mais delongas, caímos mato adentro com sede de sangue. Cada tropa prum lado. Rosto suado, fuzil pesado, farda quente, poeira ressecando a garganta, achando que a coisa ia se arrastar por dias e demorar. Dispensei a coisa ruim do José teiú, mas o primo dele o tal do João Mocó era igual, pingunço e safado!!

Ao longe divisei as fardas do grupo de Kiko e chegamos juntos a um local aberto na caatinga, onde um tronco gigante de gameleira jazia ao solo, nele, amarrada igual mortadela na rede, e bem, mas muito bem amordaçada, estava a professora Andréa. Havia nela marcas de tortura, ao que parece a maldosa e mesquinha Vanderlete, por vingança, havia depilado as sobrancelhas da pobre e indefesa socialite da caatinga, usando cera de abelha fervente misturada com areia grossa da serra, e caco moído de vidro.

Os lábios estavam pintados, e o resto do rosto também com um horrendo batom cor de jerimum, (uia ) que também lhe estragou todo o terninho! havia um cartaz colado ao seu corpo:

“Aos amigos das volantes, pelo amor de Deus mandem esta mulher ficar de boca fechada. ass. Cap. Corisco, surdo e zonzo até agora”

Quando foi retirada a mordaça a primeira coisa que a moça falou foi: - MINHA ESTOLA, a miserável da Vanderlete roubou a minha estola!!!!! 

Assim terminou o rapto da filha do Cel. Geziel...


 Coronel Geziel e sua manjada figura, única foto disponível. Ele deixa bem claro ao saber que o fotógrafo da capital tinha um material dele pra ser revelado - Escute aqui retratista de merda, Não quero saber de revelações ao meu respeito.


TROCA DE RELATÓRIOS 

Desse Eu, Cap. Marcelo Lima 
Ao sr. cmt das forças de combate ao banditismo em Sergipe.
Após reversão deste oficial à ativa, seguindo a orientação estratégica de concentrar esforços no sul do estado, informo que iniciei as atividades no município de Itaporanga, seguindo mais exatamente para a praia da Caueira.
Após pouso rápido de quinze dias no local, tendo dificuldades de abastecer a tropa com a carne seca e farinha, fomo obrigados a consumir camarão caranguejo e peixe.
Nos retiramos para a praia do Abaís, já no município de Estância, onde pousamos por mais 15 dias, seguindo a pista de um subgrupo destacado que estava a operar na região.
Informo que já nesta praia, tivemos mais dificuldades, pois além da alimentação agora a dormida também criou tensão. Do que tivemos que adquirir oficialmente mais redes de dormir e de pescar, do que segue apenso a este documento, os registros oficiais dos custos desse equipamento de campanha, a ser liquidada com a verba oficial.
Levantamos acampamento ontem, rumo à praia do saco, já na divisa com a Bahia, onde chegamos hoje, e estamos fazendo as incursões na região, na pista do subgrupo que parece estar homiziado aqui no local chamado Gameleira.
Adianto, que informes iniciais dão conta que o subgrupo está peiteando a travessia do rio real, com destino à Bahia, mais exatamente para a povoação Mangue Seco, do que é possível termos que fazer essa travessia penosa e custosa.
Finalmente, informo que a situação da tropa é penosa e precisamos de mais recursos, pois o preço da água de côco no meio o mato, tá na hora da morte na ponta do punhal.
Sem mais 
cap. Marcelo Lima 

 Cap. Marcelo atualmente em São Paulo, 
caçando esquilos no Ibirapuera pra procriar em Sergipe.

Fábio DIZ 
Ao Sr. Cap Marcelo Lima.
Minha volante encontrará a sua, e juntos participaremos desta perigosa e penosa empreitada! 
Já adianto que tivemos de surrar um coiteiro, que queria vender a tropa Guaimuns e cerveja com preço superfaturado! Justiçamos o cabra!  
Abraços. 

Tenente Kiko emenda 

Ah! bem lembrado
Confesso aliviado... (aliviado, nunca), alí cabramacho!
Que me livrei desta despesa, há vários tópicos em que convidava o Cel Geziel para conhecer o litoral Sergipano, que só perde para o açude de Orós (Ceará), e para aquele trecho do Rio São Francisco barrado pela Usina Itaparica em Petrolândia - PE.
Mas voltando ao assunto vejam vocês, da inflação que livrei as bolsas nacionais pagando uns tiragostos para ele. Mas vamos ao conteúdo de meu telex para o conterraneo Cap. Marcelo.
Estou estranhando esta atitude do Capitão Marcelo, me parece que está dando uma difícil, será que vai imitar Muniz de Farias no famoso fogo da Favela (Floresta) deixando o companheiro Fábio sozinho.
Vou enviar carta de recomendações aos vossos superiores, diante da possível recusa que lhe devolvam para Porto da Folha, que nesta época está fresquinha e com água em abundância nas torneiras, pra não dizer ao contrário. Abra do ôio! 

Ten. Kiko

Cap. Marcelo se ajeitcha
Se aprochegue cabra Fábio, tá complicado aqui, e tô mesmo precisando de ajuda nesta campanha da Bahia (mangue seco, Embassaí, Costa Verde)
Tenente Kiko, o pedido de ajuda foi para a região sul, não foi? como bom militar tô aqui na região e pior, já achei pistas de passagem de cangaceiros!!!
Como diria o veinho que narra as estorinhas de Madeline SÓ ISSO, MAIS NADA.

Fotomontagens: Tiago Nascimento

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tuíca do cordel lança seu Blog!

Se tu gosta dos folhetos?
Da cantoria?
Da prosa matuta?
De Patativa, Gonzagão, Lampião...


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Prazer em conhecer:

Lampião Aceso entrevistou Jack De Witte

Mais um vaqueiro para nossa galeria de entrevistados.

Hoje vamos traçar o perfil de um pesquisador que vem do outro lado do Atlântico. Compatriota de um outro cabra azedo que comandava exército e também usava um chapéu quebrado.

Jack François De Witte, (o W com som de "V" visse?) 69 anos, escritor Francês da província de Lagrasse, engenheiro eletrônico aposentado.

Na década de oitenta morou no Rio de Janeiro por dois anos e meio. Esta é a sua terceira visita ao nordeste.

Nos conhecemos durante o Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita, ocorrido em março em Paulo Afonso, BA. Aproveitei o ensejo para intimá-lo a apresentar suas impressões, tendo como local o barco "A Volante" cruzando o Velho Chico de retorno a Piranhas, AL. Um passeio que muitos de vocês já fizeram e quem não o fez... homi ! não sabe o que perde.


Olha ai uma visão "modesta" de Lagrasse. 

Antes de chegar até a "terra do condor" e do capitão João de Sousa Lima "o dublê do Herculano" Monsieur Jack, teve como cicerone o Coroné Severo visitando alguns dos principais cenários da saga lampionica, pelo Cariri cearense e pelo Pajéu. Enfim foi beber na fonte e voltou pra Europa embriagado por esta bendita cachaça chamada CANGAÇO.

 Sentado o tenente João Gomes de Lira, ladeado pelos cavalheiros Bosco André, Jack, José Cícero e Manoel Severo.

Como se dá sua entrada no cangaço?
- Tinha 14 anos quando fui levado pelo meu pai para assistir ao filme "O Cangaceiro" de Lima Barreto, justamente no festival de Cannes onde a película brasileira foi exibida, consagrada e o resto do mundo passa a tomar conhecimento do Cangaço. Preciso ser bem clichê para dizer que é aquela mesma paixão avassaladora que contamina todos. Dali por diante passei a buscar a literatura. Recorri aos sebos da capital e a ajuda de amigos de outros países para que estes me conseguissem outros títulos.

Meus anseios de estar num evento como esse é de obter outras informações sobre a gênese de como o Virgulino Ferreira, chegou a ser um bandido desta magnitude. Um nômade. Um caboclo de raciocínio lógico que administrava com precisão e sangue frio a sua vida e a de tantos companheiros.

Então apresente suas crias!


- “Lampião VP” sans toit , sans roi, sans loi (sem casa, sem rei, sem lei).
Lançado na França em 2005 pela Editora Mandacaru. Já traduzido para o português pelo amigo Luiz Frigoletto porém ainda não publicado. VP ? porque compara a saga do Rei do Cangaço com a do traficante carioca Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP.


E de outro autor?
- "Sur les traces de Virgolino, un bandit nommé Lampião". Traduzindo: Na trilha de Virgolino, um bandido chamado Lampião. Uma tese de doutorado de Patricia Sampaio Silva, brasileira radicada na França, em que pude aprender muito sobre a sociedade nordestina. Outra Obra que muito me agrada é Lampião, Seu tempo, e seu reinado do padre Bezerra Maciel.

Qual é o primeiro título recomendado para um calouro? 
- Não seria uma biografia estritamente sobre Lampião, eu indico o best seller Bandidos de Eric J. Hobsbawm.

Com quantos personagens desta história você teve contato? 
- Óbvio que chegamos demasiadamente tarde, mesmo se tivesse alcançado estas pessoas com as quais desejaria questionar afirmo que acredito muito pouco em testemunhos que não são feitos ao vivo (no calor do momento dias após o acontecimento), testemunhos recolhidos dezenas de anos depois são só para dar cores a narrativa. Eu acabo de passar por Nazaré do Pico, Pernambuco onde pude conhecer e conversar com o tenente João Gomes de Lira, talvez venha a ser a única personagem contemporaneo que eu tenha tido contato, mas me satisfaz a oportunidade de poder conhecer os filhos destas pessoas como Vilsinho, (neto e guardião da memória de Antonio da Piçarra). Neli filha dos cangaceiros Moreno e Durvinha. E o Ozéias irmão de Maria.

Manuseando o rifle pertencente à João Gomes de Lira.

 Ozéias Gomes, irmão de "Maria Bonita", esposa e nosso desbravador


Com quem gostaria de ter conversado?
- Com Manoel Neto, com o Zé Saturnino. Mas principalmente com o escritor padre Frederico Bezerra Maciel. Conversaria com todos, mas somente pelo prazer, não para buscar uma parcela de verdade histórica. Vide o meu livro, primeira pagina : “Não declare ‘encontrei a verdade’ mas de preferência ‘encontrei uma verdade’ Khalil Gibran.

Qual é o seu capitulo?
- A invasão de Mossoró

Um cangaceiro (a)?
- Sabino

Um volante?
- Manoel Neto. Apesar de desaprovar várias de suas ações e decisões como a crueldade que tratava os coiteiros e a de arregimentar jovens para as frentes de batalha.

Um coadjuvante?
- Luiz Pedro, porque serviu muito tempo a Lampião compartilhando muitas situações de agruras e alegrias. inclusive o mesmo capítulo final.

Uma personagem secundária? Queria ter bom papel, mas não passou de figurante
- Maria Bonita (Ao meu ver foi útil... para o marketing do cangaço)


 No museu casa de Maria Bonita

Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção?
- Tenho apenas livros, mas não considero coleção. Resguardar sem a finalidade de expor ou doar para um memorial para as próximas gerações objetos pessoais que fizeram parte de uma história tão sangrenta pra mim é fetichismo.

Entre as peças tem alguma relíquia?
- Sim, por casualidade : Um presente que ganhei da filha de um ex-embaixador da Bolivia no Brasil que o recebeu formalmente como um objeto que tivera pertencido a Lampião ! No livro “Heroes and Artists Popular Art and the Brazilian Imagination” de October – december 2001, tem um artigo de Frederico Pernambucano de Mello “The aesthetics of the cangaço as an expression of Brazilian libertarianism” com uma foto dum punhal muito parecido com o meu. Portanto o punhal que tenho, um dia foi de Lampião mesmo!

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
- "O Cangaceiro" de Lima Barreto por sua sobriedade e a sua sensibilidade. Gosto muito de "Antonio das Mortes" de Glauber Rocha. O "cinema novo" brasileiro produziu muitos Chef d'oeuvre” ou seja muitas obras primas.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
- Que conseguiu escapar vivo de Angico e também a persistencia de muitos lhe atribuírem como um bandido “d’honneur” ou seja um bandido social’ como ‘Robin Wood’. E não concebo aquela passagem em que Lampião é ferido no pé, fica diante de soldados e estes não conseguem vê-lo? Teria ficado invisível ? Paciência!

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?
- Acompanhei essas novidades, mas hoje creio que já estão todas superadas. Sobre a possibilidade da paternidade: Acho bem provável que ele tenha tido outros filhos, porque deve ter seduzido várias mulheres durante suas andanças, mas estes filhos nunca apareceram ou pelo menos nada foi autenticado. Sem uma prova cabal como exame de DNA eu não acredito na possibilidade. 

E Lampião: Morreu baleado ou envenenado?
- Acredito que "as duas causas", em conjunto, nesta ordem, ali em Angico que acabamos de visitar. 


 Iniciando a leitura de mais um livro.

Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
- Lampeão no Raso da Catarina. Como ele chegou até este local e o eternizou como seu principal esconderijo e como estabeleceu contato com os índios.


Contato: Jack De Witte / 21, Rue du Consulat / 11220 Lagrasse France / Tel/Fax : (0033) (0) 4 68 43 37 31 / e.mail : jack;dewitte@free.fr


*Com exceção das duas primeiras as demais imagens são de Manoel Severo.

* *Um fetiche (do francês fétiche, que por sua vez é um empréstimo do português feitiço cuja origem é o latim facticius "artificial, fictício") é um objeto material ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, positivos ou negativos. Inicialmente este conceito foi usado pelos portugueses para referir-se aos objetos empregados nos cultos religiosos dos negros da África ocidental. O termo tornou-se conhecido na Europa através do erudito francês Charles de Brosses em 1757. Fonte Wikipédia,.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Reedição na praça

Quem quer possuir  "O canto"?


Depois de ser informado pelo confrade Ivanildo Silveira e de ter mantido contato telefônico com a própria autora, anunciamos aos interessados que dentro de 10 dias, a 3ª edição do livro, "O CANTO DO ACAUÃ ", já estará disponível nas Livrarias Cultura do Recife.

Mas você pode adquiri-lo "já" diretamente com a autora Marilourdes Ferraz, ao preço de R$ 70,00 (setenta reais). + o frete.

Através do e-mail: ferraz_marilourdes@hotmail.com
ou pelos telefones: (81) 3231 -7159 / 99912-5079

Avia Macho! Como a tiragem da edição foi pequena, mais da metade dos livros já foram vendidos.

 Para se ter uma ideia da importância do mesmo... Leia a resenha abaixo

A VOLTA DE ACAUÃ  
Por: Frederico Pernambucano de Mello
 
Marilourdes Ferraz nos visita com a notícia: está a braços com a tarefa de promover a 3ª edição do seu livro 'O canto do acauã'. O que nos diz são alvíssaras. Porque as memórias que ela soube recolher, organizar e pôr no papel acerca de seu pai, o coronel Manuel Flor, da antiga Força Pública de Pernambuco, se erguem à condição de obra clássica, imprescindível a quantos incursionem pela história do Sertão, buscando ali a saga épica do cangaço.

Quando atuamos na Fundação Joaquim Nabuco, levamos a tradição do épico popular nordestino a São Paulo, na Mostra do Redescobrimento, ao Rio de Janeiro, a Santiago do Chile, e a Cambridge, na Inglaterra. O cangaço foi visto nesses lugares com admiração e surpresa. Servido em sua combinação irresistível de brutalidade, alguma nobreza e primor estético.

Desde o lançamento em 1978, foi assim que nos pronunciamos sobre O canto do acauã: obra clássica. Repisamos o comentário quando do lançamento da segunda edição, trazendo acrescentamentos valiosos. Na terceira edição ora prometida, o livro incorporará entrevistas que a autora fez para outra publicação sua. Não é preciso dizer da pureza de conteúdo do livro, recolhido com critério e ardores de filha por Marilourdes Ferraz, caderno à mão, sentada na mesa diante do guerreiro ilustre que foi seu pai, a ouvir-lhe o desfiar incessante de crenças, tradições, enlaçamento entre famílias, origens da terra, profissões, recursos de subsistência, revelações ligadas à mesa e à festa, tudo aquilo enfim que confere riqueza cultural invejável à velha ribeira do Navio, nucleada na cidade de Floresta.

Coube a Marilourdes desbastar a matéria copiosa que ia recolhendo a cada dia, e encaminhar o relato para a saga do assentamento da povoação de Nazaré, lugar perdido na caatinga até empinar-se em burgo humilde no começo do século 20. Sem ignorar os pontos mais expressivos que se alongaram em marcos do projeto de civilização que se desenvolveu ali, o livro não poderia deixar de encaminhar-se para a saga da resistência da vila às investidas dos cangaceiros, liderados por Lampião, praticamente um filho da terra decaído de anjo a demônio, na opinião dos conterrâneos que não abraçaram a aventura do punhal e da cartucheira. E que findariam por enganchar quase a pulso essa mesma cartucheira, e a cingir esse mesmo punhal, na defesa da vila que os irmanava como projeto comum, somente vindo a receber o bafejo do governo - que os foi alistando nas fileiras da polícia a partir de 1923 - já passados alguns anos e muitas mortes em combate de parte a parte.

Ninguém jamais precisou perguntar a Lampião quais os seus inimigos mais valentes, quais os mais capazes de se misturar com o adversário na luta, abandonando a norma de prudência e, não raro, o planejamento esboçado pelos militares vindos da pancada do mar, para dar vazão à sobranceria do sangue no olho vigente na caatinga. O próprio chefe de cangaço dava os nomes, para quem quisesse ouvir, daqueles a quem conhecia de mocidade, amigos de outrora, inimigos na ocasião em que falava, nascidos e criados derredor de Nazaré: os irmãos Euclides, Odilon e Manuel Flor, um Davi Jurubeba, um Hercílio de Souza Nogueira, um Manuel de Souza Neto, lamentando estarem todos na farda contra o seu bando. Herdeiros da coragem de pais e avós: de um João Flor, de um Antônio Gomes Jurubeba, de um Gregório da Ema. 

Tendo a uni-los um desapego pela vida tornado proverbial entre os povoadores da ribeira a partir de 17 de outubro de 1684, data em que André Pinto Correia se vê investido nos deveres e prerrogativas de "capitão-mor da freguesia e povoação dos Rodelas", por meio de carta-patente outorgada em Lisboa. 

Condição legitimadora do empenho em dobrar o índio bravio a qualquer custo, levando os guerrilheiros cobertos de penas a desistirem de estorvar o assentamento dos currais de gado, vital para os interesses da coroa.

 
Pescado no: Site da Fundação Joaquim Nabuco

Opinião

Maria Bonita

Por Ângelo Cibela



Há gestos marcantes que definem a beleza espiritual da Vida. E, contrapondo-se ao conceito geral, há atitudes que possuem a força maga de produzir milagres.
 
A própria psicologia profunda imerge ante as renovações constantes da vida. Maria Bonita, no gesto louvo de defesa de seu amado, produziu o milagre da transfiguração do espírito sobre a matéria.
 
O seu gesto urdiu um poema de encantamentos e um cântico aos imperativos do coração. Se o seu gesto heroico fosse marmorizado, Rodim, o gigante da escultura, ao certo, teria revelado a sua obra-prima.
 
Nem os fenômenos dramáticos da miséria social conseguem obumbrar o gesto de Maria Bonita que, na sublimidade intencional de seu amor, superou em relevo e importância a história amorosa de Balzac, Dumas e outros.
 
Ressurreição admirável em que a fera se transforma e assinala a sensibilidade dos grandes corações. Salomão em seus cânticos disse que “o amor é mais forte do que a morte”.
 


O seu amado era o seu amor e a morte cedeu o seu trono à glorificação de uma força maior.

Se Stendhal e Ingenieros tentassem compreender esse traço vertiginoso de beleza ante a policromia adusta de um cenário selvagem, ao certo a “cristalização do amor” teria outros foros e as cartas desapareceriam ante a igualdade fundamental das manifestações humanas.
 
E Maria Bonita teve a máxima ventura, rara aos amantes, de alar o seu espírito para as alturas de mãos dadas com o seu companheiro, razão única de seu viver.
 
E — senhores meus — isolando o fato, circunscrevendo-o à análise psicológica do amor, sejamos cavalheiros e no longo gesto medieval, saudemos Maria Bonita como o símbolo agreste do sacrifício.



Ela, Maria Bonita, é a encarnação admirável do amor que não conhece fronteiras e nem decálogos.

Mais forte do que a morte, esculpiu sua própria eternidade, testando à posteridade um traço luminoso de excepcional beleza.
 
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*Nota de Archimedes Marques, (01 de junho de 2011):

- O esplendor de texto assinado pelo jornalista Ângelo Cibela em 1938, para o CORREIO DE ARACAJU (jornal extinto há muito tempo) fora capturado com a autorização do escritor sergipano, Antonio Corrêa Sobrinho, autor do livro “O fim de Virgulino Lampião – O que disseram os JORNAIS SERGIPANOS”, 2ª edição, páginas 137/138, que rompeu meses de trabalho de pesquisa debruçado nos velhos arquivos da nossa Aracaju e além fronteiras para trazer ao público as pertinentes matérias jornalísticas de Sergipe, no período pós-morte de Lampião, em trabalho exaustivo que por certo servirá de parâmetro e ajuda em novos livros, de novos ou velhos autores, sobre esse tema que canta e encanta e que é sem sombras de dúvidas, de inesgotáveis fontes, jamais saturado, sempre em busca da verdade absoluta dos fatos que marcaram para sempre a história nordestina.

Não só recomendo a leitura do livro, como entendo ser necessário colecionar a referida obra na sua biblioteca, como sendo de excelente fonte de pesquisa e aprendizado, para tanto, sugiro a sua aquisição através do contato via endereço de e-mail com o autor Antonio Corrêa Sobrinho: tonisobrinho@uol.com.br 

Atenciosamente
Archimedes Marques