sábado, 7 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher... Cangaceira

No Dia Internacional da Mulher, Maria Bonita, a companheira de Lampião, faria 99 anos, caso estivesse viva.

Por: Antonio Vicelmo, Repórter

Violência, sexualidade, trabalho, política, saúde e etnia. Estes serão os eixos temáticos a serem desenvolvidos amanhã, Dia Internacional da Mulher, pelo Conselho Municipal da Mulher Cratense, dentro da “Primeira Conferência de Formação em Gênero e Feminismo”, que será realizada no Parque de Exposições do Crato. A data também marca o centenário de nascimento de Maria Bonita, a companheira de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

No Crato, a população feminina deverá marcar presença na programação que oferece uma passeata contra as demissões e reduções dos salários. Outro assunto a ser levantado pelo Conselho é uma campanha em favor da doação de medula. A plenária final será realizada no bar da “Casa de Artes Olhar”, na Praça da Sé, com uma atividade cultural.


Além destes temas, será prestada homenagem à cangaceira Maria Bonita, na passagem do seu centenário de nascimento. Ela nasceu no dia 8 de março de 1909. “Vamos falar da importância de uma mulher que rompeu todas as barreiras de preconceitos e entrou para a história do País”, justifica a professora Verônica Neuma Carvalho, coordenadora do movimento feminino.

Maria Bonita foi responsável por introduzir vários costumes no meio dos homens do Cangaço, já que a presença de mulheres no movimento era proibida até a entrada dela no grupo, segundo o escritor Magérbio Lucena, co autor do livro “Lampião e o Estado Maior do Cangaço”. “Ela foi um dos maiores expoentes da cultura nordestina”, atesta o pesquisador.

A cangaceira está sendo também homenageada pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no I Seminário Internacional sobre o Centenário de Maria Bonita: a rainha do cangaço, promovido pela instituição, em parceria com a Prefeitura de Paulo Afonso e a Secretaria Municipal de Turismo.


O evento termina amanhã no auditório do Departamento de Educação (DEDC), do Campus VIII da Uneb, e vai contar a história de vida de quem popularmente foi conhecida como Maria Bonita, a companheira de Lampião. Uma das atrações é a presença dos ex-cangaceiros Teófilo Pires e Aristéia Soares, além de Neli Conceição e João Souto, filhos dos cangaceiros Moreno e Durvinha.

“O seminário integra a comemoração do centenário de Maria Bonita e, para tanto, queremos estudar o papel da mulher no Cangaço, a partir do que foi a sua vida de liderança e companheirismo, ao lado do cangaceiro Lampião”, destaca Juracy Marques, coordenador da iniciativa.Para Juracy, não por acaso, Maria Bonita nasceu no Dia Internacional da Mulher, festejado em 8 de março. “Vamos encerrar o evento comemorando o dia em que o povo sertanejo, em especial, comemora os 100 anos dela”, complementa.

Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, foi a primeira mulher a aparecer no cenário do Cangaço, revolucionando a sua época (século XX) e introduzindo vários costumes no meio de homens guerreiros que até então não permitiam mulheres entre os seus pares. Nascida em 8 de março de 1911, em uma fazenda na Malhada da Caiçara, na Bahia, casou-se aos 15 anos com um sapateiro, com quem vivia brigando.

Durante uma das separações de seu marido, Maria Bonita conheceu Lampião e apaixonou-se. O rei do Cangaço, nesta época, tinha quase 33 anos e Maria, pouco mais de 20.


Musa e rainha

Maria Bonita entrou para o bando ao final de 1930 e tornou-se musa e rainha do Cangaço, ocupando-se, entre outras coisas, de costurar a indumentária dos cangaceiros. Depois dela, os outros do grupo também trouxeram suas companheiras para fazerem parte do bando. Em alguns momentos, a intervenção de Maria Bonita impediu vários atos de crueldade de Lampião.

Os historiadores afirmam que a presença das mulheres no Cangaço humanizou uma das mais violentas fases da história nordestina, com prática, inclusive, de estupros. Maria Bonita era a musa e a rainha do Cangaço e serviu de referência para um grupo de mulheres que passaram a fazer parte do bando, modificando a forma de atuação junto aos grupos considerados inimigos. Dizem que elas participavam de todas as atividades, inclusive dos combates.

Fique por dentro

Maria Bonita conviveu durante oito anos com Lampião e teve uma filha, Expedita. Como seguidora do bando, Maria foi ferida algumas vezes, em 28 de julho de 1938, na Fazenda Angicos, Estado de Sergipe, durante um ataque feito pela Polícia ao bando. Ali, morreu o casal. Eles foram brutalmente assassinados, transformando suas vidas em um marco da história nordestina. Além dela, outras mulheres também se destacaram no Cangaço: Dadá, esposa de Corisco; Lídia, mulher de Zé Baiano; e outra Maria, mulher de Pancada...

Fonte: Diário do Nordeste
Sugestão da matéria: Jailson Gomes / Jaboatão dos Guararapes / PE 

sexta-feira, 6 de março de 2009

Herdeiros da Ingazeira


A Casa "amaldiçoada" de Lampião

"Virgolino hoje tanta gente lembra seu destino / Desde a Ingazeira donde foi menino"...
(Rei do Sertão - Xangai)

O Sítio "Passagem das Pedras", situado a 45 km do atual município de Serra Talhada/PE, local onde nasceu "Lampião", terras que outrora foram dos Ferreiras (pais do famoso cangaceiro), foram compradas, posteriormente, pelo casal José e Agda Barbosa Nogueira.

Esse casal não tinha filhos. Foram herdeiros os filhos adotivos, seus sobrinhos: profª Maria José e Pedro Barbosa Nogueira. Encontrando "Demolida" a casa dos Ferreiras, no Sítio Passagem das Pedras, a professora/escritora Aglae Oliveira, indagou da atual proprietária:- "Por que a atual proprietária demoliu a residência dos Ferreiras (pais de Lampião) ? Tinha tanto valor para a história do cangaço no Nordeste ! Ouviu a escritora, o seguinte:
" Quando José Barbosa Nogueira comprou as terras, passou a residir na casa onde nasceu e viveu Virgulino ( antes de tornar-se Lampião) com sua família. José foi mordido por uma Cobra Cascavel... José começou a passar mal, e faleceu, após 12 dias de grandes sofrimentos. Era um bom homem, excelente esposo e estimado na Ribeira. A viúva, Agda, ficou inconsolável e tomou a deliberação de demolir as casas, onde, nos idos de 1898, nasceu Virgolino, e a D. Jacosa, avó do futuro cangaceiro.
A viúva admitiu que a morte do marido se deu porque morava na residência onde vivera um bandido. Para ela, a casa dava "azar". Hoje, o local é muito visitado por escritores, jornalistas, estudiosos da história do banditismo nos sertões do Nordeste.
Hoje, o sitio, pertence ao Sr. Camilo Nogueira. (foto acima). No local da antiga casa de Lampião existem apenas escombros (pedaços de tijolo batido; telhas..), além de plantas típicas do sertão nordestino tipo xique-xique, faveleiros, quipás, e, frondosos e Mandacarus.

Nota: Estamos nos referindo ao verdadeiro berço de Virgolino, pois a casa de D. Jacosa reconstruída pela Fundação Cabras de Lampião que fica próxima é onde ele vai ser criado depois de alguns anos.

Texto de Ivanildo Silveira.

"Num perda"!

Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita

 
 
Nosso amigo e colaborador Rubinho, que é um dos palestrantes e organizadores do evento, reforça o convite para todos os leitores do Blog Lampião Aceso!

terça-feira, 3 de março de 2009

Cidade baiana celebra o centenário de Maria Bonita

Paulo Afonso (BA) mostra a participação das mulheres no Cangaço.

Ela nasceu em 8 de março de 1911 e eventos marcam série comemorativa.

A cidade de Paulo Afonso (BA) inicia nesta Terça-feira (3) uma série de eventos para comemorar o centenário de nascimento de Maria Gomes de Olveira, a Maria Bonita, que nasceu em 8 de março de 1911. A primeira programação de eventos termina neste domingo (8).

O objetivo da Diretoria de Cultura da cidade baiana é falar da importância da mulher no Cangaço, já que Maria Bonita nasceu no dia Internacional da Mulher e acompanhou o movimento ao lado de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

A ex-cangaceira Aristeia Soares de Lima, o ex-soldado da volante Teófilo Pires, além de Neli Conceição e João Souto, filhos do casal de cangaceiros Moreno e Durvinha estarão presentes nos eventos. Aristeia é uma das últimas remanescentes da luta do cangaço e vive há quatro anos na cidade de Delmiro Gouveia, em Alagoas. Aristeia Soares de Lima, 96 anos, disse que não tem saudades do tempo em que viveu na caatinga. Ela disse também que chegou a passar fome depois do fim do cangaço, em 1940.

Jeito feminino no cangaço
Segundo o historiador João de Sousa Lima, Maria Bonita foi responsável por introduzir vários costumes no meios dos homens do cangaço, já que a presença de mulheres no movimento era proibida até a entrada dela no grupo.

A série de eventos pelo centenário da Rainha do Cangaço é uma iniciativa da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da Secretaria de Turismo de Paulo Afonso. A atividade de abertura é o I Seminário sobre o nascimento de Maria Bonita. A segunda edição do evento será realizada em 2010 e o terceiro seminário será feito em 2011.

"Queremos valorizar nossas raízes culturais e levar ao conhecimento público a importância de Paulo Afonso como um dos principais cenários relacionados com a história do cangaço. Além disso, vamos falar da importância de uma mulher que rompeu todas as barreiras de preconceito e entrar para história do país", disse João de Sousa, que também é diretor de cultura de Paulo Afonso.

Turismo
Os endereços que possuem referência ao cangaço em Paulo Afonso vão se transformar em pontos turísticos para alunos e pesquisadores da região e do país. Para isso foi criado o "Roteiro do Cangaço". Um destes pontos é a casa onde viveu Maria Bonita, no povoado de Malhada da Caiçara.

O imóvel foi restaurado e abriga um acervo de fotografias de Lampião e Maria Bonita, além de objetos que foram usados pela família dela.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Lorena e Sinhô

Entrevista com o Ex chefe Cangaceiro "Sinhô Pereira"

Faleceu hoje, 26 de Fevereiro, em Serra Talhada,PE O Sr. Luiz Conrado de Lorena e Sá. Lorena como era conhecido, foi prefeito do município de Serra Talhada durante três mandatos: 1945/47, 1955/59 e 1964/68.

Lorena
Era parente próximo dos famosos cangaceiros Sinhô Pereira e Luiz Padre, pois o avô de Lorena que também se chamava Sebastião era primo legítimo de Sinhô e Luiz Padre.

O sepultamento ocorreu hoje às 17:00 hs no cemitério municipal da cidade.

Leiam a entrevista concedida pelo lendário chefe de Lampião ao Sr. Luiz Lorena, em 1971.



Seu nome na pia batismal deve-se ao fato de ter nascido no dia de São Sebastião, 20 de Janeiro de 1896.
Sebastião Pereira da Silva "Sinhô Pereira" (Foto) nasceu em Vila Bela, em meio à uma áspera guerra entre as famílias Pereira (a sua) e Carvalho. Foi chefe de cangaceiros e das suas mãos Lampião recebeu o bando.

Sinhô Pereira foi embora para Goiás no ano de 1922 e só voltou beber das águas límpidas e saborosas do Pajeú no ano de 1971 (mês de junho), quando veio visitar a família em Serra Talhada, PE.

Naquela ocasião Luiz Lorena e Sá, da família Pereira , travou o seguinte diálogo com seu brioso parente, que fora no passado o braço armado do clã:

Lorena - Qual o momento que marcou sua vida de maneira indelével?
Sinhô - Foram tantos os momentos dramáticos no meu trajeto que seria impossível escolher um.

Lorena - Qual seu dia de maior alegria?
Sinhô - Chegar a Serra Talhada 50 anos depois e ser recebido por todos os parentes com carinho que me dispensaram, foi na verdade motivo de muita alegria.

Lorena - Qual seu dia de maior tristeza?
 Sinhô - Estando eu em Lagoa Grande, distrito de Presidente Olegário/MG, recebi a noticia do falecimento de Luiz Padre, em Anápolis, Goiás. Nem ao sepultamento compareci.

Lorena - Você tem alguma grata satisfação do seu tempo de guerrilheiro?
Sinhô - Não. Nasci para ser cidadão, casar-se e constituir família. Fui namorado da moça mais bonita do Pajeú.

Lorena - Por que se envolveu nessa tragédia?
Sinhô - A impunidade em Vila Bella teve seu auge em minha juventude; do assassinato de seu Né - meu irmão - nem inquérito policial foi aberto.

Lorena - Você reconhece o que seus contemporâneos dizem sobre o seu espírito guerreiro e de ser você o mais valente entre esses?
Sinhô - havia homens valentes até quase a loucura, entretanto, brigavam para matar. Na hora de morrer, até fugiam do campo de luta. Naquelas circunstâncias matar ou morrer para mim, seria a mesma coisa; daí a diferença.

Lorena - Desses confrontos, qual o que você teve mais proveito?
Sinhô - A família Pereira (minha família) vivia atormentada em face de minhas ações. Era imperativo mudar a face da história.

Lorena - Quais os fatos que mais perturbavam você?
Sinhô - Vários. No começo tudo o que eu fazia errado dava certo. Com o passar do tempo tudo o que eu fazia certo dava errado.

Lorena - Entre estes, você poderia destacar um?
Sinhô - Sim. A morte de João Bezerra, em Bom Nome. Na forma como eu procedi, acelerou minha decisão. O meu estado de espírito estava de tal forma desajustada que já não tinha condição de conduzir as ações do grupo que comandava.

Lorena - Em que circunstância Lampião apareceu em sua vida?
Sinhô - Ele e os irmãos chegaram de Alagoas depois do assassinato do pai, dispostos a confrontar com José Saturnino, seu inimigo comum.Não tinham condições financeiras nem experiências. Procuraram-me e participaram com muita bravura de alguns combates.

Lorena - Por que Virgolino Ferreira da Silva ganhou o apelido de Lampião?
Sinhô - Num combate, a noite, na fazenda Quixaba, o nosso companheiro Dê Araújo comentou que a boca do rifle de Virgolino mais parecia um lampião. Eu reclamei, dizendo que munição era adquirida a duras penas. Desse episódio resultou o Lampião que aterrorizou o Nordeste.

Lorena - Você não quis Lampião em sua viagem para Goiás?
Sinhô - Ao despedir-me dele na Fazenda Preá, no município de Serrita/PE, pedi para não molestar ninguém da família Pereira. Ele prometeu e cumpriu. Não quis, entretanto, seguir viagem comigo.

Lorena - Depois de instalado em Goiás você convidou Lampião para ir morar naquela região?
Sinhô - Sim. Quintas (meu irmão) foi o portador da carta. Ele respondeu verbalmente, dizendo que não aceitava o convite para não me criar embaraços.

Lorena - Você recebeu o convite de alguém para atacar Antônio da Umburana em Queixada (Mirandiba)?
Sinhô - Não. Tudo aconteceu por minha conta e risco.

Lorena - E o seu problema com Isnero Ignácio, como aconteceu?
Sinhô - Naquele tempo chegou para se agrupar comigo o meu parente Luiz Pereira Nunes (Luiz do Triângulo) acompanhado dos primos Chiquito e Teotônio do Silveira, valente ao extremo. Depois de várias refregas, explicou-me que estavam comigo por que foram escorraçados da sua propriedade na região de Santa Rita pelo primo Isnero Ignácio. Estavam se preparando para desforra e esperava o meu apoio.

Lorena - Qual foi sua reação?
Sinhô - Ponderei que já bastavam as inimizades já existentes e que Sinharinha, mãe de Isnero, era filha de tia Donana, figura considerada sagrada pela minha mãe.

Lorena - E Luiz do Triângulo, como reagiu?
Sinhô - Ficou contrariado, sem aceitar minhas ponderações. Entretanto, concordou que eu fosse com Luiz Padre pedir a interferência de Antonio Inácio de Medeiros também primo de Isnero, Sr. Sebastião Inácio de Oliveira, concordou. Isnero e mãe Sinharinha foram radicais, não aceitaram qualquer forma de reconciliação, inclusive proibiram o parente Luiz do Triângulo de voltar a sua propriedade.

Lorena - E daí, o que aconteceu?
Sinhô - Foi uma estupidez o que fizemos. Ateamos fogo na Fazenda Santa Rita, deixando em cinzas o roçado, o canavial, o engenho, os currais e a casa da fazenda.

Lorena - Dos oficiais da policia militar que o combateram, qual o de maior respeito?
Sinhô - O capitão José Caetano era um bravo. Intrépido e leal no mais duro da refrega.

Lorena - Qual o combate mais dramático que você participou?
Sinhô - Foi na Serra da Forquilha, numa semana em que estávamos repousando. Éramos doze homens, cercados num casebre, por cento e vinte policiais. Sem outra alternativa bradamos para que segurassem as armas porque iríamos para a luta de corpo-a-corpo e de corpo a punhal.

Lorena - O que aconteceu?
Sinhô - O que aconteceu? Saltamos e fugimos ilesos.

Lorena - Por que a idéia de avisar aos sitiantes, nessa e em outras oportunidades, que continuariam a luta, mas, na verdade, abandonavam o refúgio?
Sinhô - Enquanto aqueles procuravam entrincheirar-se, nós fugíamos.

Lorena - Você viajou para o Planalto Central desprovido de recursos financeiros?
Sinhô - Não. Isidoro Conrado e Né da Carnaúba financiaram a nossa viagem com dinheiro que compraríamos duzentos bois.

Lorena - Em Dianópolis, onde se instalaram, tudo correu bem?
Sinhô - Vivemos uma epopéia mais dramática do que aqui, expressar numa entrevista nem vale a pena...

Lorena - Por que essa expressão! "minhas navegações" quando sabemos que navegar é próprio do oceano?
Sinhô - Ouvíamos dizer que o mar é uma imensidão de água, e como a extensão de nossa desgraça não tinha limites, usávamos a expressão "nossas navegações".

Lorena - É verdade que você anteviu a genialidade de LAMPIÃO?
Sinhô - Dos homens que deixei em armas no Pajeú, só Virgolino podia chegar à celebridade. Os demais eram formiga sem formigueiro. Minha profecia foi cabalmente comprovada. Lampião nada aprendeu comigo. Já nasceu sabendo".

Sinhô Pereira faleceu numa manhã no final do ano 1979, em Lagoa Grande - Estado de Minas Gerais -, deixando para trás uma vida e uma história marcadas de angústia, dores e vontade de viver feliz com sua família e amigos.

"Sinhô Pereira era uma baraúna"!

Créditos da nota de falecimento: Hildebrando Neto "Netinho".
Transcrição da entrevista Ivanildo Silveira.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Recesso


Bom Carnaval para todos!


IN: culturadigital.br
Por falar nisso, dentre os mais de 300 registros musicais que homenageiam o Cangaço encontrei a obra de Lourival Oliveira:

Paraibano de Patos, nascido em junho de 1918, é autor de alguns dos mais memoráveis frevos-de-rua da história deste gênero musical. Foi aluno do grande Levino Ferreira (apenas coincidência,trata-se de outro Levino) de quem aprendeu além da teoria, o dom de criar belas melodias para seus frevos.

Foi clarinetista da Orquestra da Banda Militar de Pernambuco, no final da década de 30. Contratado pela Rádio Clube, foi clarinetista, saxofonista e arranjador da orquestra deste emissora.

Teve uma passagem de poucos anos no Rio, onde tocou com a orquestra o Cassino Copacabana, teve frevos gravados pela orquestra do Maestro Peruzzi e a Tabajara de Severino Araújo.

De volta ao Recife, passou a integrar a Orquestra Sinfônica do Recife, dirigida então pelo maestro Vicente Fittipaldi. Até falecer, em junho de 2000, foi um dos mais atuantes músicos, maestros e compositores do Recife.

Mas o que este artigo tem haver com o tema em questão?

É antológica sua série de frevos-de-rua que têm nomes de cangaceiros de Lampião por título (inclusive o próprio Lampião é também um frevo seu, gravada por outras orquestras). Um destes, intitulado "Cocada" é um clássico obrigatório em qualquer orquestra de frevo.



'Os Cabras de Lampião no Frevo', uma verdadeira obra-prima do fantástico clarinetista e compositor, são feitas homenagens a todo o bando do temido cangaceiro. O frevo é misturado com maestria ao xaxado, já que se sabe que era um ritmo que os cangaceiros adoravam dançar em suas festas.

Desafios para os músicos é o que não falta nesse trabalho.

Cocada
Corisco
Jararaca
Lampião
Maria Bonita
Moitinha
Pilão deitado
Ponto fino
Sabino
Ventania
Volta seca e Zabelê.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Preso o "novo cangaço"


Belo Horizonte - Uma das maiores organizações criminosas do Brasil, especializada em roubo a banco e a carro-forte, foi desarticulada com a prisão de 26 de seus principais integrantes. O bando é apontado pela Polícia Civil de Minas Gerais como responsável por prejuízo superior a R$ 100 milhões, em crimes ocorridos desde a década de 1990, e por usar estratégias semelhantes ao do grupo de Lampião no sertão nordestino, na década de 1930, o que lhe valeu o título de "novo cangaço".

A captura dos suspeitos começou em 2007. Mesmo enfraquecido, o grupo não interrompeu sua atuação e planejava para esta semana um crime ousado: assaltar um carro-forte carregado com 1 tonelada de ouro - avaliado em mais de R$ 50 milhões -, na Venezuela, com ajuda de seis ex-guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), conforme a investigação policial. Mas a polícia ainda encontra um desafio. O cabeça do grupo, identificado como Márcio do Carmo Pimentel, de 28 anos, e conhecido também por cinco apelidos, permanece foragido.

A quadrilha é conhecida por aterrorizar cidades do interior e usar estratégias de guerra, como sitiar municípios e fazer civis de escudo. Primeiro, um integrante do grupo seguia para a cidade selecionada e buscava informações sobre como seria a atuação. Ao voltar, os detalhes eram repassados aos cabeças e, em seguida, contratados os soldados, de acordo com as necessidades do armamento. Roubos a banco teriam a participação de pelo menos oito pessoas e a carro-forte, apenas quatro.

Na quarta-feira passada, um dos principais braços do grupo e um comparsa foram presos em Guaraí (TO). João Ferreira Lima, o "Professor", de 46, e Paulo César Miguêz, de 40, faziam transporte de uma metralhadora antiaérea Browning, calibre .50, para a Venezuela. A arma teria sido comprada de um coronel do exército do Paraguai, por R$ 280 mil, e transferida, por terra, até São Paulo. De lá, a dupla a levaria até Belém e, em seguida, de balsa até o município de Dom Romão, na Venezuela.

Segundo o comandante operacional da Operação Vandec - Fase 3, delegado Hugo Malhano dos Santos, a arma foi escondida numa Chrysler Gran Caravan, blindada. "Em estrada entre Dom Romão e Margarita, o bando usaria táticas semelhantes às usadas em Minas para render vigilantes de um carro-forte carregado de ouro. Desta vez, para apoiar o carregamento, seria usada uma esteira elétrica e um hummer (veículo militar para todo tipo de terreno)", diz.

Pedro Rocha Franco // Do Estado de Minas

Na terra de Lampião...

SEMINÁRIO SERTÃO, BEATOS E CANGACEIROS



A Fundação Cultural Cabras de Lampião/Ponto de Cultura Artes do Cangaço, patrocinada pelo Programa BNB de Cultura 2009 e o apoio do SEBRAE, tem a grata satisfação de convidar o público em geral para o evento SEMINÁRIO SERTÃO, BEATOS E CANGACEIROS, que se realizará nos dias 20 e 21 de março/09 (Sexta-feira e Sábado), em Serra Talhada - Terra de Lampião e Capital do Xaxado.

PROGRAMAÇÃO:



DIA 20 - SEXTA-FEIRA

09h00min - Abertura. Formação da mesa com os parceiros: Fundação Cultural Cabras de Lampião, BNB/Governo Federal, SEBRAE e Prefeitura Municipal.

10h00min - Palestra "Lampião - O mito", com Adriano Marcena;

12h00min - Intervalo para almoço.

15h00min - Palestra “O turismo Lampiônico”, com Paulo Moura e Anildomá Willans de Souza.

16h00min - Palestra "Cultura e turismo no Sertão", com Márcia Borborema.

18h00min - Intervalo para jantar.

19h30min - Exibição do documentário "Virgolino - Do homem ao mito"

20h00min - Palestra "A Estética do cangaço antes e depois de Lampião", com Frederico Pernambucano de Mello.

DIA 21 - SÁBADO

08h00min - Visita técnica:

"NAS PEGADAS DE LAMPIÃO".
Pedras onde aconteceu o primeiro confronto armado entre os irmãos Ferreiras (família de Lampião) e Zé Saturnino (primeiro inimigo).

Ruínas da antiga casa-grande da fazenda Pedreira, pertencente a Zé Saturnino. Onde foi palco de um dos mais emocionantes capítulos da história do cangaço.

Sítio Passagem das Pedras - onde está à casa de Dona Jacosa, avó materna de Virgolino, onde ele nasceu....

Haverá apresentação do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião...

É como se a família ainda estivesse lá, com sua avó, a Mulher Rendeira, cantando loas... Consta de um maravilhoso acervo em fotografias, utensílio e móveis, objetos e documentos que têm referência com os guerrilheiros do sertão e remete o visitante a um mergulho no mundo mágico do cangaço, por onde começou a saga do mito Virgolino Ferreira da Silva.

É o ponto de partida da vida daquele que por duas décadas percorreu a maior parte do nordeste brasileiro "fazendo justiça com as próprias mãos", pondo em xeque o poderio dos coronéis.
No Sítio tem um passeio pela caatinga em visita ao Riacho de São Domingos, ao sopé da Serra Vermelha.

Haverá transporte gratuito para os interessados, desde que agendados durante as palestras.

Mais informações:

Fundação Cultural Cabras de Lampião
Ponto de Cultura Artes do Cangaço Serra Talhada - PE.
Tel. (87) 3831 2041
Anildomá (87) 9938 - 6035
Cleonice Maria (87) 9616 - 1952
Karl Marx (87) 9616 - 2017


Um novo cangaço?

Por: Fábio Carvalho

Caros amigos.Vendo as últimas notícias das repetidas ações de quadrilhas especializadas do sudeste do país, em roubos a bancos acontecidos em cidades pequenas do Norte/Nordeste e Centro do país, e mesmo sem grandes semelhanças histórico/sociais, não deixei de pensar em algo: Banditismo rural! Tentei fazer um paralelo com as ações dos antigos cangaceiros (grifadas em vermelho). Seria retirando-se óbvio a parte social e histórica do momento, (vinganças, seca, miséria, coronelismo, república velha etc) guardadas as devidas proporções, um novo tipo de cangaço?

OS PARALELOS QUE PUDE TRAÇAR ENTRE AS AÇÕES DOS BANDOLEIROS MODERNOS E OS ANTIGOS:

1 – Grande número de integrantes em cada assalto, modernamente de 6 a 12 homens por ação criminosa.
Os cangaceiros tinham dezenas de homens em cada grupo usando isso como vantagem.

2 – Ações ousadas, com uso extremo de violência e intimidação contra a população, fazendo inclusive cidades inteiras de refém.
Os cangaceiros idem

3 – Uso da surpresa, ações inopinadas.
Os cangaceiros idem

4 – Uso de armamento de guerra, superior aos das guarnições das polícias locais.
Os cangaceiros tinham as mesmas armas da polícia, nisso a polícia no começo do século XX no Brasil ainda estava em vantagem, quando dos assaltos a cidades os cangaceiros contavam com a superioridade numérica contra os policiais locais, embora não se deve esquecer a massiva quantidade de armas em mãos de civis que poderiam ajudar as forças legalistas (vide Mossoró)

5 – Uso de indumentárias especializadas para o combate, coletes balísticos, uniformes camuflados, rádios, máscaras, identificando o grupo.
Os cangaceiros tinham seu “uniforme, bem conhecido, e carregavam seus apetrechos destinados a sua sobrevivência e ao combate.

6 – Fuga rápida em veículos de tração 4x4 e "fora de estrada".
Os cangaceiros usavam a cobertura da caatinga, e a pouca possibilidade de veículos a motor persegui-los.


Pode ser que os líderes nunca tenham lido uma linha sobre o assunto, mas este é o Cangaço "muderno".

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Olhar estrangeiro


 Um norte-americano de 27 anos nas pegadas de Lampião

Por Daniel Mason

Em 16 de junho deste ano, pela segunda vez na minha vida, viajei a Angicos (Ceará). Embarquei em um pesqueiro em Piranhas, Alagoas, uma cidade pintada e agarrada ao rio São Francisco, e percorri o mesmo trajeto que, quase 65 anos atrás, as volantes realizaram corrente abaixo para atacar o bando de cangaceiros acampados na sombra e no silêncio de um leito seco de rio, com uma chuva de balas que foi o início do fim para o cangaço.

Minha primeira visita a Angicos aconteceu de maneira mais acidental. Em dezembro do ano passado, vim ao Brasil com o objetivo de encontrar uma história para um segundo romance e terminei visitando o sertão por capricho, na verdade, pela fascinação com as histórias da literatura de cordel e a necessidade de acreditar que, neste mundo dominado pela televisão, cinema e literatura de mercado, uma forma oral de narrativa pode persistir...

Em Caruaru, conheci meu primeiro cordelista, um vendedor astuto que se despediu de mim depois de me vender cópias de todos os folhetos que tinha.

Naquela noite, entre "Caruaru Hoje e Ontem" e "A Moça que virou uma Cobra", descobri que a maior parte das histórias tratava de um nome com um apelido engraçado e um olhar atemorizante, que parecia ter captado a imaginação dos narradores.

Se o que os títulos diziam merecia confiança, esse Lampião "lutara contra um menino que virou porco", fizera amor com uma mulher cujo nome é digno de um conto de fadas e visitara tanto o céu quanto o inferno.

Embora as histórias sobre o porco talvez sejam questionáveis em sua veracidade, a de Maria Bonita não era. E o mesmo poderia ser dito, assim que descobri sobre seus 20 anos fugindo da lei, sobre as visitas dele ao céu e ao inferno, ao menos em termos metafóricos.
E assim me vi sozinho com esses livros de poesia e a crescente suspeita que se tem quando a gente conhece alguém que se tornará um companheiro constante.
Acabo de voltar de mais seis semanas no sertão.


O que me encanta mais que as aventuras de Lampião, histórias que persistem nos lábios e nos livros dos poucos pesquisadores dedicados que enfrentam o calor e o sol, é o quanto a história dele está viva.

Nos Estados Unidos temos nossos grandes bandidos, como Jesse James e Billy the Kid. Mas suas histórias são em geral lendas estáticas, fixadas em seu lugar pela história e pelo tempo, bem como por um rico conjunto de literatura e filmes.

Em Lampião, no entanto, é possível perceber ativamente o processo de como a história se transforma em lenda, uma coisa única e preciosa para um escritor, especialmente um escritor de ficção.

Os idosos que conheci e entrevistei , que vinham caminhando trôpegos de suas fazendas para conversar sobre a vida durante o cangaço, contavam histórias de noites passadas no mato, lojas incendiadas, cidades abandonadas quando surgia a notícia de que os cangaceiros estavam por perto.

Das gerações mais jovens, ouvi uma história diferente, a lenda de um poeta e dançarino (e, aos olhos de alguns, um rebelde) que com o fuzil e a peixeira tornou impossível que uma parte do país esquecida por muito tempo continuasse a ser ignorada.
Deixei o sertão com o mesmo sentimento que tive durante minha primeira partida, com nostalgia e planos de retornar. Lembro-me de, durante minha primeira visita, ter imaginado por que, apesar da seca, do calor e da pobreza incansável, os sertanejos continuavam a cantar canções sobre voltar para casa.

Talvez seja o céu aberto, a hospitalidade de um povo que oferece sua última xícara de café a um viajante sedento, ou os momentos fugazes do final do dia, quando a terra esfria, ganha um tom dourado, e a caatinga brilha com uma cor que jamais eu vi em outro lugar. Ou talvez sejam os fantasmas que assombram o lugar, as histórias contadas nas noites frias, que causam assombro e a vontade de voltar.

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Daniel Mason, 27, é escritor americano, autor de "O Afinador de Piano" (Companhia das Letras). Este seu trabalho de estréia, uma história ambientada no século XIX ma Ásia meridional, estourou em crítica e público nos Estados Unidos e na Inglaterra. Já foi lançado em 20 países, incluindo o Brasil. É sobre o país, aliás, que Mason escreve atualmente. Desde julho de 2003, ele vem percorrendo o Nordeste do país para colecionar informações sobre o cangaço. O texto a cima foi escrito pelo escritor à pedido do jornal Folha de São Paulo (Ilustrada, p. 4, 4/8/2003), no qual ele conta sua experiência pelos sertões brasileiros.


Lampião Aceso retruca.
Democratas e Republicanos, sejam bem vindos aos nossos rincões, com exceção de algumas estantes na literatura cangaceira, sempre cabe mais um, porém quem não se comunica... Jogar Angico lá pra cima no meu querido Ceará? O texto começou aleijado mesmo, - Because Man! À propósito, até o momento não há registro da referida publicação.



Confiram na fonte: BARCELONA - UFRN

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Programe-se

SIMPÓSIO - CENTENÁRIO DE "MARIA BONITA"


Realizado pela UNEB - Universidade do Estado da Bahia, Secretária de Turismo e Cultura de Paulo Afonso. Período: 03 a 08 de Março de 2009.

Mostra de fotografias de Maria Bonita, utensílios e apetrechos usados na época e reportagens sobre o cangaço. Essa mostra será aberta a toda a comunidade, porém destinada principalmente à visitação guiada dos alunos das escolas públicas e municipais, interagindo o aluno com a nossa real história.



PROGRAMAÇÃO:

Dia 03/03/2009 (Terça-feira)
 
08h30min as 17h00 – Início da mostra cultural com visitação guiada dos alunos das escolas Municipais, Estaduais e comunidade local.

19h00 – Abertura Oficial com a presença de autoridades Civis e Militares.

19h30 – Grupo APDT com apresentação da peça teatral ‘A NOITE CABREIRA DE ANGICO’.
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Dia 04/03/2009 (Quarta-feira)
 

08h00 às 20h00 – Visitação guiada dos alunos das escolas Municipais, Estaduais e comunidade local.

20h00 às 21h00 – A Cultura No Foco do Empreendedorismo – Palestrante do SEBRAE.
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Dia 05/03/2009 (Quinta-feira)
 

08h00 às 20h00 – Visitação guiada dos alunos das escolas Municipais, Estaduais e comunidade local.
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Dia 06/03/2009 (Sexta-feira)
 

08h00 – Exibição dos Filmes:
A CASA DE MARIA BONITA (Direção Gilmar Teixeira e João de Sousa Lima).
SILA A CANGACEIRA (Direção de Aderbal Nogueira).
VIRGULINO FERREIRA DA SILVA, GOVERNADOR DO SERTÃO (Direção Manoel Neto e Miguel Teles).
70 ANOS DA MORTE DE LAMPIÃO E MARIA BONITA (Direção Antônio Galdino)

10h00- Após a exibição dos filmes haverá uma mesa redonda para debates sobre o tema:

11h00 - Encerramento

16h00 – Debate com o tema: A PARTICIPAÇÃO DA MULHER NO CANGAÇO, com a presença dos estudiosos do tema residentes no município de Paulo Afonso - BA.
PARTICIPANTES:
JURACY MARQUES, EDSON BARRETO, LUIZ RUBEN, ANTÔNIO GALDINO, "RUBERVÂNIO CRUZ", HAROLDO SANTOS.

16h30 às 17h00min - Apresentação do Coral da UNEB

19h00 – Apresentação dos músicos Oscar Silva e Osvaldo Silva.

19h30 - Lançamento do livro A TRAJETÓRIA GUERREIRA DE MARIA BONITA, A RAINHA DO CANGAÇO, do escritor João de Sousa Lima.

20h00 - Ciclo de palestra ‘A VIDA DE MARIA BONITA’, com a participação dos escritores de outros Estados.

Presença da ex-cangaceira Aristeia Soares, ex-soldado da volante Teófilo Pires, Neli Conceição e João Souto, filhos do casal de cangaceiros Moreno e Durvinha.

PALESTRANTES:

Kydelmir Dantas, Iº Secretario da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Pesquisador, Mossoró - RN.

Ângelo Osmiro, Vice-Presidente da SBEC, Escritor, Fortaleza - CE.

Aderbal Nogueira, Assessor de comunicação da SBEC, Documentarista, Fortaleza - CE.

João de Sousa Lima, Pesquisador, Paulo Afonso-BA

Jairo Luiz, Pesquisador, Piranhas - AL.

Antonio Vilela, Escritor e Pesquisador, Garanhuns – PE.
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Dia 07/03/2009 (Sábado)

– O EVENTO SERA REALIZADO NO SESC LER - BTN
08h00 – Mostra Cultural e exibição dos Filmes:

A CASA DE MARIA BONITA (Direção Gilmar Teixeira e João de Sousa Lima).

SILA A CANGACEIRA (Direção de Aderbal Nogueira).

VIRGULINO FERREIRA DA SILVA, GOVERNADOR DO SERTÃO (Direção Manoel Neto e Miguel Teles)

70 ANOS DA MORTE DE LAMPIÃO E MARIA BONITA (Direção Antônio Galdino)

Após a exibição dos filmes haverá uma mesa redonda para debates sobre o tema.

18h00 – Palestra sobre a mulher no Cangaço com todos os participantes do evento.

19h00 – Entrega dos certificados aos participantes.
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Dia 08/03/2009 (Domingo)
 

08h00 – Sairá do SESC um ônibus levando os participantes para uma visitação a casa de Maria Bonita.

19h00 – Filme sobre o Cangaço e o encerramento do evento



Idealizadores

Juracy Marques - Diretor da UNEB – Campus VIII
Antônio Galdino da Silva - Secretario municipal de Turismo,
Jânio Ferreira Soares - Diretor de Turismo
Gloria da Costa Lira - Diretora de Cultura
João de Sousa Lima - Chefe da Divisão de Cultura


Créditos: Ivanildo Silveira.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Novo livro na praça

“A Misteriosa Vida de Lampião”

Maria Bonita e Lampião têm a história de amor em meio ao Cangaço contada no livro do historiador de Tabuleiro do Norte - CE Cicinato Ferreira Neto (Foto).

Lampião, desbravador das paragens da Caatinga sedenta, ou da paz alheia; se herói ou bandido, sorumbático ou o homem que amava as mulheres, se vítima ou vilão é, sem dúvida, mito.

O ano de 2008 arredondou marcos na vida do cangaceiro, como os 80 anos da passagem por Limoeiro, fugido de Mossoró, e os 70 anos de sua morte, narrativas cheias de controvérsias. Muitas vezes, não se escreve sobre Lampião: escolhe-se a versão que seja mais simpática e se tece a narrativa. Mas o historiador Cicinato Ferreira Neto, num trabalho histórico e jornalístico, reuniu todas as possíveis versões até agora e fez de “A Misteriosa Vida de Lampião”, um diário de pesquisador em torno da vida do “Rei do Cangaço”.

Assim rege o bom jornalismo: reunir versões, narrar os fatos, não se sentir dono da verdade e deixar que o leitor tire suas conclusões, ou, se não dá para concluir muita coisa sobre Lampião, que amadureça as suas impressões. “A Misteriosa Vida de Lampião” permite conhecer a trajetória do cangaceiro segundo versões de diferentes pesquisadores de variadas publicações. Mas é seu autor quem organiza a narrativa.

Sem fazer juízo de valor – somente de si, ao transmitir nas entrelinhas seu ar de incompletude frente ao mundo de informações sobre Virgulino Ferreira da Silva, Cicinato Ferreira Neto foi aguçando a curiosidade de criança, quando ouvia falar do cangaceiro.

Roteiro da pesquisa

Como bom peregrino do conhecimento, viajou pelos “territórios de Lampião”, lugares onde fez graça e desgraça, visitou museus, residências, universidades, cemitérios, e revisitou as impressões que tinha sobre o nordestino matador com pouco estudo, mas, supostamente, autor de frases curtas e grossas.

Mas quem foi Lampião, além de o destemido (opinião) e temido (fato) cangaceiro que escreveu na ponta da faca ou do cano de metralhadora parte da história do sertão nordestino de meados do século XX? Foi devoto de Padre Cícero, inimigo e aliado das forças instituídas, personagem vivo de crônicas jornalísticas? Ainda teve a morte anunciada, e como última imagem a foto de sua cabeça, sem corpo ou bandeja, posta no chão e exposta para que não restassem dúvidas sobre sua morte? Será?

“A Misteriosa Vida de Lampião” compõe-se de 18 capítulos, na prática, atos cronológicos. Dos primeiros anos de vida até a sua morte, não sem antes narrar muitos fatos da entrada do cangaço às perseguições dos volantes, a força policial instituída em combate ao poder paralelo de Virgulino.

Datas distintas

As controvérsias em torno do que é história ou especulação começam, literalmente, do começo, de quando nasceu o filho de José Ferreira e Maria Vieira da Soledade. “Nasceu no antigo município de Vila Bela, hoje Serra Talhada, Estado de Pernambuco, no período que vai de 1897 a 1900”, escreve. O período se justifica pela confusão entre as datas de nascimento: se 7 de julho de 1897, 4 de julho de 1898, 12 de agosto de 1897 (essa, a data do registro civil), junho de 1899, 12 de fevereiro de 1900 (segundo o próprio Lampião).

Quanto ao Cangaço, a confusão não é só entre datas, mas principalmente da motivação imediata para o ingresso em bandos. Sabe-se da rixa entre os Ferreira e os Alves de Barros, que até virou caso de polícia. O autor confronta fatos: o pai de Lampião, José Ferreira, foi morto por tropas policiais. Virgulino jurou vingança a Zé Saturnino e José Lucena, um oficial. Lampião, em bando, junta-se ao de Sinhô Pereira e dos Porcino. A morte do pai é considerada divisor de águas – e de desvio moral de Lampião. Mas questiona-se se é causa ou consequência, se foi antes ou depois do ingresso no Cangaço.

As 294 páginas de “A Misteriosa Vida de Lampião” somam-se às milhares já escritas sobre história, vida, morte e ressurreição (como mito) da figura do cangaceiro. Mas tem faro histórico e jornalístico. Conforme o autor, natural de Tabuleiro do Norte, não se trata de biografia nem de ensaio acadêmico, mas, sobretudo, de uma cronologia de Lampião.

O leitor curioso entende “o papel das forças perseguidoras, a relação dos cangaceiros com as mulheres, a medicina no Cangaço, a religiosidade, as alianças com os poderosos, os apelidos, os principais inimigos, entre outros temas curiosos”, convida Cicinato Ferreira Neto, em seu terceiro livro – os outros são “Estudos de História Jaguaribana” e “A Tragédia dos Mil Dias”. O prefácio é do professor doutor José Olivenor de Sousa Chaves, do curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (Fafidam), de Limoeiro do Norte.

Apesar da violência no Vale do Jaguaribe, por vezes lembrando o período do Cangaço, Lampião não deixou seguidores, mas, verdadeiramente, perseguidores de sua história. De mito a motivo para se conhecer as entranhas da formação socioeconômica e cultural do Nordeste do século XX.

APRENDIZADO
 "Separar a verdade da mentira constitui-se tarefa das mais difíceis no que tange a saga dos cangaceiros". Cicinato Ferreira Neto Autor do livro

SERVIÇO
"A misteriosa vida de Lampião"
Cicinato Ferreira Melo
Editora Premius
R$ 20,00
Contato: (88) 3424 - 2019

Fonte: Melquíades Júnior
Diário do Nordeste http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=603399.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Opiniões 2


Eu AMO e eu ODEIO esses monstros!


Ripei da comunidade Discussão Técnica um post da nossa internacional Andréa (Foto) que nos surpreende à cada dia com brilhantes definições. Tais palavras não poderiam ficar de fora da série OPINIÃO ou neste caso "FORMADORES DE OPINIÃO" que é bem mais adequado!

O comentário é à respeito da excelente postagem de Messier Ivanildo, que transcreveu a entrevista realizada por nosso conterrâneo o jornalista Joel Silveira no ano de 1944, com os cangaceiros (Volta Seca; Angelo Roque, Saracura, Cacheado, Deus-Te-Guie e Caracol ), quando todos eles se encontravam presos, na Penitenciaria de Salvador/BA, cumprindo pena. Visitem a comunidade e confiram o material.

"Fantástica a entrevista! Parabéns pelo "achado" caríssimo Ivanildo. Sabe quando se assiste a um filme ou ler um livro no qual o mocinho é um sujeito apático e logo o vilão rouba-lhe a cena e nos tornamos fãs do bandido? É assim que as vezes me sinto. As vezes viajo nas aventuras do CANGAÇO e penso que é uma ficção. Meu Deus! Por mais fantástico que pareça ser esse fenômeno, ele é real, ele existiu.Quantos mortos, quantos feridos, quantas lágrimas, quanto sangue meus "heróis bandidos" expandiram?
Eu AMO e eu ODEIO esses monstros!!! Adoraria ter feito essa entrevista. Adoraria ter conversado com esses homens. Que "santinhos" são eles! Sempre a mesma história: bandidos sim! Mas a causa é justa e, a causa é nobre - vingança pessoal.Certamente, se a entrevista ocorresse em outra ocasião (homens em liberdade) o desfecho da conversa seria outro. Naquelas condições não se poderia "rasgar o verbo". Insistiam a todo momento em uma anistia, falaram o que era conveniente. Entretanto, os relatos foram riquíssimos.
Gosto de saber o que disseram esses homens. Gosto de saber o que fizeram esses homens e, gosto mais ainda, da história desses homens.¨É década de 40... Um ataque realizado pelo Japão em Pearl Harbor marca a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Os estadunidenses explodem bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. Hitler comete suicídio com um tiro na cabeça e Mussolini é fuzilado... 1944 "eles" os cangaceiros só queriam liberdade.
Que simples parece ser!"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Influências

O retorno ao Regionalismo e a expressão identitária em Os Desvalidos, de Francisco Dantas


Eis aqui dois trechos da monografia defendida por nosso confrade o Professor Rubervânio Cruz Lima, (FOTO) ou melhor "Rubinho", em outubro passado na Universidade Estadual de Feira de Santana - BA para o curso de PÓS-GRADUAÇÃO DA ESPECIALIZAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS pense!!!.

Parabés amigo, obrigado por permitir o compartilhamento desta tese através de nosso espaço, é de grande utilidade para os pesquisadores ou mesmo acadêmicos de História que pretendem apresentar monografia envolvendo a influência do Cangaço em diversas vertentes culturais!


O presente texto, aparece como objeto que evidencia o caráter da expressividade do escritor Francisco J. C. Dantas, sergipano que em seu livro “Os Desvalidos”, nos dá uma vasta visão do caráter de temor que circundou muitos sertanejos no período do fenômeno do cangaço, trazendo um povo que se dividia entre maus tratos e humilhações de policia e bandido, na busca pela sobrevivência nos carrascais da caatinga, sendo atemorizados mesmo depois da morte de Lampião. Com uma narrativa carregada de sentimento e expressividade, o autor nos prende às situações dramáticas e nos conduz a um olhar para as mazelas da vida desses desvalidos, desfavorecidos, apontando o processo de fusão dos personagens em animais brutos, tais quais os bichos do mato ou dos currais, para nos mostrar a dolorosa vida do sertanejo.

Contudo, teremos que traçar um panorama nos precursores dessa temática para tentar apontar a atualidade dessa temática, como forma de mostrar que, assim como ainda se escreve sobre o cangaceirismo, sobre a seca, sobre os desfavorecidos, como era na escrita regionalista de 30, ainda persiste também a desigualdade social e regional. Intrínseco a isso, vem também o fato do Governo atual se utilizar dessa “industria da fome” como argumento para fins políticos e lucrativos, Como forma de firmar uma busca de identidade nacional e cultural, a temática regionalista ainda se mostra como uma das temáticas que acham lugar na literatura de hoje, já que retratar o sertão, o cangaço, a fome, a seca, é retratar algo que podemos considerar atual, de modo que essa identidade cultural encontra-se em processo de evolução, abraçada com a Literatura e Cultura Popular, que exercem o papel, hoje, de elementos que legitimam as expressões literárias do Nordeste.

Entretanto o quadro apresentado acima, também mostra uma outra realidade, a de que, embora esse método assistencialista, embora vicioso por não permitir que o contemplado possa sobreviver por conta própria, é, de fato, uma ajuda muito boa, principalmente para regiões em que a economia do lugar gire completamente em torno desses programas assistencialistas. Aí está uma complicada relação cultural. A temática regionalista, embora se diga que já se esgotou, ainda continua presente e figura uma construção de escrita que engloba os temas que retratam o sertão e a pobreza, como forma de refletirmos sobre o regionalismo, que é vigente e que reverbera ainda um assunto que não ficou para trás.

Essa escrita de afirmação tem, em seu bojo, um pouco do objetivo primordial dos que trataram do regionalismo, que é tentar concretizar uma literatura de identidade tipicamente brasileira, e precisamente nordestina, conforme pregou Antonio Candido e a exemplo do que fez Alencar, Távora, José Américo, Rachel de Queiroz, Lins do Rego, Graciliano, dentre outros. Outras vertentes que podemos citar, para agregarmos as produções atuais sobre a temática em foco, são as produções cinematográficas do chamado “árido movie”, que permeia dos anos 90 até agora, as manifestações artísticas, como o teatro, a música, a dança, enfim, poderíamos cita inúmeras representações do sertão sendo trazidas aos nossos dias, como algo que se reverbera e se ressignifica. Um exemplo disso, no cinema, são os filmes que tratam do cangaço ou da seca, ambientados em ambiente árido e desértico, retratando a caatinga, a escassez, como podemos citar “Baile Perfumado” de Paulo Caldas e Lírio Ferreira , que recria a trajetória do libanês Benjamin Abraão em busca de Lampião e seus cangaceiros para obter cenas do cotidiano do cangaço. O filme, que traz, em alguns trechos, imagens reais dos cangaceiros, extraídas da película de Benjamin, hoje transformada em documentário cujo título é “Memória do cangaço” e que resta apenas 15 minutos de cenas, consegue projetar o sertão e polemizar alguns fatos do cangaço, servindo de subsídio para o filme.

Outro exemplo, também do mesmo de 96, é o filme “Corisco e Dadá” , do cineasta Rosemberg Cariry, que também revigora o cangaceirismo, retratando a vida de um dos cangaceiros mais temidos de Lampião, O Diabo Loiro, como era conhecido Corisco e sua companheira Dadá. Ou mesmo filmes como “Central do Brasil” , “Guerra de Canudos” , “O Sertão das Memórias” , dentre outros que remontam o cenário do sertão e trazem, como pano de fundo, o Nordeste desvalido. Enfim, essa temática já foi até inspiração para enredo de escola de samba , no ano de 2002, como nos mostra a pesquisadora Iza Luciene Mendes Regis, em seu texto. Poderemos, diante dessa linha, realizar um rápido percurso na música, que também teve espaço, através de grupos de jovens, oriundos do Nordeste, novas mentes que buscam a ressignificar o cenário musical com elementos tradicionais misturados a novas tendências.

Dentre vasto número, poderíamos citar bandas como Mestre Ambrósio, Nação Zumbi, Mombojó, Mundo Livre s/a, Cascabulho, Lampirônicos, Cordel do Fogo Encantado, NaUrêa (Sergipe), Sheik Tosado, Querosene Jacaré, Uskarafobia (Paulo Afonso), que misturam rock com forró, coco, embolada, mangue beat, maracatu, xaxado, baião, desenvolvendo uma música regional cheia de expressividade e criatividade, com letras que retratam as diversas temáticas que circundam o sertão.

Para Barbalho, em seu artigo, ao falar da importância identitária midiática, diz que esse discurso ajuda a fixar a idéia de Nordeste . O autor de “Os Desvalidos”, nessa perspectiva, remete-nos, em sua escrita, à ótica desses desfavorecidos e desse cenário sertanejo múltiplo, nos colocando como espectadores que, no decorrer dos fatos, entram na história e presenciam acontecimentos, sentem as dores dos sofridos e nos posiciona em ângulos diversos, na sua ambientação do espaço em que as histórias se desenrolam. Dantas traz uma linguagem contundente e forte, acentuada pela rudez dos sertões, nas gentes e nos bichos, na terra seca e petrificada, na ausência de água, no sol escaldante, no cangaceirismo, coronelismo, fatores que circundam e circundaram o Nordeste de tempos em tempos.

Os desvalidos, como o título já adverte, são os fracassados, os sem valia, validade, os desamparados, em suma, os miseráveis. A carga negativa do título é também intensificada no decorrer da narrativa, quando o autor traz na figura de Coriolano um pobre coitado, que no percurso de sua vida, se deparou com desventuras e flagelos, aparecendo como um fracassado nato, tendo em sua vida uma sina, desprovido de sorte, humilhado, sem conseguir voltar para sua terra, mesmo depois que um dos que mais o amedrontava, Lampião, agora se findara, como vemos no início do livro. A narrativa nos coloca como testemunhas da história, numa evidência crua e real, trazendo a tona os problemas sociais e humanos mais intensos. Essa literatura realista revela aspectos contundentes, no âmbito da desumanização e do medo, representados na figura do personagem central, dando-nos um delineamento do perfil de um sertão injusto.

O cangaço, no período em que era um fator contundente, exerceu um caráter de amedrontamento nos sertões, de modo que os sertanejos se viam a mercê, tanto dos bandidos, quanto da polícia, que deveria trazer a justiça para os carrascais, no que sabemos, no âmbito da crueldade e depredações e roubos, se igualavam e muitas vezes superavam os cangaceiros. Os sertanejos viviam entre dois punhais: o dos cangaceiros, quando estes buscavam exercer a arte da pilhagem ou necessitavam de apoio nas fugas ou compra de mantimentos e o das volantes, que, ao saberem que em determinada região havia passado bandido, torturavam, humilhavam, saqueavam e até matavam culpados e inocentes na tentativa de descobrir paradeiro dos vilões. Em “Os desvalidos”, essa agonia vivenciada por Coriolano e pelos sertanejos é posta em destaque no decorrer da narrativa, quando o autor nos dá vários indícios dos temores sofridos por causa do fenômeno do cangaço.

Com essa perspectiva adentraremos nas particularidades da obra, apresentando um olhar na perícia do autor em retratar assuntos tão fortes, trazendo ao contexto atual um tema antigo, de modo a retratar o fenômeno do cangaço e as desventuras do sertanejo, como forma de evidenciar particularidades da cultura regional e os impasses sociais e culturais ainda presentes, apontando aspectos da busca do sertanejo pela purgação em vida de sua dura caminhada, fator que acompanha a trajetória dos desfavorecidos, ainda hoje pelo sertanejo mostrando a influencia em que o cangaceirismo e coronelismo exerceram nos sertanejos e as desventuras passadas pelas gentes das caatingas, as humilhações e sofrimentos, na tentativa de verem chegar o fim dessa expiação involuntária a qual estão sujeitos, da esperança em dias melhores do que a dura sina.

A IDENTIDADE DOS DESVALIDOS

Sendo, o romance, apresentado sob uma ótica interna, onde os conflitos e temores são evidenciados, há uma evidência nas mazelas sofridas por personagens do livro que sinalizam um sofrimento coletivo desses desvalidos, o que os apresenta, tanto na figura do personagem central, Coriolano, como nos secundários, Filipe, Maria Melona, Cantílio, Zerramo e Lampião, como vítimas de forças governamentais e sociais. Cada personagem, diante das tortuosas ações de opressão empregadas pelo contexto em que estão inseridos, se apresenta como síntese da miséria, da falta de recursos e do poderil dos coronéis, o que nos dá uma visão do que o autor deseja trazer à tona na sua escrita, que é a apreensão de questões como a errância, a condição dos desfavorecidos diante dos que política e economicamente detêm o poder, a migração, o coronelismo opressor e o cangaço.

Aparecem algumas cenas em que os desvalidos se unem na busca pela sobrevivência, como uma forma de vencerem ou se livrarem de conflitos, tais como limitações, medos, oscilações entre o partir e o ficar, desacertos, implicações de mudança de condição social, humilhações e estado de miséria, aos quais se deparam esses desfavorecidos. Para percebermos essa identidade atribuída aos degenerados pela sociedade, nesse ambiente que já é, por si só, excludente, por se tratar de um território escasso, vejamos quando o autor nos tece o quadro da miséria, compartilhada pelos personagens, o que os coloca como semelhantes na mesma condição de desconforto e carência, como cúmplices da mesma sina.

Vejamos a cena em que se encontram Coriolano e Cantílio, para percebermos a identidade desses desvalidos colocada em evidência.

“Coriolano se deixara comover, de tão declarada que fora aquela aflição deste se irmão de miséria, que agora o põe mortificado entre a magrém encardida e pelancuda, as mãos tremidas e embaraçadas do mesmo jeito das suas, os olhos cozinhados, como a se irem daqui, recusados deste mundo, e trabalhando apenas pelo tato.”

Nessa afirmação de identidade, posta pelo autor, a figura do cangaceiro Lampião também como desvalido, o que nos leva a estabelecer um paralelo entre a imagem de Lampião, chefe do bando de cangaceiros que percorreu pelos sertões assolando e cometendo atrocidades em revés do Governo, com a de Coriolano, protagonista da história. Entre estes dois personagens, aparentemente tão díspares, são na essência muito semelhantes, de modo que ambos são vistos como desvalidos, vítimas de um destino que pune-os, como rejeitados e frutos de uma justiça falha, proveniente da desorganização de poderes que impregna os sertões.

Apresentando maneiras opostas de se responder a essa discriminação, os desvalidos enfrentam-se, como podemos ver, no romance, quando Lampião, que seguem o caminho do banditismo e da violência, chocam-se contra Coriolano, Filipe e Zerramo, que por sua vez, tentam sobreviver nesse ambiente através da honestidade, embora todos sejam fruto de reprovação da sociedade. Para percebermos o aspecto da linguagem, repleta de aparatos lingüísticos e expressões culturais que remontam o falar dos sertanejos, vejamos o trecho inicial do livro, como forma de identificarmos essa característica regionalista, visível em toda obra de Dantas.

- Lampiãããão morreeeeu!...Apanhado de susto,

no papoco da notícia que acaba de atroar,

Coriolano estremece do coração em rebates pegando a boca de peito.

Freme-lhe o couro, esbarra a costura da chinela

e apura as ouças de faro aguçado,

espichando o pescoço pra fora da cacunda.

Será, meu Pai do Céu, que Herodes,

enfim, desencarnou?

Não, não pode ser! Na certa isto é capricho da idade!

É o tal zumbido que se arranchou nos miolos,

fazendo desta cabeça uma casa de mangangá, a ponto de me rodar o juízo desmareado, que bemcarece umas cunhas pra não ficar assim tão bambeadeiro.

As rememorações de Coriolano são reverberações de uma inconstância causada pelas marcas deixadas no personagem, pelas mazelas da vida. A constante incapacidade de retornar à sua terra é um reflexo da mágoa e do temor, reflexos da humilhação a que sofreu ao encontrar-se com a figura terrível de Lampião, que o aprisionam em um estado paralisante. O personagem central, no decorrer da história, luta contra o temor de regressar a sua terra, de modo que isso é expresso em diversas falas desse personagem ou na do narrador, que chega, em determinados trechos a se comover com a situação do pobre Coriolano.

Vejamos um exemplo desse temor ao regresso e as incertezas dessa ida.Apesar de hesitante entre isso e aquilo, desde que chegou aqui Coriolano se prepara em vão e em segredo, com um pé já na estrada. E depois da morte de Virgulino, então, é que encasquetou de vez, gastando o tempo todo a arranjar e desfazer os seus preparativos. É certo que treme de pavor com medo de que essa ida vire certeza, mas se aleita dessa probabilidade e dela não arreda o pé, embala-a no juízo, dorme e acorda enredado em deleites de impressionado, de tal forma que, não cabendo em si mesmo, se transborda a comunicar aos conhecidos os pormenores de sua viagem sem dia marcado, e cuida de todos os aprestos, minudentemente, com uma obsessão de viciado. (Dantas. 1996, p. 53 e 54)

A exemplo dos atos de Lampião, como bandido que assolava o sertão e cometia diversas atrocidades, o autor expressa, nos personagens, o temor que muitos sertanejos presenciaram, pelo fato de os cangaceiros representarem, junto com a polícia, daquela época, duas cruéis vilãs, e isso é retratado em “Os Desvalidos”, na segunda parte, no primeiro capítulo. Vejamos um trecho do livro, quando o narrador fala sobre os atos violentos dos bandidos e das volantes e o sofrimento dos sertanejos, nas mãos de um e de outro.

O bando de Lampião e a volante do governo agora deram pra esta zona do Aribé. Enquanto se perseguem e se chacinam em porfiadas e sangrentas brigas, vão também esfolando a região, a saque, morte e desonra, metendo o pau na pobreza desvalida. Furam olhos, arrancam unhas, decepam os quibas e a metade da língua. A muque, arrebanhado, sofre o pacato paisano, torturado na mão de um e de outro para falar o que não sabe, e pelo silêncio punido como espião e coiteiro do inimigo. (Dantas. 1996, p.125)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Estréia

Opinião do Leitor

Voltando depois de um exagerado recesso vamos iniciar uma nova série no Blog apresentando leitores e companheiros de pesquisa.


Neste primeiro ato: Clenaldo Santos (Foto). Este sertanejo lá de Cícero Dantas - BA, foi um dos braços fortes que construiram a Usína de Xingó. Hoje residindo na capital sergipana, teve a casa transformada em um endereço confiável e hospitaleiro para consultas sobre Luiz Gonzaga entre outros representantes da música nordestina, Delmiro Golveia, Conselheiro e principalmente Lampião.

Avia Macho... 
Observando atentamente sobre o cangaço, e as opiniões sobre Lampião concluo: Lampião foi e será o único e maior representante do cangaceirismo no nordeste brasileiro, " O rei dos sertões".
Perseguido durante vinte anos nunca deixou se aprisionar por seus inimigos e foi perseguido por forças políciais de sete estados.Lampião matava para viver, depois de chefe nunca obedeceu ordens que colocassem em cheque sua autoridade, lutava por sua liberdade e foi o maior em todas as suas façanhas, por isso merece o respeito de todos pelas sua estratégia de guerra contra os seus opressores.
Era acatado por seus comandados ao pé da letra, temidos coronéis também se curvavam diante de sua presença. Vejo a neta Vera Ferreira com total respaldo para opinar e escrever pois buscou a verdade e tenta resguadar à qualquer custo tudo que se refere à Lampião, afinal, ela está preservando com maestria a história de seus avós, corre atrás guerreira, esta saga é mais sua que de qualquer outro.
O meu respeito e minha admiração também para o Potiguar Sérgio Augusto de Souza Dantas o qual pude conhecer seu estudo através de seu último livro Lampião Entre a espada a Lei, e enfim minha torcida para que surjam outros bravos pesquisadores escritores como Alcino Alves e Antonio Correia Sobrinho, e por que não tantos e tantos meros curiosos pois é desses esforços que o Cangaço sobrevive com força!