Memórias Sangradas, vida e morte nos tempos do cangaço
Resenha de Rudah Ribeiro
Ricardo Beliel lançou o livro Memórias Sangradas, vida e morte nos tempos do cangaço. Um lindo trabalho de mais de 14 anos, com 125 fotografias e no texto depoimentos diversos e a experiência pessoal do autor em busca de seus personagens em seus próprios ambientes originais são apresentados através de uma narrativa como um diário de viagem.
Foram realizadas nove viagens no período de 2007 a 2019 nas regiões dos sertões de Alagoas, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, São Paulo e Minas Gerais para a coleta de materiais narrativos e imagéticos de míticos cangaceiros, coiteiros e volantes e alguns de seus descendentes.
Onze mil quilômetros foram percorridos, em grande parte em precárias estradas do interior sertanejo, resultando no encontro com quarenta e três personagens. São eles que guardam relatos importantes relacionados à história do cangaço - ocorridos na primeira metade do século XX - em quarenta e nove localidades – palco de lutas, amizades, emboscadas, amores e massacres entre cangaceiros, volantes, jagunços, coronéis e camponeses; um mundo sertanejo que está se extinguindo nas suas tradições orais.
Em cada personagem testemunha-se esse fluxo da memória e do esquecimento, onde os encontros nas pesquisas de campo revelaram uma potente e épica narrativa das memórias pessoais que envolvem tradições e lugares.
Os personagens entrevistados, em sua grande maioria pessoas quase centenárias, possuem uma riqueza assemelhada ao mistério da terra. Personagens de um ciclo da história do Brasil que aqui resgatamos para que não fiquem no esquecimento, como pedras silenciosas no meio do caminho.
Primeiro livro sobre a hecatombe de Garanhuns será reeditado 100 anos depois
Por Junior Almeida
Prestes
a completar 105 anos, em janeiro próximo, a trágica chacina que colocou a Suíça
Pernambucana nas páginas dos jornais de todo país, e que ficou conhecida como a
Hecatombe de Garanhuns, ganha agora
mais um reforço em sua funesta, porém, importantíssima eintrigante história.
Acontece
que depois dos livros de Mário Márcio e de Alfredo Cavalcante, de 1962, em que o
episódio é discorrido e, até então se achava que fossem os pioneiros do tema,
eis que “surgiu” agora um livreiro cearense com a primeira obra sobre a Hecatombe de Garanhuns. Trata-se de O Sertão, a Política e os Cangaceiros, de
um autor que se identifica como G. Pinto,
livro esse, editado no Rio de Janeiro, em 1921, portanto, exatos 100 anos atrás.
A
obra rara foi comprada em um site de leilões, por uma quantia não revelada, mas,
segundo o referido livreiro, a obra lhe custou um valor considerável. Ele nos revelou
também que “o livro vai ser reeditado, que já está sendo digitado, mantendo a linguagem
da época e, que em seguida vai ser diagramado e impresso”.
A obra,
a qual tivemos acesso, é romanceada e, nomes foram trocados, como por exemplo, o
de Júlio Brasileiro, que no livro é “Julião”, o que é totalmente compreensível,tendo em vista que o livro foi publicado apenas
quatro anos depois do sangrento episódio e, escrito, muitoprovavelmente, antes de 1921, quase em tempo real
aos fatos da cadeia pública de Garanhuns, então, nada mais natural que a prudência.
Professor
Cláudio Gonçalves, autor de dois livros
sobre o episódio, dentre eles A Cobertura
Jornalística da Hecatombe de Garanhuns de 1917, de 2017, obra mais completa
sobre o tema, foi procurado pelo dono da preciosidade literária e histórica e,
foi convidado por ele para prefaciar a reedição do livro. Cláudio, que já leu a
raridade, disse que “mesmo o livro tendo os nomes dos seus personagens mudados,
quem conhece a história, sabe perfeitamente quem é quem no triste enredo”.
A obra nos traz visões diferentes
de determinados personagens e fatos que só quem acompanhou de perto a tragédia poderia
saber. Achamos que “G. Pinto” é um pseudônimo usado por alguém que quis se proteger,
mas ainda precisamos ter certeza disso. Complementou Professor Cláudio.
O livro,
que depois de reeditado vai ser lançado em Garanhuns, em data e local ainda não
definidos, pode contribuir, e muito, com os historiadores que buscam compreender
melhor todo contexto que desencadearam os tristes fatos de janeiro de 1917. Vamos
aguardar.
O ataque de Lampião e seu bando de cangaceiros a Fazenda Morada Nova, Pau dos Ferros, RN
Por Rostand Medeiros
No ano de 2010 soube do desenvolvimento do “Projeto Território Sertão
do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às
Pequenas e Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte –
SEBRAE/RN, do qual a gestora era a competente consultora Kátia Lopes.
Fui ao seu encontro soube que Kátia planejava criar um grupo para
percorrer o mesmo caminho palmilhado por Lampião e seus cangaceiros,
como parte de um amplo reconhecimento histórico. Ali estava uma
oportunidade imperdível de conhecer esse caminho e o que restava de sua
memória.
Foi realmente um momento muito especial e um trabalho maravilhoso.
Depois de 2010 eu tive a oportunidade de percorrer esse caminho em mais
outras quatro ocasiões. As duas primeiras oportunidades, em 2012 e 2014,
foram com pessoas que me contrataram para conhecer trechos no Rio
Grande do Norte, com foco nas áreas da Serra de Martins e de Mossoró. Já
em 2015 estive percorrendo esse antigo caminho dos cangaceiros durante
dezessete dias.
Desta vez partindo da cidade cearense de Aurora, adentrando depois em
território paraibano, percorrendo na sequência todo trecho potiguar e
encerrando na cidade cearense de Limoeiro do Norte. O objetivo da
jornada de 2015 foi à realização da película Chapéu Estrelado, um
documentário de longa metragem da Locomotiva Produções Cinematográficas,
do Rio de Janeiro, sendo dirigido pelo mineiro Silvio Coutinho, com
roteiro de Iaperi Araújo e produção de Valério Andrade e o autor desse
texto, esses últimos potiguares. Apesar de filmado com esmero em sistema
4K, com interessantes depoimentos, esse documentário nunca esteve no
circuito de festivais e, afora algumas exibições em rede nacional
através da TV Brasil, ele foi pouco visto pelo grande público. A razão
principal foi o falecimento precoce do diretor Sílvio Coutinho, ocorrido
no ano de 2018, em decorrência de um ataque cardíaco fulminante,
ocorrido no Rio de Janeiro.
Trajeto
dos cangaceiros em 1927, em um mapa do Exército Brasileiro, em escada
de 1:100.00, com as propriedades invadidas marcadas. Existe um erro no
mapa, pois um dos locais atacados foi denominado como “Carícia”, quando o
certo é “Caricé”.
A última oportunidade se deu em 2017, quando uma grande parte do
trajeto com o artista plástico e fotógrafo Sérgio Azol. Potiguar de
nascimento, mas radicado há muitos anos na capital paulista, Azol me
chamou para percorremos esse caminho visando o desenvolvimento de uma
exposição fotográfica a ser realizada em São Paulo. Ele clicou as
paisagens, as vivendas e as pessoas de forma magistral. Aquela era a
segunda oportunidade que percorria o sertão nordestino com Sérgio Azol,
tendo tido oportunidade em 2016 de visitar importantes locais ligados a
história do Cangaço na Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
Essa memória se inicia em um sábado, dia 11 de junho de 1927, o segundo dia de Lampião e seus cangaceiros em solo potiguar.
Antiga casa do Sítio Cascavel, zona rural de Pilões – Foto – Rostand Medeiros
Em meio a um grande lajedo ao norte da atual cidade potiguar de
Marcelino Vieira, os cangaceiros vão acordando e se preparando para
seguir a sua jornada em direção a Mossoró. Após acordarem parte em
direção aos Sítios Cascavel e São Bento, cujas terras em dias atuais são
parte do município potiguar de Pilões. Depois atacam os Sítios Poço
Verde, Poço de Pedra e a Fazenda Caricé, do prestigiado pecuarista
Marcelino Vieira da Costa. Sobre o assalto ao Caricé vejam esse texto
que escrevi, onde trago alguns detalhes do episódio – https://tokdehistoria.com.br/2019/02/10/marcos-de-religiosidade-no-caminho-de-lampiao-no-rio-grande-do-norte/
Punhal de um cangaceiro deixado no Sítio Poço de Pedra, zona rural de Pilões-RN – Foto – Rostand Medeiros
A partir da velha Fazenda Caricé, mesmo a distância, já é possível
visualizar o grande maciço rochoso que formam as Serras de Martins e de
Portalegre, onde se encontram alguns dos pontos de maior altitude do Rio
Grande do Norte, com locais que ultrapassam os 800 metros. Essas duas
grandes elevações se interpunham diante daqueles viajantes que seguiam
em direção a Mossoró vindos do extremo oeste da Paraíba. Para os
cangaceiros continuarem em busca do seu alvo principal, vários caminhos
se colocavam a disposição. O matreiro Lampião, certamente secundado por
Massilon, o mais experiente de todos aqueles bandoleiros em relação aos
caminhos potiguares, perceberam que teriam de optar por um desses
caminhos.
O primeiro trajeto poderia ser: subir a Serra de Martins, passar pela
cidade homônima e descer do outro lado da elevação. Bastava seguir pelo
antigo caminho que ligava essa cidade até a Vila de Alexandria. Segundo
as pessoas da região, partes do antigo trecho dessa estrada ainda
existem, fazendo parte da atual rodovia estadual RN-075.
Aspecto dos caminhos dessa região– Foto – Rostand Medeiros.
O segundo caminho, caso o grupo desejasse seguir em direção a Mossoró
sem passar pela cidade de Martins, poderia ser feito do seguinte modo:
cavalgar até a extremidade oeste do grande maciço rochoso. Nesse caso,
os cangaceiros fatalmente chegariam próximo de Pau dos Ferros. Então,
depois de passar ao lado da serra, eles percorreriam a antiga estrada
que seguia pela cidade de Apodi e, depois de vários quilômetros,
chegariam a Mossoró.
Teoricamente, esses dois caminhos não trariam maiores problemas para
um viajante comum. Entretanto, aquele estranho grupo de homens armados
poderia ser classificado de tudo, menos de “viajantes comuns”.
Desde a saída do bando no Ceará, os celerados deixaram de lado a
discrição, passando para a prática aberta de toda sorte de delitos,
chamando a atenção das autoridades potiguares. Inclusive, essas
autoridades já tinham entrado em contato e combatido o grupo na Caiçara.
Mesmo com a derrota da polícia estadual naquele entrevero, Lampião
sabia que a qualquer momento as forças do governo potiguar poderiam dar o
devido revide. Se decidissem subir a serra, poderiam facilmente
esbarrar em um piquete de homens armados, já previamente alertados. Como
o bando tinha poucos recursos humanos e bélicos para realizar combates
contínuos, esse possível confronto poderia infringir sérios problemas
aos cangaceiros na tentativa de galgar a grande serra.
Rostand Medeiros diante da capela da Fazenda Caricé, zona rural de Marcelino Vieira – RN em 2015 – Foto – Silvio Coutinho.
Se o bando seguisse próximo da cidade de Pau dos Ferros, a maior e a
mais policiada da região, para depois trotarem em direção a Apodi (uma
cidade invadida por Massilon apenas um mês antes), fatalmente homens
armados poderiam estar aguardando o grupo em um desses locais, ou nos
dois. Aí os resultados desses novos tiroteios poderiam ser extremamente
negativos. Deve-se levar em consideração que, além da polícia potiguar,
Lampião se preocupava igualmente com a polícia de outros estados no seu
encalço, principalmente a paraibana.
Lampião na Fazenda Morada Nova
Havia outra alternativa: era possível contornar o grande maciço
através da extremidade mais a leste dessas elevações, passando por um
caminho que os levariam para a Vila de Boa Esperança, atual município de
Antônio Martins.
O grupo de bandoleiros então se afastaria de áreas onde
presumivelmente haveria mais atividade policial, poderiam então alcançar
zonas teoricamente mais desprotegidas e possivelmente ainda não
alertadas da presença deles na região. Esse caminho se mostrava mais
promissor!
Casa da Fazenda Morada Nova, zona rural de Pau dos Ferros – RN – Foto – Rostand Medeiros.
Contudo, aparentemente, essa decisão não deve ter ocorrido antes ou
durante a passagem pela Fazenda Caricé, pois, logo depois da saída da
propriedade do fazendeiro Marcelino Vieira, os cangaceiros seguiram
primeiramente na direção sudoeste, apontando para a cidade de Pau dos
Ferros. Após rápida cavalgada, surgiu o próximo alvo daquela jornada
insana – A Fazenda Morada Nova.
Quando visitei essa propriedade pela primeira vez em 2010, ali
encontrei a senhora Firmina Aquino de Oliveira, então com 95 anos de
idade, e sua nora Maria Ivaneide de Aquino. Ivaneide era neta de Antônio
Januário de Aquino, antigo dono do lugar, que teve a difícil missão de
receber Lampião em 11 de junho de 1927.
Lampião
Elas me informaram que não tinham conhecimento se o parente já
falecido possuía laços de amizade, ou de inimizade, com o cangaceiro
Massilon. Igualmente não souberam comentar se a chegada do bando se deu a
uma indicação desse celerado, ou se a casa dos seus antepassados foi
atacada simplesmente por ter sido um alvo que surgiu à frente do grupo.
Entretanto, essas senhoras relataram que antes do bando chegar à casa
de Aquino, que não mais existia em 2010, eles arrombaram uma residência
onde vivia um trabalhador da propriedade, que juntamente com sua
família fugiu para o mato. Logo os bandidos pararam diante da casa
grande da Fazenda Morada Nova.
Além do proprietário, na casa estavam sua mulher Raimunda Nonato de
Aquino, seu filho Cosme e suas três belas e jovens filhas, Raimunda,
Arcanja e Maria. Segundo Sérgio Augusto de Souza Dantas (Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada,
1ª edição, págs. 119 e 120), foi exigido alimentos e dinheiro ao dono
da Fazenda. Antônio Aquino era um produtor próspero, sendo apontado
inclusive como dono de um engenho de açúcar e aguardente.
Diante da beleza das moças, alguns cangaceiros logo se mostraram
interessados nas meninas. Sérgio Dantas relatou que Aquino pediu
proteção a Lampião, que prontamente refreou os ânimos da cabroeira e o
próprio chefe chegou a pedir desculpas ao pai das jovens pela falta
cometida pelos seus homens. Após varejarem toda a casa e retirarem o que
os interessava, a malta de bandidos seguiu viagem.
A Foto
As senhoras Firmina e Maria Ivaneide comentaram que a passagem do
bando causou extrema comoção entre os membros da família Aquino.
Todavia, Antônio Januário se sentiu até mesmo com “sorte”, pois, apesar
de ter havido perda material com o saque praticado, o fato das suas
filhas não haverem sofrido qualquer tipo de violência, principalmente
sexual, foi considerado um resultado extremamente fortuito diante da
extrema gravidade do problema.
No dia 11 de novembro de 1928, um domingo, quase um ano e meio depois
da passagem dos cangaceiros, Antônio Januário reuniu sua família em um
estúdio fotográfico de Pau dos Ferros para a realização de um
interessante instantâneo. Essa fotografia, que trago com exclusividade e
conseguida a partir do material original, possui no verso a seguinte
frase “Uma pequena lembrança que ficará para sempre”.
Bando de Lampião, após o ataque a cidade de Mossoró em 1927.
Nela é possível ver Antônio e sua esposa Raimunda sentados em um
pequeno sofá de madeira e vime, em uma posse de tranquilo comando de
suas vidas e de sua prole familiar, que se encontravam todos presentes.
De pé, logo atrás do móvel é possível ver Cosme, tendo a sua direita
suas irmãs Maria e Arcanja e ao seu lado esquerdo Raimunda. Essa última e
Arcanja trazem dois objetos que escaparam das mãos dos cangaceiros –
são dois belos crucifixos com corrente e pedras.
Depois de observar milhares de fotos antigas, ao longo de vários anos
de pesquisas, posso comentar que, a exceção de Dona Firmina, todos os
outros participantes do instantâneo se vestem com roupas modernas para
os padrões sertanejos do interior potiguar da década de 1920. Inclusive
suas filhas, onde é possível ver Maria e Arcanja utilizando saias acima
do joelho, apesar de estarem com meias. Antônio e Cosme igualmente
seguem um padrão de vestimenta masculina bem moderna para a época. Ao
olhar detidamente essa foto, vejo o registro de uma família que
aparentemente superou o susto causado pelo bando de Lampião.
Violeiros Cantam a História do Assalto
A senhora Ivaneide me comentou em 2010 que nessa propriedade era
comum a apresentação de cantadores de viola afamados da região e até de
outros estados. Mesmo com o crescimento das bandas de forró eletrônicas,
da televisão e outros meios de entretenimento, na época essas cantorias
de viola possuíam público cativo na comunidade.
Casa
da Fazenda Morada Nova em 2010. Reparem os bancos feitos de troncos de
carnaúba, utilizados para a comunidade assistir duelo de cantadores de
viola. Ao fundo o maçiço da Serra de Martins – Foto – Rostand Medeiros.
Ela narrou que era praxe as pessoas do lugar transmitirem para os
violeiros visitantes os acontecimentos testemunhados pela família Aquino
em 1927 e o que eles sabiam do ataque do grupo de cangaceiros a
Mossoró. Com isso, solicitava-se que esses artistas transformassem as
histórias ouvidas em uma cantoria tipicamente nordestina.
Já as estradas existentes entre as propriedades Caricé e a Fazenda
Morada Nova foram sem nenhuma dúvida o pior trecho percorrido para a
realização deste trabalho. As maiores dificuldades se encontravam na já
rotineira falta de sinalização, mas principalmente no péssimo estado de
conservação desses caminhos.
A Fazenda Morada Nova está localizada em um ponto extremamente
afastado de áreas urbanas. A cidade de Pau dos Ferros fica a cerca de 24
quilômetros de distância, já a zona urbana de Pilões se encontra a 16
quilômetros e a cidade de Antônio Martins a 19. Entretanto, o melhor
acesso utilizado é a partir de Antônio Martins, onde o motorista
percorre oito quilômetros de asfalto da rodovia federal BR-226 e depois
segue por mais 11 quilômetros de estradas vicinais. Contudo, nesse caso,
existe a imprescindível necessidade de contar com a ajuda de uma pessoa
da região que conheça o trajeto. Nesse caso eu contei com o apoio do
amigo Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins.
Junto a Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins, na Fazenda Morada Nova.
Atualmente, Pau dos Ferros é a principal cidade da Região do Alto
Oeste Potiguar, com uma população acima de 30.000 habitantes, estando a
389 quilômetros de distância de Natal, ocupando uma área de
aproximadamente 260 km² e possuindo uma história bem antiga.
Acredita-se que a toponímia Pau dos Ferros foi criada a partir de uma
determinada árvore. Essa árvore certamente devia ser um excelente local
para repouso e com ótima sombra, onde vaqueiros viajantes, utilizando
ferro em brasa, deixavam marcado no seu tronco as marcas do gado sob sua
responsabilidade. Em uma época onde as fazendas não tinham arames
farpados e o gado era criado solto, essa prática serviu para esses
trabalhadores conhecerem as marcas de outras propriedades. Isso tornava
mais fácil a identificação dos animais perdidos nos pastos e a
realização de troca das reses encontradas. Não é difícil imaginar como
essa árvore ficou bem conhecida na região. Logo ao seu redor se fixaram
pessoas e isso deu início a uma pequena comunidade. Já sobre a questão
da posse da terra, consta que no ano de 1733, por ocasião da morte do
Coronel Antônio da Rocha Pita, foi doada a sesmaria de Pau dos Ferros a
seus filhos e herdeiros. Um deles, Francisco Marçal, foi a pessoa que
mobilizou os que ali viviam para erguer uma capela em 1738. Somente
através da Resolução Provincial nº 344, de 4 de setembro de 1856, Pau
dos Ferros tornou-se um município, sendo desmembrada da cidade serrana
de Portalegre.
Foto – Rostand Medeiros.
Na trajetória do bando em direção a Mossoró, ao se aproximar dos
contrafortes da Serra de Martins, o caminho percorrido por Lampião
passou onde atualmente estão localizadas as áreas territoriais das
cidades de Serrinha dos Pintos, Antônio Martins, Frutuoso Gomes,
Lucrécia e Umarizal.
Entre rezas e bacamartes, novo livro de Valdir Nogueira
O CEHM comunicou a publicação do já
esperado livro de seu associado Valdir Nogueira, cujo título: Entre rezas e bacamartes, possui prefácio do historiador e membro da Academia
Pernambucana de Letras Frederico Pernambucano de Mello, e integra a
Coleção Tempo Municipal do referido Centro de Estudos de História
Municipal – CEHM/Agência Condepe/Fidem.
A obra traz um recorte sobre a atuação do Monsenhor Afonso Pequeno e a
tradicional desavença entre as famílias Pereira e Carvalho sob a ótica
da alternância de poder na lendária região do Pajeú do sertão
pernambucano. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do
bacamarte, essas duas famílias espargiram sangue em ódios feudais, numa
luta que esbarrou num famigerado banditismo.
O polêmico Monsenhor Afonso Pequeno, pároco das freguesias de Vila Bela e Belmonte em princípios do século passado.
Sobre o livro de Valdir Nogueira comentou o professor Yony Sampaio,
professor da Universidade Federal de Pernambuco e Consultor do Banco
Mundial:
“Muitos livros tem tratado da lendária briga entre os Pereira e os
Carvalho. De modo geral exploram os confrontos armados, as sucessivas
emboscadas e ataques, culminando com o período de Sebastião Pereira e
Luís Padre. Este fantástico relato de Valdir Nogueira, Entre Rezas e
Bacamartes, no entanto, é o primeiro a analisar em detalhe as intrigas
politicas, a alternância de poder local, que vem a se constituir no
cenário onde a questão se desenvolve.
Geograficamente, amplia o centro da questão para os municípios de
Belmonte e Vila Bela, de onde se irradia pelo Pajeú e pelo sul do Ceará,
relacionando movimentos do Cariri a incidentes no Pajeú. Indo aos
fundamentos da questão, antepõe o Monsenhor Afonso Pequeno ao coronel
Antônio Andrelino Pereira da Silva, filho do Barão do Pajeú.
Na vila de Belmonte se estendeu o conflito entre as duas tradicionais famílias do Pajeú.
De um lado, um padre guerreiro, politico, mas defensor da religião, a
exemplo de muitos, como o Monsenhor Arruda Câmara, na revolução de
trinta. De outro, um coronel tentando manter a estatura e autoridade do
pai, porém sem possuir as mesmas qualidades de sobriedade e equilíbrio.
Os novos perfis que traça, revelam faces escondidas da questão. Para
iluminar tantas questões, Valdir divulga correspondências inéditas,
comunicações em jornais da época, e corrige interpretações equivocadas. O
livro de Valdir já nasce um clássico, essencial para melhor
entendimento da história e da formação social daquele sertão.
A antiga Vila Vila Bela, cenário da luta de Carvalho e Pereira.
O autor nasceu e foi criado em Belmonte e já nos brindou com um belo
livro sobre São José do Belmonte. Conhece quase cada palmo de terra,
discorre sobre as fazendas, locais de emboscada e convive com
descendentes das famílias envolvidas, hoje bastante entrelaçadas, como
sempre ocorre na sociedade sertaneja. Assim, possui a autoridade
necessária para tal empreitada. Simples, de fala mansa, em outras épocas
poderia ter tomado o bacamarte e entrado catinga adentro. Porém tem
sido mais afeito aos estudos e ao conhecimento e preservação do passado
da região. Excelente pesquisador, minucioso, reverencia nosso passado e
tem sido o esteio da hoje famosa cavalhada do Belmonte que homenageia e
relembra os incidentes da Pedra Bonita, então Serra Talhada e hoje
Belmonte, que incendiou a imaginação de Ariano Suassuna no Romance da
Pedra do Reino.
Ao leitor, tenho certeza que embarca em aventura prazerosa e
educativa. Do autor, espero que continue a perscrutar nosso passado e
revelar aspectos pouco conhecidos da nossa formação histórica e social”.
Virgulino Ferreira da Silva continua a dividir opiniões. Para alguns, Lampião continua sendo nosso Capitão, representante do povo nordestino, contestador de agruras impostas aos sertanejos desta parte de cá. Outros, investem na afirmação de que seria Lampião o assassino sanguinário a promover desordem por onde passou. Diversas narrativas tratam de enaltecer e/ou demonizar a imagem do esposo de Maria Bonita e de seu bando. Por onde o bando de Lampião passava, fazia a terra e homens tremerem, alguns sorriam!
Gravuras da capa e contracapa é de Leonardo Alencar.
Entendo ser necessária uma abordagem menos tendenciosa, mais despossuída de amores e desamores. Afirmar que Lampião e seu bando eram uns santos aureolados é tão duvidoso, questionável, risível quanto afirmar que, por exemplo, os coronéis e seus bandos possuíam as áureas dos anjos em todas as suas ações. O que quero chamar atenção é para o tendencioso construir de algumas histórias. Ao mesmo tempo em que se criminaliza Lampião, por suas ações bélicas, diz-se que coronéis são heróis por iniciativas do mesmo gênero, recheados ou não de maior potencial sanguinolento, conforme o contar dos próprios julgadores ou chefes de torcidas.
Fico a imaginar, que talvez queiram afirmar serem as lâminas e as armas de fogo de Lampião emprestadas pelo diabo, já as de alguns coronéis seriam abençoadas, representantes de cruzadas sertanejas, ungidas por Cristo. Prefiro olhar o Capitão Virgulino como alguém, que resolveu seguir o caminho das armas, quase como um Robin Hood, ora a enfrentar o estado, ora a cumprir missões desse próprio poder estatal contra desafetos políticos. É razoável o questionamento sobre os porquês da criminalização de Virgulino, esquecendo de adotar ao menos critérios parecidos para interpretar ações coronelísticas? Com isso, não afirmo que este ou aquele coronel é ou foi um criminoso, só peço mais reflexões! Entretanto, resguardo-me e não me arrisco a emitir mais opiniões por ainda não ter adentrado o suficiente na vasta bibliografia sobre estes líderes do sertão.
O jornalista e escritor GILFRANCISCO
Agora, surge mais uma oportunidade para leituras a respeito de Virgulino Ferreira. O livro “Lampião no Diário Oficial” foi construído graças à teimosia do baiano-sergipano GILFRANCISCO. Desobediente, o pesquisador adentrava o arquivo da imprensa oficial de Sergipe, ao invés de ficar quieto, esperando as horas passarem, conforme orientações de seu chefe. O livro seria publicado desde 2010, quando recebeu do artista plástico Leonardo Alencar a gravura para a capa e contracapa.
Vindas do Diário Oficial de Sergipe ou de qualquer outro estado, as notícias sobre o cangaceiro são oficiais, nem sempre mentirosas e/ou verdadeiras.
Vamos às leituras miradas aos diversos lugares de fala. Viva o sertão!
Para adquirir:gilfrancisco.santos@gmail.com ou (79) 99115-1758 / 998812-7542
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[*] É escritor, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e professor da UNEB.
Chapéu Estrelado - Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar
Ano: 1927. Lampião, aliado ao jagunço potiguar Massilon Benevides e ao poderoso Coronel cearense Isaías Arruda, tramam a invasão da rica cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Este documentário reúne depoimentos de pessoas que conviveram diretamente com Lampião, algumas na casa dos cem anos, e dos descendentes das vítimas dessa campanha do cangaceiro, além de revisitar em 13 dias, 16 cidades que estão nessa jornada, que começou no Ceará, depois Paraíba e finalmente o Rio Grande do Norte.
Um filme de Silvio Coutinho com produção de Valério Marinho de Andrade, roteiro de Rostand Medeiros e música de Mario Vivas.
Participação especial dos meus amigos Sergio Dantas, Sousa Neto, Rivanildo Alexandrino e José Cícero.
Revisitando o Caldeirão – Beato José Lourenço é o último “Conselheiro”
Por Tarcísio Marcos Alves (1940 – 2016) – Professor – Autor do livro A Santa Cruz do Deserto: a comunidade igualitária do Caldeirão: 1920-1937.
Fonte – Suplemento Cultural. Estado de Pernambuco. Ano XII. Outubro/Novembro 1997, págs 24 e 25. Imagens – Tok de História
Em 1897, quando as tropas federais
destruíram Canudos, o beato José Lourenço Gomes da Silva iniciava, no
Sítio Baixa D’Anta, no Juazeiro do Norte — Ceará, a organização de uma
comunidade camponesa igualitária que, após, alguns anos, realizara no
Sítio Caldeirão, no Crato — Ceará. A experiência realizada pelo beato
José Lourenço representou a última tentativa de um beato e seus
seguidores de organizar uma comunidade camponesa de cunho religioso nos
sertões nordestinos.
Beato José Lourenço.
Isto
porque a política modernizante-autoritária do Estado Novo, aliada às
facções fascistas da Igreja Católica, destruíram sistematicamente os
movimentos populares — de beatos e cangaceiros — filhos do século XIX;
Caldeirão foi devastado em 1937, e, um ano depois, Lampião e seus
sequazes foram assassinados pelo capitão João Bezerra, seguido, meses
depois, pela dizimação dos restos de beatos que viviam em Pau de Colher,
na Bahia, pelo implacável caçador de beatos e cangaceiros Optato
Gueiros…
O Estado Novo encerrou assim, para sempre,
um ciclo de revoltas populares características do século XIX, que desde
então estarão historicamente ultrapassadas.
José Lourenço chegou ao Juazeiro do Norte
na época dos “milagres” (1889), quando a aldeia fervilhava de romeiros
que afluíam de todas as regiões sertanejas para a terra do Padre Cícero
Romão Batista. Duas coisas importantes os atraíam: as terras férteis do
Vale do Cariri e a certeza de alcançarem a salvação na cidade do santo
milagreiro. O próprio Padre Cícero constatou o fato, ao afirmar que
“Juazeiro tem sido um refúgio dos náufragos da vida”. É que para lá iam
multidões de miseráveis, refugiados das regiões castigadas pelas secas…
Outra imagem do Beato José Lourenço.
O
beato José Lourenço logo se integrou na aldeia e tornou-se penitente.
Morou alguns anos no Juazeiro e depois foi com a família viver no sítio
Baixa D’Anta. Lá começaram a desenvolver uma experiência de trabalho
coletivo com base no mutirão, o que levou a um esboço de organização de
uma comunidade camponesa de cunho cooperativista. Mas o que mais marcou a
sua vida no sítio e o tornou conhecido na região foi o episódio do boi
“Mansinho”. Tratava-se de um garrote que o Padre Cícero ganhara de
presente e dera ao beato para criar. Como era um animal pertencente ao
Padre Cícero, toda a comunidade dedicava um tratamento especial ao boi.
Em pouco tempo surgiram boatos de que o boi “Mansinho” estava fazendo
milagres…
Região do Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros.
Por essa época (cerca de 1920), além das
perseguições religiosas contra o Padre Cícero, a imprensa fazia uma
feroz campanha contra Floro Bartolomeu. Este passou a ser acusado pelo
Deputado Federal Morais e Barros como o “Deputado de bandidos e
fanáticos”. Sob pressão, Floro Bartolomeu foi obrigado a agir: mandou
prender o beato José Lourenço e matar o boi “santo”.
Padre Cícero em sua mesa de trabalho.
Solto
e humilhado, com fama de “fanático” José Lourenço voltou para o sítio
Baixa D’Anta, onde viveu mais alguns anos, quando o proprietário da
terra vendeu a propriedade e expulsou-o de lá. O beato passou algum
tempo em Juazeiro, onde, pelas suas práticas religiosas, adquiriu fama
de “homem santo” e passou a ser tratado como “beato”. Em 1926 retirou-se
com algumas famílias para o sítio Caldeirão dos Jesuítas, terra
pertencente ao Padre Cícero. O Padre entregou as terras ao beato quando o
seu testamento já estava pronto, no qual doara todas as suas
propriedades aos Salesianos, inclusive o sítio Caldeirão. Encerrava-se a
história do boi “Mansinho” e começava a do beato José Lourenço, que em
breve tornar-se-á o beato mais célebre da região do Cariri e liderança
indiscutível de uma comunidade camponesa contando com alguns milhares de
trabalhadores pobres.
Igreja do Sítio Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros
Na comunidade, a experiência vivida
expressou-se em uma experimentação concreta da fé, a materialização de
uma nova forma de vida: o trabalho tornou-se um meio para a salvação da
alma. A principal testemunha dos acontecimentos do Caldeirão, o senhor
Henrique Ferreira, recentemente falecido, assim descreve o trabalho como
penitência na comunidade do Caldeirão: “É os penitentes, é os pobres
penitentes, que todo pobre é penitente. O trabalhador é um pobre
penitente! Tá na penitência do trabalho!” Nestas condições, a pobreza da
vida tornou-se suportável e até prazerosa. Foi a partir desta
perspectiva religiosa – o trabalho como penitência —, que a comunidade
camponesa do Caldeirão se organizou.
Formação
rochosa que acumulava água na época de seca, conhecida como
“Caldeirão”, que batiza a localidade histórica. Esse tipo de local foi
essencial para o sucesso inicial da comunidade do Beato José Lourenço –
Foto – Rostand Medeiros.
O
sítio era uma pequena propriedade abandonada, com cerca de 900
hectares, do outro lado da Serra do Araripe, distante vinte quilômetros
do Crato. Encravado entre serras e morros, de acesso extremamente
difícil, era lugar ideal para o isolamento. Lá instalados, o beato e
seus seguidores deram início aos trabalhos de limpeza dos matos e
construções e reparos de cercas. Construíram a casa do beato e as
primeiras e pequenas casas de taipa e, como a terra era seca, iniciaram
também a construção de pequenas barragens nos grotões e socavões dos
morros, garantindo assim razoável abastecimento de água para as épocas
de secas. Nas terras altas deu-se início a plantação de algodão, milho e
feijão. Nas terras baixas, irrigadas por processos primitivos,
plantou-se cana-de-açúcar e arroz. Pequena engenhoca levantada nas
imediações do pequeno povoado passou a produzir rapadura, batidas e
melaço suficientes para o sustento da comunidade. Construíram ainda a
casa de farinha e produziam sabão, a partir de uma planta nativa da
região, conhecida por “pingui”. Em pouco tempo, o que era uma terra
deserta e abandonada transformou-se em um pequeno arraial.
Área do antigo Sítio Caldeirão na atualidade – Foto – Rostand Medeiros.
Nessa fase inicial, a comunidade
trabalhava basicamente na agricultura e na construção de casas em
mutirão para os novos moradores. Cada nova família que lá chegava era
bem recebida, e os que já viviam no sítio construíam logo a nova
moradia; alastraram-se as casinhas a partir do sopé dos morros,
formando, gradativamente, um cinturão em redor da pequena planície onde
floresciam as primeiras plantações. A divisão do trabalho era simples:
os homens trabalhavam na limpeza dos terrenos, na construção de casas,
de caminhos, cercas e na agricultura, enquanto as mulheres, além dos
trabalhos caseiros, carregavam água para molhar as plantas, ajudadas
pelas crianças maiores. O problema da água será resolvido
definitivamente através da construção de dois açudes.
A educação na sua comunidade era uma grande preocupação do Beato José Lourenço.
O
beato estava sempre à frente de todos os trabalhos e tudo era feito sob
a sua orientação. Trabalhava-se das seis da manhã às seis da noite, sob
o ritmo dos benditos, puxados pelo beato… A incrível capacidade de
trabalho e liderança do beato é atestada por todos, inclusive por
aqueles que não nutriam simpatia por ele, como é o caso do tenente Góis
de Barros – que comandou a invasão e destruição do sítio em 1936 —, que
afirmou espantado em seu Relatório: “Aliás, faça-se justiça, o
espetáculo de organização e rendimento do trabalho, com que nos
deparamos ali, era verdadeiramente edificante”. Toda a produção e
consumo eram controlados por Isaías, espécie de “ministro do
planejamento e da economia” da comunidade. Os produtos eram armazenados
em celeiros e redistribuídos de acordo com as necessidades de cada
família.
A igreja local na década de 1930.
Não circulava dinheiro na comunidade e a
organização social era rígida, dentro de padrões de uma religiosidade
quase ascética. Outras pessoas ajudavam o beato José Lourenço na
administração da vida da comunidade, destacando-se o papel exercido por
Severino Tavares, que, apesar não viver no sítio, exercia o papel de
“aliciador” de romeiros para visitar a comunidade. Seu trabalho como
divulgador da vida no Caldeirão muito contribuiu para o aumento da
população do sítio, pois muitas pessoas que iam apenas conhecer o beato
lá permaneciam…
Foto – Rostand Medeiros.
Com
o crescimento populacional do sítio diversificaram-se as atividades
produtivas. No meio de tantos trabalhadores que chegavam ao Caldeirão,
encontravam-se profissionais das mais diversas especialidades.
Organizaram-se então as primeiras oficinas, passando-se a fabricar os
mais diversos instrumentos de trabalho e utensílios domésticos. Em pouco
tempo a comunidade produzia praticamente tudo o que necessitava para a
sua sobrevivência. Apenas o sal e o querosene, assim como remédios, eram
comprados pelo beato, com o dinheiro que arrecadava com a venda de
rapadura e algodão.
Paralelamente desenvolveu-se a criação de
animais, bovinos, caprinos e suínos, além das mais diversas espécies de
galináceos. Através deste quadro sintético da organização econômica e
social da comunidade do sítio Caldeirão, fácil é perceber que ela
formava um vivo contraste em relação à situação dos trabalhadores dos
latifúndios do Sertão. Ali reinava a fartura, fruto do trabalho intenso
de milhares de pessoas em mutirão – a população do sítio alcançou na
fase mais populosa, cerca de duas mil pessoas —, o que duplicava a
produtividade do trabalho, fazendo com que os celeiros estivessem sempre
cheios. Foi esta fantástica organização do trabalho visando a plena
satisfação das necessidades fundamentais da comunidade — que se tornou
praticamente autossuficientes —, que caracterizou a experiência
realizada no sítio Caldeirão pelo beato José Lourenço, e que o
transformou em uma ilha de fartura em meio à miséria reinante no Sertão
da época. Era uma comunidade pobre, evidentemente, mas bem alimentada
material e espiritualmente. A religiosidade popular, que perpassava
todos os atos cotidianos da comunidade, tornava suportável a penitência
do trabalho e fácil a vida…
Uma das casas remanescentes do antigo Sítio Caldeirão, sendo preservada na atualidade – Foto – Rostand Medeiros.
As
reservas de víveres permitiram que a comunidade sobrevivesse à grande
seca de 1932, apesar de o número de habitantes do sítio ter sido
acrescido de cerca de 500 pessoas no período. É que o beato abriu as
portas do sítio para receber todos os flagelados da seca que lá
quisessem entrar e permanecer!
Após a morte do Padre Cícero, em 1934 —
época em que os habitantes do Caldeirão passaram a se vestir todos de
preto, em luto perpétuo pelo “santo” do Juazeiro —, grande parte dos
romeiros que iam a Juazeiro visitar o túmulo do Patriarca fazia questão
de ir ao Caldeirão pedir a bênção ao beato José Lourenço. Isto se devia
ao fato de José Lourenço representar o único sobrevivente dos “santos”
do Juazeiro.
Os romeiros ao visitarem a comunidade
contribuíam com o desenvolvimento econômico do sítio, pois levavam
valiosos presentes, que iam desde cargas de alimentos, animais a até
objetos preciosos. Entretanto, a morte de Padre Cícero – amigo e
protetor do beato -, anunciava também as tempestades que se avizinhavam.
O crescimento constante da popularidade do beato, aliado à prosperidade
crescente do sítio, despertou a atenção das elites políticas e
religiosas do Crato.
Os jornais iniciaram a campanha contra o
beato e sua comunidade. O artigo intitulado “Os fanáticos do Caldeirão”,
publicado no jornal “O Povo”, afirmava, entre outras coisas: “Dois
malandros do Ceará, José Lourenço e Severino Tavares, andam explorando
no Vale do Cariri a memória do Padre Cícero.”’ Para a hierarquia
católica, o Caldeirão parecia representar uma ameaça: o beato poderia
tornar-se um novo “santo” como o Padre Cícero… E, nesse caso, com o
agravante de estar fora do controle da Igreja: seria um novo Antônio
Conselheiro!…
Assim,
alarmados, os proprietários vizinhos e as elites políticas e religiosas
atacavam sistematicamente o beato e sua comunidade: “Setores
conservadores ligados à política regional, insuflados pelos
proprietários de terras e do clero, encarregam-se de espalhar boatos
sobre o beato José Lourenço e os habitantes do Caldeirão. Diziam que o
beato oficiava sacramentos reservados ao clero de forma bárbara e
sacrílega, que vivia em concubinato com as beatas, possuindo harém de 16
mulheres, que explorava a ignorância e o fanatismo dos camponeses,
usando a sua força de trabalho para enriquecer”.
Era, enfim, a orquestração de uma
formidável avalanche de inverdades — como a de que o beato, então com 65
anos, tivesse capacidade sexual de manter um harém com 16 concubinas!
—, com o objetivo de destruir a experiência comunitária do Caldeirão,
que, além de atrair trabalhadores de todas as partes, “as relações de
produção e consumo tendiam abertamente para o comunismo”, na expressão
do Tenente Góis de Barros…
Os padres salesianos, herdeiros das terras
do Padre Cícero, decidem tomar o sítio sem indenizar o beato pelos
benefícios lá realizados. Para isto, contratam o advogado Norões
Milfont, deputado da Liga Eleitoral Católica — LEC (de cunho fascista),
que passa a defender a causa dos mesmos. O advogado passa a divulgar que
o Caldeirão era uma nova Canudos, que o beato José Lourenço possuía
armas escondidas e que a comunidade representava uma séria ameaça ao
Estado, por ser de franca tendência comunista…
O
então tenente Alfredo Dias foi um dos oficiais da polícia cearense que
combateu os membros do Caldeirão. Entrou na corporação como soldado e se
aposentou como coronel, tendo chegado a combater cangaceiros do bando
de Lampião.
A
hierarquia católica confirma: “Nos sermões, os padres falam do perigo
do ajuntamento de fanáticos e da infiltração de agentes vermelhos a
serviço do totalitarismo ateu. Os boatos chegam aos ouvidos das
autoridades estaduais.”’ Era, enfim, a união da Igreja, do Estado e das
elites políticas e latifundiárias contra a comunidade camponesa
igualitária do sítio Caldeirão… O advogado dos salesianos, Norões
Milfont, não se limitou a espalhar boatos denegrindo a comunidade; para
provar suas denúncias e incriminar ainda mais o beato e seus seguidores,
enviou um espião ao Caldeirão. A escolha feita, por si só, revela as
intenções subjacentes ao ato: decidiu-se enviar “um dos maiores
bandidos-autoridade de que se teve notícias no Ceará”, na expressão de
Optato Gueiros.
Era
o Capitão José Gonçalves Bezerra, conhecido na região como um
implacável caçador de cangaceiros, sendo, na verdade, um deles, só que
escondido por trás da farda policial. Escolhido o espião, as autoridades
iniciaram as investigações. O tenente José Góis de Campos Barros
encarregou-se de comandar a destruição, que descreveu depois no seu
“Relatório”. Nele afirma que o número de habitantes do Caldeirão havia
tomado tamanho vulto que as autoridades locais alertaram o Capitão
Cordeiro Neto, Chefe de Polícia, de “certos fatos singulares, que ali
estavam passando”.
Para esclarecer os “fatos”, foi ao sítio o
Capitão José Bezerra, disfarçado em industrial interessado nas
possibilidades econômicas da região, em relação à indústria de oiticica.
Admitido na residência do beato, o Capitão Bezerra tudo observou,
especialmente as riquezas acumuladas no sítio, fruto do trabalho
sistemático da comunidade, o que logo lhe despertou o interesse…
Os mortos do Caldeirão foram identificados pela imprensa como “São Anastácio”, “São Pedro” e “São Cosmo”.
No
seu relatório, refere-se à existência de “uma nova Canudos, coito de
fanáticos e do terrível perigo comunista,”’ e conclui solicitando
urgente intervenção.
Depois das investigações realizadas pelo
Capitão José Bezerra, o interventor e Governador do Estado, Menezes
Pimentel, reuniu o advogado dos salesianos Norões Milfont, O Bispo do
Crato, Dom Francisco de Assis Pires, Andrade Furtado, Martins Rodrigues,
O Capitão Cordeiro Neto, Chefe de Polícia e o Delegado do DEOPS, o
tenente José Góis de Campos Barros. Com exceção dos dois militares,
todos os outros pertenciam à LEC. Decidiu-se pela intervenção. O Tenente
José Góis de Campos Barros comandou a expedição, no mês de setembro de
1936.
O beato José Lourenço conseguiu fugir,
escondendo-se na Serra do Araripe, acompanhado de algumas famílias. Em
meio a todo tipo de violência, inclusive estupros, os militares atearam
fogo em todas as casas, expulsaram os moradores, destruíram e saquearam o
sítio…
Segundo
um levantamento realizado pelo então delegado de Ordem Política e
Social do Ceará, o tenente do Exército José de Goes de Campos Barros
(que chegou ao generalato), cerca de 75% dos participantes do Caldeirão
eram oriundos do Rio Grande do Norte, 20% divididos entre Pernambuco,
Alagoas, Paraíba, Maranhão e Piauí e apenas 5% do próprio Ceará.
O
Tenente José Góis, em seu relato, diz que após juntar todos os
habitantes, explicou a eles para que viera: acabar com a comunidade,
porque “o Estado não podia permitir aquele ajuntamento perigoso”. As
ordens eram que cada família juntasse seus pertences e voltasse para os
seus locais de origem. Ofereceu passagens de trem e de navio, que foram
unanimemente rejeitadas: “E, fato singular, ninguém tinha bens a
conduzir. Tudo o que ali estava, diziam, era de todos, mas não tinha
dono”.
O beato José Lourenço continuou por algum
tempo refugiado na Serra do Araripe. Severino Tavares e seu filho
Eleutério foram presos em Fortaleza. A imprensa da época calculou que,
após a destruição do sítio, pelo menos mil pessoas foram juntar-se ao
beato José Lourenço, na Serra. Entrementes, Severino Tavares e seu filho
foram soltos da prisão e dirigiram-se para Serra do Araripe. Enquanto o
beato José Lourenço ganhava tempo para iniciar negociações visando
voltar para o sítio, Severino Tavares planejava vinganças… (Afirma-se
que uma das moças estupradas pelo Capitão Bezerra era sua filha…)
Sobreviventes do ataque ao Caldeirão.
Os jornais começam a publicar notícias
alarmantes, informando que os beatos ameaçavam invadir fazendas e a
feira do Crato. Segue uma patrulha comandada pelo Capitão José Bezerra
para debelar os “fanáticos”. Severino Tavares montou uma emboscada com
alguns seguidores e, em luta corpo a corpo com a patrulha, morreram o
Capitão, um filho seu e o próprio Severino Tavares, além de outros
soldados e camponeses.
Seguiu-se
o bombardeio na Serra, quando três aviões, comandados pelo Capitão José
Macedo, autorizado pelo Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar
Dutra, conduzindo bombas, metralhadoras e grande quantidade de munições,
metralharam e bombardearam os agrupamentos de camponeses oriundos do
Caldeirão…
Por terra, atacavam as forças policiais. O
Capitão Cordeiro Neto avaliou a chacina em cerca de duzentos mortos,
enquanto outras fontes orais afirmam que o número de mortes teria
atingido uma cifra bem maior: entre setecentas a mil pessoas…
O beato José Lourenço escapou do
bombardeio na Serra. Após muitas negociações, conseguiu voltar ao sítio
Caldeirão, em 1938. Lá passou mais dois anos, trabalhando e
reconstruindo o sítio, junto com poucas famílias de camponeses — o
acordo não permitia mais “ajuntamentos”.
Em
1938, quando já reorganizara a produção no sítio, foi novamente expulso
pelos salesianos. Na ocasião, o Sr. Júlio Macedo conseguiu junto ao
Juiz de Direito do Crato a devolução do dinheiro que fora entregue ao
Juizado por ocasião do leilão do que restara dos bens do sítio após a
destruição e saque do mesmo.
De posse de pequena quantia, o beato ainda
conseguiu adquirir uma pequena propriedade no município de Exu, em
Pernambuco. Lá, no sítio que denominou de União, o beato, acompanhado de
umas poucas famílias, viveu em paz durante oito anos. Morreu no dia 12
de fevereiro de 1946, vitimado pela peste bubônica…
Seu corpo foi transportado através da Chapada do Araripe pelos seus fiéis seguidores, até o Juazeiro…
O que o beato não sabia era a recepção que
o seu corpo teria da Igreja: levado para uma capela onde seria
realizada a missa de corpo presente, o padre, na última condenação da
Igreja ao beato, negou-se a cumprir o ritual…
Foto – Rostand Medeiros.
NOTAS
1 — CAVA, Ralph Della. Milagre em Juazeiro. Rio de Janeiro-RJ, Paz e Terra, 1976, pág. 122
2 — Henrique Ferreira, entrevista ao autor, 12/07/1983
3 — CARIRY, Rosemberg. O Beato José
Lourenço e o Caldeirão de Santa Cruz. In Revista Itaytera, Crato – CE,
n°26, pp. 189-199-1982
4 — BARROS, Ten. José Góis de Campos, A Ordem dos Penitentes. Imprensa Oficial, Fortaleza – CE, 1937, pág. 31.
5 – Jomal “O Povo” – Fortaleza – CE, 02/03/1935
6 — Jornal “O Povo” — Fortaleza — CE, 02/03/1935
7 — CARIRY, Rosemberg, in op. cit., pág. 195
8 — GUEIROS, Optato. Lampeão: Memória de um oficial ex-comandante de forças volantes. Recife – PE, 1952, pág. 252.
9 – ANSELMO, Otacílio. “Tragédia de
Guaribas”. In. Revista Itaytera., n° 25,1972, pág. 13. 10 – BARROS, Ten.
José Góis de Campos. In op. cit., pág. 30.