sexta-feira, 22 de março de 2013

Mascotes

"Os cães" em Angico

 Por:  José Sabino Bassetti

No ano de 2011, no evento que comemorava os "100 anos" de nascimento de Maria Bonita, na cidade de Paulo Afonso BA, evento promovido pelo nosso amigo e grande pesquisador, o escritor João de Sousa Lima, eu, e o Carlos  Megale, aproveitamos para fazer o lançamento do livro, "Lampião. Sua morte passada a limpo", que escrevemos em parceria. Alguns participantes do evento, insistiram em perguntar por que "os cachorros treinados" que estavam em Angico, não deram o alarme alertando assim os cangaceiros da chegada da volante que então se aproximava.

De fato, diversos bandos de cangaceiros possuíam cachorros, mas é preciso que se diga que em Angico só havia um cão, o "Guarani", que era de Lampião e que não era treinado coisa nenhuma, aliás, cangaceiro nunca teve cães treinados, adestrados ou seja lá o que for.


 O cão Guarani à direita

Ângelo Roque chegou a dizer em depoimento que os cães dos cangaceiros só não falavam porque Deus não permitia, mas, isso era mania de vários cabras sobreviventes tentarem engrandecer as coisas do cangaço, e não economizavam para aumentar e engrandecer tudo que se relacionava com o cangaço. E Ângelo Roque, também conhecido como "Labareda" usou e abusou do direito de não dizer a verdade,  caprichou em dizer coisas que ele jamais presenciou, e lugares que nunca esteve durante todo o tempo que esteve no cangaço.

De acordo com o ex cangaceiro Candeeiro, os cães que acompanhavam os cangaceiros, igualmente a qualquer cão, tinham naturalmente a percepção muito mais apuradas que o homem, mas nada de adestrados ou coisa parecida. Talvez o cão de nome Guarani, que durante o combate foi morto pelo soldado Santo em Angico, devido o friozinho que fazia naquela madrugada, tenha dormido junto a algum cangaceiro e não tenha notado a aproximação dos soldados. Guarani poderia também ter acompanhado os quatro cabras que pouco antes haviam deixado o coito e ido buscar o leite na fazenda Logradouro de Júlio Félix,  e ao ouvir os tiros, tenha retornado para junto do dono como é costume desse tipo de animal. Mas a verdade, é que hoje é muito difícil saber o que realmente tenha ocorrido com esse cão antes dele ser morto.

Alguns daqueles que nos fizeram tal pergunta, deixavam transparecer que pelo fato "dos cães" não terem dado o alarme, teria havido alguma "maracutáia" entre coiteiros, cangaceiros e policiais, ou seja, os cangaceiros teriam sido envenenados, ou então teria havido uma trama entre a polícia e coiteiros para Lampião sair com vida naquela ocasião. Parece mentira, mas depois de tanto tempo, depois de tanta informação, tanta pesquisa, ainda tem gente que acredita que Lampião não tenha morrido em Angico, que tenha sido envenenado, ou então tenha morrido de maneira completamente diferente e talvez em outro local e claro, e em outra data. É de lascar!

Os cangaceiros sempre tiveram cães que os acompanhavam, e por inúmeras vezes as volantes atacaram os cangaceiros de surpresa, mas, não se tem conhecimento que sequer uma única vez, qualquer cão tenha dado o alarme avisando os cabras da aproximação do inimigo, salvando assim qualquer grupo de cangaceiros. Em fevereiro de 1938, na fazenda Grande, (e não Grade com já disseram) situada na região de Inhapi AL, parte da volante do tenente João Bezerra chefiada pelo cabo Juvêncio, eliminou os cangaceiros Serra Branca, Ameaça e Eleonora.


 Corisco ladeado por "Seu Colega" 
e a cadela "Jardineira".

Nessa ocasião, os soldados foram alertados da aproximação do pequeno grupo de cangaceiros, pelo cão que pertencia aos cabras que caminhavam em direção a uma cacimba onde coincidentemente estavam os soldados. Quando os soldados viram o cão que estava com uma coleira, logo desconfiaram que pudesse pertencer a cangaceiros, desconfiaram e acertaram em cheio, tomaram posição e quando os cabras apareceram foram alvejados pela pequena volante.


É evidente, que os cangaceiros como a maioria das pessoas, possuíam cães por gostar desse tipo de animal,  por gostar de sua companhia, e não pela utilidade de guardiões que eles poderiam ter para o bando.

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Sabino Bassetti é paulista da cidade de Salto. Está no encalço de Lampião desde os tempos da brilhantina e é um dos responsáveis por uma das melhores pesquisas de toda literatura cangaceira,  cuja capa está aí ao lado. Um livro que você precisa ter ou ao menos ler. Tem 192 paginas, custa R$ 40,00 (Quarenta reais) com frete incluso para todo o Brasil. E você pode adquiri-lo através do email franpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 99911 8286 (TIM) - (83) 8706 2819 (OI).

quarta-feira, 20 de março de 2013

O badogue mais rápido do Sertão

Empresa baiana homenageia Lampião em game tipicamente nordestino

Por Carol Prado

 Foto: Divulgação

Foi-se o tempo em que os joguinhos eletrônicos eram terrenos exclusivos de guerreiros medievais, robôs intergaláticos e outros personagens bem distantes da realidade de carne e osso. Sem negar suas origens, a empresa baiana de tecnologia Soterotech decidiu levar figuras típicas do hiperrealista sertão nordestino ao mundo dos bits. Um cangaceiro, um calango e um carcará dão o tom do jogo “Cangaceiro de Badogue”, apresentado neste sábado (16/03) e domingo (17/03) durante o Gamepólitan, evento que transformou o Centro de Convenções da Bahia em um verdadeiro parque de diversões digitais.

 Fotos: Carol Prado / Bahia Notícias

O game narra a história de Lino, um destemido personagem inspirado no histórico Lampião, que, depois de ver sua amada raptada por um maléfico carcará, luta contra todos os obstáculos para recuperá-la, sempre acompanhado de seu poderoso badogue. “A ideia surgiu em 2009, antes mesmo do nascimento da empresa, em um grupo de jogadores. Hoje, todos os produtos que a gente desenvolve têm traços dessa cultura regional, que é muito rica e pouco explorada”, explicou Diego de Potapczuk, um dos diretores da Soterotech. Segundo ele, o software desenvolvido para tablets e smartphones ainda está em fase de testes e deve chegar ao mercado no segundo semestre deste ano, quando poderá ser baixado, no mundo todo, através da Apple Store e Google Play, lojas de aplicativos da Apple e Android, respectivamente. “Queremos fazer um lançamento global e levar a cultura nordestina pro mundo inteiro através do game”, almejou, em entrevista ao Bahia Notícias.

As expectativas da empresa são boas, principalmente depois do sucesso de Lino no Centro de Convenções. O administrador de empresas, Vítor Carneiro, por exemplo, acompanhava o filho gamer e não tirava os olhos das aventuras do cangaceiro. “Isso é ótimo para tirar um pouco a criançada da linha de jogos japoneses e reforçar nossa cultura regional”, opinou.



Com seu Cangaceiro de Badogue, a Soterotech representa apenas uma das várias experiências do promissor mercado baiano da criação gráfica. De acordo com Ricardo Silva, organizador do Gamepólitan, é notável o crescimento do número de desenvolvedores independentes de jogos no estado. “Ainda temos pouquíssimas empresas de tecnologia consolidadas, mas os criadores estão se empenhando na criação de grupos independentes para colocar em prática seus projetos. O governo também tem dado um apoio muito grande a esse mercado, até para possibilitar a exportação dos jogos brasileiros para o mundo todo através de meios online”, afirmou. Muitos dos profissionais do entretenimento digital estão na Saga, única escola de artes, jogos e animação da Bahia, que recebe, em média, 1,5 mil alunos interessados em ingressar no setor por ano. “O mercado está crescendo, de fato, e a tendência é melhorar cada vez mais.

A própria realização de eventos como o Gamepólitan já ajuda bastante porque promove o encontro dos desenvolvedores e possibilita a parceria com empresas”, elogiou Oswaldo Peixoto, gerente geral da empresa.



Por tudo isso, pequenos empreendedores em potencial, como João Pedro Bittencourt, só têm o que comemorar. O menino de 11 anos passa cerca de três horas por dia em frente ao PC, mas com uma boa desculpa para livrar-se da bronca dos pais: “Quero jogar bastante para me tornar um criador de jogos no futuro”, esquivou-se.

Pescado em Bahia Noticias

terça-feira, 19 de março de 2013

Noticia ruim chega ligeiro

A repercussão dos ataques do cangaceiro Sinhô Pereira à Paraíba e se Lampião esteve em terras potiguares em "1922"
Por: Rostand Medeiros

Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922

No dia 25 de dezembro de 1921, na pequena vila de Luís Gomes, o cabo Francisco Rodrigues Martins e o soldado Luis Antonio de Oliveira, foram assassinados por um grupo de cangaceiros quando realizavam uma diligência policial. Nesta época, o jornal natalense A Republica era extremamente econômico no seu noticiário quando o assunto era a ação de cangaceiros em terras potiguares e não publica uma só linha detalhando este episódio.

Vamos ter conhecimento deste fato já na edição de 20 de janeiro de 1922, onde está estampada a publicação do Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922, que informa terem as viúvas dos policiais mortos recebido “uma pensão correspondente à metade da etapa que os mesmo ganhavam, considerando que os militares foram assassinados por cangaceiros”.


De qual bando pertenciam estes bandidos? Quantos eram? Quem era o chefe? Infelizmente não sabemos, mas sabemos que o ataque aconteceu. Podemos deduzir que a não vinculação da notícia pelo principal jornal potiguar da época teria mais a ver com um desejo de evitar o pânico entre a população rural potiguar?


E este medo tinha fundamento?


Conforme descreve o então governador potiguar Antônio José de Mello e Souza, na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1921, parece que sim!


Devido a forte de seca dos anos de 1918 a 1920, aliado a uma acentuada baixa de produção do algodão e dos baixos valores alcançados por esta matéria-prima no mercado internacional, o Rio Grande do Norte se encontrava em uma precária situação financeira. Esta situação gerava reflexos principalmente nas ações de segurança e ordem pública, onde o governo mantinha a força pública com um efetivo bem abaixo de suas necessidades e material obsoleto para o combate ao banditismo.


A era de 22 começa com muita chuva e cangaceiro

Neste ínterim, a vida passou a sorrir de uma forma mais alegre para o sertanejo potiguar, pois tinha início uma promissora estação chuvosa, sendo noticiadas fortes chuvas em todo Estado (A Republica ed. 29/02/1922).


Por outro lado, o meio político estava agitado, pois a dia 1 de março ocorria em todo país a eleição para Presidência da República, onde Arthur Bernardes disputava com Nilo Peçanha, em um sufrágio muito pouco democrático, quem governaria o país pelos próximos quatro anos. É informado que o futuro presidente já assumiria a partir do dia 15 do mesmo mês de março (Mensagem, RN 1922, pág. 4).

Em meio a todo positivo noticiário sobre as chuvas e as eleições presidenciais, um dia é publicado uma pequena nota que mostrava que nem tudo corria as mil maravilhas no sertão paraibano, próximo a fronteira potiguar e a fonte da pequena nota era uma importante liderança política e empresarial potiguar.
Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros 
na Paraíba e publicado em Natal


O coronel Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, apresentou a redação de A República um telegrama remetido no dia 3 de março, emitido pelo seu parente Simplício Cascudo, então residente na cidade paraibana de Sousa, dando conta que um grande grupo de cangaceiros estava percorrendo as zonas rurais das cidades de Pombal, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha e São Bento, na Paraíba e propriedades na área próxima a Vila de Alexandria, já no Rio Grande do Norte (mas sem trazer maiores detalhes). Informava Simplício Cascudo que as propriedades São Braz, Santa Umbellina e Brejo das Freiras foram “visitadas” pelos cangaceiros, sendo assaltados as pessoas de “José Olympio, filho de Antonio Fernandes, Adolpho Maia, Valdevino Lobo, proprietário da estância Dois Riachos, e Mestre Ignácio”. Informa o missivista que a cidade de São Bento estava “arrasada” com os acontecimentos, tendo os saques nas propriedades próximas sidos superiores a 200 contos de réis. Comentava que no dia 2 os cangaceiros se encontravam no lugar “Catolé”, próximo a Cajazeiras, estando a cidade receosa de ser atacada. Simplício Cascudo finalizava a nota informando que até o momento as garantias solicitadas ao governador da Paraíba, Sólon de Lucena, ainda não estavam presentes (A Republica ed. 07/03/1922).


Ora, diante de notícia fornecida por pessoa tão grada da sociedade potiguar, os grandes produtores rurais do Rio Grande do Norte, principalmente aqueles que tinham seus bens mais próximos à fronteira paraibana, ficam extremamente apreensivos com o que poderia ocorrer.

Logo seus piores pesadelos pareciam se concretizar

Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba
Telegramas vindos da vila paraibana de Jericó, retransmitidos por postos telegráficos potiguares, fazem chegar a Natal a informação que em 5 de março de 1922, o celebre chefe cangaceiro Sinhô Pereira, com a ajuda do cangaceiro Liberato Alencar, acompanhados de um bando com um número estimado (pelos jornais da época) de 35 a 60 cangaceiros, ataca com sucesso toda aquela região. Desde a zona oeste do Rio Grande do Norte, até o Seridó, a notícia correu célere. Uma das notas de um dos jornais potiguares que noticiaram o fato assim apresentou a questão informando que “Notícia ruim chega ligeiro!”. Na antiga Jericó eles cometeram atrocidades e causaram inúmeros prejuízos aos moradores da localidade. Os cangaceiros foram finalmente rechaçados por um grupo de corajosos habitantes do lugar, destacando-se o nome de Antônio Felipe, João Bento, soldado João Ferreira e João Belarmino.


Pânico entre a elite rural Potiguar


Os acontecimentos são publicados em grandes manchetes na edição de 8 de março de A República. A partir de então o pânico se generaliza de uma forma contundente entre os políticos e os fazendeiros que tinham interesses na fronteira do rio Grande do Norte com a Paraíba.


Em Natal começam a chover na mesa do governador Mello e Souza telegramas solicitando urgentemente o envio de efetivos da força pública potiguar para a defesa das cidades e vilas localizadas em praticamente toda a fronteira com a Paraíba. Os aflitos telegramas vinham desde a cidade de Luís Gomes, quase na divisa com o Ceará, à Nova Cruz, próximo ao litoral, todos informando existirem boatos de ataques eminentes e simultâneos de cangaceiros.


Nas amareladas folhas do velho jornal A Republica, existente na hemeroteca do Instituto Histórico do Estado do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, é tal a quantidade de telegramas enviados ao governo, que aqueles que não possuem um maior conhecimento da história do cangaço nesta época, ao ler as alarmantes missivas reproduzidas, parece que a ação dos cangaceiros havia crescido numa proporção assustadora e o número de bandos havia aumentado por dez.


No geral as mensagens seguem quase um mesmo padrão. Comentam sobre a existência de “informações”, ou “boatos”, transmitidos por pessoas “vindas da Paraíba” da “existência de grupos de cangaceiros nas proximidades” e a possível “eminência de um ataque”.
Os Jornais repercutem a situação
A imprensa dos dois Estados tratava a situação de modo alarmante e exagerado.

Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. 
Jamais foi confirmado

Na edição de 12 de março do jornal paraibano “A União”, existe a informação que havia ocorrido um violento combate nas proximidades da cidade potiguar de Santa Cruz, no qual teriam morrido 6 cangaceiros. Já o natalense A República chega a comentar na sua edição de 21 de março que, “se abstivera de divulgar as movimentações da tropa, por um princípio das táticas militares; Não fornecer indicações ao inimigo”. Como fosse o caso dos cangaceiros terem condição de ler jornais continuamente no meio da caatinga!




Esta mesma edição de A República informa que em Caicó houve pânico com a notícia da aproximação de cangaceiros na fronteira desta cidade com a Paraíba, ficando a situação mais calma por haver deslocamento de forte contingente policial em direção à localidade de Jardim de Piranhas. Outro jornal natalense denominado A Notícia, informa que até mesmo ocorreu “fuzilamento de oficiais de nossa Força Pública e rapto de crianças”.


Até as repartições dos Correios e Telégrafos entraram na ideia de pânico generalizado. Houve o caso de um telegrafista enviar pedidos de ajuda ao Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.

Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais 
da cidade de Martins para a exposição do centenário


Até jornais do Rio de Janeiro noticiaram aqueles acontecimentos aparentemente através de notícias recebidas de informes telegráficos e um destes informes mostra uma interessante situação; no primeiro semestre de 1922 estava acontecendo em todo o Brasil os preparativos para as grandes festas do centenário da nossa independência e no Rio Grande do Norte estes preparativos estavam a toda. Cabia a cada estado brasileiro organizar e enviar para a Capital Federal, na época o Rio de Janeiro, uma coleção de produtos naturais típicos. No Rio Grande do Norte o responsável por tal trabalho era o Dr. João Vicente, que a época destes alarmes estava no município serrano de Martins. Na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, foi noticiado que o Dr. João “não podia trabalhar devido a ação dos cangaceiros e que o pessoal da serra estava pronto a reagir”.


Mas houve ataque?


Mesmo com todo exagero, o governador Antônio José de Mello e Souza, juntamente com o então chefe de polícia Sebastião Fernandes não perdem tempo na reação e tratam o assunto como uma verdadeira “situação de guerra”.

O chefe de polícia potiguar a época da crise

 
Convocam por decreto emergencial 100 praças para a força pública, promovem 2 sargentos a oficiais, despacham um grupo de policiais para seguir de navio até a cidade de Areia Branca, para depois seguirem a cavalo para fronteira. Com a ajuda do então IFOCS – Instituto Federal de Obras Contra as Secas (futuro DNOCS) mais de 100 militares serão enviados de caminhão ao interior. São feitas solicitações aos serviços de correios e telégrafos para a isenção de taxas para que os oficiais pudessem emitir telegramas da “frente de batalha”.

Na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, o governador Mello e Souza informa que recebeu que durante esta “crise”, mais de 100 despachos telegráficos vindos do interior. O próprio governador, tido como homem calmo e comedido, chegou ao ponto de reclamar que “até a cortesia sertaneja havia sido deixada de lado” naquelas solicitações de ajuda.

Apesar do estado limitado desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão e combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922.

 
Foram enviados policiais em tal quantidade que em Natal o efetivo policial foi classificado como “mínimo”, apenas para o essencial para a proteção do quartel da força pública e do presídio (Mensagem, RN, 1922, páginas 31 a 35).


Seja por conta das ações policiais praticadas pelos governos da Paraíba e da ação preventiva da polícia potiguar, ou por terem conseguido o que desejavam, o bando de Sinhô Pereira toma novamente o rumo do Ceará. Com a saída dos cangaceiros, pouco a pouco a situação volta a se normalizar. No dia 29 de março chega a Natal o Chefe de Polícia da Paraíba, Demócrito de Almeida, que vinha agradecer a ação da polícia potiguar e, juntamente com Mello e Souza e Sebastião 

Fernandes, acertarem as bases para ações de patrulhamento da fronteira (A Republica, pág. 1, Ed. 01/04/1922).


Nas edições do jornal “A Republica” e na própria Mensagem ao Legislativo de 1922, podem-se ler as respostas às críticas feitas a ação do governador Mello e Souza na proteção das fronteiras. Estas críticas comentavam principalmente sobre os gastos excessivos realizados pelo executivo estadual no deslocamento de tropas, em meio a grave crise financeira vivida pelo Tesouro do Estado.


Existem insinuações que a mobilização serviu para uma grande intimidação da classe política que se encontrava na oposição, devido a proximidade da eleição federal, além de mostrar quem estava no poder e quem mandava na Força Pública.

Mas enfim, os cangaceiros de Sinhô Pereira estiveram, ou não estiveram no Rio Grande do Norte em 1922?


Consta na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, que o governador Mello e Souza informou que estes cangaceiros ao seguirem em direção ao vizinho Ceará, teriam então realizado a única e verdadeiramente comprovada penetração em território potiguar. Foi quando realizaram um pequeno saque em Luís Gomes e passando nas imediações da Vila de Alexandria, sem, contudo esta localidade ser efetivamente atacada (Mensagem, RN, 1922, pág. 34).

Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922


Conforme podemos ver na reprodução da nota publicada na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, parece que estes cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, mas não existem registros de saques em Patu, Alexandria e que a nossa polícia perseguiu a horda de meliantes até o Ceará.


Uma quase conclusão…


Ao observamos estes episódios, é de se perguntar de onde vinha tamanho receio, ou medo, que as classes produtoras rurais potiguares tinham em relação aos cangaceiros? Até mesmo porque a marcante invasão do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte só iria ocorrer cinco anos depois de todo a aquele pânico de 1922.

  Sinhô Pereira
 
É certo que os produtores rurais estavam saindo de uma seca pesada e uma ação de cangaceiros em nada ajudaria a nossa já combalida economia rural. Mas não havia registro de grandes ações destes bandidos no Rio Grande do Norte desde a prisão do celebre Antônio Silvino em 1914.


No meu entendimento toda aquela movimentação foi na verdade uma combinação de receio das elites rurais com a chegada dos cangaceiros, acompanhado de exagerados equívocos de informações, tudo isso transmitido para a capital potiguar através de uma bem organizada linha de comunicação telegráfica, que encheu a mesa do governador de pedidos de ajuda contra bandidos que simplesmente não apareceram.


Tudo isso associado a uma tradicional posição destas mesmas elites rurais potiguares; a de não terem uma associação muito estreita com cangaceiros, fossem eles potiguares, ou principalmente de outros estados.


Os donos do poder do sertão potiguar, como até hoje acontece, jamais deixaram de ter uma parceria estreita com hordas de sanguinários pistoleiros, de gente execrável que mata exclusivamente por dinheiro. Que a soldo dos poderosos resolviam (e ainda resolvem) certos tipos de problemas. Mas a figura do cangaceiro, talvez pelo seu aspecto único de possuir determinado nível de autonomia em meio a estas elites, jamais teve dos coronéis do sertão potiguar muita guarida.


E onde entra Lampião nesta História?


Ao realizar esta simples pesquisa, me veio o seguinte questionamento; e então o grande cangaceiro Lampião esteve no Rio Grande do Norte antes do ataque de Mossoró? Teria o Rei do Cangaço pisado solo potiguar antes de 1927? Teria ele atacado uma fazenda nos limites do nosso estado com a Paraíba e passado perto da Vila de Alexandria?

Sei que Lampião entrou no bando de Sinhô Pereira em 1921, mas daí a afirmar que ele e seus irmãos Antônio e Levino participaram destas ações, é complicado. Tem gente por aí que conhece muito mais desta história do que eu e pode responder.

Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço


Mas sei que nos primeiros dias de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou aos membros do seu bando, que em breve iria entregar o comando a Lampião, então o seu melhor cangaceiro. Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida bandida e ir embora para fora do Nordeste. A incursão de Sinhô Pereira e outros cangaceiros pelo interior da Paraíba teria tão somente o ensejo de arrecadar numerário para este chefe bandoleiro sair do sertão e só voltar em 1971, já idoso.
Virgulino Ferreira em foto da época
 
Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próxima, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Mas esta é outra história….

Pescado no Tok de História

HQ clássica

Tio Patinhas "um Cangaceiro milionário"

Nós já publicamos as aventuras de Zé Carioca, Pateta e Mickey contra cangaceiros, Clique Aqui. Ontem o confrade João de Sousa Lima, desencavou outra pérola da Disney com influência na história e cultura tupiniquim.

Capa feita por Jorge Kato para o Almanaque 28, lançado em novembro de 1967.
Nunca foi republicado. Imagem colhida no Blog Chutinosaco.

Interessado? Dica: Pesquisei e descobri que há um exemplar a venda no site de compras "Toda Oferta" por R$ 15,00  Clique Aqui

Poreeeeeeeeeeeeem: O nosso colaborador Geziel Moura, que teve acesso ao conteúdo da revista, alerta que as estórias nada têm de cangaço, só a capa retrata tal movimento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Documentário

Cangaço, Sangue e Glória - Conflitos e Contradições

Documentário que resgata a história do fenômeno cangaço e do mito Lampião. Depoimentos de pesquisadores e pessoas que participaram desse período tão importante para história do Nordeste e do Brasil.

Autores: Hermes Pena, Amilton Leandro e Diana Vasconcelos.



Pescado na página do YouTube de k060879h

segunda-feira, 11 de março de 2013

Documentário

"O poder político de Fideralina Augusto Lima e seus Descendentes"

Produzido pela TV Assembleia do Ceará conta a história de uma cearense guerreira, diferente das outras mulheres do seu tempo. Este documentário foi apresentado pela primeira vez no Plenário 13 de Maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará para convidados.

Na ocasião, o presidente da Casa, deputado Roberto Cláudio (PSB), registrou sua gratidão a todos os envolvidos na construção do documentário, em especial à equipe do núcleo de documentários da emissora, coordenada por Ângela Gurgel, lembrando que a ideia para a produção surgiu de uma provocação de Melquíades Pinto Paiva, trineto de Fideralina.

"Fideralina nasceu no município de Lavras da Mangabeira e foi tida como um verdadeiro coronel do sertão", explicou Melquíades.

Inicio


Parte 2

Parte Final


Pescado no canal do YouTube da TV Assembleia Ceará

A saga de Dona Fideralina será um dos destaques do...

 
 

quinta-feira, 7 de março de 2013

O último matador de Cangaceiros

Gérson Pionório: Vive em Paulo Afonso
Por João de Sousa Lima

No dia 28 de julho completará 75 anos da morte de Lampião, as pessoas envolvidas diretamente na história do cangaço e que ainda se encontram vivas estão beirando os 100 anos de idade. É muito difícil encontrar remanescentes daquela época em se tratando de cangaceiros ou os que lutaram em nome da ordem pública como soldados efetivos ou contratados. Encontramos só três cangaceiros vivos e soldados da volante em torno de doze. Coiteiros e pessoas que conheceram alguns cangaceiros ainda existem uma grande quantidade.

O Cabo tem história pra contar
Em Paulo Afonso vive Gérson Pionório Freire, filho de João Miguel Freire e Isabel Pionório Freire. O pai de Gérson nasceu nas barrancas do Riacho do Navio e sua mãe em Chorrochó, Bahia. Gérson nasceu no dia 20 de janeiro de 1916, em Curaçá, Bahia. Ele é um dos poucos militares viventes que matou cangaceiros.

O Primeiro contato de Gérson com os cangaceiros foi quando Lampião passou com seu grupo na fazenda Guarani, em Curaçá. A fazenda pertencia ao pai de Gérson, o senhor João Miguel. No momento estavam o pai, a mãe, Gérson, Abdias, Ulisses e Elza.

Os cangaceiros solicitaram dinheiro, ouro, sal e animais. O ouro estava em um cupinzeiro que existia em uma das paredes e os cangaceiros não encontraram. Pegaram cinco contos de réis que estavam no bolso de João Miguel, um cavalo, um burro e sete jegues. Lampião olhou pra Gérson e disse:
- Menino venha cá, pise aqui esse sal!
Gérson pisou o sal e entregou a Lampião. O cangaceiro começou a colocar o sal com uma colherinha de chá em um pequeno cumbuco de coco que o orifício de entrada era apertado e o sal caia fora do recipiente em sua maior parte. Gérson pegou um livro, arrancou uma página, fez um funil e colocou o sal no cumbuco. Lampião observando a inteligência do rapaz falou:
- É morrendo e aprendendo!
Desde esse episódio do primeiro encontro de Lampião, alguns anos se passaram e Gérson resolveu ser policial, sendo apadrinhado do capitão Menezes. No dia 04 de maio de 1936, na cidade de Jeremoabo, Gérson e seus irmãos Abdias e Ulisses entraram na volante de Antônio Inácio como contratado. Gérson passou a ser efetivo da polícia no dia 10 de outubro de 1940.


Gérson  destacou como soldado nas cidades de Canindé- SE, e em diversas cidades baianas como: Jeremoabo, Canudos (foi delegado), Pilão Arcado, Sento Sé, Remanso, Sobradinho, Casa Nova, Senhor do Bonfim, Juazeiro, Napele, Tucano, Calda de Cipó, Urucé, Itabuna, Canavieiras, Camacã, Jacareci (foi delegado), Euclides da Cunha (foi comandante), e Cocorobó (foi delegado). Ele passou pelas volantes de Pedro Aprígio, Aníbal Vicente, Zé Rufino e Odilon Flor.

Quando serviu com Odilon Flor, participou do combate onde foram mortos os cangaceiros Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. O combate aconteceu no Riacho do Negro, em Sergipe.

A volante de Odilon Flor seguiu os rastros dos cangaceiros e próximo a cidade de Coité (hoje Paripiranga) chegaram na casa de um coiteiro. Os policiais cercaram a casa, no curral tinha uma janela e avistaram umas perneiras, roupas e garrafas de bebidas. Os policiais entraram na residência e perguntaram a mulher sobre os cangaceiros. O marido da mulher foi chegando e os soldados deram voz de prisão. Odilon Flor ordenou: 
 - Gérson vá mais Luiz pra trás da roça e mate esse coiteiro!
O coiteiro pra não morrer prometeu entregar os cangaceiros. A volante seguiu com o coiteiro nos rastros dos cangaceiros indo encontrá-los às onze horas da noite. O combate noturno travado entre 15 policiais e 08 cangaceiros foi ferrenho. Odilon Flor foi baleado nas nádegas, os cangaceiros tiveram uma baixa de 03 componentes do grupo. Os policiais cortaram as cabeças e ainda à noite as colocaram em um carro de boi e levaram até Paripiranga. Na cidade, a população pôde ver as cabeças de Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. Gérson passou a receber o soldo de sargento depois da morte dos cangaceiros.


Conduzindo a musa

Quando Zé Rufino matou Corisco e baleou Dadá, Gérson e seu irmão Abdias Pionório foram buscar Dadá em Paripiranga e a trouxeram pra Jeremoabo. Dormiram em Sítio do Quinto, revezando os dois irmãos a guarda da cangaceira baleada.

A convivência de Gérson e Zé Rufino foi marcada por discussões. Acusa que Zé Rufino descontava do soldo dos soldados pra pagar o que eles consumiam dos sertanejos, mas na verdade ficava com este dinheiro.

O volante participou também da prisão do matador Peixoto, assassino que aterrorizou várias cidades baianas. O bandido Peixoto matou um rapaz em Santo Antônio da Glória e foi preso depois de uma longa perseguição. Peixoto fugiu da cadeia de Glória e foi se esconder em Sergipe, na cidade de Simão Dias, sob a proteção do fazendeiro "Dorinha".

Gérson, João Ribeiro, Gervásio Grande e mais alguns soldados foram a Simão Dias e prenderam Peixoto e o levaram para Paripiranga. De lá foram levar o preso pra Salvador. No trajeto, quando passavam na cidade de Boquim, centro sul de Sergipe um juiz de Direito se aproximou dos policiais e do detento e pediu aos soldados que soltassem o preso que ele era um "coitadinho".

João Ribeiro pegou um mamão e jogou no juiz. O mamão espatifou-se nos peitos do juiz sujando sua roupa de linho branco. O preso foi entregue em Salvador.

Gérson trabalhou um bom período para a família do político Nilo Coelho, vive há muito tempo em Paulo Afonso e é sargento reformado da polícia baiana. Lúcido, conta suas histórias e fala com saudades do tempo em que andava nas caatingas em perseguição aos cangaceiros.


 Guarda junto aos documentos algumas orações e um crucifixo que ele tem desde que entrou na polícia e acredita que só não morreu nos tiroteios por força dessas orações.


Paulo Afonso, Bahia, 07 de março de 2013.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Foto inédita na literatura

Esta foto vocês já conhecem...

 Jurema, Jureminha e Nevueiro

E a do seus "três matadores"?


Otacílio, José Calixto e Alfredão

Os três deram cabo dos cangaceiros na fazenda Cabeçuda, próxima de Uauá-BA. Esses cadáveres não foram exumados como Corisco e haviam sido levados do local das mortes, direto para a cidade de Uauá, onde foi batida a foto.

Detalhes mórbidos: Aquela coisa branca na boca do "Jureminha", dizem ser coalhada que o bandido comeu em excesso no coito antes de serem surpreendidos pelos matadores. Apesar da foto P&B é nítida a saponificação dos cadáveres, um processo de mumificação natural, os lipídios se transformam em sabão, dando origem a uma substancia conhecida como "adipocera". (Substância cerosa ou untuosa, acastanhada, que consiste principalmente em ácidos graxos e sabões de cálcio e é produzida por alterações químicas que afetam a gordura e músculos e que precisa de muita umidade para acontecer).

Ainda na mesma foto vemos claramente as cordas nas pernas dos cangaceiros e que foram utilizadas para amarrar os corpos nos cavalos que os transportaram da fazenda até a cidade. Otacílio, José Calixto e Alfredão eram civis.


Fotos: Rubens Antônio
Texto: Marcelo Toledo

domingo, 3 de março de 2013

Nota de falecimento

Aos sócios e amigos da SBEC.

Comunicamos o falecimento do Prof. Gonzaga Chimbinho ocorrido neste sábado, 2 de março. Gonzaga era Ex- reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e proprietário da Livraria Independência, na cidade de Mossoró.
 

O Prof. Gonzaga Chimbinho através de sua empresa sempre esteve ao lado de nossa entidade em todos os eventos organizados.
 

Neste momento de luto queremos enviar à família nossas condolências.


Prof. Gonzaga Chimbinho
 
* O velório ocorre neste domingo, dia 03 de março, no Teatro Municipal Dix-huit Rosado, em atendimento ao pedido do professor Gonzaga Chimbinho. O horário do sepultamento não foi informado.
 
Descanse em paz colega professor Gonzaga.

Att. Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC

* Informações do site da UERN 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Humberto de Campos

Três vezes Lampião
Por: Manoel Neto

Popularíssimo nas primeiras décadas do século passado com uma legião incontável de leitores espalhados por esse país continental, Humberto de Campos Veras, maranhense, nascido no ano de 1886, em Miritiba – cidade que hoje carrega o seu nome – morreu prematuramente no ano de 1934, aos 48 anos, no Rio de Janeiro, para onde se transferira em busca de melhores condições de trabalho e de vida, tendo com ele desaparecido sua popularidade, sendo hoje absolutamente ignorado pela grande maioria dos brasileiros, mesmo àqueles menos desinformados.

Garoto pobre, órfão de pai nos primeiros anos da sua breve existência, Humberto cedo conheceu a obrigação cotidiana do trabalho, transformado que foi com o passamento do seu genitor, em arrimo de família. As tarefas cotidianas se dificultaram sua ida à escola não o afastou, porém, dos livros e das leituras, amor que carregaria por todo tempo.

Autor prodigioso, dono de uma prosa fluente e erudita, porém, saborosamente coloquial, o escritor maranhense que também viveu no Pará, estreou na literatura com o volume de poemas “Poeira” entregue ao público em 1910, quando contava 24 anos de idade. Capítulo em separado dos seus escritos são os “Diários Secretos”, narrativa em dois volumes que postumamente lançadas provocou escândalo entre os intelectuais e a sociedade como um todo, em razão das inconfidências e comentários desairosos sobre figuras de destaque na vida pública da Capital Federal, o  provocando constrangimentos generalizados.

Desembarcado no Rio de Janeiro em 1912, procedente de Belém do Pará, onde já se fizera notório como cronista escrevendo para os jornais “Folha do Norte” e “Província do Pará”, galga prestígio rapidamente e já em 1919 é eleito para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira número 29, sucedendo ao seu amigo Emílio de Menezes, láurea que vai lhe acrescer em fama e respeito junto aos seus leitores e pares.



Humberto de Campos

Prosador e poeta, crítico, jornalista e político, Campos nos legou uma obra que relida nos dias que correm demonstram o seu talento singular, em que pese fortemente marcada pela temporalidade, o que por outro lado nos permite também revisitar o país que Humberto viveu e reportou com a assiduidade de um militante da palavra que ele incontestavelmente o foi, Diria mesmo que os seus textos são fontes documentais valiosas para o historiador que deseje estudar o Brasil daqueles dias tumultuados.

Pois foi relendo um dos seus muitos trabalhos, conjunto de crônicas  reunidas e que originaram os volumes “Notas de Um Diarista”, publicados em duas séries, nos anos de 1935 e 1936, após o falecimento do escritor, que surpreso constatei não ter passado despercebido ao cronista, as façanhas do Capitão Virgolino Ferreira nas caatingas da Bahia e outros estados nordestinos. Ao contrário, mais de uma vez ele fez do cangaço o seu tema, o que ratifica ter sido o assunto recorrente na imprensa “brasilis” do Oiapoque ao Chuí. 

A primeira destas crônicas – “A Última Proeza de Lampião” – estende-se da página 27 a pagina 30, em frente e verso. Logo de saída o articulista anuncia a sua fonte de informação:

“Um telegrama da Bahia, publicado ontem no Rio de Janeiro, descreve mais um feito sanguinário do maior e mais terrível sanguinário que tem imperado nos sertões do Brasil: a frente de 60 apaniguados ferozes e bestiais, “Lampião” invadiu a vila de Curuçá [1] (sic), estuprou, roubou, depredou, matou, afixou, enfim, em cada rua e em cada casa, o selo fatídico e vermelho  que assinala sempre a sua passagem. Quinze homens válidos e pacíficos tombaram sangrados pela suas mãos. E o coração de um deles, arrancado pela garganta, foi levado em troféu entre gritos de animação, de entusiasmo e de vitória”. (CAMPOS. Notas De Um Diarista, p. 27).

O forte apelo dramático do texto não é casual. Ao apresentar para seu leitor homens ferozes e bestiais, violentos e capazes de ações que nos remetem a barbárie, Humberto de Campos não foge a regra vigente, era assim que a mídia retratava os cangaceiros. Demonizá-los era imprescindível para justificar a violência do braço aramado do Estado. Não há dúvida que os bandos que infestavam o Nordeste, usavam o terror como instrumento de coação e controle sobre as populações, notadamente os grupos sociais mais vulneráveis, geralmente trabalhadores rurais e pequenos proprietários. Para aqueles que não aderiam direta ou indiretamente ao cangaço, integrando os bandos ou servindo como coiteiros e informantes, a existência era perturbada pela atribulação, pela violência que partia tanto dos grupos marginais, quanto do próprio Estado, através das volantes que agiam de forma arbitrária e discricionária.


Curaça em dias atuais
In: www.geraldojosé.com.br

Quanto à notícia propriamente dita ela merece muitos outros reparos. Que a  região e a cidade eram local de passagem contumaz dos malfeitores e das forças de repressão é fato incontestável. Duvidosa é a informação de que Virgolino se fizera acompanhar de “60 apaniguados”, quando nesta fase da luta o Rei do Cangaço já procedera à subdivisão do seu pessoal dispersando-os em pequenos ajuntamentos, visando maior mobilidade e, por consequência, mais segurança. Por outro lado ataque de tal monta, com tantos mortos, mutilados e violência sexual repercutiria muito mais amplamente. Na Bahia mesmo temos como exemplo a chacina em  Queimadas, no ano de 1929, incidente até hoje fartamente documentado e referenciado por escritores, jornalistas e pesquisadores.

Compulsando documentos Curaçá e sua história, recolhemos algumas informações bastante úteis e esclarecedoras que nos ajudam a dissecar os acontecimentos mencionados pelo cronista. Vejamos:
1) Em 1933 – a crônica foi escrita após 1930 e não pode ultrapassar 1934, ano do falecimento do autor – o município de Curaçá além da sede englobava os distritos de Ibó, Chorrochó, Patamuté e Barro Vermelho – todos com registros de ocorrências que relatam a passagem de cangaceiros. Várzea da Ema ponto de visitação repetido dos cangaceiros e que até 1911 pertencia a Curaçá, em 1933 já não integra o município sanfranciscano.

2)  “Documento publicado em 2004, noticiando história do município, no capitulo referente ao “Processo de Urbanização de Curaçá”, anota: “ [...]
3) Recordam-se os mais velhos que no início da década de 1930,  inúmeras casas foram construídas nos limites da cidade pelos produtores rurais. Estes abandonaram suas roças do interior do município por sentirem-se vulneráveis diante do conflito existente na região provocado por Virgolino Ferreira da Silva, conhecido por Lampião, o Rei do Cangaço, Lampião chegou a liderar 200 cangaceiros e a milícia destacada pelo Governo para matá-los era conhecida como volante. “A população rural amedrontada temia tanto os cangaceiros pela sua violência, como as volantes pela sua maldade e perversidade (grifo nosso)”.(AGENDA 21. Distrital, p. 8)
Recorremos ainda a estudiosos que se mostraram surpresos não só com a existência das crônicas, mas, sobretudo, a menção de um ataque de tamanha virulência naquela cidadezinha sertaneja.

Antonio Amaury e Kiko Monteiro

O mestre Antônio Amaury Correa de Araújo, nome que dispensa apresentação pela credibilidade e conhecimentos sobre cangaço e cangaceiros, nos informou que Lampião realmente esteve em Curaçá na década de 1930, sendo que na ocasião duas mortes ocorreram, até porque, os membros da família Engrácia, de cujo seio saiu 23 cangaceiros – dentre eles Antônio e Cirilo de Engrácia – eram naturais da região, sendo, pois, bastante conhecidos naqueles lugarejos, o que assegurava relativa tranqulidade aos salteadores, que se mostravam sempre bem informados e municiados pelos amigos que mantinham naquelas paragens.

Deu-nos ciência Amaury que estes dados lhe foram transmitidos por certo Sr. Cândido, mais conhecido como Candinho, nascido e criado em Curaçá e testemunha presencial do acontecido. Sobre o assombroso número de 15 mortos, uma delas tendo o coração de “tirado pela boca” o coração, o renomado pesquisador não tem notícia, classificando-a como a muitas outras, de informações fantasiosas da imprensa da época.

Não pretendemos em absoluto negar os crimes, alguns bastante cruéis, cometidos pela gente do cangaço, ao contrário, como já mencionamos neste texto o uso do terror como forma de intimidação foi uma estratégia largamente utilizada pelos cangaceiros. Como sempre ressalta o escritor Frederico Pernambucano de Melo, este é um procedimento que dificultava, sobremaneira, a ação coibidora do Estado, porquanto, inibe o aparelho policial e judiciário, em decorrência da inexistência de testemunhas que se dispusessem a depor, temerosas das represálias que certamente ocorreriam advindas dos denunciados. Voltando ao documento produzido pela AGENDA 21, parcialmente reproduzido acima, é importante a menção às fontes orais ouvidas pelos pesquisadores, confirmadoras da “maldade e perversidade” das volantes. Sempre é bom lembrar que trajados de maneira muito assemelhada aos cangaceiros, composta em esmagadora maioria por homens nascidos e criados nos sertões nordestinos, as guarnições militares que percorriam as caatingas em perseguição aos bandoleiros, cometiam seguidas arbitrariedades, não poupando, inclusive, idosos e inocentes, não sendo incomuns queixas de abusos sexuais cometidos pelos soldados e, até mesmo, alguns graduados.

Dando curso as suas reflexões Humberto prossegue alertando que o prolongamento do fenômeno e a inconcebível, para ele, impunidade dos transgressores, começa a gerar indiferença entre os brasileiros, Escreve observando que [...]

“A princípio, ao ler a comunicação de uma destas façanhas o país se comovia e indignava, reclamando dos poderes públicos o ponto final para o feio poema de sangue e lama. As vozes que se erguiam, foram, porém, caladas nos peitos que as emitiram. È hoje com indiferença quase criminosa que se tem conhecimento dessas selvagerias do bandoleiro. E Lampião de pavio aceso, continua desafiando o Brasil (CAMPOS, p. 27).

Atribui essa indiferença da opinião pública antes tão sensível ao noticiário sobre o assunto a incapacidade das autoridades no Governo Federal e nos Governos estaduais diretamente afetados pela insidiosa atividade do cangaço, para enfrentar e dar cabo de lampião e seus seguidores. Para ele falta vontade política, determinação administrativa e investimento financeiro para derrotar os bandidos, embora reconhecendo que “O Governo da República tem uma infinidade de problemas a resolver” (Cf. ob.cit. p. 28). Indaga se “ os Estados nordestinos não possam reunir um contingente de 200 homens, escolhidos entre os melhores elementos das suas milícias policiais?”(idem).Repara que os governos quando desejam perseguir adversários políticos são ágeis e eficientes, inferindo:

“A sofreguidão com que se organizam forças para a politicagem dos governos, e a impossibilidade, que se encontra em mobilizá-las para a defesa do povo e da dignidade nacional, não constituirão um índice triste e amargo da capacidade ou da incapacidade dos homens públicos do nosso tempo? (ibidem).

Não quer ou não consegue perceber que o cangaço é decorrência das mazelas históricas da sociedade brasileira, no caso, em particular, da vida rural no Nordeste. Insulados nos latifúndios imensos, submetidos com suas famílias a tutela dos coronéis poderosos, os camponeses, vítimas desvalidas dos potentados, fazem-se descrentes do juiz e do delegado, do organismo judiciário e policial, “lavando com sangue” em alguns casos a honra de  uma filha molestada sexualmente ou uma desfeita que lhe humilhou e ofendeu de forma profunda. Feita a desgraça não há mais retorno Muda de hábitos e de vida. Caminha lado a lado com outros homens induzidos por diferentes ou pelas mesmas razões àquele caminho.

Não compreende Humberto de Campos, talvez antolhado pelo espírito da época, que a subsistência do cangaço somente ocorre por interesses das classes dominantes e das autoridades. O fornecimento de armas, munições e alimentos, a venda de informações estratégicas e o uso dos grupos armados para intimidar e eliminar adversários políticos e concorrentes comerciais sabemos hoje, proporcionou lucros e prolongou o poder de muita gente boa. Sem coiteiro o cangaço não teria duração tão prolongada. Lampião, Corisco, Zé Baiano, Ângelo Roque, Gato e tantos outros, tornaram-se profissionais numa atividade altamente compensadora, arriscada, periculosa, desconfortável quase todo o tempo, entretanto, com lucros materiais nada desprezíveis.


Ângelo Roque, vulgo "Labareda"

A produção do próprio espaço em que operava foi tarefa que o gênio de Lampião empreendeu com absoluta competência. Teceu com paciência e habilidade de negociador político arguto, diversificada rede de colaboradores, que foram decisivos para o funcionamento e a dinâmica do cangaceirismo. Mesmo nos momentos mais duros, como nas grandes estiagens, essa rede logística podia claudicar, entretanto, não deixava de prover as necessidades das “tropas cangaceiras”. Assim o dinheiro circulava, corria solto, cevando os bornais de muito graúdo. Se múltiplos fatores podem explicar o cangaço, não menos complexas são as causas da sua extinção. Quando a roda inexorável da história gira, cumprindo a sua dialética irreversível, a realidade se altera carregando de roldão mais cedo ou mais tarde, de uma ou de outra forma, todos que não compreendem este processo ou contra ele se colocam por convicção política e ideológica.

Voltando ao texto de Campos, nos parágrafos seguintes ele imerge em duas considerações capitais para o entendimento do seu modo de pensar. Ao final da página 28 e no começo da seguinte, ele retoma a idéia de que o banditismo rural, tomando aqui o conceito de Hobsbaw [3], apresenta-se já como uma “calamidade comum, ordinária, como a lepra, como a tuberculose, como as epidemias que, pela persistência e continuidade, se tornaram familiares” (CAMPOS, PP. 28. 29.

Usa ainda um exemplo que foi buscar no historiador paraense Ignácio Moura [4], que segundo Humberto, informa em um dos seus estudos “que no Alto Araguaia há quarenta anos, o bócio [5] era tão vulgar, e se achava tão generalizado, que as pessoas sem papo eram olhadas, quase, como defeituosas” (Cf. CAMPOS, p. 29).

O texto na sua continuidade ingressa em etapa propositiva e a panacéia é objetivamente indicada, remédio ortodoxo e prontamente erradicador do mal: “Já é tempo, entretanto, de os homens que têm uma pena apelarem para os homens que têm uma espada, em lugar de se dirigirem, apenas, àqueles que têm o mando” [...] Há no Exército, e nas milícias dos Estados do Sul, numerosos oficiais briosos e valentes, nascidos nas regiões que Lampião castiga com a sua ferocidade e humilha com a sua depravação São baianos, alagoanos, sergipanos, pernambucanos, cearenses, rio-grandenses-do-norte”  (ob.cit. p. 29).

Fica evidente que a proposição é federalizar o problema, solução que na cabeça não só do escritor maranhense, mas de muita gente, equacionaria o impasse da falta de recursos humanos e armamentos. Nada de novo no front.  Inevitável evocarmos aqui a história e colhermos no fundo do baú os exemplos de Canudos, Contestado, Caldeirão Grande e Pau de Colher [6], sublevações camponesas com fortes conotações religiosas, que tratadas como assuntos meramente policiais produziram resultados sangrentos.

Profundamente apegados as suas crenças e crendices, os cangaceiros de um modo geral não se apartavam dos seus santos, rezas e escapulários, para não falar das correntes com medalhas e relicários, objetos pelos quais tinham predileção estética e devoção contrita. Todavia, se oriundos da mesma matriz social e física e perlustrando o mesmo espaço geográfico, cangaceiros e beatos seguiram rumos diferentes. Os beatos eram pastores de almas e obcecados realizadores de obras civis e religiosas, como demonstram os apostolados operosos do Padre Mestre Ibiapina, de Antonio Conselheiro e do Beato José Lourenço [7]. Lampião seus companheiros e seguidores não se propunham a reformar o mundo ou a uma prática social profilática junto à pobreza, agiam exclusivamente para sobreviver e garantir o amealhamento de valores em dinheiro e metais preciosos. Vez por outra, mormente, quando precisavam de ajuda ou informação, sabiam ser generosos e pródigos na distribuição de favores e numerários. Cultivavam também seus afetos e cuidavam para que os seus amigos e familiares tivessem existência menos atribulada, na mediada do possível. Ao concluir sua crônica Humberto de Campos, ressalva:
“Bato, neste momento, pela primeira vez, com a minha mão de paisano, à porta dos quartéis. E tenho quase a certeza de que meus olhos não verão em nenhuma delas o dístico da porta do Inferno, o qual ordenava aos que entravam, que deixassem, ali, toda a esperança.... “. (CAMPOS, ob.cit. p.30).
Finaliza como iniciou, repercutindo a notícia telegráfica que lhe ordena à consciência por cobro ao cangaço, infrene e desinteressado sobre as causas e sobre os homens que de pacatos camponeses transformaram-se em salteadores de estradas e cidades, latrocidas e sequestradores, como se tal forma de vida não os castigassem severamente. Afinal quase todos tiveram vida breve, morreram jovens e os que sobreviveram jamais voltaram a delinqüir. Mas o notável escritor a isso não pode ver, porquanto, ele também partiu prematuramente. 
[1] Curuçá, como grafou Humberto de Campos é uma cidade do Pará, como também, um distrito  com topônimo semelhante, pertencente à cidade de São Paulo.  Na Bahia existe o município de Curaçá, cuja existência como tal remonta ao final do século XIX, mais precisamente 1890, quando o local foi elevado a categoria de cidade, estando inserido até hoje me zona onde transitaram e de onde saíram muitos cangaceiro zona do semiárido baiano.
[2] Ouvimos também os escritores e pesquisadores Oleone Coelho Fontes e Luiz Rubem Bonfim, autoridades reconhecidas na matéria, que desconheciam o fato mencionado no telegrama que Campos tomou como fonte para o seu comentário.
[3] Hobsbaw. Eric.Bandidos. Editora Forense Universitária. Rio de Janeiro, 1976. 148 p.il:.
[4] Ignácio Moura (1857-1929), nascido em Cametá, município paraense, era jornalista, escritor, professor, poeta.
[5] Bócio- Moléstia que ataca a tireóide, sendo popularmente conhecida como “papo”.
[6] Canudos e Pau de Colher na Bahia. Caldeirão Grande no Ceará e o Contesto entre os Estados de Santa Catarina e Paraná. O rescaldo final da repressão soma milhares de mortos, inclusive, velhos, mulheres e crianças.
[7] Ibiapina fundou as Casas de Caridade que assistiu e educou centenas de mulheres pobres. Antonio Conselheiro ao longo de sua caminhada ergueu e reparou templos e cemitérios, além de providenciar aguadas e pequenos açudes para saciar as populações esquecidas dos sertões. Quanto ao beato José Lourenço transformou em fértil e produtiva propriedade as terras do Caldeirão.


Manoel Neto
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