quarta-feira, 25 de março de 2020

A danação em Nazaré do Pico

O casamento de Licor (prima de Lampião)

Transcrição da Obra do Padre Fredercio Bezerra Maciel, por Raul Meneleu.

No arruado de Nazaré nos idos de 1923, era o cochicho entre os moradores, esse casamento e a vinda de Lampião para assistir esse evento. Contava Nazaré com uma capela, vinte e sete edificações ( casas, casebres e quartos) alinhadas em uma única rua, sendo doze do lado do riacho Ipueiras, dez no riacho Carqueja e cinco ao sul, de frente para a capela. Era assunto palpitante e preocupante.


 Nazaré do Pico em 1967

Como em todo lugar que junte gente, tinha ali naquela pequena povoação o ponto certo pra se ouvir as "urtimas" e esse é claro, era a barbearia de Manuel Flor que segundo o Padre Frederico, era o local onde "aviciados em conversas de toda versidade" reuniam-se para "sortar as premeras do dia".

- "Tem muita volante esgravetando esse sertão brabo na persiga de Lampião!"

E citavam seus comandantes, homens de têmpera de aço, a perseguir o famoso cangaceiro e seu bando.

- "Mas Lampião diz que gosta que persigam ele e açula pra briga de vera. O cabra é da peste!"

- "Nunca mais fartou volante aqui. É uma atrás da outra."

- "Inté se espera uma no casamento de Licô."

- E Lampião num vem mermo pru casamento da prima!"

- "Danega! Já tou vendo: vai ser bala quiném os trinta!"

Rapazes e meninotes não davam palpite. Apenas ouviam, aperuando.

Depois do banho de cuia no fim das lidas do dia, cheirando a folha de mato novo, ao mesmo tempo mesmo tempo que preparavam a ceia de coalhada adoçada com rapadura raspada, pão de milho e café, três cabrochas bisbilhoteiras tagarelavam:

— "Visse o vestido de Licô como está dolero?
— "Os apreparo da festa são grande mesmo!"
— "Pie só: sabe quem vem pra festa?
— "Lampião!"
— "Ele e os menino. Tem cada um da pontinha!..."
— "Eu acho Juriti e Antônio Rosa os mais bonito".
— "Dextá, o mais bonito é Lampião!"
— "Ah! isso é", — confirmaram as outras duas a uma só voz.
— "Açoita os mais todos!"
 
O noivo Enoque e Maria Licor
Acervo Lampião Aceso

Sá Leopoldina, cabocla escura e franzina, a cabeça enrolada com um regô, dona do único hotel local, resumido a uma latada, coberta de mato, em frente do chalezinho de taipa onde vivia. Servindo almoço a dois fregueses de passagem para o vilarejo de Santa Maria, comentava se rindo toda:

— "Lampião tem o coração muito bom para as fraqueza dos pobre. Inté ajuda com dinheiro e de-comer. Toda a vez que aparece pruraqui, compra muito pano nas loja de seu Zé Tiburtino, de seu Quinca e de seu Gominho e dá a pobreza. As irmãs de Mané Neto recebero bastante vestido".

Enquanto eram fritados os mandins que pescara num poço do riacho Ipueiras e aguardava os aficionados do jogo de que era aviciado, Raimundo do Pico, sentado num tamborete na calçada de sua casa e muito ancho na sua sanfona de oito baixos, tocava "Mulher Rendeira", dizendo para os passantes: — "Gosto dela! Foi Lampião que fez os verso e a musga se alembrando de sua avó, a Tia Jacosa, que criou ele e era rendeira. ."
O casamento de Licor foi o momento culminante do rompimento definitivo, que aos poucos vinha se processando, em desde 1919, através de tranças e atritos frequentes, entre os Ferreiras e nazarenos.

Maria Licor Ferreira de Lima, simplesmente Licor, era prima legítima de Lampião, cujas mães eram irmãs. Sabedor de seu casamento, chegou Lampião no dia marcado para sua realização, a 31 de julho de 1923. Ao sol ardente e faiscante do meio dia, penetraram, inesperadamente, na povoação, dezesseis cangaceiros na ativa, sob o comando de seu garboso e elegante chefe, Lampião.

Além de seus irmãos Antônio e Livino, tinha Meia Noite, Juriti I e seu irmão Batista, Manuel Tubiba, Chá Preto, o corneteiro Firmo, Caixa de Fósforo, Piloto... Antes, arredadas duas léguas para trás, deixara estrategicamente Lampião, perto da serra do Pico, na fazenda Enforcado, de seu amigo Pedro de Engrácia, um grupo tático de reserva: oito cangaceiros sob o mando de um cabra macho, Antônio Rosa.

Entre as armas, portavam os cangaceiros rifles papo amarelo e cruzeta, exceção de Lampião e de Chá Preto que conduziam mosquetões. Traziam, também, alguns chicotes de fio cortado da linha telegráfica.



O primo famoso em foto de 1922
Foto de Genésio Gonçalves

Postadas sentinelas em cada esquina da rua, espalharam-se os demais pelas casas, indo logo beber truaca e zinebra "Gato" nas vendas de João Ferreira e Enoque de Sá Menezes. Surpreendida, assustou-se a população. De logo correram boatos: que Lampião tinha vindo para ajustar contas... tirar forra de questões passadas... aquelas Peias eram para dar pisas...

O povo todo sabia que não era coisa do gosto de Lampião aquele casamento de sua prima com Enoque, um sujeito calabar, suspeito de informante à polícia dos movimentos do seu grupo. O destacamento policial local, de seis praças sob o comando do cabo João Cabecinha, cujo quartel era a casa-da-rua cedida por seu dono, Gomes, havia sido retirado pelo delegado de Floresta.

Certo de mesmo, a propalada vinda de forças volantes para aqueles dias.

Cerca das duas da tarde. Pela estrada, vindo de Vila Bela, chegara, com seis horas de viagem, o vigário da freguezia, Padre José Kehrle, ou somente Padre José, mais por simplificação do falar do que pela dificuldade da pronúncia do sobrenome alemão.

Montava a cavalo, guarda-pó branco revestindo-lhe a batina preta e grande chapéu de palha na cabeça e ensombrando-lhe o rosto vermelhão, onde pespegadas as duas bolas azuis de seus olhos buliçosos e vivos.

Lampião tocando na sanfona de Raimundo do Pico, debaixo da latada da feira no meio da rua. Os cabras por todos os lados. Com a chegada de seu vigário, os cangaceiros, nos seus alegramentos, soltaram foguetes, salvando seu estimado amigo e conselheiro. Com os papocos, o animal espantou-se muito, quase Derrubando o reverendo cavaleiro no chão.

Um dos cabras, porém, dominou a montada, segurando fortemente as rédeas abaixo da brida. Os outros se aproximaram, e pedindo a bença beijavam a mão do padre, que os abençoava e retribuía os cumprimentos, satisfeito e agradecido.

Costumava o bom vigário, nas desobrigas mensais em Nazaré, hospedar-se na casa de Antônio Gomes Jurubeba, ou simplesmente Gomes. Mas, este, logo da chegada dos cangaceiros, fugiu para sua fazenda, deixando a casa trancada. Ficou assim desarvorado o vigário, no meio da rua, por um momento sem a ter para onde ir. Não teve dúvidas João Ferreira, acolhendo-o, imediatamente e de muito gosto, em sua residência. atitude insólita de Gomes, taxada de "ignorância", porque não tirava as coisas por menos, e censurada até por amigos e parentes como "afrontosa" ao padre, acirrou ainda mais os ânimos desconfiados, arredios, prevenidos e recalcados de toda 'aquela gente. Aceso assim o estopim de uma explosão preparada e prestes a rebentar em consequências irreversíveis.

Confiado no apoio e no respeito que o vigário imprimia com sua presença na terra, Alfredo Ferreira de Lima, irmão da noiva, sentindo o ambiente tenso reinante, fora ter com Lampião, fazendo-lhe ver que não ficava bem, num dia de festa como aquele, a sua vinda com o bando assim solto, acintosamente armado, e, às bicadas em desde que chegaram.

Meio agastado, Lampião olhou-o a fito com olhar desafiador e o dedo nas fuças do primo:

— "Deixe de bestage! Eu sóstou você acolhendo bandido de gravata, bandido encapado..." Referia-se a certas autoridades que faziam muito pior do que os cangaceiros.

E, ainda puando: — "Nós também somos gente, podemos participar da festa". Nesse momento oportuno apareceu um homem de muito preceito e respeitado, Cândido Ferreira que, auxiliado pelo Padre José, pôs termo àquela discussão e convidou Lampião a ir à sua casa.

Na residência de Cândido começou Lampião a puxar o fole. Os cabras dançando com as moças... muita alegria... Cândido, de sobrosso, reclamou essa dança a modo de não se comprometer depois com as autoridades embuanceiras. Lampião, compreensivo e sem dizer nada, guardou a sanfona. Porém, seu irmão Livino, enticado com a atitude do tio estragando aquela gostosa e singela brincadeira, ficou com a goitana e disgranido ameaçou: — "Pois aqui ninguém dança mais, senão tudo se acabal..." Deu de mão de sua mausa e levantando-a para o alto, sortiu a sala com gritos repetidos: "... se acaba Nazaré!" E mais: — "Não tou esquecido da cicatriz no ombro! Quero todos os rifles de todo mundo agora, aqui, senão boto fogo nas propriedades".

Foi um tendéu danado... Padre José conseguiu a custo amoitar o ânimo exaltado dele, sob promessa de que não haveria dança. E aproveitou o ensejo para mandar os noivos se aprontarem logo.

Esperava Livino pelo tocador, Luís, de Andréza, gente de Zé Saturnino, contratado para a festa dos noivos. — "Quero dar uma pisa nele e rasgar a harmônica". Mas o tocador, sabendo em caminho, da presença de Lampião, no casamento, deixara-se, escabreado, ficar na fazenda Zé Dias, de Chico Flor, onde estava homiziado Luís Soriano, e dali mesmo se esgueirou, sumindo-se, que não era besta, não.

O cortejo

Às quatro horas da tarde, saiu o préstito nupcial para a igrejola, com muitos convidados fazendo par, braço dado, exibindo-a lordeza matuta e ladeados de alguns cangaceiros, respeitosos, chapéus na mão.

Nessa ocasião apareceu Davi Jurubeba com estranha idéia, que depois se deu o nome, mais estranho ainda, de "conspiração". Vendo os nazarenos perdidos, Davi teve a idéia de convidar Manuel e Euclides Flor para escolherem tantos nazarenos quantos dessem para cada um se encarregar de matar um cangaceiro. Os cangaceiros não estavam juntos, mas espalhados pelas casas de Cândido Ferreira, D. Joaninha Ferreira, João Ferreira, Anízia da Ipueira... o que facilitaria o "serviço". Essa "opinião de doído" teve imediata repulsa de João Flor: — ".É, vocês faz isto e eu vou morrer?» Significando que não dava certo e temia por sua sorte.


 Davi Jurubeba em 1978
Acervo Lampião Aceso

A noiva, como sempre, objeto máximo das atenções. Vestida de branco vuale suíço, comprido véu descendo da grinalda — um primor de capela com arranjos de flores de laranjeira de seda branca e botões de goma —, enfim toda linda, distribuindo sorrisos, uma graça de brejeirice... Na passagem do acompanhamento por frente da casa de Cândido, os que estavam sentados em cadeiras na calçada se levantaram, mas Antônio Ferreira ostensivamente virou as costas. Além de não simpatizar com o noivo, suspeito de falso e denunciante, curtia ele paixão arrecolhida, de penar e de tristeza, pela noiva, com quem, outrora, antes do cangaço, apiançava casar-se.

Após o casamento, a fim de desanuviar o ambiente, combinaram os parentes da noiva botar mesa, na casa dela própria, onde os cangaceiros, de apetite aceso, se serviriam juntamente com o Padre José. Durante a janta, tendo Lampião sentado a seu lado, o Padre José, que lhe tinha amizade e muito o admirava, persistente aconselhava: — "Deixe essa vida. Você não é para estar nesse bando. Você .não é ovelha negra, desgarrada..." — "Num tem jeito, não — respondia Lampião. Num quiseram assim? Mataram meus pais. Desmantelaram minha família e negócios. Querem me matar também. Vou até o fim... Ë o meu destino!"

A contrafesta

Terminada a janta, que foi lauta e de tudo o que o prato sertanejo dispõe, aos insistentes pedidos de seus tios Cândido e João, e de sua tia D. Joaninha, foi Lampião, com os seus, fazer arranchação na fazenda do velho preto Antônio do Campo Alegre, obra de menos de quinhentas braças do povoado, do outro lado do Ipueiras.

O bando passou a noite na casa de Sebastião Eusébio onde Livino, ferido, se refugiara, em 1919. À luz amarelenta e vacilante de cuviteiros fumacentos, uns Jogando bozó, outros dançando com cabrochas vindas da rua, outros versejando cantigas no improviso, a sanfona sempre roncando...

Aproveitando a ida de Lampião com seu grupo para Campo Alegre, saíram os nazarenos, nas caladas da noite, para se armarem. Entre eles, Davi Jurubeba, Manuel e Euclides Flor, Gomes Jurubeba, Manuel e Pedro Gomes... aos quais se juntaram Mais outros, ao amanhecer, num total de quinze. Intencionavam cedinho ocupar a 'dia e esperar pelos cangaceiros, mas acharam que eles, os nazarenos, eram "poucos".

Aos acordes animantes da "Mulher Rendeira", foi repisada com ovações a quadra sarcástica:

 "Os cabras de Nazaré
        Chorava que faz horror
             Com pena das muié
                 Que Lampião carregou".

O vilarejo, porém, afogado dentro duma noite desalegrada e de cruviana... Nenhum pé de pessoa na rua. Apenas o grugunhado de gente na casa da noiva, sob a luz dos pavios espevitados das placas.

O Carreiro de Santiago luminando lá na escurideza do infinito...
Cantos de galos tristes rasgando pela madrugada o silêncio da natureza...
No oco de um pau seco, caburés, frientos e arrepiados, piando, agoirentos... De vez em vez, e isto até o quebrar da barra, em revezo contínuo, chegava a Nazaré um cangaceiro.
Encontrando-se com dois deles, perguntou Cândido:

— "Que é que vocês estão fazendo aqui?"
— "A gente — repostou um deles — está jogando lá, e passa uma pessoa e diz: — "Vamos pra rua?" e a gente vai..." Mentira, a modo de ocultar que estavam boscando, inteirando se havia dança.

A Missa

Quando foi o rasgar do dia seguinte, 1° de agosto, chegaram mais dois cangaceiros na rua e foram logo se justificando diante de Cândido, atento a seus movimentos:

— "Passemos a noite inteira sonhando uma voz que mandava a gente ir pra Missa. A gente, também, é cristão, ninguém é cão, não".

A pouco e pouco os outros foram chegando até se completarem os dezesseis.

Da calçada da capela, adonde desarriaram o equipamento, ensarilhando as armas, em cujo entrançamento das bocas se dependuravam as cartucheiras, deitados no chão os bornais refertos e cobertos pelos chapéus de couro, os dezesseis assistiam, com toda a fé e respeito, à Missa, que foi cedo, às 7,00; porque seu vigário estava vexado, tinha de ir logo simbora. A pequena igreja estava dura de gente atochada. Gente do arruado e de toda a redondeza. O canto do Oficio da Imaculada Conceição se arrastava, dominantemente por vozes femininas, quiném querendo não chegar ao fim, numa latomia dolente característica da sofrida alma sertaneja:

— "Dai pressa Senhora
           Em favor do mundo,
                Pois vos reconhece
                     Como defensora".

Para sua breve prática, o padre tomou por tema o profeta Jeremias (17,8): — "O coração do homem é dissimulado e perverso". Depois da Missa, os cangaceiros retomaram o equipamento. maioria saiu para fazer restos de compras. — "Tudo correu bem, na santa paz, graças a Deus!" — dizia o vigário, a satisfação sublinhada nas faces cheias com um sorriso.

O segundo fogo

Lampião, com alguns, apenas aguardava, antes de partir, que o padre terminasse uns batizados a fim de se despedir e receber a bença dele. Nesse quando, coincidiu ser Lampião informado pelas sentinelas e ouvir, ao mesmo tempo, de alguém se aproximando:

— "Vigie! Que cumandita de gente, lá longe, na estrada! Será que vêm pra feira?"

Lampião, de detrás da casa de João Ferreira, mão em pala sobre a testa, buscando acomodar a vista, exclamou alteando as sobrancelhas.
— "É macaco!"

A disgraceira estava feita!

Nunca houve tanta gritaiage e correria do povo, que se esbandaiava por todos os lados, doidamente... Lampião, agindo com rapidez e eficiência, sempre se revelando autêntico comandante inteligente e seguro, imprimindo assim confiança aos seus, imediatamente apitou chamando seu pessoal.

Antônio Ferreira, com outros, estava na barbearia cortando o cabelo e fazendo a barba. Ajuntou, em menos de um sufragante, os homens diante de Lampião, que, calmo e firme, tracejou, com técnica, o cinturão defensivo, estabelecendo os pontos de operação fora da rua e dentro das casas e muros, distribuindo os piquetes de defesa, instruindo para não se perder munição à toa, sem objetivo.

Depois, pegou de um cavalo pombo-seleiro, ali amarrado no pé da quixabeira plantada mesmo defronte da casa de João Ferreira e pertencente a um amigo, e enviou nele um positivo, que num átimo avoou o corpo em cima da sela, para ver Antônio Rosa, no Enforcado, com instrução de dar uma retaguarda, para o que deveria tomar o caminho do outro lado, descendo pela margem direita do riacho da Ema.

De suas posições de combate dentro dos muros das casas, os cangaceiros furavam buracos enviezados na parede, formando assim "torneiras", onde enfiavam o cano dos rifles para atirar.

Livino Ferreira, esse esconjurado do medo, entrincheirou-se na casa de D. Anízia, mesmo em cima do fogo! A volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento Bento Senhorzinho Alencar, vinda em diligência da zona de Pajeú, fora notada logo ao irromper, em fila indiana, a sudoeste.

Ao topar com o riacho Carqueja, parte da soldadesca foi logo se entrincheirando ao longo das ribanceiras barrentas; outra parte vadeiou o leito seco e arenoso do mesmo riacho tomando posição de ataque pelo lado sul, agachando-se por trás da amontoeira de pedra do pequeno serrote que mirava de soslaio; a entrada da rua.

O cabo Manuel Amaro, nutrido na peba* e no gosto de contar pabulagem, temeramente se achegou mais para frente dessa linha de ataque, amalocando-se atrás de uma grande pedra arredondada.

* Cachaça. A denominada "peba" ou "rinchona" é fabricada no sertão e nos agrestes por processo sintético: mistura de álcool, açúcar preto e água. O açúcar preto era o de torrão, de forma, de bangué, o chamado pão-de-açúcar. Em sua substituição. usava-se o açúcar sumeno, mascavo ou demerara, cristalizado e de cor amarelo-queimado. O preparo dessa cachaça se faz em tachos. É, portanto, urna aguardente ordinária, ou cachaça. Um de seus sinônimos: "lasca-peito". Na zona canavieira da "Mata" ou do "Sul", a aguardente é extraída da cana-de,' açúcar ou do mel de cabaú, melaço ou mel de furo (escorrido do açúcar preto por, um furo no depósito). destilada em alambique (raro o de barro). A primeira destilada chama-se aguardente "de cabeça" a média, aguardente "boa"; a terceira, restante, fraca de teor alcoólico, mais água que álcool, denomina-se "caxixi".

Por volta das nove horas, rompeu o tiroteio e prosseguiu, cerrado e violento, trancando o mundo... Bonito que fazia gosto a fuzilaria seca no estrondo dos mosquetões e os estampidos fofos dos rifles! Vez por outra parava. Parecia que tinha acabado. As mu-lheres, dentro de casa suspiravam de alívio. Mas, era só um arejo de momentos, nas mudanças dos combatentes para melhores posições. Em seguida, recomeçava intenso, danasco, em rajadas tatalantes, debaixo de palavrões e insultos, o sangue cada vez mais esquentando.



Partido do meio da rua, ouvia-se o toque guerreiro da "Mulher Rendeira". Era Lampião, nos intervalos em que dirigia a luta e atirava também, com sua sanfona animando os cabras. Os nazarenos, conluiados por João Flor, aproveitaram a oportunidade para se levantarem em armas contra Lampião. Lá para as dez horas, articularam-se com a polícia, entrincheirando-se por trás da cerca de pau-a-pique do cercado da fazenda Campo Alegre, do lado de cá do Ipueiras.

Eram uns quinze homens armados, entre os quais João Flor com seus filhos Euclides e Manuel, os dois irmãos João Domingos e Luís Soriano, Pedro Gomes que portava pistola máuser FN, dois rapazes de fora e Gomes Jurubeba com o pessoal que trouxera para isto de sua fazenda Jenipapo.

Davi Jurubeba, que viera de mãos abanando, armou-se com o fuzil de Zé Preto, o único "aspençada" da volante. Este, chega ia que ia, todo entusiasmado, se protegendo por trás de uma quixabeira.

Divulgando-o, Lampião avisou a Chá Preto que combatia de dentro da barbearia. Atirando de ponto, com seguridade, Chá Preto gritou: — "Lá vai macaco da gota!" Atingindo-o no braço e avoando-o contrafeito de dor, fora de combate. O cangaceiro largou desadorada risadona de mangação. A polícia e os paisanos estabeleceram verdadeiro bolsão ou semi-cerco ao tomarem posições no flanco sul e parte do Poente e em toda a linha do flanco nascente.

Na Igreja

Desde o início do tumulto provocado pelo alarme, o padre José mandou fechar imediatamente as portas da capela pelo sacristão, Zé Rufino, o qual em seguida escapuliu, fugindo montado num cavalo em osso, em disparada louca, numa toada só, até esbarrar, cinco léguas adiante, na fazenda São Miguel.

O padre amparou-se na parede entre as duas portas da entrada. E mandou as pessoas, que ficaram dentro, deitarem-se no chão da nave. Passou o vigário o tempo todo suando, nervoso e pálido, com o rosário na mão, rezando por suas ovelhas desavindas. Poucos balaços alcançaram as paredes externas da capela. Quase meio-dia. A luta, com bem quatro horas de duração, continuava indecisa.

Lampião falou com Cândido para abrir um buraco na parede da casa dele a modo de estabelecer uma passagem para a casa de D. Joaninha. Cândido discordou e, aperriado com a insistência do sobrinho, foi tirar o padre da capela, assim mesmo, debaixo de todo o tiroteio, e levá-lo para a casa de João Ferreira.

A retirada
Ali, na casa do irmão, com muito pedido e imploração, obteve Cândido, com a ajuda do padre, que o opinioso Lampião se decidisse retirar da localidade, principalmente em atenção a seu vigário, que não podia ficar prejudicado diante de compromissos inadiáveis em Vila Bela.

Antes, porém, de se afastar, gritou Lampião para os adversários:

— "Cambada de macaco! Covardes! Vou sair, não por covardia, mas atendendo ao pedido de meus dois grandes amigos, Padre José e tio Cândido Ferreira".

Enquanto, a um sinal seu — a pistola descarregada ininterruptamente — ia se reunindo o grupo em frente à casa de João Ferreira, coincidiu, de novo, as sentinelas lhe avisarem o irrompimento de outra força, que avançava pelo flanco norte, podendo dar ataque de retaguarda e fechar o grupo em perigosíssmo cerco.
Era uma volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento João Francisco, de alcunha João Fininho, vinda das bandas de Vila Bela e, como a primeira, a chamado do próprio Enoque, o noivo, em carta secreta ao então ao comandante da polícia, ten.-cel. João Nunes.

Lampião compreendendo as posições inimigas, agora envolventes, com superioridade numérica e bélica, e temendo o esgotarnento de sua munição, ordenou impetuosa esfuziada, modo de, atarantando o inimigo e aproveitando o fumaceiro, - a retirada ficar facilitada e garantida.

"Cumpadre, foi tanto papoco no oco do mundo que -nunca vi! — o panavueiro cobriu tudo! Maldei que tinha chega o fim do mundo!..."

Pelo caminho, à tangente, lançado do oitão direito da capela, os cabras, todos ilesos, se retiraram, aos xingos e pilhérias, agachando-se e rebolando, correndo e sempre atirando.

Cruzaram o valado seco do riacho, subiram pela margem direita, mais adiante se encontrando com o grupo de Antônio Rosa, vindo à toda para o contra-ataque. Mas era tarde. Empalhara-se ele com a aproximação da segunda volante, que o aturdira, ficando sem saber que rumo tomar. E embrenharam-se todos os cangaceiros na caatinga...

A danação

Terminado o tiroteio de mais de três horas, os atacantes, desconfiados de alguma das indecifráveis ciladas do astucioso Lampião, demoraram bem meia hora para penetrar na rua, assim mesmo cautelosamente. Mas, quando entraram, deu de súbito uma doideira dos diabos naquela soldadesca, que começaram a lançar, assim na doida, disparate de balas nas paredes, portas, janelas, por toda parte, chegando mesmo os projéteis a pegar em quadros de santos pendurados nas paredes do interior de algumas casas momentaneamente abertas.

Desencadeou-se, então, novo pânico. Correrias, gritos, choros, portas e janelas aos baques se fechando outra vez. Incontinenti reclamou o Padre José ao sargento Senhorzinho aquela desordem, o qual, de pronto, ordenou que cessasse. Com mais pouco chegava a volante do sargento Fininho. A rua esborrava de soldado.

Dada por Fininho uma batida por perto, no derredor da povoação, para certeza do afastamento dos cangaceiros. Depois vieram os interrogatórios sobre quem ou não coitei-ro, as acusações fáceis, ameaças de toda sorte, ou sejam de pisa, de capar, de sangrar, de saquear, de incendiar... O terror! A vítima principal naturalmente tinha de ser a família Ferreira ali domiciliada.

Quem pôde, fugiu, no seu animal ou a pé, ou se escondeu. A situação agora pior do que a anterior, pois sob o guante da autoridade, despótica, absoluta, oficial.

E, lá vai o pobre do Padre José, pressuroso e amargurado, suando e exausto — anjo providencial da paz — defender de novo o povo e restituir-lhe a tranqüilidade.

Conformado, senão convencido, com as muitas explicações e justificativas do vigário, o sargento Senhorzinho saiu batendo naquelas portas ainda fechadas de medo:

— "Podem abrirem. Tá todo mundo agarantido".

De todo o jeito, porém, aquele povo, pobre e sacrificado, humilde e abandonado, teve de pagar, e muito caro, uma dívida estranha: almoço com bebida e tudo mais para tanto sol-dado!...

Guarnecendo o vilarejo contra uma daquelas possíveis e perigosas surtidas de Lampião, a soldadesca, refestelada e quente, de entusiasmo vibrante, cantava — coisa curiosa! — "Mulher Rendeira", como se fosse essa canção o hino comum daqueles sertões sangrentos! ...

Consumou-se nesse segundo tiroteio a intriga definitiva e gadal entre Lampião e os nazarenos.

A família Ferreira daí em diante sofreu os piores vexames, ao ponto de ter, mais tarde, de se retirar da localidade. Entretanto, essa família fora sempre a desvelada defensora e salvadora de Nazaré contra os propósitos e as investidas de Lampião. Logo nesse mesmo dia 19 de agosto, dois fatos lamentáveis:
a) O sargento Zé de Xanda, com um tiro, espatifou o grande e belo espelho de cristal da sala de visita da casa de D. Joaninha Ferreira.

b) Apareceu o tenente Senhorzinho Alencar querendo obrigar a mesma D. Joaninha a entregar os vestidos da primeira comunhão das meninas Josefa e Dulce, filhas de Antônio Matilde e que ela criava. Alegava o tenente que os vestidos pertenciam às filhas do finado Gonzaga. Exigia, também, as sapatinas e os trancelins. Chamados, à presença do tenente: o senhor João Cominho, da loja onde foi comprada a fazenda; a costureira D. Ernestina Correia Cruz; Tonheiro, o portador dos vestidos prontos; e René, outra testemunha de tudo. Genésio Ferreira, irmão da noiva Licor, procurou Davi Jurubeba Respondeu que ele obtivesse do tenente o nome da pessoa que lhe dera a informação falsa. respondeu o militar: — "De uma parenta da viúva de Gonzaga, aqui residente (e disse o nome)..."

A família Ferreira ainda hoje é muito grata a Davi Jurubeba e a Manuel Neto, os quais, apesar de inimigos figadais de Lampião e seus irmãos do cangaço, sempre respeitaram e até defenderam os outros membros da familia o seus bens.


O PADRE JOSÉ KEHRLE



Padre José Kehrle. Nascido em 1891, em Wurttemberg, Alemanha. Veio para o Brasil em 1909. Beneditino e veterinário. Sacerdote em 1914. Como padre secular desenvolveu, no sertão, intensa atividade apostólica, além da construção e reforma de igrejas. Ocupou altos cargos e missões na diocese de Pesqueira, ao mesmo tempo que, por infeliz contraste, chega às raias do incrível o que sofreu da parte de bispos. Vigário de Vila Bela (Serra Talhada) de 1922 a 1936, conheceu e acompanhou toda a trajetória de Lampião no cangaço.

Sua força moral sobre ele quase se igualava à do Padre Cícero. Porém, a esse superava no conhecimento do foro íntimo. Lampião era seu confidente. Diante do Padre Kehrle despia sua realeza cangaceiresca para se tornar simples ovelha, nem sempre dócil por motivações extrínsecas. Realmente, grande parte da vida de Lampião não pode ser escrita desligada desse virtuosissmo sacerdote, que chegou mesmo ao impossível de retirar cangaceiros do seu bando.

Em 1936, no sítio Guarda, da serra de Ororubá, perto de Cimbres, município de Pesqueira, testemunhou, com sérias averiguações, as aparições de Nossa Senhora dos Graças a uma humilde camponezinha, depois freira conversa. Nessa ocasião, indignou-se contra as medidas violentas usadas pelo bispo que se valeu da polícia para acabar com aquele "fanatismo", de qualquer modo, "mesmo debaixo de pau", o que, Lamentavelmente, aconteceu àquela pobre gente que, na simplicidade de sua fé, acorria ao local.

Muitos os episódios interessantíssimos em sua vida que merecia escrita para edificação espiritual, principalmente dos sacerdotes. Há anos vivia ele em Buíque (PE), carregando uma saudável velhice dentro um exuberante espírito, cada vez mais acentuando o traço predominante de sua alma — a caridade, quando a 4-8-1978 faleceu.

Pois bem, cabe a cada um ao ler sobre fatos como esse e outros para dizerem se Lampião era Herói ou Bandido. Uns chegam a dizer que ele era uma mistura dos dois adjetivos. Vemos em sua estadia no povoado de Nazaré, que ele estava ciente de sua situação, esta levada por intrigas que descambou para a violência. Lampião foi uma cria do sistema latifundiário brasileiro onde imperava o coronelismo.

Pescado em Caiçara dos Rios do ventos

sexta-feira, 20 de março de 2020

Novidade literária

Em livro, sociólogo apresenta uma nova data para o nascimento de dona Maria

O sociólogo Voldi Ribeiro lançou o livro “Lampião e o Nascimento de Maria Bonita”, sugerindo uma data correta para o nascimento da Rainha do Cangaço, que é 17 de...



O livro contém 196 páginas e com figuras de Maria Bonita e de Lampião que encontram colorizadas. A obra contém o prefácio e artigo de Frederico Pernambucano de Mello, referência na pesquisa do Cangaço. A pesquisa trata da área onde ela nasceu, Malhada da Caiçara que pertencia a Glória, atualmente pertence a Paulo Afonso–BA.

Na obra, o sociólogo discute o surgimento da data incorreta do nascimento de Maria Bonita que outros autores tinham como 8 de março de 1911. E apresenta ainda a composição da família dela, bem como alguns registros de irmãs suas.

Além disso aborda, finalmente, o encontro de Lampião com Maria Bonita, sua convivência de 1931 até 28 de julho de 1938, data das suas mortes, na grota do Angico, Sergipe.

Voldi de Moura Ribeiro é um pesquisador que reside em Paulo Afonso, Bahia. Ele estuda este tema há mais de 15 anos, também está produzindo um novo livro sobre a participação da mulher no Cangaço.

Valor: R$ 60 com frete incluso
Para adquirir entre em contato com o autor pelo zap (75) 99108-0409 ou pelo e-mail voldimribeiro@gmail.com

Com informações do leiajá

PROTAGONISTAS E COADJUVANTES DA HISTÓRIA NORDESTINA

Chiquinho de Barros e Dom Juvêncio de Britto

Por Junior Almeida

Quem gosta de história e vive a pesquisar, vez por outra tem a grata satisfação de encontrar em suas leituras alguns personagens que no passado participaram de grandes façanhas ou mesmo que cruzaram o caminho de protagonistas de conhecidos fatos históricos. Na região de Garanhuns, Pernambuco, por exemplo, dois homens se encaixam nessa descrição, pois, viram a morte de perto, quando estiveram frente a frente com famosos assassinos.

O primeiro, um simples agricultor, Francisco Pereira de Barros, conhecido por Chiquinho de Barros, em julho de 1935 teve sua casa arrombada a chutes e coices de fuzil, num assalto praticado por Lampião e seus cabras. Do lado de fora da residência, no Sítio Queimada do André, hoje município emancipado de Paranatama, mas na época, distrito de Garanhuns, os cangaceiros mataram a punhaladas e tiros seu sogro, o idoso Zé Gomes, enquanto ele, sua esposa Quitéria Correia Gomes e o resto da família ficaram como reféns do Rei do Cangaço dentro da casa, enquanto essa era saqueada.

No decorrer da ação criminosa, Lampião mandou Chiquinho lhe trazer um cavalo que estava em um curral em frente da casa. Acompanhado por dois cangaceiros, ele foi buscar o animal, que estava bem agitado com a movimentação atípica e por isso não aceitou sela. Um dos bandidos com raiva golpeou a cabeça de Chiquinho de Barros com uma coronhada de rifle. O agricultor caiu com um corte na cabeça, tendo o ferimento sangrado muito, encharcando toda a sua roupa e, Chiquinho voltou para onde Lampião estava sem o cavalo. Virgulino com certa ironia, perguntou aos seus meninos por que fizeram aquilo com o homem e a Chiquinho perguntou se ele bebia pinga.

Completamente dominado, humilhado, supostamente sabendo que seu sogro e o outro homem já tinham sido mortos, Chiquinho não tinha perspectivas, apenas disse que sim, que bebia. Lampião mandou trazer um copo com cachaça, colocou pólvora dentro e misturou, mexendo com um punhal. Chiquinho bebeu um bocado e com o resto lavou o ferimento da cabeça. Menos mal que a súcia foi embora “apenas” levando seus pertences, no entanto, sem levar a sua vida.


 Dom Juvêncio de Britto, 4º Bispo de Garanhuns, 
e Chiquinho Barros, no início da década de 1950.

Outro que também escapou de ter um trágico destino foi o quarto Bispo de Garanhuns, Dom Juvêncio de Britto, pois este religioso foi agredido por pelo menos três vezes pelo mundialmente famoso Padre Hosana de Siqueira, assassino do Bispo Dom Expedito Lopes, um dos três casos do mundo em que um religioso matou outro, em toda história da Igreja.

Frei Francisco Fernando da Silva, o Frei Chico, canonista e que trabalha nas causas de beatificação de Dom Vital, Frei Damião e Dom Expedito, conta-nos em seu “Vida de Dom Expedito Lopes; Bispo Mártir de Garanhuns”, que o Padre Hosana antes de matar a tiros o seu superior hierárquico, Dom Expedito, já tinha arrumado um monte de confusões por onde tinha passado, inclusive, tendo em Panelas, matado a tiros uma égua, por que seu cavalo “se engraçou” com ela, e um cachorro, que latiu ao estranhar a sua batina. Sobre as agressões do indisciplinado e desequilibrado Padre Hosana a Dom de Juvêncio de Britto, Frei Chico colocou no papel o depoimento em juízo do Padre Otoniel, colega do padre homicida. Disse o religioso:

No tempo de Dom Juvêncio ele (Padre Hosana) foi transferido para Quipapá, fazendo as maiores promessas de paz. Tanto foi que na primeira visita pastoral em 1948 ainda mereceu elogios do Bispo. Mas logo começaram as questões. A primeira briga com Dom Juvêncio foi num retiro. No último dia ele chamava cada padre para conversar e dizia se ele voltava à paróquia ou se não. Ele chamou Padre Hosana e eu fiquei de tocaia. Quando ouvi os gritos, corri, chamei o Monsenhor Callou e Padre Tarcísio. E nós defendemos o Bispo.

Outra vez Dom Juvêncio marcou crisma para Angelim. Os redentoristas participaram da missão.

O bispo estava confessando e Hosana para falar-lhe. O Bispo, inexperiente, chamou Hosana para o quarto onde ele estava hospedado. Nós ficamos na janela, eu e Padre Carlos, com cuidado no Hosana. Daqui a pouco ouvimos vozes alteradas e Padre Carlos disse: “Vai Otoniel, entra!” Fui até a porta e fingi que procurava o bispo. Este nos contou que Hosana tentara agredi-lo. Havia pegado na abertura do Bispo, por cima da cruz peitoral e tinha sacudido o Bispo para agredir o mesmo. Quando me viu procurando o Bispo tentou despistar. Dom Juvêncio foi agredido mais três vezes por ele e não quis resolver o problema. As acusações de mulheres, especialmente a Maria José, quando Dom Juvêncio morreu em 1954, já fazia cinco anos ou mais que ele estava com ela. Mas faltou coragem em Dom Juvêncio e ele foi tolerando assim como de outros.

 Padre Hosana em entrevista para revista O Cruzeiro na época do crime

Todo mundo tinha medo porque ele andava sempre armado. Trazia sempre um coxim para forrar a sela e na bolsa do coxim um revólver. Essa conversa que ele pegou o revólver empresado para o crime é besteira. Com o que atirou em um cachorro e em um cavalo em Panelas? Com o que enfrentou o delegado de Tabira? Não cansava de mostrar a calça em baixo da batina e dizer que era homem para tudo.

Como podemos perceber nos dois fatos, tanto Chiquinho Barros quanto Dom Juvêncio, estiveram diante de homens que não hesitariam nem um pouco em os matar. O primeiro ainda perdeu seu sogro, covardemente assassinado pelos cabras de Lampião, levou uma coronhada na cabeça e bebeu na marra cachaça com pólvora, o segundo, um bispo, mesmo com toda sua autoridade, deve ter tido a consciência do perigo que passou. Não era vivo quando o Padre Hosana matou Dom Expedito em julho de 1957, mas se fosse, certamente veria que o que o colega que o sucedeu na Diocese de Garanhuns teve um fim, que poderia perfeitamente ser o dele.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O JORNAL (RJ), de 12 de setembro de 1926

O terrível facínora, terror do Nordeste, prepara o assalto a *Rio Branco, PE

Transcrição de Antonio Corrêa Sobrinho

As populações alarmadas defendem de arma na mão a vida e a propriedade

Notícias de Rio Branco, no sertão de Pernambuco, trazem informes da situação de pavor em que se encontra aquela vila, sob a ameaça de ataque dos facínoras dirigidos por Lampião, que se tornou em toda a zona sertaneja do Nordeste um nome mais temido do que foi anos atrás o famoso Antonio Silvino.

 O aspecto de Rio Branco em 1932
IN: tatiannetfb.blogspot


As notas, que temos à mão, pintam-nos uma situação de pavor, não entrando na sua composição nenhuma expressão de exagero.

Há o relato simples de atrocidades e, sobretudo, vivamente reproduzida, à sombria impressão que a aproximação do bandoleiro determina no espírito timorato das populações.

O bandido faz-se anunciar por uma série de assaltos, roubos, mortes, desrespeito à propriedade alheia e à individualidade das senhoras, bastando a encher de maus augúrios todos quantos se julgam sob a ameaça da sua presença incomoda.


Antiga Estação Ferroviária
IN: tatiannetfb.blogspot

O povo sertanejo é de natural simplório e dado à crendice, de sorte que os feitos desses vultos sinistros crescem facilmente e se distendem na sua imaginativa, tomando proporções de horrores.
Não fosse, assim, formada a sua alma, entretanto, e o pânico seria fatalmente o mesmo, porque Lampião, agindo sob a discreta proteção de alguns fazendeiros e autoridades, que desvirtuam dessa maneira o seu papel, enche facilmente o espírito daquele povo com o relato que o precede das incríveis truculências e barbaridades praticadas todos os dias e já hoje tornadas lendárias, numa imensa zona do Brasil interior.


 
 Capela do Livramento
IN: tatiannetfb.blogspot

A noite de 17 para 18 de agosto, por exemplo, foi de sinistros presságios para o povo de Rio Branco. O vilório sabia que Lampião, conduzindo perto de 100 facínoras, bem municiados e bem montados, aproximava-se da vila, pronto a assaltá-la, para se fazer em campo na manhã seguinte.

Foi, pois, uma noite passada em claro, sob a impressão de que o bando sinistro se achava a oito léguas de distância.

A população de Rio Branco pegou em armas, desde o mais humilde cidadão às pessoas de maior destaque da localidade, empenhadas na defesa do lar e da vida. O médico Dr. Luiz Coelho, o juiz de direito da comarca de Buíque, Dr. Roma, ali a passeio, o gerente do banco, o tenente coronel Justino, o capitão José Bezerra da Silva, todas pessoas as mais influentes da vila, tomaram a frente dos homens que se puseram à sua defesa, a fim de encorajar a população alarmada.


Resistência armada dos bravos de Rio Branco
IN O Jornal

E parece que essa resistência impressionou o bandoleiro, porque apesar de estar a oito léguas do Rio Branco, Lampião não se encorajou a atacá-la, prosseguindo noutra direção os seus crimes. Entretanto, essa resolução pouco serviu a Rio Branco, porque, alarmado como estava, o povo preferiu continuar militarizado, temendo a cada momento um assalto que apenas, no seu julgamento, fora, por circunstâncias momentâneas transferido.

Assim pensando, é fácil avaliar os prejuízos advindos para o pequeno comércio local e toda a vida, em suma, do lugarejo rústico, que permanecia até os últimos dias de agosto inteiramente suspensa, na ameaça de que os bandoleiros a qualquer momento repontassem.

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*Salvo melhor informação, Rio Branco é o atual município de Arcoverde.

quarta-feira, 18 de março de 2020

O cangaço em Sítio do Quinto, BA

Histórias da Fazenda Caritá

O pesquisador Josevaldo Matos, encontrou seu João Raimundo Filho, o popular vaqueiro, uma testemunha viva da era do cangaço no município de Sitio do Quinto, sertão Baiano.


Pescado no canal do autor.

Adendo Lampião Aceso

A Fazenda Caritá na época do cangaço era nos territórios de Jeremoabo. Em 1954, Sítio do Quinto passou de povoado para 1º Distrito de Jeremoabo. Já no dia 14 de maio de 1989 é realizado um plebiscito onde mais de 95% do eleitorado voltou a favor da Emancipação Política de Sítio Quinto.

Em 13 de Junho de 1989, Sítio do Quinto é publicado no Diário Oficial, através da Lei Nº 5001/89 tendo a garantia promocional da localidade como município.


Memória do cangaço

A valentia de Zé Menino
 

Por Valdir José Nogueira de Moura

Em 10 de julho de 1890, o Governo Provisório do Estado de Pernambuco, usando da atribuição que lhe confere o Decreto nº 7, de 20 de novembro de 1889, resolve criar a Comarca de Belmonte, com sede na povoação de São Francisco, a qual se comporá da Freguesia de Belmonte e do distrito policial da Penha, da Comarca de Floresta. Fizeram-se as necessárias comunicações.

Vila histórica, secular, antigo distrito de Serra Talhada, possui ligação muito forte com o município de Belmonte por ter sido sede de sua Comarca em 1890, e por ter sido sede também do 2º Distrito de São José de Belmonte no ano de 1895, durante a gestão do Prefeito, o Cel. José Pereira de Aguiar (Foto abaixo).



Vinda do primeiro quartel do século XIX, de uma fazenda de igual nome, fundada pelo capitão Francisco Pereira da Silva, a Vila de São Francisco, hoje extinta, existiu como um dos distritos mais prósperos de Serra Talhada, antiga Vila Bela, com grande tino para o comércio. A vila chegou a ter uma feira por semana, onde boa parte dos moradores da região convergia para o lugar para fazer compras e comercializar seus produtos.

Palco de tantas lutas entre Pereiras e Carvalhos, ai entraram em cena: Né Pereira ou Né Dadu, Sinhô Pereira, Luiz Padre, os Futuqué, e outros mais. Porém, é oportuno lembrar de um dos mais curiosos personagens dessa movimentada fase da tradicional peleja entre os velhos clãs do Pajeú: Zé Menino, irmão de Né Dadu e de Sinhô Pereira, o qual era paralítico e vivia sentado em um couro-de-boi, todavia, valente feito uma fera acuada.

Certa vez, em São Francisco, quando a vila foi invadida por 300 homens armados dos Futuqué (os Carvalhos),para acabar com a raça dos Pereira ali existente, o tiroteio teve duração de um dia e meio.

Na defesa, dentro do casarão da família, estavam Né Dadu, seus irmãos (inclusive Zé Manino), seus primos (os Valões) e alguns agregados, ao todo apenas 24 ou 25 pessoas. Isso para enfrentar 300 homens fortemente armados. A salvação deles todos estava na coragem de cada um. Durante certa hora, Né Dadu mandou a tropa preparar os punhais, para morrerem todos num corpo a corpo verdadeiramente suicida. Em auxílio dos acuados, corre o coronel Manoel Pereira Lins (Né da Carnaúba), com sua gente, mas a situação ainda era bastante crítica para os Pereira.

E somente quando surge em campo o cel. Antônio Pereira (filho do Barão do Pajeú), seguido por 19 capangas, fazendo um alarde da gota serena, é que os Futuqué das Piranhas, Umburanas e Várzea do Ú, pensando ser um exército que se aproximava, dão de ré e desistem da luta, por enquanto apenas.


 Cel. Antônio Pereira da Silva

Durante todo o tiroteio, Zé Menino, com um rifle nos braços, quando a coisa fica preta de um lado, pedia que lhe puxassem o couro-de-boi e o colocassem em uma das “torneiras” da casa, e dali mandava fogo contra os Carvalhos (os Futuqué). Quando o negócio apertava do outro lado, puxavam Zé Menino outra vez, para nova “torneira”, e assim, sem fraquejar em momento algum, o herói paralítico lutou durante um dia e meio, sem dormir, sem comer nem urinar.

Zé Menino, cujo nome de batismo era José Pereira da Silva, foi casado com Virtuosa Pereira Nunes (Tiló), filha de Deodato Pereira da Silva e Filadélfia Pereira da Silva. Esta, viúva, faleceu na vila de Bom Nome em 24 de agosto de 1976, aos 89 anos de idade.

quarta-feira, 11 de março de 2020

A versão do grande inimigo

Pegadas de um Sertanejo - Vida e Memórias de José Saturnino

Por Giuliano de Méroe (publicado originalmente em 2016)



“José Saturnino foi um ser humano com virtudes e defeitos como qualquer pessoa normal. Um homem honrado, um  cidadão de bem, honesto e respeitado que teve a desventura de ter sido o primeiro inimigo de Virgolino Ferreira da Silva, O Lampião.”

Escritor Antônio Neto, poderia dizer- nos como surgiu a ideia de escrever “Pegadas de um Sertanejo – Vida e Memórias de José Saturnino”?

Antonio Neto - Surgiu de uma conversa com o historiador José Alves Sobrinho, neto da irmã de José Alves de Barros, no inicio do ano de 2009, sobre a construção de uma biblioteca na Fazenda Pedreira, onde nasceu José Saturnino. A ideia foi concebida e o livro "Pegadas de Um Sertanejo. Vida e Memórias de José Saturnino" foi publicado em junho de 2015. Todo o dinheiro arrecadado com a venda dessa obra está sendo utilizado para a construção da  referida biblioteca.

Quem foi José Alves de Barros, conhecido como José Saturnino?

José Saturnino foi um ser humano com virtudes e defeitos como qualquer pessoa normal. Um homem honrado, um  cidadão de bem, honesto e respeitado que teve a desventura de ter sido o primeiro inimigo de Virgolino Ferreira da Silva, O Lampião. O livro "Pegadas de Um Sertanejo. Vida e Memórias de José Saturnino" traz sua verdadeira história, inclusive a genealogia de sua família e depoimentos, até então, inéditos, de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião e de José Saturnino.

Como nasceu a amizade entre José Saturnino e Lampião?

Seus pais eram amigos e vizinhos. Saturnino Alves de Barros e Alexandrina Gomes de Moura, pais de José Saturnino eram padrinhos de batismo de Antônio Ferreira, irmão de Lampião e testemunhas do casamento civil dos pais de Virgolino Ferreira da Silva. Foram criados brincando juntos e foi nesse contexto que nasceu a amizade entre os dois e permaneceu firme até a primeira desavença entre eles, em 1914.


Qual foi o motivo para o desentendimento inicial entre os dois?

Antonio Neto - A primeira desavença entre José Saturnino e Virgolino Ferreira aconteceu no início do ano de 1914, tendo como principal motivo a quebra, por parte José Saturnino, de um acerto entre eles, na pega de uma novilha indomada. Depois desse episódio, vários outros se sucederam que foram narrados no livro "Pegadas de Um Sertanejo.Vida e Memórias de José Saturnino".


Por que José Saturnino é considerado injustiçado?

Zé Saturnino sentia-se injustiçado quando o seu nome era citado em livros, jornais e revistas como sendo o responsável pelo ingresso de Virgolino Ferreira no Cangaço e pelo fato de alguns escritores e jornalistas não publicarem as entrevistas feitas com ele e, quando o faziam, suas palavras eram distorcidas com objetivo de colocá-lo na condição de vilão e Lampião na de herói.


Fale-nos sobre a colaboração das autoridades oficiais para a pesquisa e/ou obtenção de cópias dos documentos relativos aos eventos pesquisados.

Em minhas pesquisas sobre esse tema tive boa receptividade e expressiva colaboração por parte dos responsáveis pelos arquivos públicos detentores dos acervos da história do cangaço, tais como cartórios, arquivos públicos, memoriais da Justiça, arquivos gerais das Policias Militares dos diversos estados do Nordeste. Sempre fui cordialmente recebido e bem orientado pelos guardiões desses acervos, inclusive não havendo nenhum obstáculo na obtenção de cópias de documentos referentes aos eventos pesquisados.  


Quais os possíveis impactos de “Pegadas de um Sertanejo – Vida e Memórias de José Saturnino”, na opinião pública corrente e nos historiadores?

Esse é dos poucos livros que tenho conhecimento de ter sido escrito baseado em documentos oficiais e em processos-crime da Justiça contra Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião e o seu bando. Os possíveis impactos da opinião pública residem no fato de descobrir a outra face do Rei do Cangaço e de saber que ainda existem documentos que podem preencher as paginas em branco da historiografia do Cangaço.   Quanto aos historiadores, creio que o impacto será de reflexão, no sentido e atualizar os seus escritos sobre esse tema, uma vez que teve acesso essa documentação histórica, na época de suas publicações.  

O livro foi escrito em parceria com o autor e pesquisador José Alves Sobrinho, conte-nos como foi a dinâmica para escrita do livro?

Foi muito boa e com muito entusiasmo. Eu e José Alves Sobrinho caímos  em campo na busca de dados reais que resgatassem a história verdadeira de José Saturnino, desde o seu nascimento, em 15 de maio de 1894 até a sua morte, em 5 de agosto de 1980. José Alves direcionou seu trabalho para a obtenção de dados indispensáveis para a construção da genealogia da familia Alves de Barros, pesquisando e escrevendo sobre o tema. Enquanto enveredei pelas pesquisas em arquivos públicos, bibliotecas, memoriais da justiça, cartórios e arquivos gerais das policias militares dos estados do Nordeste. A cada  avanço na pesquisa, uma surpresa agradável com achados inéditos, como os depoimentos de José Saturnino e de Virgolino Ferreira, o Lampião, às autoridades de direito nos ditames da lei.  


O que mais o encanta nesta rica obra literária?

É a seriedade como foi escrita, considerando fontes verdadeiras e oficiais, tais como documentos antigos dos processos da justiça e boletins da Policia Militar de Pernambuco, enriquecendo o conteúdo  do livro "Pagadas de Um Sertanejo. Vida e Memórias de José Saturnino".  

Nossa entrevista está chegando ao final. Somos gratos por conhecer seu belo trabalho, que muito a enriqueceu. Qual a mensagem que você deixa para nossos leitores?

"Pegadas de Um Sertanejo. Vida e Memórias de José Saturnino"  foi escrito no intuito de resgatar a verdadeira história de José Saturnino. Essa obra é uma biografia regulada em critérios  da vida real do biografado. Os textos estão fundamentados, em processos judiciais, documentos cartoriais, e em livros de pesquisadores renomados e de estudiosos do cangaço.


Agradeço antecipadamente às criticas e opiniões que vierem a ser manifestadas sobre a nossa obra, e ao mesmo tempo o nosso apelo ao leitor especializado para assinalar e comunicar erros e omissões que por ventura forem constatados. Estarei à disposição do leitor para quaisquer esclarecimentos. Desejo a todos uma boa leitura.

 

Antonio Neto é Pernambucano de Serra Talhada, Graduado em Engenharia Civil e Pós - graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho pela UFPE. Membro efetivo da Cadeira nº 28 da Academia Serratalhadense de Letras, da União Brasileira de Escritores(UBE-PE) e da Cadeira nº 40 da Academia Recifense de Letras. Autor de vários livros, entre estes, descatacam-se o Dicionário do Engenheiro(3 edições); Manual de Fiscalização de Cargas de Madeira; Um Punhado de Poesia; Pintando o Sete de Poesia; Cordel Cidadão; Engenharia Civil. Turma 1976; Solidônio Leite. “Vida e Obra de Um Gênio(2 edições); Pegadas de Um Sertanejo. Vida e Memórias de José Saturnino(2 edições); Participou de diversas antologias nas categorias: conto, crônica e poesia. Organizou e coordenou o I e II Encontro Pernambucano de Escritores pela UBE/PE. Quando Diretor Cultural do Clube de Engenharia de Pernambuco, organizou e coordenou a 1ª Semana de Arte e Literatura do Clube de Engenharia, em dezembro de 2010, ainda promoveu o concurso literário “Menção Joaquim Cardozo” versão 2010 e foi coordenador editorial da revista” 90 Anos de Engenharia no Brasil. Escreveu artigos para as revistas "90 Anos do Clube de Engenharia de Pernambuco". Editor e redator do informativo literário "Correio do Pajeú". Colunista da Revista de Literatura "Novo Horizonte" e do site www.caderno1.com.br, "Um dedo de Prosa", onde revela elementos dos  autos judiciais contra Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Enfim, escritor, pesquisador, biógrafo e poeta. 
                                                                      

Pescado em: Revista Academica

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terça-feira, 10 de março de 2020

Convite

Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço será instalada em Sergipe



A solenidade de instalação e posse coletiva dos membros titulares, beneméritos e correspondentes da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço – Ablac – em Sergipe será no próximo dia 13, a partir das 19h, no campus Farolândia da Universidade Tiradentes, bloco D, auditório Padre Melo. Diretores e conselho fiscal que atuarão no quadriênio 2019-2022 da Ablac também serão anunciados.

Dentre as personalidades que serão empossadas, estão a vice-reitora da Unit, professora Amélia Cerqueira Uchôa e o empresário sergipano Albano Franco que atuarão como Acadêmicos Beneméritos na Ablac.

Na ocasião, como homenagem à entidade, a Unit realizará mostra com estatuetas, peças, vestimentas e alguns artefatos utilizados por nomes representativos do cangaço, como Lampião e Maria Bonita.
Ablac

Fundada em 25 de julho de 2019 em Juazeiro do Norte (CE), Ablac é uma associação cultural representativa de escritores e artistas que tem o objetivo de promover o estudo, pesquisa e divulgação dos temas centrais abrangendo literatura, música, cultura, artes plásticas e cênicas.

Fonte: Assessoria de Imprensa

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quinta-feira, 5 de março de 2020

Novidades em HQ

Histórias do cangaço.... No sertão baiano

A revista Histórias do cangaço, de autoria do professor Moisés Reis, visa trazer à luz as ações de subgrupos de cangaceiros no sertão baiano precisamente na região de Fátima, Adustina, Cícero Dantas, Heliópolis e demais municípios vizinhos.



Essa primeira edição fala de Ângelo Roque, o cangaceiro Labareda, que atuou fortemente como chefe de grupo na região.

A intenção do autor é também que a revista seja um paradidático, ajudando o professor a trabalhar a temática do cangaço, assim como a história regional, em sala de aula. Para adquirir a edição virtual acesse o link abaixo. Valor R$| 5,00 (Cinco reais).

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terça-feira, 3 de março de 2020

Ten. João Bezerra

O maçom que deu cabo de Lampião

Biografia do Ten. João Bezerra, de autoria do 3º BPM – Alagoas:

“O Batalhão Tenente João Bezerra da Silva – 3º BPM, relata a passagem de um dos homens que mais marcaram a briosa Polícia Militar do Estado de Alagoas, rendendo-lhe esta justa homenagem, provocada por seu grandioso feito histórico.

Trajetória

 

 
Nasceu no dia 24 de junho de 1898, na Serra da Colônia, Município de Afogados da Ingazeira – Estado de Pernambuco. Seus pais: Henrique Bezerra da Silva e Marcolina Bezerra da Silva, eram pequenos fazendeiros e tiveram sete filhos: João, Cícero, Amaro, Manuel, José, Vitalina e Maria.
Com vontade de aprender a ler, trazia consigo sempre, uma “carta de ABC” (cartilha) e um “ponteiro” (lápis). Aos oito anos, já ajudava seu pai na agricultura e na criação de animais.

Ironicamente, teria aprendido a atirar com Manoel Batista de Morais, popularmente conhecido como Antônio Silvino, “O Rifle de Ouro”, também de Afogados da Ingazeira/PE, que era primo de João Bezerra em segundo grau, tornando-se em um exímio atirador.

Antonio Silvino foi conhecido no sertão como um dos homens mais valentes do Nordeste antes de Lampião, tendo sido ainda testemunha do assassinato do jornalista João Dantas na penitenciária de Recife, que era o assassino do ilustre paraibano João Pessoa, contrariando a versão oficial da época de que dizia ter sido suicídio.

Aos quatorze anos, Bezerra fugiu de casa após ter sido surrado pelo pai, por ter desobedecido à proibição de namorar uma moça, fugindo para o Recife/PE. Já demonstrava uma personalidade marcante, corajosa e propensa à aventura. Um menino sertanejo, desbravando a Capital. A partir daí, foi carregador de carvão de pedra no cais do porto; ajudante de soldado; assentador de dormentes em linha férrea; trabalhador de pedreira e de lavoura. Após um ano, voltou para casa e montou um comércio (uma pequena bodega), onde vendia de tudo.

No tempo em que passou com a família na sua cidade natal, realizou o incrível feito de matar uma onça, que de tão grande assustava a todos do lugar e dizimava as criações das fazendas, o que o tornou já famoso nas imediações onde morava, fazendo-o receber muitos presentes dos proprietários de terra da região.

Tempos depois, foi forçado a sair do seio familiar; indo trabalhar com um dos maiores inimigos de Lampião, o famoso Coronel José Pereira, em Princesa/PB, de onde partiu para Maceió, no Estado das Alagoas para “sentar praça”. Iniciou sua carreira em 1919, na Policia Militar de Alagoas, como policial contratado para integrar as “volantes”, sendo incorporando definitivamente, em 29 de março de 1922, onde permaneceu por 35 anos e 07 meses.

Prestou serviço no 2º Batalhão de Infantaria, deslocado para Santana do Ipanema/AL, para combater o banditismo que assolava a região sertaneja, de onde saiu para o combate de angicos, hoje 3º Batalhão de Polícia Militar, sediado em Arapiraca/AL.

Foi 2º Sargento em 29 de março de 1922, e 1º Tenente por merecimento em 30 de setembro de 1936. Teve vários encontros com os bandidos, tendo de uma feita, morto três dos comparsas de Lampião. Sendo considerado oficial valoroso da Polícia Alagoana e de imediata confiança do governo.
Casou-se com Cyra Gomes de Britto, em Piranhas/AL, no ano de 1935, que em entrevista ao Jornal do Bandepe em 1985, confirma a natureza valente e perspicaz de seu marido, que chegava a passar meses no encalço dos cangaceiros, vindo inclusive a ignorar o nascimento de sua primeira filha, por estar em missão na caatinga, tendo em vista ter empenhado sua palavra de capturar Lampião.
Foi Maçom, alcançando o 18° grau na instituição em que participava.

Assentamentos Militares

Foram 19 Nomeações de comando, incluindo o de Comandante da Corporação (Apesar de não estar incluído no histórico de comandantes da Polícia Militar de Alagoas, devendo ter assumido o Comando Geral em algum espaço entre nomeações deixados por algum comandante entre 1950 e 1954);

12 Nomeações para delegado em diversas cidades de Alagoas, designações concedidas após o combate em angicos.

Participação como “Chefe de Volante” por um período de 12 anos, travando 11 combates com os grupos de cangaceiros, entre eles, os chefiados por Luiz Pedro do Retiro, Corisco, Gato, Zé Baiano, Português, Manoel Moreno, Moita Brava e por último com o famoso Lampião, o mais importante desses combates, que foi travado na Grota de Angicos, atual Município de Poço Redondo, estado de Sergipe, no qual ocorreu a morte de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), sua companheira Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita), e dos cangaceiros: Luiz Pedro, Quinta-feira, Elétrico, Mergulhão, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela.

Participação em diversas missões fora do Estado, com os contingentes alagoanos, entre elas: Combate à Coluna Prestes, em 1925; Deposição do governo Washington Luís, em 1930 e Revolução Constitucionalista em 1932.

Nomeação como Prefeito Interventor da cidade de Piranhas/AL, no ano de 1933.
Durante a sua vida militar, recebeu diversos elogios por seu desempenho nas missões em que participou, conforme foram publicados nos boletins da Policia Militar de Alagoas. Entre eles:
Elogio do Comandante do 2º Batalhão;

– Louvor do Coronel Lucena comandante do II Batalhão, transcrito no III item do Boletim nº 285, do II Btl., de 17 de dezembro de 1938.

“Tendo o Sr. Capitão João Bezerra da Silva, sido desligado deste Batalhão, a fim de assumir a função na sede do Regimento. Louvo-o pelo modo brilhante com que soube espontaneamente cumprir as árduas missões de que foi incumbido, quando neste batalhão, mormente na campanha contra a horda de facínoras, perturbadores da paz sertaneja que há tanto tempo vinham sofrendo as agruras consequentes da ação do banditismo. Este oficial, demonstrou os nobres predicados de que é possuidor; trabalhador incansável que nunca ousou dar tréguas a tal corja, combatendo-a bravamente até o momento máximo em que assediou com a sua fôrça o conjunto chefiado pelo célebre

“Lampeão” que não podendo vazar tal assédio, caiu sem vida, quando para os supersticiosos já era tido como imortal“.

Elogio do Comandante da Corporação;

“Pelos bons serviços prestados à Polícia Militar de Alagoas e a todo o nordeste, não há tributo que pague ao Coronel Bezerra, pelo que ele realizou. O Coronel Bezerra era um militar cônscio de suas responsabilidades e tratava a todos os seus comandados com igualdade de condições. Devido esse comportamento, diante das tropas, que comandava no Quartel é que ele granjeou a simpatia de todos e consequentemente foi conquistando as promoções, todas elas por relevantes serviços prestados à nossa Polícia, ao Estado e à Nação”.

Coronel EB Carlos Eugênio Pires de Azevedo – Comandante da Polícia Militar de Alagoas em 6/12/1970, quando da ocasião de seu sepultamento em Maceió.

Elogio do Interventor Federal;
Elogio do Governador do Estado;
Elogio do General de Exército;
Elogio do Presidente da República.

Tendo sido inclusive recebido no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, no ano de 1938, pelo então Presidente Getúlio Dorneles Vargas, que nutria grande interesse pela campanha contra o cangaço, em virtude do sucesso da missão em Angicos.
Elogio da população de Piranhas/AL

Entre os prêmios recebidos por João Bezerra, a sua família guarda, zelosa e orgulhosamente, a espada que ele recebeu do povo de Piranhas em 1938, expressão de gratidão pela morte de Lampião, em cuja “Copa” está escrito: “Ao Capitão João Bezerra pela sua bravura e heroísmo. Oferece o povo de Piranhas. ”

Foi para a reserva da Polícia Militar de Alagoas em 04 de novembro de 1955, quando passou a dedicar-se à agricultura e à pecuária.

Faleceu na cidade de Garanhuns/PE, no dia 04 de dezembro de 1970, vitimado por um acidente vascular cerebral, recebendo alusões honrosas pela Câmara Municipal daquela cidade.

Seu corpo foi velado no quartel do Comando Geral da Polícia Militar de Alagoas, e em seguida sepultado com honras militares no mausoléu da maçonaria em Maceió, como última homenagem da Corporação em satisfazer o pedido do próprio João Bezerra de ser sepultado em solo alagoano. Anos mais tarde seu corpo foi transladado para o Estado de Pernambuco, a pedido de sua família.

João Bezerra foi um perseguidor empenhado em não dar trégua aos cangaceiros, reconhecido pelos seus pares e superiores, ao ponto de ganhar de Lampião o apelido de “Cão Coxo”, coxo em decorrência da redução de 04 centímetros em uma das pernas, causada por um ferimento em combate, e cão, pela valentia e destemor que apresentava nos combates. Em entrevista dada pelo então Capitão Manuel Neto, outro grande oficial das volantes, após a morte de Lampião, referia-se a Bezerra dizendo: – “O Tenente João Bezerra a quem conheço pessoalmente, é um official disposto, disciplinado e muito bem quisto no seio da Polícia Alagoana e dos Estados vizinhos”.

Era homem obstinado, desbravador e estrategista. Cidadão honrado, decidido, extremamente observador, perspicaz e de muita fé. Seus passos foram cuidadosamente planejados, prevalecendo sempre a sensatez e a dignidade. Incansável na luta contra o banditismo. Seus contemporâneos sabiam do seu empenho, da sua responsabilidade e do seu valor: Nada em sua vida parecia ter sido por acaso.

Frases de João Bezerra

“Soldado não briga deitado. O que eu encontrar deitado, ou outro qualquer encontrar deitado, atire e mate que esse é covarde. Quando vocês me verem deitado atirem em mim também.” (Frase proferida antes do confronto em Angicos).

“Para vencer os ímprobos que nos impunha um vaivém penoso, só Deus sabe o quanto tivemos que lutar! Descrever esses sofrimentos seria dedicar centenas de páginas ao nosso grande martírio que jaz no anonimato, morto nos segredos das caatingas!” (Livro Como dei cabo de Lampião, de 1940).
“Soldados do Brasil! Eu vos admiro! Permiti que eu seja sangue do vosso sangue guerreiro, para felicidade da minha vida toda voltada à Pátria na honrosa carreira das armas”. (Livro Como dei cabo de Lampião, de 1940).

O portal MN parabeniza a todos os militares integrantes do 3º BPM pelos serviços prestados a cidade de Arapiraca e região. Que os bravos e honrosos militares sejam vistos pela sociedade não apenas pelas fardas e patentes, mas como seres humanos que ariscam suas vidas para proteger a cada cidadão, e junto a população, construir uma sociedade mais harmônica.”.

Por Genival Silva. Fonte: Ascom/3º BPM e http://3batalhao.blogspot.com.br/

Cap. João Bezerra era maçom – Grau 18° do R.E.A.A.

Segundo preliminares informações na internet, provas documentais e depoimento do Irmão Paulo Britto, filho de João Bezerra, o Capitão João Bezerra da Silva foi maçom, sendo Grau 18 do R.E.A.A., iniciado em 25 de junho 1949, com 51 anos de idade, na Loja Maçônica Virtude e Bondade N° 0146 – GOB-AL e, inclusive, enterrado no Mausoléu Maçônico Segredo 33, como seu último pedido, posteriormente, a pedido da família, seu corpo foi trasladado para Pernambuco. Este detalhe acena para o crivo legalista do homem militar, que deu cabo a Lampião e seu bando, em 28 de julho de 1938, e do homem maçom, 11 anos após o Combate de Angicos, na luta porfiada nessa história de combates quase “intermináveis”, bárbaros e cruéis, entre volantes e cangaceiros na caatinga nordestina pela ordem e legalidade.


Loja Virtude e Bondade N° 0146 – GOB-AL

REGISTROS FORNECIDOS, FRATERNALMENTE, PELO GRANDE ORIENTE DO BRASIL DE ALAGOAS – GOB-AL


Carteirinha Maçônica


O Marco do Fim do Cangaço – A Morte de Lampião

O cangaço, segundo Moacir Assunção, é um fenômeno social característico da sociedade rural brasileira. No nordeste, existiu desde o século XVIII, quando José Gomes, o Cabeleira aterrorizava populações rurais de Pernambuco. O movimento atravessou o século XIX, só terminando em 25 de maio 1940, com a morte de Corisco (1907 – 1940), sucessor de Lampião e seu principal lugar-tenente, pela volante de Zé Rufino (Diário de Pernambuco, 1º de junho de 1940, na sexta coluna).

‘Os homens do cangaço espalhavam fama, violência e aplicavam um conceito muito particular de justiça em sete estados do Nordeste. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia sofriam não apenas nas mãos desses grupos nômades, mas também com a seca, com a fome e com uma sociedade desigual e injusta, que perpetuava um modelo pérfido de exploração do trabalho.’ (Ângelo Osmiro Barreto in Iconografia do Cangaço, 2012)

Em 28 de julho de 1938, na grota de Angico, em Sergipe, perto da divisa com o estado de Alagoas, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva (1898 – 1970), pelo aspirante Ferreira Mello e pelo sargento Aniceto da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira (c. 1911 – 1938), conhecida como Maria Bonita, e os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Estes foram todos decapitados. 

No combate, foi morto o soldado Adrião Pedro de Souza. João Bezerra e outro militar ficaram feridos (Jornal do Brasil, 30 de julho de 1938, na primeira coluna, Diário de Pernambuco, 30 de julho de 1938). Eram 49 homens da volante e 36 cangaceiros. Os outros 25 cangaceiros presentes naquele dia, no local Grota de Angicos, saíram vivos e conseguiram fugir, mais tarde alguns sendo mortos e outros entregando-se à polícia. Foi o fim do cangaço no sertão, muito embora alguns pesquisadores ainda considerem o fim do cangaço com a captura do cangaceiros Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, (Água Branca, 10 de agosto de 1907 – Barra do Mendes, 25 de maio de 1940).



“Os onze do Angico”
 
Foto do Soldado Adrião Pedro de Souza, componente da volante do Aspirante Francisco Ferreira de Melo e croqui do mapa do combate de Angicos, feito pelo Ten. João Bezerra, e que se encontra ás fls. 102, do seu livro “Como dei cabo de Lampeão”. 
 
Vê-se, no mapa, que os grupos de Lampião, Zé Sereno e Luís Pedro, foram cercados pelas volantes comandadas por: Ten. João Bezerra, Aspirante Ferreira de Melo, Sgt. Aniceto e por homens comandados por Juvêncio e o Cabo Bertoldo. O cerco, bem planejado, foi quase perfeito e quase não foi dado chance aos cangaceiros. Foram utilizadas 04 metralhadoras, além de um bem planejado cerco e o elemento surpresa que foi decisivo, a topografia do local (serras íngremes), também, foi altamente desfavorável aos cangaceiros, tanto na defesa, como nas correrias da fuga.
Lampião, com seu bando.
Zona de atividade dos cangaceiros – anos [1922] a 1930

Considerações finais

Correspondências enviadas ao Ir. Paulo Britto, filho do Cel. João Bezerra, extraídas de Citações sobre João Bezerra Parte II, por Paulo Britto.


Antonio Amaury Correa de Araújo

Correspondência enviada ao Irmão Paulo Britto, em 06.07.2002 pelo escritor e pesquisador Antônio Amaury Correa de Araújo:

“… Não é novidade para os pesquisadores que seu pai foi amplamente injuriado, invejado e que teve sua imagem denegrida por comentários oriundos de mentes tacanhas pelo fato de haver sido o comandante que eliminou Lampião e parte do seu bando cangaceiro, … Isso causou-lhes profundo ressentimento e usaram então dos mais baixos argumentos para achincalhar o episódio da Fazenda Angico.

… Pelo que pude observar nesses 53 anos de pesquisas e com seis mil entrevistas realizadas qualquer pessoa, em qualquer época usando de qualquer método para eliminar Lampião, … … seria questionado e destratado e sua atuação estaria sempre em dúvida na visão daqueles que não conseguiram o mesmo desideratum. A imaginação humana não tem limites e até mesmo episódios claros como cristal são colocados sob suspeita…. Para terminar, a polêmica não tem fim. É traição, veneno, tiro e Lampião ainda vivo até a década de 1990. Viva a fantasia, a ficção, a criatividade de alguns pesquisadores menos cuidadosos e pouco honestos para com a história…

PS. Faça o uso que quiser destas, pois é a expressão do meu pensamento e da verdade que obtive de cangaceiros, soldados, coiteiros e outras pessoas envolvidas no episódio de Angico. ”.

Gazeta de Alagoas – 06.12.1970 – 1º Caderno, página 3:
“Matador de Lampião sepultado em Maceió com honras militares…O Coronel (de Exército) Carlos Eugênio Pires de Azevedo, comandante da Polícia Militar, conheceu pessoalmente o Coronel Bezerra há 02 anos em Garanhuns. Lamentou a sua morte. Como última homenagem a corporação da qual é comandante, satisfazia o pedido de João Bezerra de ser sepultado em solo alagoano.

Pelos bons serviços prestados à Polícia Militar de Alagoas e a todo o Nordeste, não há tributo que pague ao Coronel Bezerra, pelo que ele realizou, disse o comandante da Polícia Militar de Alagoas.”

… “O Coronel Bezerra era um militar cônscio de suas responsabilidades e tratava a todos os seus comandados com igualdade de condições. Devido esse comportamento, diante das tropas, que comandava no Quartel é que ele granjeou a simpatia de todos e consequentemente foi conquistando as promoções, todas elas por relevantes serviços prestados à nossa Polícia, ao Estado e à Nação”.


Ir∴ Paulo Britto, filho do Cel. João Bezerra

Ir∴ Paulo Britto, filho do Cel. João Bezerra, em http://lampiaoaceso.blogspot.com/2011/11/citacoes-sobre-joao-bezerra-por-paulo.html:

“Espero que estas citações consigam demonstrar, um pouco, de quem foi o homem, o policial militar, o maçom grau 18 que, em todas as suas ações e missões, só fez enaltecer o nome da instituição a que pertenceu, e que, graças a Deus, teve o privilégio do reconhecimento e do respeito dos familiares, amigos, superiores e subordinados…”. Coronel Lucena

Louvor do Coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão comandante do II Batalhão, transcrito no III item do Boletim nº 285, do II Btl, de 17 de dezembro de 1938. (Grafia original):
“Tendo o Sr. Capitão João Bezerra da Silva, sido desligado deste Batalhão, a fim de assumir a função na sede do Regimento. Louvo-o pelo modo brilhante com que soube espontâneamente cumprir as árduas missões de que foi incumbido, quando neste batalhão, mormente na campanha contra o orda de facínoras, perturbadores da paz sertaneja que há tanto tempo vinha sofrendo as agruras consequentes da ação do banditismo.


Coronel Lucena

Este oficial, demonstrou os nobres predicados de que é possuidor; trabalhador incansável que nunca ousou dar tréguas a tal corja, combatendo-a bravamente até o momento máximo em que assediou com a sua fôrça o conjunto chefiado pelo célebre “Lampeão” que não podendo vazar tal assédio, caiu sem vida, quando para os supersticiosos já era tido como imortal.”

Fontes:

http://etalasquera.ueuo.com/cangaco/cangtb.htm
http://sociedadeolhodehorus.blogspot.com/2013/03/lampiao-o-fora-da-lei.html
http://3batalhao.blogspot.com/p/historico.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Bezerra_da_Silva
Como dei cabo de Lampião, do Ten. João Bezerra da Silva. 1940
https://canoadetolda.org.br/wp-content/uploads/2018/11/Brasil-Canga%C3%A7o-2011
http://cariricangaco.blogspot.com/2011/10/citacoes-sobre-joao-bezerra-parte-ii.html
http://3batalhao.blogspot.com/p/ten-joao-bezerra.html
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2018/07/joao-bezerra-falou-ao-o-globo-em-26-de.html
http://www.minutonordeste.com.br/noticia/34-aniversario-do-3-bpm-de-arapiraca-encerra-com-homenagens/2930/imprimir
http://brasilianafotografica.bn.br/?p=9527
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2009/06/angicos-aspectos-geograficos-e.html?m=1
http://cariricangaco.blogspot.com/2012/07/um-olhar-mais-apurado-porpaulo-britto.html

Sobre o autor

Alexandre Lopes Fortes é M∴ I∴, membro da ARLS Irmão Cícero Veloso n°4543 (GOB-PI). Grau 33 do REAA, grau 33 do Rito Adonhiramita, grau 9 do Rito Moderno e companheiro do Sagrado Arco Real.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Familiares

Meu tio avô Delfino e seus amigos no bando de Lampião..!

Por Washington Luiz de Araújo, jornalista

Outro dia, minha irmã Tania me pediu que enviasse pelo zap uma foto de família constante num livro.

Procurei, revirei nos meus desorganizados guardados e não encontrei a tal imagem. Depois, lembrei que o livro poderia estar com nossa mãe, Inez, pois eu o teria deixado com ela desde a época em que meu pai, Luiz, estava vivo. Sim, estava. Mas encontrei outro exemplar com meu amigo, fotógrafo Américo Vermelho

Bom, o tal do livro é “Iconografia do Cangaço”, organizado por Ricardo Albuquerque. E qual o interesse de minha família por esta obra? Simples. Meu tio avô, José Delfino, está numa foto juntamente com dezenas de amigos. Ele fazia parte do bando de Lampião.

E vejam que meu tio avô materno está bem na foto, a um “cabra” do Lampião. Ele é o número quatro, que está com uma corneta na mão. E teve sorte o cangaceiro Delfino, pois não perdeu a cabeça como a maioria do bando, inclusive o próprio Lampião.

 Lampião e seu bando em Limoeiro do Norte, CE em 1927

José Delfino


Minha mãe conta que seu pai, meu avô Manoel Delfino, foi até o bando certo dia, tirou o irmão de lá e o escondeu na casa de uns parentes. Desta forma, Delfino pôde se casar, ter filhos e filhas, morrer de doença, já velhinho e não jovem e degolado. Eta família arretada e de sorte!


Pescado no Bem Blogado

UMA SÉRIE DE CRIMES BÁRBAROS

Transcrição Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1926

Por Antonio Corrêa Sobrinho

O desprezo que o cangaceiro Lampião teve pela vida humana, salvo, naturalmente, a dos seus; abominável desprezo, traço forte e, portanto, característico da sua personalidade, associado aos inúmeros crimes e contravenções de toda ordem, por ele ou pelos seus comparsas praticados, constituíram-no o mais sanguinário e delituoso chefe de bandoleiros, que se tem notícia, ter existido no Brasil. Ainda que consideremos todos os excessos, inconsistências, tendenciosidades, politização, ideologização, inverdades, do produzido na imprensa nacional a respeito deste líder de cangaceiros.

Ainda que consideremos a Violência como parte integrante da dinâmica das sociedades, maiormente, por exemplo, da brasileira, quer seja a permitida, quer seja a não permitida, praticada indistintamente em todas as classes e seguimentos sociais. Lampião sempre carregará a mecha indelével da hedionda criminalidade.




E se a este Lampião que vislumbro (porque ele jamais será plenamente visto), acrescermos o ostentoso, forte e incisivo desrespeito que ele, na sua vida cangaceira, dispensou como prática, às forças policiais e demais órgãos de controle social, podemos concluir, afirmando ter sido este Virgulino Ferreira da Silva, o “Rei do Cangaço”, o civil que mais diretamente afrontou o Estado brasileiro.

Daí o fascínio que este  nordestino do Pajeú ainda causa, cuja difícil tradução e interpretação, inserido que está ele num complexo fenômeno, fazemos, antes, primeiro, quase sempre de forma intuitiva e inconsciente, de compreensão, de amor ou de ódio, nos termos do processo cognitivo de que trata a heurística.

Ilustro o acima dito com a matéria abaixo, do Jornal do Recife, de 14 de janeiro de 1926, que reproduz suposta carta dando notícia de crimes praticados por Lampião no sertão pernambucano, como a emissão de carta precatória exigindo dinheiro dos sertanejos, tudo isso dias antes de ele estar com o padre Cícero Romão, em Juazeiro.
_______
AS PROEZAS DE LAMPIÃO
UMA SÉRIE DE CRIMES BÁRBAROS

Remetem-nos:

"Senhores redatores do Jornal de Recife.

A presente que lhes dirigimos é também com vistas ao Dr. Sérgio Loreto e ao doutor chefe de polícia, a cujas supremas autoridades do Estado imploramos justiça.

Pois é sob o véu das mais tristes apreensões que rascunhamos estas linhas neste momento.


Senhores redatores, vós que tendes sido sempre pelo vosso conceituado “Órgão” verdadeiros paladinos dos direitos dos oprimidos, fazei ecoar aos quatro ventos os horrores, que há muito tempo vem sofrendo os sertanejos deste Estado, pelas hostes malditas do famigerado Lampião. E é tal o desânimo que já nos domina, e tão grande desilusão impera em nossas convicções, de uma reação positiva por parte do governo, contra as inúmeras e sinistras depredações praticadas por essa Hiena-humana, a dois passos das autoridades, que já nos consideramos impotentes para defendermos nossos bens e nossas famílias desse abismo voraz que, qual tempestade fatal, vem devorando na sinistra passagem, nossos irmãos e nossos haveres.

Para vos dar uma ideia (ainda que pálida) das cenas canibalescas que tem servido de teatro esta desventurada região sertaneja, queiram nos ouvir, sobre o que se passou há quatro dias, muito perto destes que lhes dirigem esta: Entre o povoado de Betânia, do município de Floresta, e a fazenda S. Rita de propriedade do coronel Numeriano, foram assassinados a punhais dois pobres homens indefesos, pela horda sanguinária de Lampião. Daí seguiu o ignóbil celerado acompanhado de sua trupe em direção à referida fazenda, onde chegaram em número de dezoito: dirigiram-se à única casa ali existente e pediram à dona da mesma, que lhes desse o que comer, no que foram prontamente atendidos; pois a pobre senhora, amedrontada, matou um bode e preparou-lhes um banquete onde se fartaram.

Depois de longo repouso, por espaço de 5 horas, seguiram em demanda a Geritacó, (...) povoado do município de Alagoa de Baixo. Em caminho, e no mesmo dia, encontraram-se com um rapaz – ex-soldado da polícia pernambucana, o qual como soldado, já havia tomado parte em algumas expedições decretadas pelo governo, em perseguição do bandido. Este, porém ou alguns dos seus companheiros logo o reconheceram e sem a menor hesitação assassinaram-no bárbara e friamente a golpe de punhais.

Consumado o horrendo crime, marcharam para Geritacó.

Ali chegando pediram um caminhão onde fizeram transportar o cadáver do infeliz ex-praça para aquele povoado.

Nesse interim passava por ali um sacerdote em viagem, a quem Lampião intimou que fizesse a encomendação do corpo... Isto feito, num indiferentíssimo abominável, o celerado mandou tocar “sinal” e dar sepultura ao cadáver... Depois, disse cinicamente para as pessoas que o assistiam: “Agora sim... ele é meu amigo!”

Imaginem senhores redatores que de Geritacó para Rio Branco, distam apenas 14 léguas; 8 para Custódia e 11 para Alagoa de Baixo – lugares estes onde deviam permanecer de prontidão, destacamentos suficientes para agir num momento como este que Lampião vitoriosamente, acaba de estabelecer “seu quartel general” em Geritacó, donde distribui como está distribuindo cartas-precatórias a todos os cidadãos, não só daquelas circunvizinhas, como até a pessoas que moram 10 e mais léguas afastadas, intimando-lhes a lhe remeterem quantias vultosas, muitas vezes superiores a todos os bens do cidadão a quem ele se dirige.

E ali fica desassombradamente dias e dias, aguardando a volta de seus “emissários”.
Enquanto estas operações se realizam o intemerato Lampião com seus “apaniguados” matam boi, carneiro, bode, etc. e banqueteiam-se tranquilamente pachorrentamente. Agora, senhores redatores, perguntamos nós desventurados sertanejos que para nos mantermos onde tudo de que precisamos para nossa manutenção, nos chega mais caro do que para outros, “os felizardos” que habitam à margem das Estradas de Ferro, nós que com o árduo labor de nossa família, com nossos esforços morejantes contribuímos, mais do que nossos rendimentos permitem para pagamento de impostos fantásticos... A que temos direito?



Em Pernambuco, atualmente, é a zona sertaneja, a que mais contribui, relativamente, para os cofres do Estado. E isto facilmente provável, não só pela ótima adaptação de nossas terras para toda cultura e criação como também pelos inexcedíveis esforços dos sertanejos que têm como único entretenimento e diversão – o trabalho.

Ora, senhores redatores, é simplesmente deplorável um tal estado de cousas!

Em Alagoa de Baixo se acha atualmente o tenente Aurélio; mas pensamos que em missão diplomática e não revestido do cargo policial qual lhe confere sua “patente”.

(a) DIVERSOS SERTANEJOS
(b) 31 – 12 – 1925”

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Pedro Jeremias vem ai

Romancista da PB retrata saga de um suposto cangaceiro do bando de Lampião

Por Severino Lopes (PB Agora)


Entre os séculos 19 e meados do 20, um tipo específico de banditismo se desenvolveu no sertão nordestino: o cangaço. Os cangaceiros saqueavam fazendas, povoados e cidades, impunemente e impondo sua própria lei à região em que atuavam. Um dos mais famosos cangaceiros do clamado ciclo do banditismo, foi Virgulino Ferreira, mais conhecido como Lampião. As últimas horas de Lampião, e o surgimento de um novo líder foi retratado pelo escritor paraibano Efigênio Moura na trilogia do cangaço “Pedro Jeremias”.

 


A saga começa no Sertão de Alagoas no ano de 1938. Naquele ano, o ciclo do banditismo estava em alta. Em meio a triunfos e embates, a saga de Lampião, o mais conhecido cangaceiro brasileiro, chega ao fim. Virgulino Ferreira da Silva e parte de seu bando morreram na Grota de Angicos, no sertão sergipano, depois que uma força volante descobriu onde eles estavam acampados. Naquele fatídico 28 de julho,segundo o romancista paraibano, Pedro Jeremias assistiu das margens do Rio São Francisco todo o massacre de longe, ao lado do temível Corisco, inclusive, o cortejo macabro realizado com as cabeças dos cangaceiros, que percorreram cidades e vilarejos, sendo expostas para visitação pública.

Esse é o enredo inicial de uma ficção que se apresenta em três livros e tendo Pedro Jeremias como  nome principal da trama.

Com a morte do líder, Pedro Jeremias, no comando de seu grupo resolve parar com aquela vida,  mas somente entrega suas armas a Padre Cicero  e passa a percorrer vários sertões tentando chegar no ‘Joaseiro do Cariri’. Pedro Jeremias é o personagem fictício da trilogia escrita pelo paraibano de Monteiro, Efigênio Moura, ambientado no cangaço pós Lampião.

Os livros publicados com o selo das edições Eita Gota e Leve  atingem um total de oito publicações do  escritor Efigênio Moura. A obra mistura ficção e realidade numa linguagem tipicamente da região e riqueza cultural inestimável. Pedro Jeremias teria chegado atrasado a uma reunião marcada por Lampião com os seus subchefes, José Sereno, Labareda e Corisco, e apenas ouvido os estopidos que dizimaram o bando.

Embora comece em 1938 na Fazenda Emendadas, Pão de Açúcar em Alagoas, a história ganha destaque no ano de 1935, na cidade de Bonito, na Zona da mata de Pernambuco, precisamente na Fazenda Serra Verde, quando o agricultor Paulo Rubem mata um policial, batizado pelos cangaceiros de“macaco”, e desperta os olhares de Lampião.

Paulo Rubem que ao entrar para o bando adota o nome de Pedro Jeremias, vive o auge do cangaço quando o bando de Virgulino Ferreira ainda espalhava medo e derrame de sangue nos sertões nordestinos. A população vivia aterrorizada. Os ataques de Lampião e seu bando eram sempre cruéis. Em meio ao clima seco e hostil da região, Lampião estava se preparando para mais um ataque, e .o alvo desta vez seria a cidade de Bonito (PE).

Só que a pedido de Pedro Jeremias, Lampião desiste de invadir a cidade. Mais um ataque sanguinário foi evitado. Aliás, evitar o ataque a Bonito foi a condição de Pedro Jeremias para se juntar ao bando e se arriscar nos combates com as “volantes”. Efigênio observa que a tentativa de Lampião de invadir Bonito foi fictícia, já que a região não era um terreno favorável para os cangaceiros, que só sabiam andar na caatinga.

Ambientado no ano de 38, ano da morte de Lampião, o livro percorre os sertões de Alagoas e Pernambuco e encerra-se em Alagoa de Baixo, atual Sertânia, região do Moxotó. “Pedro Jeremias” tem sangue, a coragem e as indumentárias de cangaceiro. Em sua trajetória, se tornou um dos cangaceiros mais fiéis a Virgulino Ferreira. O livro é uma cachoeira de datas, de momentos que marcaram a saga do cangaço na região no século passado. Fatos históricos enriquecem o enredo, como a criação do primeiro campo de concentração do mundo, em Fortaleza em 1915; a Quebra de Xangó em Maceió em 1912 entre outros eventos.

Para elaborar a história dá vida a seus personagens, o escritor realizou uma pesquisa de seis  anos sobre traços históricos e linguísticos da época. “A geografia e a oralidade do livro são de 1938.

O encontro entre Pedro e Lampião resulta no “cangaço refúgio”, no qual a pessoa entrava para o bando para não ser perseguida pelas autoridades. Um dos destaques da obra, é o romance inevitável entre Pedro Jeremias e Maria de Jesus. O romance se torna ainda mais complicado devido à perseguição iniciada por um parente do policial que o protagonista matou.

“Mesmo já tendo mulheres no bando, ele não quer levar Maria para salvaguardar a vida dela. Quando ele manda buscar ela, arruma uma maneira para trazer ela para junto dele e aí também é outra peleja que tem dentro do livro”, pontuou.

No primeiro livro, o Efigênio narra a formação do bando de Pedro Jeremias, a fuga das “volantes” com destaque para perseguição do capitão Miguel Eugênio, que também é um personagem fictício.


 


“O que temos de verdade nessa história, são os combates que aconteceram com Lampião e eu coloco os meus personagens naqueles combates. É verdade também a geografia e a oralidade da época” destacou.

A história de Pedro Jeremias ganhou vida e inspirou um curta-metragem, gravado em Cabaceiras, no Cariri da Paraíba. O filme dirigido pelos cineastas paulistas Antônio Fargoni e Tiago Neves, e .protagonizado pelo jornalista Hipólito Lucena, foi realizado em forma de literatura de cordel.

2º Livro – “Pedro Jeremias dentro dos Cariris Velhos”. A Saga continua. O segundo livro da trilogia, editado pela editora de Campina Grande, Leve Editora, foi ambientado em Monteiro de 38 e cercanias, terra natal do autor. Começa com o cerco da política na casa de Isabel Torquato na tentativa de prender Maria de Jesus. O bando inicialmente formado por 4 cangaceiros, foi refeito nesse novo livro, devido ao aumento do cerco policial.

Na fuga das volantes especialmente, a peleja com o capitão Miguel Eugênio, Pedro Jeremias percorre o Cariri, atravessa o Sertão da Paraíba. Entre a ficção e os romances históricos, parte da peleja acontece em, São Sebastião de Umbuzeiro, Prata, Ouro Velho, Amparo, Camalaú e São Thomé que hoje é Sumé. No segundo livro, lançado em 2019, o autor procurou explorar a religiosidade e as crendices da região como as histórias do “corpo fechado” entre outros elementos culturais do povo nordestino. Um dos destaques da obra, é crescimento da Polícia Militar da Paraíba entre os anos de 38 e 39 e as estratégias do coronel José Vasconcelos para sufocar o cangaço.

Traz citações a Guerra de Doze entre Augusto Santa Cruz e o governo da Paraíba, a fuga pelo Cariri paraibano e volantes no seu encalço não impedem de Pedro Jeremias de ter uma folga para ‘fechar o corpo’. É outra situação do livro: o misticismo, a religiosidade, as crenças, a fé inabalável e  os encantos. No segundo livro a força da mulher nordestina é explicitada através de personagens que viveram a rigidez do cangaço sem demonstrar inferioridade ou inteira submissão.
O segundo livro foi lançado em 2019, pela Editora Leve.

A história encerra com a perseguição das volantes em torno do bando e mais uma escapatória do cangaceiro.

3ª Livro – “Pedro Jeremias nos Cariris Novos”. A saga de Jeremias terá o fim no terceiro livro da trilogia que terá um caráter mais político. Efigênio aproveitou o enredo para mostrar como os coronéis usavam os cangaceiros em favor próprio, beneficiando-se da lei do bacamarte e do fuzil. O livro será lançado no primeiro semestre de 2020.

A história se passa entre Misericórdia, hoje Itaporanga, e Piancó, no Sertão da Paraíba. Naquela região, aconteceu o célebre ataque ao bando de Lampião. Nessa fase, a presença da Polícia Militar é mais forte, dentro dos combates com os cangaceiros, trazendo os resquícios de 1930 na Guerra de Princesa.

Nos embates de Pedro Jeremias com a polícia, o autor transporta o personagem principal para as terras do Ceará. Nesse novo solo, ele relata a vida dos beatos e romeiros e o sentimento de Juazeiro e dos Romeiros, pós morte de padre Cícero.

A ideia de Efigênio é contar no 3ª livro, o sentimento dos nordestinos pós Lampião que culminou com o fim do cangaço em 1940 com Corisco. O último livro fala de ambientes históricos como as guerras de Canudos e do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, relata o luto do dia da morte de padre Cicero, traz respingos da Guerra de 30 em Princesa Isabel, mostra como a política se utilizava do cangaço e a força da policia Militar da Paraíba no combate ao banditismo. Editado pelo Leve, o livro contará com quase 400 páginas.

O fim de Pedro Jeremias -que já escapou de duas emboscada, só se vai saber ao adquirir o livro.
O terceiro livro tem lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano. Todas as capas da trilogia foram feitas pelo jornalista e cartunista Júlio Cesar Gomes.

Natural do Cariri paraibano, Efigênio Moura tem a verve do povo nordestino e se aproveita de sua terra para extrair a riqueza do lugar e dá vida a seus personagens. Em sua obra ele busca valorizar o regional e as coisas do Cariri paraibano, numa linguagem típica da região.

O escritor romancista é autor de oito livros, lançados a partir de 2009, e que têm como cenário a Paraíba, sendo esses “Eita Gota! Uma viagem paraibana”, “Ciço de Luzia”, “Santana do Congo”, “Caderneta de Fiado” que está esgotado, “Apurado de Contos” e Pedro Jeremias ( trilogia). O livro Ciço de Luzia teve tradução para o inglês publicado em 2019..


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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Ivanildo Silveira e Sérgio Dantas comentam...

Racismo e violência no cangaço

Os pesquisadores Ivanildo Silveira e Sérgio Dantas abordam dois pontos polêmicos em mais um imperdível documentário de Aderbal Nogueira.