sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Jornal da Tarde (O ESTADO DE SÃO PAULO) – 30/07/1973

O desagravo de Capela - 1930
Por: Claudio Bojunga

Eles tinham provocado muito e agora Capela estava preparada. O velho Mano Rocha ia tirar sua forra. Havia ainda homens valentes, como o major Honorino, Dudu aleijado, Turrão, gente capaz de enfrentar Lampião, Corisco, Carrasco, Moita Brava, Balão, Baliza, Nevoeiro, Pancada e quantos viessem. E eles vinham. Lampião disse que Capela tinha roubado, quer dizer deixado de lhe dar o dinheiro que havia pedido da primeira vez. Agora ia arrasá-la. Mano Rocha duvidava.

Foto de Josenildo Tenório

Virgolino pediu doze contos. Tinha gente disposta a dar. Mano disse que tinha que passar em cima de seu cadáver e depois enterrá-lo num cemitério da UDN (gente da UDN não aceitava ser enterrado em cemitério PSD). Os amigos deram força. Turrão, o finado Ivo, o finado Galileu, Aurélio Alves. Major Honorino comandou um grupo. Havia um terceiro. Lampião trazia reféns. Major Félix era um deles. “Fomos para cima da igreja”. Quem fala é o Mano Rocha – macho de verdade.

E a fuzilaria começou. No canto da praça os cangaceiros ficaram atocaiados. Bala neles. Uns correram, outros ficaram, ninguém caiu: a grande vítima do seu segundo ataque a Capela foi um piano de cauda. Os cangaceiros, quando viram bala vindo da igreja da Purificação, saíram berrando que os santos estavam atirando neles. Pelo menos é o que diz Mano. Já Balão, que estava no cerco, confirma que aquele sangue correndo na cerca fora da cidade e que nenhum dos personagens de Capela soube explicar, era do cangaceiro Gato, alvejado nos peitos. Tinham que tratar dele – cabra bravo. Corisco recuou. Gato teve que colocar muita pimenta na ferida, mas acabou recuperando.

Mano Rocha e major Honorino tinham lavado a honra da Capela.

ZÓZIMO LIMA, a respeito - Gazeta de Sergipe, 12/04/1969

Jornalista Zózimo Lima
Acervo de Zózimo Lima Filho
“Nos livros escritos sobre Lampião, a começar pelo do Ranulfo Prata, até os de Eduardo Barbosa, Nertan Macedo, Joaquim Góis há manifesta injustiça.

Neles não consta o nome do major Honorino Leal, uma das principais figuras entre os que combateram Lampião, na segunda investida contra a Capela, a 16 de outubro de 1930.

Pois foi Honorino Leal que, de fuzil em punho, ao lado do sargento de polícia Saturnino, em fuga, na praça do Cemitério ofereceu tenaz resistência aos nove cangaceiros que tentavam penetrar no centro da cidade, trazendo, como reféns, os senhores Felix da Mota Cabral, do engenho Pau Seco, José Cabral Filho, do engenho Pedras, José Xavier de Andrade, do engenho Lavagem e mais Jocundino Calazans e Manuel de Melo Cabral Filho.

Honorino Leal animou o grupo, diante da audácia dos bandidos, postados a poucos metros de distância, a manter firme a resistência, fazendo-os recuar para outra direção, além da chamada rua do Lá Vem Um.

É imperdoável a omissão do nome de Honorino Leal, que recusou, com padre Juca, a proposta feita pelo bandido, por intermédio do refém Felix Cabral, de entrar pacificamente na cidade pela segunda vez, como o fizera da primeira, um ano antes.

E o tiroteio foi cerrado, partindo tiros até das torres da Matriz, fazendo com que os bandoleiros recuassem.

É de justiça que futuros historiadores da incursão trágica de Virgolino Lampião, corrijam, nos seus livros, os enganos e a missão do nome do major Honorino, verdadeiro herói, como outros capelenses, na luta para que a cidade ameaçada não fosse entregue ao saque e ao assassínio por aqueles monstruosos criminosos.

Deverá ter algum valor o meu testemunho, porque lá me encontrava nas duas vezes que Lampião esteve na Capela. A primeira, pacificamente; a segunda, com propósito de satisfazer os seus instintos sanguinários. Fui, até, quando da primeira visita do bandido, ameaçado pelo mesmo de ser degolado, caso transmitisse, pelo telégrafo, do qual eu era o chefe, a sua estada no momento, ali.”

Créditos para Antônio Correa Sobrinho

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