quarta-feira, 9 de março de 2011

Ontem foi dia de Maria

Amigos nos perdoem o atraso. Como já expliquei por meio de comentário não sou folião, sou um operário da folia através da orquestra em que sou um dos croners. E este Carnaval foi de muito compromisso tanto que não houve uma brecha para que eu pudesse dedicar um artigo para o centenário de Maria Bonita.

Ilustração de Fred Ozanan
Enfim o feriado móvel acabou por adiar a realização de alguns eventos como por exemplo o 3º Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita que será apartir do próximo dia 23 deste entre as cidades de Paulo Afonso, BA Piranhas, AL e Canindé no meu Sergipe.

Nem todos correram atrás do Trio Elétrico e algumas entidades promoveram cerimonias para marcar o aniversário da muié do capitão. João de Sousa Lima fez um resumo dos principais. Em Inhambupe, BA, foi comemorado a data com uma missa e uma palestra sobre a Rainha do Cangaço. O Evento foi organizado pelo MMTR- Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais.

Em Paulo Afonso o Grupo "Os Cangaceiros" fizeram uma demonstração teatral do que foi a morte de Lampião e Maria Bonita, na Grota do Angico, contando com uma grande multidão que aplaudia cada momento. Vários Jornais do país fizeram suas homenagens ao dia internacional da Mulher, assim como aos 100 anos de Maria Bonita.

CLIQUE AQUI e confira um resumo sobre a entrada, vida e morte de Maria no Cangaço feito por Antonio Amaury em entrevista concedida ao Jornal Estadão www.estadao.com.br 

Pescado no: Blog do Primo João

Em tempo anuncio aos amigos de Sampa que no dia 11, próxima sexta-feira, acontece o...


PROGRAMAÇÃO 

19h00 - Exibição de vídeos documentários sobre as Mulheres e suas lutas
20h00 - Leitura dramática de um texto sobre Maria Bonita pela atriz Soraya Aguillera.
20h10 - Bate papo sobre Maria Bonita e o Dia Internacional da Mulher com Nalu Faria, psicóloga, integrante da SOF – Sempreviva Organização Feminista e membro da Coordenação nacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil e Antonio Amaury Correa de Araújo, pesquisador sobre Lampião e o cangaço, com 14 livros publicados sobre o assunto em 62 anos de pesquisa.
21h10 – Leitura de texto sobre Dia Internacional de Lutas das Mulheres
21h20 - Apresentações musicais com a Priscila Amorim acompanhada de violão e percussão, com performances de dança por Fabíola Camargo e Ricardo Silva.

Durante o evento haverá exposição de livros sobre o tema, mostra de telas da artista plástica Leila Monsegur e do cartunista Junior Lopes. O artista plástico Jorge dos Anjos produzirá um quadro com o tema Maria Bonita e Dia Internacional da Mulher.

Serviço 

O que: Dia Internacional de Luta das Mulheres e Centenário de nascimento de Maria Bonita
Quando: 11 de março de 2011, sexta-feira, a partir das 19h. 
Onde: Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima Av. Henrique Schaumann, 777 - Pinheiros - São Paulo (SP) – Tel. 3082 5023 / 3063 3064  
Produção: O Autor na Praça, SOF e o poeta Ricardo Carneiro e Silva.  
Assessoria de Imprensa: Edson Lima – 9586 5577 – edsonlima@oautornapraca.com.br

Apoio: Biblioteca Alceu Amoroso Lima / Secretaria Municipal de Cultura / Prefeitura do Município de São Paulo / SOF – Sempreviva Organização Feminista / AEUSP – Associação dos Educadores da USP / ARTVER.

Açude: Lentes Cangaceiras


E para fechar o artigo...

Quem tem medo de Maria Bonita?

Ao me referir ao capitão Virgulino Ferreira da Silva como “marido de Maria Bonita” pretendi apenas, de forma humorada e bem feminista, ressaltar uma das principais características da personalidade desta mulher digna, sem dúvida alguma, do adjetivo notável: audácia.

Mas o fato é que durante a relação ela esteve mais para protagonista do que para coadjuvante. É o que se depreende da leitura do extenso capítulo a ela dedicado por Oleone Coelho Fontes no já citado Lampião na Bahia, apropriadamente intitulado Maria Bonita a primeira-dama do governador dos sertões.

Além disso, ela tinha olhos azuis, gene de uma das avós, holandesa de nascimento e casada com um português.

Afinal, era como tal que Lampião se sentia, ao menos desde o dia 22 de dezembro de 1929, conforme ele próprio proclamou em recado dirigido ao então governador da Bahia, Vital Soares, escrito a lápis numa das paredes da sede da Sociedade Filarmônica Recreio Queimadense, na cidade de Queimadas, nordeste do Estado.

A propósito de marido seja dito que Lampião não era formalmente casado com ela; mais importante, era apaixonado por ela. Sendo assim, seu estado civil poderia ser referido como amancebado. É difícil, porém, imaginar alguém com coragem ou falta de noção do perigo para empregar este vocábulo, que soa como um palavrão, para definir a relação.

Mas um compadre dela fez até pior; e não morreu por pouco, conforme contarei adiante.

Expressa em pouco mais de meia dúzia de atitudes descritas por Oleone, a maioria recolhida no livro de Antonio Amaury Correa de Araújo intitulado Lampião: as mulheres e o cangaço, a personalidade de Maria Bonita me impressionou em igual número de aspectos. Ela me pareceu superior à personalidade de outra guerrilheira famosa, Olga Benário, descrita por Fernando Morais, inclusive em algumas facetas desta que são comprovadamente ficção destinada a consumo de facção partidária.

Maria Bonita era de fato audaciosa!

Não foi localizado registro do seu nome em documento oficial, que seria * Maria Alina, de apelido familiar Lina, segundo Frederico Bezerra Maciel; sendo filha de dona Déia, era conhecida e tratada por Maria de Déia; finalmente, e definitivamente, foi cognominada Maria Bonita por seu famoso amante, sendo tratada por homens e mulheres do bando simplesmente como Maria, dona Maria ou referida como Maria do capitão.

Privativamente Lampião a tratava por Santinha.

Embora não fosse referência de beleza, feia ela não era. Desleixada com aparência, também não. Muito pelo contrário! Na opinião da cangaceira Dadá, companheira de Corisco, Maria era excessivamente esnobe, “e até afetada”, conforme depoimento a Oleone. Além disso, ela tinha olhos azuis, gene de uma das avós, holandesa de nascimento e casada com um português.

Noves fora o julgamento de Dadá, beleza e elegância são evidentes na fotografia que ilustra este post, feita por Abrahão Benjamin, misto de pesquisador, fotógrafo e cinegrafista que se juntou ao grupo de Lampião por vários meses com o propósito de conhecer o modo de vida, fotografar e filmar seus integrantes, registrando diversos momentos do cotidiano deles.

A primeira pessoa a fazer referência à beleza de Maria de Déia conversando com Lampião foi Luis Pedro, referido por Oleone como “o cangaceiro do peito” do capitão, amigos inseparáveis. Falava a pedido dela, a quem conhecera em companhia do marido, que negociava sapatos na feira de Pedra de Delmiro, cidade localizada nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. O casal era natural desta, no território do atual município de Santa Brígida.
- Compadre Virgulino, eu encontrei uma mulher casada com um sapateiro, bonita como uns amores, que me disse que quer lhe ver o mais breve possível e que, apesar de nunca lhe ter visto pessoalmente, gosta de você.
Lampião não se mostrou muito interessado. Argumentou que tinha cisma de mulheres “amorosas” e disse a Pedro que “mulher só serve quando a gente se encontra com elas de sopetão”. Além disso, ponderou que cangaceiro não pode ter amizade com ninguém.
- Não resta dúvida, compadre, mas o que é certo é que eu não fiquei tonto porque a coisa é com você!
Pedro fez tanta propaganda que acabou por despertar o interesse do compadre e combinaram que na semana seguinte iriam juntos “olhar pra cara dessa pavoa”.

Dito e feito. Em companhia de Luis Pedro e de mais quatro cangaceiros foi bater na casa do sapateiro, onde foram recebidos por Maria, que os convidou a entrar. Ousada que era, declarou diante de todos, incluindo o marido:  
“Este é o homem que eu amo.”
Em seguida, dirigiu-se diretamente a Lampião: 
“Como é, quer me levar ou quer que eu lhe acompanhe?”
Parcialmente reformulado e bastante resumido, este relato do nascimento da histórica relação amorosa foi feito originalmente por Optato Gueiros no livro Lampião: memória de um oficial ex-comandante de forças-voltantes.
“Como você quiser, Maria; eu também quero. Se estiver disposta a me acompanha, vambora” – respondeu o Rei do cangaço.
Sem preâmbulos, ela deixou a sala e quando voltou foi com uma coberta a tiracolo e dois bornais contendo roupa e objetos pessoais, à moda cangaceira. Virou-se para o marido petrificado num canto da sala a quem disse simplesmente:  
“Adeus, Zé!”
E desapareceu em companhia do sonhado amor.

Estamos no final de 1930 ou princípio de 1931. Maria, que nesta época estava com 21 ou 22 anos, casara-se com José de Neném ainda muito jovem. Um irmão dele, sapateiro também e chamado Messias, se casou com uma das irmãs dela, de prenome Joana e apelido Dondom. Maria e Zé não tiveram filhos. Segundo Bezerra Maciel, ele seria impotente. O ingresso de Maria Bonita no cangaço abriu um precedente que iria ser seguido por vários membros do grupo. Ela ficou grávida poucos meses depois do início da relação com Lampião. O filho nasceu morto, como mortos nasceram mais dois.

Mais tarde, uma menina conseguiu sobreviver à gravidez que transcorreu, como as anteriores, em meio a viagens a cavalo pela caatinga, sob permanente risco de morte. Expedita nasceu na Fazenda Pedra d’Água, em Sergipe. Deste local até a casa do vaqueiro Severo Mamede, escolhido para cuidar dela, são trinta léguas dentro do território sergipano.

“Mas trinta léguas dessas de beiço, das que o Diabo mediu de cócoras em dia de mau humor”, escreve Joaquim de Góis no livro Lampião, o último cangaceiro, reproduzindo relato que ouviu do avô materno da menina, Zé Felipe, falecido em 1965, com 85 anos. Dona Déia morreu poucos anos antes em conseqüência de picada de cobra. O relato contém uma síntese da personalidade de Maria Bonita e por isso vale a pena ser lido tal como reproduzido por Oleone Fontes, que o recolheu no já citado livro de Antonio Amaury Correa de Araújo.

“Era um tempo calorento danado. A caatinga exalava um bafo quente, parecendo boca de fornalha. Maria tinha tido um resguardo de trinta dias e só na véspera é que tomara o seu primeiro banho frio, no que agira como todas as mulheres sertanejas.

Fez uma tipóia de uma toalha, passou-a obliquamente no corpo, tendo por suporte o pescoço, colocou a criança à tiracolo e partiu junto com o grupo com destino à fazenda Inchu, situada nas margens sergipanas do rio São Francisco. Aí a criança deveria ser entregue ao vaqueiro Severo Mamede, pessoa indicada e escolhida a dedo para criar a filha de Lampião.

Dizem que o intermediário da escolha desse vaqueiro, em arranjo com o proprietário dessas terras, Zequinha A. Tavares, foi o coronel João Maria de Carvalho, coiteiro e chefe político de Serra Negra, e o próprio Rei do cangaço. Voltemos, porém, a falar da viagem do grupo no rumo da casa do vaqueiro Severo Mamede.

No segundo dia, os cangaceiros dirigiram-se para uma ‘pias’ com a finalidade de reabastecerem-se de água. Encheram as ‘borrachas’, cabaças e cantis e seguiram o rumo desejado. Maria, por encontrar-se ocupada em cuidar da criança, foi a última a encher sua cabaça. A menina chorava desconsoladamente talvez em virtude do calor e debalde a mãe tentara amamentar-lhe, atrasando-se em relação aos companheiros que já caminhavam mais à frente.

O sol foi ficando cada vez mais quente, a caatinga parecia que iria transformar-se em uma fogueira a qualquer momento. Os cangaceiros já estavam a uns duzentos metros adiante em relação a Maria, que ia ficando para trás isolada. A criança continuava chorando sem que a mãe conseguisse aquietá-la; esta foi perdendo a paciência e começou a praguejar, gritando pelos companheiros que, indiferentes, avançavam cada vez mais.

Quando Maria começou a gritar, chamando a atenção de todos, Lampião mandou que parassem, protegendo-se da canícula infernal sob a sobra de um umbuzeiro. Sentado em uma raiz dessa árvore, o monarca das caatingas ficou esperando a chegada dela. Retirou o grande chapéu de couro da cabeça e colocou-o sobre os joelhos.

Maria vinha caminhando sob o sol ardente e só se ouvia o seu praguejar. A rainha do sertão estava nervosa, irritada e mais brava que onça fêmea acuada com os filhos na toca. Ao aproximar-se gritava como uma possessa:
- Cambada de fi da peste, mundiça miserave. Oceis num tão vendo isso não?
E virando-se para Lampião, que olhava em silêncio, gritou:
- E esse outro fii da peste! Mulelque! Canela de viado, também não ta veno isso não? Num vê qui a minina ta chorando i qui eu tenho qui anda mais divaga? U qui é qui ta pensano, seu cego veio?
Ninguém se atravia a responder. Só depois de muito xingamento, com Maria falando tudo o que queria e pensava, foi que Lampião, com início de sorriso a despontar-lhe nos lábios, apontando para a criança, disse:
- Mate isso!
Foi o suficiente para que, como uma tresloucada, Maria partisse para cima dele e rebentasse a cabaça cheia d’água na cabeça do Rei do cangaço, que todo molhado apenas ria da violência e reação da sua mulher. Os cangaceiros acharam o fato jocoso, riram, e um dos que mais se divertiram disse:
- Guenta, capitão, qui hoji dona Maria ta virada numa serpente choca! Ta uma jararaca brava!!!
Com dois dias ou mais de viagem chegaram na fazenda Inchu e dona Aurora, a esposa do vaqueiro Mamede, passou a amamentar o fruto da união de Maria Bonita com Lampião”.

Citado por Oleone Fontes na sequência deste relato, Felipe de Castro narra em "Derrocada do cangaço no nordeste" outro episódio emblemático da personalidade da fiel companheira do capitão Virgulino. Trata-se do episódio a que fiz referência no inicio deste post, com o qual irei encerrá-lo.

José Gomes dos Santos, conhecido por José Fulô, natural de Santa Brígida e compadre de Maria Bonita, quando soube que Lampião havia partido com ela ficou inconformado. Desconhecendo detalhes do que realmente aconteceu, esbravejou contra o procedimento do cangaceiro, resumindo o que pensava nos seguintes termos:
“Pra um homi que furta uma muié casada contra a vontade do deu marido só hai uma resposta – bala! Este homi não incontrou ainda um macho qui lhe desse um tiro na cara!”
A notícia da revolta de José Fulô correu célere pela caatinga até que chegou aos ouvidos do capitão Virgulino por intermédio de um coiteiro. Conforme ele relatou, na versão que se espalhou “o sinhô roubou Maria Bonita contra a vontade dela, o que tem provocado um grande desgosto nas caatingas”, referindo-se aos habitantes da região próxima. O capitão ficou possesso e disse o seguinte ao coiteiro:
“Apois você mesmo qui me trouxe a notícia desse valentão que ta tão danado por causo de Maria vim com eu, fica encarregado de mi apresenta este peste, amarrado que nem qui precise dos meus amigos pra isso, viu? Eu quero dar uma lição nesse cabra pra nunca mais ele se mete com a vida aieia”.
Maria Bonita não sabia do ocorrido, estava inocente quanto ao assunto.

A satisfação do desejo de Lampião não foi imediata. Longe disso. Ele de lá pra cá com suas ações e suas fugas; José Fulô de uma cidade pra outra – Canudos, Cocorobó – a comprar, retalhar e vender carne de bode nas feira para alimentar a família numerosa.

Eram 18 horas do dia 25 de novembro de 1935, quando ele chegou ao rancho de Antonio do Mocó, nas caatingas de Chorrochó, com quem fazia negócios. Bem recebido como sempre, não se apercebendo da traição contra si armada pelo dono da casa, foi, após, o café, deitar-se, e dormiu tranquilamente depois de longo bate-papo com seus amigos, para ser surpreendido ao acordar com os pés e mãos amarradas por Antonio do Mocó e outros elementos da casa. Ao perguntar o que significava aquela brincadeira de mau gosto, o dono da casa lhe respondeu incisivamente:  
“Você está preso por ordem de Lampião e vai ser entregue a ele”.
Os apelos não fizeram efeito. Seus carrascos não se comoveram com suas súplicas em benefício da família que o esperava ansiosa. No dia 2 de dezembro chegava Lampião, acompanhado do seu grupo, junto com Maria Bonita.

Ciente da excelente presa à sua disposição, o Rei do cangaço apresentou-se eufórico, certo de que estava prestes a executar a ansiada vingança. Não quis perder tempo com conversa alheias ao assunto, determinando que o presente fosse levado até ele.

Antonio do Mocó retira-se prazerosamente e vai cumprir a ordem recebida. Conduz José de Fulô até a varanda da casa, atado de pés e mãos. O pobre homem estava desfigurado e moralmente arrasado, como era natural que estivesse um indivíduo tão próximo da morte.

“Lampião recebeu-o alegremente constrangido, pois o riso que se esboçava dos seus lábios contrastava com o real sentimento que alimentava no seu íntimo, naquele instante rebelado pela avidez sádica de pratica a vingança a si mesmo prometida há vários anos” – descreve Felipe de Castro.

Reproduzo literalmente o restante da descrição:
“Maria Bonita, ao reconhecer o seu compadre José de Fulô, ficou atônica com a surpresa que aquele quadro horroroso provocou e, estática, aguardou os acontecimentos. Um silêncio profundo dominou o ambiente. Lampião aproxima-se do preso e segurando-o raivosamente pelo braço diz-lhe: ‘Então, seu valentão, o bandido que furta muié casada contra a vontade do marido merece um tiro na cara não é? Pois você agora seu peste vai morrê que é pra não se metê mais com a vida aieia!’
Mal vai se aproximando para a execução de sua vítima, esta, olhando suplicante para Maria, grita:  
“Minha cumade, pulo amor de Deus mi vala’.
Incontinenti, saltando no braço de Fulô e agarrando-o num gesto leonino e arrogante, grita Maria Bonita para Lampião:  
‘Cabra, este você não mata!’.
E com um solavanco violento arrebata-o das mãos do seu companheiro. Os cabras aí presentes entreolham-se, espantados ante aquele ato de violência, frontalmente exercido contra o seu chefe pela própria mulher; ficam totalmente parados aguardando silenciosos a eclosão do revide.

Mas Lampião surpreso com aquela atitude, inexplicavelmente assumida pela mulher que até aquele instante o aplaudia, respeitava e o amava loucamente, diz: ‘Dexa de bestera, Santinha. O qui é isto?’

Ao que lhe responde a sua companheira:  
‘Bestera não, Virgulino, eu tô ti falando agora com a mesma corage daquele dia qui sartei na anca do seu burro pra ti acompanhá pur amo. Este homi é de minha terra e é meu cumpade’.
Lampião, entre contrariado e visivelmente emocionado, olhos rasos d’água, exclama:  
‘Toma a bença a tua madrinha, peste! Santinha dá cá um beijo’.
Atracando-se com a sua amante e abrançando-se efusivamente, diz:
Leva o teu cumpadre pra casa, meu amô’.
Não localizamos o nome do autor da pesquisa, mas o açude é:  Trevo do Talvez

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ADENDO
*Maria Gomes de Oliveira é o nome da rainha do cangaço. 
Notem que as fontes são Oleone Coelho  e o polemico Frederico Bezerra Maciel 
Demais observações ficam a cargo do primo João e de quem mais desejar.

Um comentário:

José Mendes Pereira disse...

Amigo Kiko Monteiro:

Um texto de alto nível no seu blog.

Parabéns pelas pessoas talentosas que você apresenta aos estudantes do cangaço, de modo geral.

Quem tem medo de Maria Bonita?
Se Lampião estivesse vivo, eu jamais liria artigos sobre o cangaço. Mas como ele não mais existe, não tenho medo de Maria Bonita.

José Mendes Pereira - Mossoró-RN.