quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O retorno ao Regionalismo e a expressão identitária em Os Desvalidos, de Francisco Dantas


Eis aqui dois trechos da monografia defendida por nosso confrade o Professor Rubervânio Cruz Lima, (FOTO) ou melhor "Rubinho", em outubro passado na Universidade Estadual de Feira de Santana - BA para o curso de PÓS-GRADUAÇÃO DA ESPECIALIZAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS pense!!!.

Parabés amigo, obrigado por permitir o compartilhamento desta tese através de nosso espaço, é de grande utilidade para os pesquisadores ou mesmo acadêmicos de História que pretendem apresentar monografia envolvendo a influência do Cangaço em diversas vertentes culturais!



O retorno ao Regionalismo e a expressão identitária em Os Desvalidos, de Francisco Dantas

Outubro, 2008


INTRODUÇÃO

O presente texto, aparece como objeto que evidencia o caráter da expressividade do escritor Francisco J. C. Dantas, sergipano que em seu livro “Os Desvalidos”, nos dá uma vasta visão do caráter de temor que circundou muitos sertanejos no período do fenômeno do cangaço, trazendo um povo que se dividia entre maus tratos e humilhações de policia e bandido, na busca pela sobrevivência nos carrascais da caatinga, sendo atemorizados mesmo depois da morte de Lampião. Com uma narrativa carregada de sentimento e expressividade, o autor nos prende às situações dramáticas e nos conduz a um olhar para as mazelas da vida desses desvalidos, desfavorecidos, apontando o processo de fusão dos personagens em animais brutos, tais quais os bichos do mato ou dos currais, para nos mostrar a dolorosa vida do sertanejo.

Contudo, teremos que traçar um panorama nos precursores dessa temática para tentar apontar a atualidade dessa temática, como forma de mostrar que, assim como ainda se escreve sobre o cangaceirismo, sobre a seca, sobre os desfavorecidos, como era na escrita regionalista de 30, ainda persiste também a desigualdade social e regional. Intrínseco a isso, vem também o fato do Governo atual se utilizar dessa “industria da fome” como argumento para fins políticos e lucrativos, Como forma de firmar uma busca de identidade nacional e cultural, a temática regionalista ainda se mostra como uma das temáticas que acham lugar na literatura de hoje, já que retratar o sertão, o cangaço, a fome, a seca, é retratar algo que podemos considerar atual, de modo que essa identidade cultural encontra-se em processo de evolução, abraçada com a Literatura e Cultura Popular, que exercem o papel, hoje, de elementos que legitimam as expressões literárias do Nordeste.

Entretanto o quadro apresentado acima, também mostra uma outra realidade, a de que, embora esse método assistencialista, embora vicioso por não permitir que o contemplado possa sobreviver por conta própria, é, de fato, uma ajuda muito boa, principalmente para regiões em que a economia do lugar gire completamente em torno desses programas assistencialistas. Aí está uma complicada relação cultural. A temática regionalista, embora se diga que já se esgotou, ainda continua presente e figura uma construção de escrita que engloba os temas que retratam o sertão e a pobreza, como forma de refletirmos sobre o regionalismo, que é vigente e que reverbera ainda um assunto que não ficou para trás.

Essa escrita de afirmação tem, em seu bojo, um pouco do objetivo primordial dos que trataram do regionalismo, que é tentar concretizar uma literatura de identidade tipicamente brasileira, e precisamente nordestina, conforme pregou Antonio Candido e a exemplo do que fez Alencar, Távora, José Américo, Rachel de Queiroz, Lins do Rego, Graciliano, dentre outros. Outras vertentes que podemos citar, para agregarmos as produções atuais sobre a temática em foco, são as produções cinematográficas do chamado “árido movie”, que permeia dos anos 90 até agora, as manifestações artísticas, como o teatro, a música, a dança, enfim, poderíamos cita inúmeras representações do sertão sendo trazidas aos nossos dias, como algo que se reverbera e se ressignifica. Um exemplo disso, no cinema, são os filmes que tratam do cangaço ou da seca, ambientados em ambiente árido e desértico, retratando a caatinga, a escassez, como podemos citar “Baile Perfumado” de Paulo Caldas e Lírio Ferreira , que recria a trajetória do libanês Benjamin Abraão em busca de Lampião e seus cangaceiros para obter cenas do cotidiano do cangaço. O filme, que traz, em alguns trechos, imagens reais dos cangaceiros, extraídas da película de Benjamin, hoje transformada em documentário cujo título é “Memória do cangaço” e que resta apenas 15 minutos de cenas, consegue projetar o sertão e polemizar alguns fatos do cangaço, servindo de subsídio para o filme.

Outro exemplo, também do mesmo de 96, é o filme “Corisco e Dadá” , do cineasta Rosemberg Cariry, que também revigora o cangaceirismo, retratando a vida de um dos cangaceiros mais temidos de Lampião, O Diabo Loiro, como era conhecido Corisco e sua companheira Dadá. Ou mesmo filmes como “Central do Brasil” , “Guerra de Canudos” , “O Sertão das Memórias” , dentre outros que remontam o cenário do sertão e trazem, como pano de fundo, o Nordeste desvalido. Enfim, essa temática já foi até inspiração para enredo de escola de samba , no ano de 2002, como nos mostra a pesquisadora Iza Luciene Mendes Regis, em seu texto. Poderemos, diante dessa linha, realizar um rápido percurso na música, que também teve espaço, através de grupos de jovens, oriundos do Nordeste, novas mentes que buscam a ressignificar o cenário musical com elementos tradicionais misturados a novas tendências.

Dentre vasto número, poderíamos citar bandas como Mestre Ambrósio, Nação Zumbi, Mombojó, Mundo Livre s/a, Cascabulho, Lampirônicos, Cordel do Fogo Encantado, NaUrêa (Sergipe), Sheik Tosado, Querosene Jacaré, Uskarafobia (Paulo Afonso), que misturam rock com forró, coco, embolada, mangue beat, maracatu, xaxado, baião, desenvolvendo uma música regional cheia de expressividade e criatividade, com letras que retratam as diversas temáticas que circundam o sertão.

Para Barbalho, em seu artigo, ao falar da importância identitária midiática, diz que esse discurso ajuda a fixar a idéia de Nordeste . O autor de “Os Desvalidos”, nessa perspectiva, remete-nos, em sua escrita, à ótica desses desfavorecidos e desse cenário sertanejo múltiplo, nos colocando como espectadores que, no decorrer dos fatos, entram na história e presenciam acontecimentos, sentem as dores dos sofridos e nos posiciona em ângulos diversos, na sua ambientação do espaço em que as histórias se desenrolam. Dantas traz uma linguagem contundente e forte, acentuada pela rudez dos sertões, nas gentes e nos bichos, na terra seca e petrificada, na ausência de água, no sol escaldante, no cangaceirismo, coronelismo, fatores que circundam e circundaram o Nordeste de tempos em tempos.

Os desvalidos, como o título já adverte, são os fracassados, os sem valia, validade, os desamparados, em suma, os miseráveis. A carga negativa do título é também intensificada no decorrer da narrativa, quando o autor traz na figura de Coriolano um pobre coitado, que no percurso de sua vida, se deparou com desventuras e flagelos, aparecendo como um fracassado nato, tendo em sua vida uma sina, desprovido de sorte, humilhado, sem conseguir voltar para sua terra, mesmo depois que um dos que mais o amedrontava, Lampião, agora se findara, como vemos no início do livro. A narrativa nos coloca como testemunhas da história, numa evidência crua e real, trazendo a tona os problemas sociais e humanos mais intensos. Essa literatura realista revela aspectos contundentes, no âmbito da desumanização e do medo, representados na figura do personagem central, dando-nos um delineamento do perfil de um sertão injusto.

O cangaço, no período em que era um fator contundente, exerceu um caráter de amedrontamento nos sertões, de modo que os sertanejos se viam a mercê, tanto dos bandidos, quanto da polícia, que deveria trazer a justiça para os carrascais, no que sabemos, no âmbito da crueldade e depredações e roubos, se igualavam e muitas vezes superavam os cangaceiros. Os sertanejos viviam entre dois punhais: o dos cangaceiros, quando estes buscavam exercer a arte da pilhagem ou necessitavam de apoio nas fugas ou compra de mantimentos e o das volantes, que, ao saberem que em determinada região havia passado bandido, torturavam, humilhavam, saqueavam e até matavam culpados e inocentes na tentativa de descobrir paradeiro dos vilões. Em “Os desvalidos”, essa agonia vivenciada por Coriolano e pelos sertanejos é posta em destaque no decorrer da narrativa, quando o autor nos dá vários indícios dos temores sofridos por causa do fenômeno do cangaço.

Com essa perspectiva adentraremos nas particularidades da obra, apresentando um olhar na perícia do autor em retratar assuntos tão fortes, trazendo ao contexto atual um tema antigo, de modo a retratar o fenômeno do cangaço e as desventuras do sertanejo, como forma de evidenciar particularidades da cultura regional e os impasses sociais e culturais ainda presentes, apontando aspectos da busca do sertanejo pela purgação em vida de sua dura caminhada, fator que acompanha a trajetória dos desfavorecidos, ainda hoje pelo sertanejo mostrando a influencia em que o cangaceirismo e coronelismo exerceram nos sertanejos e as desventuras passadas pelas gentes das caatingas, as humilhações e sofrimentos, na tentativa de verem chegar o fim dessa expiação involuntária a qual estão sujeitos, da esperança em dias melhores do que a dura sina.

A IDENTIDADE DOS DESVALIDOS

Sendo, o romance, apresentado sob uma ótica interna, onde os conflitos e temores são evidenciados, há uma evidência nas mazelas sofridas por personagens do livro que sinalizam um sofrimento coletivo desses desvalidos, o que os apresenta, tanto na figura do personagem central, Coriolano, como nos secundários, Filipe, Maria Melona, Cantílio, Zerramo e Lampião, como vítimas de forças governamentais e sociais. Cada personagem, diante das tortuosas ações de opressão empregadas pelo contexto em que estão inseridos, se apresenta como síntese da miséria, da falta de recursos e do poderil dos coronéis, o que nos dá uma visão do que o autor deseja trazer à tona na sua escrita, que é a apreensão de questões como a errância, a condição dos desfavorecidos diante dos que política e economicamente detêm o poder, a migração, o coronelismo opressor e o cangaço.

Aparecem algumas cenas em que os desvalidos se unem na busca pela sobrevivência, como uma forma de vencerem ou se livrarem de conflitos, tais como limitações, medos, oscilações entre o partir e o ficar, desacertos, implicações de mudança de condição social, humilhações e estado de miséria, aos quais se deparam esses desfavorecidos. Para percebermos essa identidade atribuída aos degenerados pela sociedade, nesse ambiente que já é, por si só, excludente, por se tratar de um território escasso, vejamos quando o autor nos tece o quadro da miséria, compartilhada pelos personagens, o que os coloca como semelhantes na mesma condição de desconforto e carência, como cúmplices da mesma sina.

Vejamos a cena em que se encontram Coriolano e Cantílio, para percebermos a identidade desses desvalidos colocada em evidência.

“Coriolano se deixara comover, de tão declarada que fora aquela aflição deste se irmão de miséria, que agora o põe mortificado entre a magrém encardida e pelancuda, as mãos tremidas e embaraçadas do mesmo jeito das suas, os olhos cozinhados, como a se irem daqui, recusados deste mundo, e trabalhando apenas pelo tato.”

Nessa afirmação de identidade, posta pelo autor, a figura do cangaceiro Lampião também como desvalido, o que nos leva a estabelecer um paralelo entre a imagem de Lampião, chefe do bando de cangaceiros que percorreu pelos sertões assolando e cometendo atrocidades em revés do Governo, com a de Coriolano, protagonista da história. Entre estes dois personagens, aparentemente tão díspares, são na essência muito semelhantes, de modo que ambos são vistos como desvalidos, vítimas de um destino que pune-os, como rejeitados e frutos de uma justiça falha, proveniente da desorganização de poderes que impregna os sertões.

Apresentando maneiras opostas de se responder a essa discriminação, os desvalidos enfrentam-se, como podemos ver, no romance, quando Lampião, que seguem o caminho do banditismo e da violência, chocam-se contra Coriolano, Filipe e Zerramo, que por sua vez, tentam sobreviver nesse ambiente através da honestidade, embora todos sejam fruto de reprovação da sociedade. Para percebermos o aspecto da linguagem, repleta de aparatos lingüísticos e expressões culturais que remontam o falar dos sertanejos, vejamos o trecho inicial do livro, como forma de identificarmos essa característica regionalista, visível em toda obra de Dantas.

- Lampiãããão morreeeeu!...Apanhado de susto,

no papoco da notícia que acaba de atroar,

Coriolano estremece do coração em rebates pegando a boca de peito.

Freme-lhe o couro, esbarra a costura da chinela

e apura as ouças de faro aguçado,

espichando o pescoço pra fora da cacunda.

Será, meu Pai do Céu, que Herodes,

enfim, desencarnou?

Não, não pode ser! Na certa isto é capricho da idade!

É o tal zumbido que se arranchou nos miolos,

fazendo desta cabeça uma casa de mangangá, a ponto de me rodar o juízo desmareado, que bemcarece umas cunhas pra não ficar assim tão bambeadeiro.

As rememorações de Coriolano são reverberações de uma inconstância causada pelas marcas deixadas no personagem, pelas mazelas da vida. A constante incapacidade de retornar à sua terra é um reflexo da mágoa e do temor, reflexos da humilhação a que sofreu ao encontrar-se com a figura terrível de Lampião, que o aprisionam em um estado paralisante. O personagem central, no decorrer da história, luta contra o temor de regressar a sua terra, de modo que isso é expresso em diversas falas desse personagem ou na do narrador, que chega, em determinados trechos a se comover com a situação do pobre Coriolano.

Vejamos um exemplo desse temor ao regresso e as incertezas dessa ida.Apesar de hesitante entre isso e aquilo, desde que chegou aqui Coriolano se prepara em vão e em segredo, com um pé já na estrada. E depois da morte de Virgulino, então, é que encasquetou de vez, gastando o tempo todo a arranjar e desfazer os seus preparativos. É certo que treme de pavor com medo de que essa ida vire certeza, mas se aleita dessa probabilidade e dela não arreda o pé, embala-a no juízo, dorme e acorda enredado em deleites de impressionado, de tal forma que, não cabendo em si mesmo, se transborda a comunicar aos conhecidos os pormenores de sua viagem sem dia marcado, e cuida de todos os aprestos, minudentemente, com uma obsessão de viciado. (Dantas. 1996, p. 53 e 54)

A exemplo dos atos de Lampião, como bandido que assolava o sertão e cometia diversas atrocidades, o autor expressa, nos personagens, o temor que muitos sertanejos presenciaram, pelo fato de os cangaceiros representarem, junto com a polícia, daquela época, duas cruéis vilãs, e isso é retratado em “Os Desvalidos”, na segunda parte, no primeiro capítulo. Vejamos um trecho do livro, quando o narrador fala sobre os atos violentos dos bandidos e das volantes e o sofrimento dos sertanejos, nas mãos de um e de outro.

O bando de Lampião e a volante do governo agora deram pra esta zona do Aribé. Enquanto se perseguem e se chacinam em porfiadas e sangrentas brigas, vão também esfolando a região, a saque, morte e desonra, metendo o pau na pobreza desvalida. Furam olhos, arrancam unhas, decepam os quibas e a metade da língua. A muque, arrebanhado, sofre o pacato paisano, torturado na mão de um e de outro para falar o que não sabe, e pelo silêncio punido como espião e coiteiro do inimigo. (Dantas. 1996, p.125)

Um comentário:

Anônimo disse...

e muito ter gente como voceis que adoro a cultura brasileira pois lampiao foi um homen injustisado