segunda-feira, 6 de abril de 2020

A mulher no cangaço

Feminismo acidental

Por Danielle Romani

Publicado originalmente na Revista Continente em 01 de Março de 2012


 Jô Oliveira

A imagem é reveladora: em plena caatinga, num intervalo entre combates com as volantes, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, deixa-se flagrar em cena íntima. Diante da câmera do cinegrafista sírio-libanês Benjamin Abrahão, o Capitão Virgolino – de quem poucos podiam se aproximar – permite-se ser penteado pela companheira Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, que viria a se tornar Maria Bonita. O ato de carinho aponta para uma mulher zelosa, ocupada do seu amado.

A felicidade conjugal da baiana Maria Déa, ou Maria do Capitão, era perceptível. Jovial, sorridente, a figura flagrada no ano de 1936 por Benjamin – no único filme que registrou o bando – mostra um momento de descontração num período de intensa perseguição aos cangaceiros. Imagem de uma sertaneja que não fazia a menor ideia da importância que teria na história nordestina.

Apesar de não poder antever esse futuro, Maria tinha consciência da importância do seu papel como mulher de Lampião. “Ela encarou as lentes da câmera com ar zombeteiro, mas imponente. Sabia que tinha poder”, diz o sociólogo Erivan Felix Vieira, autor de Coronelismo e cangaço no imaginário social.

Nas comemorações do centenário do seu nascimento – que se encerram este mês – , a história de Maria Bonita foi revista por vários pesquisadores. A fama de que era cruel – forjada no passado – foi rechaçada. Maria Déa é uma das poucas unanimidades entre os que se dedicam a estudar o tema, descrita como uma personagem determinada, corajosa e apaixonada.

“Maria Bonita tinha alguma coisa de superficial, de vaidosa. Um jeito meio de moleca, meio de meninona... Era amiga com quem simpatizava e arengueira com quem não gostava, mas fiel e ousada. Seguiu Lampião porque quis. Teve peito para desafiar a sociedade sertaneja. O Capitão, por sua vez, era apaixonadíssimo por ela e a chamava de Santinha. Os dois se amavam verdadeiramente”, descreve o historiador Frederico Pernambucano de Melo, que a considera a mais autêntica das cangaceiras.

OLHOS AZUIS 

No livro A dona de Lampião, lançado este mês, a jornalista e pesquisadora Wanessa Campos traça um perfil da mulher e do mito. E traz algumas informações recentes. A primeira delas é a possibilidade de Maria não ter nascido em 8 de março de 1911, data oficial do seu aniversário. Segundo uma certidão de batismo encontrada pelo sociólogo Voldi Ribeiro, de Paulo Afonso, na paróquia São João Batista de Jeremoabo, também na Bahia, ela teria nascido em janeiro de 1910. Mas não há consenso na veracidade dessa datação.


Maria Bonita e Lampião em foto de Benjamin Abrahão, datada de 1936. 
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução
do livro
Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Outra especulação diz respeito à aparência física de Maria Déa, que teria os olhos claros. “Ela era morena clara, tinha mais ou menos 1,58m de altura, pernas grossas, busto pequeno (o que na época era valorizado), dentes perfeitos. Suas irmãs Antônia e Dorzinha, diziam que ela tinha olhos azuis. Uma geneticista que consultei me afirmou ser isso possível, visto que elas tinham uma avó holandesa. Mas achei melhor me acautelar e considerar que Maria teria olhos claros, mas não totalmente azuis”, pondera Wanessa. Maria entrou no bando aos 20 anos, em 1930, após um flerte iniciado com Virgolino, no início de 1929, no sítio Malhada de Caiçara, a 38km de Paulo Afonso. Nesse dia, segundo testemunhas, os dois conversaram muito. “Houve uma simpatia recíproca. Maria tinha então um pouco mais de 19 anos e Lampião, 30”, descreve a jornalista. Virgolino passou a visitar a fazenda, a despeito do marido de Maria, Zé de Neném, o José Miguel da Silva, com quem a sertaneja se casara aos 15 anos, e de quem já tinha se separado várias vezes. A presença do cangaceiro rapidamente atraiu a ira das volantes sobre a família, que teve de mudar-se para Alagoas. 

Foi então que a jovem escolheu seguir com Lampião. “Maria demonstrava alegria, quando largou a família. Trocou o vestido de voile estampado por uma mescla azul de mangas compridas, meias, perneiras de lona, alpercatas, lenço no pescoço, chapéu de abas largas, bornais, cintos, alforjes”, descreve Aglae Lima de Oliveira, no livro Lampião, cangaço e Nordeste.

Apesar de não ter sido considerado bonito, Lampião tinha charme e atrativos. “Aqueles homens, vestidos de forma diferente, com ouro à vista e chapéu de couro, despertavam sonhos. Avistar um deles era como estar diante de um ídolo, de um artista famoso e rico”, descreve Wanessa.

A beleza de Maria também suscita debates. O escritor Joaquim Goís, que a conheceu ainda adolescente, antes de Virgolino, descreve-a de forma impiedosa: “Uma cabocla apagada, rosto de linhas inseguras, olhar vago, corpo solto em desalinho, seios bambos”. Bem distante da musa cantada pelos cordelistas e cantadores.

Retrato questionado por cangaceiros que conviveram com ela e por suas irmãs. “Os que a conheceram dizem, inclusive, que ela não era fotogênica, que pessoalmente era muito mais bonita. Temos que levar em conta, ainda, que as mulheres do cangaço eram escolhidas pelos atrativos físicos. Lampião, certamente, encantou-se com seus atributos”, pondera a jornalista.

Nesse contexto, vale ressaltar que a alcunha “Maria Bonita” só veio a ser usada um ano antes de sua morte, e, ao que tudo indica, foi criada pela imprensa do Sudeste, para dar um tom mais atraente às manchetes de jornais. Quem conta a história do apelido é Frederico Pernambucano. “O nome não apareceu no Sertão. Foi coisa dos repórteres do Rio”, explica o historiador. O termo, por sua vez, originou-se de um romance de Afrânio Peixoto, do início do século, que foi transformado em filme homônimo, em agosto de 1937.


Sila (segunda, da esquerda para a direita) relatou, na maturidade 
(foto seguinte), sua passagem pelo bando no livro Angicos, eu sobrevivi. 
Foto: Reprodução

O fascínio da sertaneja pelo que lhe oferecia Lampião era compreensível. “Maria Déa queria apenas sair daquela vida ‘todo dia sempre igual’, deixar o marido infiel, livrar os pais da perseguição da polícia e dar um novo destino à própria vida. Afinal, o que ela tinha a perder? Amava Virgolino, sentia-se amada, ele era rico, iria ter uma vida diferente”, defende Wanessa.

Presidente do Núcleo de Estudos do Cangaço da União Brasileira de Escritores – Seção PE, a psicóloga social Rosa Bezerra defende que a decisão tomada por Maria foi a de uma mulher à frente do seu tempo. “Apesar de elas não terem consciência, o movimento dessas mulheres, de optar por seguirem os homens que amavam, gestou o feminismo no Sertão. A mulher sertaneja era treinada para ser doméstica e nada mais. No bando, uma vida nova se apresentava: elas não cozinhavam, não lavavam, eram tratadas como rainhas, uma vez que o cangaceiro era acostumado a fazer tudo. As mulheres só entravam nessa partilha se quisessem. Depois, porque puderam viver sua sexualidade abertamente, puderam usar saias no joelho (quando na época a altura dos vestidos era nas canelas), puderam usar joias, se enfeitar. Se a gente for observar as roupas que elas usavam, existem semelhanças com as que adotamos na década de 1970”, defende Rosa, que é autora do livro A representação social do cangaço.

Neta de Maria e Virgolino, a escritora e diretora da Sociedade do Cangaço, Vera Ferreira, assina o álbum Bonita Maria de Lampião, e diz que a avó não seguiu sozinha. “No caminho ao encontro de Lampião, Maria recebeu a companhia da ex-cunhada, Mariquinha, que também decidiu viver ao lado do cangaceiro Labareda. Uma interpretação em relação às sertanejas que se tornaram cangaceiras é de que elas, nativas de um ambiente árduo e sem perspectivas de mudanças, buscavam, acima de tudo, entrar num novo mundo, e com proteção.”

HÁBITOS 

Se os cangaceiros mudaram a perspectiva de vida dessas mulheres – estima-se que 40 delas se agregaram aos bandos, entre 1930 e 1936 –, elas também interferiram no cotidiano deles. Graças à presença feminina, os grupos se tornaram mais limpos, mais cordatos, menos violentos e mais vistosos nas roupas. No seu estudo, Wanessa Campos reforça essa ideia, batizando os anos entre 1930 a 1938 de período “mariadeano” (de Maria Déa).

“Quando Lampião se apaixona por Maria Bonita, a partir de 1930, quase todos os coitos se dão nas cercanias da Bahia e de Sergipe, onde havia afluentes dos rios. Eles se fixam numa região dadivosa, com águas potáveis, águas puras. Passam a tomar banho quase que diariamente, coisa que não faziam antes delas”, explica Frederico Pernambucano. O historiador destaca, também, que a convivência das cangaceiras com as mulheres e filhas dos coronéis poderosos, aliados de primeira linha dos cangaceiros, mudaram os hábitos das primeiras.

“Da convivência resultará o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, e o aburguesamento de maneiras: a máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil, a filmadora alemã em 35mm e a câmera fotográfica... É o tempo dos bailes perfumados, dos cheiros de Fleurs d’Amour, da casa Roger & Gallet, ou de Atkinsons, da Royal Briar”, explica Pernambucano.


Sila.
Foto: Acrisio Siqueira/Reprodução do livro
Angicos, eu sobrevivi

Ao admitir as mulheres, contrariando os ensinamentos do seu mestre, o cangaceiro Sinhô Pereira, Lampião não apenas dava novo rumo ao cangaço, como, sem querer, mantinha o costume brasileiro de acolher mulheres em campanhas militares. “Há registros dessa presença na Primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 1648, às mulheres cabendo o amasso do pão na cozinha móvel do exército holandês. Ele retorna também à saga das vivandeiras, cantada em verso e prosa ao final do conflito da Guerra do Paraguai, quando as mulheres acompanhavam seus amados à guerra. Ou de Canudos, em 1897, quando a mulher precisou enrijecer-se de amazona, para fazer frente às jagunças”, explica Frederico.

Excelente estrategista, Lampião também se pautou na observação da Coluna Prestes, em 1926, que abrigava em sua formação centenas de mulheres, e que fez incursão pelo Nordeste. “As lições de 1926 devem ter vindo à mente do apaixonado de 1929 como um conforto providencial”, sugere o pesquisador.
As mulheres do bando não pegavam em armas nem participavam das batalhas. A elas era dado um revólver para a defesa pessoal e, no caso de Maria Bonita, havia sempre guardiões ao seu redor, inclusive um ajudante pessoal, para auxiliá-la nas suas tarefas diárias.

No livro Angico, eu sobrevivi, a sergipana Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, mulher de Zé Sereno, o José Ribeiro Filho, lembra que o maior temor das cangaceiras era serem presas pelas volantes. “Sabíamos que seriamos submetidas a estupros e atrocidades terríveis. Eles nos chamavam de prostitutas, e sonhavam em nos pegar para atemorizar nossos companheiros.” Sila, assim como Maria, nunca participou de batalhas.

Aliás, o fato de que Maria jamais usou de violência leva muitos pesquisadores a afirmar que a sua morte foi uma arbitrariedade, pois a ela não eram imputados crimes, a não ser o de seguir o bando. Tudo indica que ela foi “massacrada” no dia 28 de julho de 1938, pelo simples fato de ser a mulher de Virgolino. 

No seu livro, Wanessa relata a crueldade com que o soldado Panta de Godoy abateu a baiana: “Quando avistei Maria Bonita, ela deu meia volta, correu, gritou: ‘Valha-me, Nossa Senhora!’. Eu atirei nas costas dela e ela caiu, fez uma corcunda e se levantou quando um soldado gritou: ‘Segura a bandida!’. O soldado Santo cortou a cabeça de Lampião e, com o mesmo facão, eu cortei a cabeça de Maria Bonita. Ela ainda estava viva”.


Na história do cangaço, consta a maestria na produção de bordados por Lampião e Dadá. A máquina de costura era indispensável para a confecção de objetos em tecido e couro
Foto: Fred Jordão/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço

DADÁ 

A pernambucana Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, mulher de Cristino Gomes da Silva Cleto, o alagoano Corisco, era uma exceção nesse contexto. Exímia atiradora, valente – citada por alguns cangaceiros como “mais homem que os próprios homens”–, ela se notabilizou pela coragem e pela eficiência nos combates, usando revólveres, espingardas, rifles. Conta-se que era muito respeitada por Lampião, o que provocou os ciúmes de Maria Déa e o afastamento entre Virgolino e Corisco.

Além de guerreira, foi a responsável pela confecção de bornais de bordados floridos em cores vivas, que passaram a ser usados pelos cangaceiros, em meados da década de 1930, segundo afirma Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

Frederico Pernambucano discorda dessa informação. Atribui a criação dos adereços ao próprio Lampião, que, segundo afirma, era excelente costureiro. “Dadá não tinha ascendência sobre o bando. Lampião, sim, ditava moda. Tenho peças bordadas por ele e por ela, e posso afirmar que as de Lampião são superiores em originalidade e qualidade”, diz.

Coautora do livro Bonita Maria de Lampião, professora de Artes e Design da Universidade Federal de Sergipe, e desenvolvendo uma tese de doutorado sobre a estética do cangaço, Germana Gonçalves de Araújo foge da polêmica em torno dessas autorias. “É bobagem questionar isso. Devemos desabilitar as definições ‘verdadeiras’ acerca de quem deu início à aparência exuberante dos cangaceiros. Na minha opinião, não há importância ou polêmica quanto a isso. Ou seja, Dadá pode ter sido responsável por parte da estética cangaceira, mas foi Lampião quem aceitou e definiu os construtos de uma identidade”, afirma.


Para Frederico Pernambucano de Mello, Lampião era exímio costureiro, superando outros “artífices” do bando. Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Ela ressalta que, depois da entrada da mulher, a imagem do cangaceiro passou a ser menos agressiva. “O traje uniformizado recebeu novos e inusitados elementos. Flores, estrelas, joias e moedas são alguns dos ornamentos que, com base na geometria regular, foram organizados por princípios de composição e se tornaram arranjos com ritmo e simetria.”

RAPTOS 

Apesar de apontados como cordiais companheiros, houve episódios que desabonam o discurso de que os cangaceiros eram gentis com as mulheres. Dois exemplos chocantes são os de Dadá e de Sila. As duas foram raptadas e desvirginadas aos 13 anos de idade, quando ainda brincavam com bonecas e temiam a presença daqueles homens imponentes, vestidos com roupas extravagantes.

No livro Gente de Lampião, Dadá e Corisco, Antônio Amaury Corrêa de Araújo transcreve o depoimento oral de Dadá sobre como ocorreu seu rapto. Primo distante, Corisco a conheceu na fazenda onde morava, e desde que a avistou preveniu o pai da menina que não a casasse com ninguém, porque ela seria sua. Tempos depois, inflamado por uma fofoca de que ele teria sido denunciado pela família de Dadá e de que a menina fora desflorada por um vizinho, Corisco foi à casa do pai de Sérgia, e comunicou: “Vim buscar a menina”.


Apesar de ter sido raptada e estuprada por Corisco, Dadá declarou posterior amor e afeto ao cangaceiro. Foto: B.Abrahão/Reprodução do livro Gente de Lampião - Dadá e Corisco.

Segundo Dadá, no mesmo dia, Corisco a violentou. Ela sofreu hemorragia, ficou traumatizada física e mentalmente. Criou aversão pelo seu raptor, e passou a evitá-lo a todo custo. Com o tempo, diante do homem aparentemente arrependido pela brutalidade, ela perdoou o que ele lhe havia feito.

Já idosa, ao relatar o primeiro encontro com Corisco, Dadá usou as seguintes palavras: “Eu, a Sussuaruna (como era chamada por um primo), não podia adivinhar que aquele estranho loiro, forte, alto, ombros largos, cabelos longos, olhos azulados, era Corisco, que iria ter influência decisiva na minha vida. Em companhia dele percorri, mais tarde, quatro estados, enfrentei lutas terríveis, tive momentos de grande alegria e outros de dor”.

A declaração de Sérgia para o pesquisador Antônio Amaury, que a recebeu em casa para depoimentos durante cinco meses, leva o estudioso a concluir que Dadá era verdadeiramente apaixonada pelo companheiro, o qual defendeu até a morte. “O amor deles era intenso. Um amor trágico, mas tão forte quanto o de Maria e Virgolino”, compara Amaury.

Na opinião de Rosa Bezerra, a relação entre Dadá e Corisco, que teria tudo para ser infeliz, acabou sendo contornada. “Corisco a ensinou a ler e escrever, e a tratava como uma deusa. Dadá conseguiu perdoá-lo e ver o grande homem que ele representava”, aponta a psicóloga.


As cangaceiras só usavam armas para defesa, ficando fora das batalhas.
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro
Estrelas
de couro - A estética do cangaço.

Raptada da mesma forma por Zé Sereno, Sila também relembra o dia em que foi levada à força de casa. Poupada nas primeiras semanas, posteriormente foi violentada. O episódio é narrado por ela, no livroAngico, eu sobrevivi. “Comemos à vontade, pois a comida era farta e a pinga, saborosa. Naquela noite, conheci o sexo. Experiência ruim. Lua de mel tão amarga quanto as amarguras sofridas por mim nos dois anos seguintes do cangaço”, narra Sila, que aprendeu a gostar de Zé Sereno, com quem viveu até a morte dele, em São Paulo, na década de 1960.

Os cangaceiros não admitiam mulheres sem homem nos bandos. Caso ficassem viúvas, não poderiam permanecer no grupo, salvo se contraíssem matrimônio com outro integrante. “Se fossem rejeitadas, ou seja, se ninguém mais as quisesse, muito provavelmente seriam mortas. A informação difundida entre pesquisadores é de havia o temor quanto à possibilidade de que, ao voltarem à vida em sociedade, elas fossem pressionadas a contar onde ficavam os esconderijos do grupo”, afirma o historiador Jovenildo Pinheiro de Souza, que tem no prelo o livro Sertão sangrento: luta e resistência.

Outra conduta imperdoável era a traição feminina, punida com morte, sem apelação. “Homem podia, mulher não”, contou Dadá. Cristina, mulher do cangaceiro Português, teve um caso, fugiu e tentou refugiar-se no grupo de Corisco. Não aceita, quando era levada de volta à família, foi emboscada e assassinada pelos companheiros do ex-marido. Final ainda mais trágico coube à Lídia, mulher de Zé Baiano, outro integrante do bando de Lampião, morta a pauladas pelo companheiro por tê-lo traído com outro homem.

Jovenildo ressalta, entretanto, que a traição era algo imperdoável em qualquer esfera social. “Fora do cangaço, ela também era punida sem piedade. Além disso, a mulher comum era maltratada e não tinha qualquer relevância. Com os cangaceiros, pelo menos, elas eram respeitadas, tinham deferências. Era uma sutileza, mas, no contexto da época, mostra a capacidade desses homens de respeitarem suas mulheres.”

Pescado no sítio da Revista

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