segunda-feira, 12 de maio de 2014

Angico 76 anos depois. Uma importante "revelação"

Quem era realmente o cangaceiro "Não conhecido"

Por Luiz Ruben (*)

A matéria a seguir chegou às minhas mãos através de uma troca de documentos feita com Marcos Edilson, Doutor em História e autor do livro: "Lampiões Acesos - O Cangaço na Memória Coletiva", atualmente residindo em Palmas Tocantins. Esse intercâmbio aconteceu em 2010 e só agora, em 2014, redescobri essa importante informação que estava em minhas mãos, publicada no Jornal de Alagoas em novembro de 1938.

Na identificação das cabeças cortadas, na famosa foto tirada nas escadarias da Prefeitura de Piranhas em 28 de julho de 1938, o cangaceiro que está entre Cajarana e Diferente, na última fileira, (de baixo para cima), tendo Enedina na outra extremidade, é citado como “não conhecido”. Na matéria do Jornal de Alagoas ele é identificado como sendo "Luiz de Thereza".



Segue a matéria na íntegra, apenas com a ortografia atualizada. Também a foto das cabeças na escadaria e o fac-símile do Jornal de Alagoas.

Espero que esse achado tenha eliminado de vez mais um dos “mistérios de Angico”.


Trascrição:

Jornal de Alagoas, 9 de novembro de 1938
Quem era o bandido que não foi identificado no sucesso de Angicos.

Quando a força policial sob o comando geral do capitão João Bezerra, no feliz reencontro de “Angicos”, fulminou o facínora “Lampeão” e os mais temíveis de seus asseclas, um dos cangaceiros não fora identificado.

Surgiram até, comentários em torno do bandido desconhecido, pensando algumas pessoas que se tratasse de um aventureiro que houvesse se incorporado ao grupo sanguinário do “Rei do Cangaço”.
Assim, por muito tempo ficou constituindo uma interrogação a identidade do mesmo. Entretanto, agora, chegam ao nosso conhecimento informações a respeito do famigerado desconhecido, enfim sua identificação.

Uma carta ao Cel. Camargo.

Ontem, lemos uma carta ao cel. Theodureto Camargo do Nascimento, comandante do Regimento Policial Militar, a qual lhe fora dirigida pelo senhor Sr. Mauricio Ettingen, residente no município “São Paulo”, no estado de Sergipe, de onde é filho o bandido desconhecido, assim, passamos a transcrever um trecho da referida carta, para ciência dos nossos leitores:
“Era meu desejo escrever-lhe, logo que me chegou às mãos a fotografia dos bandidos que foram mortos no feliz combate de “Angicos”, a fim de identificar o “cabra” desconhecido, o que faço no momento.
Filho de "São Paulo" de Sergipe
O referido bandido era filho deste município, tendo nascido no lugar denominado “Pulgas”, próximo a Carira. Era casado e tinha vários filhos. Incorporou-se ao grupo de “José Sereno”, na noite do último São João, após uma animada dança de que fez parte. Não sei o seu nome por extenso, mas era conhecido aqui, de todos, por “Luiz de Thereza”.
Individuo de má índole
“Sempre demonstrou ser um indivíduo de má índole, o que se verificava em suas atitudes habituais. Depois que se tornou assecla do grupo, muitas pessoas daqui, ficaram muito apreensivas, uma vez que o cabra conhecia bem o lugar, como também vários proprietários de quem fora empregado.”
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Algumas observações

- O município “São Paulo” no estado de Sergipe, citado na matéria, hoje se chama Frei Paulo.
- O cargo do Coronel Theodureto Camargo era de Comandante Geral do Regimento, mas ele era oficial do exército brasileiro.
- “Angicos”, refere-se a Fazenda Angico, local do combate no estado de Sergipe, onde Lampião morreu.

Paulo Afonso - BA, Maio de 2014

Luiz Ruben é Economista e Turismólogo Pesquisador do Cangaço e de Ferrovias.
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Democratizando


Se o objeto da pesquisa em destaque é um jornal de época, por que o nome "Zé de Thereza" nunca apareceu antes na literatura cangaceira. Levo ao conhecimento de muitos de nosso seguidores que a identificação das vitimas de Angico não é de consenso geral. 

O renomado pesquisador e escritor Antonio Amaury é um dos que contestam veemente a nomeação dos "quatro últimos" cabras que tombaram no 28 de julho de 1938.  Segundo o livro "Cangaceiros de Lampião de A a Z" de autoria de Bismarck Martins, os cangaceiros "Alecrim 2" e "Moeda" eram os irmãos José Rosa e João Rosa naturais da Serra da Guia município de Poço Redondo.
"Colchete 2" irmão do também cangaceiro "Pau Ferro" era o vulgo de Euclides Rodrigues sem mais referencias quanto a sua naturalidade...

...Então fica a pergunta:  
Zé de Thereza seria nome e vulgo do cangaceiro desconhecido?
Se não, qual seria sua alcunha?
Ou foi o Zé, apelidado de "Macela" já que este não tem qualquer referencia quanto a sua real identidade nas biografias existentes.
 


5 comentários:

Anônimo disse...

Olá pessoal.

Quem olhar com atenção a foto das cabeças, vai notar que o "Desconhecido" tinha o cabelo bem curto. Isso revela que esse cabra havia entrado a pouco no grupo. Isso confirma que o tal cabra havia entrado no grupo de Sereno 1 ou 2 meses antes. Justamente na festa de S. João.

Abraço a todos.

Sabino Bassetti

Anônimo disse...

Cangaço é surpreendente ..pois as perguntas sempre sobrepõe, em muito, as respostas...o interessante é este jogo que desequilibra o cognitivo e faz pensar, que se mande às favas as verdades absolutas fabricadas.

Geziel Moura
Belem do Pará

Anônimo disse...

Amigo Kiko monteiro,gostaria de tirar uma dúvida com vc! Aonde os corpos de Lampiao e os outros 10 cangaceiros foi enterrado vc sabe? Danilo Ferreira-ITAPETIM-PE

Kiko Monteiro disse...

Sr. Danilo Ferreira você quer dizer as 11 cabeças.

A historiografia nos conta que após o massacre em Angico, as cabeças foram levadas, mas os corpos ficaram insepultos por alguns dias até o misterioso desaparecimento (há versão de os companheiros voltaram pra enterrar, ou que coiteiros foram incumbidos de enterrar...

Em ambos os casos o local é ignorado. Voltando a trajetória das cabeças. O cortejo segue de Piranhas para Santana do Ipanema depois para Maceió e finalmente para Salvador.

Porem somente Lampião e Maria chegaram ao instituto Nina Rodrigues. Onde ficaram expostas até 1969. Depois tiveram sepultamento simbólico no cemitério Quinta dos Lázaros.

E as outras nove?

Um documentário lançado recentemente intitulado “LAMPIÃO - Os nove do Angico” de autoria do pesquisador Charles Garrido apresentas um depoimento do Sr. José Francisco de Azevedo Filho que revela que as nove cabeças teriam sido enterradas no cemitério do Caju (atual cemitério São José) em Maceió e identificadas coletivamente com o numero “9”.

Esse local já não existe mais e os atuais funcionários nada sabem informar sobre o destino destes restos.

Assista https://www.youtube.com/watch?v=ZQJsOKwmPbU.

Em 2002 as cabeças de Lampião e Maria passaram por uma nova exumação e foram transferidas mais uma vez, de Salvador para Aracaju em local mantido em sigilo pela família Ferreira.

Espero que a resposta tenha sido do vosso contento.

Att Kiko Monteiro

Anônimo disse...

Esclareceu bastante amigo Kiko,agora não tenho mais dúvidas! Quanto as cabeças pouco tinham importancia pois eram matéria e o que importa é o espirito deles que descansa em paz. Abraço amigo.