sábado, 30 de janeiro de 2010

Zé de Julião

O cangaceiro e o homem 
(*) Por Rangel Alves da Costa


Se é verdade que o homem nasceu não somente para passar pela história, mas sim para construí-la, a partir do significado de suas realizações, podemos conceber a vida desse sertanejo como personagem incomum, dentro de suas duas vidas nas brenhas áridas desse sertão de meu Deus: o cangaceiro e o homem. Eis Zé de Julião e todas as vidas de um sertanejo.

Não é nenhum assombro tudo de grandioso que se queira falar dele, pois na história dos grandes e destemidos homens nordestinos, certamente uma de suas páginas épicas retratará com orgulho a vida e os feitos corajosos de José Francisco do Nascimento, o Zé de Julião para os seus conterrâneos, ou ainda Cajazeira, nome de batismo no bando de Lampião.

Zé de Julião, nascido num Poço Redondo caracterizado pela pobreza e longas estiagens, teve melhor sorte que a grande maioria das crianças do lugar. Seus pais, Julião do Nascimento e Constância do Nascimento, eram fazendeiros, possuidores de muitas terras e rebanhos. Contudo, crescer em meio ao sertão rodeado de explorados e exploradores, soldados desumanos e jagunços atrevidos, certamente faria brotar no jovem um destino muito além do que ser simplesmente herdeiro das riquezas de seus pais.

Naqueles idos de 1928, ter qualquer coisa que se afeiçoasse a riqueza era também ter a certeza de involuntariamente submeter-se à exploração da volante e dos bandos cangaceiros. Ora, era sempre mais confiável garantir a vida doando dinheiro ou outros bens. Contudo, foram as contínuas explorações que fizeram com que o pai de Zé de Julião se mudasse para outra localidade. Mesmo casado com a sua Enedina, o rapaz segue o pai.

Entretanto, numa das vezes que jogava baralho com amigos é reconhecido por soldados da volante que, acostumados a tomar dinheiro fácil de seu pai, querem fazer o mesmo com ele. Isto o revolta profundamente; passou a ter profundo ódio por aquele tipo de gente. Porém, o fato mais marcante foi a decisão que tomou diante daquilo que tinha por absurdo: criou impulso e encorajamento para entrar no bando de Lampião, que vivia por aquelas redondezas. Com a decisão tomada, sua esposa Enedina resolve acompanhá-lo na perigosa aventura.
Ao ser aceito como integrante do bando do mais famoso e destemido dos cangaceiros, Zé de Julião é prontamente apelidado de "Cajazeira"; sua esposa continua com o mesmo nome, "Enedina". Assim, integrado ao bando, logo começou a demonstrar ser um dos mais valentes e corajosos. A cada empreitada sertaneja que tomava curso o seu prestígio ia crescendo em meio aos demais.

Ao lado da esposa e fiel companheira na aridez das caatingas, fazia planos para conquistas maiores, vez que imbatíveis naquela guerra sertaneja. E talvez por isso isso mesmo jamais lhe passou pela cabeça o que viria a acontecer naquela sonolenta e triste manhã de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, às margens do Velho Chico. Quando a volante comandada pelo Cabo João Bezerra atacou e matou Lampião e Maria Bonita e mais nove cangaceiros, sua querida Enedina prostrou-se como uma das vítimas. Desesperado, conseguiu romper o cerco e fugir.

O que restou do bando de Lampião ficou totalmente esfacelado, com alguns cangaceiros se entregando à polícia e a maior parte passando a viver em contínua fuga, buscando se esconder daquela realidade. Não havia a menor possibilidade de reagrupamento. O seu líder estava morto; o cangaço de verdade havia morrido também. E nesse contexto de tristeza e luta com o outro lado da realidade, o que faz Zé de Julião/Cajazeira é fugir, passando a viver na duvidosa proteção de alguns conhecidos da região.

Verdade é que vagueou por algum tempo pelo estado da Bahia até se abrandarem os ânimos das perseguições, retornando após para Poço Redondo. Era filho de lá, tinha família e amigos ali, assim não haveria destino melhor, pensou. Assim, tendo retornado ao seu berço sertanejo, casa-se com uma irmã de sua falecida esposa. Contudo, a paz tão ardorosamente esperada não chega, pois as perseguições policiais continuam. Como para cumprir seu destino de andante, abandonar o lugar seria a única solução para fugir das garras dos famigerados perseguidores.

Seu destino, ao lado da esposa, agora é Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Por lá tinha também parentes e conhecidos, e por isso mesmo fixa residência sem maiores problemas. Porém, como sempre acontece com quem tem os pés enraizados na terra sertaneja, depois de alguns anos a saudade começou a rebentar-lhe o coração. Ficar seria por demais dolorido; retornar seria preciso. Ademais, tomou conhecimento que seu pai havia falecido, o que o deixa ainda mais transtornado e com pressa de voltar para casa. E foi isto que fez.

Já nas terras sergipanas, passa a residir numa fazenda herdada do pai. A situação parece bem diferente, mais calma e tranquila, e assim vai tecendo sua vida de amizade com todo mundo. Por consequência, vê sua influência política crescer fortemente na região. Registre-se que nessa época Poço Redondo ainda não tinha sido elevado à categoria de município, continuando a ser distrito de Porto da Folha.

Com o desmembramento de Poço Redondo em 1953 e as primeiras eleições municipais sendo marcadas para o dia 3 de outubro de 1954, o ex-cangaceiro lança-se como candidato a prefeito pelo PSD. Sua influência política havia crescido a tal ponto que ele mesmo imaginava que não haveria opositores. Se as forças políticas do novo município estavam unidas em torno de seu nome, logicamente que aquela eleição seria apenas um ato confirmatório.

Contudo, como sempre ocorre em política, ledo engano. Eis que surge um político de Porto da Folha, Artur Moreira de Sá, como candidato pelo PR, apoiado por alguns setores da comunidade poço-redondense e outros políticos da esfera estadual. Havia ainda um candidato pela UDN, mas a disputa polarizou-se mesmo foi entre Zé de Julião e Artur Moreira de Sá.

Chegado o dia da eleição, os dois candidatos dão como certa a vitória. Verdade é que o pleito mostrou a força paralela que os dois principais candidatos tinham, com uma disputa acirrada e sem se cogitar mais em apontar um favorito. E isso foi demonstrado quando as urnas foram abertas, pois o resultado final deu empate: 134 a 134. Todavia, sendo Artur Moreira de Sá mais velho do que Zé de Julião, o candidato pelo PR foi aclamado como vitorioso e nessa condição toma posse como primeiro prefeito de Poço Redondo.

Para Zé de Julião, a derrota foi totalmente inesperada, principalmente diante do cenário que há alguns meses havia previsto. Derrotado pelo fator idade, porém contaminado ainda pela febre da política. Assim, ao invés de ficar no seu canto esperando sua vez, procurou entrar logo em campo como se a próxima campanha estivesse se avizinhando. Como fruto dessa insistência, seu nome ficou cada vez mais fortalecido e parecia imbatível no pleito vindouro.

Tendo alcançado mais experiência, lançou-se novamente candidato a prefeito. Sabia que novos e desagradáveis fatos poderiam surgir a qualquer instante, como ocorreram na outra eleição, mas o que mais lhe preocupava era a possibilidade de que a eleição fosse fraudada para eleger, a qualquer custo, o candidato da UDN, Eliezer Santana.

E não deu outra. Quem era seu eleitor assumido não poderia votar, pois não fizeram a entrega dos títulos, sob a alegação de que o alistamento tinha apresentado problemas; diversas outras dificuldades começaram a pontuar a situação. Até mesmo o judiciário buscava deliberadamente dificultar a vida do ex-cangaceiro. As manobras que foram sendo verificadas, todas elas eram no sentido de favorecer o candidato opositor. Tal situação indignou a maior parte da população e principalmente o candidato Zé de Julião. E foi nesse contexto que o tino cangaceiro tomou o lugar do político.

O que fazer então, se as ações fraudulentas estavam escancaradas e nenhuma autoridade séria havia para dar um basta naquela vergonha toda? Não tinha jeito; como o palco estava montado era derrota certa. Atinou e atinou e decidiu que se os seus eleitores, na sua grande maioria, estavam impedidos de participar do pleito, os correligionários do outro candidato também seriam impedidos. Mas como fazer isto? Só mesmo invadindo as seções eleitorais e roubando as urnas, concluiu.

Pensado, tramado e feito. No dia das elições, juntamente com alguns afamados vaqueiros do lugar, amigos de todas as horas, armados até os dentes, cavalgaram em tropel pelas seções eleitorais, roubando as urnas na sede do município e no povoado Bonsucesso. Aquilo não era mais obra de um candidato indignado, ferido na sua honra, mas sim do cangaceiro justiceiro Cajazeira.

Tamanha ousadia soa como uma bomba no meio político e na justiça eleitoral sergipana. Que atrevimento desse cangaceiro! Agora como vítima, o candidato opositor, Eliezer de Santana, tinha tudo nas mãos para ser declarado eleito. E assim foi proclamado como o segundo prefeito eleito de Poço Redondo. Era a segunda derrota consecutiva de Zé de Julião, porém muito mais para as artimanhas políticas do que para as urnas.

As ações perpetradas por Zé de Julião naquele dia de revolta sertaneja, lhe trouxeram duras consequências. Ora, se antes do acontecido as forças do Estado já depunham contra sua pessoa, principalmente pelo seu passado de cangaceiro, agora não teria saída. O cerco policial torna-se implacável. E assim foi preso e colocado em liberdade alguns meses depois. Mas sabia que, ao menos por algum tempo, não poderia continuar vivendo ali. Jogado pelas circunstâncias, é forçado a sair pelo mundo afora novamente, cumprindo mais uma vez sua sina de errante.

Nova Iguaçu é novamente seu rumo. Ao menos seria, se ao chegar em Salvador não resolvesse retornar. Não se sabe, de modo conclusivo, quais as circunstâncias, as intenções ou os motivos desse retorno. Suposições são as mais variadas, e se confirmadas estas, os motivos não seriam outros senão a vingança. Tinha motivações de sobre para tal. Sabe-se apenas que essa foi sua última aventura, pois na manhã de 19 de fevereiro de 1961 foi encontrado morto, assassinado, nas terras do seu Poço Redondo. A tragédia da Grota do Angico, para ele, havia sido apenas adiada.

Quem sabia do seu retorno? Quem teria interesse na sua eliminação? Tudo pode ser entendido através da resposta a tais indagações. Quem sabe jamais disse a verdade; quem não tem certeza disse a verdade mas não foi acreditado. São as forças, as forças políticas, mas essa é uma outra e longa história, com muitas versões e contrastes, como é o próprio sertão.


*Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

blograngel-sertao.blogspot.com

3 comentários:

CARIRI CANGAÇO disse...

Fantastica a postagem amigo Kiko. Realmente a história dessa verdadeira saga que foi a vida de Cajazeiras, é impagável.

Abraços aos amigos Rangel e ao mestre Alcino.

Manoel Severo

Mendes e Mendes disse...

Ilustre escritor Rangel Alves da Costa:
Seu texto é um excelente trabalho. José Mendes Pereira - Mossoró-Rn.

José Mendes Pereira disse...

Infelizmente o Zé de Julião foi injustiçado e morto pelos seus dois perseguidores, o Eliezer Santana e o Artur Moreira de Sá, que tramaram a chacina contra o jovem cangaceiro. Qual foi o motivo da morte de Zé de Julião? Nada mais nada menos, medo que tinha os idealizadores de sua morte, em outra campanha ele ser eleito pela população, que aos poucos estava entregando-lhe confiança.

José Mendes Pereira - Mossoró-Rn.