sábado, 14 de fevereiro de 2009

Um norte-americano de 27 anos nas pegadas de Lampião


Por Daniel Mason

Em 16 de junho deste ano, pela segunda vez na minha vida, viajei a Angicos (Ceará). Embarquei em um pesqueiro em Piranhas, Alagoas, uma cidade pintada e agarrada ao rio São Francisco, e percorri o mesmo trajeto que, quase 65 anos atrás, as volantes realizaram corrente abaixo para atacar o bando de cangaceiros acampados na sombra e no silêncio de um leito seco de rio, com uma chuva de balas que foi o início do fim para o cangaço.

Minha primeira visita a Angicos aconteceu de maneira mais acidental. Em dezembro do ano passado, vim ao Brasil com o objetivo de encontrar uma história para um segundo romance e terminei visitando o sertão por capricho, na verdade, pela fascinação com as histórias da literatura de cordel e a necessidade de acreditar que, neste mundo dominado pela televisão, cinema e literatura de mercado, uma forma oral de narrativa pode persistir...

Em Caruaru, conheci meu primeiro cordelista, um vendedor astuto que se despediu de mim depois de me vender cópias de todos os folhetos que tinha.
Naquela noite, entre "Caruaru Hoje e Ontem" e "A Moça que virou uma Cobra", descobri que a maior parte das histórias tratava de um nome com um apelido engraçado e um olhar atemorizante, que parecia ter captado a imaginação dos narradores.

Se o que os títulos diziam merecia confiança, esse Lampião "lutara contra um menino que virou porco", fizera amor com uma mulher cujo nome é digno de um conto de fadas e visitara tanto o céu quanto o inferno.

Embora as histórias sobre o porco talvez sejam questionáveis em sua veracidade, a de Maria Bonita não era. E o mesmo poderia ser dito, assim que descobri sobre seus 20 anos fugindo da lei, sobre as visitas dele ao céu e ao inferno, ao menos em termos metafóricos.
E assim me vi sozinho com esses livros de poesia e a crescente suspeita que se tem quando a gente conhece alguém que se tornará um companheiro constante.
Acabo de voltar de mais seis semanas no sertão.


O que me encanta mais que as aventuras de Lampião, histórias que persistem nos lábios e nos livros dos poucos pesquisadores dedicados que enfrentam o calor e o sol, é o quanto a história dele está viva.
Nos Estados Unidos temos nossos grandes bandidos, como Jesse James e Billy the Kid. Mas suas histórias são em geral lendas estáticas, fixadas em seu lugar pela história e pelo tempo, bem como por um rico conjunto de literatura e filmes.

Em Lampião, no entanto, é possível perceber ativamente o processo de como a história se transforma em lenda, uma coisa única e preciosa para um escritor, especialmente um escritor de ficção.

Os idosos que conheci e entrevistei , que vinham caminhando trôpegos de suas fazendas para conversar sobre a vida durante o cangaço, contavam histórias de noites passadas no mato, lojas incendiadas, cidades abandonadas quando surgia a notícia de que os cangaceiros estavam por perto.

Das gerações mais jovens, ouvi uma história diferente, a lenda de um poeta e dançarino (e, aos olhos de alguns, um rebelde) que com o fuzil e a peixeira tornou impossível que uma parte do país esquecida por muito tempo continuasse a ser ignorada.
Deixei o sertão com o mesmo sentimento que tive durante minha primeira partida, com nostalgia e planos de retornar. Lembro-me de, durante minha primeira visita, ter imaginado por que, apesar da seca, do calor e da pobreza incansável, os sertanejos continuavam a cantar canções sobre voltar para casa.

Talvez seja o céu aberto, a hospitalidade de um povo que oferece sua última xícara de café a um viajante sedento, ou os momentos fugazes do final do dia, quando a terra esfria, ganha um tom dourado, e a caatinga brilha com uma cor que jamais eu vi em outro lugar. Ou talvez sejam os fantasmas que assombram o lugar, as histórias contadas nas noites frias, que causam assombro e a vontade de voltar.

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Daniel Mason, 27, é escritor americano, autor de "O Afinador de Piano" (Companhia das Letras). Este seu trabalho de estréia, uma história ambientada no século XIX ma Ásia meridional, estourou em crítica e público nos Estados Unidos e na Inglaterra. Já foi lançado em 20 países, incluindo o Brasil. É sobre o país, aliás, que Mason escreve atualmente. Desde julho de 2003, ele vem percorrendo o Nordeste do país para colecionar informações sobre o cangaço. O texto a cima foi escrito pelo escritor à pedido do jornal Folha de São Paulo (Ilustrada, p. 4, 4/8/2003), no qual ele conta sua experiência pelos sertões brasileiros.


Lampião Aceso retruca.
Democratas e Republicanos, sejam bem vindos aos nossos rincões, com excessão de algumas estantes na literatura cangaceira sempre cabe mais um, porém quem não se comunica... jogar Angico lá pra cima no meu querido Ceará? O texto começou aleijado mesmo, - Because Man! À propósito até o momento não há registro da referida publicação.



Confiram na fonte: BARCELONA - UFRN

Um comentário:

João de Sousa Lima disse...

tive o prazer de conhecer o Daniel quando ele esteve em Paulo Afonso e fomos ao Raso da Catarina, conhecer a tribo dos indios Pankararé, no povoado Brejo do Burgo