quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Fotos e Fatos

 Havia caminhões no Sertão, sim

Da Sedição de Juazeiro à queda de Lampião, documentos e relatos desmontam a falsa ideia de que o Nordeste do cangaço vivia isolado sobre os próprios pés.

Por Jaozin Jaaozinn

Infelizmente, ainda é possível encontrar muitas informações em sites ou livros despreparados sobre o tema que a polícia, no momento em que iriam fazer suas diligências em regiões afetadas pelo cangaceirismo, executavam seus trajetos somente a pé, não tendo nenhum auxílio de transportes ou então de montarias. Ou pior, ler comentários que afirmam, fervorosamente, a não existência de caminhões ou qualquer outro tipo de transporte no Nordeste.

Aos que ainda alimentam essa ideia, sinto muito, pois está completamente equivocada. Veja bem, desde o período da Sedição de Juazeiro, que ocorreu entre 1912 e 1914, era visível o uso de caminhões ou automóveis pequenos; em registros do padre Cícero ao lado de devotos, políticos e até mesmo de Benjamin, é visto um carro ou qualquer outra "máquina de quatro rodas"; na revolta tenentista, culminando na criação da Coluna Prestes;  na Revolução de 1930 nas capitais nordestinas; e até na Revolta de Princesa, no mesmo ano, foram utilizados esses automóveis para a mobilização de tropas, mantimentos e pessoas civis.

Mas como o assunto é cangaço, trago aos amigos recortes de volantes ao lado de caminhões ou carros, na década de 1930. Lembrando também que, da passagem de Lampião na Bahia e depois em Sergipe, o mesmo utilizou essa mesma ferramenta para cruzar certas cidades; como em Tucano/BA e Capela/SE, porém, essas "passeatas" ocorriam raramente. 

Em boa parte dos registros da defesa preparada na cidade de Mossoró, em 13 de junho de 1927, é nítida a exibição de carros pequenos ou caminhões que eram utilizados pela população local; até mesmo o depoimento do coronel Antônio Gurgel, e do Sr. Francisco Agripino (conhecido como Gatinho, que tinha como função a de chofer) que confirmam a ativa função desses transportes no "Norte do Brasil" — visto que Gurgel só foi feito prisioneiro dos cangaceiros pois os bandoleiros mandaram parar o AUTOMÓVEL que o levava. 

No combate da Baixa do Juá, ocorrido entre 4 e 5 de julho de 1925, em que tombara o cangaceiro Vassoura (Livino Ferreira, irmão de Virgolino) pela volante paraibana do tenente José Guedes, a força militar teve auxílio das tropas pernambucanas, comandadas pelo sargento Higino Belarmino, que tinham saído de povoado próximo, em caminhões, para sustentar o fogo.

Um relato irônico e inusitado do cangaceiro Vinte e Cinco para Aderbal Nogueira, conta que nas caminhadas que o bando fazia nas matas, beirando a uma estrada, escutaram o barulho de um automóvel se aproximando. O alarme foi para todos: manobraram os fuzis e se preparam para um possível combate. Na chegada do carro, recheado de militares, o mesmo para e desce um volante. Lá, em pouca distância dos cangaceiros, o soldado faz suas necessidades. José Alves, o bandoleiro, assegura que se seguraram para não rirem naquele momento.

Não só nesse caso, como também na passagem do "Troféu Macabro" da grota do Angico, em que a força volante veio a pousar as cabeças nas cidades vizinhas e capitais com o auxílio de caminhões.


Destaque para a cabeça de Lampião no canto inferior esquerdo

Se não havia caminhões no Nordeste naquele período, então não houve os casos de assassinatos contra os trabalhadores nas estradas de rodagem, tampouco as guardas, montadas de militares ou então de jagunços, que faziam a segurança destes.

Confiram outras fotos e respectivos fatos em que foram empregado o uso destes veículos.
















Umburanas, 1926:

A Emboscada que Marcou Pernambuco

No centenário do confronto entre a Polícia Militar e os revoltosos da Coluna Prestes, a memória dos oito soldados tombados no sítio Umburanas, em Custódia (PE), permanece viva como símbolo de bravura e sacrifício.

Por Luiz Ferraz Filho

No último sábado (14), durante os festejos carnavalescos, eu não poderia de maneira alguma deixar de memorizar esse triste acontecimento que completa seu centenário. Na manhã de 14 de fevereiro de 1926, na localidade do sítio Umburanas, município de Custódia (PE), um pelotão da Polícia Militar de Pernambucano foi vítima de uma fatal emboscada arquitetada pelos revoltosos da Coluna Prestes. 

A coluna Prestes (ou Miguel Costa-Prestes) foi marcada pelo aspecto insurrecional contra o poder das oligarquias | Crédito: Agência Senado/Reprodução

O planejamento para o ataque teve princípio quando o batalhão de revoltosos interceptaram uma mensagem telegráfica que avisava sobre o deslocamento de uma tropa de 137 militares, transportada em cinco caminhões, sob o comando do major João Nunes, com destino ao reforço do policiamento do interior de Pernambuco. Os revoltosos tenentistas tiveram o ardil de posicionar um cobiçado chapéu na estrada para servir de isca, despertando a curiosidade dos militares viajantes, que pararam o comboio de veículos para apanhá-lo. 

Surpreendidos com intensa fuzilaria dos revoltosos da Coluna Prestes, o comboio militar ainda esboçou uma valente resistência na tentativa de desalojar os atacantes posicionados nas cabeceiras dos serrotes. Sem êxito, tombaram mortalmente oito vítimas fatais, enquanto os demais buscavam sobreviver trocando tiros em campo aberto. 

Nesta fatídica emboscada, morreram os soldados Isidio José de Oliveira, Castor Pereira da Costa, Ercias Petronilo Fonseca, Manoel Bernardino Fonseca, José Sebastião Bezerra, Pedro Cosme Alexandrino, Antônio Cassemiro Ferreira e Luiz José Lima Mendes, que foram sepultados no local do combate pelos companheiros de farda, enquanto os vitoriosos atacantes comandando pelos tenentes João Alberto, Siqueira Campos e Cordeiro de Farias, seguiam o rumo revolucionário após incendiar quatro caminhões e recolher os despojos, armas e munições das vítimas. 

Na década de 60 do século passado, por iniciativa de um oficial pernambucano, foi construído este monumento fúnebre que demarca e homenageia os soldados martirizados. E recentemente foi restaurado pelos militares do Batalhão Especializado de Policiamento do Interior (BEPI), corporação da Polícia Militar de Pernambuco, com sede na cidade de Custódia (PE).



O autor

sábado, 31 de janeiro de 2026

Jornais

Diário de Notícias (RJ) 2/12/1932

Créditos: Robério Santos "O cangaço na literatura"

Depois de um combate das forças da policia bahiana com o scelerado grupo de Lampião, no municipio de Geremoabo, houve a dispersão dos bandidos. De dois delles, no presente “cliché”, apenas se vêem as cabeças.

Foram elles occultar-se em casa do que se vê ao centro da photographia. Coiteiro de sempre, por força de circumstancias e, como todos os coiteiros, soffrendo séria perseguição e vigilancia por parte das policias volantes, anteriormente tinha promettido á policia, caso o garantissem, que não pouparia a vida dos bandidos que se homiziassem em sua casa.

O commandante da força esteve pelas suas pretensões e instituiu um premio de 600$ pela captura de cada bandido.

Offerecendo-se uma opportunidade, coiteiro (o vocabulo indica o individuo que esconde ou abriga alguem) não hesitou em sangrar á faca dois asseclas de Lampião, communicando ao commandante da força o seu feito.

Como se achava distante do local do trucidamento o commandante da força, o coiteiro levou-lhe as cabeças dos bandidos sacrificados.

A cabeça do cangaceiro " Açucar"

Como se vê acima, foram postas as cabeças sobre latas de kerosene e batida a respectiva chapa, na qual figura o coiteiro. 

O local onde se verificou esse feito dista da capital bahiana cerca de 60 leguas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Fotos

 Gerôncio Calaça

Créditos: Guilherme Velame Wenzinger

Foto em baixa qualidade do volante Gerôncio Calaça, à esquerda, e um companheiro de luta. Foto da década de 30. Calaça foi quem abateu o cangaceiro Manoel Victor em Junho de 1937 nas proximidades de Tacaratu(PE), quando integrava a volante de Arlindo Rocha, o famoso "Queixo de Prata". Acervo da família.



sábado, 10 de janeiro de 2026

Célebres volantes

Gueiros na guerra 

Por Jaozin Jaaozinn

Trago aos amigos duas fotos do afamado sargento Optato Gueiros, sendo uma inédita (primeiro post) e uma rara (segundo post). Ambas são da década de 1930 — 1932 e 1937, respectivamente.



A primeira fotografia é bem interessante pois se trata da sua participação na Revolução Constitucionalista de São Paulo, ocorrida em 1932. Da mesma forma, na Revolução de 1930, as forças dos estados nordestinos estiveram sempre presentes nos inquietantes conflitos que ocorreram em todo o país. Para defender aqueles que apoiavam a "constituinte", foram mandadas inúmeras tropas pernambucanas, comandadas pelo coronel Jurandyr Mamede, para a capital paulista. 

Nas "tropas do Norte", destacavam figuras de extrema importância na guerra contra o cangaceirismo, como o próprio Optato, o sargento Higino Belarmino (conhecido como Nêgo Higino por Lampião e demais companheiros ou inimigos), e o coronel Theodureto Camargo, de Alagoas.

Na imagem, vemos (da esquerda para a direita) o sargento Optato Gueiros, o coronel Mamede e o voluntário Osmundo Borba — diretor de estatística — quando já estavam dispostos para guerrear em São Paulo. Registro do mês de outubro de 1932.

Na segunda fotografia, vemos o militar trajando sua farda de campanha quando perseguia os bandoleiros nos sertões brasileiros. De chapéu quebrado, punhal, fuzil e calçado de alpercatas, brigou com Virgolino e seus sequazes em boa parte dos territórios pernambucanos; como também "fez miséria" no Massacre do Caldeirão, em 1937, que foram massacrados os "romeiros" do beato José Lourenço. 

Vale lembrar também que, no fim do cangaceirismo, o então sargento publicou o livro "Memórias de um Oficial, Ex-comandante de Forças Volantes”, no ano de 1953, em que conta suas participações de conflitos entre cangaceiros, e denúncias de alguns "colegas de farda" que sujaram a profissão pelas arbitrariedades que cometeram.

Mesmo comandando verdadeiras feras, se orgulhava por nunca ter maltratado um coiteiro, ou então de ter feito crimes contra sertanejos. Era evangélico, e lia a Bíblia em inglês.

𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸: 𝑂 𝑅𝑎𝑑𝑖𝑐𝑎𝑙/𝑅𝐽 — 1932; 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 — 1951.