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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Resenha: Maria e o Cangaço

Entretenimento sim, História, não!

Por Junior Almeida

Foto: Divulgação

Em exibição no streaming Disney Plus desde 4 de abril (de 2025) a série “Maria e o Cangaço”, que tem seu enredo baseado no livro da escritora Adriana Negreiros, “Maria Bonita, Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço”, publicado em 2018. A obra cinematográfica da produtora norte americana, evidentemente, despertou a curiosidade de milhares de cinéfilos, além dos muitos pesquisadores do cangaço. Como historiador que se dedica a cascavilhar a sangrenta saga nordestina, assim como demais colegas, também me interessei em assistir aos seis primeiros capítulos da temporada de estreia, decidindo, assim que o fizesse, tecer alguns comentários a respeito da referida produção. Deixando claro que além de ver o trailer da própria série, praticamente não li nada a respeito sobre a obra, um ou outro anúncio, ou chamada de matérias, isso, para não me deixar influenciar pela opinião dos outros. Pela compreensão de tudo que vi no filme e consegui entender, respeitando sempre quem pensa diferente, vamos às MINHAS observações:

A fotografia do filme é impecável. Os cenários naturais, destacados pelas imagens aéreas de drones são belíssimos. As imagens da Baixa do Chico, em Glória, na Bahia, com seus majestosos cânions secos, são uma atração à parte da película. As terras da árida Cabaceiras, na Paraíba e Piranhas, em Alagoas, ambos municípios sertanejos, também foram usadas nas locações da série. Na chamadas “Lapinha do Sertão” e “Roliúde Nordestina”, eu tive a oportunidade de conhecer alguns desses cenários, os naturais, e os montados pela produção da série. Na segunda cidade, a casa/museu do Padre Ibiapina, localizada ao lado esquerdo da igreja que serviu de cenário para o maravilhoso “O Alto da Compadecida”, clássico do cinema nacional, em “Maria e o Cangaço” é a sede das forças de repressão ao banditismo. Foi nessa casa que aconteceu um dos tiroteios fictícios entre militares e cangaceiros. Outro imóvel de Cabaceiras, esse, ao lado direto da referia igreja, que os Estúdios Disney usaram em suas filmagens, foi a fictícia bodega de um coiteiro e compadre de Lampião, assassinado covardemente pelo sádico personagem tenente Silvério Batista. Em setembro de 2024, estive em Cabaceiras, no evento “Borborema Cangaço”, conhecendo esses lugares. Havia pouco tempo que a equipe do Disney esteve por lá, filmando, deixando as celas no museu do Padre Ibiapina e a bodega/cenário ainda montadas, servindo como atração turística. Bela sacada das pessoas de lá.

Como pesquisador às vezes é um “bicho” meio chato, encontrando até mesmo uma vírgula fora do lugar na obra de um colega, não poderia deixar de observar alguns detalhes da série, que não condizem com a realidade do que foi a grandiosa e sangrenta História do cangaço. Logo na abertura do primeiro capítulo, aparece a legenda informando que a obra “é baseada em fatos reais”. Não é bem assim. Em minha modesta opinião, ficaria melhor a informação de que tal filme “continha personagens reais e imaginários em um enredo fictício.” Seria mais lógico e honesto.

Na série, a indumentária dos atores/cangaceiros, não é o que de fato existiu no cangaço. No lugar da mescla caqui e azul dos bandoleiros, os chamados guerreiros do sol usam gibões de couro, parecendo, aos olhos menos atentos, com simples vaqueiros. Os chapéus de abas quebradas dos cangaceiros não têm os adereços que conhecemos, especialmente da fase mais exibicionista do cangaço lampiônico, como as estrelas de Davi, encontradas nos chapéus dos ditos capitães Virgulino e Corisco, dentre outros, ou mesmo a simples cruz, do chapéu de Candeeiro II (Manoel Dantas Loiola). O que vemos na série são chapéus adornados com várias estrelinhas de metal, dessas usadas em peças de couro, como o chapéu coco do vaqueiro ou arreios para animais. Além da diferença da vestimenta, também falta o colorido dos bordados nos bornais. No filme, essas peças parecem mais com rotos bisacos de caçador.

Uma mudança nos antagonistas da saga cangaceira, esse sim, um erro grotesco, é que ao invés de lutarem contra as forças policiais dos Estados nordestinos, os cangaceiros têm como seu ferrenho perseguidor o Exército Brasileiro, com direito da exibição em cena, do símbolo daquela instituição militar. Como se não bastasse a nódoa histórica pelo EB ter assassinado os miseráveis de Canudos, ter implantado a ditadura no país em 1964, além de episódios mais recentes, agora, vem uma produtora estrangeira associar a imagem da respeitada instituição a eventos em que não participou diretamente. Decisão infeliz dos produtores, em inserir o “Braço Forte Mão Amiga” no enredo. Aliás, o roteiro é todo pró cangaceiro, pois todas as mortes praticadas pelo personagem inimigo principal dos bandoleiros, foram realizadas com atos de covardia. O filme é feito para quem assiste odiar a força policial, no caso, o Exército.

Ainda no primeiro episódio da série, que se passa em 1932, aparece um veículo de transporte para os militares. Como a cena mostra o caminhão de longe, não dá para identificar bem o modelo. Parece ser um GMC CCKW, esse, que começou a ser produzido a partir de 1941, mas se o veículo usado nas cenas foi o Reo, fica mais anacrônico ainda, pois o primeiro modelo desse bruto só começou a ser fabricado em 1950.

A talentosa Ísis Valverde, a primeira dama do cangaço, no enredo, portanto personagem a principal da série, é mineira de Aiurioca. Pode ela interpretar o papel da baiana Maria Bonita?! Lógico que sim. A carioca Tânia Alves, por exemplo, até hoje é lembrada como a Maria Bonita, do seriado da Globo de 1982, no que ela mesma diz que “não foi ‘um’ papel e, sim ‘o’ papel” de sua carreira. O problema, em minha opinião, é o sotaque da atriz, que para quem é de fora da região, pode até passar despercebido, mas, para um nordestino raiz, desses do interior, soa estranho. Ficou caricato. Um estereótipo do que geralmente as emissoras do Sudeste fazem do nordestino. Outra coisa, que não gostei, foi uma espécie de escorbuto que arrumaram para a rainha do cangaço. Pelo que se sabe, ou o que se sabia, até então, é que Maria Bonita tinha uma dentição perfeita, dentes certinhos e brancos. O amarelo da boca de Ísis Valverde ficou feio, aparentando falta de higiene da mulher de Virgulino.

Quanto ao gaúcho Júlio Andrade, o Lampião do filme, para mim, assim como Isis Valverde, o problema é a maneira de falar. Não que seja da minha conta, claro, mas questiono: será que em todo Nordeste, capitais ou interior, não tinha um ator traquejado com a fala e os costumes da região que pudesse atuar nesse papel?! Acredito que sim.

No segundo capítulo, aparece uma cena aonde o tenente Silvério mata covardemente um agricultor, mesmo obtendo dele informações do paradeiro de Lampião, fazendo com que o espectador alimente ódio às forças de repressão ao cangaço. Como dito, aliás, o enredo é bem parcial nesse sentido, pois enquanto mostra cenas como essa, de covardia dos homens da lei, por outro lado, sempre procura mostrar que os cangaceiros são sertanejos de fé, místicos, com suas rezas fortes de fechamento de corpo. Até na abertura da série, umas das primeiras imagens é de um oratório, ligando-o aos cangaceiros. No terceiro episódio, em uma cena em que o volante Silvério Batista chega ao coito e não encontra ninguém, então esbraveja perguntando "quem foi a 'alma sebosa' que avisou aos cangaceiros para que eles fugissem". Expressão totalmente anacrônica, que não existia na época. Esse termo se não criado, foi muito disseminado pelo apresentador pernambucano Joslei Cardinot, quando apresentava seu programa policial na Tv Tribuna, do Recife. Mais à frente, a atriz que interpreta “Lídia de Zé Baiano”, que na série tem outro nome (como veremos adiante) usa uma expressão que não era dela, ao dizer que "o cangaceiro quis 'abusar' dela". Quanto refinamento nas palavras de pessoas tão rudes. Não acredito que condiz com a realidade da época e lugar.

Outras cenas do enredo, que acredito estarem dentro da chamada licença poética, não da história real, é a que mostra a recém parida Maria Bonita, fugindo, cavalgando de pernas escanchadas no animal, bem como o batizado de Expedita, com apenas Lampião e sua companheira, sem nenhuma segurança, um fato impensável para quem entende o mínimo de cangaço. Nesse episódio do batizado, foi realizado um ataque da força volante, isso, por conta de uma delação de um irmão de Maria de Déia. Depois, por conta dessa suposta traição, o irmão de Maria Bonita foi ferrado pelo cangaceiro Zé Bispo (Zé Baiano) e, depois assassinado, novamente pelas costas, pelo tenente Silvério Batista. Tal evento nunca existiu na História do cangaço! Está apenas na fantasia de série.

No capítulo quatro, Maria Bonita é quem flagra a mulher do cangaceiro Zé Bispo (Zé Baiano), com Lourdes (Lídia) em adultério com o cabra Curió. Na trama, prevendo o que poderia acontecer, a companheira de Lampião deu dinheiro à imprudente bandoleira, para que ela e o amante pudessem fugir. Pura fantasia. Por outro lado, como na vida real, a mulher adúltera foi morta a pauladas pelo seu companheiro, sendo diferente da realidade o desfecho, pois na série, dois cangaceiros foram mortos, o “urso” e o cangaceiro que também queria foliar com Lídia, ou melhor: com Lourdes, quando sabemos que o bandoleiro que corneou Zé Baiano, protegido pelo chefe Corisco, não foi morto nesse episódio. Por falar no chamado “Gorila de Chorrochó”, no filme, o deixaram com um tom de pele mais claro e tiraram-lhes os cabelos. O Zé Baiano (Zé Bispo) da série é moreno claro e careca.

Ainda, uma coiteira baiana de nome “Fideralina” (referência à baiana Dona Generosa, ou à matriarca cearense da família Augusto? À segunda não deve ser, pois essa faleceu em 1919) é incumbida por Lampião de comprar terras para ele, mas termina o traindo para roubá-lo, sendo mutilada como punição. Na ficção, essa coiteira é muito culta e tem uma filha que canta em inglês e toca no piano músicas clássicas. Fideralina acompanha a filha, pois é uma talentosa soprano. Puro glamour em meio às caatingas baianas.

No capítulo cinco, outra licença poética do enredo, pois Maria Bonita é presa, quando ia fugindo, após o volante Silvério Batista, sempre apresentado como sádico e covarde, ameaçar matar a pequena Expedita, apontando-lhe uma arma na sua cabeça. Neste mesmo episódio, uma cena inimaginável para quem estuda cangaço: furiosa, Dona Déia confronta Lampião, o chamando de maldito, por conta de ele ser o responsável pela morte de um dos seus filhos, no caso, o seu cunhado, três anos antes. O detalhe que chama atenção nesse capítulo, é o agravamento da tuberculose de Lampião. Essas cenas teoricamente se passam em 1935. Corroboram para esse pensamento, a passagem em que Maria Bonita é Baleada. Na vida real, tal evento ocorreu em julho daquele ano, em terras pernambucanas de Serrinha do Catimbau, então distrito de Garanhuns, Pernambuco. Nessa passagem, foi dada mais emoção ao caso, pois a baianinha, que estava presa, foi resgatada a cavalo pela cangaceira Dadá, mas quando fugia em sua garupa, o tenente Silvério (sempre ele) atirou nela pelas costas. De acordo com a História, sem contar Angico, a única vez que Maria de Déia foi baleada, foi em 20 de julho de 1935, em local já citado.

Nesse mesmo episódio, dar-se um pulo no tempo, mostrando Maria já curada na data de 7 de março de 1938 e, dizendo que já são sete meses depois dos ferimentos da bandoleira, portanto, tal ação teria ocorrido em agosto de 1937. Outro confronto de datas da vida real para série, é que aparece ao bando, Benjamin Abrahão, capturado e desconhecido de Lampião e seus cabras. Historicamente as datas não batem. O chamado Turco já era conhecido de Lampião desde 1926, em Juazeiro. Outra coisa: as filmagens de Benjamim foram realizadas em 1936, portanto, um ano antes do que mostra o filme. Também achei o vocabulário dos cangaceiros do filme bem refinado, o que não condiz com o linguajar sertanejo de homens sem instrução daquela época.


No último episódio, um primeiro tenente (Silvério Batista, no enredo, é segundo tenente) chega à sede de operações policiais e, ao perceber o desleixo dos militares, fala que “sabe porque essa praga comunista que chamam de cangaço não se acaba.” Essa passagem nos chamou atenção, tendo em vista, que na História já se tentou ligar o cangaço ao comunismo, mas, isso com pouca frequência. Em um desses episódios, Frederico Pernambucano de Mello, citando o jornal Gazeta de Notícias de 26 de agosto de 1936, nos conta em seu “Estrelas de Couro a Estética do Cangaço” o seguinte:

O secretário do Interior e Justiça do Ceará, Martins Rodrigues, membro da poderosa Liga Eleitoral Católica, a LEC, movimento direitista simpático ao governo, em visita à cidade de Juazeiro do Norte no mês de agosto de 1936, em discurso às lideranças locais, disse com ares de mistério que tinha consultado ‘certos documentos’ no Rio de Janeiro, que lhe permitiam sustentar que os dirigentes do extremismo vermelho não tinham escrúpulos de lançar mão de todos expedientes e elementos, até mesmo de cangaceiros como Lampião, para serviço de seus sinistros planos.

Para nós, do meio “cangaceiro”, uma grata surpresa no último episódio da série, por conta da aparição do talentoso poeta Neto Ferreira, de Campina Grande, declamando em uma típica feira nordestina, pouco antes de eclodir um tiroteio entre Lampião e policiais. Uma cena emocionante, que gostei, foi a que aparece Maria Bonita, triste, imaginando estar com a filha Expedita, sentindo a sua falta. Acredito que isso deve sim ter acontecido por várias vezes, afinal, a bandoleira era mãe. Por falar na filha de Lampião, no seriado Expedita teria sido criada por uma tia, e não pelos vaqueiros Manuel Severo e sua mulher Aurora. Neste mesmo episódio, Lampião e Maria Bonita abandonam seu bando, com o propósito de fugir, depois se arrependem e voltam para os seus comandados. Passagem impensável para quem conhece do assunto.

Outras disparidades históricas da série, por mim observadas: a morte de Zé Baiano se dá em 1938, e não em 1936, como aconteceu de verdade e, ao invés de ser morto por civis, na ficção, ele é assassinado por um outro cangaceiro. Nas cenas finais, não aparece a figura do coiteiro Joca Bernado, nem toda trama que culminou na morte do rei do cangaço e parte de seu bando. No enredo dos Estúdios Disney, quem entregou o coito de Lampião foi um cangaceiro desgarrado do bando e, depois da delação, foi (novamente) covardemente assassinado pelo tenente Silvério Batista. No dia do combate em Angico, Corisco sozinho, é quem faz o parto de Dadá e, por isso não atravessou o rio para se encontrar com Lampião no coito. No início da das cenas do combate de Angico, Lampião orienta Maria Bonita “a pegar Sila e Inacinha e fugir. Como assim?! Inacinha tinha sido presa em Piranhas, dois anos antes, portanto, não estava em Angico. Para ser mais específico, a frase dita pelo Lampião da série foi:

Tu (Maria Bonita) pega Sila e Inacinha e as outras, e arriba!

Outra fantasia dessa passagem, é que todos os cangaceiros viram quando os homens do Exército estavam chegando e cercando o local para ataca-los, diferente do que realmente aconteceu em Angico, onde a força chegou na surdina. Aliás, o local da morte de Lampião, no filme, é bem diferente de onde aconteceu o fato. Em “Maria e o Cangaço”, a batalha final se deu em campo aberto, numa planície. Na minha opinião, já que a equipe do seriado estava na região, bem que poderiam ter usado o cenário real, a Grota de Angico, para essa filmagem. Neste tiroteio do filme (Angico), morreram três mulheres, isso ainda quando Maria Bonita atirava ao lado de Lampião, quando se sabe que na história do derradeiro combate de Lampião foram duas as mulheres a morrer; Enedina, mulher de Zé de Julião, o Cajazeira, e a própria Maria Bonita.

Nos créditos da produção aparece como tendo dado consultoria à equipe da série, o Mestre Frederico Pernambucano de Mello e Jairo Luiz Oliveira, de Piranhas, dois experientes estudiosos do cangaço. Por tudo que vimos nos seis capítulos do filme, ficou a impressão de que a dupla de pesquisadores não teve acesso à totalidade do roteiro, ou mesmo a ideia de que suas opiniões não foram levadas em conta, pois são erros bobos, que poderiam muito bem não aparecer no filme. Se tivesse que dar uma nota à série, como entretenimento, minha nota seria alta, mas isso, analisando a película como fantasia, pois se a nota fosse dada pela análise da História, seria pequena, pois, da maneira como foi produzido, acredito que o filme vá muito mais confundir a cabeça dos que estão iniciando suas pesquisas cangaceiras. 

Em MINHA opinião, a série “Maria e o Cangaço” é uma boa pedida como entretenimento, como História, não! 

sábado, 4 de novembro de 2023

"O Estado de São Paulo" - 7 de março de 1996

Quando Dadá conversou com Rosemberg Cariry

Por Helena Salem (Transcrição de Antonio Correia Sobrinho)

O status inconteste de Dadá, de verdadeira cangaceira, associado à sua forte ascensão e influência sobre o esposo Corisco, faz desta mulher, penso eu, mais do que imaginamos, mais do que uma simples cangaceira. Dadá foi a líder intelectual do grupo de bandoleiros comandado pelo seu marido. 
 
Condição esta que ela, nas inúmeras entrevistas dadas à imprensa ao longo de seus anos de vida pós-cangaço, conseguiu embora deixasse aqui e ali transparecer, não tornar claro esta sua real posição dentro do grupo, o que vejo como amplamente justificável, uma vez que todo cangaceiro sobrevivente usou de mecanismos de defesa, como, não dizer completamente de seus atos delituosos, para mitigar as suas responsabilidades. 
 
No caso de Dadá, também, quem sabe, para não tirar do seu amado o holofote maior da história.  Antonio Correia
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Sérgia da Silva Chagas, a Dadá, nasceu em 25 de abril de 1914, no interior de Pernambuco, e morreu em 7 de fevereiro de 1994, de câncer. O filho Silvio conta que, na noite de sua morte, chamou uma psicóloga do hospital em que estava internada em Salvador, pediu um batom e um pente para se arrumar “bem bonita”, porque tinha sido convidada para ir a uma festa com Jesus e não podia chegar feia”. Uma hora depois, morreu.
 
Vaidosa, corajosa, Dadá – que teve uma perna amputada em consequência dos ferimentos à bala no momento de sua prisão (ela saiu atirando com as duas mãos) junto a Corisco (ele morreu na mesma noite), em 1940 – foi depois anistiada e se casou de novo, com o empreiteiro Alcides chaves. Refez a vida, porém, não teve mais filhos. E continuou sendo, sempre, a mulher forte que se impôs frente a Corisco, conquistou o respeito e a amizade de Lampião, a admiração de todo o cangaço e até de José Rufino, o matador de cangaceiros, para quem ela era “brava como um homem”. 
 
Elogio maior, naquele ambiente tão machista, era quase impossível.
 
Entre 1989 e 1990, o diretor Rosemberg Cariri gravou em vídeo uma longa entrevista com Dadá. Seguem alguns trechos dessa entrevista inédita, na qual a ex-cangaceira fala, entre outros pontos, de seu amor por Corisco, da Coluna Prestes e de como era a vida das mulheres no cangaço.
 
Comunismo: “ouvia falar muito. De noite ficava todo mundo lá sentado e Lampião dizia: ‘Rapaz, se eu pudesse sair disso, se viesse aí um doido, uma revolução que abatesse esses miseráveis todos. Nós passava pra frente deles. Ah! Luiz Carlos Prestes. 
 
Nós encontrava com este homem, nós abre o mundo e vamos embora’. Eles falavam muito nisso, mas nunca apareceu nenhum. 
 
Quando aparecia, era pra matar. Mataram, mataram, aleijaram, acabou, pronto. Agora, tem muito cangaceiro aí bem de vida, os que se entregaram. São funcionários, os filhos são formados, vivem muito bem.”
 
Mulheres: “Era uma convivência maravilhosa. Todo mundo tinha seu marido. Um amor danado. Uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa. Uma vida bacana. Com Lampião ali, ninguém dava um nome, ninguém se "inxeria" com coisa nenhuma. Agora, se ela saísse fora da linha, o chumbo comia, matavam, como aconteceu com Cristina e Lídia.”
 
 
Maria Bonita (mulher de Lampião)
: “Era terrível, orgulhosa, metida. Era assim pequenina, toda redondinha, bem-feitinhas as pernas, mas pisava assim. Quer ver? Olhe no retrato, ela tem os pés pra frente. 
 
Orgulhosa, metida à besta, barulhenta. Só vivia com encrenca com um e com outro. Mas ninguém ligava, não. Era assim, bonitinha, alvinha, agora bacana era só ela, e queria ser mais.”
 
A relação com Corisco: “Eu tinha uma boa vida com Corisco. Era um homem bom. Nunca chegou um dia de falar comigo aborrecido. Quando ele queria dizer ‘não’, dia ‘não sei, você é que sabe’. Mas se ele dissesse ‘faça’, era o ‘sim’. Eu falava alto, eu xingava, vá pros inferno. 
 
Aí ele ficava com aquilo: ‘Fale baixo, num grita. Dadá, mulher pra ser uma mulher completa tem de ter modo até no pisar’ (...) Ele ficava dando risada, virava a cara assim pra num dar ousadia. E dizia: ‘Uma mulher é como uma flor, se a pessoa encosta nela, machuca.’ Ele dizia tanta coisa bonita pra mim, pra ver se me conformava. Mas eu era malcriada com ele.”
 
A vida no cangaço: “As mulheres não cozinhavam. Só se ela quisesse. Ela lavava tudo, botava tempero e entregava para eles cozinharem. Quando tava pronto, tava pronto. Aí vinha Lampião e eu dividir, porque Lampião tinha o povo dele e eu o meu. Maria não ia pegar em nada disso. Era bacana. Cada dia um cozinhava, outro lavava a panela, negócio tudo organizado. Não tinha de ‘não faço’. 
 
Chamava, era seu dia, tinha de fazer. Tudo limpinho, ajeitado, acabava de comer a gente dividia, mas mulher não ia para a beira do fogo. (...) Os cangaceiros eram muito amorosos, tinham tato carinho que eram capaz até de se esquecer das armas. Como teve muitos que morreram num descuido, entretido lá com mulher.”
 
Dadá, Corisco e Benjamim
 
A morte de Lampião: “Corisco ficou louco. Ele não era de chorar nem de falar, ficava calado. Mas ele parecia um maluco. Eu disse ‘deixa pra lá, Corisco’, mas ele falava ‘eu vingo’. Era quinta-feira e ele disse: ‘Se fosse os homens que tivessem morrido, não era nada demais, porque nós vivemo esperando isso. Mas uma mulher não se mata. Porque nem cem cabeças paga a de Maria.’ Aí foi quando ele fez aquele salseiro; eu quase nem consigo contar isso.”

domingo, 14 de maio de 2023

Arte

 Lampião e Maria Bonita, por Marcos Baby


Decidi fazer a minha versão em bonecos dos ícones da cultura pop nordestina, os cangaceiros Virgulino Ferreira, o "Lampião" e a Maria de Déa, a "Maria Bonita". Para o Lampião utilizei um corpo e cabeça do Ken, modelos "Fashionistas" e para a Maria Bonita, um corpo e cabeça da Barbie sendo a cabeça um modelo vintage do início dos anos 2000. Todos ganharam novas maquiagens, cabelos, penteados e acessórios seguindo como base a caracterização dos atores Nelson Xavier e Tânia Alves respectivamente os personagens protagonistas da minissérie "Lampião e Maria Bonita" da Rede Globo (1982). As roupas foram feitas em malha e tingidas a mão. Todos os acessórios como bornais, cantis e armas também foram criados exclusivamente para esse projeto que consumiu ao todo 15 dias de trabalho. O resultado vocês conferem abaixo:


























pescado no blog do artista

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Filme completo

Maria Bonita - Rainha do cangaço (1968)

  

Longa metragem de Miguel de Borges, é uma Biografia romance de Maria Bonita, filha de um fazendeiro pobre que, "sequestrada" por Lampião, se tornaria sua amante.
 

Elenco: Celi Ribeiro (Maria Bonita), Milton Moraes (Lampião), Roberto Bataglin (Bento), Sonia Dutra (Zefinha), Ivan Cândido, Joffre Soares,Rogério Fróes,   Wilson Grey e muitos outros.

  

Créditos: Canal Rio Bonito Antigo

terça-feira, 2 de junho de 2020

O Estado de S. Paulo 21/10/2001

Afinal, quem decapitou Maria Bonita? Os volantes Cecílio, Bertoldo ou "Negro"

Por Leonencio Nossa
(Transcrição de Antonio Corrêa Sobrinho)

“NEGRO”, QUE ERA POLICIAL NAQUELA ÉPOCA ,
GARANTE QUE MARIA BONITA JÁ ESTAVA MORTA


OROCÓ (PE) – Ele ajudou a cortar a cabeça de Maria Bonita com faca tão afiada quanto a própria memória. Depois de trocar tiros e punhaladas com cangaceiros na juventude, Augusto Gomes de Menezes, um policial aposentado que acaba de completar 85 anos, virou contador de histórias do cangaço e de Orocó, cidade sertaneja a 620 quilômetros do Recife, às margens do rio São Francisco. Um lugar violento e pobre, com 10 mil moradores, onde mais de 5% das crianças morrem nos primeiros dias de vida.

Negro, como era chamado pelos colegas de polícia, participou de um capítulo decisivo da história do Sertão. O cenário é a fazenda Angicos, em Flor da Mata, atual Poço Redondo (AL), na manhã de 28 de julho de 1938. O bandido Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, escondia-se no local com seus homens. “Morreram nove cangaceiros e duas cangaceiras, Enedina e Maria Bonita”, inicia a prosa.

“Maria Bonita morreu pertinho dele, Lampião, assim como daqui ali naquela parede”. Sentado numa cadeira de plástico, na sala da casa de estuque, onde mora com duas filhas, Negro não reivindica papel de destaque na ação que resultou na decapitação do bando de Lampião. “Quando eu cortei a cabeça dela (Maria Bonita), não estava mais viva, não”, diz. “Num combate anterior, eu gritei pra ele (Lampião): ‘Traz tua mãe, filho da peste, pra tirar raça de homem valente!’ Ele gritava pra gente também: ‘Taca espora na tua mãe, aquela égua’”, exclamou.

Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, Frederico Pernambucano de Mello afirma que Negro é personagem desconhecido pela história, talvez por ter sido soldado raso da campanha contra Lampião.

Na avaliação de Mello, o depoimento do aposentado ao “Estado” não apresenta contradições, especialmente na descrição do massacre de Angicos, e preenche lacunas, como por exemplo, a morte do cangaceiro Mané Velho, em 1937. O pesquisador planeja uma viagem a Orocó para conhecê-lo.
Hormônios – O aposentado mostra uma foto da época. “Este aqui sou eu”, aponta para um dos retratados. “Já este aqui é o cabo Terror, que tinha esse apelido porque era um terror mesmo.” Negro desafia o crespúsculo de Orocó. Entre um cigarro de palha e outro, vai construindo imagens mais vivas que o presente, feitas de duelos e sangue.

“Só de bornal nas costas eu tenho cinco anos”, fala numa alusão ao período em que ficou isolado na caatinga. “Desses cinco anos, só descansei oito dias”. Negro ri do fato de o povo de Orocó ter pensado que ele deu o primeiro tiro em Lampião. O aposentado esclarece que não foi bem assim. “Muita gente ainda jura que ele morre por mim, não sabe?” Negro deixa claro que só quem viveu o período é capaz de acreditar nos feitos atribuídos a Lampião. “Numa fazenda em Simão Dias, mataram dois rapazes, defloraram uma moça e cortaram a língua de uma velha”, diz. “A gente perguntou a ela o que acontece, e ela: ahhh... Não disse nada. Coitada, não tinha culpa, pois não tinha língua.”

Homens valentes e mulheres decididas não fizeram sozinhos a história do cangaço. Muitos integrantes do bando de Lampião viviam a explosão dos hormônios. Menores também foram usados na repressão aos bandidos. Negro era um deles. Nascido na cidade baiana de Curaçá, em 1916, foi recrutado ainda menino pelo governo. Não tinha completado 22 anos quando participou do combate de Angicos.


 Augusto Gomes de Menezes (Negro)
“Com 14 anos peguei na espingarda para perseguir gente ruim e só saí quando acabou o derradeiro, em 1941”, afirma, numa referência ao fim do cangaço. E era na caatinga, longe das vilas e cidades que os meninos descobriam a sexualidade. A caça aos cangaceiros levava os jovens das volantes a ficarem meses afastados de mulheres. O jeito era se virar com animais ou, se tivessem sorte, cangaceiras capturadas.

PARA PEGAR BANDIDO NA CAATINGA , SÓ SE FOR A PÉ

Policial aposentado discorda dos meios usados pela polícia e pelo Exército.

Um dos últimos sobreviventes do combate de Angicos, o policial aposentado Augusto Gomes de Menezes, o Negro, discorda das ações atuais das polícias e do Exército contra assaltantes de caminhões e traficantes de drogas em Pernambuco. Ele releva o fato de os fuzis e as metralhadoras terem substituído os punhais no sertão. “Eu não posso informar nada da polícia de hoje, mas o que eu acho é que carro com sirene não é modo de perseguir gente ruim”, afirma. “Na caatinga não dá para entrar de carro.”

Negro lembra que para caçar cangaceiros o jeito era andar a pé, sem mula ou viatura. Vida na caatinga era à base de carne, farinha e rapadura. A farinha ficava no bornal. O jeito era meter a mão no bornal. “A gente não tinha tempo de assar carne, comia crua mesmo, tirava a dente”, conta. A escassez de água levava o grupo a apelar para a rapadura. “A gente passava até sete dias sem beber”, dramatiza. “Isso escureceu a vista de todo mundo.”

O policial aposentado se casou e enviuvou duas vezes. Da primeira união, com Ocília Barbosa, em 1940, nasceram dez filhos. A mulher morreu 33 anos depois, quando os dois já estavam separados. “Ela caiu de repente e morreu”, lembra. Quem também morreu por nada, há oito anos, foi Antônia Maria do Nascimento, com quem teve mais oito crianças. Dos 18 filhos de Negro, restaram dez.

Amigos não faltam; de solidão, reclama pouco. O maior problema, segundo ele, é o salário mínimo que recebe da Previdência Social.

A casa de Negro não tem televisão nem guarda-roupas. Também faltam baús. Segredos e histórias de uma polícia violenta e criminosa estão na memória do homem que após participar das volantes foi chamado para lutar na Segunda Guerra Mundial – chegou a se apresentar em Salvador, mas a guerra acabou uma semana antes.

Negro colaborou com o Exército na repressão aos integralistas da Bahia, durante o Estado Novo de Vargas, e no auge do regime militar, nos anos 60. Sobre essa época, pouco revela. Desconfia-se que passava informações sobre a geografia da região. “Depois de sair da volante, eu trabalhei nesse negócio de pistolagem”, diz sem ir adiante. Em 1965, no governo do marechal Castelo Branco, gente do Exército andou prometendo “coisa” para o policial aposentado. (L.N.).

PARTILHA DE BENS DO CANGAÇO GERAVA DISCÓRDIA ENTRE POLICIAIS

Tenente teria ficado com maior parte do tesouro do bando de Lampião
Os macacos, como os policiais eram chamados pelos cangaceiros, travaram duelo particular pela divisão do tesouro do bando de Lampião. Um dos integrantes da volante que massacrou os criminosos, em 1938, Augusto Gomes de Menezes, o Negro, revela que o chefe, o tenente João Bezerra, morto nos anos 70, ficou com a maior parte da fortuna, cerca de 1200 contos de réis e cinco quilos de ouro. O prêmio máximo da Loteria Federal valia, à época, 200 contos de réis. “A gente tinha ordem do presidente que quem matasse cangaceiro ia ficar com os objetos dos mortos”, diz.
Negro afirma que o tenente não repartiu a fortuna e dá a lista dos nomes dos colegas de farda que teriam sucumbido numa suposta operação travada por João Bezerra para evitar a partilha. “Zé Gomes foi morto por um pistoleiro e Mané Velho conseguiu escapulir.”

Mais de 60 anos depois da maior façanha da volante, Negro ainda tem raiva do tenente. “Eu não fui perseguido pelo João Bezerra, mas ao mesmo tempo posso dizer que fui; eu trabalhei demais”, diz resignado. “eles prometeram um negócio para mim e nunca saiu.” Ele jura que não ficou com nenhum pertence dos cangaceiros. “Eu peguei dez contos de réis de um, mas um colega me traiu.”

O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello desconhece as perseguições, mas confirma a revolta dos soldados e a promessa de partilha. Há 40 anos estudando o cangaço, Mello diz que Mané Velho era homem violento e que causava medo entre os colegas. Após o massacre de Angicos, Mané Velho cortou as mãos do cangaceiro Luís Pedro para ficar com os anéis de ouro.

Fotos das revistas da época mostram as cabeças dos onze cangaceiros expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, em Alagoas. O crânio de Lampião aparece no centro. A mórbida cena é atenuada pelos chapéus com pedaços de ouro e signos de Salomão e pelos bornais. “A estética do cangaço é uma arte nascida em circunstância de conflito; seus símbolos não são apenas estéticos, mas possui funções místicas”, avalia Mello, um dos curadores da Mostra do Redescobrimento.

“Numa comparação universal, o traje do cangaceiro só se compara ao do samurai japonês.” Nas andanças pelo sertão, Mello encontrou pessoas que afirmaram que a cena de maior impacto na vida foi ver o bando de Lampião. “Tinha-se a impressão de que o grupo, ao chegar às cidades, estava trajado como se fosse pular carnaval”, diz. “Era uma mistura de pavor e êxtase; um êxtase estético, épico e viril.” (L.N.).

sexta-feira, 20 de março de 2020

Novidade literária

Em livro, sociólogo apresenta uma nova data para o nascimento de dona Maria

O sociólogo Voldi Ribeiro lançou o livro “Lampião e o Nascimento de Maria Bonita”, sugerindo uma data correta para o nascimento da Rainha do Cangaço, que é 17 de...



O livro contém 196 páginas e com figuras de Maria Bonita e de Lampião que encontram colorizadas. A obra contém o prefácio e artigo de Frederico Pernambucano de Mello, referência na pesquisa do Cangaço. A pesquisa trata da área onde ela nasceu, Malhada da Caiçara que pertencia a Glória, atualmente pertence a Paulo Afonso–BA.

Na obra, o sociólogo discute o surgimento da data incorreta do nascimento de Maria Bonita que outros autores tinham como 8 de março de 1911. E apresenta ainda a composição da família dela, bem como alguns registros de irmãs suas.

Além disso aborda, finalmente, o encontro de Lampião com Maria Bonita, sua convivência de 1931 até 28 de julho de 1938, data das suas mortes, na grota do Angico, Sergipe.

Voldi de Moura Ribeiro é um pesquisador que reside em Paulo Afonso, Bahia. Ele estuda este tema há mais de 15 anos, também está produzindo um novo livro sobre a participação da mulher no Cangaço.

Valor: R$ 60 com frete incluso
Para adquirir entre em contato com o autor pelo zap (75) 99108-0409 ou pelo e-mail voldimribeiro@gmail.com

Com informações do leiajá

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

'Ele tinha no rosto um pavor enorme'

Disse SOLDADO que MATOU o cangaceiro LAMPIÃO


Acervo Lampião Aceso

"Livre o Nordeste do maior de seus bandoleiros", publicou O GLOBO em sua primeira página do dia 29 de julho de 1938, há 81 anos, quando o jornal noticiou a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O fim do famoso cangaceiro ainda seria motivo de manchetes nos dias seguintes, à medida que chegavam à redação mais informações sobre a emboscada na qual o criminoso foi morto pelos policiais comandados pelo Tenente João Bezerra. No dia 1 de agosto daquele ano, O GLOBO publicou um depoimento do soldado que alvejou Lampião, na madrugada do dia 28 de julho, na fazenda Angicos, no sertão sergipano.

 Lampião segurando um exemplar do jornal O Globo

Segundo o relato do policial Antonio Honorato da Silva, o cangaceiro estava acabando de acordar quando foi morto por ele. Lampião tinha ao lado a sua mulher, Maria Bonita, que também não foi poupada, mesmo após se render. O casal e mais nove integrantes do bando foram mortos naquela tocaia.

- Vi Lampeão erguer-se, tinha no rosto um pavor enorme. Levei o fuzil ao rosto e mirei bem. A mulher estendeu os braços, pedindo clemência. Nesse instante, fiz fogo. Ele baqueou e eu acompanhei a queda com outros dois tiros. Estou satisfeitíssimo e sou o homem mais feliz do mundo - descreveu Antonio Honorato da Silva, em depoimento enviado por telégrafo.


 Honorato apresenta para Melchiades da Rocha 
o fuzi que derrubou Lampião
 Acervo Lampião Aceso

Naquele mesmo dia 1 de agosto, o jornal divulgava mais informações sobre o chamado Rei do Cangaço, que, durante cerca de 18 anos praticou todo tipo de roubo e assassinatos em sete estados do Nordeste, sempre acompanhado de seu bando. De acordo com relatos de pessoas próximas a ele, Lampião vinha manifestando a vontade de sair da vida de crimes, depois de comprar propriedades agrícolas em Sergipe. Mas, àquela altura, o pernambucano já estava sendo procurado, vivo ou morto, pelas autoridades de diferentes estados.

"Chegam agora novos detalhes da maneira por que os cangaceiros foram surpreendidos", relatou O GLOBO. Segundo a reportagem, enviada de Maceió, Alagoas, os policiais foram informados de que os bandidos estavam acampados na fazenda Angicos, onde hoje fica o município de Poço Redondo, em Sergipe. Eles cercaram o acampamento do bando no meio da noite, "colocando metralhadoras em todos os flancos, enquanto dois soldados atirariam isoladamente em Lampião e Maria Bonita".

Por volta das 5h da manhã, pouco antes de amanhecer, os soldados avançaram pelo mato sobre as barracas. Quando viu os "volantes", o líder do grupo se levantou e, surpreso, foi alvejado na boca, na nuca e na cintura. "Maria Bonita fez um gesto de suplica, tentando impedir a morte do amante, e caiu sob rajadas de balas", descreveu o jornal. Mesmo depois de ver o líder morto, seus comparsas revidaram fogo, mas os soldados levaram a melhor. Alguns integrantes do bando fugiram, mas pelo menos nove foram mortos naquele confronto.


 Maria e Lampião

Em seguida, os soldados decapitaram os corpos de Lampião, Maria Bonita e outros bandidos. Os corpos mutilados foram deixados a céu aberto, mas as cabeças foram salgadas e carregadas em latas de querosene, sendo expostas em várias cidades desde o local da emboscada até Maceió. A começar pelo município de Piranhas, onde os policiais deixaram as cabeças à mostra na escada de acesso à prefeitura.

Pesquei no O Globo

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Diário de Notícias (RS), edição de 13 de novembro de 1956

Exibidos num museu de cera os grandes vultos do crime 

Transcrição de Antonio Correia Sobrinho


Como é do conhecimento público, está em exposição em Porto Alegre, um museu de cera, do qual fazem parte grandes vultos do crime. Integram a admirável exposição a cabeça de Lampião, Maria Bonita e outras tantas personalidades que ocuparam páginas da imprensa nacional.

Detalhes anatômicos perfeitos, no museu que funciona na rua dos Andradas, defronte ao Cine Ópera, podem ser apreciados diariamente pelo nosso público.

 Cabeça de cera de Maria Bonita

Vemos, acima, Maria Bonita, a fiel companheira de Lampião, que também teve a sua cabeça decepada e carregada como troféu.

A reprodução foi feita por técnicos italianos, dias depois da morte dos cangaceiros."

quinta-feira, 26 de julho de 2018

MARIA BONITA

A Primeira-dama do cangaço

Por José Bezerra Lima Irmão (*)

Lampião, em sua existência atribulada, não tivera ainda tempo ou disposição para dedicar suas energias a uma mulher de forma exclusiva. Tudo mudou quando o veterano cangaceiro do Pajeú, ao passar pela Malhada da Caiçara em dezembro de 1930, na volta dessa razia por Pernambuco, bateu os olhos numa caboclinha de maneiras firmes, meã de altura, toda roliça, de cabelos pretos, lisos e finos, à altura dos ombros, rosto arredondado, boca carnuda e olhos brilhantes. Apesar de morena, tinha os olhos azuis. Sua avó era holandesa de nascimento e casara com um português, tendo o casal emigrado para o Brasil em 1850, indo morar na região de Santa Brígida.

A caboclinha tinha uns 20 anos. Nascera e se criara ali mesmo, na fazenda Malhada da Caiçara, município de Santo Antônio da Glória, em terras hoje pertencentes ao município de Paulo Afonso, a duas léguas da atual cidade baiana de Santa Brígida, quase na divisa da Bahia com Sergipe.

O nome dela era Maria Gomes de Oliveira. Nasceu a 8 de março de 1911. Era filha de José Gomes de Oliveira, vulgo Zé Felipe, e Maria Joaquina da Conceição Oliveira, conhecida como dona Déia. Zé Felipe e dona Déia tiveram treze filhos – cinco homens e oito mulheres: José, Isaías, Oséias, Arlindo, Ananias (Pretão), Maria, Benedita, Olindina (Dorzina), Joana (Nanã, Nanzinha), Francisca (Chiquinha), Antônia, Amália (Dondom) e Deusinha. Sua família era modesta. Vivia da lavoura e da criação de bodes, cabras e umas vacas.

Por ser sua mãe conhecida como dona Déia, Maria quando solteira era tratada de Maria de Déia. Outros a chamavam Maria de Zé Felipe. Quando casou, em 1926, aos 15 anos de idade, foi morar em Santa Brígida. O marido era um sapateiro chamado José Miguel da Silva, seu primo em segundo grau, conhecido como Zé de Neném, passando ela por isso a ser chamada Maria de Zé de Neném, ou Maria Neném.

Zé de Neném e Maria casaram apenas “no padre”. Um irmão de Zé de Neném chamado Cícero, também sapateiro, casou-se com Dondom, irmã de Maria.

Maria e Zé de Neném não viviam bem. Não se amavam. Ela culpava o pai por ter “arrumado” o casamento. Não tinham filhos. Maria reconhecia que o marido era um homem honrado e trabalhador, tinha casa própria, um pequeno roçado e uma profissão definida, coisa rara naquela região, o que representava segurança quanto ao futuro. Porém ela não estava preocupada com essas coisas.

José Miguel da Silva
'Zé de Neném'

A sensação que tinha era de que estava desperdiçando a vida. Zé de Neném, apesar de ser apenas uns 6 ou 7 anos mais velho do que ela, era um homem conservador, calado, meio paradão e desconsolado, se bem que quando bebia uma cachacinha ficava mudado, caía na farra, chegava em casa no outro dia. Maria sentia-se sozinha no mundo. Antes de casar, ia a todas as festas, novenas e leilões daquelas redondezas, esmerando-se para ser sempre a mais bonita em todos os eventos. Agora, só vivia em casa, bordando, lavando, cozinhando. Para completar, contaram a Maria que Zé de Neném estava namorando com uma jovem senhora “largada” do marido. O diabo se soltou no dia em que Maria encontrou no bolso do marido um pente com o nome de uma moça de Santa Brígida.


Mulher geniosa, respondona, atrevida, Maria vivia às turras com o sapateiro. Estava sempre amuada, irrequieta, insatisfeita. Aquela vidinha monótona e insossa de todos os dias não se conciliava com o seu espírito aventureiro.

Porém, apesar das constantes rusgas do casal, Maria e Zé de Neném nunca tinham se separado pra valer. Estabanada como era, às vezes ela ia para a casa dos pais, na Malhada da Caiçara, mas uma semana ou duas depois Zé de Neném ia buscá-la, e tudo voltava à “normalidade”. Conhecendo os rompantes da filha, Zé Felipe e Dona Déia sempre ficavam a favor do genro.


 Zé Felipe e Dona Déia

A melhor amiga de Maria Déia era sua prima Maria Rodrigues, filha de Ursulina, do Sítio do Tará – Ursulina era tia e madrinha de Zé Felipe. Por ser quatro anos mais velha, desde criança Maria Rodrigues de Sá era quem organizava as brincadeiras e orientava a confecção das roupas das bonecas de pano e espigas de milho. Na adolescência e no começo da vida adulta de Maria Déia, a prima Maria Rodrigues era a sua confidente e conselheira. Se Maria não tinha ainda rompido de vez com o marido era em virtude dos conselhos da prima.

Em dezembro de 1930, depois de mais uma discussão com Zé de Neném, Maria decidiu passar uns dias na casa dos pais. Para não viajar sozinha, convidou uma amiga chamada Soledade e foram a pé para a fazenda.

* * *

Lampião já conhecia os pais de Maria desde o início de 1929, pois a fazenda deles ficava na rota de seus deslocamentos entre a Bahia e Sergipe. Às vezes, Lampião parava na Malhada da Caiçara apenas para pedir água. No oitão da casa havia ramalhudos umbuzeiros, onde a cabroeira descansava enquanto o chefe conversava com Zé Felipe. Certa vez, Lampião pernoitou na casa de Zé Felipe.

Dormiu em cima de uma mesa, enquanto Ezequiel dormiu num banco de madeira, pois não havia camas. Um sobrinho de Zé Felipe, que estava gripado, dormiu debaixo da mesa. À noite, o rapazinho teve um acesso de tosse, mas prendia a boca para não tossir, com medo de incomodar os hóspedes. Lampião percebeu o problema e tranquilizou o garoto:

– Tussa, cabrinha, pode tussi qui nun me incomoda não...

Embora os pais de Maria tivessem medo do cangaceiro, como a maioria dos sertanejos, sentiam por ele um misto de admiração e respeito. Nas conversas que mantinham, dona Déia já havia falado a Lampião a respeito de sua filha, dizendo que a moça sentia uma grande admiração por ele.

Coincidentemente, no dia em que Maria chegou à casa dos pais Lampião estava lá, em companhia do coiteiro Odilon Café (Odilon Martins de Sá), do Sítio do Tará, um dos maiores fazendeiros da região.

Maria e a amiga, vendo aqueles homens estranhos no alpendre da casa, passaram pelo oitão e entraram pela porta dos fundos. Lampião perguntou a Zé Felipe quem eram as duas moças. Zé Felipe respondeu:

– A de vistido azu é mĩa fia. É casada. Mora im Santa Brijda. A outa eu nun cunheço. Deve sê amiga dela.



Dona Déia e as filhas estavam atarefadas preparando o almoço para os cangaceiros. Maria e a amiga juntaram-se a elas. Os cangaceiros também ajudavam, uns apanhando lenha no mato, outros pegando, matando e depenando as galinhas. Durante o almoço, Lampião perguntou se Maria sabia bordar. Ela disse que sim. Lampião deixou quinze lenços de seda para que ela bordasse, dizendo que depois passaria ali para pegá-los.

* * *

Muita bobagem já foi escrita sobre Maria Bonita e sua família. Parte dessas bobagens é perpetrada por aqueles que escrevem “por ouvir dizer”, ou simplesmente dão asas à imaginação.
Sobre a forma como Lampião e Maria se conheceram, a versão de Frederico Bezerra Maciel é pródiga de romantismo e poesia, em que a crueza da vida cede espaço a uma visão idílica, irreal:

Lampião, montado num cavalo bem lavado e arreado, e Maria, vindo do banho, cheirosa, o cabelo comprido, solto, vestido mudado e estampado com flores miúdas e alegres, com babados... O cangaceiro, pasmo e extasiado, mal conseguiu pronunciar o nome da bonita sertaneja, e num instante já estavam sentados juntinhos, no banco de madeira sob o alpendre, onde ficaram a conversar longamente... 
Os olhos de Maria de Déia
colorizados por Rubens Antonio


Aduz o autor que, após esse encontro, para os dois, já de amor aceso, a noite que se seguiu foi de doces sonhos... E no dia seguinte, à mesma hora, retornou Lampião, vestido de branco, pontas de fino lenço perfumado no bolso superior do paletó, chapéu de feltro cinza-claro, de abas largas, jabiraca colorida no pescoço, presa por anel precioso, meias de seda e alpargatas enfeitadas com séries de ilhós brancos, sem descuidar dos apetrechos de guerreiro, portando mosquetão e, sob o paletó, cartucheira, pistola e punhal...



Maria recebeu-o com seu vestido novo, de festa, de chita estampada com saia larga pregueada e blusa fofa, o cabelo repartido à direita, formando uma linda trança enfeitiçante, com um cravo branco preso na ponta... Saíram a passear de mãos dadas, como dois namorados... Entreolhavam-se demoradamente... Abraçaram-se, a respiração em ofegos intermitentes de emoção, e Maria, encabulada, fechou os olhos meigos, para receber um beijo na face...

Ao contrário dessa descrição idílica, houve quem escrevesse sobre Maria Bonita procurado retratá-la como uma mulher vulgar, dando a impressão de que bastou Lampião estalar o dedo para ir atrás dele.

A versão mais chula da forma como Lampião conheceu Maria Bonita é contada por Optato Gueiros, com base num suposto relato de um ex-cangaceiro chamado Cambaio. Conta Optato que Lampião soube que a filha de Zé Felipe era a mulher mais bonita que havia naquele sertão, e teria dito: “Pois bem, a semana que entra irei olhá prá cara dessa pavoa”.

Deixou o grupo em certo ponto e foi à casa do sapateiro, acompanhado de cinco cangaceiros. Maria convidou-os a entrar, e foi logo dizendo “Este é o homem que eu amo”, acrescentando em seguida, “Como é, quer me levar ou quer que eu o acompanhe?”, ao que Lampião teria respondido “Como você quiser, Maria, eu também quero. Se estiver disposta definitivamente a acompanhar-me, vambora”; e então Maria pegou algumas coisas dentro de casa e, voltando-se para o marido, petrificado, no canto da sala, disse: “Adeus, Zé!”, e desapareceu com o seu sonhado novo amor.

Há outra versão segundo a qual Lampião teria humilhado Zé de Neném e por pouco não o matou. Não é verdade. Zé de Neném nunca viu Lampião e jamais foi molestado por ele ou por qualquer dos cangaceiros. E nunca precisou esconder-se, exercendo tranquilamente o seu ofício de sapateiro em Santa Brígida até o fim do cangaço, quando se mudou para Alagoas.

 Aspecto da Malhada antes da revitalização
* * *

Segundo Oséias, irmão de Maria Bonita, os fatos aconteceram assim:

Oséias, em foto de Manoel Severo
Tendo brigado com o marido, Maria, acompanhada de uma amiga chamada Soledade, foi passar uns dias na Malhada da Caiçara. Ao chegar, encontrou uns homens conversando com seu pai no alpendre da casa. Ela e a amiga rodearam a casa e entraram pela porta dos fundos. A mãe lhe disse que era gente de Lampião. Durante o almoço, Lampião pediu que ela bordasse uns lenços, mas só isso, praticamente não conversaram. À tardinha os cangaceiros foram embora.

Dias depois, dona Déia soube que sua mãe, dona Ana Maria, residente em Lagoa Grande, ao lado de Rio do Sal, estava doente. Dona Déia e Maria foram então visitar a anciã.

Dona Ana Maria realmente estava doente, mas não tanto a ponto de alterar a rotina da vida das netas. As primas de Maria lhe falaram de uma festa que ia haver numa fazenda vizinha. Maria acompanhou-as. Ao chegar lá, surpresa: quem patrocinava a festa era Lampião! Assim que as moças chegaram, Lampião bateu os olhos em Maria. Quando ele veio cumprimentá-la, Maria, nervosa, supondo que o cangaceiro iria cobrar os lenços que lhe dera para bordar, foi logo explicando:

– Ói, os seus lenço eu ainda...

Lampião interrompeu-a:

– Qui lenços, minina?! Aquilo foi só pra cunvessá cum você... Vamo dançá?

Dançaram várias vezes naquela noite. E também nas noites seguintes – ora numa fazenda, ora noutra. Uma semana depois, dona Déia disse:

– Maria, mãe já tá boa e nóis vamo vortá pra casa amanhã.

Maria sentiu um aperto no coração. Veio-lhe súbito à mente uma ideia providencial:

– Mãe, eu quiria ficá mais uns dia cum vó... Ela parece bem mió, mais tá tão fraquĩa... Dexe eu ficá tumano conta dela...

Dona Déia concordou. Voltou sozinha para a Malhada da Caiçara. Na mesma semana, seu irmão Ju chegou à Malhada da Caiçara com uma notícia alarmante:

– Déia, Maria fugiu cum um cangacero!
 

– Qui histora é essa, Ju? Maria fugiu cum um cangacero? Qui cangacero?
 

– Nun sei. Só se sabe qui é um cangacero.
                                                                                                                                                                
* * *

Oséias não sabe a data em que isso aconteceu, mas afirma que foi alguns dias antes do Natal de 1930.

Zé Felipe soube do fato pela boca da polícia: uma volante riscou em sua porta para ele dar conta do paradeiro da filha e de Lampião. Ao explicar que não sabia do que estavam falando, baixaram o pau nele.

Passado um mês, dona Ana Maria, já recuperada, estava lavando roupa num tanque, atrás da casa, quando alguém jogou uma pedrinha na água. Olhou para os matos e viu, escondida entre as ramagens, aquele rosto querido. Largou os panos e foi até lá. Maria estava sozinha. Um pouco afastado estava um homem de óculos, sério, de jabiraca, com um chapelão de couro na cabeça. Dona Ana Maria abraçou a neta:

– Mĩa fia, o que tá haveno cum você?

Abraçada à avó, Maria explicou:

– Vó, eu tou viveno cum Lampião. Nun vou largá mais ele.

– Mĩa fia, nun faça isso, pelo amô de Deus!...

– Tou dicidida, vó. Seja cumo Deus quisé. Console mĩa mãe e meu pai. Diga a eles qui me perdoi.

As duas continuaram abraçadas, chorando. Afinal, Maria desprendeu-se dos braços da avó e correu em direção ao cangaceiro.

Foi a última vez que dona Ana Maria viu sua neta.

* * *

Zé Felipe, a fim de demover a filha daquela ideia tresloucada, mandou dizer que queria vê-la. O encontro seria no outro lado do São Francisco, na fazenda Malhada, de Inácio Moreira, padrinho de Maria.

Lampião foi contra:

– Santĩa, quano você quisé vê seus pai é só dizê – Santinha era como ele a chamava –. Desde quano macaco me impata deu ir adonde eu quero? Você tá pricisano é dũa cumpanhera. Arranje ũa.

Maria pensou primeiro na prima Maria Rodrigues. Depois se lembrou de Mariquinha, sua prima e cunhada, que não vivia bem com o marido. Mariquinha (Maria Miguel da Silva), irmã de Zé de Neném, largou o marido, Eliseu, dono da fazenda Ingazeira, e juntou-se ao cangaceiro Ângelo Roque.

* * *

Foi assim que Virgulino, aos 32 anos de idade, conheceu o amor de sua vida.

A polícia passou a mover intensa perseguição à família de Maria, cometendo todo tipo de violência e ofensas morais. O tenente Liberato de Carvalho recebeu ordem de matar Zé Felipe. O pobre homem, avisado a tempo pelo soldado Antônio Calunga (Antônio Barbosa da Silva), fugiu para Alagoas – passou uns tempos na fazenda Salgado, em Água Branca (atualmente, município de Delmiro Gouveia, na beira do rio) e depois no povoado Salomé (hoje cidade de São Sebastião).

José de Déia, irmão de Maria, depois de ver várias vezes sua casa ser vasculhada por soldados, passando por vexames e humilhações, procurou a irmã e transmitiu sua decisão: queria ser cangaceiro. Maria não concordou. Mesmo assim, José acompanhou o bando durante uma semana, embora desarmado. Enfim, Maria chamou o irmão e disse:


 
Liberato de Carvalho


– Zé, vorte pra casa e vá tumá conta das coisa de pai. Disgraçada pur disgraçada, basta eu.

Até mesmo Zé de Neném foi preso e levado para Jeremoabo, acusado de ser coiteiro de Lampião!
As perseguições à família de Maria só cessaram depois do combate de Maranduba, quando Lampião mandou um bilhete para o capitão João Miguel, de Jeremoabo. O portador foi Tonico, primo e cunhado de Maria. Não se sabe o teor do bilhete. Sabe-se apenas que, depois de ler o bilhete, o capitão João Miguel disse a Tonico:

– Se você está numa missão dessa é porque Lampião confia em você. Diga a ele que pode mandar o sogro voltar para casa porque a partir de hoje não passa mais soldado em sua porta.

* * *

É duvidosa a origem do apelido “Maria Bonita”. Atribui-se a primazia a Ezequias da Rocha, um médico, professor (catedrático de História Natural da Faculdade de Medicina de Maceió), político (chegou a ser senador por Alagoas), jornalista e poeta (membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico de Alagoas), que fazia versos à moda dos trovadores de cordel com o pseudônimo de Alexandre Zabelê, ou simplesmente Zabelê. O certo é que de uma hora para outra o apelido passou a ser adotado pelos jornalistas, poetas populares, violeiros e repentistas.


 Ezechias da Rocha, à esquerda, 
e o poeta sergipano Hermes Fontes
In História de Alagoas.combr

No bando, ninguém a chamava assim. As outras cangaceiras chamavam-na simplesmente Maria, Maria do Capitão ou Maria de Lampião, já que havia mais de uma Maria no bando. Os cangaceiros, quando se dirigiam diretamente a ela, tratavam-na de Dona Maria, e quando se referiam a ela tratavam-na como a mulher do Capitão. Dentre os cangaceiros, poucos a chamavam de Maria, só os de “alta patente”, como Luís Pedro, Ezequiel e Virgínio. Na intimidade, Lampião chamava-a de Santinha, e ela chamava-o de Meu Véio ou, mais carinhosamente, “Nego Véio do meu coração”.

A notícia da cangaceira de Santa Brígida alastrou-se pelas caatingas. No sertão não se falava em outra coisa. O imaginário popular ganhava novos motes com esse sucesso nunca visto. Nas feiras, os violeiros e repentistas deslumbravam a gente sertaneja louvando o encantamento daquela mulher impossível. Os jornais estampavam a delirante façanha de Virgulino Ferreira, cujo reino agora estava completo – ascendera ao trono a ardente cangaceira, a bonita e aventurosa Rainha do Cangaço.

Lampião e Maria

(*) Texto extraído do capítulo 129 do livro “Lampião – a Raposa das Caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão.