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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Canhoba em Sergipe é rota do Cangaço.

Os Carvalhos, Lampião e o Estado “menor”.

Por Kiko Monteiro

Há precisos dois anos, recebemos uma mensagem de um velho amigo nos pedindo um apoio para sua pesquisa. Com a finalidade de colher informações sobre a situação atual, enfim, sobre a preservação de um dos ranchos seguros frequentados por Lampião em território Sergipano.
A este amigo que nos inspirou e tanto suporte técnico nos prestou dedico o presente texto. Do qual nos esforçamos pra trazer pelo menos “uma novidade” a ser acrescentada na pesquisa dos senhores rastejadores e confrades que nos dispensam suas atenções. 
Alerto que vai haver anacronismo, conjectura etc. inevitável. Lembre-se que estamos lidando com mais um capítulo do cangaço, não é mesmo?
 Meu "aglomerado" só quer colaborar.

Fugindo do "gabinete"

Estamos falando da Fazenda Borda da Mata, uma das propriedades do coronel Antônio Ferreira de Carvalho, o lendário “Antônio Caixeiro” no município de Canhoba, Sergipe.

Lancei a questão numa das comunidades desta cidade no Orkut. Passados mais de um ano eu já nem lembrava de conferir respostas. O interesse do pesquisador, independente deste resultado já havia se desfeito. Quando a professora Dayana Ferreira, uma das memorialistas da história local nos procura com notícias precisas e surpreendentes.

Nem só de pescas, no conforto do escritório vive um blogueiro... pé na estrada, no mato, na lama...

82 depois, lá estava eu, a procura de remanescentes da era “lampionica”, com suas preciosas lembranças. Histórias do Coronel, do “Dr” e principalmente sobre a “amizade” destes com o Rei do cangaço.

Aspecto atual do velho casario dos Carvalhos, 
hoje dividido em quatro casebres.
Foto: Kiko Monteiro

A Borda da Mata agora é um distrito. A velha sede ainda está parcialmente preservada. Ao seu lado as casas foram "se emendando" lado a lado com vista para o Velho Chico. Sobrou pouco da vastidão de Mata Atlântica que predominava em toda região. Sim, apesar da proximidade com o Alto Sertão a Caatinga neste pedaço de Sergipe não compõe a paisagem. Chove regularmente, às vezes tanto, que o alagamento é inevitável.

Não é açude nem lagoa! É resultado das chuvas

Realizamos duas visitas técnicas.
Comecemos pela cidade que tão bem nos acolheu.


Canhoba, que já foi um povoado de Propriá, fica a 124 quilômetros de Aracaju. As suas terras se situam à margem direita do Rio São Francisco. Possui 4.000 habitantes.

Os primeiros foram os índios da tribo Cataioba. Segundo pesquisadores, Canhoba quer dizer em língua portuguesa “folhas escondidas”, uma planta medicinal usada largamente pelos indígenas. Uma espécie de planta que produz milagre. A palavra “Canhoba” é a junção de duas outras. Segundo o tupinólogo, Theodoro Sampaio, em seu Dicionário da Língua Tupi, “Can” quer dizer cânhamo, e “oba” é o senhor da terra.

Cataioba e Curral de Barro foram duas denominações que esta terra recebeu.

Entre as festas religiosas, a principal é do Santo Cruzeiro. A partir de 7 de junho de 1910, quando a Santa Cruz foi edificada pelos freis Rocha e Anatanael, ao concluírem uma Santa Missão no lugar de todos os anos. A partir do ano seguinte passou-se a comemorar o Santo Cruzeiro, como um testemunho de fé e religiosidade.

Capela de Nossa Senhora da Conceição, 
1ª Matriz da Cidade
 Foto: Kiko Monteiro

 Filho ilustríssimo

O ex-governador/interventor de Sergipe, Eronides Ferreira de Carvalho é um dos filhos mais ilustres de Canhoba. Nasceu na Borda da Mata em 25 de abril de 1897. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 20 de Dezembro de 1917...



Foto oficial do Governo Eronides.
Acervo de Luís Rubens

...Trataremos já já, desta ilustre personagem.

Vamos prosseguir com a história de seu pai.

Nascido em São Braz, município de Alagoas, em 24 de março de 1873. Comerciante de primeira extirpe, vocacionado para o ramo, iniciou sua carreira como caixeiro viajante. Daí o porquê do apelido.

Resolveu se estabelecer em Canhoba. Inicialmente tomou conta de uma loja na “Rua da Bambá” hoje praça da matriz, estabelecimento que pertencia ao major “Bilé” de São Braz, seu patrão. Mais tarde de mero empregado aos poucos passou a ser um concorrente.

Enriqueceu como agiota, e como um comerciante incentivador da produção do algodão. E aí o simples caixeiro passou a Industrial, pecuarista, plantador e colhedor de arroz, milho, feijão e mandioca e é claro, um influente senhor das terras não só de Canhoba como também de Gararu, Porto da Folha e outros locais do Sertão do São Francisco.

Casou com Balbina Mendonça de Carvalho, sergipana de Capela, e com ela teve nove filhos. Da mãe do interventor pouco colhemos. Vejamos o depoimento de Antonio Norberto da Silva, 98 anos. 

Antonio Norberto da Silva
Natural do Pernambuco chegou a Borda da Mata com quinze anos de idade atravessando o velho Chico, fugindo da ira de um patrão que queria matá-lo por ele ter deixado escapar parte de um rebanho rio abaixo.


Disse-nos que “Dona Branca” apelido da Senhora Balbina era malvada com os empregados. Comportamento assinalado em todas as conversas que mantivemos. Seu Norberto conta que a patroa apesar de muito religiosa fazia uso de bebida alcoólica.


- "A cachaça piorava a brabeza da mulher". 


Certa vez numa dessas crises, quando ele estava com as mãos erguidas pilando massa de milho, por pouco a patroa não lhe fura a barriga com um pequeno punhal, tudo por causa de uma resposta inadequada.
- Dona Branca geralmente deitava-se numa rede e pedia a uma das serviçais que fizesse massagem em seus pés. Era prontamente atendida, mas se a coitada cochilasse... Era ferida no rosto com um “pé de peru”. Isto mesmo, o membro da ave que ele a costumava por no sol para secar e enrijecer garantindo mais dor aos lerdos e desobedientes. 
A vizinha e velha amiga, Maria Chaves foi vítima do tal "pé-de-peru". Ela está viva, aos 104 anos de idade, muitas histórias teria pra nos contar por ter trabalhado diretamente na cozinha dos Carvalhos, porém na ocasião de nossas duas visitas encontrava-se enferma na capital.

Mancomunados com o Rei do Cangaço 
"- Entre meu filho! – respondeu Dona Branca. E virando-se para o marido, que assomava a sala, explicou: Antonio é o capitão Virgulino que chega perseguido pelos soldados de Alagoas e pede pousada. Já mandei ele entrar."
É assim que o escritor Nertan Macedo, que entrevistou Eronides, descreve a chegada de Lampião na Borda da Mata numa madrugada escura de agosto de 1929.

Não há registro de uma pousada anterior, o capitulo na obra "Lampião, Capitão Virgulino Ferreira" de Nertan é detalhado, descreve uma enorme hospitalidade para acomodar mais ou menos 20 cangaceiros que dormiam e se revezavam de sentinelas espalhados pela casa em companhia do casal.

Lampião conhecia “os Carvalho” desde a sua juventude. Quando percorreu a maioria dos caminhos que viria a fazer mais tarde como bandoleiro. Revendendo nas fronteiras de Alagoas e Sergipe, como simples almocreve conheceu a família. E agora já como poderoso chefe cangaceiro, aproveitou para visitar o Coronel.

Sabendo do poder do grande comerciante Lampião pediu abrigo e comida, sendo prontamente atendido, onde lhe foi autorizado o abate de rezes etc, mas que seus moradores e contratados não fossem molestados por seus homens.

Esta improvisada reportagem não pretende, e nem se quisesse, iria conseguir elucidar esse grande mistério do cangaço. Se o chefe do executivo sergipano foi realmente o principal "Paiol do poderio bélico de Virgulino" é assunto secundário. Eu quero tratar é da amizade e tolerância.

Os capitães se reconhecem

Eronides foi apresentado a Lampião em agosto de 1929, durante os dias em que se restabelecia de uma enfermidade na fazenda Jaramataia, propriedade de seu pai no município vizinho de Gararu.

Algumas biografias dão conta de que esse encontro se deu “antes” de ele estar com Caixeiro. Outras, que foi numa visita do interventor até a Borda da Mata.

A ordem dos fatores

Em ambas há um mesmo parágrafo: Trocam cumprimentos e o Dr. faz a Lampião uma indagação que entrou para galeria das “máximas cangaceiras”.
- "Então, como devo chamá-lo, capitão ou coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia – como oficial do exército não posso ser comandado pelo senhor".
Lampião compreendeu a malícia e replicou:

- "Pois desde já o senhor está promovido a coronel".
Após o café, Eronides presenteou Lampião com uma garrafa térmica e uma caixa de queijos importados. Naquele instante nascia uma estreita amizade. Lampião passou a tratar de negócios, queria munição especialmente para sua pistola Luger (Parabellum) cujas balas eram difíceis de encontrar.


Brinquedo preferido de Virgulino
Imagem meramente ilustrativa  

Lampião e seus cabras passaram quase todo o ano de 1929 em Sergipe, onde na mais perfeita  tranquilidade circulavam da Borda para a Jaramataia.

Foram longas conversas, documentadas pela câmera fotográfica de Eronides. Em 27 de novembro de 1929 foram registrados os momentos em que o cangaceiro posa de perneiras que compunham o uniforme do capitão Eronides. [Lampeão e seu grupo sentados], [Lampeão e seu grupo montados em cavalos], [Ponto Fino e Arvoredo], [Zé Baiano], [Moderno, Mariano, Arvoredo, Calais. E outros. Se Lampião e Eronides posaram juntos, esse arquivo comprometedor foi muito bem escondido ou destruído.


Lampião


De pé: Ezequiel, Calais, Revoltoso, Mourão e o menino Volta Seca.  
Sentados : Lampião, Moderno, Zé Baiano e Arvoredo.
*Mariano foi omitido. Na original ele aparece esq. de Ezequiel. 
Até o momento não conseguimos scanear em boa resolução.





Zé Baiano 

*As imagens acima pertenciam ao acervo de Luis Antonio Barreto

Por favor, um médico! 

Foi através de Eronides que os cangaceiros conheceram as propriedades analgésicas do ácido-acetil-salicílico. Em dado momento perceberam que um dos cabras apresentava o rosto inchado e queixou-se de dor de dente. O Dr. trouxe-lhe o comprimido o qual inicialmente não ingeriu. Olhou para Lampião, que fez um sinal de consentimento com a cabeça, o cabra então tomou a pílula e em algumas horas tinha sua dor aliviada pelo medicamento de fábrica. Precisamente uma aspirina.

De acordo com a literatura, outras duas propriedade dos Carvalho que era pouso seguro para os cangaceiros em terras sergipanas eram as fazenda São Domingos em Porto da Folha e Paus Pretos em Poço Redondo.

E o relacionamento foi esquentando.
Billy Chandler, conclui: “Muitos acreditavam que Eronides e sua família não se limitavam somente a permitir que Lampião acampasse em suas terras, ou a mandar-lhe presentes de balas, ou mesmo usar sua influência para impedir que a polícia o perseguisse. Suspeitava também que eram seus principais fornecedores de Munição.” 
Em 1935, no Estado Novo de Vargas, Eronides elegeu-se governador do Estado. Desde logo, tornou-se entusiasta da emancipação de Canhoba.

A ideia pela emancipação iniciou-se antes de tornar-se interventor. Existia uma oposição em Propriá e na Assembleia Legislativa. Luiz Garcia era a principal figura pela não emancipação.

Se não tivesse ocorrido a implantação do Estado Novo, o projeto seria reprovado. Ele nem chegou a ser votado, pois Getúlio, no Rio de Janeiro, deu o golpe de Estado e os legisladores sergipanos foram cassados.

Eronides, já confirmado como Interventor Federal, aos 23 de Dezembro de 1937, dissolveu a Assembleia e criou o município de Canhoba.

Em 23 de Janeiro de 1938, Eronides, que tomou posse como governador em 1935, com o Golpe de 1937 foi nomeado interventor federal por Getúlio Vargas. O seu governo durou de 1935 a 1941.
"No governo de Eronides de Carvalho voltam à cena política as oligarquias ligadas ao setor açucareiro. O governo de Eronides de Carvalho torna-se altamente repressivo. A sua administração coincide com período do levante comunista ocorrido em 1935, conhecido como Intentona Comunista. A partir desse momento amparado pela de Segurança Nacional o governo de Eronides de Carvalho reprime toda e qualquer organização de trabalhadores, bem como, inibe através da coação a organização de uma oposição ao seu governo. Além disso, manda fechar jornais e entidades representativas e governa praticamente sem oposição. Nesse período sua administração implementa um governo de apoio às facções dominantes, sucateando a máquina do estado, trazendo como consequência a sua destituição do cargo". [ Ibarê Dantas]
Por que "Os Carvalho" não evitaram essa infeliz notoriedade?

Às mãos de Lampião, com ou sem proibição, durante todo o tempo armas e munições continuaram a chegar regularmente, por intermédio de políticos e militares corruptos, tomadas a força, através de contrabando ou “herdadas” dos soldados que tombavam em combates.
É claro que as fontes abastecedoras de Lampião eram mantidas debaixo de sete chaves. Todas as transações eram realizadas de modo confidencial, as entregas feitas por intermediários de alta confiança e efetuadas muitas vezes nas caladas das noites. Poucos entre os homens de Lampião, exceto os mais chegados, sabiam quais eram estes fornecedores.
A ex-cangaceira Dadá, disse que a identidade dos que forneciam armas ao capitão era segredo que ela sabia e que levaria consigo para a cova. Evidentemente ela, por ter sido mulher de Corisco e comadre de Lampião, muito devia saber. Após 50 anos do começo do esfacelamento do cangaço, no entanto ela recusara fornecer nomes argumentando que não ia delatar “quem lhes sustentava”.
Quando os carregamentos com armas e munições eram entregues a Lampião, ele em pessoa fazia a distribuição entre seus homens e as revendia para os subgrupos. O restante era armazenado para futuro suprimento, guardado em garrafas e metidas nos ocos dos troncos das árvores, ou enterradas nas áreas por onde os bandidos costumavam transitar.

FONTES, Oleone Coelho, págs 322, 323.
A suspeita foi levantada a partir de indícios contundentes.

Oficiais como Zé Rufino, recolhiam as cápsulas dos cangaceiros após as lutas e constatava que estas eram sempre novas, fabricadas a dois no máximo cinco, anos anteriores enquanto que as balas disponíveis para as Volantes eram dez ou até vinte anos mais velhas.

Em comunhão com a pesquisa de Cesar Megale e Sabino Bassetti no seu livro "Lampião, sua morte passada a limpo" pág 127, também acreditamos que estas balas não chegavam a passar pelos depósitos da policia. Iam fresquinhas, diretamente para as mãos do Rei.

Balas do último tipo não eram fáceis de ser adquiridas no nordeste, sobretudo em vilas, povoados e lugarejos isolados nas caatingas. As de uso militar, clandestinamente, só eram encontradas no Sul do país.
Para tê-las, pois em grande quantidade, só por intermédio de alguém de influência. Os Brittos e os Carvalhos de Sergipe, certamente eram os mais prováveis.
O cangaceiro Volta Seca, sergipano de Itabaiana, preso em 1932, iniciando sua carreira de falastrão se encarregou de apontar Francisco Porfírio e seu filho Hercilio de Britto. E do lado baiano o coronel João Sá de Jeremoabo. FONTES, Oleone Coelho, 322,323.

 
 1ª página Correio de Aracaju, 5 de Novembro de 1929.

Voltamos a 1935 

Criticado e perseguido pelos seus opositores que eram maioria na Assembleia Legislativa, ele aparece na imprensa oficial do Estado condenando o cangaço e os seus colaboradores, e cobrando um fim para esse flagelo.

Apresentava estratégias para combater o banditismo. Mas sempre protestando por conta da verba destinada pelo Governo Federal para esta campanha. E tentava amenizar os críticos lembrando que naquele período os crimes de Lampião e seus asseclas se resumiram em “sacrificar animais”.

Jornal Folha da Noite (atual Folha de São Paulo) 17 de fevereiro de 1936. Pág. 43.

No dia 2 de julho deste mesmo ano o interventor chegou a assinar um pacto de cooperação e ação com os outros Estados que conheciam a fúria do Rei do cangaço.


Eronides a direita. Entrevista para a Folha da Manhã, São Paulo. 

Em 7 de Setembro de 1936 na mesma tribuna ele comunica com euforia a eliminação de Zé Baiano no povoado Alagadiço – Frei Paulo, SE.
Para os bandidos diminuiu evidentemente o crédito do coiteiro sergipano em virtude das circunstâncias e dos elementos participantes da eliminação de José Baiano”.
Após a morte de Lampião em Angico, novas notas foram veiculadas pela imprensa destacando este acontecimento em Alagadiço, como prova de que a Força do Estado comandada por Eronides atuou severamente contra o cangaceirismo. Travando uma guerra constante matando diversos entre eles.

Quem já leu este episódio sabe que Zé Baiano foi morto por “coiteiros civis” que o traíram. As autoridades só tomaram conhecimento vários dias depois.

Até o dia 28 de Julho de 1938 quando se dá o extermínio de Lampião, a policia sergipana não registrou a morte de “nenhum de seus cangaceiros”. As cabeças que aqui rolaram foram troféus dos Nazarenos e outros oficiais de Pernambuco, dos alagoanos e baianos.

Com Eronides na capital cabia a seu Antonio cuidar das feras no sertão.

Era 1938. As autoridades alagoanas sabiam que os últimos três anos de Lampião foram de idas e vindas às fazendas dos Carvalhos. O Jornal de Noticias da Bahia espalhou pelo nordeste inteiro de que ele havia morrido em janeiro, acometido de tuberculose.

Não localizando o governador, jornalistas cobravam explicações de seu Antonio Caixeiro. Este procurando defender a integridade do seu filho bradava que "A partir do momento em que Eronides assumira o governo, Lampião não pisara no Estado, quiçá em nossas terras". Ora negava, ora assumia em afirmativas inconsequentes.

Eloy Mauricio, um comerciante de Girau do Ponciano, AL. que teve seus armazéns saqueados por cabras de Lampião em abril daquele ano. Procurou o velho amigo e conterrâneo Antonio Caixeiro para que este intercedesse ao grande chefe. Caixeiro respondeu que sua influencia sobre Lampião... se estendia somente a Sergipe.

Que espécie de influência era esta, que permitiu inúmeros crimes e perversidades nos povoados e cidades vizinhas? A amizade de Lampião com os Carvalhos não garantia trégua dos sequazes na região. Certamente não havia recomendações.

Existem relatos de terras tomadas pelos bandoleiros e doadas para o fazendeiro e outras histórias apócrifas que não podemos dar vazão.

O que é fato amplamente registrado na literatura é o desrespeito com as famílias do Sertão, baixo e Alto São Francisco. Contanto que não fossem moradores da Borda ou da cidade, clientes ou funcionários em potencial. Isso sem falar de Frei Paulo, Pinhão, Simão Dias, Capela, Dores etc.

 Proximidade entre os municípios citados nesta matéria

Vejamos os depoimentos de quem estava lá, naqueles dias

Acompanhado do amigo Magno Ferreira, visitamos alguns ex-empregados de Seu Antonio, testemunhas vivas desta época, a fim de colher possíveis relatos de abusos, ou quem sabe até da conivência do patrão em castigos impetrados pelos cangaceiros.

Entre os remanescentes a opinião foi unânime,  
- Sei que o coroné Antonio foi “Um santo”. Deu abrigo, emprego, comida, e foi o padrinho de batismo de centenas de pessoas.
Nos relatou Gedalva Nunes de Oliveira, A dona "Dalva" 97 anos, natural de Craibas dos Nunes Alagoas. (berço do meu avô materno). Mais uma das muitas afilhadas de Antonio Caixeiro.

Foto: Kiko Monteiro
 - Meu padrinho socorria a pobreza, mas com interesse né? (Risos), tudo na base do juro viu?. Ele emprestava digamos oito alqueires de arroz pra o cabra cultivar, mas o sujeito tinha que lhe devolver nove (Risos). 
E o Dr. ?  
- Ah! era um homem bonitão, charmoso, gentil demais. Tratava de todos os conterrâneos. Ele me curou de uma pneumonia... e narra toda a ocasião. 
De repente Dona Dalva lembra vagamente da passagem de Lampião a caminho da Borda da Mata pelo povoado Sítios Novos onde ela morava. Uma mocinha junto com sua irmã correram para se esconder nos matos. 
- Mas Lampião respeitava a cidade  sabe?. Não passava por dentro “do” Canhoba. Só que uma vez ele mandou um recado pra uma senhora do qual não recordo o nome, sei que ela era costureira e varava a noite a costurar sob a luz de um candeeiro. E ele mandou um jagunço de seu Antonio dizer que ela procura-se dormir mais cedo, pois era a única que estava sempre acordada. Podia ver assombração. Se ele via ela trabalhando, então o bicho passeava por aqui né ?(Risos).
Contou sobre a sua amiga Isaura que foi uma das vítimas de Zé Baiano em Aquidabã:
- A pobrezinha foi deflorada e ferrada na face e nas nádegas pelo bicho, muitos anos depois ela com a família vieram morar na cidade, já morreu faz anos, hoje não existe nenhum parente vivo.

Terror na vizinhança

Foi também em Aquidabã, Outubro de 1930 que “José do Papel” 22 anos, morador do povoado Cajueiro foi pego, surrado e teve uma das orelhas cortada pelos cabras.

José Custódio de Oliveira "Zé do Papel"

No centro comercial, em frente ao Armazém de Maximiano Calango, o grupo matou a com um tiro Souza de Manoel do Norte, um deficiente mental que protestou contra as depredações e ousou sacar de um canivete representando "uma ameaça" para dezenas de fuzis e revólveres. Segundo a literatura Souza de Manoel teve o abdômen aberto a punhaladas e as vísceras expostas.

Nesta mesma incursão o lavrador Eduardo Melo, apanhou, teve uma orelha decepada e veio a óbito um mês após por conta dos ferimentos.

Em Amparo do São Francisco, na época também um povoado de Propriá bem próximo a Canhoba, o armazém dos bisavós da nossa anfitriã Dayana, foi saqueado por quatro cabras. Tomaram não só a mercadoria como todas as joias que dona Maria da Conceição, tentou em vão, esconder entre os próprios seios.

A bela Maria da Conceição Evangelista da Cruz
Cortesia de Dayana Ferreira,  para o nosso acervo.

O produto deste roubo foi deixado sob a guarda de um coiteiro, que diante da demora em retorno destes cangaceiros, numa atitude justa, mas logicamente insana resolveu devolver toda a mercadoria a seus respectivos donos. Inclusive um punhal que estes deixaram entre os pacotes. E os cabras realmente nunca voltaram para resgatar o apurado.


O punhal

Cruzar caminho de cangaceiro... era problema de cada um 

Lembram-se da cláusula de não bulir com os vaqueiros de seu Antonio? Conheçam o caso do cabra 'Novo Tempo', sergipano de Poço Redondo, irmão da cangaceira Sila. Em fins de 1937, no último grande combate, da fazenda Crauá ou Fogo da lagoa de Domingos João em Canindé (a época território de Porto da Folha), onde o grupo de Zé Sereno enfrentou as volantes de Zé Rufino e do Cabo Besouro.

Zé Rufino em 1938. 
Acervo de Rubens Antonio

Ferido no braço este cangaceiro foi inicialmente socorrido pelo jovem Leônidas, filho da coiteira Delfina da fazenda Pedra D’água. Pensando estar em condições de seguir viagem pediu um cavalo ao colaborador. 

Leônidas em foto de 2006.  
Acervo de Leandro Cardoso Fernandes

Sendo atendido rumou dois dias sem rumo até bater em uma outra propriedade de... Antonio Caixeiro. A fazenda Pau Preto.

La ele procurou a casa do vaqueiro António José ou António “dos pau preto” um velho conhecido da cabroeira que recebera ordens do patrão para servir as ordens do capitão e sua gente. E ali estava uma emergência: 'Novo Tempo', sozinho, ferido, ensanguentado, faminto, mas com os bolsos abarrotados de réis.

Ao invés de levá-lo imediatamente para dentro da casa ele arrastou o cangaceiro para uma clareira próxima, notou os valores em dinheiro, sacou seu revolver 32 e atirou na altura do ouvido do moribundo.

Quando pensava iniciar a rapinagem ouviu um tropel que se aproximava e correu da cena. Para seu espanto eram os cabras 'Juriti', 'Balão' e outro que estavam à procura do companheiro.

Perguntaram que disparo havia sido aquele, António desconversou disse que tinha sido numa cobra apontando exatamente para o local onde estava Novo Tempo. Desconfiados os cangaceiros foram checar esta informação. Neste meio tempo o vaqueiro traidor montou no seu cavalo e desembestou rumo ao encontro do patrão que estava em outra fazenda, a Santa Filomena, perto dali.

Os cangaceiros ao chegarem à clareira encontraram somente um filete de sangue que marcava a trilha de alguém que se arrastou. Seguiram e encontraram 'Novo Tempo' saciando a sede num charco onde os animais bebiam água.

Pegaram o companheiro, antes retornaram a fazenda e perceberam que o vaqueiro não estava, mas nem por isto tiveram a suspeita. Chegando a fazenda Mandassaia foram recebidos por Zé Sereno cunhado do ferido, que imediatamente prestou socorro ao colega, a esta altura mais debilitado que nunca.

Este foi tratado com os recursos do mato e experiência de Zé Sereno na troca periódica de curativos.

Recuperado. Novo Tempo contou o sucedido aos companheiros. Contou que o buraco no braço foi no Crauá. Já o do pescoço...

Aí a ordem era exterminar o vaqueiro do coronel. Que aquela altura já tinha revelado o fato a seu Antonio Caixeiro que o preparou dizendo:

- Você que se meteu nessa enrascada que sai dela. Sua família eu ajudo, mas você não, não dou um tostão por sua vida. 

O caso é que António não fugiu, retornou a lida na fazenda, naturalmente desconfiado, mas certo de que 'Novo Tempo' não havia sobrevivido a um tiro a queima roupa na “broca dos ouvidos”. E além do mais, por que Juriti e os outros não iriam lhe atribuir a culpa. Eram tantos os ferimentos do combate do Crauá que ninguém daria conta que aquele foi um acréscimo de sua parte. E tocou a vidinha pra frente.

Até que uma certa manhã foi até o curral ordenhar as vacas e de repente se viu cercado e aprisionado pelos meninos do Capitão.

Amarrado de ponta cabeça na mesma clareira que pensou ter matado 'Novo Tempo', os cabras lhe fizeram de “pendulo humano” e balançado de um lado para o outro cada cangaceiro lhe recebia com uma estocada de punhal. Sangrou até morrer, servindo de exemplo pra os que ousassem trair os cabras de Lampião.

Passado algum tempo Zé Sereno contou a Antonio Caixeiro sobre a sentença de seu vaqueiro, este repetiu o que havia falo para o mesmo.

– Eu não levantaria um dedo para defendê-lo.

Muito tempo depois logo após as entregas Sereno pergunta ao cunhado:
- Cunhado você não está estranhando este caroço no seu pescoço?
- Estou sim...

Zé Sereno então diz que é a bala de "António dos Pau Preto" e pergunta se 'Novo Tempo' quer que ele extraia a bala. Com o consentimento, Zé pega uma faca bem afiada, derrama cachaça e extrai a bala que entrou pelo ouvido cujo projétil o corpo estava finalmente rejeitando. 

'Novo Tempo' 
Morreu de velho em Minas Gerais.

Clamor por Justiça

Os desmandos e truculências não se restringiam aos mais humildes. No município de Itabi o senhor “Niro da vassoura”, importante usineiro de cana-de-açúcar, recebeu intimação para que providenciasse dinheiro para um dos subgrupos. Sem condições de atender a quantia ele fugiu antes da chegada dos bandidos, que não encontrando o proprietário e sem respostas mataram todas as rezes e atearam fogo na casa.

A revolta de seu Niro diante da negligência da justiça se fez ecoar na Capital Federal. E nosso interventor começava ser pressionado pela imprensa carioca.

Corria nos “diários” do Brasil afora que “As forças sergipanas faziam vista grossa. Evitavam os bandidos fazendo com que Lampião ficasse inteiramente à vontade pra organizar sua rede de coiteiros”. 

Nota veiculada na primeira página do Correio de Aracaju, em 26 de Junho de 1937...






Enquanto isto no agreste... 




Mais depoimentos

Por eterno respeito e gratidão ao patrão, dois dos nossos entrevistados pouco ou nada mencionaram sobre Lampião, nem sobre desmandos. Um destes que não nos autorizou divulgação de seu nome, não negou que o coronel realmente gozava da amizade com o grande bandoleiro, e tinha seu “exército pessoal de jagunços”. Natural para qualquer Coronel que se preze.

Depoimento de Mauro Valentim dos Santos, 77 anos, morador da Borda da Mata: 

Foto: Kiko Monteiro
 - Pra inicio de conversa: Seu Antonio mesmo nunca matou ninguém, viu? Apadrinhou muitos assassinos que procuravam abrigos em suas terras. Era uma 'jagunçada' da peste... Eles estavam aqui pra pastorar os arrozais, era pra mais de cem caboclos, às vezes havia rixa e morte entre eles mesmos. Faziam o serviço e enterravam por aí, pela mata.

Perguntei a ele se estas vítimas jaziam no “Apertado da hora”. (Um leito de riacho seco, cortado pela estrada de acesso à fazenda na época pelo meio da mata fechada. Que foi desova de cadáveres julgados e sentenciados da Borda da Mata podemos considerar que é um cemitério, sem covas nem sequer cruzes). O "Apertado da hora" por muitos anos foi um trecho temido pelos moradores que precisavam passar altas horas da noite. São muitas as estórias de assombrações a beira da estrada.
 - O povo fala... não é do meu tempo, devia ser ali mesmo. Mas lhe digo que era briga entre jagunços, rapaz, era muita intriga entre eles, geralmente arrastavam inimigos de outras cidades, ou daqui da redondeza pra matar aqui. 
 Seu Mauro conta o que ouviu dos mais antigos:
- Nestes últimos anos, só frequentava a Borda da Mata o capitão. Os demais ficavam acoitados na “Gruta do morador” (um coito que fica a dois quilômetros da sede da fazenda). A polícia de Alagoas uma vez chegou pelo rio com indícios de que seu Antonio estaria protegendo cangaceiros... Depois da negativa os soldados foram convidados pra janta, depois foram embora sem insistir na busca. E Lampião, estava deitado num quarto ao lado ouvindo toda a conversa.

A seta indica a localização da gruta do morador.
Foto: Kiko Monteiro
Abre sua defesa pelo médico:
- Ói sobre esta conversa de munição. As balas que Eronides mandava tanto pra Borda ou pra Jaramataia era para o pai, seu Antonio, que era para a jagunçada dele, mas só que o Coronel desviava metade para Lampião sem ele (Eronides) saber. Era assim: O Coronel é quem enchia os cartuchos do capitão, nunca o doutor. Compreende?. ..
E finaliza jogando a "batata quente" para o velho Caixeiro.
- E tem mais: Lampião recebia muita munição. Mas não era de graça, Lampião pagava, ora emprestava ou simplesmente deixava seu próprio dinheiro sob a guarda dele, assim como de outros coronéis como João Maria de Serra Negra. Esses coronéis eram os bancos né? 
Depoimento de Leôncio Rocha, 86 anos.

O criador da “Junça de Canhoba” uma cachaça artesanal até aí nada de anormal, mas a embalagem das garrafas pet são adornadas por notícias de jornais e filosofias populares.

Foto: Kiko Monteiro
 - Nunca fui empregado de seu Antonio. Com 13 anos de idade eu estudava, era encarregado de recolher o pagamento semanal de minha professora que era feito por seu Antonio. Eu ia até Borda da Mata só pra buscar o ordenado dela. Levava um bilhete explicando o valor e ele prontamente me atendia colocando os $2 mil réis num envelope, depois num bolso da minha camisa e prendia com um grampo para que as notas não voassem. 

Eu conversei com Seu Mauro e ele me disse que a 'jagunçada' de Antonio Caixeiro era só pra pastorar plantação de arroz?

–Antonio Caixeiro não brincava com cabra safado, tinha seus desafetos (Risos). Se soubesse de algum empregado mal intencionado que estava ali pra lhe prejudicar, dava as ordens e seus meninos 'resolviam o problema'. Era pra matar, longe da Borda e da cidade. 

Curiosamente, "o Apertado" fica ao meio a distância das duas localidades.


E sobre as balas? Eram repassadas escondidas do filho?
- O Dr. dava de bom grado, não podia recusar, devia obediência ao velho pai. Benção e obediência é duas palavras sagradas pro sertanejo, seu moço.


Um morador da cidade, a pedido de nosso guia, nos conta que conheceu pessoalmente o senhor Manoel "Macola", já falecido. Nunca escondeu dos mais chegados que serviu como pistoleiro do Coronel e um de seus serviços mais constantes era de enterrar vivo o sujeito.

Por pouco não virou cangaceira

Na nossa segunda visita, acompanhados pelo Dr. Archimedes Marques e sua esposa, Dra. Elane, tivemos a oportunidade de conversar com uma importante testemunha das ocorrências cangaceiras.


Foto: Kiko Monteiro
Laudicéia Gomes de Matos, 86 anos. Ela nos recebeu em sua casa, mas a principio, não quis mexer no passado. Trata-se de uma passagem desagradável daquelas que permanecem indeléveis na memória.

Em 1937 ela era uma adolescente de 12 anos, menina moça, cabelos compridos, gordinha, aparentava ter mais idade. Morava nos Sítios Novos, (mesmo povoado citado anteriormente por dona Gedalva).

Recorda que eram 13 horas da tarde, cuidava sozinha da bodega de seu tio. De repente do balcão ela percebe a inquietação dos moradores, viu a aproximação de um grupo de homens fardados, chapéu, armas etc. pensou que se tratava de uma força, mas eram cangaceiros.

Nada demais, a menina sabia que os cabras de Lampião não fazem mal a ninguém das terras de seu Antonio?!

Eis que um deles fitou a mocinha e foi em direção ao estabelecimento com um sorriso sarcástico.

Um senhor, que bebia percebendo o perigo que a donzela corria deu um sinal com a cabeça para que ela corresse, demorou pra perceber a instrução, mas assim que notou "fez carreira". Perseguida pelo assecla (um negro, cujo nome ela nunca soube qual era) correu e se abrigou nos fundos do cemitério despistando-o.

Depois que percebeu que estava segura rumou para casa. Lembrando que os pais estavam ausentes trabalhando na roça foi se abrigar na casa de uma tia.

Estes mesmos cangaceiros, após cometerem saques, partiram para o povoado Poçãozinho, onde houve pequena refrega com uma força. Segundo Dona Laudicéia houve uma baixa do lado dos cangaceiros, o que não pode ser confirmado.

Dias depois soube ela que o “cabra solteiro” a queria como companheira, e havia confessado a um morador da vila. Se esta era a real intenção do bandido, não se sabe. Graças a sua astúcia ela não foi mais uma vítima de estupro.

Dona Laudicéia não teve sossego, ainda passou muitos dias escondida com familiares, hora nas matas, ou nos fundos da casa. Até ter a certeza de que Canhoba estava livre, pelo menos dos cabras de Lampião.

 Um ano antes do massacre...

 Jornal Diário de Noticias, de Salvador, Bahia. 
Abril de 1937

Esta certeza só veio muito tempo depois de Angico

No histórico 28 de Julho de 1938 Eronides se encontrava no Rio de Janeiro. O jornal Correio de Aracaju de 05 de Agosto de 1938 faz a reprodução da seguinte matéria:

Procurado às 22 horas do dia 28 no apartamento 105 do Palace Hotel por um repórter dos Diários associados, para responder sobre a morte do grande bandoleiro o governador do estado simplesmente "desconhecia o fato”. 
O governo dispunha de uma estação de rádio em Monte Alegre, cidade situada a 19 km de Poço Redondo, que deve ter feito o comunicado oficial para o palácio em Aracaju. 
Em seguida Eronides teria recorrido a policia civil do Distrito Federal para passar a seguinte mensagem via rádio: - Mande notícias urgentes e detalhadas sobre a morte de Lampião no nosso território... 

A mensagem foi transmitida pouco depois da 22h30min. Porem até às 24 horas a resposta ainda não havia chegado.

Sobre o 'feliz acontecimento' ele ainda não poderia responder. Mas lembrou aos cidadãos do sudeste que:

"Sergipe nunca se descuidou do problema da perseguição ao grupo de Lampião. 
Para tal, mantinha seis turmas volantes de 16 homens, cada uma no encalço do bandido, cerca de 500 homens da força publica espalhados pelo interior, colaboravam na perseguição. 
 Caso seja confirmada a noticia, é motivo de jubilo para as populações nordestinas. Ressurgirá a tranquilidade da família sertaneja". 
Apresentou orçamentos que apontavam gastos de $200 contos de réis para manutenção das Volantes que perseguiam o Rei do Cangaço.

30 de julho, dois dias depois do massacre, o jornal Folha da Manhã ainda apresentava dúvida quanto ao fato, todavia na coluna ao lado estavam impressos telegramas de Maceió que davam como certa a tragédia.

Em 1° de agosto finalmente o Sergipe Jornal publicava um telegrama de Eronides que ainda se encontrava no Rio de Janeiro.

RIO, 30/08/38 INTERVENTOR FEDERAL Sergipe Aracaju – Congratulo-me com o povo sergipano pela volta, nossos sertões, da tranquilidade, tão desejada para nosso crescente desenvolvimento. Abraços. 

Não localizamos alguma possível declaração do velho Antonio Caixeiro sobre a morte de seu mais ilustre hóspede. O Sr. Zé Rosendo, disse que o Coronel foi ver as cabeças e como muitos outros não acreditou se tratar de Lampião.

Vale lembrar que a força alagoana resolveu agir em solo sergipano sem comunicar qualquer manobra às autoridades locais.

Fatos posteriores

 O Nordeste 4 de agosto de 1938. 1ª página

Então, mãos a obra.



Nota na 1ª página

Após a renúncia em 1941, Eronides fixou residência no Rio de Janeiro. Foi nomeado para Juiz do Tribunal de Segurança Nacional e, em 1944, é nomeado Tabelião do 14º Ofício de Notas situado até hoje no bairro de Copacabana, administrado por seus herdeiros.

O coronel Antônio Caixeiro tomou posse como primeiro prefeito de Canhoba, exercendo o mandato até 1941. Nesse primeiro mandato, ele inaugurou o Mercado, a Prefeitura, as Escolas Reunidas “Hermes Fontes”, (Hoje Escola Estadual Dr. Eronides de Carvalho) a Matriz paroquial de “Senhor Bom Jesus dos Pobres”, a Exatoria Estadual, os açudes municipais, a agência dos Correios e Telégrafos.

Com a redemocratização do país, o coronel Antonio Ferreira de Carvalho, fora novamente eleito Prefeito Municipal, pelo voto direto e universal, para o quadriênio 1947 a 1951. Porém, em 1948, faleceu acometido de doença grave.

 O seu mausoléu no Cemitério de Canhoba.
Onde também fora sepultada em 1946 a inesquecível D. Branca 
e também alguns dos seus filhos.
 Foto: Kiko Monteiro

E a possível novidade? 

Uma imagem inédita na literatura. Foto artística de Antonio Caixeiro quando prefeito. A original não existe, pois fora consumida por um incêndio na década de 70.  
(Cortesia de Lauro Rocha para o Lampião Aceso).

"Em 1960" Eronides construiu na Borda da Mata uma mansão a beira do velho Chico. Depois passou a ser casa de veraneio de sua filha Martha, quando vinha a terra de seus avós.

Está abandonada a pelo menos quinze anos. Soubemos que agora pertence à paróquia que pretende instalar um serviço de apoio aos assentados. A estrutura imponente e Arquitetura exuberante hoje serve apenas de morada para vespas, cupins e morcegos.




As ruínas da mansão
 Foto: Kiko Monteiro

Eronides morreu aos 73 anos em 18 de Março de 1969 no Rio de Janeiro, onde está sepultado.

Eduardo Ferreira de Carvalho o “Eduardinho” 
Foi o ultimo dos filhos de Antonio Caixeiro a falecer em 19 de Novembro de 2010 aos 98 anos.

Do rico patrimônio dos Carvalhos só restam mesmo as lembranças dos seus contemporâneos. Foi tudo vendido ou desapropriado ao longo das últimas décadas. A Borda da Mata mesmo, hoje é propriedade do MST. Outra extensão da fazenda pertence a um pecuarista da cidade. O antigo casarão de seu Antonio, no centro de Canhoba, deu lugar a uma agência Banco do Estado de Sergipe.

Quanto a Jaramataia, aí é outra história.


O autor, diante da verdadeira casa de Antonio Caixeiro
na Borda da Mata.


*Kiko Monteiro é... um botador de gás, nada mais.

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FONTES CONSULTADAS

Bibliografia:

MACEDO, Nertan. 
Lampião - Capitão Virgulino Ferreira
Editora: Renes Ano: 1975

CHANDLER, Billy Jaynes 
Lampião - O Rei dos Cangaceiros.
1ª edição, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1980.

FERNANDES, Leandro Cardoso - ARAÚJO, Antonio Amaury Correia. 
Lampião a medicina e o cangaço.
Traço Editora, São Paulo/2005

FONTES, Oleone Coelho.
Lampião na Bahia
3ª Edição. Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1999

BONFIM, Luiz Ruben F. de A. 
Lampião e os interventores
Graf Tech, 2007.

DANTAS, Sérgio Augusto de Souza 
Lampião - Entre a Espada e a Lei
Edição do autor, 2008.

SOBRINHO, Antônio Corrêa
O Fim de Virgulino Lampião
Edição do autor, 2008

BASSETI, José Sabino / MEGALE, Carlos César. 
Lampião - Sua morte passada a limpo. 
Editora Nova Consciência, São Paulo, 2011.

MELLO, Frederico P. de. 
Estrelas de Couro - A estética do cangaço
Escrituras 2010
 
Textos, jornais e websites

Sertão Sangrento: Luta e Resistência. Jovenildo Pinheiro de Souza.

Blog Outra Versão página de Marcelo Domingos de Souza

Antônio Ferreira de Carvalho por Lauro Rocha de Lima, Advogado aposentado, filho de Canhoba. Escritor filiado ao Movimento de Apoio Cultural da Academia Sergipana de Letras.

Centenário de Eronides de Carvalho. Excelente resumo da sua trajetória política, pesquisa do Prof. Milton Barboza da Silva, disponível no Blog do autor

Lampião em Sergipe II. Luis Antônio Barreto in Infonet

Jornais locais - Acervo digitalizado do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Jornais Folha da noite e Folha da Manhã Acervo Folha

Dicionário Biográfico de Médicos de Sergipe 

Gazeta de Propriá


Agradecimentos e créditos especiais

Pelo empenho, atenção e amizade dos nossos anfitriões a Família Ferreira, Dayana, Sr. Magno (nosso guia local), Sra. Erivania e Magno Filho.

Simão, então secretário de Cultura de Canhoba.
  
Aritana Divino (Neta de Dona Laudicéia)

Ao pesquisador e confrade Dr Archimedes Marques, no afã de obtermos esta fotografia do célebre Antonio Caixeiro, junto ao pesquisador Lauro Rocha. E a sua esposa, nossa amiga Dra. Elane Marques pela companhia em nossa segunda incursão.

E ao monsieur Rostand Medeiros pelo olho clínico e revisão. 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Prazer em conhecer

Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Leandro Cardoso Fernandes

Sua “entrada” no cangaço deu-se quando tinha 12 anos. Seria a "síndrome de Volta Seca"?

Na época recebeu de presente do avô o livro “Lampião, Cangaço e Nordeste”, da Aglae Lima de Oliveira. O livro, que é ricamente ilustrado e o impressionou sobremaneira. A partir daí vestiu a camisa e entrou em campo. Começou a comprar livros e lê-los com voracidade.

Em 1991, foi estudar Medicina em Recife. Aproveitou o tempo em Pernambuco para investigar o que havia à disposição sobre o cangaço. Visitou museus, inclusive o Museu da Polícia Militar, que mostrava roupas das volantes e armas usadas na guerra contra o cangaço. Este local infelizmente encontra desativado e as peças têm paradeiro ignorado como relatou o escritor Geraldo Ferraz em sua entrevista.

Teve seus primeiros contatos com ex-cangaceiros, ex-volantes e com gente que conheceu protagonistas. Conheceu Drª. Laís Vieira, médica e, na época, tenente da Polícia Militar, que conviveu com o lendário Manoel Neto (inclusive foi para o seu enterro). Ela lhe deu informações interessantes sobre como vivia o ex-caçador de cangaceiros, como por exemplo, que o coronel Mané Neto só andava armado e desconfiava de todo mundo.

Ainda em Recife, precisamente em 1996, teve a oportunidade de conhecer na Fundação Joaquim Nabuco o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, já havia ficado impressionado com as suas obras “Guerreiros do Sol” e “Quem Foi Lampião”.

Em 1998 foi parar na Selva de Pedra. Em São Paulo, de cara, seu volume de livros aumentou, pois não saía dos sebos do bairro da Liberdade e o da Maristela Kalil, próximo à Praça da República, sempre em busca de cangaço.

Dos livros de Amaury, ele destaca particularmente “Lampião: As Mulheres e o Cangaço”, que segundo sua opinião ainda é a melhor obra já publicada sobre o universo feminino no cangaço; e o “Assim Morreu Lampião”, uma reportagem emocionante sobre o dia fatídico do Angico,

Leandro lembra que “Assim Morreu Lampião” inclusive foi o embrião para o primeiro Globo Repórter (O Último Dia de Lampião, de Maurice Capovilla). Estes dois livros do Amaury lhe causaram grande impacto e começou a nutrir a vontade de conhecer o autor pessoalmente, uma vez que já o admirava a partir da honestidade com que escrevia.

Um belo dia recebe o telefonema de Dr. Napoleão, seu sogro, lhe avisando que dois "cangaceirólogos" iriam procurá-lo: Adivinhe Quem? Dr. Antonio Amaury e Dr. Melquíades Pinto Paiva.
Amaury telefonou; marcaram um encontro em sua casa, e pronto: todos os finais de semana (e muitas vezes as suas tardes de folga) eram na casa dele, falando de... Cangaço.
Dr. Leandro nos faz lembrar tal sensação de um músico que é fã de determinado artista e que de repente alem de conhecê-lo cria uma amizade cumplicidade que proporciona uma parceria em um novo trabalho, o que veremos em outro parágrafo. 
Os cavalheiros conviveram semanalmente por nove anos. Quando Dr. Melquíades - que reside no Rio - estava em São Paulo, os três almoçavam juntos falando de... Cangaço. Dr. Melquíades, diga-se de passagem, é detentor da maior biblioteca sobre cangaço do mundo!

Em 2002, Leandro Cardoso, Carlos Eduardo Gomes (confrade carioca), Dr. Benedito Denardi, Dr. William White, Dr. Mozart Pinho e Dr. Antonio Amaury empreenderam uma grande jornada pelos cenários “lampiônicos”: Piranhas, Poço Redondo (ocasião em que conheceu Durval e Alcino Costa), a localidade Mucambo, local onde o cadáver de Nenê de Luis Pedro ficou exposto aos curiosos; a fazenda Jacoca, onde Corisco foi apelidado de Diabo Loiro; visitaram Água branca (AL); Canindé do São Francisco (SE); Pinhão (SE) palco da batalha entre soldados e os sobreviventes de Angicos e também do combate de Lampião com o tenente Menezes em 1929.
Visitaram a Fazenda Patos e seu famoso curral de pedra, onde Corisco degolou os membros da família Ventura, em 1938. Tiveram também a oportunidade de conversar com o único irmão vivo da cangaceira Lídia, nos escombros da casa onde ela nasceu. E ainda deram uma esticada até o cenário do combate da Maranduba, um dos mais intensos da história do cangaço.

 William White, Dr. Amaury, eu e Dr. Benedito Denardi na casa da Baronesa de Água Branca.

 Com Dr. Amaury no local do combate da Maranduba. As cruzes mostram onde os soldados foram enterrados.

Em Angico

 Dr. Benedito, Jairo Luiz, Dr. Amaury, William White, eu e Carlos Eduardo Gomes, no famoso curral de pedra onde Corisco degolou os membros da família Ventura, na fazenda Patos.

 Jairo, eu, Dr. Amaury, o irmão de Lídia e o Dr. Benedito Denardi, na casa velha da fazenda Pedra D'água à poucos metros de onde teve o combate da Lagoa de Domingos João.

Em Aracaju, Leandro foi recebido por Expedita Ferreira e Vera Ferreira (filha e neta do rei do cangaço). Na ocasião, Vera estava de posse das cabeças de Lampião e Maria Bonita, que haviam sido recolhidas de Salvador (por problemas no cemitério que sofreu danos pelo inverno abundante). Como estava escrevendo um livro especifico sobre medicina e cangaço, aproveitou para examinar estas peças, que estavam bastante avariadas.
Relatando esta oportunidade que poucos tiveram, lembra nosso entrevistado de que um dos contatos mais prazerosos que teve durante estes anos foi com o médico baiano Lamartine Lima, que foi assistente do Prof. Estácio de Lima.
Prof. Lamartine relatou-lhe aspectos médico-legais das cabeças, trechos de entrevistas que colheu, como por exemplo, o soldado que matou o cangaceiro Azulão, que, após acertá-lo na coluna deixando-o tetraplégico, degolou-o vivo (vide foto no livro do Estácio), dentre muitas outras passagens curiosas.

Então apresente suas crias!
- Junto com o Dr. Antonio Amaury, “Lampião a medicina e o cangaço, aspectos médicos do cangaceirismo”. Publicamos o livro em 2005 e viemos lançá-lo no Salão do Livro do Piauí.

O livro foi feito com intenção de preencher algumas lacunas da historiografia do cangaço, como por exemplo, a questão do olho direito do Rei do Cangaço. Até então não havia estudo sobre a mais provável causa da cegueira direita de Lampião: ficava-se a especulação sobre glaucoma congênito, catarata congênita, espinho, sem que o assunto fosse submetido realmente a uma análise mais criteriosa.


Nesta ocasião também lancei o cordel “Sinhô Pereira, o Homem que Chefiou Lampião”, prefaciado por Dr. Antonio Amaury. Muito pouco se escreve sobre Sinhô Pereira, seja em prosa ou em verso.


Escrevi um capítulo no livro “Caatinga”, de Almeida Cortez e colaboradores, intitulado “Caatinga, Cangaço e o Raso da Catarina”, e recentemente colaborei com o cineasta Wolney Oliveira, com relação ao apoio histórico, no filme “Os Últimos Cangaceiros”, que aborda a vida de Moreno e Durvinha, a ser lançado brevemente.





  

Livro Preferido?
- Colocarei dois: “Assim Morreu Lampião”, do Antonio Amaury, e “Lampião e o Estado Maior do Cangaço”, do Magérbio de Lucena e Hilário Lucetti. Ao terminar de ler estas duas obras, a minha sensação era de que acabara de fazer um curso, tal era quantidade de novas informações adquirida.

Qual é o primeiro título recomendado para um calouro?
- "Lampião, entre a Espada e a Lei", de Sérgio Augusto de Souza Dantas. Uma biografia impecável de Lampião, inclusive com análise jurídica dos crimes.

Com quantos personagens desta história você teve contato?
- Através de Dr. Amaury, travei contato com diversos ex-cangaceiros, ex-coiteiros e seus descendentes: Vou enumerar aleatoriamente os que me venham na lembrança: Leônidas Fernandes... quase um xará... Filho de dona Delfina, a única mulher a ter sido presa por ser coiteira de Lampião, era proprietária da fazenda pedra D’água em Canindé/SE. Leônidas foi quem cuidou dos braços varados de bala do cangaceiro Novo Tempo, após o combate da Lagoa de Domingos João em 1937, e foi o pivô da morte do cangaceiro Juriti, pelo Sargento Deluz.

 
Dona Delfina

 
Leônidas
  

Através de Leônidas conheci também Zé Cícero, (cujo pai trabalhava com couro no sertão alagoano e baiano e certa vez foi ameaçado pelo Tenente Douradinho que intimou-lhe a fazer um chapéu para um de seus comandados. Ele o fez, mas o soldado não foi buscar e Zé Cícero me presenteou com o mesmo). Joãozinho de Donana ex-coiteiro de Corisco e Zé Baiano, que inclusive criou uma das filhas de Corisco e Dadá, e foi testemunha ocular do combate entre Lampião e o Tenente “Meneis” (Manoel Campos de Menezes) nas ruas de Pinhão (SE) em 1929.  


 Eu, Joãozinho de Donana, Dr. Mozart Pinho e, atrás, Dr. Benedito Denardi.

Sila de Zé Sereno, (que ainda acompanhei como médico no Hospital São Paulo, onde ela ia submeter-se a uma cirurgia). Dona Mocinha irmã de Lampião ainda viva e seu filho Expedito (que conheceu, também, pessoalmente Lampião), e me disse que ao chegar ao coito, por sinal muito próximo à rua de Pedra de Delmiro (onde estava morando com os pais), observou muito bem Lampião e me disse que o chapéu que ele estava usando não era de couro, mas sim de feltro.  


 Com dona Maria Ferreira Queiroz, a Mocinha, última irmã viva de Lampião

Moreno e Durvinha; mestre Pedro Batista, que foi o último remanescente dos batalhões patrióticos de Juazeiro (faleceu há uns dois anos em Barbalha-CE), inclusive andou com o tenente Chagas que foi levar o convite a Lampião para que este se apresentasse em Juazeiro. Esse encontro aconteceu na fazenda em São José do Belmonte/PE, divisa com o Ceará (fazenda Malhada Grande). Ele por ser um soldado raso naturalmente não sabia o teor da conversa, mas lembra de ter conhecido Manuel Pereira Lins o famoso “Né da Carnaúba”. Mestre Pedro trabalhava com manutenção de engenhos de rapadura de cana.


 Moreno

Durvinha... 
Saliente hein doutor? Nem notou quem os espreitava

O mestre Pedro
Também estive com Dulce companheira do cangaceiro Criança, em São Paulo, mas não foi uma entrevista formal... (Necessário ressaltar que ainda está ainda viva,). Por intermédio de Dr. Amaury, ainda conversei com Antonio Jacó “o Mané Veio” que matou o cangaceiro Luis Pedro entre outros, mas ele estava com a audição muito ruim, o que muito prejudicou as perguntas e respostas. Ex cangaceiro Candeeiro, ainda vivo, que reside em Buique, onde o conheci, quando eu ainda estava na faculdade em Recife, em 1996; nesta mesma ocasião conheci o ex-volante de Nazaré tenente João Gomes de Lira, na pequenina Carqueja (PE). Apertei a mão de David Gomes Jurubeba, levado por um colega de turma que era da família Pereira, mas infelizmente não pude entrevistá-lo, pois na ocasião estava doente. Durval Rodrigues Rosa, como já citei acima que conheci por volta de 1998, quando da minha primeira ida a Poço Redondo; a cangaceira Maria de Juriti eu apenas vi, pois os familiares não permitiram nossa aproximação para entrevistá-la. E saindo das hostes de Lampião conheci um descendente de um dos moradores da Fazenda Pedreira, no sertão paraibano, palco de combate de Antonio Silvino em 1901, o meu amigo Jota Nóbrega, que me relatou pormenores desse fatídico dia, que ouvira de seu avô, então adolescente naquela ocasião. Ele arrumou para transporte os soldados mortos e encontrou como despojos do combate, um punhal e uma Winchester que provavelmente pertencia aos cangaceiros de Silvino.

Qual destes foi o mais difícil?
- Não diria difícil, mas incompleto foi justamente a visita a Maria de Juriti que se resumiu em um cumprimento, de longe, pois a família era avessa ao assunto cangaço.

Pois é, não foi somente meu primo que perdeu a viagem! 
Essa mesma informação é passada por João de Sousa em sua entrevista que realizamos anteriormente. Povinho egoísta ! Brincadeiras a parte vamos pensar quantas famílias não tiveram a mesma atitude e outros ex cangaceiros foram esquecidos para sempre. Quem sabe a história precisou destes depoimentos que foram enterrados com seus antigos Vulgos. 


Com quem gostaria de ter conversado?
- Gostaria de ter conversado com Manoel Neto, com o cangaceiro Luis Pedro e com Juriti. Esses três, como personagens de proa da saga do cangaço, teriam informações muito interessantes sobre os diversos aspectos, principalmente a rotina do grupo.

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
- Antonia de Gato e Manoel Tubiba. Meu amigo, assim que eu soube que Antonia de Gato havia sido descoberta pelo João de Sousa Lima eu fiquei assanhado para conhecê-la lá na região de Paulo Afonso, mas infelizmente tive que adiar e quando pensei que poderia concretizar soube que ela já havia falecido. E o Manoel Tubiba, cangaceiro velho, que andou com Lampião nos primórdios e que estava nas barbas dos pesquisadores, sem que ninguém soubesse. É uma pena que não se tenha colhido seu depoimento, pois quando descoberto ele já havia falecido. A sua descoberta também cabe ao nosso maior caçador de cangaceiros nos dias atuais: João de Sousa Lima.

Qual é o seu capitulo preferido?
- Um episódio de acho interessante é o da morte de João de Clemente no sertão baiano, ocorrido aí no início dos anos 30, perto de Riacho Seco, imediações de Glória, por ali. Porque, neste episódio, pode-se vislumbrar, em meio à moral distorcida de Lampião, algum lampejo de “humanidade”. O Rei do Cangaço demonstrou muito remorso em ter assassinado o João de Clemente, dizendo textualmente a várias testemunhas (entre elas Dadá), que o rapaz nada tinha lhe feito e que se arrependia de tê-lo matado.


Eu visitei o local em que ele foi enterrado e tirei algumas fotos em companhia de Dr. Amaury.


Eis um resumo do episódio: Os cangaceiros entraram na fazenda do Seu Clemente justamente no momento em que o João (de Clemente) estava encourado (com os apetrechos de vaqueiro) para ir buscar o gado na malhada. E, na hora que avista a cabroeira, se assusta, monta no cavalo e sai apressadamente. Lampião à frente do grupo grita para o João parar e apear, exigindo que ele retorne. Diante da recusa o que acontece... Lampião atira de ponto e mata o jovem João. Os cabras vão se aproximando do terreiro da casa da fazenda, ao tempo que Seu Clemente, pai de João, vem saindo para acercar-se do que fora aquele disparo. Ao perceber o filho morto, seu João, desesperado, puxa o facão da cintura e parte para cima do Rei do Cangaço, e os cangaceiros (incluindo aí Ângelo Roque) apontam os fuzis para o velho, para matá-lo. Lampião imediatamente intervém: - Pára! Pára!Ninguém atira! Tira o facão do velho, que ele está no direito de pai. Ou seja: ele matou alguém nada lhe tinha feito, e poupou a vida do velho que veio para matá-lo de facão em punho. São as contradições do cangaço, na cabeça de referenciais éticos distorcidos de Lampião. O arrependimento pela morte de João de Clemente, ele confessou para vários de seus companheiros como Dadá e também Zé Sereno, dizendo que aquela foi uma morte que ele se arrependia de ter feito.

Um cangaceiro (a)?
- Luis Pedro.

Um volante?
- Manoel Neto e Arlindo Rocha.

Um coadjuvante?
- Eronides de Carvalho. Foi um grande colaborador e fez algo inusitado para a época, que muita gente desconhece. Uma vez que Lampião era dado a algumas sofisticações, na visita a fazenda Jaramataia um dos cabras estava sofrendo de dor de dente, e o Dr. Eronides, como médico, oferece uma aspirina para ele. O cabra, desconfiado, aguarda a aprovação do capitão... Que de pronto autoriza, então o cangaceiro toma o medicamento, e melhora da dor de dente. Destaco Eronides também pelas belíssimas fotos que ele que ele fez de Lampião e seu bando. Excelentes registros de Mariano, Zé Baiano, Calais, Arvoredo e outros. Este homem, que abrigou Lampião em sua fazenda e o presenteou, inclusive com perneiras do Exército. Filho de Antonio “Caixeiro” de Carvalho, grande protetor de Lampião em terras sergipanas em 1937, é nomeado Interventor de Sergipe, no Estado Novo de Vargas. A partir daí ele aparece na imprensa condenando o cangaço e os seus colaboradores, e até cobrando um fim para esse flagelo. Me lembrou muito os nossos políticos de hoje, que, mesmo flagrados na ilegalidade, na primeira oportunidade pregam a moral e os bons costumes.


Uma personagem secundária? Queria ter bom papel, mas não passou de figurante
- Durval Rosa. Durval era um rapazinho e sua importância no episódio da morte de Lampião é hipertrofiada. A sua real importância na história do cangaço deve ao fato de ter estado com Lampião naqueles dias, e ter reconhecido o mesmo após sua morte, sendo mais uma testemunha ocular em Angico, ou seja: vacina contra novas teorias mirabolantes. Acredito que naquelas horas que antecederam o combate de Angico, Pedro de Cândido tinha ido buscá-lo até por que sozinho não conseguiria guiar as três volantes envolvidas e também por que provavelmente queria ganhar tempo, até que Lampião percebesse a aproximação dos soldados, ou então que os soldados deixassem o cerco para a manhã seguinte quando – isso ele sabia muito bem - Lampião já teria deixado o Angico.

Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção?
- Alem de livros, punhais que consegui por doação, sendo que alguns são originais, e outros são réplicas. Um dos punhais que mais gosto é um que foi feito por Paulo Pereira, filho de José Pereira, o homem que fazia punhais para Lampião no Crato, sob encomenda de Júlio Pereira, genro do Coronel Santana. Tenho algumas peças feitas pelo cangaceiro Balão (um chapéu, bornais, alpercatas, cartucheiras para bala de revólver e fuzil), o chapéu que foi encomendado a um volante, que nunca foi usado, e um anel presente de Durvinha, que, apesar de ser posterior ao cangaço, foi um presente muito especial.


Entre as peças tem alguma relíquia? 
- Consegui, no Cariri cearense, algumas preciosidades, como uma das armas trazidas aos batalhões patrióticos e que foi presenteada por Antonio da Piçarra a um coronel da região (não revelarei o nome); e que me foi presenteada por seus descendentes. Também consegui uma arma de um dos cangaceiros de Lampião, que, após ter recebido um mosquetão em Juazeiro, para combate à Coluna Prestes, presenteou sua antiga arma para uma pessoa que residia em Barbalha, a qual seu neto me presenteou.

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
- Como representação histórica eu cito “Corisco, o diabo loiro”. Apesar da caracterização do ator de Corisco (Maurício do Valle) não ser das melhores, mas as indumentárias e a historia como um todo ficou bem representada neste filme. Também pudera: o roteiro tinha a colaboração do Amaury e a indumentária foi toda feita por Dadá. Já como filme emblemático eu elejo “O Cangaceiro” de Lima Barreto. Eu conheci em São Paulo, em companhia do Dr. Antonio Amaury e do Wolney Oliveira, o Galileu Garcia que, além de assistente de direção do Lima Barreto, também atuou no papel de assistente do chefe da volante. Segundo Galileu nos contou este o filme rendeu proporcionalmente mais que o americano Titanic. Mas a Vera Cruz não viu a cor do dinheiro e faliu anos depois.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
- Tem várias. Mas vou ficar com a estória da indumentária, que alguns autores e jornalistas escreveram no passado, afirmando que era feita para camuflar o cangaceiro na caatinga. Ora, meus amigos, o traje do cangaceiro mais parece uma fantasia de carnaval: estrelas no chapéu, lenço colorido, perfumes exagerados misturados com suor, moedas na testeira do chapéu e na bandoleira do rifle... ou seja: quando o sol batia em cima do bandido, de longe se via o brilho e o reflexo. Na minha opinião, o traje era uma maneira de o cangaceiro se impor perante seus interlocutores. Era um traje adptado ao seu meio de vida. Nada ali é superfluo, mas dizer que era pra camuflar o cangaceiro, é demais!

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?
- Em São Paulo, também tive a oportunidade de conhecer e até conviver com o Ananias (Pretão) e o Arlindo, ambos pretensos irmãos de Maria Bonita. Visitei o Arlindo em Osasco (SP) e o Ananias na zona leste da capital. Quando digo pretensos irmãos de Maria Bonita é por que não vi o resultado do exame de DNA realizado. Na minha opinião, qualquer um deles pode, circunstancialmente, ser filho de Lampião e Maria.


Eu, apesar de não entender muito de genética, mas como profissional tenho alguns rudimentos, e conheço algumas condições que são necessárias para se obter um resultado confiável. Como já disse, não vi o resultado do que foi feito.


Quando se mexe com ciência, tenta-se mostrar onde provavelmente está a verdade. E pra isso existe um grau de certeza. Se o resultado é positivo ou negativo temos ver o grau de certeza disso, ou seja, o intervalo de confiança onde está provavelmente a verdade (é verdadeiro positivo? Falso positivo? Verdadeiro negativo? Ou falso negativo?). O que dificulta o resultado deste exame especificamente é que nós não temos descendentes de Lampião que sejam do sexo masculino, pra comparar o cromossomo Y. Não há mais irmãos homens, nem filhos homens de Lampião. Então, fica a cargo dos geneticistas fazerem com que o exame tenha um padrão seguro de certeza para se poder afiançar a verdade.


Quanto ao Ezequiel eu, particularmente, acho que ele morreu de bala, na Lagoa do Mel.

Dr. Leandro já nos responde esta pergunta em seu sublime texto “As verdades de Angico”, mas vamos carimbar a resposta novamente: Lampião morreu baleado ou envenenado?
- Lampião morreu baleado. Tiros no tórax e no baixo ventre. E, depois de caído (talvez até morto), deram-lhe um tiro na cabeça. Esta história de veneno é ficção científica.

Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
- Depois de passar uma chuva em São Paulo (nove anos e meio) e agora, como costumo dizer, “venci a lei da gravidade”, voltei pra minha terra, Teresina, no Piauí. E tenho a intenção de resgatar alguns fatos ligados ao cangaço no território piauiense. Apesar de Lampião não ter agido no Piauí, há muita coisa interessante a ser pesquisada. Um exemplo é a epopeia de Sinhô Pereira em 1919, quando ele foi rechaçado pela volante do tenente Zeca Rubens, na região de Caracol (PI). Nesta ocasião morreu o célebre cangaceiro Cacheado.


Existem relatos sobre um cangaceiro chamado Vicente Bezerra da Costa que tinha um pequeno bando e agia nos limite da Serra da Ibiapaba, hostilizando principalmente fazendeiros portugueses na época da independência do Brasil, inclusive com vários casos de sequestros e assassinatos.


Tem um episódio muito interessante que culminou com verdadeira guerra entre os coronéis Ângelo Gomes Lima o “Ângelo da Jia”, de Tacaratu (PE), famoso coiteiro de Lampião, e o Coronel Aureliano Augusto Dias, de Caracol (PI). Brigaram por conta da exploração de maniçobais no interior do Piauí. Foi guerra sangrenta com grande aporte de jagunços e cangaceiros da Bahia e Pernambuco, principalmente capitaneados pelo famoso Coronel baiano Franklin Albuquerque. Os subsídios para este futuro trabalho em parte já foram colhidos na época do lançamento de meu livro em parceria com Antonio Amaury “Lampião: A medicina e o cangaço”. Naquela ocasião nós conversamos com o Dr. William Palha Dias, neto do Coronel Aureliano. Inclusive tem um detalhe interessante: o avô dele recebeu Sinhô Pereira quando de sua passagem para Goiás em 1922. Desta visita ele nos relatou alguns pormenores, como, por exemplo, a companhia feminina do ex-chefe de Virgulino, que se chamava Alina e que rumou com ele para Goiás...


...Vamos ver o que vai dar.

*A foto de Eronides foi pescada no Blog Fontes da História de Sergipe