Gato invade Piranhas
Texto e pesquisa de João Lucas/Cangaço Brasileiro.
𝐀 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐬𝐭𝐢𝐝𝐚 𝐧𝐚 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐧𝐝𝐚 𝐏𝐢𝐜𝐨𝐬. 𝐎 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐁𝐞𝐳𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐞 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐢𝐨.
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| Subgrupo de Gato - Por Benjamin Abrahão |
Domingo, de 27 de setembro de 1936, Piranhas, Alagoas. Mais ou menos na derrocada da tarde, chegando na beira da noite, o sargento João Bezerra, baseado em suas ligações com coiteiros “controlados”, é avisado de que havia um pequeno grupo cangaceiro arranchado há 20 quilômetros da cidade, na fazenda Picos. Na ânsia de ser o mais temido dos bandoleiros, aquele que por tempos perseguia, Bezerra pergunta ao seu informante se era Lampeão, recebendo, em seguida, a resposta: “não, seu sargento, mas é Gato. Está certo que ele tá “segurado” por lá, já que a mulher tá com bucho”.
É claro que Gato não era o mesmo que Virgolino, digo em sua fama como Rei do Cangaço, mas o fato é que este já fazia muitos estragos nas regiões alagoanas, sergipanas, pernambucanas e baianas. Sua fama como rei era pouca, mas a sua de causar terror nos moradores e na volante, com seus métodos de tortura e morte, passava até mesmo do seu próprio “Capetão”. Era mais do que necessário dar um fim a isso.
João, com o auxílio do também sargento Aniceto Rodrigues, reúne a tropa de dezenove soldados já bem treinados e castigados naquela campanha, dando as primeiras instruções do ataque, porém rasas (para que essas não fossem “capturadas, levadas e entregues” aos sequazes); e às 23h00, antes de zarpar para a missão, alarma o prefeito João Correia Britto sobre a situação. Certamente que o trajeto iria ser feito de automóvel e, chegando perto da região combinada, terminariam a pé. No amanhecer do 28 de setembro, às 05h30 da manhã, a volante alagoana chega ao local. Não se via muita coisa pois ainda estava escuro; um ou outro vulto aparecia, bem como vozes dos temidos encourados.
No local do coito, além de Gato e Inacinha, via-se também os bandoleiros Pancada; Mangueira; Peitica (irmão de Mangueira); Maria Jovina, companheira de Pancada; e mais dois cachorros. Como a mulher de Gato estava grávida de 8 meses, todo cuidado era pouco, por isso a necessidade de uma segunda figura feminina na hora. Bezerra e Aniceto davam os direcionamentos. À disposição da força, se encontravam duas metralhadoras.
Quando estavam para fechar o cerco, preparando a tocaia, os cães escutam o chacoalhar dos soldados no mato, começando a latir para a tropa. Já vendo que não dava mais para fazer o elemento surpresa, o comandante manda abrir fogo contra o grupo, e este reage da mesma forma. Uma intensa fuzilaria tomou de conta do som, e a fumaça dos tiros tomou de conta da região. Os cangaceiros iam correndo, parando, atirando e resistindo; já a polícia ia seguindo, parando, atirando e rechaçando a trupe. Em certo momento uma cangaceira se encontrava caída no chão, baleada, enquanto outro bandoleiro a levantava, segurando-a nos braços, levando embora do combate. A troca de tiros era tanta, e a força gasta para levar a mulher no colo, que fez o homem deixá-la no chão, enquanto urrava de dor e ódio por ter feito aquilo. Ela, mesmo ferida, ainda conseguiu andar 1km até cair novamente. A bandida era Inacinha, e o bandido, Gato.
No fim do combate, além de terem apreendido a jovem moça, a força alagoana adquire os espólios de guerra, que seria apetrechos de roupa, farta munição, uma máquina de costura, um fuzil que tinha dezesseis moedas de prata costuradas na bandoleira e os dois cachorros. Pensando no bem-estar de Inacinha, pelo seu estado de gravidez e pelo ferimento de bala no quadril (que não ofendeu o osso e tampouco a criança), João Bezerra parte com o seu comando para a cidade de Olho D’Água do Casado/AL, que dista 18 quilômetros, para primeiros tratamentos. Chegando por lá, às 08h30, manda um telegrama para Piranhas dizendo: “ataquei cangaceiros. Estou com mulher baleada. Cangaceira Inacinha. Tenha cuidado, todo cuidado.”.
Não precisava de uma bola de cristal para saber que tal atitude poderia culminar numa retaliação maior dos mal feitores. Bezerra acaba entregando e percebendo isso, com o final “tenham cuidado, todo cuidado”. Continuemos, agora, com a drástica visão dos bandoleiros.
𝐑𝐞𝐯𝐢𝐝𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐨: 𝐚 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐨, 𝐂𝐨𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐞 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞̂𝐬.
Margeando o horário de 06h00 para 06h30, após os cinco integrantes terem sobrevivido ao combate, procuram de imediato os outros cangaceiros que por perto estavam. Eram os chefes Corisco, Moderno e Português. Os três, ao todo, comandavam cerca de dezessete cangaceiros (11 homens e 6 mulheres). Todos relataram o ocorrido, enquanto Santilio (o Gato) urrava, gritava, xingava e chorava. Queria a todo custo pegar sua companheira, rogando apoio dos camaradas. Em certo momento, Moderno afirma que não podiam fazer nada, pois possivelmente Inácia já estava a caminho de Maceió/AL, caso não tivessem parado antes em Piranhas. “Vamo intão invadi ela, cumpadi! Inacinha devi tá por lá. Se não, peguemo intão a mulher de Bezerra, qui também tá gravida!” falou Gato. Para satisfazer o desejo do colega, Moderno compra a ideia do baiano, da mesma forma fez Corisco e Português.
Ao todo, 25 cangaceiros e cangaceiras irão percorrer o caminho de sangue até a bendita e flagelada cidade. Naquela orda, eram: Gato, Corisco, Moderno, Português, Moreno, Jacaré, Mangueira, Peitica, Gitirana, Cobra Verde, Pontaria, Cruzeiro, Cocada, Tempestade, Pancada, Velocidade, Atividade, Canário, Dadá (companheira de Corisco), Durvinha (companheira de Moderno), Cristina (companheira de Português), Moça (companheira de Jacaré), Marina (companheira de Tempestade), Maria Jovina (companheira de Pancada) e Adília (companheira de Canário).
𝐎 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐮𝐞 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐆𝐚𝐭𝐨.
Santilio, ensandecido, parte na frente com o seu grupo, abandonando o restante. Era necessário correr para acompanhá-lo. Na estrada de terra que direcionava para a cidade ligada ao São Francisco, Gato encontra dois sertanejos próximos ao rio Pau de Arara, de região do mesmo nome. Eram Antônio Tirana e Lelinho (Lerinho ou Antônio de Lero), que estavam por ali cortando lenha com um machado. Pobres homens que faziam um tão bom trabalho, mas num horário tão ruim. Sem misericórdia ou tempo de conversarem, Gato pega a ferramenta de trabalho de um destes, mata-os com a mesma e, para finalizar, esquarteja-os com machadadas. As partes destes se encontravam espalhadas nos arredores. Estes foram as primeiras vítimas, as primeiras respostas de Gato por terem roubado o que era seu, descontando seu ódio em seres inocentes.
Emílio Ângelo, morador da fazenda Boa Vista, tinha ouvido os tiros que proviam de Picos. Premeditando que a coisa seria feia, monta em seu cavalo e sai desesperado para avisar aos vizinhos. Três quilômetros mais à frente, Gato iria fazer outra parada: a fazenda Cachoeirinha, onde morava João Celino Monteiro, coiteiro do mesmo. Por achar que este tinha o traído, culminando no tiroteio, o temido cangaceiro iria aplicar-lhe um corretivo. Próximo da morada, o mesmo avista Ângelo montado perto da cancela. O sertanejo, equipado com seus trajes de vaqueiro, galopa em desabalada carreira para fugir, quando escuta um tiro em sua direção. Era Gato que tinha disparado. Emílio abriu os braços e a bala pega em seu gibão, não o atingindo. Por sorte, correu e sobreviveu. Ali já marcava umas 07h00.
Na casa, se encontravam doze pessoas, todas parentes, mas nada de João Celino. Para descontar a raiva que sentia, Gato começa a fazer sua matança: tiros de fuzil ou revólver, facãozadas e episódios de homens e mulheres sangrados. O total foi de sete vítimas: Maria Ferreira, Manoel Ferreira, Delfina Ferreira, Ana Ferreira, Elísia Monteiro, Júlia Monteiro e Emiliano Monteiro. Uma das vítimas mulheres carregava um bebê na barriga. Vendo as aberrações que Gato praticava, Moderno chamou Corisco para que segurassem a matança, que ia de adulto para criança, uma grotesca carnificina. Ao impedir Santilio de matar um bebê que estava na rede, Corisco o repreende por tal atitude, dizendo que não era necessário tal barbaridade. “Elis pegaro minha muié com meu fio. Nem sei se estão vivos ou mortos. Se eu perco, pru quê os outros não pode perder?” respondeu fervorosamente o intrépido facínora.
Uma jovem mulher, que tinha também um menino em seus braços, vendo aquela cena toda fica perplexa, travada pelo medo. Por um resquício de compaixão, um dos cangaceiros que estavam acompanhando aquela caminhada mortal empurra a moça para fugirem, que se salvassem senão morriam lá. Foi necessário gritos e puxões para ela acordar, fazendo aquilo que o homem pediu.
Outra chamada de Emorgência, tinha levado um corte profundo da boca até a garganta e outros nos braços pelo dito bichano que virou onça. Dadá achou que ela morreria rapidamente, mas esta sobreviveu, conseguindo escapar com uma cicatriz que fazia-a lembrar amargamente do episódio. E mais um garoto, de 12 anos apenas, que recebendo uma bala na bochecha, se jogou bruscamente no chão para fingir-se de morto. Engatinhando lentamente, conseguiu escapar no meio da caatinga.
Após finalizar o caos que se propagou na fazenda, o grupo desce para Piranhas a cavalo, percorrendo cerca de 7 quilômetros.
𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐭𝐢𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐏𝐢𝐫𝐚𝐧𝐡𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞. 𝐎𝐬 𝐬𝐢𝐭𝐢𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐚𝐫𝐦𝐚𝐦. 𝐀 𝐜𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨𝐥𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐥𝐨𝐜𝐚𝐥.
Na então vila, nada sabiam do que estava acontecendo nas cercanias. O senhor Francisco Rodrigues, apelidado carinhosamente de Chiquinho Rodrigues, se direcionava para a sua venda no mercado principal da localidade. Percebe que tudo estava calmo, meio vazio, sem nenhuma figura soldadesca nos arredores. Achou estranho. Ao passar o coronel Antônio de Britto, conhecido como Pai Nosso, nas portas do armazém de Chiquinho, é logo perguntado se sabia de algo para não ter policiamento na cidade. “Bezerra saiu meia noite para dar combate aos bandidos” afirmou o coronel. O mercador se espanta, mas logo se acalma; momentos como esse eram comuns por lá. Ficou Antônio, sentado na venda.
Às 08h30, o telegrafista de Piranhas recebe a mensagem do sargento sobre o ataque aos bandidos, que leva ao conhecimento de Antônio de Britto e Chiquinho. “É, pelo visto eles estão vindo pra cá. Ele que disse que é para ter cuidado!” explanou o coronel enquanto se levantava da cadeira. Não demorou muito e chega Emílio Ângelo cansado, com o cavalo escorrendo suor, já dando a parte de todo o acontecimento que ocorreu com Antônio Tirana e Lerinho, ainda falando que “Gato ficou ali matando uma família em Cachoeirinha”. A esposa de Chiquinho, Dona Nira, também estava de resguardo. O comerciante pega em sua venda duas caixas de munição e diz que irá para casa, pois a empregada o intimou para ver a sua filha e a sua mulher.
Chegando nela, sua mãe pergunta o que está acontecendo para ele chegar todo municiado. Explica que os bandidos chefiados por Gato e Corisco iriam invadir as moradas. Dentre tantos rogos, ela implora “meu filho, não se entregue!”, “não irei, mãe!”, e logo pede para que ela, sua esposa, sua filha e a empregada se protegessem no quarto, rezando; enquanto iam, o destemido rapaz subia para o segundo andar da residência.
Já com aquelas informações vindas do militar e do vaqueiro, a cidade se alarmou em pavor, com correrias e fechações de portas e janelas. Um jovem rapaz, chamado Abílio Bezerra, estava indo para a antiga casa de arreios que ficava próximo ao velho cemitério da cidade. Iria pegar um cavalo para fazer seus afazeres. Foi também avisado sobre a chegada desenfreada dos bandidos, que poderia morrer. Abílio levou o caso com humor, soberba, e continuou o seu trajeto. Ao chegar em seu destino, pega um cabresto e caminha pela estrada da Lagoa da Mulata, se deparando com o bando sinistro. De imediato é exigido que subisse no poste e cortasse os fios do telégrafo, para que não fossem mais recebidas ou enviadas mensagens de regiões vizinhas. Perguntam se tinha polícia por lá, recebendo a resposta que não. “Intão irá descer conosco como garantia. Se houver, vai ser o primeiro a morrer!” disse um dos chefes enquanto desciam pela estrada. Era quase 09h00.
𝐀 𝐟𝐢𝐠𝐮𝐫𝐚 𝐡𝐞𝐫𝐨𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐂𝐲𝐫𝐚 𝐁𝐫𝐢𝐭𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐭𝐢𝐫𝐨 𝐪𝐮𝐞 "𝐦𝐚𝐧𝐬𝐨𝐮" 𝐨 𝐛𝐢𝐜𝐡𝐚𝐧𝐨.
Chegando à rua Delmiro Gouveia (a provável rua Antônio Rodrigues), se encontrava a casa de João Bezerra, onde Cyra Britto via-se sozinha e em seu primeiro período de gravidez. Cyra, presenciando aquela situação, corre para fechar as portas e janelas que estavam abertas, quando aparece um cangaceiro solo, perto de um pé de planta, ameaçando-a de morte. Encostada na parede e com calma, a valente Britto pega um rifle e atira contra o bandido, ocorrendo mais uma troca de tiros na localidade. Era 10h30.
O restante ia percorrendo ainda mais a rua principal, parando na casa que pertencia a Totonha Seixas Britto (ou Totonia), irmã do prefeito. Invadem-na, encontrando somente a mulher, suas filhas e um filho, João Seixas Britto, de 16 anos. Corisco pergunta se tinha homem (de briga) na casa, onde é avisado que não. Pergunta novamente se tinha polícia, e recebe a negativa como resposta. “Intão esse menino vai ser nossa valia! Se houver, morre!” e levam o jovem Britto como mais um refém, deixando a mãe aos prantos. O caminho, agora, seria a delegacia da cidade, possível local em que a amásia estava. Ainda trocando tiros com os poucos que se arriscavam, os cangaceiros vão chegando no edifício, não encontrando a mulher. “Vamo imbora daqui, Gato. Não tem nada pra nois pur cá!”, grita Cristino, o Corisco, enquanto protegia as costas dos bandidos. “Antis, quero tocar fogo no mercado, cumpade!” fala Santilio.
No momento em que este vai caminhando pela ladeira direcionada aos armazéns, é atingido na espinha por uma bala vinda de uma casa. O cangaceiro cai no mesmo momento, gritando “matou-me, fi da peste!”, largando de banda seu fuzil. Quem tinha o acertado foi Chiquinho em seu sobrado, como uma cobra esperando sua presa chegar para dar o bote.
𝐎 𝐟𝐮𝐦𝐚𝐜𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐧𝐚𝐬 𝐣𝐚𝐧𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐂𝐡𝐢𝐪𝐮𝐢𝐧𝐡𝐨. 𝐀 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐉𝐨𝐚̃𝐨 𝐞 𝐀𝐛𝐢́𝐥𝐢𝐨. 𝐀 𝐛𝐫𝐮𝐭𝐚 𝐫𝐞𝐭𝐢𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨.
Nesse interim, a trupe correu para acudir o ferido; uns pegando nos braços e pernas enquanto outros atiravam em direção a morada do Rodrigues. E ainda, vão descendo alguns cangaceiros pelas escadas existentes para chegarem à morada resistente. Jacaré, um dos que atiravam contra o destemido alagoano, acaba recebendo um tiro de raspão no pescoço. O fumaceiro dos fuzis de Chiquinho e Marcelino cobrem a visão das janelas. No momento do combate, Francisco acaba cortando os lábios e a mão devido ao coice da arma. Os bandoleiros já perto da entrada do sobrado ameaçam de invadir, e Chiquinho grita que se vierem levarão bala. Ao disparar inúmeras vezes pela porta e janela, os arruaceiros desistem de fazer tal proeza.
Ao ver o estado de Santilio, ferido e agonizando de dor, Corisco ordena que sangrasse João Seixas e que desse um tiro na cabeça de Abílio, ali naquele momento, de frente a delegacia, por terem sido “os responsáveis” por aquele episódio. Dadá e Maria Jovina estavam dentro de uma casa quando esse fato ocorreu, pedindo um copo d’água. Vendo o companheiro ferido, de urgência trazem uma cadeira para colocarem-no. Os cangaceiros já estavam se preparando para se retirarem com Corisco dando retaguarda pela esquina da prefeitura. Um tiro ecoa na rua, acertando os embornais de Cristino, fazendo-o rodopiar logo em seguida e descobrindo quem tinha feito aquilo. Era Cyra que tinha deixado de combater o outro bandido para brigar, agora, com o “loirão”. Outra chuva de balas cai na Lapinha do Sertão.
No alvoroço de saírem o mais rápido possível, subindo os íngremes caminhos da cidade, o tiroteio aumentava. Os bandoleiros se juntavam, revezando para levar o companheiro ferido. Virgínio, o Moderno, começa a passar mal pelo cansaço, tropicando nas pedras, sendo necessário algumas mãos para o sustentar. A salvação destes foi terem encontrado no meio do caminho um jumento carregado de lenha. Derrubam a carga e colocam Gato nele, com um cabra segurando em cada lado. Mais ao final da cidade, passando próximo ao cemitério, encontram outras montarias de jumentos, jogando agora o citado cangaceiro que “amarelou-se de febre”.
O relógio batia entre 12h40 e 13h00 quando os asseclas foram rechaçados. Tinham pegado novamente a direção da Lagoa da Mulata, passando próximo a casa de Emílio Ângelo (onde atiram em sua porta como represália), e se acoitam na fazenda Mogiana, nos rincões de Canindé de São Francisco/AL. Ali, Gato morreria oito dias depois.
Após o fim da investida cangaceira, a cidade se encontrava menos perturbada, porém, dava para ouvir os choros de alguns moradores. Chiquinho e João Marcelino, ainda eufóricos e começando a perceber que o perigo já tinha passado, contam as balas gastas. Totalizam 140. Com as armas, saem da residência para verem o estrago feito. Na rua da delegacia, viram a poça de sangue que Gato tinha deixado; ao lado, os dois rapazes assassinados pelos carniceiros. Identificando o seu compadre João como uma das vítimas, posicionado de cócoras, Rodrigues o puxa para cima e recebe um jato de sangue em suas roupas. Aos poucos vão saindo os habitantes de suas casas, todos se concentrando no palco maior do embate. Muitos eram parentes. Olhavam, choravam, cochichavam e rezavam. Se prontificaram, agora, de cuidarem do velório dos 11 mortos. Chegava todo assustado e melancólio o garoto Enéas na vila. Noticia como achou o corpo de seu pai, Antônio Tirana, e do colega Lerinho. Retalhados, em estado brutal, dignos de um filme de horror.
Sem as ações de Chico, Marcelino, Cyra, Joãozinho Carão e os demais corajosos, com toda certeza o desejo dos bandoleiros de destruírem a cidade seria perfeitamente concretizado. Heróis eu digo.
𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐚 𝐭𝐫𝐨𝐩𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐚𝐩𝐭𝐮𝐫𝐚𝐝𝐚.
Às 20h00 da noite, chega a tropa de Bezerra em Piranhas com a baleada, levando-a primeiro para a prefeitura. Francisco entra e vai em direção a prisioneira. Com ela conversou um pouco, fornecendo também algumas mudas de roupa e um perfume para Inacinha. Depois, puxa o comandante para entender o motivo de não terem ficado na cidade, deixando-a descuidada e sem policiamento. Repetia que estava com a mulher baleada. “Que matasse essa peste, ou então deixasse ela num ponto!” disse Chiquinho. E assim ficou.
No dia seguinte, dia 29, a volante e a bandoleira são fotografadas na parte baixa da cidade, ao lado do mercado. Depois, é direcionada para a cadeia, permanecendo lá por algumas semanas, sendo tratada por um médico. Quanto ao seu bebê, dá a luz nas grades da prisão, mas sem vida, infelizmente. No dia 22 de outubro, é recambiada para Maceió/AL, chegando na capital no dia 24. Depois de entrevistada, fotografada e identificada, a companheira do finado cangaceiro é levada para a sela, permanecendo até meados de 1937.
Naquele dia, a fama do temido Gato fora apagada. A caça virou o caçador. Todavia, mesmo que o brado heróico da boca dos fuzis dos sitiados tenham falado mais alto, o carrasco do sertão conseguiu cessar a voz de singelos sertanejos, que nada tinham culpa, pelo seu gosto diabólico da vingança.
𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐺𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑒 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝐷𝑎𝑑𝑎́ 𝑒 𝐶𝑜𝑟𝑖𝑠𝑐𝑜 – 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝑎𝑠 𝑀𝑢𝑙𝒉𝑒𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝑛𝑜 𝑇𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐺𝑖𝑙𝑚𝑎𝑟 𝑇𝑒𝑖𝑥𝑒𝑖𝑟𝑎; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒𝑚 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐴𝑓𝑜𝑛𝑠𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐶𝑜𝑟𝑜𝑛𝑒𝑙 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎: 𝑜 𝐶𝑜𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑎 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑀𝑎𝑡𝑜𝑢 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 - 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜 𝑒 𝐵𝑒𝑛𝑛𝑒𝑟 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠, 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎𝑠 - 𝐽𝑎𝑖𝑟𝑜 𝐿𝑢𝑖𝑧; 𝐹𝑜𝑟𝑐̧𝑎𝑠 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐𝑒𝑖𝑟𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑜𝑔𝑟𝑎𝑓𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑟𝑔𝑖𝑝𝑒, 𝑉𝑜𝑙. 𝟏 – 𝐴𝑟𝑐𝒉𝑖𝑚𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑀𝑎𝑟𝑞𝑢𝑒𝑠; 𝑀𝑜𝑟𝑒𝑛𝑜 𝑒 𝐷𝑢𝑟𝑣𝑖𝑛𝒉𝑎: 𝑆𝑎𝑛𝑔𝑢𝑒, 𝐴𝑚𝑜𝑟 𝑒 𝐹𝑢𝑔𝑎 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑎 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐺𝑎𝑧𝑒𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐴𝑑𝑒𝑟𝑏𝑎𝑙 𝑁𝑜𝑔𝑢𝑒𝑖𝑟𝑎, 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜𝑙𝑜𝑔𝑖𝑎 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑂 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑡𝑢𝑟𝑎 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝑑𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑒𝑠; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝐴𝑐𝑒𝑠𝑜; 𝑆𝑒𝑚𝑖𝑛𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝐶𝑎𝑟𝑖𝑟𝑖 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜: 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠; 𝑃𝑒𝑠𝑞𝑢𝑖𝑠𝑎𝑑𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝐴𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠: 𝐽𝑢𝑛𝑖𝑜𝑟 𝐴𝑙𝑚𝑒𝑖𝑑𝑎, 𝐶𝑒𝑙𝑠𝑖𝑛𝒉𝑜 𝑅𝑜𝑑𝑟𝑖𝑔𝑢𝑒𝑠, 𝐹𝑎́𝑏𝑖𝑜 𝑀𝑜𝑢𝑟𝑎 𝑒 𝑀𝑎𝑛𝑜𝑒𝑙 𝑆𝑒𝑣𝑒𝑟𝑜, 𝑆𝑒́𝑟𝑔𝑖𝑜 𝐷𝑎𝑛𝑡𝑎𝑠, 𝐷𝑗𝑎𝑙𝑚𝑎 𝑒 𝑀𝑜𝑎𝑏𝑒 𝑂𝑙𝑖𝑣𝑒𝑖𝑟𝑎.


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