quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Após a chacina de Brejão...

 A volante executa os irmãos de "Arvoredo"

Texto: Helton Araújo

Em 1929, a trupe cangaceira, tendo entre seus nomes Lampião e Corisco, seguia com suas ações criminosas. Entre os acontecimentos de maior repercussão estavam o incêndio da estação de Itumirim e a execução de cinco militares em Brejão da Caatinga, entre eles o bravo cabo Antônio Militão da Silva.

Pois bem, nesse contexto e sob grande pressão pública, a polícia precisava dar uma resposta. E o destino lhes deu os “cordeiros” que precisavam para o sacrifício.

Em 10 de julho de 1929, chegaram à região dois parentes do cangaceiro Arvoredo. Um, tido como irmão, era José Gomes de Lima (ou da Costa); o outro, que se dizia primo, era Raphael Gomes Lima. Eles haviam vindo a Jaguarari-BA para cobrar uma dívida de mais de 400 mil-réis que lhes era devida por pessoas da localidade.

"Arvoredo"

Acabaram detidos sob o pretexto de serem parentes e possíveis integrantes do bando de cangaceiros. Isso apesar de as autoridades saberem que possuíam família e negócios dignos em Santo Antônio da Glória e que não tinham qualquer pendência legal.

Permaneceram detidos por vários dias, sendo interrogados por alguns oficiais, até caírem nas mãos do capitão José Galdino de Souza. Esse seria o grande azar deles.

Os dois foram conduzidos para Bonfim, atual Senhor do Bonfim, onde ficaram presos juntamente com outros dois detentos: Alyrio Francisco dos Santos, conhecido como Pará, e João Alves de Lima, ex-soldado da polícia mineira.

A notícia da chacina dos soldados de Brejão da Caatinga se espalhava cada vez mais, e a pressão aumentava à medida que novos detalhes do ocorrido vinham à tona.

Então, eis chegado o dia da vingança.

Usando um pretexto aparentemente absurdo, o capitão Galdino, acompanhado de um grupo de aproximadamente 20 militares, colocou os prisioneiros em um trem e seguiu viagem. Durante a noite, a locomotiva foi parada na altura do km 374, a cerca de 16 quilômetros do arraial de Itumirim.

Alguns soldados receberam a ordem de descer. Segundo o pretexto apresentado, eles deveriam abrir trincheiras para combater Lampião, caso o bando retornasse pelo local que havia atacado pouco antes.

O que os homens não sabiam é que estavam, na verdade, cavando suas próprias covas.

João Alves, por possuir experiência militar, percebeu o que estava acontecendo. Em um momento de descuido, abandonou tudo e saiu em disparada. Alyrio, o Pará, também compreendeu a situação e conseguiu fugir.

Os primos — ou irmãos, conforme as diferentes versões — não tiveram a mesma sorte. Foram alvejados. Ali teria acontecido todo tipo de atrocidade e, por fim, o chamado “sangramento”.

Os militares ainda tentaram capturar os fugitivos, mas sem sucesso. E essa fuga acabaria trazendo grandes problemas para a polícia no futuro.

Quanto aos corpos, um deles foi colocado dentro de uma das covas e coberto. O outro ficou mais exposto, recebendo apenas uma cobertura superficial de vegetação. Os urubus fizeram o restante do trabalho.

O problema para a polícia é que João Alves passou a ser perseguido e, entre tantas situações que não caberiam neste pequeno post, a verdade sobre o ocorrido acabou chegando ao conhecimento do coronel Alfredo Barbosa, que, segundo os relatos, era simpatizante de alguns cangaceiros e possuía inimigos políticos que poderiam ser prejudicados com a revelação do caso.

Como o Brasil é Brasil desde sempre, o episódio teve suas voltas e reviravoltas. O caso chegou aos tribunais, mas terminou com os oficiais de patente mais elevada sendo absolvidos. A responsabilidade pelas mortes e ocultação dos cadáveres acabou recaindo sobre simples soldados contratados.

O caso do km 374 foi uma execução bárbara cometida pela polícia contra homens que, segundo os relatos e as fontes sobre o episódio, eram inocentes. E, por meio de um verdadeiro “jeitinho político”, aqueles que ocupavam as posições mais altas acabaram escapando da responsabilização pela morte dos prisioneiros.

Foto: Jornal A Tarde, de 01/08/1929


Na imagem acima, vemos o delegado Chagas Filho, à esquerda; o médico Egas Moniz Júnior, ao centro; e auxiliares junto a uma das covas, no km 374. A distância em relação à linha férrea pode ser percebida pela composição que aparece ao fundo. 


Créditos para pesquisa: livro Cangaço na Bahia, de Rubens Antônio (in memoriam); Canção Agalopada.

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