terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rostand Medeiros

Um pedaço do grande Cariri Cangaço

Recentemente tive oportunidade de participar de parte do evento Cariri Cangaço 2010 que teve como tema: Cariri Cangaço - Coronéis, Beatos e Cangaceiros. Entre os dias 17 a 22 de Agosto, este encontro turístico-cultural e científico, recebeu grandes conferencistas, pesquisadores, escritores e professores, de renome nacional sobre o cangaço e assuntos ligados as tradições do Nordeste.

Os participantes tiveram o privilégio de visitarem o Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, entre outras cidades cearenses. Igualmente foram realizadas visitas técnicas aos principais Sítios Históricos ligados ao cangaço na região. Tive o privilégio de ter sido convidado, mas devido a um problema de saúde da minha filha, retonei a Natal no terceiro dia. Mas valeu.

Não posso afirmar a distância do caldeirão do Beato José Lourenço para o Crato. Mas percorremos 12 quilômetros de estrada de barro, passando por vários pontos elevados e a quase total inexistência de habitações.

 Localizada na região do Cariri cearense, o Caldeirão era uma fazenda habitada por migrantes nordestinos sob um regime de trabalho e orações. Seu líder espiritual, o Beato José Lourenço, agia num prisma religioso, que também era econômico, político e social, haja vista que o modo de vida ali perpetuado abrangia esses aspectos. Toda a produção agrícola e posteriormente de produtos artesanais variados, era dividida entre os próprios habitantes do lugar, num sistema de auxílio mútuo. O fruto do trabalho era um bem de todos, em suma. 

Assim, este trabalho está pautado em leituras bibliográficas sobre a experiência religiosa, política, econômica e por fim social que representou-se na comunidade agrícola do Caldeirão, na região do Cariri, sul do Ceará, nas primeiras décadas do século XX.
 A restaurada capela branca do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola e o cruzeiro da antiga comunidade.

O surgimento da comunidade do Caldeirão é precedido por uma experiência similar ocorrida no sitio Baixa Danta. Contudo, ambos os casos estão imbricados na figura de seu fundador e líder espiritual e político, José Lourenço Gomes da Silva àquela altura já conhecido simplesmente como Beato José Lourenço. Isso porque desde que chegou a Juazeiro por volta de 1890 a fim de visitar seu pai que para lá migrara, como tantos outros, passou a ocupar-se do trabalho missionário, pregando a palavra da Bíblia, realizando exaustivas jornadas de oração e penitência.

Outra visão da capela do Caldeirão.

Todavia, ele não foi um beato comum, porque estes geralmente tinham parceiros sexuais e desprezando os bens materiais, não trabalhavam pela sua sobrevivência mantendo-se com esmolas. Contrariamente, o Beato José Lourenço era celibatário e casto além de que vivia do seu próprio trabalho. Essas particularidades apontavam para figura de liderança que teria no decorrer da vida.

Ao lado da capela existe uma pequena trilha que leva ao “Caldeirão”. Seguimos na companhia do Professor Lemuel Rodrigues, Presidente da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

De um terreno quase desértico, o trabalho coletivo e a fé fizeram brotar a vida, e dizemos isso em sentido literal. Ora, se observarmos que as condições naturais como clima e vegetação, mas principalmente sociais de desamparo pelo Estado e de exploração por parte dos proprietários de terras, reinantes nos sertões nordestinos, perceberemos facilmente que um espaço onde a simples possibilidade de cultivar a própria existência para o corpo e para a alma (leia-se alimentos e fé) surge como um verdadeiro paraíso terreal, o que certamente atraiu muitas famílias à construir aquela utopia, mas também que atraiu a ganância de outros sujeitos sociais que não compartilhavam do mesmo ideal.

Neste local encontramos várias pedras, que naturalmente formaram reservatórios que enchiam de água nos períodos de chuvas. Estes reservatórios eram conhecidos como “Caldeirão”, antes mesmo de dar nome ao sítio que abrigou a irmandade liderada pelo Beato José Lourenço.

Com a impossibilidade de continuar seus trabalhos na terra onde já haviam construído plantações de árvores frutíferas, cereais e hortaliças, o Beato José Lourenço articulou com padre Cícero a conquista de um espaço onde pudesse perpetuar sua comunidade cristã. Uma das propriedades que o padre possuía denominada Caldeirão dos Jesuítas, localizada no sopé da Chapada do Araripe, foi doada e lá o beato e os moradores conseguiram multiplicar os êxitos atingidos na outra fazenda.

 O Professor Lemuel informou que essa estrutura natural foi muito importante para o desenvolvimento da comunidade, porque a água ficava acumulada nestes reservatórios mesmo em tempos de seca. Na foto vemos uma barragem de pedras construída pelos membros da comunidade para represar uma maior quantidade de água.

No Caldeirão era dar para receber. E todos recebiam. Com o plantio de cana, arroz, feijão e a criação de animais, como bois e cabras, José Lourenço e seus companheiros resolveram o problema da fome numa região marcada pela estiagem e, consequentemente, pela falta de comida. A população do Caldeirão crescia e, com isso, vieram carpinteiros, ferreiros e artesãos que passaram a produzir cintos, roupas, ferramentas, sapatos. Tudo fomentado com matéria prima local, pois os rebanhos forneciam leite, e derivados, charque e peles. O algodão, por exemplo, era plantado na própria comunidade, sendo usado entre outras coisas para fabricação de roupas.

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto caminhava para ser auto-suficiente. Até mesmo ferramentas de trabalho eram fabricadas no local, algumas foram desenvolvidas apropriadamente para o trabalho em condições peculiares.

 Outra vista do Caldeirão.

Mais que “fanático” desprovidos que qualquer organização racional, os habitantes do Caldeirão promoveram uma política de convívio com a natureza do sertão que sabidamente tem reconhecida aplicabilidade. Todavia, proporcionar autonomia representou também uma possibilidade de desestruturação nas relações de exploração, uma mudança no status quo social. Isso sim foi a verdadeira ideologia motivadora da perseguição e aniquilação da comunidade.


 
No centro de apoio aos visitantes vemos este estandarte relativo a um evento ocorrido em 2006. Percebi que existe um esforço das pessoas da região para que este momento singular da história nordestina não seja esquecido.

O fim do Caldeirão foi promovido pela força policial do Estado contando com o apoio da Igreja e de latifundiários, ambos com motivos próprios para isso. Para a igreja católica, o catolicismo popular incluía elementos que o distanciava das práticas impostas pela hierarquia dominante, ousando a um rompimento com as estruturas de subordinação ali imbricadas.

 
 Foto de época que mostra remanescentes, ou melhor, sobreviventes da comunidade do Caldeirão.



As autoridades no âmbito nacional temiam por sua vez, que aquela aglomeração transformasse-se em uma célula de “comunismo primitivo”. Acusação que seria usada como justificativa para a perseguição. O início da desventura se deu com a morte do padre Cícero, que em testamento doou o sítio do Caldeirão a ordem dos padres Salesianos do Crato.

 Com a dispersão e posterior destruição da Comunidade do Caldeirão, vemos um dos seguidores do Beato, com a sua tradicional roupa preta, provavelmente prisioneiro da polícia cearense.


O primeiro ataque ocorreu no dia 11 de Setembro de 1936, quando os moradores foram expulsos e tiveram suas casas de taipa queimadas, além de bens confiscados em favor do município do Crato. Os remanescentes, incluindo o próprio Beato passaram algum tempo vivendo nas matas da Chapada do Araripe.


 Trágico instantâneo do resultado da repressão brutal praticada pela polícia do Ceará.

Mas, boatos de que um grupo de ex-integrante do Caldeirão invadiriam o Crato, mobilizou novamente as forças policiais, chefiadas pelo capitão José Gonçalves Bezerra. O conflito daí resultante acabou com quatro mortes do lado do governo, incluindo o capitão e cinco do outro lado entre elas do líder, o Beato Severino. Foi o estopim para uma nova ação, dessa vez maior ainda.


 Ao centro da foto vemos o Beato José Lourenço.

 Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos da Aviação Militar. Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados.

Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário - as características dos seguidores do beato.


 Aspecto da destruição no Caldeirão.


Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos da Aviação Militar.
 Apesar da baixa qualidade da foto, vemos um dos membros da Comunidade, com uma cruz.

 Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário as características dos seguidores do beato.

 
 Aqui vemos o Beato José Lourenço observando um dos membros da Comunidade.

A escrita jornalística, supostamente de caráter “verdadeira” porque informativa e baseada na leitura dos ”fatos concretos” construía e disseminava uma imagem pejorativa do Beato José Lourenço e de suas comunidades. A deslegitimação do movimento assegurava a corretude da ação militar. Matava-se moralmente, para destruir-se fisicamente.

 
 Esta senhora, segundo o Prof. Lemuel, chamava-se Maria Gurgel da Silva, mais conhecida como Marina. Ele, como muitos membros da Comunidade do Caldeirão, era natural do Rio Grande do Norte.

Em outras oportunidades, José Lourenço pôde tentar reconstruir sua comunidade cristã, mas sempre sob o olhar e repressão dos aparelhos do Estado. Sua morte em 12 de Fevereiro de 1946, encerrou as movimentações desse porte, quase relegando as experiências e resultados obtidos ao silêncio, e esquecimento social.

Por tamanha magnitude da ação do Beato José Lourenço nas suas comunidades, uma pergunta se torna assaz importante: porque sua história foi por tanto tempo desprestigiada? Por que nossas crianças não tem menção alguma sobre tais vivências nos livros didáticos, por exemplo?


 
 Próximo a capela, vemos restos do antigo cemitério da Comunidade do Caldeirão.

O texto aqui apresentado foi elaborado apartir do trabalho intitulado “O CALDEIRÃO DO BEATO JOSÉ LOURENÇO: FÉ, TRABALHO E LUTA SOCIAL”, de autoria dos historiadores Paulo Henrique de Souza Martins e Gabriel Assis Araújo Vasconcelos.

Este trabalho foi apresentado no I Colóquio de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE ,Recife, Pernambuco, ocorrido entre os dias 3 a 5 de Outubro de 2007.

Quanto as imagens que ilustram foram reproduções feitas a partir das fotos de Jackson Bantim.


Alguns dos meus closes...

 Outro visual da capela.

 
 Durante o encontro no Caldeirão, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Inácio, filho dos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha, que teve a graça de encontrar seus pais em 2006.

 Saindo da região no final da tarde, vemos o relevo da região do Caldeirão.

 Fazia tempo que não andava por uma estrada onde se demora muito para ver alguma habitação. O isolamento na região ainda é acentuado.

 No retorno para o Crato, as pessoas que estavam na van tiveram a a oportunidade de descobrir o lado comediante do nosso grande amigo Ivanildo Silveira. Suas piadas foram fantásticas. No primeiro dia de debates, a ótima intervenção de Ivanildo fez a diferença.
Pessoalmente o grande fruto deste Cariri cangaço 2010 foi o contato com os amigos desta comunidade que lá estavam presentes.
  
 Aqui vemos os amigos Kiko Monteiro (esq.) e Narciso (dir.). Duas grandes figuras e exemplo de amizade.
Nesta ocasião o Kiko estava com uma forte faringite e sofreu muito na estrada. O pó da estrada do caldeirão é forte, pois também peguei uma forte gripe. Mas valeu.

 Aqui junto ao amigo Narciso.

A este amigo, a Múcio Procópio, ao Kiko e a Ivanildo gostaria de apresentar meus agradecimentos públicos pela preocupação em relação ao estado de saúde da minha filha e no apoio quando tentei buscar um ônibus para Natal, em plena madrugada.

A tentativa não deu certo, mas no outro dia estes amigos se empenharam na busca de uma carona para o meu retorno.

A vocês muito obrigado e que Deus sempre os acompanhe.

 


Não posso deixar de agradecer a Pereira da cidade de Cajazeiras pelo apoio. Ao amigo José Alves, de Serra Talhada, filho do mítico Luíz de Cazuza pela carona. Pela enorme torcida e força de Juliana, João de Sousa Lima,(Posando na foto acima) Dr. Amaury, Geraldo Ferraz, Ângelo Osmiro, Vilela, Kydelmir, Paulo Gastão, Lemuel, Lili e tantos outros.

Meu muito obrigado..

4 comentários:

Narciso disse...

Belíssimo trabalho Rostand,foi uma pena que você não pode ficar até o final,por motivos óbvios. Parabéns e um grande abraço.

Mendes e Mendes disse...

Ilustre escritor Rostand Medeiros:
Não sei se me é dado o direito de discordar algo sobre o cangaço, já que eu sou um estudante de pouco mais de dois anos. Mas algumas vezes o estudante sente a falta da realidade.
Alcindo Costa, diz em um dos seus artigos: (OS 70 ANOS DA MORTE DE LAMPIÃO) - publicado em 18/06/2008), que no livro “LAMPIÃO E ZÉ SATURNINO – 16 ANOS DE LUTA”, escrito por José Alves Sobrinho, sobrinho de Zé Saturnino, diz que o rei não morreu em Angico, e sim, aos 83 anos de idade, na fazenda Ouro Preto, em Tocantinópolis, Goiás.
E diz ainda o escritor que Jaques Cerqueira, subeditor do Viver do Jornal Diário de Pernambuco, é o autor de um artigo intitulado “A outra morte de Lampião”, que saiu no jornal Página Certa, de Mossoró, afirmando que Lampião não morreu em Angico, e sim em setembro de 1981, na fazenda Ouro Preto, em Tocantinópolis, Goiás.
Ainda segundo Alcindo, José Alves afirma: “O Capitão Virgulino tinha o olho esquerdo com pálpebra arriada, e não o olho direito fechado como o da cabeça decepada pela polícia e mostrada no “Museu Nina Rodrigues”.
Vendo a foto do rei, comparada com a de Lampião de Buritis,não tem nada a ver, uma vez que o Lampião de Buritis era velho. Eu tenho certeza que o José Alves quer imitar a escritora que escreveu o livro (Elvis não morreu).
É lamentável que uma história tão bem montada pelos senhores da literatura, agora um único escritor quer desmontar as peças do dominó do cangaço.
José Mendes Pereira - Mossoró-Rn.

Rostand Medeiros disse...

Amigo Mendes,

Primeiramente gostaria de te agradecer pelo seu comentário.
Em relação ao que você postou, eu pessoalmente acredito na versão mais simples e básica; a que Lampião morreu em Angico em 1938, alvejado por um tiro.
As outras versões, só com exame de DNA.
Mas acho que nem material genético do “Rei do cangaço” é possível conseguir.
Sendo assim acho que a polemica deverá prosseguir.

Um abraço.

Rostand

Mendes e Mendes disse...

Ilustre escritor Rostand Medeiros:
Agradeço-lhe muito em ter dado a atenção ao meu simples e modesto comentário. Talvez sem nexo, mas com sentido.
José Mendes Pereira - Mossoró-Rn.