quarta-feira, 30 de junho de 2010

Museus

Serra Talhada e o colecionismo
Por: Afonso Romero (*)


Saindo de Recife em direção ao interior, e rodando 415 km pela rodovia BR-232, chega-se a Serra Talhada, localizada bem no miolo do sertão pernambucano. 

A cidade conta pouco mais de 70.000 moradores, o que a credita como uma das principais do sertão e entreposto comercial que serve a 40 municípios vizinhos. Mas a principal atração de Serra Talhada fica localizada fora dos limites urbanos: o Sítio Passagem das Pedras. Foi ali que nasceu Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Herói e bandido, habitante da fronteira entre História e Mitologia, Lampião sobreviveu por anos às volantes – patrulhas da Polícia postas à sua caça, e a de seu bando – e vem persistindo por décadas ao esquecimento da historiografia oficial. Entre os nordestinos, entretanto, é reverenciado como símbolo de resistência, persistência e perspicácia, mesmo entre os que o vêem como o bandido que, efetivamente, foi.

Pois o Capitão Virgulino parece ter deixado, em seu rastro, mais uma marca forte no caráter do povo de sua terra: o colecionismo. Não há família em Serra Talhada que não cultive o hábito de guardar objetos, fotos e reminiscências. À primeira vista, parece que este hábito iniciou-se com a fama adquirida por Lampião e a curiosidade provocada por sua vida dúbia de “Robin Hood” sertanejo. Seria natural que seus contemporâneos e conterrâneos cultivassem o material relacionado a tudo que fizesse lembrar Lampião.

Realmente, a maioria das coleções está, até hoje, e de alguma forma, ligada ao cangaço. O curioso é que o hábito do colecionismo expandiu-se e extrapolou as questões locais daquele povo. Há, em Serra Talhada, um pouco de tudo. Selos, quadros, revistas, vestes, daquela e de outras épocas. Há coleções simplórias e até aquelas organizadas com método e precisão quase acadêmica. Convivem objetos de interesse puramente pessoal e peças de valor histórico e cultural insuspeito aos olhos simples daquela gente. Mas o que há de mais significativo para se olhar em Serra Talhada é o fenômeno, como um todo.

A cidade, toda ela, é uma manifestação bruta e natural do sentimento de auto preservação cultural, de necessidade de cultivo das referências próprias e das relações com as referências externas. Assim, coisas díspares, como a coleção de objetos tocados por Lampião, em sua infância e a coleção de pôsteres, discos e fotos da Jovem Guarda (ambas existem, em Serra Talhada) representam, cada uma a sua maneira, um mesmo sentimento: a relação entre homem e o ambiente histórico-cultural que o cerca e os objetos que são marcos desta relação. Por outro lado, há famílias que conservam coleções com itens muitíssimo anteriores a Lampião. Ainda que seminal, o colecionismo já havia, pois, em Serra Talhada, antes do cangaço.


 

Alguns relatos, recolhidos por todo o sertão nordestino, dão conta de uma face (mais uma) controversa na personalidade de Virgulino: em meio à brutalidade de seus atos, o Capitão era um admirador de objetos e obras de arte. Pode ser efeito do universo mitológico criado em torno do cangaço, mas são muitas as estórias que relacionam o bando à música (inclusive erudita), pinturas, estátuas, roupas finas, adornos, cinema, fotos. Algumas destas passagens são citadas no filme “Baile Perfumado”, um belíssimo semi-documentário sobre o sertão e, ainda, uma ode ao cinema. Se há indícios fortes de que o colecionismo é uma característica presente na população de Serra Talhada anteriormente a Lampião, a trajetória do cangaço ajudou-o a se expandir. Qual destas influências terá sido maior?

O de Lampião sobre a vida de sua cidade, ou o ambiente daquela cidade sobre Lampião? E de onde vem, afinal, a origem do hábito do colecionismo em Serra Talhada? A 415 km de Recife, bem no meio do sertão, há um povo que, através de sua conversa alegre e sua hospitalidade, pode nos ajudar a desvendar estes enigmas.

*Affonso Romero é Publicitário na capital carioca.

Açude: Revista Museu

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